Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Segunda-feira, 20.11.17

Ouarzazate (Secreta ironia) - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Ouarzazate (Secreta ironia)

image001a.jpg

(Adão Cruz)

 

 

As franjas da memória abrem-se na manhã fria da solidão como torvelinho de água nas despojadas pedras do tempo.

Eis que nos damos conta de uma longa viagem a qualquer cidade para lá do horizonte, quando um mar de cal viva queima os sentimentos no estribo de um velho comboio sem princípio nem fim.

Eis que nos damos conta das lágrimas contidas por um mar de cinza que cobre a alegria de viver, quando se apaga o sol que brilha entre as mãos.

Eis que no crescer da angústia uma infinda tristeza afoga a razão, entranhando no sangue a sombra espessa da desilusão.

O coração tomba perdido na poeira da cidade, preso à orla do deserto de Ouarzazate como criança sem asas.

Na terra sem trilhos e sem regresso aos olhos onde se abre o sorriso de todas as manhãs, eis que nos damos conta de não fazermos parte do mundo.

E cai o sofrimento no profundo silêncio das noites sem nome, suspensas das estrelas.

E resta a saudade, ardendo em fogo lento como ramo seco da primeira folha verde.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:13

Domingo, 19.11.17

PIERRE BONNARD, A long time alone

ao cair da tarde 5b.jpg

 

A long time alone  Pierre Bonnard

 

a long time alone1.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:16

Sexta-feira, 17.11.17

Venho de um jardim distante - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Venho de um jardim distante

4a.gif

(Adão Cruz)

 

Venho de um jardim distante florido de memórias ou de um sonho qualquer
entre risos e lágrimas caindo de um céu de chumbo ou de um céu de magnólias.
Venho do seio do orvalho da madrugada num punhado de vida libertada em qualquer rumor de passos brincando nos telhados acesos pela luz do dia....
Venho de um jardim distante onde grinaldas de flores abrilhantam a festa do azul dos tempos no incêndio do crepúsculo ou no ardor da manhã do meu berço de mistério e universo.
Venho das esquinas do tempo em recordações avulsas ao sabor das pontes da vida cavalgando o vento que assobia nas ruas estreitas ou mordendo as pedras com punhais de silêncio.
De onde venho ninguém sabe.
Venho talvez da intimidade salgada do mar ou de um jardim distante com um rio de passos e palavras e pedaços de sol num rosário de pérolas abrindo a neblina do nascer da vida.
Venho… quem sabe da nudez adormecida no silêncio do tempo destinado à simplicidade da morte pelo sinuoso caminho das recordações perdidas no chão fundo das angústias ou nos retalhos da esperança.

Venho talvez das sombrias entranhas prenhes de fulvos e ilusórios tesouros que emergem do fundo do mar sublimados de cor e luz à superfície traiçoeira das águas bordadas de espuma.
Ou então…
Ou então serei filho de um mundo sem resposta sujeito a ventos e marés que enrugam o latejar das veias e quebram o voo das artérias com lugar no corpo rompendo o fluir da vida no interior do sonho.
Não.
Eu não venho de lugar algum fora da mente nem trago comigo a erva daninha.
Eu venho de um jardim distante entre o sonho e a razão onde o pensamento se agiganta contra as trevas e a ilusão.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:39

Quinta-feira, 16.11.17

Adão Cruz, 2017

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz

 

IMG_5804a.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:07

Quinta-feira, 16.11.17

Uma virgem de branco - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Uma virgem de branco

