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Jardim das Delícias



Segunda-feira, 31.12.12

Danúbio azul - Johann Srauss

Herbert von Karajan dirige a Orquestra Filarmónica de Viena

 

Danúbio Azul

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 31.12.12

A Rapariguinha dos Fósforos - Hans Christian Andersen

Hans Christian Andersen  A Rapariguinha dos Fósforos

 

(traduzido do dinamarquês por João da Silva Duarte)

 

(Marc Lev - Hivernades)

 

 

   Estava terrivelmente frio. Nevava e tinha começado a fazer noite escura. Era também a última noite do ano, véspera do Ano Novo. Naquele frio e naquela escuridão, caminhava pela rua uma rapariguinha pobre de cabeça descoberta e pés descalços. Bem, tinha - ou mais justa­mente - tivera chinelas calçadas, ao sair de casa. Mas para que serviam! Eram muito grandes - a mãe fora a última a andar com elas, tão grandes eram — e soltaram-se-lhe dos pés quando teve de correr rua fora, ao passarem duas carruagens estrondosamente. Uma chinela não foi possível encontrá-la mais e a outra levou-a um rapazinho, que disse que poderia vir a utilizá-la como berço, quando tivesse filhos.

Ali ia agora a rapariguinha de pezinhos descalços, que estavam já roxos de frio. Num avental velho levava uma quantidade de fósforos e na mão um molho deles. Ninguém lhe comprara nenhuns todo o dia, ninguém lhe dera um pequeno xelim! Com fome e gelada cami­nhava, e tão infeliz, a pobrezinha! Flocos de neve caíam-lhe sobre os longos cabelos loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço, mas a pobre não pensava nisso. De todas as janelas brilhavam luzes e cheirava muito bem a assado de ganso ali na rua. Era noite da pas­sagem do ano. Pois nisso pensava ela.

Num canto afastado entre duas casas - uma avançava um pouco mais na rua do que a outra - se sentou, encolhendo-se. Puxou as perninhas para debaixo de si, mas ainda tinha mais frio e para casa não ousava ir. Na verdade, não vendera nenhuns fósforos, não conseguira um único xelim. O pai bater-lhe-ia e frio também o tinha em casa. Tinham telhado por cima deles, mas o vento assobiava por ele, se bem que tivessem tapado com palha e trapos as fendas maiores. As mãozinhas estavam quase mortas de frio. Ai! Um fosforozinho far-lhe-ia bem. Se tirasse um só do molho e o riscasse na parede e aquecesse os dedos! Tirou um e «ritch». Como esguichou, como ardeu! Era uma chama clara, quente, como uma velazinha, quando pôs a mão à volta deste. Era uma luz maravilhosa! A rapariguinha pareceu-lhe que estava sentada diante dum grande fogão de ferro com esferas brilhantes de bronze e rolos também de bronze. O fogo ardia tão maravilhoso, aquecia tão bem! Oh! Que foi aquilo?... A pequena estendia já os pés para também os aquecer... Quando a chama se apagou, o fogão desapareceu... Ficou sentada com um tocozinho de fósforo queimado na mão.

Um outro foi riscado, ardeu, luziu e onde o clarão incidiu na parede, tornou-se esta trans­parente como uma gaze. Logo olhou para dentro do aposento, onde a mesa estava posta com uma brilhante toalha branca, com loiça fina e estupendo fumegava o ganso assado, recheado de ameixas secas e de maçãs! E o que foi ainda mais maravilhoso, o ganso saltou da travessa, saracoteando-se pelo chão, com garfo e faca no lombo. Foi direito à rapariguinha, quando se apagou o fósforo e só ficou à vista a espessa parede fria.

Acendeu outro. Estava então sentada sob a mais bela árvore de Natal. Era ainda maior e mais ornamentada do que aquela que vira pela porta envidraçada em casa do comerciante rico no último Natal. Milhares de velas brilhavam nos ramos verdes e figuras variadas como aquela que decoravam as montras das lojas olhavam para baixo para ela. A pequena estendeu ambas a mãos no ar... logo se apagou o fósforo. As muitas luzes do Natal subiram mais e mais alto. Viu, então, que eram as estrelas brilhantes. Uma delas caiu e fez uma longa listra de fogo no céu.

— Está a morrer alguém! — disse a pequena, porque a velha avó, que foi a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas agora estava morta, dissera: «Quando cai uma estrela, sobe um alma para Deus!».

Riscou outra vez na parede um fósforo, que iluminou à volta, e no seu fulgor estava de pé a velha avó, tão clara, tão luminosa, tão doce e feliz.

— Avó! — gritou a pequena. — Oh! Leva-me contigo! Sei que te irás quando o fósforo se apagar. Que te irás como o fogão quente, o belo assado de ganso e a grande e maravilhosa árvore de Natal! - e riscou apressadamente o resto dos fósforos que estavam no molho. Queria bem conservar a avó. E os fósforos arderam com tal brilho que fazia mais claro que o claro dia. A avó nunca tinha sido tão bela, tão grande! Levantou a rapariguinha nos braços e ambas voaram em esplendor e júbilo tão alto, tão alto! E não havia aí nenhum frio, nenhuma fome, nenhum medo... Estavam com Deus!

Mas, no canto da casa, encontrava-se, sentada na madrugada fria, a rapariguinha com as faces vermelhas e um sorriso na boca... Morta, enregelada na última noite do velho ano. A manhã do Novo Ano ergueu-se sobre o pequeno cadáver, sentado com os seus fósforos, um punhado dos quais quase queimado.

