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Jardim das Delícias



Sábado, 31.01.15

Adagio en mi pais - Alfredo Zitarrosa

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Alfredo Zitarrosa  Adagio en mi pais

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sábado, 31.01.15

Hoje em Madrid - La marcha del cambio.

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por Augusta Clara às 14:30

Sábado, 31.01.15

Os gregos não querem ver mais a Troika e estão a pôr ao rubro a direita europeia

 

 

“Não temos intenção de cooperar com uma comissão de três membros, cujo objectivo é aplicar um programa cuja lógica consideramos antieuropeia”,

 

O responsável do Eurogrupo segredou ao Ministro das Finanças grego "Acabou de matar a Troika" ao que Varoufakis respondeu com um simples “WOW!”

 

 

Leia e veja a informação completa aqui.

 

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por Augusta Clara às 13:00

Sábado, 31.01.15

A Grécia em Portugal - Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira  A Grécia em Portugal

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Expresso Online, 30 de Janwiro de 2015

 

   A vitória do Syriza terá efeitos em toda a Europa. Já está a ter. Os problemas na aprovação da continuação das sanções à Rússia são apenas o primeiro exemplo. Porque o governo grego é quezilento? Não. Porque leva a sério uma ideia simples: a União Europeia é uma união de Estados soberanos com igualdade de direitos e deveres. E todos têm uma palavra a dizer sobre o que a União decide. Isto, que devia ser óbvio, tem estado ausente da lógica política da União. A UE é hoje uma união de três ou quatro Estados que tomam decisões que se aplicam a 28. E é isto, entre outras coisas, que está a matar o projeto europeu. Deste ponto de vista, a entrada em cena da um país que pretende ganhar peso político na União, até porque o desfecho da renegociação da sua dívida depende desse peso, é um elemento fundamental para qualquer transformação europeia.

Há, no entanto, uma coisa de que não tenho dúvidas: será difícil a Grécia conquistar uma solução equilibrada para sair da asfixiante crise em que se encontra e, ao mesmo tempo, ficar no euro e na União Europeia, sem encontrar aliados noutros Estados. E será difícil os periféricos reequilibrarem os desequilíbrios da construção europeia, da arquitetura do euro e da relação da Europa com a sua crise financeira sem aproveitarem esta oportunidade. A vitória do Syriza é, independentemente da convicção ideológica de cada um, uma oportunidade histórica para mudar as regras do jogo. Insistir no "nós não somos a Grécia" é insistir no isolamento. Em vez da força de uma aliança de quem tem interesses coincidentes, esperam-se favores por bom comportamento. Já nem sublinho a cobardia do raciocínio. Ele é, antes disso, estúpido.

A vitória do Syriza cria, em Portugal e noutros países, novas oportunidades e dificuldades a quem se candidata ao poder. Já não basta falar da mera gestão das imposições europeias. A Europa passou a ser o palco de um confronto sobre o seu próprio futuro.

Deste ponto de vista, as posições de solidariedade política com o novo governo grego, vindas de sectores que não dividam com ele convicções ideológicas, não são, como alguns julgam, sinal de "radicalismo". São sinal de pragmatismo. Portugal, Espanha, Irlanda ou até Itália e França só poderão voltar a por na agenda uma solução europeia para as dívidas soberanas e para a disfuncionalidade do euro se tiverem um aliado que comece por romper consensos gastos. É no sucesso de Alexis Tsipras que se joga o seu poder negocial.

Deste ponto de vista, a vitória do Syriza cria, em Portugal e noutros países, novas oportunidades e dificuldades a quem se candidata ao poder. Já não basta falar da mera gestão das imposições europeias. A Europa deixou de ser uma entidade externa que nos impõe coisas desagradáveis e passou a ser o palco de um confronto sobre o seu próprio futuro. E todos os Estados estão obrigados a tomar uma posição. Deste ponto de vista, a vida fica dificultada para quem não tem nada a dizer sobre a Europa que deseja e se habituou a manter uma postura passiva de "bom aluno". Em Portugal é, para o PS, uma autêntica revolução. Que exibirá as suas divergências internas.

