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Jardim das Delícias



Domingo, 28.02.16

"Che cosa sono le nuvole?", de Pier Paolo Pasolini

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por Augusta Clara às 19:39

Sexta-feira, 26.02.16

Jacob Maersk - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Jacob Maersk

 

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   Nós tivemos um navio naufragado na nossa praia, anos e anos a vê-lo enferrujar, um colosso enterrado, ou o que restava dele, um pedaço de proa ao alto, que os miúdos usavam como parque de diversões, perigoso como era, havia que trepá-lo apesar da inclinação, segurar-se às ripas podres, evitar as lâminas enferrujadas, e, uma vez conquistado, segurar-se bem ao bico da proa e olhar em volta, capitão por instantes. As meninas lingrinhas como eu não o trepavam mas ficavam a ver os rapazes, como se exibiam barco acima enquanto nós temíamos vê-los morrer ali mesmo enquanto comíamos maçãs, que história teríamos depois para contar, aquele rapaz matou-se no barco encalhado, era tão giro, fazia covinhas na cara quando ria. Mas eles salvavam-se sempre, regressavam ao areal triunfais, pegavam-se à porrada para celebrar o feito, obrigavam o vencido a comer areia, e nunca nenhum morreu, o que para nós era bom e entediante.

Ainda antes de nascermos, o encalhado fora um superpetroleiro dinamarquês, cruzava os mares com toneladas, mas fora encalhar num banco de areia, ardera durante três dias e com isso tornara a vida na cidade insuportável, fumos tóxicos, gente internada com problemas respiratórios, lojas fechadas. Depois uma parte afundou, mas a proa foi-se chegando a terra e ali ficou. Nós já só o conhecemos destroço. Deveria ter sido levado dali mas não foi, ou melhor só o seria ao fim de 20 anos, e de tanto ficar passou a ser parte da praia, como se tivéssemos herdado o areal cravejado de pedras pontiagudas, os rochedos, as gaivotas, o mar sempre gelado, os sargaços que atirávamos uns aos outros e que eram como tentáculos de criaturas espantosas que o mar escondia, frias e gelatinosas, e a ruína do barco, onírico navio fantasma que para nós estava ali desde sempre, uma advertência a navegantes, um sinal de que o improvável pode estar entre nós.

Naquelas manhãs em que o nevoeiro não levantava, e do mar vinha um bafo gelado, sentados a tiritar com a toalha pelas costas, ficávamos a olhar o barco engolido pela névoa e víamos sombras de marinheiros, esqueletos caminhando com passos cautelosos para não se desconjuntarem, um perfil de caveira com chapéu de pirata que se voltava lentamente para nós, e quando por fim nos encarava havia lume na cova dos seus olhos e uma gargalhada que nos fazia sair a correr aos gritos pela areia, e era bom ter medo de propósito e saber que não havia lá nada e ainda assim gritar e correr como loucos, e passar mesmo ao lado dos adultos estendidos nas toalhas e ouvi-los berrar, lá atrás, que não lhes mandássemos areia para os olhos, grandessíssimos malcriados que nós éramos.

E ao fim da tarde, quando o mar se incendiava e o barco era sombra, retomava o seu perfil de ruína orgulhosa, que trocara o fundo do mar por nós, seus guardiões involuntários, porque era melhor morrer na praia que perder-se no limbo silencioso que o esperava lá em baixo.

Quando o levaram por fim, ninguém pôde protestar contra a medida, tão certa do ponto de vista ambiental, tão necessária para garantir a segurança, tão regulamentar e ordeira. Mas lamentamos perdê-lo, porque era a nossa ruína, o nosso pesadelo feito fábula, o nosso medo convertido em gargalhada, e a praia sem ele era só uma praia.

Só agora, por ocasião dos 40 anos do naufrágio, conheci o seu nome: Jacob Maersk.

 

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por Augusta Clara às 17:30

Sexta-feira, 26.02.16

A posse de Marcelo e a primeira-dama - Carlos Esperança

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   Nos onze dias que ainda faltam para a tomada de posse do Presidente da República, uma eternidade para quem espera, há dez anos, o retorno do cargo à sua dignidade, há já uma excelente notícia. Não haverá primeira-dama, o resquício monárquico que as Repúblicas alimentam, como as teocracias islâmicas o harém do califa.