- Quis aquecer-se! - disseram. Ninguém soube que coisas belas viu, nem que esplendor ela e a velha avó tinham entrado no júbilo do Ano Novo!

 

(in Hans Christian Andersen, Histórias e Contos Completos, Vol.I, Gailivro)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Domingo, 30.12.12

Que força é essa amigo! - Sérgio Godinho

 

Sérgio Godinho  Que força é essa amigo!

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Domingo, 30.12.12

APRe! - Opinião de José Manuel Catarino Soares (funcionário público aposentado)


 


   A “contribuição extraordinária” de Hélder Rosalino para espoliar os aposentados e reformados (e também os funcionários públicos) e despojá-los dos seus direitos legais e constitucionais por tempo indeterminado.

Para quem não saiba: Hélder Rosalino é o actual secretário de Estado da Admnistração Pública. Esta secretaria de Estado pertence ao Ministério das Finanças. Hélder Rosalino está, pois, sob as ordens de Vítor Gaspar, detentor da pasta das Finanças e segunda figura da hierarquia do governo, segundo esclareceu recentemente o primeiro ministro, Pedro Passos Coelho.

O senhor Hélder Rosalino escreveu no jornal «Público» (14-12-12) um «artigo de opinião» tentanto justificar os cortes ilegais e inconstitucionais que o Orçamento de Estado para 2013 quer aplicar às pensões dos aposentados e reformados.

Antes de passar ao exame do seu artigo, importa recordar o seguinte:

1. O OE de 2012 cortou duas pensões mensais aos aposentados e reformados, assim como os chamados subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos. Estes cortes foram ulteriormente declarados inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional (TC), por violarem o principio constitucional da igualdade na repartição dos encargos públicos. Todavia, o TC decidiu isentar o governo da obrigação de devolver às vítimas desses cortes os rendimentos de que foram espoliados, alegando ser já tarde demais para o fazer.

2. Perante esta decisão salomónica, o governo decidiu, atrevidamente, tentar, novamente, a sua sorte. Através do artigo 77º do OE para 2013, pretende cortar uma parte substancial de uma pensão mensal aos aposentados e reformados que auferem pensões entre 600 e 1100 euros brutos. Essa parte sobe para 90% de uma pensão mensal para os aposentados e reformados que auferem pensões superiores a 1100 euros brutos.

3. Além deste corte, inventou, através do artigo 78º do OE para 2013, uma chamada “contribuição extraordinária de solidariedade” (CES). Trata-se de um corte suplementar sobre a totalidade das 13 pensões mensais remanescentes que varia da seguinte maneira:

A) um corte de 3,5% para as pensões entre 1350 e 1800 euros brutos;

B)um corte cumulativo de 16% sobre o remanescente das pensões entre 1800,01 e 3750 euros brutos, perfazendo um corte total que varia entre 3,5% e 10% ;

C) um corte de 10% para as pensões entre 3750,01 e 5040 euros brutos;

D) um corte cumulativo de 15% sobre o remanescente das pensões entre 5030,01 e 7545 euros brutos;

E) um corte cumulativo de 40% sobre o remanescente das pensões superiores a 7545,01 euros brutos.

4. Note-se que os cortes da chamada CES se aplicam exclusivamente aos aposentados e reformados. Aos funcionários públicos é aplicada, em menor grau, uma medida da mesma índole, visto que terão reduções salariais entre 3,5% e 10% se auferirem salários entre 1500 e 4165 euros brutos.

5. Além dos cortes nas pensões de aposentação ou reforma (ponto 2) e dos cortes ainda mais gravosos da hipocritamente baptizada “contribuição extraordinária de solidariedade” (ponto 3), os aposentados e reformados estão sujeitos, também, à sobretaxa de 3,5% de IRS e às novas e mais elevadas taxas de IRS resultantes da redução da progressividade dos escalões deste imposto de 8 para 5 escalões, que se aplicarão a todos os contribuintes que vivem dos seus salários e pensões — salvo os que tiverem rendimentos que se inserem no escalão mais baixo do IRS outras situações especiais, como a das pessoas que vivem com as desvantagens decorrentes de uma deficiência.

No seu artigo de opinião, Hélder Rosalino omite piedosamente qualquer justificação para os cortes nas pensões previstas no artigo 77º do OE para 2013 (cf. ponto 2). Mas invoca um argumento, já presente no texto do Relatório sobre o OE para 2013, para justificar a diferença entre os cortes definidos para os pensionistas (acima de 1350 euros) e os estabelecidos para os funcionários públicos (acima de 1500 euros). O argumento é o de que os primeiros teriam o direito de deduzir no IRS esses cortes, coisa que estaria interdita aos segundos. "Não é, pois, correcto dizer-se que, para níveis de rendimento iguais, aos reformados será exigido um esforço contributivo maior dos que é exigido para os trabalhadores. Tal só se verifica para rendimentos claramente superiores a 5 mil euros, como já acontece em 2012", sublinha o secretário de Estado.

O governante afirma ainda que a diferença entre os cortes teve em conta o facto de os rendimentos das pensões não estarem sujeitos a contribuições para a Caixa Geral de Aposentações (CGA) ou para a Segurança Social, ao contrário dos trabalhadores no activo, que descontam todos os meses para estes sistemas.

