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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 02.12.16

A respeito de Fidel, ... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A respeito de Fidel, ...

 

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   A respeito de Fidel, a palavra ditador tem sido a porta que a direita fecha na cara da discussão. Digo a direita não porque lhe assista em exclusivo a condenação do líder cubano, mas quando esta se apresenta sumária e indisponível para revogações (ehehe) não é difícil descortinar-lhe a proveniência. Um dos maiores apologistas nacionais da superficialidade, coincidentemente ou não, vai-se transformando também numa das mais populares caixas de ressonância da direita. Chama-se João Miguel Tavares e hoje, para o bem ou para o mal, dispensa apresentações. Sobre Fidel, cingiu o seu discurso a uma demanda: ensinar-nos a soletrar a palavra ditador.

Gostaria eu, sem estar preso a ideias pré-concebidas, de discutir aspectos que pudessem enquadrar a circunstância de Cuba continuar a ser uma ditadura, mas para ele, João Miguel Tavares, isso equivaleria a um sacrilégio, na medida em que pressuporia a admissão de uma hipótese hedionda: a de que nem a ilegitimidade de uma ditadura deva ser tomada como absoluta.

Circunscrita, portanto, a discussão ponderável ao sim ou não, porque só há quem possa repudiar de cima a baixo qualquer ditadura ou apoiá-la incondicionalmente, aguça-se-me a curiosidade sobre o que terá ele ensinado aos filhos sobre o Robin dos Bosques, esse ladrão que emagrecia o bolso dos ricos para engordar o dos pobres. Por mais que o nosso democrático país faça propagar de geração em geração o ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, a lógica inflexível de João Miguel Tavares não lhe permitirá esquecer que “um ladrão é um ladrão é um ladrão”, tanto quanto “um ditador é um ditador é um ditador”. Coitados dos miúdos, cerceados tão cedo das maravilhas da relatividade. E logo por um liberal.

Ora, diz-me o bom senso que um pequeno país em contra-corrente com um mundo apostado na ofuscação dos valores pelos preços talvez precisasse de tomar algumas providências para resistir – e sabemos como esta é a palavra-chave quando se fala de Cuba. Tudo o que ali se conseguiu em matéria de saúde, educação, emprego, combate à desigualdade social ou erradicação da fome, apesar dos condicionalismos económicos radicalizados por um bloqueio com mais de meio século e da sujeição permanente a um belicismo mediático que encheu o planeta de baba raivosa contra o regime, merece da minha parte, pelo menos, um olhar curioso, capaz de suplantar a rigidez da moldura para melhor apreciar o quadro. Mais ainda quando, à volta, as tão benfazejas democracias que construímos deram no que se sabe, com outras molduras, outros muros, no horizonte.

Não se infira daqui, como já estou a prever que muita gente faça, qualquer simpatia minha pela ideia de ditadura. Agora, não devemos deixar que os rótulos nos toldem o discernimento, nem a capacidade de enquadrar os factos com as circunstâncias. E em Cuba, apesar das circunstâncias, há factos que falam por si. Alguns até poeticamente, como o de os polícias andarem sem armas. Enquanto isso, ali perto, na democracia de todos os sonhos e liberdades, há mais civis com arma do que carro... 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 01.12.16

Fidel - José Goulão

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José Goulão  Fidel

 

A opinião pública portuguesa, europeia e, a bem dizer, da maior parte do mundo, sem esquecer as Américas, continua a ser fuzilada pela metralha de insultos, mentiras e dislates mais ou menos idiotas – o que não significa pouco eficazes – sobre a figura historicamente imortal e humanamente inesquecível do Comandante Fidel Castro Ruz.

 

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                   Agência Lusa 

 

abrilabril, 1 de Dezembro de 2016

   Dir-se-á que o seu apagamento físico soltou a bílis há muito entranhada para esta ocasião, tal como acendeu os rastilhos dos foguetes bafientos de alguns gusanos que, em Miami e noutros lugares, continuam a sonhar com a Cuba bordel, a Cuba das mafias, a Cuba do contrabando e das negociatas clandestinas, a Cuba de todos os vícios dos ricaços norte-americanos, a Cuba colónia, quintalinho e caixote do lixo.

Os pobres de espírito, que não de intenções revanchistas e de má-fé, têm dificuldade em entender, ou fingem não entender, que não lhes basta fazer a festa, deitar os foguetes, apanhar as canas e disparar rajadas de mensagens construídas em laboriosas centrais de propaganda para liquidar a Cuba independente, tornada possível e consolidada por Fidel, seus companheiros e, sobretudo, pela vontade e coragem dos cubanos – do povo cubano.