Para as forças à esquerda do PS, o primeiro governo mais à esquerda a tomar posse num país importante para esta crise, também não será fácil de gerir. As escolhas difíceis que Tsipras vai fazer e o pragmatismo a que está obrigado para vencer o braço de ferro com Merkel confrontarão o hábito do discurso irredutível sobre tudo, habitual em parte da esquerda portuguesa, com uma realidade sempre mais difícil. Deixar cair a exigência da saída da NATO e a escolha dos Gregos Independentes para aliado de governo foram só os primeiros sapos. O pragmatismo não deve ser a cultura da traição e da cedência permanente. Mas obriga a ter prioridades para escolher no que se cede e no que não se cede. Coisa que não se exige a quem não queira governar. Deste ponto de vista, o Syriza também vai ser muito pedagógico para o resto da esquerda.

Quanto à nossa direita, está só revoltada por Tsipras não ser Hollande.

Tresloucada e infantil, a reação de Passos Coelho à vitória do Syriza diz tudo. O seu discurso político está ao nível das caixa de comentários dos piores jornais. Quando vem a decadência política costuma notar-se mais a indigência intelectual. Percebe-se que o debate sobre o futuro deste país e da Europa já não vai passar por ali.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Sábado, 31.01.15

Alexis Tsipras e Betty Batziana, um casal que luta, lado a lado, pelo seu país

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Alexis Tsipras e Betty Batziana, um casal que luta, lado a lado, pelo seu país

 

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Alexis Tsipras tem a seu lado, não atrás, uma mulher forte como ele, engenheira electrotécnica que o incentivou, quando muito jovens, a entrar na política.

Leia aqui o texto, veja as fotografias e o vídeo.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 30.01.15

Una noche mas - Yasmin Levy

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Yasmin Levy  Una noche mas

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sexta-feira, 30.01.15

Carta Aberta de Alexis Tsipras aos Leitores do Handelsblatt

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Carta Aberta de Alexis Tsipras aos Leitores do Handelsblatt

 

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Publicado no original em 13 de Janeiro de 2015 e traduzido pelo Aventar

 