Hélder Rosalino zomba da lógica e das leis em vigor, escarnece dos seus antepassados políticos e toma-nos a todos — aposentados e reformados, funcionários públicos, trabalhadores do sector privado, etc — por tolos.

Hélder Rosalino zomba da lógica porque todos compreendemos que qualquer pessoa que se aposente ou reforme deixa, automatica e necessariamente, de contribuir para a Caixa Geral de Aposentações ou para o Centro Nacional de Pensões (Segurança Social), para passar a receber a pensão a que tem direito pelas contribuições que efectuou, ao longo da sua carreira contributiva (juntamente com a sua entidade empregadora, no caso de ser trabalhador por conta de outrem) para esse fim exclusivo.

A solidariedade que os aposentados e reformados devem à sociedade, não cessa, porém, com essa situação. Ela continua a exprimir-se através dos impostos a que os aposentados e reformados estão sujeitos, em sede de IRS e noutras sedes (Imposto de circulação, IMI, etc), como todas as outras pessoas detentoras de rendimentos suficientes para serem taxadas. Já vimos, no ponto 5, o que o futuro nos reserva neste capítulo, se a redução da progressividade dos escalões de IRS não for declarada inconstitucional. Seja como for, os cortes nas pensões descritos no ponto 2 deste texto e a chamada “CES” não são, porém, um imposto. São, sim, e tão somente, um expediente ilegal e inconstitucional formatado especificamente para confiscar aos aposentados e reformados uma parte substancial dos suas pensões.

Hélder Rosalino zomba da legalidade do nosso Estado de direito democrático, ao afirmar que os aposentados e reformados são “beneficiados” em relação aos funcionários públicos, porque podem, segundo o seu alto critério, deduzir em sede de IRS a sua “CES”, coisa que aqueles não poderiam. Toda a gente sabe que não se pode deduzir no IRS os montantes que o seu governo quer confiscar ilegalmente e inconstitucionalmente aos aposentados e reformados. Isso seria somar mais uma ilegalidade às outras.

Hélder Rosalino zomba também das leis em vigor ao fingir ignorar que os chamados subsídios de férias e de Natal, em vigor desde Agosto de 1974, são parte integrante da remuneração de base anual que é paga em 14 mensalidades (art. 70º, nº3, da lei nº12-A/2008) aos trabalhadores no activo. Daí que seja 14, e não 12, o número das pensões mensais a que têm direito, anualmente, os aposentados que descontaram sobre 14 salários por ano.

Por último, convém notar que Hélder Rosalino e uma parte, pelo menos, dos seus colegas de governo, escarnecem dos seus antepassados políticos. O decreto-lei nº 465/80, promulgado em 10 de Outubro de 1980, declara no seu artigo 17º: «Os subsídios de Natal e de férias são inalienáveis e impenhoráveis». Para quem não saiba, este decreto-lei foi proposto pelo primeiro ministro de então, Francisco Sá Carneiro, fundador do partido que é o esteio principal do governo actual.

José Manuel Catarino Soares (funcionário público aposentado)

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por Augusta Clara às 20:00

Sábado, 29.12.12

Amor afoito - Ana Moura

 

Ana Moura  Amor afoito

 

(letra de Nuno Figueiredo e música de Jorge Benvinda)

 

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por Augusta Clara às 22:00

Sábado, 29.12.12

Lisbon revisited (1926) - Fernando Pessoa

Fernando Pessoa  Lisbon revisited (1926)

 

(Carlos Botelho)

 

 

 

Nada me prende a nada.

Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.

Anseio com uma angústia de fome de carne

O que não sei que seja —

Definidamente pelo indefinido...

Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto

De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

 

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.

Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.

Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

 

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.

Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.

Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.

Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

 

Compreendo a intervalos desconexos;

Escrevo por lapsos de cansaço;

E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.

 

Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;

Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;

Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

 

Não, não sei isto, nem outra cousa, nem cousa nenhuma...

E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,

Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa

(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),

Nas estradas e atalhos das florestas longínquas

Onde supus o meu ser,

Fogem desmantelados, últimos restos

Da ilusão final,

Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,

As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.

 

Outra vez te revejo,

Cidade da minha infância pavorosamente perdida...

Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,

E aqui tornei a voltar, e a voltar,

E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,

Uma série de contas-entes ligadas por um fio memória,

Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

 

Outra vez te revejo,

Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

 

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,

Transeunte inútil de ti e de mim,

Estrangeiro aqui como em toda a parte,

Casual na vida como na alma,

Fantasma a errar em salas de recordações,

Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem

No castelo maldito de ter que viver...

 

Outra vez te revejo,

Sombra que passa através de sombras, e brilha

Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,

E entra na noite como um rastro de barco se perde

Na água que deixa de se ouvir...

 

Outra vez te revejo,

Mas, ai, a mim não me revejo!

Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,

E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -

Um bocado de ti e de mim!...

 

(in Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio (1914-1935), edição Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim) 

 

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por Augusta Clara às 20:00

Sábado, 29.12.12

A União Europeia em negação da democracia - José Goulão

   Economia estagnada ou mesmo em recessão em numerosos países, desemprego galopante que ultrapassou já os 26 milhões de pessoas, tensão social crescente, agravamento constante da crise financeira e das dívidas soberanas são alguns dos aspetos que marcaram na União Europeia um ano de 2012 que deve considerar-se nefasto, sobretudo para as cada vez mais vastas camadas das populações desfavorecidas.