image001a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Ela percorre a noite com a vida suja enfiada num saco, tentando vendê-la ao desbarato, enquanto a chuva pegajosa lambe as paredes negras sem lua, e os olhos caiem no chão dos curtíssimos horizontes de todas as incertezas.
No ar húmido paira um cheiro a palavras mortas e orações podres amontoadas numa lixeira, e o chão é um corpo inundado de terra enlameada de todas as virtudes.
Ela percorre a noite com a alma nua enfiada num saco, esperando que do espesso... nevoeiro irrompa uma virgem vestida de branco com uma pedra de sol em cada mão.
Mas a noite negra e sem lua apenas lhe promete a morte de estar viva, porque o sol é uma mentira tão grande como a verdade das pernas enroladas no medo e na fraqueza.
Ela percorre a noite por entre os buracos da ilusão, com a vida suja e a alma nua enfiadas num saco, tropeçando nas horas e nos absurdos do sentimento.
E as dores são gemidos mudos entre a cama fria e o vestido rasgado, e os braços repartidos numa esquálida vaga de fundo entre carnes a desfazer-se.
Ela percorre a noite remotamente mansa, escorrendo o corpo injusto e servil da chuva oleosa de um céu faminto de tempestade, e ninguém lhe compra a vida nem a alma.
No duro sono de um vão de escada, a morte vestida de virgem branca espera pacientemente entre a vida e a alma, a hora de ser a ponte para os restos de um sonho.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 16.11.17

O que o País deve a Marcelo e o que não pode consentir - Carlos Esperança

o balanço das folhas3a.jpg

 

Carlos Esperança  O que o País deve a Marcelo e o que não pode consentir

 

carlos esperança.png

 

 

   Após a tomada de posse, Marcelo surgiu sem prótese conjugal, irradiando simpatia, em flagrante contraste com o antecessor. Com a cultura, inteligência e sensibilidade que minguavam a Cavaco, tornou-se um caso raro de popularidade.

O respeito pela Constituição da República, elementar no constitucionalista, levaram-no a aceitar o Governo legitimamente formado na AR e a que Cavaco dera posse com uma postura indigna de quem, sem passado democrático, é devedor à democracia dos lugares cimeiros que ocupou.

Marcelo, em vez de ameaçar o País e denunciar à Europa os perigos imaginários que um ressentido reacionário lobrigou no entendimento democrático dos partidos de esquerda, ajudou ao desanuviamento do ambiente político e à higienização do cargo para que fora eleito. Fez o que devia, e teve a decência de romper com a herança de dez anos.

Esgotado o mérito que lhe será sempre creditado, entrou num frenesim próprio de quem é hipercinético, por temperamento, e ansioso de mediatismo, por idiossincrasia, como se estivesse em permanente campanha eleitoral.

A presença constante nas televisões, a opinião sobre tudo, o comentário que vai da bola à alta política, o exercício das suas funções e a exorbitância delas, a ida a funerais e casamentos, a presença pública em cerimónias litúrgicas e a confusão entre o Palácio de Belém e a sacristia, onde se comemoram milagres, começa a inquietar quem vê na sua conduta o atropelo à laicidade do Estado e a ingerência abusiva em funções do Governo e no condicionamento do comportamento dos seus agentes.

Ao ler hoje o elogio do PR ao lastimável pedido de desculpas do ministro da Saúde por mortes causadas por uma bactéria, como se o ministro fosse responsável, vi uma cultura judaico-cristã de culpa e de arrependimento, incompatível com a dignidade das funções e os esforços para resolver situações imprevisíveis, e que, no seu dramatismo, tendem a ser exploradas e ampliadas pela morbidez instalada na comunicação social.

É altura de dizer basta à deriva presidencial, que não tem uma palavra para condenar os silêncios sobre os desvios dos fundos comunitários, as fraudes nas autarquias e os atrasos nas investigações sobre as eventuais burlas nos bancos GES/BES, Banif, BPN, BPP e BCP, e se torna excessivamente loquaz a querer transformar o OE-2018, em discussão na AR, num instrumento para a sua popularidade.

Há já dificuldade em distinguir a genuína empatia de um caso patológico de narcisismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 15.11.17

Ao redor do vento - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Ao redor do vento

17511887_Yszou.jpg

 

(Adão Cruz)

 

 

Não me encontraste mas eu sei que vieste ao meu encontro

porque pedalavas suavemente ao longo do rio

tão levemente que os teus olhos mo diziam e nem as gaivotas fugiam.

Outrora o sol nascia pachorrento a esta hora em que me davas um beijo de alento e eu corria rio fora em direcção ao vento.

Os veleiros rodavam em círculo inchando as velas brancas e amarelas

e também azuis como o poema.

Eu sei que vieste ao meu encontro mas não me viste

porque o sol de hoje nasce de forma alheia e os veleiros não dançam

porque deles é o vento e de ti também.