Será que tais mentes enfezadas alguma vez pararam para pensar como é possível que a bem sucedida resistência de um país à ocupação estrangeira e criminosa de parte do território – como Guantánamo –, a um bloqueio asfixiante que ferra há quase sessenta anos, a sucessivas tentativas e ameaças constantes de invasões, golpes, conspirações e incentivos à expatriação, seja obra de um dirigente, de um aparelho repressivo de poder, de um partido?

Já se deram conta de que Cuba tem resistido a uma ofensiva esmagadora dos mais poderosos e concentrados meios de intoxicação ideológica atacando, sem alguma oposição, a partir de um território situado a menos de cem quilómetros, da outra margem do estreito?

Já imaginaram a coragem, o sentido de independência, a ousadia de um povo para resistir, como aconteceu durante os anos noventa, ao regresso à penúria de uma economia de sobrevivência – ao pé da qual a austeridade que nos foi imposta é uma penalidade benigna?

É verdade que ter ideias, formar opiniões, pensar fora da formatação oficial é, hoje em dia, nas nossas sociedades, um anacronismo, um atrevimento, quiçá a antecâmara do mais ameaçador terrorismo. O que importa é consumir doutores, comentadores, politólogos, desideólogos, mentirólogos, alter-egos de fulgêncios batistas, acenar-lhes ordeiramente e ficar com a informação necessária e suficiente para repetir no café, no metro, no emprego, se possível até no Parlamento.

Nos dias em que regimes políticos que se supunham sólidos ruíram fragorosamente com o muro de Berlim, sem dúvida porque, a dada altura dos seus caminhos históricos, perderam ou cortaram os vínculos com a sua essência, a ligação ao povo e os mecanismos para que este decidisse da sua vida, a Cuba independente e com os olhos no socialismo conseguiu sobreviver.

E sobreviveu paupérrima, isolada, amesquinhada, quase sem amigos, ridicularizada por aqueles que, de barriga cheia, anafados de «democracia» e «direitos humanos», profetizavam diariamente «o fim do regime» para o dia seguinte. Bastaria isso para que qualquer ser pensante se desse ao trabalho de se interrogar sobre as razões pelas quais a Cuba de referências socialistas não seguiu o destino – que hoje se percebe catastrófico – de outras nações «irmãs».

Falta de democracia? Sim, dessa coisa que obriga governos eleitos a terem de sujeitar os orçamentos de Estado aprovados por Parlamentos eleitos aos pareceres de grupos de sujeitos não eleitos, marionetas manipuladas por interesses tendencialmente mafiosos; essa coisa que obrigou o povo do mais poderoso país do mundo, o país que se permite tentar matar os vizinhos à fome, a escolher para presidente entre uma fascista com provas dadas e um fascista com ameaças por cumprir.

Violação dos direitos Humanos? Sim, dessa coisa que a NATO leva na boca dos canhões, nos bojos das aeronaves ao Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Palestina, Líbano, Iémen, Mali, República Centro Africana, Nigéria e lá onde lhe aprouver.

«Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos "barbudos" de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.»

Enquanto isto, a célebre oposição cubana, endeusada aqui e além, e também no Parlamento Europeu, continua a ter como ícone esse sénior e incontornável terrorista e criminoso chamado Posada Carriles. Um verdadeiro democrata, como está provado.

Na hora em que o Comandante Fidel Castro Ruz nos deixa, e principalmente se transforma numa imensa saudade para o povo cubano e os seus amigos, os ansiosos de revanchismo não se deram ao recato de, ao menos, respeitar esse direito humano de sempre, o direito ao luto.

Também não precisam de verter lágrimas de crocodilo porque, ao contrário do que profetizam, a Cuba independente e o povo cubano não ficam órfãos. Têm o seu sistema de vida. Estão habituados a provações e a que agora lhes aconteceu estava prevista no eterno ciclo da vida e da morte, não é uma traição, nem golpe, nem conspiração.

Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos «barbudos» de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.

Os dias da despedida são já de um futuro no qual a Cuba livre e independente sabe que continuará a sua gesta de sempre, num ambiente infestado de fulgêncios batistas, contra as ganâncias das Monsanto e United Fruit deste mundo, das petrolíferas do costume e outras, das mil e uma mafias do turismo, do armamento, da droga, da química e farmacêutica, do jogo, da prostituição, do agroalimentar; ganância pelos bens e riquezas que são de todo o povo cubano.

A gesta de sempre contra o bloqueio, contra a ocupação de Guantánamo e contra os criminosos que mantêm estas situações, incluindo aqueles que usam e abusam do ilusionismo mediático prometendo revogá-las para melhor as sustentar.