A principal responsabilidade dos sinais enumerados é atribuída simplisticamente pelos dirigentes europeus, por sua conveniência, aos efeitos da crise financeira de 2007-2009 nascida nos Estados Unidos da América, aos supostos gastos excessivos de alguns países periféricos em relação às suas reais possibilidades e a uma suposta indisciplina orçamental de muitos dos 17 países da Zona Euro, com repercussões negativas na estabilidade da moeda única.

Todos estes aspetos têm inegável influência na situação de caos e deriva em que se encontram os 27 países da União Europeia, que serão 28 a partir de 1 de janeiro com a entrada da Croácia. Há que ressalvar, para já, que a acusação de gastos excessivos feita em relação a alguns países poderá ser de alguma forma procedente desde que se tenha em conta que esse dito despesismo não foi sequer destinado às populações que agora sofrem as principais consequências; isto é, o dinheiro em causa não serviu em primeiro lugar para o desenvolvimento do Estado social mas sim negócios opacos, corrupção e procedimentos faraónicos de classes dirigentes degeneradas pelo exercício do poder.

Feita esta ressalva, essencial, e reconhecendo que tanto a crise financeira do fim da década anterior como a indisciplina orçamental poderão ter a sua quota parte de responsabilidade na situação, elas não representam, porém, a causa profunda do beco para já sem saída em que entrou a União Europeia.

Não é novidade que o chamado projeto europeu há muito tem vindo a ser adulterado pelos que sucessivamente o vão dirigindo, com vertiginosa aceleração a partir do início da década de noventa ecoando a euforia resultante da queda da União Soviética e respetiva zona de influência, aproveitada pela ortodoxia neoliberal europeia e mundial para assaltar e tomar conta dos centros de decisão da União e do mundo em geral. O Tratado de Maastricht, a criação do Euro como moeda única à imagem e semelhança do antigo marco alemão e a assimilação descontrolada e sem cuidar de princípios mínimos de numerosos países da zona que estava para lá do muro de Berlim, incluindo o take-over do capitalismo alemão sobre a antiga RDA, colocaram num ápice a União Europeia na rota neoliberal, a anarquia capitalista.

O ano de 2012 foi uma réplica agravada do ano anterior como 2013 será uma sequela ainda mais nociva do que 2012 para aqueles, a grande maioria, que são as vítimas da política única exercida na União - ainda que os partidos dirigentes possam ter diferentes designações. A União Europeia é dirigida, em traços gerais, por uma coligação de conservadores e sociais democratas, uma elite governante que fechou as portas a quaisquer outras opções e impõe uma política única decorrente da aplicação do ultraliberalismo económico.

A crise dos défices públicos e das dívidas soberanas, que dizem ser a raiz principal, ou única, da situação dramática e eventualmente irreversível em que a União Europeia se encontra, são circunstâncias empoladas de modo a atingir objetivos que se vão tornando cada vez mais claros: a implantação generalizada do neoliberalismo puro e duro no qual os interesses dos mercados se impõem irremediavelmente aos das pessoas; a sobrevivência e primazia do Euro como moeda única servindo a qualquer preço os interesses alemães; a desvalorização contínua do valor e da dignidade do trabalho na sociedade.

Estes objetivos caracterizam, como foi visível durante todo o ano de 2012, as políticas impostas aos governos para combater as crises das dívidas e dos défices e que em casos extremos, como na Grécia, na Irlanda, em Portugal e em breve noutros países como a Espanha, a Itália, Chipre, são desenvolvidas sob regimes de protetorado exercidos pela troika – conjugação da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A estratégia de ataque à atividade laboral é exemplar quanto ao espírito desumano e mercantilista que está na origem desta política. A liquidação de direitos laborais, a liberalização forçada de horários, a supressão dos vínculos, substituídos pela precariedade, a facilidade de despedir, a redução praticamente a zero das indemnizações por despedimento transformam os trabalhadores em objetos ao dispor da vontade arbitrária das entidades patronais. Estes recuos, que chegam a atingir 150 anos na história do movimento social europeu, farão com que em breve cada cidadão tenha de ficar eternamente grato a um empresário que lhe ofereça um emprego em quaisquer condições. Na União Europeia de 2012 caminhou-se velozmente para que o trabalho deixe de ser um dever para se transformar numa dádiva de alguém a quem apetece ou não ser “generoso”.

O ano de 2012 foi o período em que se tornou evidente que as medidas aplicadas por Bruxelas não apenas não resolvem como até agravam os problemas que dizem combater. As dívidas soberanas continuam a crescer, os défices não descem apesar dos cruéis sacrifícios sociais impostos, o desemprego disparou, as economias mergulharam em recessão profunda. Para alcançar esses resultados, afinal negativos, cortaram-se salários, incluindo os mínimos, eliminaram-se subsídios sociais, amputaram-se violentamente reformas e pensões sociais, liberalizaram-se os despedimentos, provocaram-se subidas brutais de impostos, feriram-se de morte setores económicos vitais em vários países. Além disso, quando os bancos se queixam de dificuldades, os governos da União obrigam imediatamente os cidadãos a contribuir, seja através de medidas fiscais seja de reforço da austeridade, para que tais entidades se reequilibrem, mantendo os seus responsáveis regalias e mordomias de que nunca abdicam seja qualquer for o grau de crise.

