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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 31.07.15

O caminho - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  O caminho

 

egon schiele2a.jpg

 

(Egon Schiele)

 

 

 

   Longa é a rua. Entrecruzada por ruelas transversais, ladeada por muros corroídos pelo tempo e pelas chuvas, de onde tombam camélias murchas, pétalas dilaceradas de rosas, estioladas folhas de plátanos. Começa lá no cimo, no largo de cimento e busto de mármore esverdeado e prolonga-se até à rotunda pertinho da casa dela. O caminho é sempre o mesmo – do largo onde ele a deixa ao número 2067, que é o da porta da sua casa.

Hoje, que é Maio e faz calor, Luísa desce a Rua de Todos os Santos, beatífico nome para tranquilíssima artéria, a mão esquerda crispada na alça do saco da ginástica e o rosto em chamas, ao sol.

O portão de grades azuis abrira-se com um rangido enferrujado e o carro branco, com uma amolgadela no pára-choques, entrara no recinto do parque e parara junto ao pavilhão central. Luísa caminhava para o ginásio, mas deteve-se a olhar a desconhecida que se dirigia para o gabinete envidraçado dos professores. Ele saiu ao encontro dela, beijou-a nos lábios e os dois entraram no pavilhão. Luísa deixou-se encostar à parede de tijolos do casinhoto em que os jardineiros arrumavam as ferramentas, e ficou à espera.

Pouco depois, ela saiu. Ele acenou-lhe enquanto ela entrava no carro. O portão abriu-se uma vez mais para que o carro amolgado deslizasse para o exterior. Ninguém vira Luísa. E Luísa, que vira afinal?

Por vezes sonhava com ela, mas nenhuma forma se concretizava, era um corpo jamais consubstanciado, de formas incertas e contornos difusos. Tentara imaginá-la muitas vezes, pedira-lhe que a deixasse ver uma foto. Ele recusara-se sempre a fazer qualquer tipo de descrição. “Não o fazia feliz” – era a única coisa que Luísa precisava de saber a respeito da outra. E por isso, mais do que uma mulher, Luísa imaginara uma sombra a pairar sobre ele, a copa sombria de uma árvore de ramos cerrados que o estrangulavam. Uma mulher-morcego, de sorriso de lábios negros e braços que o enlaçavam numa escuridão de que Luísa não conseguira ainda libertá-lo.

Mas onde estava a figura sombria? Ele sorria ao caminhar ao seu encontro. E foi assim que Luísa soube. Era ela;  ali estava. O ventre um pouco saliente sob as calças justas, o perfil ligeiramente curvado, uma mulher de trinta anos de beleza mediana e olhar apagado. Um corpo que exibia as marcas de uma gravidez, de um certo desleixo, de algum desamor. Era aquele o corpo. Alguma incerteza nos passos, a expressão aluada, os cabelos em desalinho. Era aquela a carne, era aquela a pele. O saco da ginástica tombou-lhe aos pés. As costas queimavam de encontro aos tijolos em brasa. Aproximaram os rostos um do outro, os lábios tocaram-se. Um beijo ténue, seco. Apenas o roçagar de duas peles. Luísa levou a mão à boca. Sentia-se tonta, nauseada. Havia ali carne e pele, e dois corpos que se tocavam, e até então Luísa só vira neblinas e sombras e distanciamento. Era também naquele ventre que ele se afundava. Havia um elo invisível a unir os corpos delas. O corpo de rapariga de Luísa, o corpo de mulher da outra.

Luísa desce a longa rua e o sol queima-lhe o rosto e o saco é cada vez mais pesado. Ontem percorreu este caminho e amanhã tornará a fazê-lo. Ocorre-lhe – provavelmente pela primeira vez – que seria bom não mais descer a longa rua de regresso à casa dos silêncios. Não mais aproveitar a boleia do Professor. Não mais ser Luísa, a descer a longa rua.

Tinha sido exactamente igual aos outros dias. Ele tomara a estrada lateral e parara no sítio do costume, debaixo da sombra das grandes árvores cujo nome ela desconhecia. Pousou a mão no joelho dela, como sempre fazia, depois da habitual precaução de olhar em torno e certificar-se de que não havia ninguém por perto. Mas quando os lábios dele se aproximaram da sua boca, Luísa afastou o rosto.

“Não me dás um beijinho?”

“Não consigo.”

