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Jardim das Delícias


Domingo, 21.05.17

A terceira via para o abismo - José Goulão

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José Goulão  A terceira via para o abismo

 

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Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». 

 

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   A epidemia potencialmente letal que atinge hoje os partidos socialistas e social-democratas terá começado com Anthony Blair à frente dos trabalhistas britânicos, embora a degeneração gradual viesse de trás.

No entanto, a conversão ao ultraconservadorismo de Thatcher e Reagan, a submissão às inquestionáveis ordens do mercado, as ânsias de privatização do Estado e os ataques sem piedade aos direitos sociais e laborais dos cidadãos representaram um salto qualitativo na degradação, a que se foram juntando, numa vertigem que agora se conclui ser suicida, as mentiras na cena internacional, o culto da guerra, a rapina generalizada.

Aproveitando depois o balanço e as circunstâncias propícias da História ocorridas na transição da década de oitenta para a de noventa do século passado, os agentes da paciente conspiração norte-americana em Itália infiltrados nos Partidos Socialista e Comunista aceleraram a sua missão e, nos escombros das duas entidades históricas, ergueram o Partido Democrático, à imagem e semelhança do seu homónimo dos Estados Unidos – isto é, sem funcionamento orgânico e seguindo orientação económica neoliberal – que definiram como sendo a nova «esquerda», daí em diante a única com vocação de poder.

Há pouco mais de um ano, o então presidente francês, François Hollande, eleito pelo Partido Socialista, defendeu que os novos tempos exigiam um «hara-kiri do PS», uma transformação em algo de ideologia muito mais abrangente e indefinida, que imaginou como «Partido do Progresso»; na mesma altura, um dos primeiros-ministros que nomeou durante o seu mandato, Manuel Valls, declarou a necessidade de o Partido Socialista mudar de nome.

Há poucos meses, o ministro da Economia de ambos, Emmanuel Macron, também ele uma figura do PSF, lançou o movimento En Marche que, sem militantes e estrutura mas com financiamento dos bancos e banqueiros para os quais trabalhou, e com o apoio operacional de agentes enviados pelo Partido Democrático dos Estados Unidos, o catapultou quase do zero até à Presidência da República.

Enquanto isso, o candidato oficial do PS – ou do que dele resta – ficou abaixo dos sete por cento nas eleições presidenciais, abandonado pelo aparelho do partido, pela sua Fundação Jean Jaurès e pelas figuras de proa, com destaque para Hollande e Valls, que logo se puseram en marche com Macron.

Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». O resto é «extrema-esquerda» ou «esquerda radical», isto é, organizações «desfocadas» da realidade, «agarradas ao passado», incapazes de se adaptarem aos novos conceitos evolutivos, em suma, entidades que se atrevem a rejeitar a doutrina única e oficial, o capitalismo selvagem.

Dos casos citados a propósito do Reino Unido, Itália e França, só os trabalhistas britânicos ainda resistem à dissolução, por continuarem a recorrer, pelo menos até agora, a consultas às bases partidárias para elegerem os dirigentes e não ao artifício anti partidário das primárias, importado, claro, dos Estados Unidos da América. Porém, mesmo desacreditado perante o reconhecimento geral dos seus crimes e mentiras no drama do Iraque, Tony Blair e a sua teia de propaganda voltam a estar activos na intriga e desestabilização do Partido Trabalhista, de modo a reencaminhá-lo na senda da destruição que muitos outros estão a percorrer.

Os casos de Itália e França são exemplares. Renzi e Macron parecem saídos da mesma forma tecnocrática de políticos robotizados em práticas de direita, envolvidos na mentira, agora cada vez mais grosseira, de que eles são «a esquerda».

Outras situações do género, que traduzem a destruição de partidos socialistas, estão consumadas ou na calha. Em Espanha, a deriva do PSOE é total, acelerada depois de ter entregado o poder, de novo, aos neofranquistas de Rajoy; e, na Alemanha, o SPD está a pagar cara a submissão feita de cumplicidade ao autoritarismo de Merkel.