   A maior parte de vós, caros leitores do Handelsblatt, terá já uma ideia preconcebida acerca do tema deste artigo, mesmo antes da leitura. Rogo que não cedais a preconceitos. O preconceito nunca foi bom conselheiro, principalmente durante períodos em que uma crise económica reforça estereótipos e gera fanatismo, nacionalismos e até violência.
Em 2010, a Grécia deixou de conseguir pagar os juros da sua dívida. Infelizmente, as autoridades europeias decidiram fingir que o problema poderia ser ultrapassado através do maior empréstimo de sempre, sob condição de austeridade orçamental, que iria, com uma precisão matemática, diminuir drasticamente o rendimento nacional, que serve para pagar empréstimos novos e antigos. Um problema de insolvência foi tratado como se fosse um problema de falta de liquidez.
Dito de outro modo, a Europa adoptou a táctica dos banqueiros com pior reputação, que não reconhecem maus empréstimos, preferindo conceder novos empréstimos à entidade insolvente, tentando fingir que o empréstimo original está a obter bons resultados, adiando a bancarrota. Bastava bom senso para se perceber que a adopção da táctica “adiar e fingir” levaria o meu país a uma situação trágica. Em vez da estabilização da Grécia, a Europa estava a criar as condições para uma crise auto-sustentada que põe em causa as fundações da própria Europa.
O meu partido e eu próprio discordamos veementemente do acordo de Maio de 2010 sobre o empréstimo, não por vós, cidadãos alemães, nos terdes dado pouco dinheiro, mas por nos terdes dado dinheiro em demasia, muito mais do que devíeis ter dado e do que o nosso governo devia ter aceitado, muito mais do que aquilo a que tinha direito. Dinheiro que não iria, fosse como fosse, nem ajudar o povo grego (pois estava a ser atirado para o buraco negro de uma dívida insustentável), nem sequer evitar o drástico aumento da dívida do governo grego, às custas dos contribuintes gregos e alemães.
Efectivamente, passado menos de um ano, a partir de 2011, as nossas previsões confirmaram-se. A combinação de novos empréstimos gigantescos e rigorosos cortes na despesa governamental diminuíram drasticamente os rendimentos e, não só não conseguiram conter a dívida, como também castigaram os cidadãos mais frágeis, transformando pessoas que, até então, haviam tido uma vida comedida e modesta em pobres e mendigos, negando-lhes, acima de tudo, a dignidade. O colapso nos rendimentos conduziu milhares de empresas à falência, dando um impulso ao poder oligopolista das grandes empresas sobreviventes. Assim, os preços têm caído, mas mais lentamente do que ordenados e salários, reduzindo a procura global de bens e serviços e esmagando rendimentos nominais, enquanto as dívidas continuam a sua ascensão inexorável. Neste contexto, o défice de esperança acelerou de forma descontrolada e, antes que déssemos por ela, o “ovo da serpente” chocou  – consequentemente, os neo-nazis começaram a patrulhar a vizinhança, disseminando a sua mensagem de ódio.
A lógica “adiar e fingir” continua a ser aplicada, apesar do seu evidente fracasso. O segundo “resgate” grego, executado na Primavera de 2012, sobrecarregou com um novo empréstimo os frágeis ombros dos contribuintes gregos, acrescentou uma margem de avaliação aos nossos fundos de segurança social e financiou uma nova cleptocracia implacável.
Recentemente, comentadores respeitados têm mencionado a estabilização da Grécia e até sinais de crescimento. Infelizmente, a ‘recuperação grega’ é tão-somente uma miragem que devemos ignorar o mais rapidamente possível. O recente e modesto aumento do PIB real, ao ritmo de 0,7%, não indica (como tem sido aventado) o fim da recessão, mas a sua continuação. Pensai nisto: as mesmas fontes oficiais comunicam, para o mesmo trimestre, uma taxa de inflação de -1,80%, i.e., deflação. Isto significa que o aumento de 0,7% do PIB real se deveu a uma taxa de crescimento negativo do PIB nominal! Dito de outro modo, aquilo que aconteceu foi uma redução mais rápida dos preços do que do rendimento nacional nominal. Não é exactamente motivo para anunciar o fim de seis anos de recessão!
Permiti-me dizer-vos que esta lamentável tentativa de apresentar uma nova versão das “estatísticas gregas”, para declarar que a crise grega acabou, é um insulto a todos os europeus que, há muito, merecem conhecer a verdade sobre a Grécia e sobre a Europa. Com toda a frontalidade: actualmente, a dívida grega é insustentável e os juros não conseguirão ser pagos, principalmente enquanto a Grécia continua a ser sujeita a um contínuo afogamento simulado orçamental. A insistência nestas políticas de beco sem saída, e em negação relativamente a simples operações aritméticas, é muito onerosa para o contribuinte alemão e, simultaneamente, condena uma orgulhosa nação europeia a indignidade permanente. Pior ainda: desta forma, em breve, os alemães virar-se-ão contra os gregos, os gregos contra os alemães e, obviamente, o ideal europeu sofrerá perdas catastróficas.
Quanto a uma vitória do SYRIZA, a Alemanha e, em particular, os diligentes trabalhadores alemães nada têm a temer. A nossa tarefa não é a de criar conflitos com os nossos parceiros. Nem sequer a de assegurar maiores empréstimos ou, o equivalente, o direito a défices mais elevados. Pelo contrário, o nosso objectivo é conseguir a estabilização do país, orçamentos equilibrados e, evidentemente, o fim do grande aperto dos contribuintes gregos mais frágeis, no contexto de um acordo de empréstimo pura e simplesmente inexequível. Estamos empenhados em acabar com a lógica “adiar e fingir”, não contra os cidadãos alemães, mas pretendendo vantagens mútuas para todos os europeus.
Caros leitores, percebo que, subjacente à vossa “exigência” de que o nosso governo honre todas as suas “obrigações contratuais” se esconda o medo de que, se nos derem espaço para respirar, iremos regressar aos nossos maus e velhos hábitos. Compreendo essa ansiedade. Contudo, devo dizer-vos que não foi o SYRIZA que incubou a cleptocracia que hoje finge lutar por ‘reformas’, desde que estas ‘reformas’ não afectem os seus privilégios ilicitamente obtidos. Estamos dispostos a introduzir reformas importantes e, para tal, procuramos um mandato do povo grego e, claro, a cooperação dos nossos parceiros europeus, para podermos executá-las.
A nossa tarefa é a de obter um New Deal europeu, através do qual o nosso povo possa respirar, criar e viver com dignidade.
No dia 25 de Janeiro, estará a nascer na Grécia uma grande oportunidade para a Europa. Uma oportunidade que a Europa não poderá dar-se ao luxo de perder.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Sexta-feira, 30.01.15