Para quem luta pela igualdade de género e anseia por uma mulher na P.R., é deprimente assistir à deslocação do inquilino de Belém, constantemente acompanhado pela prótese, dando a ideia de que, sem ela, se sente como um idoso que esqueceu os óculos e recebe, para ler, o discurso impresso.

O protocolo vai ser modificado e consta que a mulher de Ferro Rodrigues, que tem vida própria e não usa o pseudónimo de segunda-dama, tem a gentileza de estar presente para escoltar a D. Maria Cavaco, para que esta se mantenha no horizonte visual do marido a servir de benzodiazepina que o conforte na ação de despejo do Palácio de Belém.

Feito o corte com a subalternidade da mulher, no mais elevado cargo da República, a nível simbólico, está aberto o espaço para uma mulher o ocupar. E não faltam mulheres com inteligência, cultura e preparação para exercerem as funções, com a dignidade que lhes tem faltado e sem necessidade de um primeiro-cavalheiro.

Viva a República!

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 25.02.16

"Não voltei a esse corpo" - Maria do Rosário Pedreira

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Maria do Rosário Pedreira  "Não voltei a esse corpo"

 

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(Adão Cruz)

 

 

Não voltei a esse corpo; e não sei

se aqueles que o vestiram antes e depois

de mim souberam nele o verdadeiro calor

e lhe conheceram os perigos, os labirintos,

as pequenas feridas escondidas. Não voltarei

provavelmente a sentir a respiração

palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas

rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito

também, às vezes.

 

Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia, o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.

E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me

recolheu,

porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis.

 

Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto

trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos.

(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 20:15

Quinta-feira, 25.02.16

Veado (Cervus elaphus) - Andreia Dias

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Andreia Dias  Veado (Cervus elaphus)

 

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   Serra da Lousã, final de tarde de um dia quente de Setembro. Ouvem-se bramidos vindos de várias direcções… parece que os Deuses da montanha estão zangados e em breve haverá concílio. É o auge da brama dos veados. Pé ante pé, no meio de urzes e carquejas, senti um forte cheiro e subitamente, surge um enorme veado, ostentando com orgulho as suas hastes de 8 pontas. Estava quase em contra-luz, mas a esbelta silhueta sobressaía naquele cenário tranquilo, onde só os insectos se ouviam. Por momentos abriu e fechou as narinas, detectou odores e desapareceu. Como é que um ser tão corpulento pode ser tão discreto e silencioso?

Também uma fêmea, esbelta e curiosa, espreitou-me do alto do seu longo pescoço entre estevas da Serra de Silves. Um punhado de segundos em que ficámos a olhar-nos como se fossemos os únicos seres à face da Terra. Surpreendida, “piscou-me o olho” como se me cumprimentasse: “Olá e adeus!”.

É sempre gratificante um encontro com estes animais, ainda que fugaz, perdura na lembrança.

O veado é uma espécie de grande porte que se distribui pelo hemisfério Norte (Europa, Ásia e Norte de África). É o maior cervídeo da fauna portuguesa.

A cor da pelagem muda com a estação do ano, sendo castanho-avermelhada no Verão e castanho-escuro no Inverno. As crias apresentam manchas brancas no dorso para se camuflarem.

Os machos são mais robustos e pesados do que as fêmeas e desenvolvem hastes. Estas estruturas servem para medirem forças com machos rivais na altura da reprodução.

Alimentam-se de matéria vegetal como ervas, folhas, brotos de árvores e arbustos, frutos e cogumelos.

É uma espécie social, durante a maior parte do ano, machos e fêmeas agrupam-se separados por sexo. Na época do acasalamento (Setembro – Novembro), os machos adultos formam haréns que podem reunir 20 fêmeas. É nesta época, denominada brama, que os machos competem pelas fêmeas e emitem altos bramidos para as atraírem. Em Portugal, esteve quase extinto no séc. XX, mas a espécie tem-se expandido devido a fugas ou sendo reintroduzida. Em alguns locais, é uma importante presa para o lobo-ibérico.

