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Jardim das Delícias



Terça-feira, 29.09.15

Yamore - Salif Keita & Cesaria Evora

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Salif Keita & Cesaria Evora  Yamore

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Terça-feira, 29.09.15

A partir de agora - Augusta Clara

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   A partir de agora, o que o PS tem de fazer, mais do que contar votos, é elaborar um Programa de Governo como deve de ser, isto é, dum governo independente de jugos estrangeiros, que tudo faça para minorar e tendencialmente anular os grandes prejuízos da autoria do actual governo na sua acção destruidora dos últimos quatro anos.

Não disse hoje Passos Coelho que já decidiu viabilizar o Programa do Governo e o Orçamento do PS se ele ganhar sem maioria absoluta? Embora a sua palavra pouco valha, aliada ao conhecido feitio de lacrau, pois que apoie, mas na Assembleia da República com o seu grupo parlamentar que espero seja o menor possível. No Governo não o queremos.

Não estou a fazer propaganda eleitoral porque não voto no PS. Porém, não tenho praticamente dúvidas sobre a sua vitória no próximo dia 4. Quer porque não acredito na inimputabilidade mental do povo português que tão sacrificado está, quer porque me parece corresponder ao modelo comportamental do nosso eleitorado por características e razões que não sou a pessoa indicada para expor.

Mas o que me preocupa grandemente, já aqui o disse, são as ligações da esquerda. A esquerda portuguesa, alguma já com tantos pergaminhos, parece viver em casulos e defender-se mais dos seus próximos do que dos inimigos.

Já não sei como se pode falar e voltar a falar nestes defeitos e no desejo de os ver desfeitos sem caír no que já foi dito e redito que é, afinal, o que todos anseiam: ver quem luta por um conjunto de prerrogativas, relativas ao bem-estar dum povo e ao desenvolvimento livre do país, a remar para o mesmo lado, a definir em conjunto as linhas-mestras do que queremos para esta terra.

Tão fácil seria, a nós que somos uma só nação - nem esses problemas nos afectam -, donos dum belíssimo espaço territorial onde se poderia viver sem necessidade da imposição de determinados bens materiais supérfluos que, em vez de nos dignificarem e tornarem genuinamente felizes como seres humanos, nos escravizam. Tão fácil seria se não vivêssemos de políticas alienantes a quem a felicidade me parece dever soar como um conceito menor, quase ridículo.

Um dos jovens do grupo chegado ontem, ao abrigo da plataforma promovida por Jorge Sampaio para integração de estudantes sírios nas universidades portuguesas, dizia que Portugal lhe parecia um paraíso. E é, e é, meu amigo, tem é muitos demónios à solta.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 28.09.15

Concerto para violino de Mendelssohn - Anne Sophie-Mutter

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Anne Sophie-Mutter  Concerto para violino de Mendelssohn

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 28.09.15

1º. Aniversário do restaurante "Taberna do Doutor", Porto

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Noite de Poesia na Taberna do Doutor

 

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   O primeiro aniversário da Taberna do Doutor foi festejado com uma sessão de leitura da poesia de Adão Cruz a quem o nome do restaurante foi dedicado.

Aqui fica um breve resumo fotográfico do evento, a par de quatro dos muitos poemas que nessa noite ali foram lidos.

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Preso à cidade

Preso à cidade nesta inquietante angústia das sombras ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.

Lá atrás uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido sob as janelas podres lembra que se alma houvesse seria presa fácil de um qualquer rígido corpo enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo ao longo das ruas.

A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo definhada de luz e consciência deixando atrás de si os últimos passos de uma existência presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.

Até o vento se foi para não arrastar a neblina estranha e para não incomodar o pesado silêncio que se prende ao corpo e às paredes como mortalha do tempo e pegajoso crude que desfaz essa réstia de luz presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.

Ainda ontem era dia nos braços repartidos do trabalho e nas carnes que não conheciam o exílio recusando morrer fora dos sonhos e da vida no meio da tempestade e o vento varria o silêncio para libertar o corpo e a mente da neblina estranha das noites pegajosas.