Na Grécia, a miniaturização do PASOK é idêntica à do PS francês, embora sem o efeito Macron; pelo menos por enquanto, embora não seja seguro que o tsiprarismo, cada vez mais fiel às ordens de Bruxelas à custa do ainda e sempre penalizado povo grego, não vá no mesmo sentido.

Na Holanda e na Bélgica, os partidos da Internacional Socialista pulverizaram-se devido ao envolvimento na gestão da crise, praticando políticas de direita – e até de extrema-direita e xenófobas, sob o interessante pretexto de travar a influência da extrema-direita. Hollande não foi, portanto, o caso único, embora tenha ido mais longe ao governar em estado de excepção durante grande parte do mandato.

No mundo nórdico, os partidos da social-democracia, outrora reis e senhores, afundam-se em situação de deriva depois de se terem rendido à prática neoliberal, por vezes seguindo os conservadores ou então tomando a iniciativa – também para «retirar espaço» à direita.

Nos países do leste europeu, a social-democracia mal viu a luz do dia depois da extinção da União Soviética. Nasceu já neoliberal e limitou-se a colaborar na afirmação do populismo e da extrema-direita como verdadeiros gestores do capitalismo selvagem.

Às práticas thatcheristas de Blair, os politólogos sempre em busca de baptismos para «novas esquerdas» chamaram «terceira via». Para onde? Para o socialismo, pois claro, de acordo com as suas doutas elucubrações em forma de mensagens propagandísticas primárias. Na verdade, mais uma via para o capitalismo puro e duro, à moda de Friedman e dos «Chicago Boys» que criaram «o milagre de Pinochet» – por fim o capitalismo isento de quaisquer inquietações sociais e com as pessoas, livre da mais ínfima das sequelas keynesianas.

Com maior ou menor convicção, os partidos socialistas e social-democratas seguiram Blair incarnando o flautista de Hamelin, institucionalizando-se como o «lado esquerdo» do sistema bipolar que governou a União Europeia como partido único, até estatelar-se estrondosamente, em 2008, nos frutos podres da subserviência ao casino financeiro – a «crise».

Se alguém tiver dúvidas, pode consultar as decisões do Parlamento Europeu tomadas ao longo de anos e anos: em matérias de cultura, questões de consciência e até direitos teóricos, é possível detectar diferenças entre os comportamentos dos membros do Partido Popular e do Grupo Socialista; mas quando se chega aos assuntos económicos, laborais, à imposição da austeridade, às medidas financeiras, de combate à crise ou de estruturação autoritária da União Europeia e da Zona Euro, aí a convergência é praticamente total entre os dois blocos.

A verdade é que a conjugação da crise com os efeitos sociais, a que se junta o problema dos refugiados resultante de guerras pelas quais a União Europeia também é responsável, desmoronou a arquitectura política de partido único com duas tendências. Na entropia resultante em que vivemos, na qual multidões de cidadãos desorientados, manipuladas pelos aprendizes de feiticeiros peritos em explorar o medo e a insegurança, são cativadas por apelos de populistas mais ou menos envernizados, por mensagens trabalhadas à maneira de anúncios de refrigerantes, ou até por fascistas retintos, as esquerdas que permanecem fiéis ao humanismo, à cidadania e às pessoas quase não conseguem fazer-se ouvir.

No meio das ruínas da arquitectura política em extinção tornou-se evidente que o papel da social-democracia oficial na gestão do neoliberalismo, mesmo temperada pela «terceira via», se tornou descartável, inútil. Cumpriu o papel, mas cabe agora à direita pura e dura, nas suas variantes que chegam até aos extremos do populismo e do fascismo, gerir o sistema neoliberal.