Nestes dias, a evocação mais sincera e emocionada que é possível fazer da memória indestrutível do Comandante Fidel Castro Ruz é a de que a Cuba livre e independente está viva e pode contar com a solidariedade combativa de milhões e milhões de cubanos adoptivos em todo o mundo.

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por Augusta Clara às 22:36

Domingo, 27.11.16

A violência na política e o politicamente correcto - António Ribeiro

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António Ribeiro  A violência na política e o politicamente correcto

 

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   A violência na Política é um tema recorrente e ganhou presença e intensidade nos Media e nas redes sociais com a morte de Fidel Castro. Não gostava de deixar passar o assunto em claro num momento destes, em que vejo tantos neo-pacifistas a verterem lágrimas sobre algumas vítimas de Castro, tendo eles mesmos branqueado com o seu silêncio as vítimas dos fascismos europeus, as vítimas das primaveras árabes, as vítimas da intervenção imperialista no Médio Oriente e na Líbia, as vítimas do apartheid na África do Sul, as vítimas dos algozes que destruíram as sociedades do Chile, da Argentina e do Brasil há não muitos anos. E nem recordo as nossas próprias vitimas do Tarrafal, de Pidjiguití, de Batepá, de Wiriamu, que são tão discretamente nossas e tão privativas... Onde andavam esses humanistas da 25ª hora quando as tragédias aconteciam e eles se refugiavam no "não sei o que se passou", no "deve ser exagero", ou no famigerado desabafo apaziguador do "a guerra é muito injusta"? Eu sei o que se passava e conto-vos. Desgraças e violências longe da nossa casa são pimenta e refresco no cu dos outros. A nossa cultura judaico-cristã é aliás exímia na segmentação da violência política, ou, melhor dizendo, da "violência na Política". Mas a violência sempre fez parte da Política e não começou propriamente no nosso tempo, com a dureza da ditadura castrista em Cuba, que aliás tinha boas razões para não poder ser muito mansa. Essa violência vem muito de trás. Das Cruzadas. Da Revolução Francesa. Do Colonialismo em África e nas Américas. Do esclavagismo, que é componente fundadora dos EUA modernos e parte integrante da desgraçada história da América Latina. Da revolução soviética e da chinesa. Da luta anti-imperialista. Do sofrimento dos palestinos. E da resistência legítima dos trabalhadores e sindicalistas, dos comunistas perseguidos, dos camponeses sem terra, das mulheres esmagadas pelo machismo, e das minorias LGBT. A violência é uma espécie de legitimação pragmática das soluções políticas de quem não pode ir a votos. Eu sou contra a violência na Política em Democracia, mas não sou contra toda a violência na Política em sistemas que ignoram os direitos mais básicos das pessoas e onde não existem válvulas de escape. Quando um agrário é abatido por um sem-terra nos confins da Rondônia brasileira, depois de ele mesmo ter morto muitos camponeses antes disso, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas compreendo. Quando Fidel mandou abater o general Ochoa, que andara por Angola a amassar fortunas e a conspirar, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas acho que só teve o único castigo possível. Mas não me venham agora, a propósito da morte natural de Fidel Castro, com essa conversa de mau-pagador, de quem se esqueceu de que a História avançou com sangue, suor e lágrimas e com muitas vítimas inocentes enterradas em valas comuns. Lembrem-se da Bósnia, lembrem-se de Aleppo, lembrem-se do que se passa agora nas Filipinas, lembrem-se disso tudo e mais do quem aí com Trump & amigos. E denunciem sempre os hipócritas do politicamente correcto e da memória curta. Sou Democrata, mas não sou parvo. A violência é uma coisa muito chata, mas às vezes faz muita falta. Sem ela, a História tinha parado há mil anos e não havia sequer Democracia nos dias de hoje. 

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por Augusta Clara às 14:35

Sábado, 26.11.16

Y en eso llegó Fidel - Carlos Puebla

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Carlos Puebla  Y en eso llegó Fidel

 

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por Augusta Clara às 21:15

Sábado, 26.11.16

FIDEL... - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  FIDEL...