Havia certezas por entre os tremores da indecisão havia sorrisos verdades e ilusões e havia brisas sonâmbulas calando os medos e no fundo do silêncio corriam rios arrastando as paredes negras e todas as sombras dos candeeiros partidos.

Preso à cidade na tristeza que nos envolve e nos liberta por momentos o pensamento cai dos telhados a poeira do tempo que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos e abre no chão quadriculado um espelho negro com um menino tocando o céu azul rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa e carinhosamente e sigilosamente nos devolve ao nada por um caminho celular oculto irrepetível.

 

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Não sou poeta nem nada

Não sou poeta nem nada nem noite de luar nem sopro de

vento nem pirilampo errante nem grão de espiga

Serei louco

O louco não tem número está fora da cidade dos homens

Não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da

noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada

Talvez louco

O louco não tem número o limite da soma é o vazio

Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de

cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa

não sou quebra‑luz nem gavinha entrelaçada num abraço de

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frio

Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma

o fecundaram

Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem

seiva

Morreram Afrodites e leões de pelo fulvo quando se

inventou a alma…e eu não sou mais do que rescaldo

Já não sou poeta nem nada

Sou mesmo louco

 

 

Ouço o silêncio

Ouço o silêncio dos olhos que se fecham na falta de

esperança

Amo o silêncio das cores vivas e do sonho que nos tece a

alma entre a vida e a morte

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Doi‑me o silêncio negro dos gritos proibidos e sinto o

dourado silêncio dos gestos da noite que nos abrem os olhos

Amargo o silêncio das horas sem brilho e vivo o silêncio do

mar que risca na areia a força vencida

Assumo o silêncio sagrado da liberdade e da vida e o silêncio

de um céu de fogo que nos abre a cova na terra fria

 

 

Ao redor do nevoeiro

Hoje sou eu que vou ao teu encontro por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde, mas não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.

Sei que moras para lá do tempo, entre dálias e gerânios entre memórias e sonhos de um segredo, mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.

Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão, único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas, e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.

Tu estás do outro lado de um beijo, e eu quero abraçar-te pela cintura neste apagado incêndio dos sentidos, ainda que seja demasiado tarde para a verde ternura de um desejo.

Hoje sou eu que vou ao teu encontro em meu corpo de terra antiga que já não seduz, logo que possa dar um passo dentro do nevoeiro para lá dos olhos sem luz.

Assim o decidi ao ver-te quase nua, na altura em que o nevoeiro sem sentido caía pesadamente sobre a rua, mas não eras tu… era uma chama de lábios e lume, ardendo em estranho leito nupcial de um qualquer tempo já perdido.

No ventre do nevoeiro, inventei a noite entre lençóis de neve mordidos de uma luz oblíqua, que não era minha nem tua, e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.

Era como se um rio cantasse entre a lua e as águas e o nada… e fosse demasiado tarde para ser música no violino da madrugada.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 25.09.15

Chant d'Automne - Charles Baudelaire

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Charles Baudelaire  Chant d'Automne

(Música: Adagio for Strings de Samuel Barber) 

 

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 25.09.15

"Maravilhosa lição de filosofia de vida do Manel Cruz" - Adão Cruz

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 Porto Olhos nos Olhos (facebook), 23 de Setembro de 2015

 

[Manel Cruz - Músico e artista plástico] © Por Manuel Roberto (fotografia) e Mariana Correia Pinto (texto) Portugal, Porto, 23 de Setembro de 2015

 

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 (Foto de Porto Olhos nos Olhos)

 