O arrastamento da crise, desmentindo a teoria dos ciclos altos e baixos da economia, tornou o funcionamento do sistema praticamente impossível em democracia. É preciso afastar os cidadãos do direito de decidirem, seja pela força, pelo autoritarismo em liberdade condicionada, pela intoxicação tecnocrática disfarçada de inovação política.

Por isso os Partidos Socialistas caem como pedras de dominó. A maioria dos seus dirigentes instalam-se no novo espaço. Onde já se encontra, há muito, a instituição que conduz este processo de modo cada vez mais indisfarçado: o Partido Democrático dos Estados Unidos. Daí que Hillary Clinton, senhora da guerra com as mãos sujas de sangue de milhões de mortos e feridos e do sofrimento de milhares de refugiados, seja a figura de referência da Internacional Socialista de hoje. Está encontrada mais uma «nova esquerda», agora sim fazendo inequivocamente parte da direita.

Porém, como sabemos, nem todos os dirigentes socialistas apanharam a boleia de Blair e discípulos: existem casos de resistência a alguns valores essenciais; além disso, os chefes que fogem deixam para trás multidões de cidadãos que não estão dispostos a acompanhá-los como os ratos seguiram o flautista de Hamelin – e assim volto ao velho conto de Grimm.

Por isso, a esquerda – ou as esquerdas, se preferirem – têm agora milhões de seres humanos como destinatários de mensagens que sejam capazes de mobilizar o combate contra um adversário poderosíssimo mas cada vez mais definido e identificável, por muito que use e abuse da intoxicação, do ilusionismo e da mistificação.

Para que as mensagens sejam unificadoras da mobilização e dinamizadoras dos objectivos de luta é necessário que as esquerdas decidam, de vez, deixar de se dividir e engalfinhar em torno de ilusões que a realidade está cansada de desmascarar: a burla do «mercado livre», o mito «europeísta», a ideia absurda de que a União Europeia é «regenerável», a mentira de que é possível compatibilizar a democracia e a soberania com a obediência aos ditadores servindo Bruxelas e a moeda alemã, também chamada única ou euro.

Num dia, que está próximo pela força das circunstâncias, a Internacional Socialista mudará também ela de nome, sem precisar de fazer hara-kiri. Grande parte dos seus membros já o fizeram. Se preferir continuar a chamar-se assim, ficará como um imprestável paquiderme em busca do seu cemitério.

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por Augusta Clara às 00:17

Quinta-feira, 18.05.17

Capricho Arabe de F. Tárrega, por Tatyana Ryzhkova

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Tatyana Ryzhkova  Capricho Arabe

 

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por Augusta Clara às 01:49

Segunda-feira, 15.05.17

São de lágrimas os olhos das andorinhas - Eva Cruz

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Eva Cruz  São de lágrimas os olhos das andorinhas

 

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(Augusto Peixoto)

 

 

Acordo com a luz da Primavera

foram-se os cheiros e as cores

a alegria do verde e o azul do céu.

Uma brisa suave leva-me  onde amei

dentro de um sonho que perdeu o futuro.

Não me dou com o malvado do tempo

que nada corrige e a nada obedece.

Fico à espera da manhã azul

e o  tempo adormece.

Os pássaros enamorados

não sabem que o Outono cinzento volta.

Julgam-se donos do mundo.

Tenho vontade de lhes contar a verdade.

Que vivam na ilusão! A Primavera volta sempre, ou talvez não...

Acordo com a luz da Primavera, mas ela vem despida de

azul e são de lágrimas os olhos das andorinhas.  

 

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por Augusta Clara às 15:57

Quinta-feira, 11.05.17

Peregrina da saudade - Eva Cruz

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Eva Cruz  Peregrina da saudade

 

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(Tara Turner, "The same but different")

 

 

   A estrada é de maias amarelas. Solitário, o asfalto cinzento guia os olhos por detrás das lágrimas. Os montes caem em socalcos desdobrando a verdura sob o brilho do sol, coado por núvens brancas a delir-se. As maias são o tempo passado  que há-de voltar. O tempo, tal como o rio, não é de parar.

