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Jardim das Delícias



Domingo, 26.03.17

Anda no ar um cheiro triste - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Anda no ar um cheiro triste

36-2013a.jpg

(Adão Cruz)

 

 

Fujo do rio vazio
e sento-me neste banco cinzento que já foi branco
quando havia borboletas brancas e muitas flores
e alegrias e pedaços de sol entre os braços da sombra.
Fujo deste banco escuro do cais do Ouro
onde os corvos marinhos secam as asas ao sol
e a tristeza invade as margens com a maré cheia.
Fujo do rio quando os barcos se enterram no lodo
e a luz é uma neblina densa que invade a alma pelos olhos dentro
e os corvos marinhos fazem voo rasante para outras paragens.
Fujo do rio e vou sentar-me noutras paisagens
neste banco cinzento que já foi branco e de outras cores
onde tudo o que chama por mim é silêncio
e o corpo me dói
e a alma se dissolve na água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho.
Sento-me na pedra fria deste banco que já foi branco
no tempo das flores e das borboletas brancas
em que não havia desertos ao fim da tarde.

Anda no ar um cheiro triste
e por isso deixei que a tarde me falasse
mas tudo o que chamava por mim era silêncio
e era silêncio o cantar da água que ia regar as cinzas
e as carnes moles de um corpo velho.
Não havia desertos entre a folhagem
neste banco pintado de branco
entre os pedaços de sol e os braços da sombra
mas os desertos aí estão
desertos de areias que são sementes de cabeças de criança
sim
as desse tal Herberto
caminhando ao longe
vagarosamente
sobre as areias do deserto.

Anda no ar um cheiro triste
e eu sento-me na margem húmida do rio num barco inventado
ali mesmo ao lado do minititanic
a sobrar de podre e a dobrar o tempo do amor de um velho
na loucura do sonho do cair da tarde
e a noite não tarda
salpicada de borboletas negras de voo pesado
e barcos enterrados no lodo.
Fujo do rio antes que chegue a maré cheia
e a tristeza baixe as asas dos corvos marinhos
e o sol não seja mais que uma densa neblina afogando o rio
e os corvos marinhos chamem por mim em desafio
e tudo o que chame por mim não passe de silêncio.

Anda no ar um cheiro triste
e eu fujo do rio que dá a ideia que vai secar
como os pedaços de sol e os braços da sombra
e vou sentar-me naquele banco cinzento que fora branco.
Fujo do rio e do cais do Ouro
mas o silêncio beliscado pelo fio de água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho
não passa do silêncio de tudo o que pode ser
o desesperado voo rasante dos corvos marinhos
sobre um rio negro deserto e frio que faz tremer.

 

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por Augusta Clara às 15:06




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