   “As primeiras memórias que tenho são coladas pelos filmes Super-8 que o meu pai tinha. Nasci em 74, em São João da Madeira, e as lembranças que tenho de lá são reconstruídas assim, porque vim para o Porto muito cedo. Tinha dois anos. Fui o último de três filhos. O meu pai é médico, a minha mãe professora. Ele começou por praticar medicina na aldeia, onde os recursos eram muito limitados e onde, também pela profissão, era uma pessoa muito querida. Sempre gostou de poesia. Esteve na Guiné e documentava muito as vivências dele através da escrita. Pelos 30 anos, começou também a pintar. Teve sempre muita ligação às artes e quando sentiu que eu também tinha puxou-me muito para aí. A minha mãe, sendo professora, tinha também relações sociais fortes e um lado pedagógico muito premente. Havia uma abertura considerável para esse mundo — apesar de serem tempos de ressaca de ditadura. Os meus irmãos tinham boas notas, eu andava sempre na lua, só tinha boas notas a educação visual e educação física. Também por ter sido o terceiro e ter, por isso, mais liberdade. Puseram-me no piano quando era puto e detestei. Tinha de estudar e só queria fazer as coisas de ouvido. A professora batia-me nas mãos. Para mim, música eram os discos dos meus pais e dos meus irmãos — desde Jacques Brel passando pelos Beatles e Sérgio Godinho. Havia muita música portuguesa em casa e, talvez por isso, nunca tenha sequer pensado em escrever e cantar em inglês. De resto, estava sempre a desenhar. Até aos 15 anos, os meus cadernos de escola eram essencialmente desenhos. A música surge já na Soares dos Reis, quando conheci os meus amigos. Talvez por isso a música continue ainda hoje a ser um bocadinho esse sítio onde se brinca com os amigos. Profissionalizei-me, mas continuo a sentir alguma luta em relação à profissionalização. Isso no desenho não me é tão difícil porque desde puto que me pediam coisas. Aos 15 anos já trabalhava e já fazia livros para crianças. Era uma coisa muito natural vender aquele produto. Com a música isso custou mais. Na escola, mostraram-me os Violent Femmes e fiquei louco com aquilo! Depois foi aquela coisa do ‘também temos de ter uma banda’. Todas começam assim: a brincar às bandas. Discutíamos sobre quem ia fazer o quê. E eu nem ia cantar. Era guitarra ritmo. Decidimos que o Kinörm ia tocar bateria, porque o Peixe já sabia tocar guitarra e o Nuno já dava uns toques de baixo. E eu não sabia fazer nada. Aprendi uns acordes e fiquei maluco. Fiz logo duas ou três músicas com os acordes das Dunas e então fiquei o guitarra ritmo. Aí comecei a dedicar mais tempo à música, o que foi um sacrilégio na família. O meu pai apoiava-me muito no desenho e tinha um orgulho imenso — e a música era uma vontade meio irresponsável de puto. Foi um choque para ele. Fiz o secundário todo na Soares dos Reis e foi ainda lá que iniciámos os Ornatos Violeta. Em 1991. Tínhamos o nosso clube de namoradas e amigos que nos aturava e éramos nós que fazíamos o nosso sucesso: éramos uma banda incrível que ninguém conhecia. Tínhamos uma data de músicas, depois deitávamos tudo fora, fazíamos outras... Fomos num intercâmbio para Montpellier, onde conhecemos os Red Wings Mosquito Stings, uma banda de lá, incrível. Conheci o Nico, que veio viver para Portugal e agora está a tocar comigo. Mais uma vez, deitamos tudo fora porque olhávamos para o trabalho deles e era incrível. Eles ensaiavam todos os dias, eram super dedicados. Nós, pelo contrário, éramos uns baldas. Fomos para a Carvoeira, para a casa do meu pai. Para um sítio onde quase não nos podíamos mexer e não tinha ar: de 40 em 40 minutos tínhamos de abrir a porta. Mas ensaiávamos todos os dias para fazer o ‘Cão’. O disco saiu em 97. E foi aí que os Ornatos se tornaram mais conhecidos. No Porto, já havia algum pessoal que nos curtia antes, mas só depois a coisa se alastrou. Começamos a ter produtor, a olhar para certos aspectos mais profissionais que nos fizeram dar novos passos. A parte má é que se perdeu alguma da inocência que se tinha e de que gostava muito. O ‘Cão’ marca esse momento de mediatização. Mas mesmo assim acho que só ficamos mesmo mesmo conhecidos depois de acabarmos. Tivemos o grande ano imediatamente antes disso. Foram uns 60 concertos só nesse ano — e podiam ter sido mais. Mas sentia-me um ácido ambulante de andar sempre na estrada e não gostava da repetição. Às vezes, entrava em palco e não me apetecia estar lá. Paralelamente ao nosso crescimento como pessoas, foram acontecendo discussões sobre as autorias das músicas e outras que colocavam muita coisa em jogo. Coisas que rapidamente se resolviam, mas que, no momento, eram complicadas. O que me inspira é um pouco de tudo. Sentimentos que tenho em determinados momentos e depois reciclo. O próprio processo é, para mim, muito inspirador. Uma parte grande das ideias que tive apareceram quando estava a fazer trabalhos mais técnicos, como ilustrações para livros infantis. Uma coisa que sempre fui é um questionador. Não consigo ver a minha identidade marcada. Sou inconstante, insatisfeito, inquieto. Qualquer coisa que faço, passado uma semana parece-me completamente afastada do que quero fazer. Portanto, a inspiração surge sobretudo dessa inquietação. O Hugo, irmão da minha mulher, disse-me uma vez que o disco ‘O Monstro precisa de amigos’ era Porto Porto Porto. Fiquei super contente, porque adoro esta cidade e adoro que uma coisa minha faça lembrar o Porto. Não escrevo letras sobre. Mas a melancolia e a maneira de pensar do Porto — que não é uma cidade grande mas é uma grande cidade —, a forma como as pessoas se relacionam, o facto de os sítios serem mais nossos do que do mapa: acho que isso está inevitavelmente presente nas minhas músicas. Para mim, o fim dos Ornatos foi um alívio muito grande. As coisas já não estavam a ser