Curiosidades: O peso varia com a região, sendo que os animais mais a Norte tendem a ser maiores; as hastes dos machos são estruturas ósseas ramificadas que crescem todos os anos e caem após a época da reprodução. A idade rigorosa só é possível ser determinada com exactidão, através da análise dos sedimentos de crescimento dos dentes molares. No entanto, através da apreciação das hastes que perdem, é possível atribuir-lhes uma classe de idades (jovem: 3 – 4 anos; adulto: 4 – 10 anos e maduro (> 10 anos), podendo avaliar-se aproximadamente pelo número de pontas somando 1, já que no primeiro ano de idade a haste não é ramificada (ex. 4 pontas corresponderá a um animal de cerca de 5 anos).

 

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por Augusta Clara às 17:30

Quarta-feira, 24.02.16

Recuerdos de la Alhambra - Andres Segovia

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Andres Segovia  Recuerdos de la Alhambra

 

 

  

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por Augusta Clara às 21:00

Quarta-feira, 24.02.16

Trepadeira submersa - David Mourão-Ferreira

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David Mourão-Ferreira  Trepadeira submersa 

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(Audrey Marienkoff)

 

 

   Que o avô paterno, já muito velho, vivia na província em pleno século XIII. Que a avó materna, também viúva, mas habitando em Lisboa, ninguém a arran­cava do século XVII, onde o mais decotadamente vivia, em francês, escrevendo a várias amigas íntimas, espa­lhadas pelos quatro cantos do mundo, longas epístolas no mais puro estilo de Madame de Sévigné. Que os pais, esses, havia muito que se tinham instalado no século XIX, se bem que ocupassem ambos, naquela casa, quartos separados e distantes: o da mãe com os relógios parados em 1830; e o do pai, um pouco atravancado entre a guerra franco-prussiana e a guerra dos bóeres, tinha contudo uma varanda sobre o mar, de onde ele, nos dias de sol, e através de um óculo datado de 1891, procurava distinguir, no horizonte, a queda da Monarquia, os ante­cedentes da guerra de 14-18, a muito possível e pacata loucura dos anos 20. Que, finalmente, do único irmão que tinha, bastante mais novo, e que estava destacado em África, lhe chegavam de avião, todas as semanas, as mais frescas notícias da Idade da Pedra.

Os olhos, afinal, eram azuis; as mobílias escuras. E o vestido, vermelho, ficava bem com estes dois tons, har­monizava-se igualmente com as restantes cores. Somente o aquário, entre as duas estantes, parecia um pouco 

despropositado. Os livros, de lombadas coloridas (quase nenhumas encadernações), atraíam os olhos irresistivel­mente; e apetecia passar-lhes a mão por cima, como sobre o dorso de animais domésticos. Aos mais antigos, ou mais usados, apetecia mesmo pegar-lhes ao colo, aninhá-los entre almofadas, deixá-los a dormir dentro de cestos de verga. Mas via-se que todos estavam con­tentes — até aqueles em que há muito tempo ela não tocava — por terem sido, alguma vez, acariciados pelas suas mãos. E eram justamente as mãos dela que faziam pensar em tudo isso, porque a voz, em contrapartida, insistia em vibrar pequenas chicotadas.

Que sim, que tinha percebido, desde o início, todo o interesse que eu mostrava em lhe falar a sós. Que de propósito me dizia as coisas mais tolas ou mais agrestes. Que evidentemente lhe agradava, até certo ponto, ver-me na sombra do anfiteatro, quando só ela, à secretária, ficava a registar os sumários, e eu permanecia, já de pé, sem conseguir arredar-me da segunda fila, na vaga esperança de que me chamasse, ou se irritasse comigo de uma vez para sempre. Que, no entanto, nunca tinha feito nem uma coisa nem outra. Que apenas olhava, de lado, por cima dos óculos, para o quadro preto onde tinha escrito, durante a aula, nomes e datas, sobretudo datas, datas de batalhas, datas de tratados, referências a este ou àquele século.