Eu sei que vieste ao meu encontro e tudo em redor mo leva a crer

mas os teus olhos perderam-me porque são de vento as horas de me ver.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:28

Quarta-feira, 15.11.17

Reféns da arma de extermínio - José Goulão

o balanço das folhas3a.jpg

 

José Goulão  Reféns da arma de extermínio

 

 

Abrilabril, 2 de Novembro de 2017

 

As reacções arrogantes dos principais poderes mundiais às grandes vitórias recentemente obtidas na luta contra a bomba nuclear confirmam que todos e cada um dos cidadãos mundiais estão ainda reféns das armas de extermínio.

 

 

nato.jpg

 

/ nato.int

 

   A assinatura, por mais de metade dos países da ONU, do Tratado de Interdição de Armas Nucleares e a atribuição do Prémio Nobel da Paz à Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares revelam que, na opinião pública mundial, existe uma consciência crescente do risco para a vida no planeta representado pela existência de cerca de 15 mil engenhos desse tipo, em poder de um número restrito de países.

É certo que o Tratado Internacional começa apenas a ter existência prática depois de ratificado pelo menos por 55 países; e que a credibilidade do Nobel da Paz tem andado por níveis rasteiros, sobretudo desde a atribuição do galardão a entidades e figuras como a União Europeia e Barack Obama, militantes da guerra com abundantes provas dadas.

Porém, a reacção dos meios mais belicistas, com a NATO à cabeça, e logo em cima da aprovação do Tratado de Interdição, revela que as decisões agora tomadas contra as armas de extermínio massivo inquietaram os valentes generais da aliança, os políticos e interesses a quem servem de guarda-costas.

«Não aceitaremos qualquer argumento contido no Tratado», postulou o Conselho do Atlântico algumas horas apenas depois de o documento ter recebido as primeiras das 122 assinaturas recolhidas com a aprovação.

Quem fez suas estas palavras definitivas da NATO foi o ministro português dos Negócios Estrangeiros, certamente por considerar essencial e benéfico para todos nós, mesmo não tendo armas desse tipo, ficar na dependência dos que estão dispostos a usá-las «como meio de defesa», é claro. A NATO, como se sabe, nunca ataca ninguém, apenas se defende, como faz no Afeganistão e na Líbia.

Prevenindo o caso de o ministro português, neste caso por redução ao absurdo, ou qualquer um dos seus colegas de países de alguma forma associados à NATO, ou não, se sentir atraído pelo conteúdo do Tratado de Interdição de Armas Nucleares, o Conselho do Atlântico tratou de se antecipar com o habitual espírito dissuasor, o qual, vindo de quem vem, jamais poderá ser qualificado como ameaça: «apelamos aos nossos parceiros e a todos os países que tenham a intenção de assinar o tratado a reflectirem seriamente sobre as implicações», adverte.

Os signatários não digam depois que não estavam informados, caso a NATO venha a acertar contas com eles. Porque «o objectivo fundamental da nossa capacidade nuclear é preservar a paz e desencorajar a agressão», explica o Conselho do Atlântico; já o Tratado de Interdição, acrescenta, «arrisca-se a fazer o contrário, criando divisões e divergências».

É verdade que a argumentação atlantista parece propaganda para imbecis, mas quando se dispõe da força bruta e do poder discricionário para a usar, a credibilidade nas tomadas de posição não precisa de ser uma preocupação dos porta-vozes.

«Apelamos aos nossos parceiros e a todos os países que tenham a intenção de assinar o tratado a reflectirem seriamente sobre as implicações.»

conselho do atlântico

Por exemplo, convencidos ou não da bondade de tais teses «defensivas» e «pacifistas», os portugueses e o seu Parlamento, tal como os povos dos 28 outros Estados da NATO e respectivas assembleias legislativas, não serão chamados a pronunciar-se sobre o Tratado antinuclear aprovado pela maioria dos membros da ONU, porque a aliança atlantista, sem qualquer mandato ou mecanismo democrático, já falou por eles, já o deitou para o lixo.