(No dia da morte de Fidel Castro)

 

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   La noticia llega con las primeras luces del día, tal vez con la misma intensa luminosidad del amanecer que vieron los tripulantes del "Gramma" en la costa de la isla antes de desembarcar y empezar la gesta que inauguró la dignidad latinoamericana.
En las pupilas de ese grupo de hombres y mujeres que tocaron la arena blanca de Cuba, iba también la luz de los caídos en el asalto al cuartel Moncada y, por eso, el brazalete con la leyenda"26 de Julio" era la gran identidad de aquellos que, como más tarde escribiría un argentino al que llamaban simplemente Che, daban el paso a la condición superior del insurgente, del rebelde, del militante, y se convertían en Guerrilleros.
La dignidad latinoamericana se inauguró de verde olivo y con olor a cordita, a pólvora, al sudor de las marchas selva adentro, a la fatiga combatiente que, lejos de cansar, entregaba más ánimo a la vocación justiciera de los guerrilleros, de los combatientes de Fidel, de "los barbudos" vestidos con retazos, armados de machetes zafreros y de las armas arrebatadas al enemigo en cada combate.
Los combatientes de Sierra Maestra, los guajiros, estudiantes y poetas, paso a paso, tiro a tiro, enseñaron a Latinoamérica que la estrella de Comandante Guerrillero era el distintivo del primero en el fragor de la lucha, del que combatía en primera fila, del que sembraba ejemplo y confianza en un destino superior.
Y mientras los guerrilleros del "26 de Julio" avanzaban por las sierras y las selvas, en todo el continente latinoamericano, desde el río Bravo hasta la Tierra del Fuego, los humildes alzaban sus banderas de harapos, "porque ahora la historia tendrá que contar con los pobres de América".
Hoy es un día de recogimiento revolucionario. Hoy es el día del dolor de aquellos que se atrevieron a dar el paso imprescindible, a romper con la existencia dócil y sumisa , y se unieron al camino sin retorno de la lucha revolucionaria.
¡Hasta la Victoria Siempre, Fidel! ¡Hasta la Victoria Siempre, Comandante Guerrillero!
 

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por Augusta Clara às 18:30

Quinta-feira, 24.11.16

No Dia Nacional da Cultura Científica, o mesmo em que, no ano de 1906, nasceu Rómulo de Carvalho

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ANTÓNIO GEDEÃO  Poema para Galileo

 

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Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício,
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della
Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Amo às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu;
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar — que disparate, Galileo!
— e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação —
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um
seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas
os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das
estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas — parece-me que estou
a vê-las—,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que
era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem, a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento,
livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Gálileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste
pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de
braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Gálileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens
ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estòicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

(in Poesia Completa (1956-1967), Portugália Editora)

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por Augusta Clara às 18:30

Terça-feira, 22.11.16

Ouve-me, meu amor! - Eva Cruz

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Eva Cruz  Ouve-me, meu amor!

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(Kaori Nagayoshi)

 

   A enfermaria era mista. Quando se trata de vida ou morte, não há fronteira entre sexos.

A angústia e o medo ensombravam os olhos dos familiares acom­panhantes. A doença anula o raciocínio.

Na cama do lado, a Sónia de vinte e seis anos. A cabeceira, o seu nome e a data em que nasceu. Muito branca, olhos azuis, umas sar­das a pintar as maçãs do rosto, rentes ao nariz uns cabelitos loiros a fugirem da ligadura que lhe envolve a cabeça. Os olhos muito aber­tos fixam-se nos olhos rasos de lágrimas da cama ao lado. A Sónia perdeu a fala, não diz nada para além da expressão do olhar vazio. Assim esteve três dias.

A Sónia é um caso muito especial. Uma hemorragia cerebral.

Teve várias visitas. Entre elas um rapaz, o José Carlos, cara morena e bigode preto. Tinha vinte e oito anos.

Tratava-a como quem trata uma criança. Muito mimo e muito humor. Chegava e partia a sorrir.

Contou que se sentia muito feliz. A Sónia ressuscitou. Sou o homem mais feliz do mundo. Nem que a minha mulher fique paralítica e ape­nas olhe para mim, já me sinto o homem mais feliz do mundo.

Abriram-lhe o crânio, tiraram-lhe um osso que ficou enxertado na barriga a aguardar nova cirurgia. Foi recolocado um mês depois. A mesma barriga que alimentou o Henrique, o seu filho de dezas­sete meses.

Passavam os dias embalando o seu menino na troca de olhares azuis e negros.

Uma bela lição de amor.

Na cama em frente, outro olhar sem expressão. Uma senhora de meia-idade perdera a fala. A tempo inteiro, numa dedicação angus­tiada, o marido afagava-a com a dor dos seus olhos.

Dias depois, a senhora levantou-se, andou a pé. Um jogo ajudava a mão entorpecida a encontrar os gestos naturais.

A alegria voltou ao rosto do homem.