PT e TAP: O milagre da filosofia - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  PT e TAP: O milagre da filosofia

 

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   Instado (boa palavra!) pela bancada parlamentar do BE a impedir a venda da PT Portugal, o primeiro-ministro reiterou que a filosofia deste Governo passa por não interferir em matéria privada.

Instado (esta é minha) pela opinião pública a não privatizar a TAP, Passos Coelho reiterou que a filosofia deste Governo é transformar a matéria pública em privada, para depois não interferir nela e assim manter a sua pureza ideológica e ser filosoficamente coerente.

A filosofia (como Passos Coelho chama à sua governação) do governo para a TAP é fazer dela uma PT com dois claros objectivos: proporcionar à TAP o indesmentível e claro sucesso que a PT tem sido, em particular nos últimos dias, e deixar de interferir nela, do género eles que voem para onde quiserem e não me chateiem.

O caderno de encargos da venda da TAP é entre o confuso e o obtuso, como já era o da falecida PT, mas, segundo Passos Coelho, garante tudo o que a TAP actualmente é, como se prometeu com a PT, quartel-general em Portugal. Voos preferenciais para as rotas da emigração portuguesa e os destinos de interesse estratégico, manutenção das aeronaves segundo os manuais, tripulações competentes, enfim, uma companhia de bandeira como a que hoje existe, decente e até, segundo a última versão de Passos Coelho, sem despedimentos nos primeiros 30 meses daquele tempo, em que, segundo a filosofia de Passos Coelho, segundo a filosofia deste governo, já não interferirá em matéria privada.

Ninguém acredita que apareça um comprador que cumpra estas condições (ou compra e não cumpre, ou cumpre e não compra) e o início do processo da venda da TAP a 8 meses de eleições é mais do que uma intenção duvidosa: é uma confissão de intenções ocultas. Ninguém nem os sindicalistas da TAP que assinaram o acordo com o governo a prometer estas solenes garantias por parte do comprador da companhia acreditam nas promessas. Ou então estudaram filosofia na escola de Passos Coelho. Ou, tal como ele nos quer fazer acreditar, não devem ter ideia do que é uma companhia privada, comprada por fundos apátridas e gerida por mercenários pagos por cada escalpe feito. Ou então esperam receber uns restos dos despojos.

Seguindo a filosofia que Passos Coelho, instado, desenvolveu quanto à não interferência em matéria privada, conviria que ele explicasse aos cidadãos (e aos sindicatos) o que vai o governo fazer, sem intervir, claro, se o novo dono privado da TAP fizer como o dono da PT (e o da CIMPOR) tudo o que lhe apetecer ao contrário do que assinou? Lava como Pilatos as mãos. Salmodia que o governo é liberal e não se mete com negócios de empresas privadas e manda os ofendidos irem para tribunal.

É uma resposta de acordo com a filosofia do governo. Onde o ministro da saúde também filosofa quando diz aos familiares de um paciente abandonado numa maca e ali acabado de falecer: têm toda a razão, mas é um assunto privado, vão para os tribunais! O governo não interfere em matéria privada, como a das urgências.

Espera, o citado filósofo do ministério da saúde, que os tribunais ressuscitem os mortos, tal como Pedro Passos Coelho espera e promete que os tribunais, ao fim de umas décadas de trabalhos, reconstruam uma TAP, que entretanto já deve ter perdido até o nome, que viu serem vendidos dezenas de vezes os aviões, os edifícios, os serviços, as rotas, dispersas as tripulações.

Depois de muito instado, Passos Coelho reconheceu que vai começar a fazer milagres!

Quanto aos sindicatos que assinaram o acordo e estão à espera dos restos do saque com a prometida participação (10%?) no capital da empresa, devem reconhecer que acreditam em milagres…

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 29.01.15

Ricardo Paes Mamede no "Prós e Contras"

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 29.01.15

Entrevista com Yanis Varoufakis, ministro das Finanças do Governo do Syriza

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Entrevista com Yanis Varoufakis, ministro das Finanças do Governo do Syriza

 

Esquerda.Net, 27 de Janeiro de 2015

 

Nesta entrevista, para o público falante de alemão, dada a Johanna Jaufer da cadeia pública austríaca ORF, Varoufakis afirma: “A Europa não aprendeu com as lições da história e, enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união”.

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Yanis Varoufakis, ministro das Finanças do Governo do Syriza

 

Yanis Varoufakis é o ministro das Finanças do governo grego do Syriza. É um reconhecido economista greco-australiano, professor na Universidade do Texas e na Universidade de Atenas. Em março de 2014, foi um dos 74 economistas de 20 países que assinaram o manifesto internacional que apelou à reestruturação da dívida portuguesa e apoiou o manifesto das 70 personalidades portuguesas.

 

Você é há três semanas político profissional…

Duas semanas.

Teve que pensar muito? No seu blogue escreveu também que a decisão lhe dava pânico.

Foi uma decisão grave. Porque eu entro na política para realizar uma tarefa que sempre pensei que tinha que levar a cabo, e era-me dada a oportunidade de meter mãos à obra. Tem a ver com as negociações entre a Grécia e a União Europeia, em caso de vitória do Syriza: trata-se de um projeto e de uma perspetiva extremamente difíceis. Por outro lado, eu sou um académico, sou um cidadão, um cidadão ativo, de maneira que estou habituado a um tipo de diálogo em que o que se trata é que eu aprenda realmente consigo e você comigo: teremos desacordos, mas através desses desacordos, os nossos respetivos pontos de vista enriquecer-se-ão.

Não se trata de alguém se impor a outro…

Exato. Mas na política é pior: cada parte tenta destruir a outra parte – perante o público -, e isso é algo que me é alheio, algo que de nenhuma forma estou disposto a fazer.

E o que acontece com o seu trabalho na universidade? Fica suspenso?

Sim, efetivamente. Deixei a Universidade do Texas. Mantenho a minha cátedra na Universidade de Atenas – sem pagamento -, e espero que não passe muito tempo até regressar.

Está disposto a permanecer num governo por mais tempo?

Não. Não desejo fazer carreira política. Idealmente, o que quereria é que outra pessoa fizesse isto, e que o fizesse melhor que eu. Só que esta era a única forma de fazer algo que não poderia fazer de outro modo. Não sou um profeta, de modo que não lhe posso dizer onde estarei daqui a dois, três, cinco ou dez anos. Mas se me pergunta agora, o ótimo para mim seria que o nosso governo tivesse sucesso na renegociação de um acordo com a Europa que tornasse a Grécia sustentável, e que depois outras pessoas viriam, já se sabe… o poder deve ser rotativo, ninguém deveria prender-se a ele.

Algo que foi divulgado várias vezes na Alemanha e na Áustria é o assunto das reparações de guerra, porque a Alemanha se esquivou a pagar reparações propriamente ditas depois da II Guerra Mundial. Na sua opinião, por que aconteceu isso? Talvez porque alegaram que a Alemanha se encontrava dividida, e esperavam uma reunificação? Ou foi porque os norte-americanos alegaram que precisavam de uma Alemanha capaz de albergar as suas bases militares, o que deixava pendurados os reclamantes? Ou foi uma combinação de ambas as coisas?

Foi uma combinação. Nos anos 40, os Aliados tinham decidido converter de novo a Alemanha num país camponês. Propuseram o desmantelamento de 700 fábricas, e foram os norte-americanos que travaram esse plano. De maneira que, sim, destruíram 700, mas depois mudaram de ideias. Mudaram por razões que têm a ver com o modo como os EUA estavam a desenhar o capitalismo global: precisavam de uma moeda forte na Europa e de uma moeda forte na Ásia (que acabaram por ser o marco alemão e o iene japonês), e todo o projeto da União Europeia se construiu em torno desse plano. Na Europa nós gostamos de pensar que a União Europeia foi uma criação nossa. Não foi. Foi um desenho norte-americano que depois nós adotamos e que, certamente, era congruente com o que desejávamos, com as nossas aspirações. Parte desse desenho passava por estimular a economia alemã, tirá-la da depressão, tirá-la do poço em que se encontrava nos anos 40, e uma componente importante de qualquer tentativa de revigorar uma economia passa por aliviar a sua dívida, por um corte importante da dívida, pelo perdão de dívida. Assim, em 1953 foi organizada a Conferência da Dívida em Londres, da qual resultou um violento corte da dívida alemã em prejuízo de muitas nações, entre as quais a Grécia. Mas a Grécia é um caso especial, porque a Alemanha tinha contraído com ela uma dívida que não tinha com nenhuma outra nação: em 1943, a Kommandatur aqui, em Atenas, impôs ao Banco da Grécia um acordo pelo qual este banco imprimiria um montão de dracmas – dracmas de guerra— e fornecê-lo-ia às autoridades alemãs para que estas pudessem comprar material, financiar os seus esforços de guerra e acumular bens agrícolas para a Wehrmacht, etc. O interessante é que as autoridades alemãs assinaram um contrato: deixaram por escrito o montante de dinheiro que tomavam como empréstimo. Prometeram pagar juros. Foi, por conseguinte, um empréstimo formal. Os documentos existem ainda e encontram-se em poder do Banco (Central) da Grécia. Em nenhum outro país aconteceu algo parecido. De modo que isto é como uma dívida oficial, como um título, contraído com a Grécia em tempo de guerra pelo estado nazi alemão.

Pode dar números exatos?

Números exatos. Será escusado dizer que a dificuldade está em traduzir essa moeda de guerra, que muito rapidamente foi absolutamente inflacionada por causa da quantidade de dracmas imprimidos. As autoridades alemãs, ao aceitar esse empréstimo do Banco da Grécia e ao fazerem compras, desvalorizaram a moeda, o que teve enormes custos sociais secundários em toda a Grécia. É muito difícil calcular exatamente em quanto se traduz esse empréstimo em termos atuais, como se compõe o juro, como se converte, como se calcula o custo da hiperinflação causada… O meu ponto de vista é que somos parceiros; deveríamos deixar-nos de moralismos, deveríamos deixar de apontar-nos mutuamente com o dedo. A teoria económica bíblica – “olho por olho, dente por dente” - deixa todo o mundo cego e desdentado. Deveríamos, simplesmente, sentar-nos com o mesmo espírito com que os EUA se sentaram em 1953, sem levantar questões como: “os alemães merecem o castigo?”, “é culpa ou é pecado?”. Já sei que em alemão os dois conceitos - “culpa” e “dívida” - se expressam com a mesma palavra (Schuld), antónima de crédito. Deveríamos limitar-nos a levantar esta simples questão: como podemos voltar a tornar sustentável a economia social grega de modo que os custos da crise grega sejam minimizados para o alemão médio, para o austríaco médio, para o europeu médio.

Por que é que muitas pessoas da Europa setentrional não temeram que os cortes nos direitos laborais nos anos 90 pudessem ser presságio do mesmo tipo de coisas que agora estão a ocorrer aqui (na Grécia)?

Acho que tudo é culpa de Esopo. A sua fábula da formiga e da cigarra: a formiga trabalha duro, não desfruta da vida, guarda dinheiro (ou valor), enquanto a cigarra se limita a descansar ao sol, a cantar e a não fazer nada, e depois vem o inverno e põe cada uma no seu lugar. É uma boa fábula: desgraçadamente, na Europa predomina a estranhíssima ideia de que todas as cigarras vivem no Sul e todas as formigas no Norte. Quando, na realidade, o que há são formigas e cigarras em todo o lado. O que aconteceu antes da crise - é a minha revisão da fábula de Esopo— é que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul, banqueiros do Norte e banqueiros do Sul, por exemplo, se aliaram para criar uma bolha, uma bolha financeira que os enriqueceu enormemente, permitindo-lhes cantar e descansar ao sol, enquanto as formigas do Norte e do Sul trabalhavam, em condições cada vez mais difíceis, até nos tempos bons: conseguir que as contas quadrassem em 2003, em 2004, não foi nada fácil para as formigas do Norte e do Sul; e depois, quando a bolha, que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul tinham criado, estoirou, as cigarras do Norte e do Sul puseram-se de acordo e decidiram que a culpa era das formigas do Norte e das formigas do Sul. A melhor forma de fazer isso era confrontar as formigas do Norte com as formigas do Sul, contando-lhes que no Sul só viviam cigarras. Assim, a União Europa começou a fragmentar-se, e o alemão médio odeia o grego médio, o grego médio odeia o alemão médio. Não tardará que o alemão médio odiará o alemão médio, e o grego médio odiará o grego médio.

Isso já começou, não?

Sim, já se vê. E é exatamente o que ocorreu nos anos 30, e Karl Marx estava completamente equivocado quando disse que a história se repete como farsa. Aqui a história repete-se, simplesmente.

No tocante à decisão do Sr. Draghi de inundar o mercado com biliões de euros, vi que você disse que isso é como usar uma pistola de água num incêndio florestal.

Acho que o Sr. Draghi tem boas intenções. Quer manter unida a zona euro, e é muito competente. Faz o que pode, dadas as restrições que tem. Não tenho a menor dúvida - ainda que ele nunca o admita - de que entende cabalmente que o que está a fazer é demasiado pouco e demasiado tarde: uma pistola de água perante um grande incêndio florestal. Mas ele acha que até uma pistola de água é melhor que nada. Se se declarou um incêndio, ele preferiria servir-se de um canhão de água, e teria preferido começar a usá-lo antes, mas não era permitido porque na Europa temos uma Carta do BCE que o ata de pés e mãos e o lança perante o monstro da deflação, o que é muito injusto para o BCE. E assim será enquanto a Europa não compreender o que é imperiosamente necessário do ponto de vista económico para sustentar uma união monetária, enquanto não entender por que se dá toda esta fragmentação e a crescente renacionalização de tudo, incluída agora a flexibilização quantitativa do senhor Draghi (80% das compras de títulos serão realizadas pelos Bancos Centrais nacionais, como se estes existissem separadamente do BCE). Porque essa fragmentação e essa renacionalização é exatamente o oposto do que deveríamos estar a fazer, apoiar, consolidar. Como se formaram os EUA? Pois, porque cada vez que tinham uma crise - a Guerra Civil, a Grande Depressão - avançavam na sua união. Nós dizemos que estamos a fazer isso com as “uniões bancárias”, com os “Mecanismos Europeus de Estabilização”, mas não é verdade. Criámos uma união bancária que não é uma união bancária, é uma desunião bancária, e chamamo-la, à maneira orwelliana, “união bancária”. A Europa não aprendeu com as lições da história , e enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união.