As palavras soaram roucas, numa voz que não parecia a dela. Não esperava dizer aquilo, não sabia de onde tinham vindo as palavras que proferira, que parte de si ousara dizê-las.

“Não consegues?…”

A voz tremeu-lhe. Os seus dedos, prestes a erguerem-se dos joelhos redondos dela, não se atreveram a desapertar-lhe a blusa. Ficou imóvel e o rosto empalideceu-lhe. O silêncio na penumbra era mais pesado, mais difícil de suportar. O ar era denso e doía no peito. Uma folha caiu sobre o pára-brisas e escorregou devagar pelo vidro.

“E uma festinha… não me queres fazer?”

Devia sair do carro. Luísa imaginou-se a agarrar no saco da ginástica, a abrir a porta sem lhe dar tempo a um gesto sequer, e largar a correr até a sombra chegar ao fim e ela tornar a ser capaz de reconhecer as ruas e as casas sob a copa cerrada das árvores. Imaginara o mesmo na primeira vez. Era Outono e chovia e ele pegara na mão dela e pousara-a sobre a braguilha. Quatro botões de metal reluziam na penumbra. Ela não fugira. Desapertou lentamente os botões, sem levantar os olhos para o rosto dele. Nenhum deles falara. Fora a primeira vez que o silêncio lhe pesou no peito e fez doer qualquer coisa desconhecida. Enfiou a mão sob as calças dele e afastou o tecido da roupa interior. Ele gemeu baixinho e Luísa sentiu-o estremecer. Tocou-lhe a pele morna e elástica. Apertou-o entre os dedos e fê-lo deslizar, repetindo os movimentos que não sabia conhecer. Ele gemia e ela observava-o, espantada com as reacções dele, espantada consigo mesma. Estava extraordinariamente atenta a tudo, era sensível a cada alteração, a cada uma das vibrações dele. Os seus sentidos estavam atentos como nunca, guiavam o caminho, demonstravam conhecer coisas até aí insuspeitadas. Uma vibração estranha, uma melodia desconhecida, crescia dentro dela. A chuva batia nos vidros do carro, escorria sinuosamente, e era como se entre eles e o mundo houvesse um véu que desfocava tudo. Ele semicerrara os olhos. Luísa parava, retomava os movimentos, observava-o, suspendia os gestos para fitar o rosto contorcido dele, prosseguia depois, absolutamente concentrada no movimento da sua mão, no vaivém constante, na intensidade crescente daquele gesto. A chuva batia contra os vidros embaciados, adensava o véu que os separava do mundo. Sentia a respiração dele no seu ouvido, o sopro quente no pescoço, o cabelo dela colava-se aos lábios dele. As mãos dele afastavam-lhe a blusa, percorriam-lhe a pele. Havia uma violência crescente e não havia violência. Queria afastar-se, mas sabia que não estava a ser magoada, que nada daquilo era uma agressão. Queria fugir, mas sentia-se culpada. Não conseguia suster os seus movimentos, não conseguia afastá-lo dela. Não conseguia afastar-se dele.

Depois terminou. Luísa sentiu-o inteiriçar-se na mão dela, o rosto dele contorceu-se um pouco mais e um gemido soltou-se da sua garganta, as mãos fecharam-se no peito dela. Ela retirou a mão húmida e pegajosa e ficou a olhá-la com uma atenção que o embaraçou, a atenção de quem espreita, pelo microscópio, o resultado de alguma experiência laboratorial. Ele retirou um lenço do bolso e limpou-lhe a mão. Depois beijou-a no rosto, como viria a fazer muitas vezes, sobretudo nos momentos em que se comovia e lhe dizia ser um homem horrível e que ela tinha razões para odiá-lo.

Dessa vez, porém, não disse isso. No dia quente de Maio, dia em que a outra ganhara um rosto e um corpo, dia em que Luísa não podia beijá-lo, ele disse:

“Não me fazes uma festinha?”

Veio o silêncio, novamente. O silêncio que magoava. Fora esse silêncio que a fez tocar-lhe. Era a única forma que conhecia de remediar tudo, e era simples. Tudo se resumia a alguns movimentos que ela conhecia já muito bem e a uma mão húmida que ele limparia depois. Fora essa a aprendizagem, fora ele que lho ensinara.

Discretamente, ele olhou o relógio. Já não tentou beijá-la.

“Já vi que hoje estás mal disposta. Não tem importância, há-de passar-te. Agora tenho de ir. Deixo-te no sítio do costume, está bem?”