Uma manhã, de repente, teve uma convulsão. Fecharam-se as cor­tinas, tubos e mais tubos, técnicos, enfermeiros, médicos de branco, azul e amarelo, uma onda de cor e agilidade pela enfermaria dentro. A doente é levada. Sobe ao piso de cima e volta pouco depois, reani­mada. A cortina meio aberta, o ritmo arrítmico das máquinas e ele murmurando ouve-me, meu amor. Meu amor, tão doce e suplicante!

Ela já não o ouviu. A máquina parou. Puxaram-no, correu-se a cortina. Os tubos foram para o lixo. Evacuou-se a enfermaria dos acompanhantes.

Depois, um corpo envolto num plástico cinzento, sobre uma maca fria de lata, seguia pelo corredor frio de pedra.

E nos meus ouvidos ouve-me, meu amor, a ecoar no infinito.

A Sónia continuava de olhos abertos, impávida e serena, como todos os outros. Ninguém deu conta que a morte andou por ali na sua ceifa traiçoeira de ave de rapina.

Aprendi a relativizar a vida.

(in Cenas do Paraíso, ediçõesengenho)

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por Augusta Clara às 18:00

Terça-feira, 22.11.16

GRANDE REPORTAGEM SIC - Angola, um país rico com 20 milhões de pobres - 17 Novembro 2016

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   Na última década, Angola registou um dos maiores crescimentos económicos do mundo mas manteve-se líder nos índices de mortalidade infantil. Uma semana depois de se assinalarem os 41 anos da independência de Angola, a Grande Reportagem SIC mostra-lhe um país que tem um dos maiores consumos de champanhe per capita e onde 70% da população vive com menos de dois dólares por dia. (youtube)

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 20.11.16

A medicina antes do 25 de Abril - Adão Cruz

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(Deram-me a honra de um convite para intervir, no âmbito do 11º Congresso da FNAM (Federação Nacional dos Médicos), num debate sobre o Serviço Médico à Periferia, cabendo-me falar sobre o exercício da medicina antes do 25 de Abril. Alguém sugeriu que era útil e interessante fazer um texto com o essencial da minha intervenção. Ele aí está, todavia liberto de todos os aspectos técnicos que só serviriam para entorpecer a leitura de quem não é médico).

 

Pelo texto que se segue, todos ficarão com uma ideia de como era, com algumas variantes, a prática da medicina rural e de todo o interior do país antes do 25 de Abril e, portanto, antes da criação do SNS, por volta de 1989, o qual, em três décadas, como sabemos, se haveria de tornar num dos melhores e mais respeitados do mundo. Hoje, infelizmente, encontra-se no meio do mais ignóbil processo de destruição, urdido pelo capital privado e pelas forças mais retrógradas que procuram miná-lo por todas as formas e feitio, de modo a poderem dizer que não funciona. Gente que se encontra nos antípodas dos homens progressistas que o criaram e ajudaram a desenvolver, homens de mente sã e avançada, como Miller Guerra, Albino Aroso, António Galhordas, Gonçalves Ferreira, Pereira de Moura, António Arnaut e outros.

  

Adão Cruz  A medicina antes do 25 de Abril

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(Adão Cruz) 

   Quando saí da Faculdade tive duas opções de vida: Fazer clínica na minha terra, como “João Semana”, ou aceitar o convite de um colega mais velho do que eu cerca de onze anos, amigo e conterrâneo que residia nos EU, médico hospitalar de medicina interna, para ir para a América. Tinha de escolher uma destas duas opções extremas. Optei pela primeira por duas razões principais: por um lado, tinha a guerra colonial à minha frente e dificilmente poderia sair do país, por outro lado, precisava de ganhar algum dinheiro. Os meus pais fizeram muitos sacrifícios para formarem dois filhos e eu não estava disposto a sacrificá-los mais tempo.

Estávamos no ano de 1964. E assim comecei a minha actividade clínica, em Vale de Cambra, sem estágio nem tese, três anos antes da ida para a guerra colonial da Guiné. Encostei-me a um velho clínico que era um monumento de sabedoria prática e experiência. Foram esses três anos os piores e mais difíceis. Vale de Cambra, um pequeno concelho com uma área de 147 Km2, tinha talvez menos de 15.000 habitantes. Dispersava-se por nove freguesias, algumas delas abrangendo os mais remotos e inóspitos lugares da Serra da Gralheira, com pequenos povoados e populações encravadas em locais quase inacessíveis, com muitas pessoas vivendo na maior ignorância e na mais extrema miséria.