Os plátanos soltam as plumas e no rio de sombras e brumas  cai o sol a brilhar. Para tràs ficaram as maias amarelas e parte da vida com elas. O Maio há-de voltar de novo,  a florir, quer deseje cá estar, quer deseje  partir.

O rio, negro e fundo, corre manso e frágil sob as águas trémulas, cobertas de algodão branco, como manto de neve no calor da tarde.  Nem o  algodão branco, nem os pássaros vestidos de céu devolvem ao rio da vida  o brilho que a vida perdeu.

Peregrina da saudade, percorro os mesmos caminhos e atravesso as mesmas pontes, segurando-te a mão. Lá em baixo, o rio  reflecte o mesmo céu, mas as  aves nada me dizem, não sabem de ti.

Oiço apenas o eco dentro de mim, o eco da serenidade e da partilha , para o bem e para o mal, naquele cantinho enfeitado com o meu chá e o teu jornal.

Escrevo-te da varandinha do quarto para te dizer que  os plátanos estão enormes. São dois, entrelaçados, abraçando o céu. Como nós, se a noite não fosse vazia e a mão estendida não fosse apenas a coberta branca e macia. 

No banco, à beira do rio, o cantar das rãs rompe a saudade. Tenho tanta inveja do rio, sempre vivo, sem idade!

Peço às estrelas que escrevam no céu, ao lado  de Corconte, a lenda do Palácio cor-de-rosa, que no silêncio daquela tarde, reflectido nas águas do rio, retoma lentamente e  para sempre a cor da pedra.

 

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por Augusta Clara às 17:43

Sexta-feira, 28.04.17

Ruas de Lisboa - Carlos Mendes

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Carlos Mendes  Ruas de Lisboa 

 

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por Augusta Clara às 22:39

Terça-feira, 25.04.17

"Um cravo vermelho e luminoso" - Adão Cruz

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Adão Cruz  "Um cravo vermelho e luminoso"

 

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(Adão Cruz)

 

Um cravo vermelho e luminoso
Um cristal de vida no céu de chumbo
Cada dia um mundo limpo e perfumado
Graças a ti flor da minha idade
Graças a ti caminho da esperança às portas da cidade
Todo o mel e todos os frutos ali à mão
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
Veio o tempo ao nosso encontro
E a manhã despertou agitando as árvores
E a noite se fez de estrelas
Que desceram aos cantos do jardim
Um cravo vermelho e quente
Mais que tudo amando a vida
Em qualquer língua entendida
O mundo tinha o sabor de uma maçã
E os olhos inacabados eram cravos vermelhos
Não havia cárceres nem torturas
Apenas o calor de uma fogueira
Na praça do entusiasmo
E uma jovem mulher dormindo um sono de criança
Nos telhados da revolução
O seu rosto era uma nuvem
Dourada pelo sol e pela lua
Os cabelos trigueiros uma seara
Nos lábios a canção de Abril
Que gloriosa encheu a rua.

 

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por Augusta Clara às 15:38

Segunda-feira, 24.04.17

25 DE ABRIL SEMPRE!

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(Imagem de Adão Cruz)

 

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por Augusta Clara às 01:33

Domingo, 23.04.17

Barcelona, a cidade dos livros - João de Melo

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João de Melo  Barcelona, a cidade dos livros

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(Salvador Dali, Livro-árvore)

 