vividas com o prazer que deve existir. E aquele fim abriu-me a porta para fazer novas coisas, inclusive com as pessoas com quem fazia os Ornatos e com as quais tenho uma química tremenda que dificilmente se ganha com outras, porque está associado à virgindade da cassete. As coisas que foram impressas com eles são muito fortes. Portanto, com aquela saída pude partir do zero. Uma das coisas mais difíceis das bandas é a expectativa que os outros criam em relação ao que fazemos e, acima de tudo, a expectativa que projectámos sobre aquilo que as pessoas pensam de nós. Quando os Ornatos acabaram, pude também ver o outro lado: pessoas que me davam palmadinhas nas costas e diziam que era muito bom, de repente já não gostavam assim tanto. Um dia, tive uma conversa com o Kiko Serrano, o produtor, no Hard Club por causa da minha depressão à conta do fim da banda. Sentia nas minhas costas um grande peso, porque muita gente achava que era eu o complicado que queria terminar. Sentia-me um respigador com o casaco cheio de tralha que não conseguia dispensar. Nessa conversa, estava eu a lamentar-me quando o Kiko me diz: ‘Caga nisso, isto foi a melhor coisa que te aconteceu. Parte para coisas novas.’ Finalmente tudo o que queria ouvir. Comecei, nessa fase, a mexer no computador. Já tinha tido um gravador de pistas, mas poder gravar tudo era magia absoluta. E não havia aquela coisa de expectativa. Foi aí o começo do Bandido. Ainda tive os Pluto e os SuperNada, os dois iniciados em 2002, e foram casos tão fixes que muita gente me pergunta porque acabaram. É precisamente porque acontece um fenómeno de as pessoas gravarem um disco, irem tocar e depois ficarem um período enorme sem fazer música. Não gosto disso. O pessoal gosta muito de tocar ao vivo — coisa que eu gosto muito de fazer mas não gosto de fazer muito. O que me move é a parte de criar. Isso desmotivou-me um pouco para as bandas. E depois o ciclo normal: um gajo cresce, começa a ter casa, família, filhos. Comecei a sentir que, quer quisesse quer não, influenciava a vida de outros. E essa pressão é desconfortável. Preferia o descompromisso. Como o que existe neste projecto Estação de Serviço, onde tenho músicas minhas e algumas dos SuperNada e dos Pluto, feitas sozinho ou com outros. Estava há uns tempos sem tocar — depois do disco dos SuperNada, parido com ventosas — quando se dá o regresso dos Ornatos, em 2012. Era uma coisa muito irreal para mim no início, mas acabou por ser fantástica. Depois desse ano intenso, voltei ao silêncio. O Jorge Guerra e Paz — que tem um dom de me convencer incompreensível—, falou-me de um projecto no Silo-Auto e convidou-me para ir lá tocar. No fim de 2014 lá fomos. Ficou aquele trabalho todo que tinha soado bem. Então, decidimos continuar e fazer uma coisa. Mas com princípio, meio e fim. O fim é Setembro. Fiz a música do Ovo e agradou-me muito aquela ideia de fazer a música, gravá-la num sítio e aquilo ficar editado assim. Fazer e disponibilizar, sem necessidade de fazer um disco. Foi um tubo de ensaio para novas maneiras de fazer as coisas. Acima de tudo, o que pus de novo nesse concerto e no projecto Estação de Serviço foram coisas com uma estética um bocadinho diferente, muito mais minimal, a ir beber à portugalidade. Aquela coisa das rezinhas e das mnemónicas, pelas quais ando muito apaixonado. Não numa perspectiva de investigação de raízes de música popular, mas numa de deixar que saia essa inspiração. O que se segue não é uma banda. Duvido que algum dia venha a ter outra banda — pelo menos naquele sentido de ‘casa’ e ‘família’. As bandas têm coisas muito boas e, às vezes, ainda sonho: e se fizesse uma agora? Mas percebo que é quase um vício infantil. A minha vontade agora, sinceramente, é inverter as coisas: ganhar dinheiro com o desenho e ver a música noutra perspectiva. Se calhar, fazer bandas sonoras ou spots. Pegar em valências e fazer coisas para clientes. Esta ideia de ser vendido é um equívoco tremendo na cabeça de muita gente e ninguém sabe explicar muito bem o que significa. Sempre me senti um vendido, porque sempre vendi o que faço — e isso não me faz confusão nenhuma. Só nos vendemos a nós quando contrariamos a nossa essência e vendemos a nossa dignidade. Agora que tenho filhos penso bastante mais no futuro. Tendo sido sempre um irresponsável do caraças, agora começo mesmo a pensar. Provavelmente, vou continuar a fazer música — umas vinte num ano ou dois — e depois, como as tenho, farei outra fornada de concertos... Sei lá. Se tivesse de apostar, acho que diria que a minha vida vai ser sempre igual ao que foi. Em Portugal, é urgente as pessoas pensarem que votar é a primeira oportunidade que temos de mudar as coisas. E não deixar que o facto de o voto não resolver tudo nos leve a desistir. Votar é um direito. Mais do que um dever — porque acho que ninguém tem deveres. E não acredito que os partidos sejam todos iguais. Apesar de ser um bocado bicho do buraco, de não ter Facebook e ter imensa dificuldade em gerir o e-mail, tenho consciência de que, culturalmente, tem acontecido muita coisa no Porto. E que muita me passa ao lado. A sensação que tenho é a de que vivemos um bom momento criativo, de grande consciência do que se passa lá fora, com grande comunicação com o mundo. O tempo de absorção é muito rápido, mas antes a mais do que a menos. Um sinal de futuro pode ser precisamente o de as pessoas deixarem de ter a angustia de não apanharem tudo. O facto de acontecer muita coisa é sinal de que há meios para tal. As pessoas podem gravar e editar sem uma editora, um produtor ou um orçamento de uma multi-nacional. Há muito espaço para a criatividade. No fundo, está a cumprir-se um pouco uma crença que tinha de que a arte não é exclusiva dos profissionais da arte e das elites. E essa é uma democracia que me agrada.”

