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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 21.06.17

É IMPOSSÍVEL APAGAR INCÊNDIOS FLORESTAIS - José Vítor Malheiros

  

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   Ninguém o diz e menos ainda os políticos e os bombeiros, mas a verdade verdadinha é que é impossível apagar incêndios florestais. Repito em maiúsculas para dar nas vistas: É IMPOSSÍVEL APAGAR INCÊNDIOS FLORESTAIS.

Há algum exagero? Há, porque esta é a verdade em versão curta.

É evidente que se for um incendiozinho pequenino, num bosque pequenino, bem delimitado por largos aceiros, povoado de carvalhos verdes e frondosos, sem casas de habitação que exijam protecção especial, se houver um bom acesso para os carros dos bombeiros, se estes estiverem sido avisados precocemente, se houver água de acesso fácil nas imediações, o incêndio pode ser controlado e, eventualmente, até extinto.

Só que isto nunca acontece. A "floresta" em Portugal não é floresta nenhuma (com a biodiversidade que o conceito implica) mas sim uma plantação de postes de eucalipto combustíveis como paus de fósforo, plantados para benefício das celuloses e sem os cuidados mínimos para salvaguardar as pessoas, os bens ou o ambiente, não há acessos, não há aceiros, não há água, não há avisos precoces.

O que fazem os bombeiros? Rezam para que o vento amaine e não sopre daqui e sim dali, tentam proteger as casas envoltas no arvoredo em chamas, evacuam aldeias em risco, fecham estradas. De facto, tentam deixar arder com o mínimo de risco (e fazem bem) mas nem sequer há condições para fazer isto em condições, porque falta o cumprimento das consabidas regras de segurança para que o fogo não se propague excessivamente: faltam os aceiros, o perímetro de segurança em volta das casas, a margem de segurança nas estradas, etc.

Quando os jornalistas perguntam se os meios para combater o fogo foram suficientes, se são suficientes, se vão ser suficientes a única resposta possível é que não, não são e nunca podiam ser. Teríamos de ter 500 CanadAir a despejar água num só incêndio para que aquilo fizesse alguma diferença. Porque É IMPOSSÍVEL APAGAR INCÊNDIOS FLORESTAIS nestas condições. Seria preciso não uma esquadrilha de CanadAir mas um tsunami. Alguém já viu o que acontece à água lançada de um helicóptero ou de um avião? Se se tratar de uma zona de rescaldo o efeito pode ser visível, mas apenas aí. Deitar água nas fornalhas que temos visto na televisão é como borrifar uma lareira.

A única coisa possível é ordenar a floresta de forma

- que não possua tanto material combustível disponível para o primeiro raio que caia (limpeza de matas, seja qual for a técnica e a táctica)
- que arda com menos intensidade quando há um fogo (biodiversidade das florestas, outras espécies de árvores)
- que o fogo não se propague a áreas muito extensas e fique limitado (aceiros)
- que existam corpos profissionais que conheçam CADA floresta e saibam o que fazer em cada caso para controlar o fogo e onde colocar a ênfase do combate.

Continuar a vender a ideia de que o fogo se evita e se combate com mais bombeiros e mais aviões é uma tolice (se não um crime).

 

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por Augusta Clara às 22:53

Quarta-feira, 07.06.17

Porto... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Porto...

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(Adão Cruz)

 

      O meu pai nunca foi um historiador, mas colecciona pérolas que acrescentam história à História. Apanha-as na rua, em cada esquina escondida desta cidade que é dele, minha e de quem a leva dentro, desenhada na alma como o aparelho circulatório cujas veias e artérias ele, cardiologista de profissão, conhece de cor. Desde pequeno que me lembro de o ver chegar, entusiasmado, tirando uma nova preciosidade de debaixo da língua e dando-nos a ver o seu brilho, antes de a guardar no baú que, de vez em quando, se dispunha a abrir para amigos.

