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Jardim das Delícias



Sábado, 15.07.17

Um texto de Teresa Pizarro Beleza a propósito das lágrimas da Ministra

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Teresa Pizarro Beleza

frederic leighton, antígona, 1882a.jpg

(Frederic Leight, Antígona, 1882)

 

 

   Há pouco mais de trinta anos, em 1985 se não estou em erro, na viagem à União Europeia - então CEE - para a qual a Comissão convidou 25 Portuguesas e 50 Espanholas, para nos mostrarem a Civilização - umas madames francesas explicaram-nos que o problema das Mulheres na Política era a emoção.

Eu retorqui que, com licença das presentes (eram Advogadas e nos cartões todas usavam «Avocat», não «Avocate», o que se começou a tornar comum algum tempo depois) o problema era que as reuniões partidárias eram em geral bastante «emmerdantes» e as Mulheres tinham mais que fazer.

Esta cena passou-se em Paris. Antes, em Marselha, e depois, em Bruxelas, tivemos de explicar pacientemente que sim, éramos - somos - um País antigo e sim, falávamos Francês e outras línguas.

E sim, tínhamos lido uns livros, frequentado umas Universidades, etc.
(respondiam frequentemente com as suas 'bonnes' e 'concierges' todas óptimas, etc)

Comigo estavam: Maria Isabel Barreno, Teresa Ricou, Helena Roseta, Margarida Carpinteiro, creio que a actual Secretária de Estado Margarida Marques e mais variadas 'Colegas' - tenho de recapitular a lista e recuperar um relato da viagem que publiquei numa revista 'Forum', creio, em espanhol, a pedido de um Senhor da Comissão (?). No Centro Jean Monnet em Lx deve existir mas esqueço-me sempre de lá ir e não sei que fiz ao meu exemplar, sumido há anos no meio dos meus mil papeis.

Pelas reacções patéticas e patetas que tenho visto às lágrimas de Constança Urbano de Sousa, de quem tenho a honra de ser amiga e colega, parece que afinal nada mudou, ou quase, no plano dos preconceitos e 'manias'.

O que é, no mínimo, descoroçoante.

Bem sei que trinta anos em mais de dois mil de juristas, teólogos & al a explicar a nossa «imbecillitas sexus» não é grande coisa, mas como pensar e agir sem referência ao horizonte das nossas pp Vidas?!?

Aqui vai a Antígona, pintada por Lord Leighton, para variar da Cassandra, minha antiga obsessão.
(Não me lembro se Antígona chora quando enterra o irmão, mas é coisa p'ra isso)»

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por Augusta Clara às 14:53

Terça-feira, 04.07.17

Qu'é da Santa Bárbara?! - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Qu'é da Santa Bárbara?!

camile pissaro (1830-1903)a.jpg

(Camille Pissarro)

 

 

A conversa fluía, entrelaçada como as cerejas.

- Morreu Sicrano, Beltrano já se divorciou, ainda há dois dias cum casamento de arromba para dar em nada, este anda metido co aquela, aquela anda metida co este...

Por tristes razões, era difícil o pensamento concentrar-se, e tudo  soava a uma ladainha desafinada. Apenas quando foi interpelada, acordou do torpor mental.

- Você sabe o que aconteceu à Santa Bárbara?

A capela fora sempre o pequeno tesouro da aldeia. O sino só  repicava a baptizado e tinha um som tão fresco e alegre que sabia sempre a festa. Caiada de branco, com uma torre em bico a desenhar-se na serra negra, vestia-se de sol por dentro e por fora, de tão arejada que era. Granito e azulejos enriqueciam as paredes, e a madeira nobre entrelaçava-se no varandim do coro, do púlpito e na grade que separava o lugar das mulheres do lugar dos homens. Lindos altares, muito sóbrios, com belas imagens provavelmente valiosas, airosas, bem vestidas e bem talhadas. Tirando o Sr. dos Passos, vestido de roxo, coroado de espinhos, a sangrar por todos os lados, metendo medo a quem dele se abeirasse, todas as outras santas e santos tinham um ar de felicidade, apesar de estarem para ali especados, sempre de pé no seu recanto. Nunca mostravam caras de enfado ou cansaço, bem pelo contrário, tinham um rosto sorridente e sereno, caras de santidade.

- No fim da missa, o Sr. Prior acenou-me e fiquei aflita. O que é que ele me quererá?

Ela era a principal zeladora da capela e a mais responsável por tudo o que lá dentro se encontrava.

- Qu´é da Santa Bárbara? Você sabe onde está a Santa Bárbara?!

- Eu não, Sr. Prior, ainda na semana passada lhe limpei o pó.

Qual o seu espanto, quando olhou para o altar e viu o lugar da santa, vazio!

- Mas esteja descansado, Sr. Prior, que eu vou descobrir quem a levou. E andei, andei... fui a missas a outras capelas da freguesia, a capelas de outras instituições, e que Deus me perdoe, se não prestei atenção a nada. Os meus olhos e pensamento estavam unicamente concentrados na Santa Bárbara. E, sabe que a descobri! Vou-lhe dizer onde é que ela estava, mas é segredo. Na missa seguinte, esperei pelo Sr. Prior e disse-lhe: Já sei onde está a Santa Bárbara. Está em tal sítio.

O prior percebeu logo o que se passava. A Santa era muito valiosa. Fez muitos milagres mas não foi capaz de se livrar do rapto. Pobre santa! Foi resgatada e voltou para a capela, para o seu devido lugar.

Quando o ribombar do trovão faz tremer os céus, e o relâmpago fulmina a serra negra de lés-a-lés, lá continua a Santa Bárbara, na serenidade do altar, a fazer milagres, a desterrar a trovoada para monte maninho, onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira, nem bafinho de menino.

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por Augusta Clara às 16:31



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