Este é, em termos globais, o preço de centenas de milhões de europeus pagam para que a Alemanha, o único país que exporta mais do que importa, possa beneficiar de um Euro que lhe permita tirar dividendos dessa vantagem.

A crueldade social tornada regime político é a face mais visível de uma dramática degeneração de valores que contraria tudo quanto é o discurso oficial dos dirigentes da União Europeia. A política oficial da União Europeia põe em causa os mais elementares direitos humanos dos seus cidadãos, incluindo o direito à vida porque a miséria, a fome e os problemas no acesso à saúde são atualmente flagelos que matam impiedosamente.

A maior de todas as vítimas da situação europeia é, por tudo isto, a democracia. De tempos a tempos os cidadãos votam, mas o destino imediato das suas vontades assim expressas, com base em programas que lhes são apresentados, é o caixote do lixo. O programa das organizações com “vocação para governar” são chorrilhos de mentiras e os eleitos, tanto nos parlamentos como nos governos, ignoram em absoluto o que prometeram anteriormente, ou fazem mesmo o contrário do que ficou estabelecido nesses compromissos com o povo. A União Europeia está em negação da democracia não apenas porque já tolera governos formados por pessoas que nem sequer se apresentaram às urnas, como aconteceu na Grécia e em Itália durante 2012. O caso é muito mais grave e epidémico: nenhum governo da união Europeia atua de acordo com o que prometeu aos seus cidadãos – o mesmo acontecendo aliás com o Parlamento Europeu, único órgão pan-europeu eleito por sufrágio direto.

O ano de 2012 fica para a História como aquele em que se confirmou que a União Europeia não vive já em democracia apesar de continuarem a existir – e com capacidade de decisão ínfima – instituições decorrentes do sufrágio universal que agem como se não estivessem vinculadas à vontade dos eleitores, agredindo-os em vez de lhes proporcionarem uma sociedade digna para viver.

Absurdo dos absurdos, 2012 foi o ano em que o Comité Nobel de Oslo decidiu atribuir o Prémio Nobel da Paz à União Europeia – mancha negra e definitiva sobre quem outorgou e quem recebeu.

O escândalo não resulta apenas do facto de países da União Europeia, e em alguns casos a própria União, estarem envolvidos em guerras como a do Afeganistão, a do Iraque, a da Líbia, agora a da Síria acompanhando a política imperial norte-americana. A União Europeia é igualmente parte das ameaças bélicas contra o Irão, da liquidação das possibilidades de paz na Palestina dando de facto cobertura às ilegalidades de Israel, da manutenção da ocupação ilegal do Saara Ocidental por Marrocos.

O escândalo do Nobel resulta em primeiro lugar da arbitrária e cruel guerra social que as estruturas dirigentes da União Europeia conduzem contra as esmagadoras maiorias das populações dos países membros. Este é o lado mais negro e visível do estado de negação da democracia e de vigência de um regime global autoritário em que vive a União.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 29.12.12

A História pode dar alguma ajuda - VII- Carlos Leça da Veiga

 

   No dia 19 de Novembro de 1884, já lá vão 128 anos, iniciou-se o Congresso de Berlim ou, na designação germânica, o Congresso do Congo.

Tratou-se dum acontecimento político com um significado imenso para a evolução política de vários estados europeus, para aqueloutra bem dolorosa das populações indígenas do Continente africano e, também – vistas as coisas à distância de quase um século – serviu para a consagração – inapropriada – das fronteiras dos novos estados africanos que, sem tino, ficaram fixadas conforme os limites deixadas pelos interesses próprios dos antigos colonizadores.

Se para os europeus, exceptuem-se os portugueses, os resultados imediatos daquele Congresso – no mínimo esses – só podem considerar-se, política e economicamente, como muito bons, para os povos africanos – jamais ouvidos numa matéria do seu interesse primordial – os prejuízos foram de quase toda a ordem e, de facto, uma realidade que haveria de prosseguir por, sensivelmente, mais um século. Com efeito, os estados europeus, sob a capa protectora das melhores intenções humanitárias, desde logo aquelas de índole civilizacional, demonstraram, a prazo muito breve, que nada mais era dos seus interesses que não fosse a exploração mais variada e mais intensa dos territórios conquistados inclusive, ressalte-se, aquela imensamente vergonhosa, como foi, a da impiedosa exploração humana. Se a escravatura – como no Congresso foi concluído – muito lentamente, teve de ter o seu fim, não tardaram a aparecer novas modalidades de servidão humana capazes duma ignomínia desmesurada que, vistas as coisas com a justeza mais devida, foi muito para além de quanta vinha de trás.

O Congresso foi convocado pelo Chanceler da Prússia, Otto von Bismak e aconteceu na sequência duma ideia apresentada, nesse 1884, por Barbosa du Bocage, ministro dos Negócios Estrangeiros do governo português que, em nome do governo de Portugal, defendia o projecto da união territorial de Angola a Moçambique e, assim, constituir um longo e largo corredor através do “hinterland” africano que incluiria todo o curso do rio Zambeze, uma via comercial com potencialidades inesgotáveis.