Eu próprio, com ele, testemunhei episódios memoráveis. Sem querer rapinar-lhe o espólio, lembrarei apenas dois ou três, como aquele em que, ao balcão do Galo Branco, antigo tasco no Largo Tito Fontes, um homem não escondia dos demais o seu profundo desânimo, desabafando para si mesmo: “Estou tão arrependido de ser pobre…”. Era comum a manha tripeira vir ao de cima em apoio da miséria, uma arte territorial de fazer sorrir as dores. O meu amor pela cidade cresceu assim, aprendeu a andar sobre essas pedras.

Outra ocasião, esperando o sinal verde para atravessar a rua, cada um de seu lado, o meu pai e um transeunte idoso foram surpreendidos por um casal de verbo destravado que trocava insultos à força toda. O sinal veio e, a meio da passadeira, na fracção de segundo em que os caminhos inversos de ambos se cruzaram, o velho fez questão de partilhar o seu choque com o meu pai: “Foda-se, que linguaige…”.

É evidente que a graça destas coisas não se escreve, vive-se. Fica lá. Oralmente pode até reproduzir-se, fá-lo quem sabe, e o meu pai é um deles, mas o princípio activo perde-se na tradução. A cadência arrastada, o calor alcoólico da voz, o fastio aparente, a artificiosa indiferença ante a própria piada e, claro, os esgares e outras características pessoais estão entre as matérias-primas indispensáveis a uma receita de fabrico necessariamente caseiro. E depois a desinibição com que os autores percorrem todos os assuntos, como se nenhuma ciência lhes escapasse. Lembro-me dum episódio que o meu pai presenciou na Avenida dos Aliados, entre dois amigos que punham a conversa em dia. Perguntava um deles: "Oubi dizer que o teu sogro tebe uma crise. O que é que se passou?". O outro, encolhendo os ombros, respondia: "Sei lá, ou o caralho, deu-le assim uma espece de ataque celebral e o gajo ficou a tocar flauta [boca de lado] e a botar açúcar nas farturas [mão a abanar]".

Tudo isto sai como água, cada tripeiro de gema é uma torneira de humor para lavar a alma de quem passa. Parece que não se envolvem em nada, podem estar a falar das coisas mais trágicas que não abandonam aquela distância irónica de onde se sentem confortáveis, o que até dá a entender que são insensíveis, quando na verdade o que procuram é a melhor forma de lidar com o sofrimento. Uma vez, na Rua José Falcão, a minha tia quis comprar castanhas. "Dois euros", pediu o vendedor depois de as embrulhar. "Dois euros por uma dúzia de castanhas?!", exclamou a minha tia. "E metade são puâdres", respondeu o homem. A vida é mesmo assim.

Num tempo em que as mais diversas idiossincrasias e peculiaridades culturais tendem a ser vistas como engelhos de um lençol global que deve estar impecavelmente engomado, far-me-ia feliz que este pequeno testemunho, apenas um relance sobre o tanto que a minha cidade esconde debaixo dos postais, fosse um aperitivo capaz de estimular os menos atentos à descoberta de um mundo que, por mais antigo, será sempre novo, assim lhe assista o talento para fintar a extinção.

Quando passo, hoje, na Rua Sampaio Bruno, não são certamente os meus sapatos que têm saudades dos engraxadores.

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por Augusta Clara às 18:12

Terça-feira, 06.06.17

Quem deu a mão a quem? - Eva Cruz

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Eva Cruz  Quem deu a mão a quem?

 

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(Fotografia de Adão Cruz)

 

   A tarde caía lenta sob um sol coado de nuvens brancas. Uma tarde de fins de Maio com  algum orvalho  temporão a anunciar o fim do dia.

Alguns pássaros voavam de copa em copa. Outros mergulhavam certeiros no ventre  da hera e dos arbustos. Tempo de ninhos e ovos a chocar vida nova, de tenros cachos nas videiras.

No convívio habitual do fim do dia,  na mesa do pátio junto ao tanque, os amigos de sempre saboreavam a merenda  improvisada. A conversa fluía à medida do cantar da água da mina que corria. Arrefecia.