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 24.09.15

Les Feuilles Mortes - Yves Montand

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Yves Montand  Les Feuilles Mortes

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Quinta-feira, 24.09.15

Canção 2 - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Canção 2

 

john atkinson grimshaw,1879a.jpg

 

(John Atkinson Grimshaw)

 

 

 
Clara uma canção 
Rente à noite calada 
Cismo sem atenção 
Com a alma velada 
 
A vida encontrei-a 
Tão desencontrada 
Embora a lua cheia 
E a noite extasiada 
 
A vida mostrou-se 
Caminho de nada 
Embora brilhasse 
Lua sobre a estrada 
 
Como se a beleza 
Da lua ou do mar 
Nada mais quisesse 
Que o próprio brilhar 
 
Por esta razão 
Sem riso nem pranto 
Neste sem sentido 
Se rompe o encanto
 
(in Ilhas)
 

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por Augusta Clara às 19:00

Quinta-feira, 24.09.15

Taberneiras - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Taberneiras

 

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(Licínia Quitério)

 

 

 

   Sabemos que nos aceitaram quando as mulheres da casa nos tocam no ombro ou nos enlaçam pela cintura. São mulheres duras, calejadas, resmungonas, e nunca desbaratam os seus afagos por cálculo ou hipocrisia. Podem chamar-te “meu amor” quando te perguntam o que vais querer jantar, porque as palavras valem o que valem, mas só te tocam se tiveres vencido as barreiras que elas mesmas levantaram. A partir desse dia, és da casa.