Continuei durante outros três anos, após o meu regresso da Guiné, estes já melhores, pois iniciei na altura o Internato Geral no Hospital de Santo António, para onde me deslocava todos os dias. Este facto, a experiência da guerra e alguma presença em reuniões científicas, permitiram-me uma maior competência, bem como relações pessoais e com o hospital, que me facilitaram muito a minha prestação de cuidados médicos. Não tive, propriamente, contacto com o Serviço Médico à periferia, criado em 1975. Nessa altura já eu tinha obtido a especialidade e fazia parte do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo António.

Pediram-me para falar da medicina em Portugal antes do 25 de Abril, ou seja, antes da criação do Serviço Médico à periferia em 1975, o primeiro passo, por assim dizer, para o nascimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e também uma experiência valiosa e ímpar. As duas realidades, o antes e o depois do 25 de Abril, não podem comparar-se. Claro que eu não posso falar do que se passava em Portugal. Posso falar, sim, do que se passava numa parte de Portugal, que, muito provavelmente, com algumas diferenças, era o que se passava em todo o interior do país. E digo interior, porque havia uma significativa diferença com o litoral, onde existiam os poucos recursos técnicos da época. Com efeito, não havia qualquer rede hospitalar digna desse nome, e os únicos hospitais situavam-se em Lisboa, Porto e Coimbra, havendo um ou outro pequeno hospital, aqui e ali, de muito pouca eficácia, quase sempre ligado às misericórdias. De qualquer forma, os cuidados primários de saúde eram um conceito quase desconhecido, sendo notória uma profunda degradação dos poucos serviços de saúde existentes e uma enorme incapacidade de resposta às necessidades mais elementares.

Antes do 25 de Abril a assistência médica não estava assegurada, sobretudo antes do fim da década de sessenta. Competia às famílias, às instituições privadas e à caridadezinha, que a despeito de aviltar a dignidade humana, lá ia  remendando as coisas aqui e ali, bem como aos débeis serviços médico-sociais da Previdência fazerem alguma coisa. Mas era sobretudo ao “João Semana”, pilar fundamental da saúde nesses tempos, que tudo se exigia. As áreas rurais dessa época tinham características comuns, o serem pouco populosas, muito isoladas, com uma população envelhecida, profundamente carenciada, com problemas de acessibilidade aos grandes centros que ficavam muito longe e com vias de comunicação péssimas, vivendo de uma agricultura de subsistência, e, portanto, profundamente vulneráveis. A saúde, ou o pouco que se poderia fazer na promoção da saúde era dependente da capacidade económica de cada cidadão, o que levava ao pagamento integral dos cuidados médicos, nomeadamente dos cuidados hospitalares, mesmo públicos. Só tinham direito a cuidados gratuitos, e obviamente de pior qualidade, aqueles que conseguissem apresentar um atestado de pobreza ou indigência passado pela junta de freguesia.

E foi nestas condições de 1964 que eu comecei a viver, de dia e de noite, 24 horas por dia, ao sol e à chuva, todas as peripécias clínicas que levaram um dia minha mãe a dizer-me: rapaz, muda de vida senão morres. Mas foram essas tremendas dificuldades e essas precaríssimas condições, que constituíram para mim uma segunda faculdade. Dizia o meu velho amigo Dr. Teixeira da Silva: você aqui vai ver tudo, desde a queda do cabelo à unha encravada. Com efeito, numa altura em que a esperança de vida era de quase menos 15 anos do que hoje, éramos senhores de todas as especialidades, desde a pediatria à ginecologia e obstetrícia, passando pela dermatologia, oftalmologia, psiquiatria etc. Em termos de material, eu tinha quase tudo o que era possível ter na altura, e muita coisa oferecida por um grupo de amigos: marquesa, mesa ginecológica, espéculos, estetoscópio, aparelho de tensões, otoscópio, oftalmoscópio, sondas e algálias, todo o material necessário a pequena cirurgia. Era frequente a incisão e drenagem de abcessos, a exérese de lipomas e quistos, extracção de unhas encravadas, circuncisões etc. Tinha ligaduras, pensos e desinfectantes variados, material para injectáveis, mala de urgência apetrechada com tudo o que era viável, e ainda fórceps e ventosa que o Dr. Teixeira da Silva me emprestava. Ele tinha também uma velha radioscopia cuja radiação nos deixava, ao fim de 5 minutos, como se tivéssemos apanhado uma descarga eléctrica. Para fazer uma radiografia, um electrocardiograma, qualquer exame mais avançado ou uma cirurgia, só no Porto, o que ficava muito caro. Fora do Porto nada havia, apenas um ou dois pequenos laboratórios de análises em concelhos limítrofes.