Entre a ramada e a varanda nascera poesia. A delgada leveza de um rebento de glicínia da varanda enroscava-se no talo comprido de uma videira da ramada. Tudo isto sobre o vazio nu da largura do pátio, através do ar, no vazio do nada.

Tão distanciadas, sem mão humana de permeio, assim entrelaçadas,  quem terá dado a mão a quem? Como foi possível este abraço, este nó que nenhuma força desatou?

Artes mágicas da natureza!

Algum serafim ou querubim ali passara. Um duende, um gnomo, qualquer força de moderna mitologia, sabe-se lá. E o pensamento abriu as asas e em toda a liberdade voou.

Terá sido o vento?

O vento tem coração?

O vento tem asas de poesia e sentimento?

Sim. Talvez o vento. Só pode ter sido a força do vento ou apenas uma brisa leve que tenha levado àquela união impossível, de amor tão natural.

Na  sua complexa simplicidade, a natureza é misteriosamente sábia. É um poço sem fundo e no silêncio mais profundo, no silêncio do absoluto, ensina a pensar. Basta ver e escutar.

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por Augusta Clara às 17:17

Sexta-feira, 02.06.17

Às prostitutas, no seu Dia - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Às prostitutas, no seu Dia

 

   Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. E no mundo, como todos sabemos, não há complacência para a tortura das costas, humanas e geográficas. Das costas e dos corpos, da terra inteira, dos continentes, que vão sofrendo e respirando mais e menos consoante as levas de pó, os ventos da ganância e os mares do egoísmo, que se vão habituando a desejar o mal dos outros por já só conceberem o seu bem à escala dele, tão funda vai a cegueira neste olho suspenso do universo, neste olho que, apesar de tudo, ainda gira, ainda espera que o olhemos, não aceita que sejamos dois com ele, ele o planeta e nós o anel, dois olhos da mesma cara, duas órbitas que nem do estrabismo nem da ciência se podem valer, dois poemas impedidos pelo visível, pelo palpável, de pousarem um no outro, reconhecendo cada um ao seu espelho que o amor é tudo aquilo de que a carne os separa. A carne, a razão concreta, a mãe da luta, a filha da puta. É por ela que protagonizamos este espectáculo sangrento da história humana, é por ela que queremos sempre mais guerras, mais vitórias de menos vencedores, menos deveres para quem tem mais direitos. É pelo dinheiro que gastamos o tempo, é pelo fruto que cortamos a árvore, é pela imagem que esvaziamos a substância, é pelo poder que proibimos, é pelo luxo que escondemos o lixo, é para seguir em frente que não olhamos para trás, é pela filha da puta que matamos a mãe. É por nós que não nos queremos. Nós, os filhos da puta. O que é, afinal, uma puta, uma puta homologada, se não alguém que vende o seu corpo para ganhar a vida, que o faz às claras, sem dissimular, sem enganar, que dá o que tem e a muito mais é obrigada por uma sociedade de fundo falso, ingrata, sem raiz, que se serve a todos os níveis desse exemplo de coragem, que se limpa diariamente a essa fralda, que desmente a autenticidade desse seu reflexo e faz dele sombra, sombra perseguida? As putas são, na verdade, oráculos, e não falo do que têm entre as pernas, não, são espelhos da loucura humana, da esquizofrenia da espécie, nessa demonstração inequívoca que proporcionam sobre o valor da carne: se uma pessoa vende o cérebro ou a alma, e poucas são as que hoje não o fazem ou tentam fazer, é um homem de sociedade, um exemplo de responsabilidade social, um cidadão do futuro, um indivíduo credor de todo o respeito; já se vende o corpo, e não tem a sorte de ser exclusiva de um desses portadores de virtude, é uma forma de vida moralmente repulsiva, uma doença contagiosa, uma vergonha para a sociedade, um coração pulsante que não merece estatuto, reconhecimento de dignidade, igualdade de direitos, amor, compaixão, gratidão, nada. Nada que não sejam uns trocos, pénis erectos a entrar-lhes pelos buracos adentro, suores porcos a untar-lhes a pele, ruídos animais a comer-lhes os tímpanos, como se já não bastasse o resto, e quem sabe umas chapadas, uns insultos e todos os maus-tratos que, cobardemente, ficaram por dar aos devidos destinatários. Eu ponho o meu nome em qualquer lista que defenda a profissionalização das putas, que lute por lhes ser dada assistência social, por lhes serem concedidos cuidados médicos, por lhes ser reconhecida toda a coragem e a dignidade que se atribui sem qualquer engulho, e só para dar um exemplo, aos mineiros. As putas são mineiros e minas, escavam o seu lugar ao sol por entre a escuridão do preconceito e da hipocrisia e são, claro, também elas perfuradas, alarvemente perfuradas, quer no seu corpo quer na sua alma. São paredes vivas, histórias ocultas como tesouros escondidos, enterrados, literalmente enterrados, ou emparedados, árvores humanas, anjos da noite, mulheres, mães. E nós, queiramos ou não, somos filhos delas, filhos de todo o tipo de prostituição acumulada que fomos varrendo para debaixo do tapete, desde o princípio dos tempos. Se isto custa a engolir, imaginem o que elas passam.