Se no século XVII essa ambição portuguesa de expansão colonial para o interior africano já tinha tido como defensores alguns portugueses directamente envolvidos na exploração do espaço angolano foi, em 1836, que o assunto tomou outro cariz pela vontade esclarecida dum ilustre militar e político, várias vezes Presidente do Ministério, Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, Marquês de Sá da Bandeira. Com efeito, face à recente Independência do Brasil no ano de 1822, o ministro Sá da Bandeira, em carta notabilíssima dirigida à Rainha Maria II, chamava à atenção para o prejuízo económico sofrido com esse acontecimento e, para remediá-lo, recomendava, com muito empenho que, em África, concretamente em Angola, era imperioso – por ser exequível – construir-se um novo Brasil já que, com essa iniciativa, ganhar-se-iam novas fontes de riqueza. Os dirigentes nacionais de então, conhecida, como foi, não só a pequenez da sua acção política – uma coisa mera e estritamente paroquial – mas, sobretudo, as suas inquestionáveis ausências de saberes, o estratégico desde logo, ficaram indiferentes aos propósitos de Sá da Bandeira – era uma tarefa que dava trabalho – e a oportunidade duma realização colonial de tanto fôlego, em definitivo, foi perdida. 

Em 1877, quarenta e um anos após Sá da Bandeira, o Ministro J. Andrade Corvo, reavivou o tema mas sem conseguir obter o sucesso parlamentar mais merecido acabou por resignar ao cargo. Em 1884, sete anos após – quarenta e oito depois de Sá da Bandeira – coube a vez de voltar à carga ao Ministro Barbosa du Bocage e o projecto a ser apresentado ao Congresso de Berlim, foi o conhecido Mapa Cor-de-Rosa que, bom grado a aprovação da generalidade dos congressistas, teve a oposição frontal e definitiva da Inglaterra.

Em 1836, na época de Sá da Bandeira, é muito admissível que, sem quaisquer contratempos, fosse consentida a Portugal a tão desejada ocupação do “hinterland” africano. Foi a oportunidade perdida já que, então, não existiam as ambições desmedidas do magnata e imperialista Cecil Rhodes, a Inglaterra, por esses tempos, estava longe de querer apropriar-se da ligação terrestre do Cairo ao Cabo e, muitíssimo importante, o direito à posse de colónias prosseguia regulado pelo direito histórico – o da descoberta – e não pelo direito da ocupação efectiva como, depois, na Conferência de Berlim, entre outras conclusões, passou a ser exigido pela avidez colonial das potências europeias.

Em 1886, mau grado o insucesso português de 84 na Conferência de Berlim, Portugal insistiu nos seus propósitos e assinou convénios tanto com o Estado Francês como, por igual, com o Estado Germânico e neles ficou assente que o nosso País tinha direito a realizar a ligação de Angola à Contra-Costa e a fazê-la na conformidade do desenhado no Mapa Cor-de-Rosa.

Com que interesses procederam os estados continentais europeus – o germânico ou o dos francos – ao consideraram acertados e viáveis os projectos portugueses antevistos no Mapa Cor-de-Rosa? Terão querido contrariar a Inglaterra por intermédio de Portugal?

Na impossibilidade deles mesmos irem muito longe numa confrontação política com os ingleses, terão pretendido que fosse Portugal a cometer essa aventura?

Os desenvolvimentos posteriores permitem concluir que a responsabilidade dessa manobra verdadeiramente vergonhosa tenha tido sede no recente império germânico que, ontem como hoje – são tantos os seus desígnios ínvios – nunca desistiu de querer perturbar, utilizar, senão limitar, a soberania portuguesa como, por igual – a História não mente e tem muitas repetições – a de todos os demais estados europeus. No século XIX, para a política interesseira mas muito cautelosa de Bismark, desfazer a aliança portuguesa com a Inglaterra podia ser um passo com muito significado para retirar á maior potência marítima as suas escalas imprescindíveis na África portuguesa que, bem sabido, eram fulcrais para o controlo militar efectivo das suas rotas marítimas no Atlântico Sul, algo que era indesejado pelos germânicos, porém, incapazes de, só por si, conseguirem superar a sua demonstrada escassez naval militar. 

É inaceitável que, tanto o governo português como a sua diplomacia um, ou outra, não estivessem a par dos projectos de expansão africana dos ingleses pelo que, é incompreensível aceitar que Portugal, com limitadíssimas disponibilidades militares, pretendesse contrariar os desejos da Inglaterra, a sua velha aliada, salvo se, para tal, não tenha havido um apoio convincente duma, ou de ambas, das potências centro-europeias, adversárias tradicionais dos ingleses.

Assim, apoiados nos convénios de 1886, celebrados com os francos e com os germânicos já depois dos resultados da Conferência de Berlim, as forças militares portuguesas, mau grado as suas possibilidades restritas, depois de terem ocupado o vale do Zambeze, a região de Niassa, o planalto do Bié e o território de Barotze, em 1889, sob o comando de Serpa Pinto, ocuparam o Alto do Chire para, assim, ser possível iniciar a construção dum caminho de ferro do lago Niassa até ao Indico. Estava dado um passo de grande arrojo mas, entenda-se, dado em falso.

Não muito tempo tinha passado e a Inglaterra, em 11 de Janeiro de 1890, face às ocupações que considerou prejudiciais ao seu crescimento tentacular no Continente africano fez um ultimato ao governo português para que, sem qualquer demora, abandonasse os territórios ocupados pelo seu exercito. Como é conhecido, com rapidez, obteve o que pretendia e assim aconteceu aquilo a que a História portuguesa rotulou, desde logo, como um comportamento ofensivo, aviltante e degradante cometido pela Inglaterra.