E como és da casa, ouves catarses. Cenas de gajas, gritarias, uma garrafa de cerveja atirada ao chão, logo se disfarça dizendo que escorregou. Insultos trocados entre cozinha e balcão, mas também risadas insolentes e piadas à custa dos engatatões. Mulheres frustradas, que não estão a ir para novas, e que do amor só conheceram a traição e o bafo de vinho. Têm o coração amarrado, castigadinho com cordas para que não as meta em apuros, e gostam de comentar, com um sarcasmo que nunca chega a ser cruel, as paixões das novatas. Consolam a amiga que veio ver se o homem estava a emborcar ao balcão, e se ele vier, se ele aparecer, hão-de servir-lhe só um copo, mesmo perdendo de vender, e mandá-lo para casa com um empurrão porta fora.

São rijas e ásperas, têm língua afiada e sabem calar um homem com um berro, não precisam de ninguém que as defenda, não precisam de ninguém que as console, mas em certas noites de Janeiro, quando o vento empurra a porta que o último cliente deixou mal fechada e nos faz saltar a todos com o susto, no olhar que elas lançam a essa porta há uma sombra, há um fantasma, o de alguém que entrava assim e poderá ainda entrar, ou talvez já não. Há-de vir logo uma delas, a limpar as mãos ao avental para disfarçar o tremor dos dedos, e empurrar a porta com uma reprimenda para a sala, “Há aqui alguém que é de Braga, não sabe fechar a porta”, e assegurar-se de que ela fica bem fechada e encostar o rosto ao vidro embaciado para perscrutar a escuridão lá fora e ter a certeza de que não há sombras nem fantasmas, só noites de Janeiro, mas também elas hão-de passar.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 24.09.15

A campanha eleitoral - Augusta Clara

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Augusta Clara  A campanha eleitoral

 

   Só me apetecia fazer campanha para que ninguém visse nem ouvisse nada da campanha.

Lembrassem-se só, com muita força, de tudo o que os partidos deste (des)governo nos fizeram:

- dos despedimentos;
- das famílias cada vez mais pobres que ficaram sem casas;
- das crianças com fome;
- dos velhos a comerem nos contentores do lixo e sem dinheiro para os medicamentos;
- do número crescente de pessoas a dormir nas ruas;
- dos cortes nos salários e nas pensões;
- dos milhares de portugueses que tiveram de emigrar, entre os quais muitos jovens da geração mais qualificada formada nas últimas décadas, de cujas competências tanto necessitamos e estão a ser postas ao serviço dos países ricos;
- da destruição do nosso Serviço Nacional de Saúde, um dos melhores do mundo;
- da crescente descriminação no Ensino e do vergonhoso desprestígio dos professores;
- de todos as grandes fraudes bancárias que vêm às nossas algibeiras buscar o remédio;
- do desprezo pela cultura;
- da venda a estrangeiros das grandes empresas que deviam ser património nacional
- e de tantas outras acções maléficas do governo de Passos Coelho e Paulo Portas, essas abomináveis criaturas que chegaram ao poder para meter a marcha atrás num país que seguia o seu rumo e, apesar de tudo, apesar desta falsa União Europeia de todos os países e povos, apesar dela, não tinha sofrido, antes deles, uma tão grande destruição.

Sinceramente, não acho que valha a pena ouvir sempre o mesmo que todos estamos fartos de conhecer.

Mas há uma coisa que me preocupa bastante: quando o terror dura muito tempo e faz grandes estragos, é frequente muitas vítimas se cansarem e aceitarem a tirania. É precisamente esse o maior perigo nestas eleições.

 

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por Augusta Clara às 08:00

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