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por Augusta Clara às 16:35

Segunda-feira, 29.05.17

Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio - Eva Cruz

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Eva Cruz  Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio

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(Gustav Klimt)

 

 

   Nasceu uma criança. Havia de crescer, fazer-se menino , jogar à bola, decorar o caminho da escola.

De combóio chegava ao destino, esse menino ainda sem rumo, crescendo nos olhos e no  sonho dos pais como futuro moldado  de amor e trabalho duro. 

Partiu um dia para mais longe, para mais perto do futuro. Chamaram-no as águas do Mondego, rio de lágrimas e fado, de trovas, baladas  e capas negras. Cidade do amor, da nostalgia e da saudade, de serenatas à luz da lua espreitando o mundo na estreiteza da rua.

Conheceu a força do amor e com ele encheu o peito da alegria e da dor que a vida impõe a quem ama. Nem tudo na vida são rosas, mas eram mimosas as palavras e as mãos entrelaçadas.

O sonho fez-se vida pela vida fora e deu vida  a outros sonhos  meninos que cresceram à medida do amor.

Hoje, na dor de um sonho perdido, apenas ficou inteiro o amor que deixaste comigo.

  

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por Augusta Clara às 16:03

Domingo, 21.05.17

A terceira via para o abismo - José Goulão

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José Goulão  A terceira via para o abismo

 

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Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». 

 

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   A epidemia potencialmente letal que atinge hoje os partidos socialistas e social-democratas terá começado com Anthony Blair à frente dos trabalhistas britânicos, embora a degeneração gradual viesse de trás.

No entanto, a conversão ao ultraconservadorismo de Thatcher e Reagan, a submissão às inquestionáveis ordens do mercado, as ânsias de privatização do Estado e os ataques sem piedade aos direitos sociais e laborais dos cidadãos representaram um salto qualitativo na degradação, a que se foram juntando, numa vertigem que agora se conclui ser suicida, as mentiras na cena internacional, o culto da guerra, a rapina generalizada.

Aproveitando depois o balanço e as circunstâncias propícias da História ocorridas na transição da década de oitenta para a de noventa do século passado, os agentes da paciente conspiração norte-americana em Itália infiltrados nos Partidos Socialista e Comunista aceleraram a sua missão e, nos escombros das duas entidades históricas, ergueram o Partido Democrático, à imagem e semelhança do seu homónimo dos Estados Unidos – isto é, sem funcionamento orgânico e seguindo orientação económica neoliberal – que definiram como sendo a nova «esquerda», daí em diante a única com vocação de poder.