E o mar ao fundo, entre duas palmeiras. E só três ou quatro telhados desde o rectângulo da janela a essa nesga de azul muito claro, quase branco. Mas bastava trocar a cadeira de braços pelo pouf de couro (onde, minutos antes, ela se tinha sentado) para nem os telha­dos se divisarem e apenas se ver o mar, como um gato angora, todo estiraçado no peitoril. Então, semicerrando os olhos, adivinhava-se-lhe a pele arrepanhada, muito de leve, pelos dedos quentes de Julho.

Que tinha vivido naquela casa, em criança, durante longuíssimas temporadas, só na companhia de uma criada e de uma governante. Que o pai, nessa altura, em virtude das andanças da «carreira», tinha estado sucessivamente ancorado, sempre com a mãe a reboque, em Buenos Aires, em Tóquio, em Madrid, em Helsínquia. Que a tal governante, só à sua conta, daria para encher páginas e páginas de um tratado de psicopatologia. Que tinha todo o ar, por outro lado, de quem acabava de sair, de ponto em branco, de um romance de Henry James. Que tinha artes para a manter, permanente­mente, no mais alucinante clima de terror. Que a obri­gava, por exemplo, a assistir às suas abluções nocturnas e lhe concedia, de quando em quando, o supremo privi­légio de lhe dar a beijar os pés, as pernas, as coxas escanzeladas. Que nunca, apesar de tudo, pessoa alguma a tinha marcado tanto.

A mão direita levantou, distraída, de cima da secre­tária, uma faca de papel. Mas logo a seguir deixou a faca onde estava para se aproximar, vagarosamente, da outra mão, que se tinha pousado, entretanto, num globo maciço de vidro vermelho, todo irisado por dentro e que servia de pesa-papéis.

Que, pronto, a respeito dela, já eu sabia agora o mais importante. Que tinha esperado pelo fim do ano a fim de ter comigo aquela conversa. Que poderia, é claro, ter-me simplesmente convidado para um café, e quem diz um café diz outra coisa qualquer, mesmo no bar do Instituto. Que tinha, no entanto, resolvido, depois de pensar melhor, convidar-me antes ali para casa. E que os versos que eu tinha escrito, que lhe tinha entre­gue, não eram melhores nem piores que todos os versos que se escrevem aos dezoito anos.

Que também ela, aos dezoito anos, tinha escrito poe­mas, mas em prosa, inspirados por uma pessoa amiga lá de casa. Que em todos esses poemas a tal pessoa aparecia invariavelmente comparada, ora a uma torre, ora a uma árvore. Que o seu próprio desejo, por sua vez, em relação à torre, em relação à árvore, surgia obsessi­vamente transfigurado na imagem de uma trepadeira. Que de todos os meus versos, decerto por isso mesmo, os que mais a tinham impressionado eram aqueles em que eu falava de uma trepadeira submersa. Que os tinha, aliás, mostrado, mas sem dizer de quem eram, à tal pes­soa amiga lá de casa. Que a tal pessoa, enfim, conti­nuava a ser a sua melhor amiga.

As mãos tinham retirado, debaixo do pesa-papéis, um pequeno maço de folhas onde reconheci a minha letra. E não era só o meu rosto que me parecia ter ficado tão vermelho como o vestido que ela trazia, como o próprio pesa-papéis: era também o mar, era também a água do aquário, eram também as lombadas de todos os livros. Por outro lado, só então reparei como aquela ténue e caprichosa flora, lá dentro do aquário, sugeria o desenho de uma trepadeira submersa.

Que já se esquecia de me dizer outra coisa. Que eu abusava muito das maiúsculas e dos pontos de excla­mação. Que logo nos meus exercícios tinha dado por isso, mas ainda mais ali naqueles versos. Que o facto, evidentemente, era próprio da minha idade. Que eu havia de ver, no entanto, à medida que o tempo fosse correndo, como são raras as pessoas e as coisas que merecem maiúscula, como quase nada, no mundo, merece as honras de um ponto de exclamação.