As pessoas viviam atormentadas com o medo da doença e viam-se obrigadas a algumas poupanças durante a vida não só para guardarem “um terço para a tarde”, como se dizia, mas também para ocorrerem ao inesperado, ou então tinham de vender terras e gados para pagar uma qualquer cirurgia ou outros cuidados de saúde mais dispendiosos. De uma maneira geral, só chamavam o médico quando viam que a coisa tinha atingido um tal estado que já não era resolúvel por si própria e pelas mezinhas caseiras. Claro que o nosso objectivo era muito mais o do alívio sintomático e a melhor resolução possível da situação, não havendo, por falta de meios de toda a espécie, nomeadamente meios auxiliares de diagnóstico, grandes preocupações de investigação e de diagnósticos precisos e etiológicos.

Uma das actividades para que mais vezes éramos solicitados era a assistência aos partos. Mas só quando a parteira habilidosa lá do lugar via o caso mal parado. Partos no hospital ou na maternidade eram uma raridade. A taxa de mortalidade neonatal andava pelos 25 por mil, a taxa de mortalidade perinatal pelos 40 por mil, a taxa de mortalidade infantil rondava os 60 por mil e a taxa de mortalidade materna atingia os 70 por 100.000. Fiz muitos partos, alguns à luz da candeia e do petróleo, em locais onde nunca passou Cristo, em que a camita de ferro da parturiente era por cima do curral da vaca. Quase todos os partos que fiz, por incrível que pareça, foram partos naturais, embora com auxílio de episiotomias, do fórceps e sobretudo da ventosa, o que a meu ver, pode pôr em causa a actual necessidade de muitas cesarianas.

As gastroenterites, sobretudo em bebés e crianças eram frequentes, e só nos chegavam às mãos em adiantado estado de desidratação que nós tentávamos resolver com a ministração subcutânea de soro, dos dois lados da barriguita, deixando a criança com dois ventres, como um sapinho. Era praticamente impossível canalizar e manter uma veia numa criança daquelas. Em adultos, lá conseguíamos fazer umas infusões com as poucas soluções parentéricas de que na altura dispúnhamos.

Caía-nos em cima tudo o que fosse infecções e todas as doenças infecto-contagiosas possíveis e imaginárias, incluindo tuberculose, febre tifóide, mononucleose, tétanos, muitos casos de sarampo, cuja vacina fora descoberta apenas um ano antes, escarlatina, varicela, coqueluche, reumatismo articular agudo e subsequentes doenças valvulares, meningites e a difteria ou garrotilho que produzia a terrível toxina diftérica. Na difteria, o que mais nos atemorizava eram as situações de obstrução respiratória, produzidas pelas placas brancas da orofaringe. Uma vez estive com o bisturi na mão, decidido a fazer uma traqueostomia (abertura na traqueia) num catraio de cinco ou seis anos, mas optei por fazer outra coisa que não era aconselhável, pois poderia disseminar a toxina, isto é, arrancar as placas da orofaringe. Felizmente correu bem, e a criança é hoje um saudável adulto emigrante na Alemanha. Infecções pulmonares, pneumonias graves, apendicites que nos chegavam algumas vezes com peritonite e que encaminhávamos para um pequeno hospital de que nos valíamos, o Hospital Conde de Sucena, em Águeda. Todavia, falar em ir para o hospital era sempre um problema e uma solução muitas vezes não aceite pelos familiares, não só porque constituía uma espécie de sentença de morte, mas também porque se temia a conta que daí adviria. Então para o Santo António nem pensar, não sei se por ser mais longe, se pela sua envergadura.

Acidentes de trabalho, por vezes com graves feridas e traumatismos, fracturas e queimaduras extensas, tudo situações que nos exigiam grande responsabilidade, muito tempo de tratamento e a aplicação rigorosa de todos os conhecimentos aprendidos na faculdade, que não eram poucos nem frágeis, pois a nossa formação, na altura, foi muito boa. A medicina no trabalho não existia, embora começasse a nascer em conceito. Havia algumas pequenas empresas, sobretudo na área das madeiras, dos lacticínios e da metalo-mecânica, mas o trabalhador era uma máquina como qualquer outra, tendo de ser reparada quando avariava. O trabalhador não tinha quaisquer direitos laborais e era-lhe negada a possibilidade de ser um sujeito activo na construção da sua própria saúde, incluindo o controle de factores que a determinavam positivamente, factores protectores, ou que a punham em risco, factores de risco, quer dentro quer fora do local de trabalho.