Luísa acenou que sim. No sítio do costume, no largo onde se abria a Rua de Todos os Santos, silenciosa ao calor da tarde.

Longa, longa é a rua. A caminho de casa, Luísa aperta um lenço na mão direita e recorda o final da tarde de Outono. Ele ligou os limpa pára-brisas e o véu rasgou-se de repente e o mundo apareceu de novo, exactamente como o haviam deixado.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 28.07.15

Dança dos Pássaros - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Dança dos Pássaros

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Terça-feira, 28.07.15

A fuga de capitais como instrumento da conquista moderna - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  A fuga de capitais como instrumento da conquista moderna

 

 

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Público, 28 de Julho de 2015

 

A corrida aos depósitos bancários, que a União Europeia incentivou na Grécia, é apenas mais uma arma da guerra europeia.

 

1. Mesmo sem saber tudo, temos hoje uma boa ideia do ambiente das negociações que levaram ao terceiro empréstimo da troika à Grécia e dos argumentos que estiveram em cima da mesa. Sabemos que a discussão não foi uma civilizada troca de argumentos mas uma operação de coacção à boa maneira mafiosa, com a reiterada exposição de um catálogo de ameaças feitas à Grécia pelos “parceiros”.

Sabemos que a negociação não foi um jogo de cedências mútuas, mas algo que um dos participantes comparou a uma sessão de tortura. E sabemos, explicadas por Tsipras, as razões fundamentais que fizeram com que o primeiro-ministro grego não desse o famoso murro na mesa e batesse com a porta, mas acabasse por dizer “nai” às propostas a que uma significativa maioria de gregos tinha acabado de gritar “oxi” nas ruas e nas urnas. Antes de mais, o mandato: Tsipras acha que não tinha mandato para bater com a porta porque os gregos, maioritariamente, num exemplo de distorção cognitiva que ficará para a história, não querem sair do euro. Depois, a realidade: a Grécia não tinha (não tem) nem euros nem moeda estrangeira que permitisse criar uma almofada, por mínima que fosse, para garantir as necessárias compras ao estrangeiro.

Mas há uma outra razão, de não menor peso, que foi referida por Tsipras mas pouco aparece na imprensa internacional: a fuga de capitais da Grécia nos últimos cinco anos, que está calculada em 250 mil milhões de euros. O problema não é só o facto de o dinheiro não estar nos bancos gregos e não poder alimentar o investimento de que a Grécia precisa. O problema é que, num cenário de saída do euro e violenta desvalorização de uma futura moeda grega - há estimativas de 50% - este capital poderia regressar em força à Grécia para comprar tudo o que tivesse valor e adquirir, no cenário de escassez e confusão que ocorreria nos primeiros meses do Grexit, uma influência desmesurada, equivalente à que 500 mil milhões de euros poderiam conferir hoje. Uma invasão não pelo ar nem pelo mar nem por terra mas “por euro”.

Esta particular fuga de capitais - não apenas a preocupação dos detentores do capital em pô-lo a bom recato para evitar uma eventual desvalorização ou mesmo o seu confisco, mas o seu estacionamento num porto de abrigo para regressar com força redobrada para pilhar o que estiver à mão — é algo a ter em conta. Devido a este fenómeno, uma saída do euro pode ter como consequência um movimento de brutal concentração do capital nas mãos das pessoas que tenham a capacidade para o exportar previamente.

2. A fuga de capitais da Grécia não é um normal fruto da crise do euro. Ao contrário, ela foi activamente estimulada ao longo dos últimos meses (desde a eleição do Syriza) e mesmo antes (desde o crescimento do Syriza) por uma campanha internacional orquestrada que tentou espalhar o medo entre os pequenos e grandes depositantes e investidores convencendo-os de que as suas poupanças e investimentos não estariam seguros numa Grécia governada à esquerda. Basta reler as declarações nas últimas semanas de dirigentes da UE, políticos europeus de todos os costados e analistas diversos, constantemente “alertando” para a possibilidade, conveniência ou inevitabilidade de o governo grego impor um controlo de capitais para perceber a mensagem subliminar.
Há um interessante artigo publicado no site do think-tank americano Peterson Institute for International Economics antes das eleições gregas de Junho de 2012, onde a direita receava um descalabro dos partidos tradicionais e uma enorme subida do Syriza, que tem como título, para quem não queira perceber: “How a Bank Run Can Be Part of the Solution” (“Como uma corrida aos bancos pode ser parte da solução”)

Aí se escreve, preto no branco: “Qualquer pessoa que queira manter a Grécia no euro deve retirar o seu dinheiro dos bancos. Ainda que os políticos que são a favor do programa do FMI provavelmente vão ficar calados, o PASOK e a Nova Democracia deviam de facto encorajar a corrida aos bancos. Podiam, por exemplo, publicar no YouTube as imagens das filas às portas dos bancos para tornar a mensagem mais clara!”