Que não lhe parecia ser preciso dizer mais nada. Que seria o suficiente para eu compreender. Que tinha igualmente compreedido o que eu sentia em relação a ela. Que só não sabia, no fim de contas, dentro daquela família que lhe tinha cabido em sorte, com cada pessoa a viver na sua época, qual o tempo que em verdade lhe pertencia. Que não era capaz, de qualquer modo, de se transformar em mártir ou em profeta, de se exibir como um Sócrates de saias a corromper a juventude, de abolir por completo a moral corrente que fingia seguir para não arranjar problemas. Que ao menos ficasse assente, entre nós as duas, que não devia haver hipocrisia de parte a parte. Que também ela me achava amorosa, amorosa, amorosa. Que de propósito empregava o termo que eu própria, já por duas vezes, tinha utilizado a res­peito dela. Que o seu desejo não era apenas, evidente­mente, o de me agarrar assim pelos ombros, com os braços estendidos, muito esticados, a fim de evitar que os nossos rostos se aproximassem. Que me pedia, pelo amor de Deus, para eu tentar esquecer — depressa, de­pressa— tudo aquilo que nem me tinha dito.

Que lhe deixasse, apesar de tudo, os versos que lhe entregara. Que lhe deixasse, pelo menos, aqueles em que se falava de uma trepadeira submersa.

(in Os Amantes e Outros Contos, Dom Quixote)

 

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por Augusta Clara às 18:30

Quarta-feira, 24.02.16

A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza - José Goulão

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José Goulão  A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza

 

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Mundo Cão, 24 de fevereiro de 2016

 

   Durante o ano de 2015 entraram na Grécia mais de 800 mil refugiados oriundos de países do Médio Oriente em guerra, sobretudo da Síria. Em 2016 já chegaram pelo menos 50 mil. Juntando-lhes as centenas de milhares que conseguem sobreviver à travessia do Mediterrâneo e arribaram às ilhas italianas, pode afirmar-se, sem qualquer dúvida, que muito mais de um milhão de pessoas atingiram territórios europeus.

Embora de uma magnitude catastrófica, este número é inferior ao registado em países mais próximos dos cenários de conflitos: um milhão e 900 mil na Turquia; um milhão e cem mil no Líbano; e 650 mil na Jordânia. Percebe-se a dimensão trágica deste movimento de massas humanas desesperadas se olharmos, por exemplo, para o caso libanês. O país tem cerca de quatro milhões de habitantes, pelo que os refugiados que entraram, só na sequência da guerra na Síria, representam um quarto da população. O Líbano que, tal como a Jordânia e a própria Síria, já era lar dos palestinianos forçados por Israel a uma diáspora que dura há quase 70 anos, vive uma situação caótica, como se também estivesse em guerra.

As informações disponibilizadas pelas entidades públicas e não-governamentais de países europeus que, com todas as limitações impostas pelos responsáveis, vão tentando gerir a situação na Europa, são reveladores da pouca eficácia, das carências de vontade política e até da má vontade das instituições da União Europeia para enfrentar o problema.

Da hecatombe humanitária resultante da entrada de mais de um milhão de refugiados, o rateio efectuado entre os 28 Estados membros da União Europeia abriu espaço para a admissão de apenas 170 mil, isto é, muito menos de 17%. Acresce que até essas quotas ínfimas inicialmente estabelecidas e aceites estão agora a ser rejeitadas por vários países, cujos governos dão o dito por não dito.

Até ao momento, foram alojados e integrados no espaço europeu menos de 500 dos desesperados que pretendem asilo. Um número irrisório.

A maioria dos governos da União recorrem a um número interminável de pretextos para se escusarem a aceitar refugiados e a remeterem para outros essa responsabilidade. O mais corrente é o argumento de que o fluxo de refugiados é uma via de entrada de “terroristas” na Europa. Tal suposição não está comprovada e, pelo contrário, alguns factos revelam que não passa de um exercício de propaganda. Por exemplo, a comunicação social dominante apressou-se a fazer crer que os crimes da noite de Ano Novo em várias cidades alemãs, cometidos sobretudo contra mulheres, estavam relacionados com o comportamento dos refugiados. Semanas depois as autoridades alemãs apuraram que, dos 52 indivíduos indiciados, apenas três eram refugiados, e mesmo esses estavam nos locais dos acontecimentos devido ao facto de não terem abrigo.

Por outro lado, acompanhando as biografias dos terroristas que cometeram os atentados de Paris contra o Charkie Hebdo e de 13 de Novembro verifica-se que são cidadãos franceses, nascidos e criados no país, vítimas da crise social e das políticas de marginalização e exclusão pelas quais são responsáveis sucessivos governos franceses e as instituições europeias.