Dever-se-á perguntar se a Inglaterra imperial, uma aliada centenária de Portugal e, reconheça-se, um garante primordial face às nunca desmentidas ambições do reino de Castela teve, ou não, razão para opor-se à pretensão colonial portuguesa?

É preciso não esquecer que não muitos anos atrás a Inglaterra, por três vezes, foi um instrumento decisivo no combate bem sucedido às invasões napoleónicas e que, também, pelos anos vinte desse mesmo século, com a sua ajuda, embora interessada, o poder político português, depois duma guerra civil, recaiu sobre ramo liberal dos Braganças.

Chamar à Inglaterra de “pérfida Albion” terá sido uma designação ajustada?

No passado século XIX querer optar-se pelo Estado Germânico, em detrimento do Inglês foi um erro político que só pode entender-se como uma opção de feição meramente ideológica – o germanofilismo – e, como tal, desprovida do mais elementar sentido estratégico.

Desde pouco depois da Restauração de 1640 que a opção estratégica nacional passou a ser em favor da velha aliança com a Inglaterra já que, em 1648, no Congresso de Munster, o reino francês abandonou Portugal. Por muitas acusações que podem e devem fazer-se à conhecida prepotência da Inglaterra imperial, em seu favor ficou – tem de repetir-se – a ajuda decisiva na expulsão das tropas napoleónicas e, também, anos depois, no apoio fundamental à vitória da causa liberal.

A História pode dar uma ajuda na compreensão de que quaisquer alianças com os estados continentais europeus – a União Europeia (EU) será o melhor dos exemplos – foram e serão uma anomalia política que só merece reprovação. Os resultados da integração de Portugal na EU – uma afirmação maligna do federalismo centro-europeu – por desgraça, estão à vista e, podem medir-se, muito em principal, pela perda demonstrável, constante e sucessiva, da soberania nacional e, também, pelo grau crescente de dificuldades económicas e financeiras que o eixo Paris-Berlim impõe a Portugal.

Nos anos quarenta do século XX, quando o nazismo imperava no país dos hunos, em Portugal, as hostes germanófilas do salazarismo vigente, por força da sua perversidade nacional-socialista, pretenderam empurrar Portugal para os braços duma colaboração activa com o nazismo. Como ficou a constar – à época foi voz corrente – para poder dar-se socorro político à posição pró inglesa do ditador português – uma sábia conveniência estratégica – e, sobretudo, para fazer calar, senão travar, a poderosa influência germanófila coube a um monárquico muitíssimo conceituado, o Dr. José da Arruela, o trabalho de demonstrar que, para Portugal, só a aliança com a Inglaterra – uma potência marítima – era a opção aceitável. Num livro de leitura obrigatória, “O Imperativo Geográfico duma Aliança” ficaram expressas as razões que ainda hoje desacreditam e desautorizam qualquer aliança com os estados continentais da Europa.

A História, nestes momentos tormentosos que o País está a viver, pode dar alguma ajuda!

 

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por Augusta Clara às 15:00

Sexta-feira, 28.12.12

A case of you - Ana Moura

 

Ana Moura  A case of you

 

(letra e música de Joni Mitchell

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sexta-feira, 28.12.12

Os Três Reis do Oriente - Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen  Os Três Reis do Oriente

 

(Mantegna)

 

 

(conclusão)

 

 

Baltasar

 

 

 

III 

 

O rei Baltasar amava a frescura dos jardins e sorria ao ver na água clara dos tanques o reflexo da sua cara cor de ébano.

E amava a alegria, o rumor e a abundância dos banquetes, e muitas vezes as suas festas duravam até ao romper do dia.

Porém, certa madrugada, depois de se terem retirado todos os convivas, o rei ficou na grande sala, sozinho com um jovem escravo que tocava flauta.

E pareceu-lhe que a melodia desenhava no ar o contorno de um espaço vazio.

Então o seu coração ficou pesado de tristeza, e Baltasar pensou: «Será possível que um dia eu me retire da vida como um conviva saciado que se retira de um banquete? Ou terei sempre a mesma sede, a mesma fome, o mesmo desejo dos momentos e dos dias?»

E tendo pensado isto atravessou a porta da sala e saiu para o jardim.

Cá fora, na luz indecisa da antemanhã, o jardim parecia suspenso. A bruma confundia o desenho claro dos tanques e diluía no ar o contorno das ramagens.

Baltasar caminhou longamente entre flores e palmeiras até romper o Sol. E quando já era dia chegou a um pequeno terraço que ficava no extremo do jardim. Debruçou-se no parapeito e viu, do outro lado da rua estreita, um homem jovem, encostado a uma parede, que o olhava.

Baltasar ficou imóvel como se o rosto do outro lhe tivesse batido na cara. Ou como se o rosto do outro de repente fosse o seu rosto. Ou como se pela primeira vez na sua vida tivesse visto a cara de outro homem.

O que naquele rosto mais o surpreendia era a nudez, a evi­dência nua. Era como se naquele rosto o cerimonial da vida tivesse retirado a sua máscara e a realidade mostrasse, sem ne­nhum véu, o abandono, a dor consciente, a condição do ho­mem.

Era um rosto de homem jovem e magro onde os ossos dese­nhavam, sem nenhum equívoco, o ideograma da fome. A triste­za subia da mais profunda morada da memória e aflorava intei­ra à tona das pupilas. A paciência, como uma leve cinza, poisava na testa, sobre os beiços, sobre os ombros, E havia nessa paci­ência uma doçura tal que Baltasar sentiu de súbito uma vonta­de aguda de chorar e de se prostrar com a sua própria cara en­costada à terra. E perguntou:

—  Tu, quem és?