E, mais à frente: “O exemplo da Grécia ilustrou um novo factor: o facto de a ameaça de uma corrida aos bancos acontecer em qualquer país que esteja a considerar sair do euro actua como o equivalente de um ataque nuclear preventivo sobre as forças políticas que defendam essa saída. Devido ao exemplo grego, os populistas em toda a zona euro acordaram para uma nova realidade política: serão acusados de uma destruidora corrida aos depósitos se prosseguirem as suas estratégias de saída do euro.”

O autor deste texto, Jacob Funk Kirkegaard, que esteve em Portugal numa conferência que teve lugar na Assembleia da República sobre dívida pública em Dezembro de 2014, é particularmente brutal, mas declarações deste tipo, às vezes suavizadas por um verniz pseudo-democrático, foram feitas a partir de Bruxelas centenas de vezes nos últimos meses por políticos de diversos quadrantes.

jvmalheiros@gmail.com

 

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por Augusta Clara às 11:20

Segunda-feira, 27.07.15

Plaisir d'amour - Kathleen Battle

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Kathleen Battle  Plaisir d'amour

(compositor Jean Paul Martini
Kathleen Battle (Soprano)
Nancy Allen (Harpa)

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sábado, 25.07.15

A lição grega - António Guerreiro

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António Guerreiro  A lição grega 

 

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   Recapitulemos as principais lições que até os mais distraídos tiveram obrigação de aprender com a crise grega: 1º) A relação credor–devedor está hoje no centro da vida económica, social e política. Ela veio substituir a relação capital–trabalho que pertence a uma fase anterior do capitalismo e introduziu uma nova técnica de poder e uma nova “governamentalidade”. Essa relação produz um novo sujeito universal que é o “homem endividado” tal como ele foi definido e analisado pelo sociólogo Maurizio Lazzarato. A principal actividade do homem endividado (tal como o seu análogo colectivo: o país endividado) é pagar. Nas antigas sociedades disciplinares, ele seria preso se não pagasse, mas as actuais sociedades não o querem encerrado porque isso seria remetê-lo para o exterior e é preciso que ele não saia do interior da esfera dos credores para continuar a pagar. 2º) A dívida é inesgotável, impagável e infinita. Foi com o capitalismo financeiro que a “divída finita e móvel” de antigamente se tornou “dívida infinita”, como a dívida do homem perante Deus. Esta dívida que não pode ser resgatada funciona segundo o modelo do pecado original: no reino dos homens, o devedor nunca acabará de pagar a sua dívida. Recordemos que, para a teologia cristã, existe uma única instituição legal que não conhece interrupção nem fim: o inferno. Mas há aqui umdouble bind: segundo a lógica do capital, um povo é tanto mais rico quanto mais se endivida. Se a dívida não fosse infinita e o devedor pudesse, num determinado momento, saldar as suas dívidas, deixava de haver capital, o capitalismo extinguia-se porque desaparecia a relação de forças entre devedores e credores e a dominação política e a assimetria que essa relação supõe. Lazzarato, mostrando que o capitalismo consiste em encadear dívidas umas nas outras, até elas se tornarem infinitas, estabelece uma analogia entre o funcionamento do crédito e a condição em que se vê Joseph K, a personagem de O Processo, de Kafka. 3º) Apesar de a dívida ser impagável e infinita, é necessário manter publicamente a aparência (uma crença que deve circular publicamente) de que ela é finita e pagável. A dívida da Grécia é tão infinita como a de muitos outros países. Mas o problema é que, por várias circunstâncias, ela entrou no campo de uma racionalidade que lhe retirou a máscara que protege muitas outras. Sem essa máscara, ela exibiu-se como monstruosa, isto é, algo que se mostra e, assim sendo, cresce sem controlo. O capitalismo financeiro não vive sem o motor da dívida, mas precisa que se mantenha a promessa de que ela será honrada. Honrá-la não é pagá-la, é manter a possibilidade da fuga em frente. A catástrofe dá-se quando essa fuga é interrompida. 4º) A moeda especificamente capitalista é a moeda de crédito, a moeda-dívida, e não a moeda-troca. O capitalismo financeiro não tem nada a ver com o doce comércio da moeda-troca. Aí estamos numa relação simétrica. A racionalidade do capital é a de uma relação assimétrica. Trata-se de uma “racionalidade irracional” cuja condição normal é o “estado terminal”. 5º) O discurso dos economistas pertence hoje, de direito, à mesma ordem do discurso dos padres e dos psicanalistas: esta é a conclusão a retirar do que foi dito no ponto anterior. 6º) O capitalismo sempre foi capitalismo de Estado. Deleuze e Guattari já o tinham dito em 1972, no Anti-Édipo, mas agora percebemos perfeitamente que o capitalismo nunca foi liberal. A crise grega mostrou-nos claramente até que ponto se deu a integração e a subordinação do Estado à lógica financeira: o Estado age por conta dos credores e das suas instituições supranacionais.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 24.07.15