Vale a pena reflectir uns instantes sobre a atitude de dois países da União Europeia e que não integram a NATO, a Irlanda e a Áustria, que foram dos primeiros a subscrever o Tratado, apesar de os seus governos nada terem de progressistas e de estarem perfeitamente alinhados com o sistema económico e político dominante.

Se os Parlamentos de Viena e Dublin ratificam ou não o documento, esse é outro aspecto, mas que será sempre decorrente do respeito pela democracia e de um acto de soberania nacional. O que não acontece com os povos reféns dos interesses agressivos, expansionistas e minoritários dos quais a NATO é um instrumento de poder.

As posições intransigentes de todos os possuidores de armas nucleares, com maior ou menor disponibilidade para abdicar delas em função dos outros, ou mais ou menos declarações de prontidão para negociar a redução de arsenais, dependendo, ainda e sempre da atitude dos outros, revela até que ponto estão congelados os passos no sentido da desnuclearização militar.

Com a agravante de ganharem terreno as teorias manipuladoras sobre o uso «limitado» de armas de extermínio e que parecem capazes de fragilizar a barreira do medo, que foi um poderoso dissuasor durante a guerra fria.

Os sinais de uma irresponsabilidade associada a uma nova inconsciência, a roçar pela loucura da suposta invulnerabilidade, perceptíveis sobretudo nos responsáveis da Coreia do Norte e dos Estados Unidos da América, colocam a ameaça de extermínio nuclear num patamar de risco nunca antes atingido. Daí que os cientistas que gerem o «relógio do juízo final» continuem a adiantá-lo e a aproximá-lo cada vez mais da hora fatal.

A aprovação do Tratado de Interdição de Armas Nucleares na ONU e a atribuição do Nobel à Campanha Internacional de Abolição chegaram, portanto, num momento decisivo e determinante que agita positivamente a opinião pública, apesar da continuada propaganda belicista.

As duas novas realidades são encorajadoras e mobilizadoras de vontades para todos os que, no mundo, ainda acreditam que é possível travar a fatalidade nuclear, apesar das ameaças da NATO, dos destrambelhamentos em Washington e Pyongyang, da proliferação de engenhos em países teoricamente não nucleares como é o caso de Itália, Alemanha, Holanda, Bélgica e Turquia – transformados em arsenais atlantistas – e de Israel, que os possui clandestinamente.

Neste cenário confrontam-se duas posições, agora claramente definidas com a ajuda do Tratado da ONU e da atribuição do Nobel: a belicista, claramente minoritária nos interesses que serve, mas dotada com o poder absoluto de extermínio e a eficácia de uma propaganda global tentando fazer crer que é possível usar a bomba nuclear como qualquer outra arma de guerra; e a que defende o fim das armas nucleares e de extermínio, verdadeiramente transversal à sociedade global, que procura favorecer o desarmamento total de maneira equilibrada e controlada. Ambas as posições têm ganho influência, o que demonstra como o problema nuclear atingiu um ponto crítico.

Por enquanto prevalece a assustadora realidade de cada um de nós, cidadãos do mundo, ser um refém das armas de extermínio, independentemente da nacionalidade e da localização no planeta. É vital, para todos os seres humanos, inverter a relação de forças; e os últimos êxitos revelam que foram alcançados avanços importantes nessa direcção.

O caminho está aberto; agora é preciso percorrê-lo em união cada vez mais ampla e sem perder tempo, porque o inimigo dispõe de armas letais – e não apenas as nucleares: a irresponsabilidade e, principalmente, o desprezo pela vida humana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:58

Segunda-feira, 13.11.17

Adão Cruz, 2017

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz

 

IMG_5803a.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:23

Quinta-feira, 09.11.17

Adão Cruz, 2017

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz

 

hoje2.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 01:54



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Comentários recentes

  • Anónimo

    Oi tudo bem, parabés pelo portal! Tenho uma fabri...

  • Rosa Silva

    Olhando estas maravilhosas imagens, senti-me arreb...

  • Augusta Clara

    Que deliciosa crónica :)

  • Nuno silva

    Quem criou os recibos verdes e a precariedade que ...

  • Francisco Coelho

    Adorei ouvir, ao fim de tantos anos, quando esta s...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos