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Jardim das Delícias


Domingo, 26.03.17

Anda no ar um cheiro triste - Adão Cruz

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Adão Cruz  Anda no ar um cheiro triste

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(Adão Cruz)

 

 

Fujo do rio vazio
e sento-me neste banco cinzento que já foi branco
quando havia borboletas brancas e muitas flores
e alegrias e pedaços de sol entre os braços da sombra.
Fujo deste banco escuro do cais do Ouro
onde os corvos marinhos secam as asas ao sol
e a tristeza invade as margens com a maré cheia.
Fujo do rio quando os barcos se enterram no lodo
e a luz é uma neblina densa que invade a alma pelos olhos dentro
e os corvos marinhos fazem voo rasante para outras paragens.
Fujo do rio e vou sentar-me noutras paisagens
neste banco cinzento que já foi branco e de outras cores
onde tudo o que chama por mim é silêncio
e o corpo me dói
e a alma se dissolve na água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho.
Sento-me na pedra fria deste banco que já foi branco
no tempo das flores e das borboletas brancas
em que não havia desertos ao fim da tarde.

Anda no ar um cheiro triste
e por isso deixei que a tarde me falasse
mas tudo o que chamava por mim era silêncio
e era silêncio o cantar da água que ia regar as cinzas
e as carnes moles de um corpo velho.
Não havia desertos entre a folhagem
neste banco pintado de branco
entre os pedaços de sol e os braços da sombra
mas os desertos aí estão
desertos de areias que são sementes de cabeças de criança
sim
as desse tal Herberto
caminhando ao longe
vagarosamente
sobre as areias do deserto.

Anda no ar um cheiro triste
e eu sento-me na margem húmida do rio num barco inventado
ali mesmo ao lado do minititanic
a sobrar de podre e a dobrar o tempo do amor de um velho
na loucura do sonho do cair da tarde
e a noite não tarda
salpicada de borboletas negras de voo pesado
e barcos enterrados no lodo.
Fujo do rio antes que chegue a maré cheia
e a tristeza baixe as asas dos corvos marinhos
e o sol não seja mais que uma densa neblina afogando o rio
e os corvos marinhos chamem por mim em desafio
e tudo o que chame por mim não passe de silêncio.

Anda no ar um cheiro triste
e eu fujo do rio que dá a ideia que vai secar
como os pedaços de sol e os braços da sombra
e vou sentar-me naquele banco cinzento que fora branco.
Fujo do rio e do cais do Ouro
mas o silêncio beliscado pelo fio de água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho
não passa do silêncio de tudo o que pode ser
o desesperado voo rasante dos corvos marinhos
sobre um rio negro deserto e frio que faz tremer.

 

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por Augusta Clara às 15:06

Sábado, 25.03.17

A tempestade - Ian Hamilton

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Ian Hamilton  A tempestade

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(Rebecca Guay, "Love poem"

 

Ao longe rebenta a tempestade. Encrespa o nosso quarto.
Tu olhas para a luz em cima e ela te apanha um lado
Da cara, a tua boca firme, o teu olhar espantado.
Voltas-te para mim e quando chamo vens
Até mim e ajoelhas-te ao lado, querendo que tome
A tua cabeça entre as mãos como se fosse
Uma delicada taça que a tempestade podia quebrar.
Queres que me ponha entre ti e a brutal trovoada.
Mas na tua carne as minhas mãos se agitam,
Pulsam em ti e então, sem saber como, apertam.
A tempestade rola em mim ao abrir-se a tua boca.

(in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte)

 

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por Augusta Clara às 21:19

Quarta-feira, 22.03.17

"Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera" - Eva Cruz

 

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Eva Cruz  "Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera"

 

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 (Imagem de Toshiyui Enoki)

Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera.

Vestida de menina despida de nada nesta emboscada do sonho perdido.

Voam borboletas brancas prenúncio de vida a partir do nada.

E chegam as primeiras andorinhas e o cantar dos melros.

Procuro-te por toda a parte e lá te encontro em tudo o que nasce.

A árvore vai florir de novo em seiva de cinzas.

A minha vida corre para a tua ausência e uma nova natureza há-de cantar o nosso encontro.

Tive um sonho .