Quando morre um poeta ... também fica a sodade. A de Corsino Fortes que morreu hoje dita pela de Cesária Évora

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Cesária Évora  Sodade

 

 

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por Augusta Clara às 20:00

Sexta-feira, 24.07.15

Pecado Original - Corsino Fortes

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Corsino Fortes  Pecado Original 

(1933 Mindelo - 24 Julho 2015)

 

corsino fortes.jpg 

 

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros...
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

 

(in No Reino de Caliban I)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 24.07.15

A Alemanha como problema - Boaventura Sousa Santos

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Boaventura Sousa Santos  A Alemanha como problema

 

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Público, 23 de Julho de 2015

 

O maior problema da Europa não é Grécia. É a Alemanha. Há pouco mais de dois anos (5 de Maio de 2013) publiquei um texto neste jornal intitulado O Diktat Alemão no qual descrevia as justificações dadas pela Alemanha no início da Primeira Guerra Mundial para as atrocidades que cometeu contra um pequeno país, a Bélgica, que se recusara a colaborar com os seus desígnios bélicos.

 

   O modo destemperadamente cruel como a Alemanha se está a vingar de um acto de desobediência de um outro pequeno país, a Grécia, obriga-nos a rever a história recente da Europa e, a partir dela, a pensar o nosso futuro comum. Não se trata de ressuscitar fantasmas há muito enterrados e muito menos de supostos sentimentos anti-germanistas que só poderiam accionar, por oposição, sentimentos filogermanistas. Isso aconteceu há setenta anos e as discussões havidas de pouco valeram aos povos europeus (e não europeus) massacrados por uma guerra cruenta. Trata-se apenas de rever as soluções que foram dadas ao problema alemão depois da Segunda Guerra Mundial, de analisar os seus limites e imaginar outras possíveis soluções.

O problema alemão sempre foi o de ser grande de mais para a Europa e pequeno de mais para o mundo. De um lado, o expansionismo dos impérios alemão e austro-húngaro, do outro, uma das mais pequenas potências coloniais europeias, com um curto período colonialista (1884-1919), e sem sequer deixar a língua alemã entre os colonizados, ao contrário do que aconteceu com as outras potências europeias. Para não falar da guerra franco-prussiana (1870-1871), dominada pelo desejo de Bismarck de unificar a Alemanha sob a égide da Prússia e pelo temor da França de que daí adviesse um excessivo domínio alemão sobre a Europa, a arrogância bélica da Alemanha nas duas guerras mundiais do século XX causou uma devastação sem precedentes. Só na Segunda Grande Guerra morreram 60 milhões de pessoas, 3% da então população mundial. Em 1945, a solução encontrada para conter o problema alemão foi a divisão da Alemanha, uma parte sob controle soviético e outra, sob controle ocidental. Esta solução foi eficaz enquanto durou a guerra fria. Com a queda do Muro de Berlim (1989) e a subsequente reunificação da Alemanha houve que encontrar outra solução.