       A 23 de Abril de cada ano, dia do livro e de Sant Jordi, patrono da Catalunha, todos os caminhos da festa e do sonho vão dar a Barcelona. Os livros saem à rua, levados pelos livreiros e pelos editores. Desfilam à proa de grandes medas, sobre bancas alinhadas e que se estendem ao longo do passeio público. Abrem-se bibliotecas, escolas e instituições de cultura às contínuas multidões de leitores que deslizam por ali ao som da música “callejera” e de vozes que cantam ou apregoam os indecifráveis comércios de tudo o que se compra e vende nos dias de Barcelona. Há uma espécie de bramido de mar e vento salgado na confusão desses rumores. Espreita-se o recital de poesia à porta das livrarias mais conhecidas, dá-se passagem a figuras alegóricas da literatura em desfile pelo passeio central da Rambla, assiste-se à aparição de personagens ressuscitadas das páginas dos livros e à encenação de episódios que toda a gente identifica ou intui a partir das suas próprias leituras. É sobretudo nas alegres Ramblas que se concentram as figuras de carne e osso dos livros, mas não só. Aí estão os poetas e os escritores a autografar as suas obras, a receber mãos e beijos agradecidos, a polir o ego tímido com sorrisos e elogios murmurados ao ouvido. Faz parte da tradição e da liturgia que as damas ofereçam livros aos cavalheiros, e que estes lhes retribuam com rosas. O certo é que se trata de uma das festas mais felizes do ano em Espanha (observada, aliás, em praticamente todas as suas cidades, mas com graus de incidência variáveis), porque vibra no ar e na carne de toda a gente algo como um orgulho pessoal acerca da literatura. Como se todos nela celebrassem a beleza do mundo, o princípio da vida, o género humano e o privilégio da língua e da palavra.

De resto, não creio que haja, em toda a Espanha, uma cidade mais poética e sobretudo mais literária do que Barcelona. A existência de uma literatura catalã parece, aliás, estar toda nela contida: essencialmente urbana, sócio-histórica, cada vez mais mundana e cosmopolita. Apesar de ser um dos grandes destinos turísticos do país, é sobretudo pelos roteiros culturais da cidade que se movem as contínuas multidões que a visitam, vindas de todos os continentes. Barcelona é de uma beleza tranquila, mediterrânica, cheia de vida nas longas noites estivais e de vozes que falam todos os idiomas do mundo. Cidade compacta, anfiteatro de labirintos, coração capital de uma Catalunha dono e senhora da sua glória histórica. O circuito da arquitectura de Gaudí (todo o mundo mágico de Gaudí, aliás) não deixa de sugerir uma atmosfera de irrealidade e de evanescência que nos aproxima tanto de um surrealismo exposto, à Dalí, como de um património integrado que faz dela um berço e um navio de sonhos.

Também a literatura pode mover-nos em torno de uma visão subjectiva, referencial, centrada ora no presente ora na intemporalidade de Barcelona. Os seus poetas são outrossim os seus cantores. Ouço-os nos meus próprios passos: as suas vozes batem o silêncio ao crepúsculo, atravessando comigo o Bairro Gótico. Se passeio ao fim da tarde pela orla marítima, no porto, ao longo do corpo salgado, grosso e cavo do Mediterrâneo catalão, vislumbro logo a figura de Dom Quixote de la Mancha a chegar ali, trazido pela mão de Miguel de Cervantes para conhecer o mar, num dos capítulos mais poéticos que ainda hoje se podem ler sobre uma cidade tão literária como esta. E quando desço ou subo as Ramblas, vendo milhões de pássaros de todas as cores dentro das gaiolas, floristas com mãos doces e olhos pálidos, músicos e artistas de rua nos seus números, é por dentro de outros livros que viajo: por exemplo, numa página de «A Cidade dos Prodígios», de Eduardo Mendoza; ou numa outra de «A Sombra do Vento», de Carlos Ruiz Zafón (onde Barcelona assume a poética misteriosa da vida que vem nos livros). Movo-me nas “Últimas Tardes com Teresa” e nos “Rabos de Lagartixa”, dois livros de Juan Marsé; e nas páginas de um romance simples, acerca de tudo, que se chama “Nada”, de Carmen Laforet. Movo-me também num dos magistrais «Doze Contos Peregrinos», de Gabriel García Márquez, dedicado a Barcelona, cuja geografia suburbana me anuncia o vento e os caminhos do grande feitiço, assim como a música das suas palavras. Mas existem páginas inesquecíveis nos livros cheios de bares e esplanadas de Terenci Moix, Enrique Vila-Matas, Manuel Vázquez Montalbán, Rosa Regàs e Pedro Zarraluki. Porém, quando vagueio ao acaso das ruas de Barcelona (ao acaso das vozes, dos odores, do peso rigoroso das coisas à tona dos meus cinco sentidos) - é aí, profundamente, totalmente, a cem por cento, que me sinto a bordo de um livro único: «A Praça do Diamante”, de Mercé Rodoreda. A escritora por antonomásia de Barcelona. Mercé está para a Catalunha como Flannery O’Connor para a América e Virginia Woolf para o Reino Unido. Quero dizer: o universo inteiro de qualquer literatura. Benditas sejam portanto as pessoas felizes que lêem e que vivem em Barcelona, a cidade dos sonhos e das palavras, cidade da vida que inspira a memória poética da literatura - e que, por sua vez, também a inspira e a explica! 