Um sonho lindo!

Novos filhos nascem do nosso amor.

Vestidos de Primavera.

 

Nota: Em homenagem ao Orlando que agora partiu e foi o companheiro de toda a vida da Eva Cruz, uma amiga de ambos escreveu o texto que se segue:

 

(Relembrando com saudade a última vez que estive com o Orlando…)

 

   Murcharam as rosas que a Eva comprou no Dia dos Namorados. Duas. Vermelhas de sangue, de vida, de paixão. A Eva alimentava o Amor com pequenos gestos, momentos de ternura, rituais próprios… Orlando retribuía com um sorriso cúmplice, a tender para o irónico, os olhos babados de admiração e orgulho. Gente feliz!

Fevereiro era frio e o vento entrou, causando estragos. Nas flores e nos corações…

A Eva bem que tentou manter as rosas vivas por mais tempo mas o esforço foi inútil. Em vão as cuidava diariamente, o frio fora implacável. As rosas são efémeras e as pétalas foram caindo uma a uma…efémeras como a vida!

Em casa da Eva haverá sempre duas rosas vermelhas que nenhuma aragem poderá destruir. E que o seu perfume suavize o momento!    

Obrigada, Orlando, por ter adotado como seus os amigos da Eva!

Obrigada pelo convívio, pelas conversas, pelas viagens e pelos bons momentos que partilhámos em conjunto!

Obrigada por ter sido o amante, o companheiro, o cúmplice, o crítico que fizeram da Eva uma mulher feliz!

Será sempre recordado com muita saudade.

Carmina, 15/3/2017

 

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por Augusta Clara às 21:00

Quarta-feira, 22.03.17

Começo a entender - Adão Cruz

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(Janet Fitch)

 

(Para a Eva)

 

Começo a entender dentro desta idade esgotada

Que a vida tem sempre uma entrada que vai dar ao nada

E tem sempre uma saída que é sempre partida

Para nova entrada que vai dar ao nada.

Começo a entender nesta idade avançada

Que a ilusão é sempre entrada

Para a saída desencontrada da desilusão.

Começo a entender nesta idade escurecida de emoções

Palmilhada ao lado da fantasia e da loucura

Que o sangue dos sonhos e da esperança

Nunca pintou as caras pálidas das multidões.

Começo a entender no fim de contas desta idade

Que no deve-haver da memória e do segredo

Não há mais entrada para as palavras

Nem qualquer saída  para o medo.

Começo a entender que o roçar da vida

O rumor dos passos

A pedra do moinho a apertar o peito

O sol e a lua das Figueiras

E o saudoso cair da tarde dentro de mim

Nada mais são que restos perdidos do íntimo silêncio

Das esquinas de um tempo que sobrou até ao fim.

 

Adão cruz, 12 de Março de 2017

 

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por Augusta Clara às 00:29

Sábado, 25.02.17

O rosto repelente da verdade - José Goulão

 

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O óbito da solução de dois Estados não foi declarado só agora. A resolução da ONU estabelecendo a partilha da Palestina foi logo sabotada pelo recém-nascido Estado de Israel, quando iniciou a limpeza étnica das populações árabes.

 

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Donald Trump recebeu Benjamin Netanyahu na Casa Branca, a 15 de Fevereiro Créditos / Agência Lusa

 

   E a verdade chegou pelo rosto e pela voz que não encobrem as normas escabrosas regedoras do mundo, aplicadas por estruturas dominantes sem princípios nem valores, mesquinhas, desumanas, xenófobas, hipócritas. No seu discurso boçal, mas franco, Donald Trump disse que o rei ia nu, isto é, proclamou o que toda a gente sabia mas nenhum dos seus parceiros ousava admitir: não há lugar para a solução de dois Estados na Palestina. Ou seja, nega-se ao povo palestiniano o direito ao seu Estado. É uma cruel ignomínia; mas também é, por ora, a realidade dos factos.

Milhões de dedos escandalizados espetaram-se na figura odienta do novo presidente dos Estados Unidos da América, autor de uma blasfémia contra o direito internacional e, sobretudo, inquietador das boas consciências dos chefes da ONU, da União Europeia, de todos os «quartetos para a paz» feitos e desfeitos, de quantos se contentam em garantir a criação de dois Estados na Palestina enquanto o único existente, protegido a qualquer preço pelos poderes dominantes – vai engolindo palmo-a-palmo, traulitada-a-traulitada, todo o pedaço de terra onde deveria nascer o outro.

Avaliando, sem rodeios nem sob o efeito de melífluas declarações diplomáticas, a situação no Médio Oriente, apenas pode concluir-se que a solução de dois Estados na Palestina fracassou há muito. Terá morrido até à nascença, há 70 anos, quando as Nações Unidas, na vetusta e incumprida resolução 181, de 27 de Novembro de 1947, aprovaram o plano de partilha da Palestina, então sob mandato britânico.

Talvez seja este, afinal, o histórico, magno e escandaloso alcance da polémica proclamação de Trump. Apenas recordou e reafirmou as exigências impostas, em seu tempo, pelos Rockfellers, Rostchilds e quejandos, permanentemente lembradas ao complexo militar, industrial e tecnológico dos Estados Unidos pelos todo-poderosos lobbies judaicos.

O óbito da solução de dois Estados não foi declarado só agora. A resolução da ONU estabelecendo a partilha da Palestina foi logo sabotada pelo recém-nascido Estado de Israel, quando iniciou a limpeza étnica das populações árabes, a rapina dos seus bens, a destruição dos seus lares, vilas, aldeias e propriedades; prosseguiu com as deportações e anexações contínuas, as guerras de 1968, 1973, 1982, 1986, 1996...

A possibilidade de existência de um Estado Palestiniano ressurgiu vagamente com os acordos Rabin-Arafat de 1993, logo desmantelada pelo assassínio do então primeiro-ministro israelita e pela sequente sabotagem das negociações de paz por Peres, Sharon, Netanyahu, os beneficiários políticos da liquidação de Isaac Rabin por um criminoso saído das suas fileiras.

«A arrastada coexistência de falsas negociações com a colonização israelita da Cisjordânia, sempre em crescendo, e o sangrento desmantelamento de Gaza, inviabiliza, de facto, a existência de um Estado independente que tenha condições para sobreviver.»

 

A arrastada coexistência de falsas negociações com a colonização israelita da Cisjordânia, sempre em crescendo, e o sangrento desmantelamento de Gaza, inviabiliza, de facto, a existência de um Estado independente que tenha condições para sobreviver. Resta o gueto dito «autónomo» de Ramallah, preso nas suas próprias malhas, submetido ao ocupante sionista, mergulhado nos vícios da pequena e baixa política, joguete de interesses de uma aliança espúria entre o Estado segregacionista de Israel, agora plenamente racista e fascizante, e as petroditaduras do Golfo, com a Arábia Saudita à cabeça.

A tudo isto o mundo assistiu nos últimos 25 anos, repetindo a ladainha dos dois Estados como um mantra – enquanto Israel prosseguia tranquilamente a colonização/ocupação, acusando os palestinianos de se recusarem a negociar por contestarem as ininterruptas invasões dos destacamentos de assalto colonizadores.

A opinião pública deixou-se embalar nesta espécie de determinismo dos dois Estados, crente de que um dia qualquer veria nascer um Estado Palestiniano, espécie de sucedâneo dos milagres criadores de Bósnias, Kosovos, Sudões do Sul, Somalilândias; até que Trump estilhaçou o limbo com a crueza da verdade repelente: não há – nem nunca houve – ideia de cumprir a promessa da existência de dois Estados na Palestina.

A União Europeia, a ONU, as famílias Bush e Clinton, o próprio Obama sobem então ao palco exibindo consciências virginais, clamando contra o maléfico atrevimento do novo presidente norte-americano. Contudo, eles sabem como ninguém do que fala Trump.

Com eles esfumou-se a possível criação de um Estado palestiniano, porque cobriram, toleraram e encorajaram sempre a estratégia dilatória e as práticas criminosas de Israel. E a Obama, que se ufana de ter permitido a primeira resolução do Conselho de Segurança contra a colonização, há que recordar que o fez com oito anos de atraso. O ex-presidente sabia perfeitamente que qualquer dos seus sucessores – fosse Hillary Clinton ou Trump – inverteria tal posição, assumida já em fase de transição de mandato.