Há pouco mais de um ano, o então presidente francês, François Hollande, eleito pelo Partido Socialista, defendeu que os novos tempos exigiam um «hara-kiri do PS», uma transformação em algo de ideologia muito mais abrangente e indefinida, que imaginou como «Partido do Progresso»; na mesma altura, um dos primeiros-ministros que nomeou durante o seu mandato, Manuel Valls, declarou a necessidade de o Partido Socialista mudar de nome.

Há poucos meses, o ministro da Economia de ambos, Emmanuel Macron, também ele uma figura do PSF, lançou o movimento En Marche que, sem militantes e estrutura mas com financiamento dos bancos e banqueiros para os quais trabalhou, e com o apoio operacional de agentes enviados pelo Partido Democrático dos Estados Unidos, o catapultou quase do zero até à Presidência da República.

Enquanto isso, o candidato oficial do PS – ou do que dele resta – ficou abaixo dos sete por cento nas eleições presidenciais, abandonado pelo aparelho do partido, pela sua Fundação Jean Jaurès e pelas figuras de proa, com destaque para Hollande e Valls, que logo se puseram en marche com Macron.

Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». O resto é «extrema-esquerda» ou «esquerda radical», isto é, organizações «desfocadas» da realidade, «agarradas ao passado», incapazes de se adaptarem aos novos conceitos evolutivos, em suma, entidades que se atrevem a rejeitar a doutrina única e oficial, o capitalismo selvagem.

Dos casos citados a propósito do Reino Unido, Itália e França, só os trabalhistas britânicos ainda resistem à dissolução, por continuarem a recorrer, pelo menos até agora, a consultas às bases partidárias para elegerem os dirigentes e não ao artifício anti partidário das primárias, importado, claro, dos Estados Unidos da América. Porém, mesmo desacreditado perante o reconhecimento geral dos seus crimes e mentiras no drama do Iraque, Tony Blair e a sua teia de propaganda voltam a estar activos na intriga e desestabilização do Partido Trabalhista, de modo a reencaminhá-lo na senda da destruição que muitos outros estão a percorrer.

Os casos de Itália e França são exemplares. Renzi e Macron parecem saídos da mesma forma tecnocrática de políticos robotizados em práticas de direita, envolvidos na mentira, agora cada vez mais grosseira, de que eles são «a esquerda».

Outras situações do género, que traduzem a destruição de partidos socialistas, estão consumadas ou na calha. Em Espanha, a deriva do PSOE é total, acelerada depois de ter entregado o poder, de novo, aos neofranquistas de Rajoy; e, na Alemanha, o SPD está a pagar cara a submissão feita de cumplicidade ao autoritarismo de Merkel.

Na Grécia, a miniaturização do PASOK é idêntica à do PS francês, embora sem o efeito Macron; pelo menos por enquanto, embora não seja seguro que o tsiprarismo, cada vez mais fiel às ordens de Bruxelas à custa do ainda e sempre penalizado povo grego, não vá no mesmo sentido.

Na Holanda e na Bélgica, os partidos da Internacional Socialista pulverizaram-se devido ao envolvimento na gestão da crise, praticando políticas de direita – e até de extrema-direita e xenófobas, sob o interessante pretexto de travar a influência da extrema-direita. Hollande não foi, portanto, o caso único, embora tenha ido mais longe ao governar em estado de excepção durante grande parte do mandato.

No mundo nórdico, os partidos da social-democracia, outrora reis e senhores, afundam-se em situação de deriva depois de se terem rendido à prática neoliberal, por vezes seguindo os conservadores ou então tomando a iniciativa – também para «retirar espaço» à direita.

Nos países do leste europeu, a social-democracia mal viu a luz do dia depois da extinção da União Soviética. Nasceu já neoliberal e limitou-se a colaborar na afirmação do populismo e da extrema-direita como verdadeiros gestores do capitalismo selvagem.

Às práticas thatcheristas de Blair, os politólogos sempre em busca de baptismos para «novas esquerdas» chamaram «terceira via». Para onde? Para o socialismo, pois claro, de acordo com as suas doutas elucubrações em forma de mensagens propagandísticas primárias. Na verdade, mais uma via para o capitalismo puro e duro, à moda de Friedman e dos «Chicago Boys» que criaram «o milagre de Pinochet» – por fim o capitalismo isento de quaisquer inquietações sociais e com as pessoas, livre da mais ínfima das sequelas keynesianas.