 

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por Augusta Clara às 14:16

Quinta-feira, 20.04.17

"Ainda a propósito das vacinas e do sarampo" - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  "Ainda a propósito das vacinas e do sarampo"

 

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       Ainda a propósito das vacinas e do sarampo:

Há uma doença infantil do jornalismo que se chama "equidistância" e que os maus jornalistas confundem com a saudável e indispensável "independência".

A independência significa que 1) um jornalista deve ter o cuidado de se distanciar de interesses particulares, 2) que, quando possua laços pessoais ou outros que impeçam essa independência em relação a determinados temas ou histórias, se deve abster de tratar esses temas e histórias como jornalista e 3) que deve adoptar no seu trabalho jornalístico uma atitude crítica, céptica e, tanto quanto possível, desapaixonada.

A equidistância (que os americanos chamam "balanced reporting") significa na prática que se deve ouvir sempre dois lados de uma questão. Bastam dois. Mesmo que a questão tenha (como quase todas têm) 7 lados, 23 perspectivas e 56 partes interessadas.

Nos EUA, tornou-se assim habitual fazer "balanced reporting" da política ouvindo um porta-voz do partido Democrata e outro do partido Republicano. Mesmo que se trate de um idiota de um partido e de um corrupto do outro ou que ambos defendam o mesmo interesse e a mesma mentira.

É mais fácil, mais rápido e mais barato que tentar apurar os factos, principalmente quando todas as fontes possíveis têm interesse em esconder a verdade. O problema é que nem todas as histórias do mundo são discussões teóricas onde apenas se confrontam duas opiniões igualmente válidas.

A responsabilidade do jornalista é apurar factos, quando eles possam ser apurados, e tratar de forma discriminada as diferentes versões. Não se trata de contar a história das vítimas ao lado da versão do torcionário. Ou apresentar como diferentes versões, diferentes "visões do mundo", relatos verificáveis e falsificáveis (no sentido Popperiano) ao lado de fantasias sem sentido. A evolução e o creacionismo, por exemplo. Ou a medicina científica e a homeopatia. Ou a astrofísica e a astrologia. Ou a cartomancia e a psicoterapia. Sempre com o argumento de que se trata, em todos os casos, de construções sociais. Serão certamente, mas acontece que as previsões de algumas podem ser avaliadas e outras nem sequer isso.

Nos melhores casos, os jornalistas preocupam-se, genuinamente, em ser independentes e em ouvir "todos os lados". Nesse afã, esquecem-se muitas vezes (ou não lhes dão meios) de que não podem apresentar a mentira e a verdade como versões igualmente válidas da realidade para o leitor escolher.