—  Tenho fome — murmurou o homem.

—  Entra — disse Baltasar. — Vou mandar que te sirvam os melhores frutos, as melhores carnes, os melhores vinhos. Vou mandar que lavem os teus pés com água perfumada numa bacia de ouro. Vou mandar que te vistam de púrpura. Vou mandar aos meus músicos que toquem para te aprazer as mais belas melo­dias. Vou mandar vir para ti a tocadora de cítara. Eu próprio colocarei debaixo dos teus pés o tapete mais precioso, e ficarei sentado ao teu lado para desfazer a tua solidão, e escutarei as tuas palavras para que possas tomar parte na alegria e para que as fontes e os jardins do palácio apaguem a tua tristeza.

Porém o homem, ouvindo estas palavras, assustou-se. No rosto negro, debruçado na luz branca do terraço, reconheceu com terror o rosto do rei. E pensou:

«Ai de mim! Para que me chama o rei? Vim espreitar o seu palácio e isto sem dúvida é um crime. É melhor que eu fuja antes que os guardas cheguem.»

Pois aquele homem, como todos os muito pobres, sabia que o mundo era governado por leis que o perseguiam e condenavam, e por isso temia a cada instante ser acusado e preso por uma razão desconhecida. Caminhava num país que não era o seu e onde tudo era para ele insegurança e temor.

E por isso fugiu, sumiu-se ofegante entre as curvas da ruela estreita, sem ver o gesto de Baltasar que o chamava.

E no palácio o rei disse aos seus guardas:

— Ide e procurai nas ruas um homem jovem magro, vesti­do de farrapos e que tem os olhos cheios de tristeza e de paci­ência.

Porém, ao cair da tarde, os guardas voltaram e disseram:

— Encontrámos tantos homens esfarrapados, tristes e paci­entes que não soubemos distinguir aquele que tu procuras.

Por isso na manhã seguinte o rei Baltasar, tendo despido os seus vestidos de púrpura, envolveu-se num manto de estamenha e saiu sozinho do palácio para procurar o homem.

Desceu pelas ruelas estreitas da encosta, e, longe das gran­des avenidas triunfais onde a brisa faz sussurrar as folhas duras das palmeiras, percorreu longamente os bairros pobres da beira do rio. Os carregadores do cais ergueram para ele a face som­bria, e o homem que vendia os sapatos de corda poisou no olhar do rei o seu olhar cansado. Viu homens dobrados sob os fardos, viu os que puxavam carroças como bois, lentos e pacientes como bois, viu os que usavam grilhetas nos pés, viu os que desliza­vam rente às paredes, silenciosos como sombras, viu os que gritavam, os que choravam, os que gemiam. Viu os que estavam sós, imóveis, encostados aos muros, atónitos, interrogando, para além da voz rouca das ruas, o silêncio opaco, fitando em sua frente a estrada recta do silêncio. Viu os que pescavam pequenos peixes nas águas sujas do rio. Viu os que tinham a cara cor de trapo e as mãos feitas de cinza, cinza leve que voa­va com o vento. Viu a sombra verde, o reino da paciência, o país da desolação sem margens, o império dos humilhados, o lado esquerdo da vida, a Pátria deserdada, o fundo do mar da cidade.

 

*

E no dia seguinte o rei reuniu os seus ministros e disse-Ihes:

— Mandai distribuir os meus tesoiros e mandai distribuir as reservas acumuladas nos armazéns e nos celeiros. E reparti tudo entre os esfomeados e os pedintes.

Tendo ouvido isto, os ministros retiraram-se para deliberar.

E voltaram passados três dias, e responderam:

— Os teus tesoires não chegam para resgatar os escravos, e as reservas dos teus armazéns não chegam para saciar os esfomeados. Nem o teu poder chega para alterar a ordem da cidade. Se cumpríssemos aquilo que mandaste, os fundamentos que nos sustentam e os muros que nos protegem ruiriam. O teu desejo é contrário ao bem do reino.

E o rei lhes respondeu:

— Procuro outra lei e procuro outro reino.

Então os ministros retiraram-se, murmurando entre si:

— Vemos que ele nos trai.

 

 *

Na manhã seguinte, dirigiu-se Baltasar ao templo de todos os deuses.

E leu estas palavras gravadas na pedra do primeiro altar:

«Eu sou o deus dos poderosos e àqueles que me imploram concedo a força e o domínio, eles nunca serão vencidos e serão temidos como deuses.»

Seguiu o rei para o segundo altar e leu:

«Eu sou a deusa da terra fértil e àqueles que me veneram concedo o vigor, a abundância e a fecundidade e eles serão belos e felizes como deuses.»

Encaminhou-se o rei para o terceiro altar e leu:

«Eu sou o deus da sabedoria e àqueles que me veneram concedo o espírito ágil e subtil, a inteligência clara e a ciência dos números. Eles dominarão os ofícios e as artes, eles se orgu­lharão como deuses das obras que criaram.»

E tendo passado pelos três altares, Baltasar interrogou os sacerdotes:

— Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humi­lhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.

Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam: — Desse deus nada sabemos.

 

*

Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desapare­cido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse:

— Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humi­lhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?

 

*

A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.

E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira.

 

(in Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares, Figueirinhas)

 

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por Augusta Clara às 17:00

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