Com maior ou menor convicção, os partidos socialistas e social-democratas seguiram Blair incarnando o flautista de Hamelin, institucionalizando-se como o «lado esquerdo» do sistema bipolar que governou a União Europeia como partido único, até estatelar-se estrondosamente, em 2008, nos frutos podres da subserviência ao casino financeiro – a «crise».

Se alguém tiver dúvidas, pode consultar as decisões do Parlamento Europeu tomadas ao longo de anos e anos: em matérias de cultura, questões de consciência e até direitos teóricos, é possível detectar diferenças entre os comportamentos dos membros do Partido Popular e do Grupo Socialista; mas quando se chega aos assuntos económicos, laborais, à imposição da austeridade, às medidas financeiras, de combate à crise ou de estruturação autoritária da União Europeia e da Zona Euro, aí a convergência é praticamente total entre os dois blocos.

A verdade é que a conjugação da crise com os efeitos sociais, a que se junta o problema dos refugiados resultante de guerras pelas quais a União Europeia também é responsável, desmoronou a arquitectura política de partido único com duas tendências. Na entropia resultante em que vivemos, na qual multidões de cidadãos desorientados, manipuladas pelos aprendizes de feiticeiros peritos em explorar o medo e a insegurança, são cativadas por apelos de populistas mais ou menos envernizados, por mensagens trabalhadas à maneira de anúncios de refrigerantes, ou até por fascistas retintos, as esquerdas que permanecem fiéis ao humanismo, à cidadania e às pessoas quase não conseguem fazer-se ouvir.

No meio das ruínas da arquitectura política em extinção tornou-se evidente que o papel da social-democracia oficial na gestão do neoliberalismo, mesmo temperada pela «terceira via», se tornou descartável, inútil. Cumpriu o papel, mas cabe agora à direita pura e dura, nas suas variantes que chegam até aos extremos do populismo e do fascismo, gerir o sistema neoliberal.

O arrastamento da crise, desmentindo a teoria dos ciclos altos e baixos da economia, tornou o funcionamento do sistema praticamente impossível em democracia. É preciso afastar os cidadãos do direito de decidirem, seja pela força, pelo autoritarismo em liberdade condicionada, pela intoxicação tecnocrática disfarçada de inovação política.

Por isso os Partidos Socialistas caem como pedras de dominó. A maioria dos seus dirigentes instalam-se no novo espaço. Onde já se encontra, há muito, a instituição que conduz este processo de modo cada vez mais indisfarçado: o Partido Democrático dos Estados Unidos. Daí que Hillary Clinton, senhora da guerra com as mãos sujas de sangue de milhões de mortos e feridos e do sofrimento de milhares de refugiados, seja a figura de referência da Internacional Socialista de hoje. Está encontrada mais uma «nova esquerda», agora sim fazendo inequivocamente parte da direita.

Porém, como sabemos, nem todos os dirigentes socialistas apanharam a boleia de Blair e discípulos: existem casos de resistência a alguns valores essenciais; além disso, os chefes que fogem deixam para trás multidões de cidadãos que não estão dispostos a acompanhá-los como os ratos seguiram o flautista de Hamelin – e assim volto ao velho conto de Grimm.

Por isso, a esquerda – ou as esquerdas, se preferirem – têm agora milhões de seres humanos como destinatários de mensagens que sejam capazes de mobilizar o combate contra um adversário poderosíssimo mas cada vez mais definido e identificável, por muito que use e abuse da intoxicação, do ilusionismo e da mistificação.

Para que as mensagens sejam unificadoras da mobilização e dinamizadoras dos objectivos de luta é necessário que as esquerdas decidam, de vez, deixar de se dividir e engalfinhar em torno de ilusões que a realidade está cansada de desmascarar: a burla do «mercado livre», o mito «europeísta», a ideia absurda de que a União Europeia é «regenerável», a mentira de que é possível compatibilizar a democracia e a soberania com a obediência aos ditadores servindo Bruxelas e a moeda alemã, também chamada única ou euro.