A proclamação sionista de Donald Trump tem ainda um outro significado, que não pode ficar soterrado nos escombros dos inflamados, hipócritas e inócuos protestos da chamada «comunidade internacional». O seu tom e conteúdo provam que o actual presidente norte-americano não surge do exterior do establishment e à margem do complexo militar, industrial e tecnológico que domina o sistema de poder federal e imperial.

Trump é o homem escolhido para o actual momento de crise e contradições da desordem capitalista neoliberal. As proclamações trovejantes por ele proferidas, em sintonia com as vontades da teia financeira, económica e política dos lobbies judaicos, confirmam-no – caso houvesse dúvidas.

Trump é a verdadeira imagem da América e do capitalismo de hoje.

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por Augusta Clara às 21:15

Quarta-feira, 22.02.17

CRÓNICA-DESABAFO - Adão Cruz

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Adão Cruz  CRÓNICA-DESABAFO

 

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(Adão Cruz)

 

   Depois de um dia de consultas desgastantes, passei  hoje [ontem] pelo hospital onde tenho alguém na Unidade de Cuidados Intermédios, em estado precário, todavia com sinais positivos de recuperação.

Esta melhoria legitimou a minha ida até à Ria de Ovar, a fim de comer qualquer coisa, neste caso concreto, meia dúzia de enguias fritas acompanhadas de dois copos. No fim, sob a abóbada de um crepúsculo quase sinfónico, daqueles que pintam de vermelho o horizonte do mar e dizem ao viajante:  “vermelho para o mar, pega no burrinho e põe-te a andar”, ou que dizem ao lavrador “pega nos bois e vai lavrar”, percorri a passo de caracol a berma da ria, ao som, nem de propósito, de “A Barcarola”, de Offenbach. Que maravilha de casamento entre o céu, a água, a música…e a nossa instabilidade emocional!

No fim desta encantadora peça musical que me encheu sempre a alma, desde remotos tempos em que, à beira-mar, eu procurava a calma e o equilíbrio dos meus momentos de desassossego, ouvi a entrevista de Luís Caetano a Luís Diamantino, um dos responsáveis pelas “Correntes de Escritas” da Póvoa de Varzim. Não digo que tenha ficado desiludido, mas também não me deixei iludir, pois não me iludo sempre que transformam eventos literários, poéticos e artísticos em espectáculos de folclore e feiras de fumeiro.

A criatividade, seja em que campo for, é sempre, sempre fruto de uma liberdade incondicional e não de uma fábrica de saberes. Além disso, a literatura, a poesia e a arte não são mercadorias a promover ou vender em feiras. É a cultura, política e socialmente considerada prioridade social, que deve trazer as pessoas ao encontro da literatura, da poesia e da arte, na descoberta de que a sua vida necessita delas como metabolito essencial, e não o contrário. Não sendo assim, tudo não passa de folclore.

Por exemplo, em vez desta espécie de feira, por que não tentar discutir a fundo e filosoficamente o que é a literatura, o que é a arte e o que é a poesia, que, praticamente, ninguém sabe o que são, a despeito de inúmeras definições, a maior parte verdadeiramente disparatadas e sem jeito nenhum. Além disso, uma boa parte da poesia que para aí se faz e consome, por exemplo, não passa de chachada, e, no entanto, anda por aí, lida, relida, declamada e pendurada em tudo quanto é esquina. Sejamos sérios. De uma vez por todas, para que possamos ter um fio de ligação, não há outra plataforma de entendimento que não seja assentarmos no conceito neurobiológico do sentimento como suporte de entendimento do sentimento artístico e do sentimento poético, iguaizinhos a quaisquer outros sentimentos. Não sendo assim, tudo o resto é fantasia e disparate.

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 20.02.17

HÁ 100 ANOS, EM VERDUN, A MAIS BRUTAL E CRUEL CARNIFICINA - Alfredo Barroso

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(este texto foi escrito há um ano)

 

   Há exactamente 100 anos, em França, a meio da Grande Guerra de 1914-1918, entre 21 de Fevereiro e 19 de Dezembro de 1916, travou-se uma das mais brutais e sangrentas batalhas da história das guerras (envolvendo 2.400.000 homens), na Região fortificada de Verdun, durante 300 dias e 300 noites, à razão de mil mortos por dia, saldando-se, no final, por mais de 300 mil mortos e desaparecidos (porque a morte em massa e a total pulverização de milhares de corpos fizeram desaparecer no anonimato cerca de 100.00 soldados), e cerca de 400 mil feridos.

Os alemães dispararam em média 100.000 obuses por dia. Nove vilas e aldeias, «mortas pela França», foram definitivamente riscadas do mapa. Das 95 divisões que constituíam o Exército francês, 70 divisões combateram em Verdun.

Quer pela sua longa duração, quer pelos terríveis meios de destruição empregues, quer pelo encarniçamento dos adversários na luta, quer pelo horror dos combates, quer pela gigantesca amplitude das perdas, a batalha de Verdun marca uma viragem histórica na maneira de fazer a guerra, alterando completamente a noção tradicional de batalha como confronto breve e violento, mas decisivo, que se tornou obsoleta.

De realçar, também, a incompetência profissional, a crueldade e a desumanidade de muitos generais, que não hesitavam em mandar escolher à sorte, para serem julgados sumariamente, condenados à morte e fuzilados, a título de exemplo, dois ou três soldados de um pelotão que se recusasse a avançar em campo aberto sob fogo cerrado do inimigo (como é mostrado com toda a crueza no terrível filme «Paths of Glory», de Stanley Kubrick, estreado em 1957, e proibido de ser exibido em França - e em Portugal e Espanha, claro! - durante mais de década e meia)...

...E esta era «a guerra para acabar com todas as guerras»!

Foto a preto & branco: imagem do filme de Stanley Kubrick «Paths of Glory» (de 1957);
Foto a cores: pintura de John Singer Sargent (1865 -1925) intitulada «Gaseados» (1918).

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por Augusta Clara às 17:00

Quarta-feira, 15.02.17

Eduardo Gageiro - Rio Tejo, 1966

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por Augusta Clara às 17:32

Segunda-feira, 06.02.17

Crónica, um tanto extemporânea, que eu dedico à minha amiga Augusta Clara e ao meu amigo José Carlos da "Taberna do Doutor", que fazem anos hoje - Adão Cruz

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(imagem de Adão Cruz)

 

1º - A semana passada, dirigia-me eu à Corunha a fim de almoçar com uns amigos, quando, perto da saída para Ponte de Lima, tive um furo, originado por um maldito parafuso que por ali ficou à espera de outra vítima, segundo me disse o remendador de pneus. Tive a sorte de, naquele preciso momento, passar ali uma carrinha da Brisa, cujo condutor, dada a minha provecta idade, gentilmente se prontificou a mudar o pneu. Claro que, sendo sábado, desisti de continuar a longa viagem, com um pneu raquítico como aqueles que agora se usam como substitutos, embora já tivesse tido a experiência de andar com um pneu desses desde Villefranche de Conflent, sul da França, até Portugal.

Resolvi ir comer um pernil assado na “A Carvalheira”, e, no fim do repasto, dirigi-me a Vigo, onde assentei arraiais no velho, modesto e conhecido Hotel La Junquera, desde os tempos em que ainda não havia a “parte nova”. Como em outras ocasiões, fui à //Afundación, ver o que havia por lá, em termos de exposições. Nesse mesmo local onde o meu grande amigo Pastor Outeiral, uns anos antes de morrer, fez uma das suas últimas exposições. Entre “Da Xeración doente aos Renovadores”, “Pegadas da Abstracción a nova Figuracción”, “Identidade Individual, Vontade Global”, dei com obras de pintores que tiveram muito a ver comigo. Desde já, Tino Grandio que morreu em 1977 com um cancro da bexiga, cuja obra descobri há muitos anos em Pontevedra. Xaime Quesada, que ainda conheci pessoalmente em vida, em Ourense. Caruncho que morreu o ano passado, e com quem, um dia, jantei na Corunha.