O actual governo francês do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, que impôs o estado de excepção na Constituição e o mantem em vigor por períodos prorrogáveis – “até que o Estado Islâmico seja derrotado”, segundo Valls – está, aliás, entre os que afirmam que não receberão mais refugiados, nem mesmo a quota a que se comprometeu. A sua agenda sobre este assunto e outros parece decalcada da que é invocada pelo movimento neofascista Frente Nacional, de Marine Le Pen, que está à frente nas intenções de voto para próximas eleições.

Através da Europa, aliás, o cenário tem contornos semelhantes ou comparáveis às atitudes das autoridades de Paris. Na Dinamarca e na Alemanha os governos confiscam os bens de valor aos refugiados alegadamente para custear a sua integração; a Áustria fechou as suas fronteiras; a Hungria afirma que não receberá qualquer refugiado e transforma as suas fronteiras em barreiras físicas; a Polónia afirma que está disponível para receber apenas “cristãos”; o Reino unido suspende por quatro anos parte dos direitos sociais dos imigrantes, com a anuência dos governos dos 27 Estados membros; na Noruega, que não é da União Europeia, mas é da NATO, milícias “populares” de camisas negras zelam pela “segurança” nas ruas; a Dinamarca e a Suécia restabeleceram os controlos nas suas fronteiras; partidos de extrema-direita e/ou neofascistas impõem políticas xenófobas graças às suas influências crescentes, ou mesmo fazendo parte de governos em países como Dinamarca, Finlândia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Estónia, Polónia, Holanda. Entretanto, por diligência da Alemanha, a Europa mergulhada na crise económica pretende pagar três mil milhões de euros à Turquia para estancar o fluxo de refugiados.

A ineficácia política europeia perante a tragédia dos refugiados provoca outros efeitos perversos que degradam aceleradamente o panorama dos direitos humanos. Entidades que trabalham no acolhimento dos fugitivos das guerras consideram que existe grande falta de vontade política para criar corredores humanitários que permitam encaminhar e prestar apoio a essas pessoas, mais de um terço das quais são crianças. Esta situação transforma os desesperados que apenas pretendem sobreviver em presas fáceis de mafias traficantes de seres humanos e outros predadores, um negócio altamente rentável que, na Europa, pode já ter ultrapassado os lucros com os tráficos de droga e armas.

Por outro lado, torna-se evidente que a Europa pouco ou nada tem feito para tentar resolver as crises no Médio Oriente, além de privilegiar os conceitos securitários no combate aos refugiados, atitudes que, de acordo com a experiência já disponível, não contribuem – antes pelo contrário - para resolver o problema. Verifica-se até que entre os países europeus, a França e a Alemanha têm manifestado tendência para não acompanhar a convergência entre os Estados Unidos e a Rússia para solucionar a crise síria, parecendo mais sintonizados com as correntes intervencionistas – que, na prática, reforçam o terrorismo – interpretadas pela Arábia Saudita e pela Turquia.

 

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por Augusta Clara às 16:20

Domingo, 21.02.16

Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia" - entrevista realizada quando Umberto Eco fez 80 anos

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(Umberto Eco morreu ontem) 

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO

 

Época, 30 de Dezembro de 2011

 

  

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   O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de

frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. "Acordo todo dia com a Renascença", diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de "ala das ciências banidas", como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas ("são maçons de saia", diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX - como o Protocolo dos sábios do Sião - poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou - o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições - e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.

ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?
Umberto Eco -
 Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros. 

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco -
 Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet. 

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco -
A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento. 

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
Eco -
Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes. 

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco -
Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar. 

ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?
Eco -
Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco -
Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco - 
Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II. 

ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?
Eco -
Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?
Eco -
 Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião. 

ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas?
Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?
Eco -
Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?
Eco -
Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?
Eco -
Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?
Eco -
Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea?
Eco -
Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que não é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?
Eco -
O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.

ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco -
Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco -
Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.

ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?
Eco -
Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?
Eco -
Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?
Eco -
Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?
Eco -
Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre?
Eco -
Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?
Eco -
Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.

 

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