Num dia, que está próximo pela força das circunstâncias, a Internacional Socialista mudará também ela de nome, sem precisar de fazer hara-kiri. Grande parte dos seus membros já o fizeram. Se preferir continuar a chamar-se assim, ficará como um imprestável paquiderme em busca do seu cemitério.

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por Augusta Clara às 00:17

Quinta-feira, 18.05.17

Capricho Arabe de F. Tárrega, por Tatyana Ryzhkova

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Tatyana Ryzhkova  Capricho Arabe

 

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por Augusta Clara às 01:49

Segunda-feira, 15.05.17

São de lágrimas os olhos das andorinhas - Eva Cruz

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Eva Cruz  São de lágrimas os olhos das andorinhas

 

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(Augusto Peixoto)

 

 

Acordo com a luz da Primavera

foram-se os cheiros e as cores

a alegria do verde e o azul do céu.

Uma brisa suave leva-me  onde amei

dentro de um sonho que perdeu o futuro.

Não me dou com o malvado do tempo

que nada corrige e a nada obedece.

Fico à espera da manhã azul

e o  tempo adormece.

Os pássaros enamorados

não sabem que o Outono cinzento volta.

Julgam-se donos do mundo.

Tenho vontade de lhes contar a verdade.

Que vivam na ilusão! A Primavera volta sempre, ou talvez não...

Acordo com a luz da Primavera, mas ela vem despida de

azul e são de lágrimas os olhos das andorinhas.  

 

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por Augusta Clara às 15:57

Quinta-feira, 11.05.17

Peregrina da saudade - Eva Cruz

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Eva Cruz  Peregrina da saudade

 

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(Tara Turner, "The same but different")

 

 

   A estrada é de maias amarelas. Solitário, o asfalto cinzento guia os olhos por detrás das lágrimas. Os montes caem em socalcos desdobrando a verdura sob o brilho do sol, coado por núvens brancas a delir-se. As maias são o tempo passado  que há-de voltar. O tempo, tal como o rio, não é de parar.

Os plátanos soltam as plumas e no rio de sombras e brumas  cai o sol a brilhar. Para tràs ficaram as maias amarelas e parte da vida com elas. O Maio há-de voltar de novo,  a florir, quer deseje cá estar, quer deseje  partir.

O rio, negro e fundo, corre manso e frágil sob as águas trémulas, cobertas de algodão branco, como manto de neve no calor da tarde.  Nem o  algodão branco, nem os pássaros vestidos de céu devolvem ao rio da vida  o brilho que a vida perdeu.

Peregrina da saudade, percorro os mesmos caminhos e atravesso as mesmas pontes, segurando-te a mão. Lá em baixo, o rio  reflecte o mesmo céu, mas as  aves nada me dizem, não sabem de ti.

Oiço apenas o eco dentro de mim, o eco da serenidade e da partilha , para o bem e para o mal, naquele cantinho enfeitado com o meu chá e o teu jornal.

Escrevo-te da varandinha do quarto para te dizer que  os plátanos estão enormes. São dois, entrelaçados, abraçando o céu. Como nós, se a noite não fosse vazia e a mão estendida não fosse apenas a coberta branca e macia. 

No banco, à beira do rio, o cantar das rãs rompe a saudade. Tenho tanta inveja do rio, sempre vivo, sem idade!

Peço às estrelas que escrevam no céu, ao lado  de Corconte, a lenda do Palácio cor-de-rosa, que no silêncio daquela tarde, reflectido nas águas do rio, retoma lentamente e  para sempre a cor da pedra.

 

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por Augusta Clara às 17:43

Sexta-feira, 28.04.17

Ruas de Lisboa - Carlos Mendes

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Carlos Mendes  Ruas de Lisboa 

 

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por Augusta Clara às 22:39



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