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Jardim das Delícias



Terça-feira, 04.07.17

Qu'é da Santa Bárbara?! - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Qu'é da Santa Bárbara?!

camile pissaro (1830-1903)a.jpg

(Camille Pissarro)

 

 

A conversa fluía, entrelaçada como as cerejas.

- Morreu Sicrano, Beltrano já se divorciou, ainda há dois dias cum casamento de arromba para dar em nada, este anda metido co aquela, aquela anda metida co este...

Por tristes razões, era difícil o pensamento concentrar-se, e tudo  soava a uma ladainha desafinada. Apenas quando foi interpelada, acordou do torpor mental.

- Você sabe o que aconteceu à Santa Bárbara?

A capela fora sempre o pequeno tesouro da aldeia. O sino só  repicava a baptizado e tinha um som tão fresco e alegre que sabia sempre a festa. Caiada de branco, com uma torre em bico a desenhar-se na serra negra, vestia-se de sol por dentro e por fora, de tão arejada que era. Granito e azulejos enriqueciam as paredes, e a madeira nobre entrelaçava-se no varandim do coro, do púlpito e na grade que separava o lugar das mulheres do lugar dos homens. Lindos altares, muito sóbrios, com belas imagens provavelmente valiosas, airosas, bem vestidas e bem talhadas. Tirando o Sr. dos Passos, vestido de roxo, coroado de espinhos, a sangrar por todos os lados, metendo medo a quem dele se abeirasse, todas as outras santas e santos tinham um ar de felicidade, apesar de estarem para ali especados, sempre de pé no seu recanto. Nunca mostravam caras de enfado ou cansaço, bem pelo contrário, tinham um rosto sorridente e sereno, caras de santidade.

- No fim da missa, o Sr. Prior acenou-me e fiquei aflita. O que é que ele me quererá?

Ela era a principal zeladora da capela e a mais responsável por tudo o que lá dentro se encontrava.

- Qu´é da Santa Bárbara? Você sabe onde está a Santa Bárbara?!

- Eu não, Sr. Prior, ainda na semana passada lhe limpei o pó.

Qual o seu espanto, quando olhou para o altar e viu o lugar da santa, vazio!

- Mas esteja descansado, Sr. Prior, que eu vou descobrir quem a levou. E andei, andei... fui a missas a outras capelas da freguesia, a capelas de outras instituições, e que Deus me perdoe, se não prestei atenção a nada. Os meus olhos e pensamento estavam unicamente concentrados na Santa Bárbara. E, sabe que a descobri! Vou-lhe dizer onde é que ela estava, mas é segredo. Na missa seguinte, esperei pelo Sr. Prior e disse-lhe: Já sei onde está a Santa Bárbara. Está em tal sítio.

O prior percebeu logo o que se passava. A Santa era muito valiosa. Fez muitos milagres mas não foi capaz de se livrar do rapto. Pobre santa! Foi resgatada e voltou para a capela, para o seu devido lugar.

Quando o ribombar do trovão faz tremer os céus, e o relâmpago fulmina a serra negra de lés-a-lés, lá continua a Santa Bárbara, na serenidade do altar, a fazer milagres, a desterrar a trovoada para monte maninho, onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira, nem bafinho de menino.

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por Augusta Clara às 16:31



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