Deve notar-se que a reunificação da Alemanha não foi desenhada como um novo Estado (como muitos democratas da Alemanha Oriental queriam) mas sim como uma ampliação da Alemanha Ocidental. Isso levou a pensar que a solução estava afinal encontrada desde que em 1957 se criara a Comunidade Económica Europeia (mais tarde União Europeia), com a participação da Alemanha Ocidental e com o objectivo, entre outros, de conter o extremo nacionalismo alemão. A verdade é que esta solução funcionava “automaticamente” enquanto a Alemanha estivesse dividida. Depois da reunificação, ela dependeria da autocontenção da Alemanha. Esta autocontenção foi durante os últimos vinte e cinco anos o terceiro pilar da construção europeia, sendo os outros dois o consenso nas decisões e a progressiva convergência entre os países europeus. O modo como foi sendo “aprofundada” a UE foi revelando que os dois primeiros pilares estavam a ceder e a criação do euro deu um golpe final no pilar da convergência. A importância transcendente da crise grega é a de revelar que o terceiro pilar também ruiu. Devemos aos gregos o trágico mérito de mostrar aos povos europeus que a Alemanha não é capaz de se autoconter. A nova oportunidade dada à Alemanha em 1957 acaba de ser desperdiçada. O problema alemão está de volta e não augura nada de bom. E se a Alemanha não é capaz de se autoconter, os países europeus têm rapidamente de a conter. O antigo chanceler alemão, Helmut Schmitt, viu este perigo com ímpar lucidez ao afirmar há muitos anos que, para seu próprio bem e o bem da Europa, a Alemanha não devia sequer tentar ser o primeiro entre iguais. Mal podia ele imaginar que a Alemanha se converteria em poucos anos no primeiro entre desiguais. E não nos sossega pensar que a Alemanha de hoje é uma democracia, se essa democracia for über alles. Não nos esqueçamos de que a terapia da imposição violenta exercida contra a Grécia foi praticada antes contra uma região derrotada da Alemanha, a Alemanha Oriental, durante o processo de reunificação e, de facto, praticada pela mesma personagem, Wolfgang Schäuble, então ministro do Chanceler Helmut Kohl. A diferença crucial foi que, nesse caso, a fúria financeira de Schäuble teve de ser politicamente contida por se tratar do mesmo povo alemão. Os gregos e, daqui em diante, todos os europeus pagarão caro por não serem alemães. Isto, a menos que a Alemanha seja democraticamente contida pelos países europeus. Não vejo muitas vantagens em reagir defensivamente com o regresso ao soberanismo. Em verdade, o soberanismo está já instalado na Europa, só que sob duas formas: o soberanismo ofensivo dos fortes (encabeçado pela Alemanha) e o soberanismo defensivo dos fracos (tentado pelos países do sul, a que se junta, ainda meio atordoada, a própria França). No contexto europeu, o soberanismo ou o nacionalismo entre desiguais é um convite à guerra. Daí que, por mais ténue que seja a possibilidade de êxito, há que tentar reconstruir a União Europeia sobre bases democráticas, uma Europa dos povos onde deixem de dominar burocratas cinzentos e não eleitos ao serviço dos clientes mais fortes ante a distração fácil de representantes democraticamente eleitos mas politicamente desarmados.

Estas soluções não resolverão tudo pois o problema alemão tem outras dimensões, nomeadamente culturais e identitárias, que se revelam com particular virulência em relação aos países europeus do sul. Em carta dirigida ao seu amigo Franz Overbeck, em 14 de Setembro de 1884, Friedrich Nietzsche zurzia “o medíocre espírito burguês alemão” pelo seu preconceito contra os países do sul da Europa: “frente a tudo o que vem dos países meridionais assume uma atitude entre a suspeita e a irritação e só vê frivolidade… É a mesma resistência que experimenta em relação à minha filosofia… O que detesta em mim é o céu claro”. E concluía: “um italiano disse-me há pouco: ’em comparação com o que nós chamamos céu, o céu alemão é uma caricatura'”. Traduzido para os tempos de hoje, é crucial que os europeus do sul convençam os alemães de que o céu claro do sul não está apenas nas praias e no turismo. Está também na aspiração do respeito pela diversidade como condição da paz, da dignidade e da convivência democrática.

Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 23.07.15

Língua Mater Dolorosa - Natália Correia

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Natália Correia  Língua Mater Dolorosa

 

columbano bordalo pinheiro, camões e as ninfas, 1

 

(Columbano Bordalo Pinheiro, Camões e as Ninfas)

 

 

Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda a bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luiz Vaz a chama joalhada

 

tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

 

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus verbos feridos vão de maca.

 

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda... mas de vaca.

 

(in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, Círculo de Leitores)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Quinta-feira, 23.07.15

Hannah Arendt - Pensar apaixonadamente

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por Augusta Clara às 08:00

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