A propósito dos planos do Syriza para revitalizar a indústria na Grécia, Theodoros Paraskevopoulos disse que se trata também de recuperar as dimensões do setor farmacêutico na Grécia, porque tem uma boa base. Como é isso?

Ao que sei, por alguma razão, temos boas empresas farmacêuticas que têm exportações sólidas. Precisamos ajudá-las e precisamos criar indústrias assim também noutros setores.

Por exemplo?

Acho que temos excelentes programadores informáticos e engenheiros de software, de modo que deveríamos fazer algo parecido ao que fez Israel. Criar uma rede de pequenas empresas emergentes orientadas internacionalmente para a exportação. Se algumas delas acabarem por ser compradas pela Google, etc., não é uma má coisa. É o tipo de coisas que deveríamos ensaiar e apoiar, se podermos.

Se pusermos a questão de que fazer para atrair investidores estrangeiros para a Grécia, há alguma ideia parecida com parcerias público-privadas, algo que nos países da Europa setentrional tem dado muitos problemas?

Eu não sou partidário das parcerias público-privadas. Onde essas associações foram ensaiadas, acabaram sempre por drenar recursos do estado sem produzir nenhum valor acrescentado significativo. Normalmente, foram exercícios de corte de custos, e no final, sem o menor efeito de desenvolvimento. O que eu acho é que devemos tender para o desenvolvimento de ativos públicos já existentes sem os vender - mesmo agora estamos a liquidar e a vender simplesmente para angariar receitas -, de modo que o dinheiro do setor privado, os fundos de investimentos, possam vir e contribuir para o desenvolvimento de forma mutuamente benéfica. É um tipo de empreendimento público-privado, mas não ao estilo do que se ensaiou na Grã-Bretanha e noutros lugares.

Voltando à discussão do memorando: entre que fatores acha que a Sra. Merkel está condicionada?

Acho que a Alemanha está dividida. Os interesses da banca em Frankfurt não são os mesmos que os da banca média, tal como os interesses das pequenas e médias empresas na Alemanha central não são os mesmos que os da Siemens e da Volkswagen, etc. É muito diferente ter a capacidade produtiva exclusivamente localizada na Alemanha, como as empresas pequenas e médias, ou estar mergulhado na globalização e ter fábricas na China e no México. E a Sra. Merkel é uma política astuta que se preocupa - ou pensa precaver-se - de que haja consenso entre esses interesses sobre o que há que fazer com o euro, com o nosso Banco Central, com a periferia, etc. A Sra. Merkel, simplesmente, não moverá qualquer peça até que haja um consenso que lhe garanta a sobrevivência política.

Mas esse consenso não é possível.

Bom, repare, por exemplo, o que se passou em 2012 com o anúncio unilateral por parte do Sr. Draghi das Operações Monetárias sobre Títulos, ou mesmo ontem, com a Flexibilização Quantitativa. Verá que, quando começam a ouvir-se vozes que dizem: “olhem, rapazes, que a deflação nos está a matar, há que fazer algo”, então a Sra. Merkel pode servir-se dessas vozes para dizer: “apoiarei o Sr. Draghi, façam o que fizerem”. Por conseguinte, não é um consenso-consenso, mas ela está a calibrar as movediças placas tectónicas sob os seus pés. E o modo como o faz é muito astuto. Eu convidá-la-ia a pensar no seu legado para além da mera sobrevivência, e gostaria que considerasse a possibilidade de que daqui a 10, 20, 100 anos, a Europa pudesse falar não só de um plano Marshall que salvou a Alemanha, mas também de um plano Merkel que salvou o Euro.

Artigo traduzido para espanhol sinpermiso.info por Estrella Mínima e para português por Carlos Santos para esquerda.net

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por Augusta Clara às 08:00

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