Fui jantar ao meu querido café “Luces de Boémia”, onde tenho amigos, e que eu conheço desde os tempos em que ia a Vigo comprar películas para o meu primitivo ecocardiógrafo, o único ecocardiógrafo bidimensional existente no país, nessa altura. Aí me mantive até às primeiras horas da madrugada, ouvindo música ao vivo, dos anos 60-80-90. Depois de uns copos bem bebidos, indutores de um belíssimo sono, lá fui para o hotel “la Junquera”.

Levantei-me a meio da manhã e percorri calmamente, dentro da neblina e de uma chuva miudinha, todo aquele rabinho de costa entre Vigo e a Guarda (La Guardia), que por mais conhecido que seja nunca cansa. Almocei no “Muralhas de caminha”, do meu velho amigo Tiago, e rumei ao Porto.

2º À noite jantei num tasco. Na mesa frente à minha sentou-se uma moça nova, engraçada, mulher dos seus trinta e tais, com um homem bastante mais velho, com ar de sem-abrigo. Entre ambos abundavam os sorrisos e gestos de uma felicidade fora do comum. Eram, na verdade, pai e filha, segundo me segredaram. Ela, empregada muito precária, ele, com efeito, sem-abrigo.  Ali vinham por vezes jantar. Desta vez uma suculenta picanha intercalada de sorrisos, salivações e lacrimosos olhares de felicidade. Dei comigo a entranhar bem dentro das entranhas o que é a vida e o que ela tem de absurdo, de relativo, de descarnado, de verdadeiro e de falso. Comparei, sem esforço, esta cena de plena felicidade, com as trombas (ainda que giras) transmitidas momentos antes, da execrável exploradora da miséria angolana, Isabel dos Santos, ao ver-se aprisionada durante meia hora num autocarro junto ao aeroporto de Lisboa.

                                                                                                       Adão Cruz

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por Augusta Clara às 16:20

Sexta-feira, 27.01.17

O polimento da tragédia Obama - José Goulão

 

 

   Recordemos palavras de Barack Obama no seu último discurso sobre o Estado da União: «A América é a nação mais forte da Terra. As nossas despesas militares são superiores às despesas conjuntas das oito nações que nos seguem. As nossas tropas formam a melhor força combatente da história do mundo».

 
Poderia chamar-lhe o discurso do imperador, mas não façamos disso um cavalo de batalha quando há tanta gente empenhada em descobrir um Obama que não existiu, como forma de esconjurar os legítimos receios com a entrada na Casa Branca de um sujeito como Trump.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obama não é melhor presidente do que alguma vez foi porque Donald Trump escancarou as portas da mansão presidencial como as de um saloon, semeou dourados pela decoração e pôs as botifarras em cima da mesa oval para assinar a sentença de morte do «Obamacare» e ditar que, para ele, o comércio livre é outra coisa.

Poucos dias antes de pronunciar as citadas palavras imperiais, o então ainda presidente Obama anunciara que o mais recente pacote de despesas militares inclui novos poderes para as 17 agências federais de espionagem, de modo a «contrariar a desinformação e propaganda», alegadamente fomentadas por outras potências; desse esforço, 17 mil milhões de dólares são dedicados à cibersegurança, isto é, à espionagem informática universal – as lendas sobre o papel da Rússia na eleição de Trump serviram assim de pretexto mais actual, como fato feito por medida.

Expansão militar universal, mentira e propaganda foram, portanto, as derradeiras mensagens deixadas pelo presidente Obama, o que torna ainda mais surpreendente o escândalo de tantas boas almas mainstream com a capacidade de Trump para entrar em funções logo a mentir descaradamente. Não descobriram ainda que a mentira é um comportamento inerente ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América (e de outros, claro)? Um mentiroso pode ser mais ou menos boçal, mas não deixa de mentir.

«É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.»

Por isso, antes de nos dedicarmos a Donald Trump – infelizmente razões não faltarão nos tempos que aí vêm – passemos uma sintética vista de olhos sobre o testamento político de Obama, esse sui generis Nobel da Paz, quanto mais não seja como antídoto perante a campanha de mistificação e de polimento dos seus catastróficos mandatos.