Frequentes situações de insuficiência respiratória e graves crises de asma, silicoses, insuficiência cardíaca grave, com edema agudo do pulmão. Ainda nos valíamos dos garrotes e da sangria. Arritmias cardíacas que classificávamos conforme podíamos, sem qualquer registo electrocardiográfico, e que tentávamos reverter quando havia repercussão clínica. Cardiopatias congénitas e outras malformações, sobretudo aquelas que eram mais susceptíveis de diagnóstico clínico. O primeiro diagnóstico que fiz, a “solo”, de uma dessas graves malformações chamada coartação da aorta, foi num rapaz de vinte anos, pouco mais novo do que eu. Foi operado em Lisboa pelo Professor Celestino da Costa, e hoje, ao fim de mais de meio século ainda é vivo e ainda vem à minha consulta. Havia AVCs e enfartes do miocárdio, com diagnóstico apenas clínico, que encaminhávamos para o hospital de Águeda ou Santo António. Ao compararmos o que se fazia na altura perante um enfarte do miocárdio, por exemplo, e o que se faz hoje em termos de cardiologia de intervenção, damos com um abismo apenas preenchido por uma monumental ignorância. No fim de contas, o resultado era o doente morrer ou ficar com o coração gravemente mutilado.

Havia amigdalites muito frequentes e repetitivas, e como na altura havia grande medo do reumatismo articular agudo (RAA), quanto mais cedo extirpássemos as amígdalas melhor. Juntávamos três ou quatro pacientes, e uma vez ou outra vinha um otorrino de Lisboa a Oliveira de Azeméis de onde era natural, e passava pelo consultório, operando-os de empreitada.

Eram frequentes as cólicas renais e biliares, bem como doenças oncológicas terminais, cancros do estômago, cancros pulmonares avançados, com punções pleurais por vezes repetidas, nos confins da serra, para esvaziar o líquido pleural e aliviar a asfixia do doente. Gangrenas, cirroses e drenagens de ascites monstruosas, limpeza e tratamento, às vezes durante meses, de feridas de toda a ordem, nomeadamente feridas cancerosas da pele onde cabia um punho, cancros da boca, do pénis e do ânus.

Para terminar, gostaria de dizer que muita coisa que hoje é quase banal no nosso país, não existia na altura. Fui algumas vezes a Madrid com dois tipos de doentes: asmáticos e doentes com patologias cardíacas valvulares. Tratava-se, obviamente, de pessoas com dinheiro, ou, pelo menos, com posses suficientes para as despesas que não eram pequenas. Quanto aos primeiros, não havia ainda em Portugal a especialidade de alergologia nem a existência de vacinas, pelo que recorríamos ao Instituto La Paz, onde trabalhava um grande alergologista, o Dr. Ojeda Casas, e de lá trazíamos as vacinas. No que respeita aos doentes com indicação de cirurgia cardíaca, que não existia em Portugal, essencialmente implantação de próteses valvulares mecânicas, valíamo-nos do Hospital de Nuestra Senhora de La Concepcion, onde trabalhava um dos mais conhecidos cirurgiões cardíacos da época, o Dr. Gregório de Rábago, o qual operou o meu amigo e colega de consultório, estomatologista, filho do Dr. Teixeira da Silva.

                                                                              

Adão Cruz, 2016

(Correcções: onde refiro o Dr. Manuel Luciano de Almeida, quero dizer Dr. Manuel Luciano da Silva. Onde digo que ele queria provar que Colombo era americano, queria dizer português).

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por Augusta Clara às 16:15

Segunda-feira, 14.11.16

Para que tu me ouças ... - Pablo Neruda

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Pablo Neruda  Para que tu me ouças ...

 

Adão13.bmp

 

(Adão Cruz) 

 

Para que tu me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto das gaivotas sobre as praias.

Colar, guizo ébrio
para as tuas mãos suaves como as uvas.

E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
Tu é que és a culpada deste jogo sangrento.
Elas vão a fugir do meu escuro refúgio.
Tu enches tudo, amada, enches tudo.

Antes de ti povoaram a solidão que ocupas,
e estão habituadas mais que tu à minha tristeza.

Agora quero que digam o que eu quero dizer-te
para que tu ouças como quero que me ouças.

O vento da angústia ainda costuma arrastá-las.
Furacões de sonhos ainda por vezes as
[derrubam.
Tu escutas outras vozes na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas
[súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones.
[ Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.

Mas vão-se tingindo com o teu amor as minhas
[palavras.
Ocupas tudo, amada, ocupas tudo.

Vou fazendo de todas um colar infinito
para as tuas brancas mãos, suaves como as uvas.

(In 20 poemas de amor e uma canção desesperada, Dom Quixote)

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por Augusta Clara às 17:00



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