É um jornalismo barato, defensivo ("Eu não sei quem tem razão, mas ouvi-os todos e citei-os todos") mas socialmente pernicioso. Se o jornalismo não distinguir entre factos e fantasias não serve para nada. Ou serve apenas para manipular o público e defender os mais descarados dos manipuladores. E a verdade é que, se é admissível, no domínio dos princípios, uma escolha pessoal irracional (como não vacinar os filhos) não é admissível que um jornalista apresente essa escolha como estando baseada em sólidos argumentos racionais, tão válidos como os opostos. Não está. Se o jornalismo não tiver coragem para distinguir isso pode ser substituído com vantagem pelas palavras cruzadas.

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por Augusta Clara às 19:23

Quinta-feira, 20.04.17

Os Antivax - João Vasconcelos-Costa

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João Vasconcelos-Costa  Os Antivax

 

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(doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador em virologia com agregação em Microbiologia pela Universidade Nova de Lisboa) 

 

18 de Abril de 2017

   Este é o termo que se vulgarizou nos EUA para os pais, geralmente de classe média alta, universitários, politicamente corretos, que recusam vacinar os filhos. Vou escrever sucintamente alguma coisa sobre isto, respondendo a Maria Leite, que comentou um “post” meu no facebook.
 
Deve-se distinguir (o que se reflete numa eventual penalização) da situação de pessoas de poucos meios, não informadas, marginalizadas, que não recorrem habitualmente aos recursos disponíveis do SNS. Da mesma forma, e é problema crescentemente importante, os imigrantes recentes e refugiados, ainda não inseridos.
 
Falo é d”os que sabem”, arrogantes na sua ignorância. Invocam três tipos principais de razões.
 
Primeiro, que a vacinação não é natural. É o estilo “paleo”, bem representado num filme de que agora não recordo o nome, de um pai que (des)educa os filhos a viver na floresta como crianças de Rousseau. Para eles, é boa a dieta das cavernas, do tempo da caça, a vida selvagem, embora todos os dias saiam para a sua vida real de yuppies. As crianças é que pagam.
 
Segundo, a tese de que as vacinações mexem na nossa imunidade natural. Ignorância científica total! Há de facto uma chamada imunidade natural, primitiva e sem grande significado (infelizmente) que não vou agora discutir. Mas, no que toca à generalidade da nossa imunidade, toda ela é memória de contactos adquiridos com tudo o que nos rodeia desde o nascimento, incluindo micróbios. E até temos ao nascer, embora transitoriamente, a imunidade das nossas mães, pelos seus anticorpos que circulam no sangue que passa da placenta para o feto.
 
O que fazemos com as vacinas é simplesmente simular o que a natureza faz, mas orientando, em termos absolutamente biológicos e naturais, para a imunização contra doenças. Mesmo sem isso, adquirimos imunidade contra muitas doenças mesmo sem as termos, por infeções sem sinais clínicos. Por exemplo, eu não preciso de me vacinar contra a hepatite A porque tive contacto com o vírus e estou imunizado, mesmo sem alguma vez ter tido a doença. Não podemos é confiar neste processo natural, por ser muito falível.
 
Terceiro, e tenebroso. A grande fundamentação dos antivax é uma das maiores imposturas da medicina moderna, o trabalho fraudulento de um tal “Dr” Wakefield, que pretende que a vacina contra o sarampo (associada a papeira e rubéola) causa autismo. Esses “resultados” já foram claramente denunciados como fraude científica e ele foi expulso das ordens inglesa e americana. Mas continua a ser muito lido na net e a possuir (sem funções médicas, para que está proibido) uma clínica para autistas muito lucrativa.
 
Ou os antivax temem efeitos negativos das vacinas? Como tudo na medicina, existem, mas são irrelevantes (inchaços locais, alguma dor, febre pouco elevada e passageira) e pouco frequentes.

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por Augusta Clara às 18:36



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