É sintomático que venha imediatamente à superfície uma única realização quando pretendem passar-se em revista as supostas preocupações «sociais» da gestão Obama/Hillary Clinton/John Kerry: «Obamacare». Além de não ser, no final, nada daquilo que esteve para ser no início, a suposta reforma do sistema de saúde em benefício dos mais desfavorecidos foi, essencialmente, um bónus para as companhias seguradoras e para o totalitário sistema privado de saúde à custa dos contribuintes – incluindo os mais desfavorecidos – e dos cofres públicos federais.

É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.

Às guerras do Afeganistão e do Iraque – com que não acabou, antes alimentou – somam-se a destruição terrorista da Líbia, a catástrofe humanitária gerada na Síria, a tragédia no Iémen, os golpes e contragolpes no Egipto, as fraudes da suposta guerra contra o terrorismo, incluindo comprovados patrocínios da actividade de grupos de mercenários como a al-Qaida e o Daesh, a realização do golpe fascista na Ucrânia e da sequente guerra civil, o estabelecimento do recorde de execuções extra judiciais através de drones e outros métodos de liquidação.

Sem esquecer o constante apoio à transformação de Israel num Estado confessional e fascista que tornou de facto impraticável a tão falada «solução de dois Estados» na Palestina; ou a manutenção da vergonha torcionária de Guantánamo, enquanto dava passos em direcção a um aparente fim do bloqueio a Cuba – que, afinal, se mantém inquebrável.

A tão recente e celebrada abstenção norte-americana permitindo ao Conselho de Segurança da ONU aprovar uma moção condenando o colonialismo israelita não passa de uma manobra cínica e hipócrita. Se Obama tivesse tomado a mesma atitude há oito anos, talvez ainda houvesse margem de pressão internacional susceptível de forçar o fascismo sionista a corrigir o rumo. Mas Barack Obama, quando teve poder real, alinhou sempre, em última análise, no jogo anexionista de Israel; agora, conhecendo o que vai ser a prática de Trump nessa matéria, o gesto é inconsequente, apenas destinado a entrar na História sem fazer História.

Sob a gestão de Barack Obama, o número de países onde as forças especiais dos Estados Unidos fazem guerra passou de 75 para 135. Há meia dúzia de dias, tanques de última geração, mísseis de cruzeiro de longo alcance preparados para transportar ogivas nucleares e uns milhares de soldados norte-americanos foram instalados em nova base militar na Polónia.

A produção e o tráfico de heroína atingiram novos máximos nos últimos anos, graças às condições extremamente favoráveis criadas no Afeganistão e no Kosovo, territórios onde se vive sob a bandeira tutelar da NATO.

E o insuspeito The New York Times revelou que grupos como a al-Qaida e o Daesh foram financiados em milhares de milhões de dólares pelas petroditaduras do Golfo, fortunas essas canalizadas através de uma rede internacional gerida pela CIA.

Expansão, mentira e terror são pilares de qualquer doutrina económica e financeira fascista; pilares esses em que a administração Obama se apoiou sem reservas. Por isso, é injusto acusar Donald Trump de a eles recorrer como se fossem coisas inerentes a um tipo de gestão pessoal e exclusivo.

Democrata ou republicano, neoliberal ou ultranacionalista, deixemos os rótulos de lado. À primeira vista estamos perante duas abordagens diferentes da gestão presidencial, mas não apostemos em qualquer engano do establishment. Obama e Trump: cada um chegou em seu tempo e em determinadas circunstâncias para defender os mesmos interesses.

Podemos estar, porém, perante a explosão de grandes contradições associáveis a um capitalismo mergulhado numa crise a que nem sequer tem valido a fé inabalável no autocontrolo do mercado e na teoria dos ciclos sucessivos. O neoliberalismo puro e duro, assente na globalização, terá atingido os seus limites? Serão necessárias outras receitas, velhas ou renovadas?

Temos pela frente a procura de respostas e a definição de acções perante um novo cenário – mas que não sejam inconsequentes ou folclóricas. Para trás ficou Obama, no cumprimento da sua missão, tão hipócrita como sinistra e sangrenta, na «defesa da democracia». Não será a truculência de Trump – óbvia mas de consequências imprevisíveis – que fará do antecessor um presidente menos péssimo e nefasto do que foi.

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por Augusta Clara às 15:15



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