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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 02.06.17

Às prostitutas, no seu Dia - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Às prostitutas, no seu Dia

 

   Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. E no mundo, como todos sabemos, não há complacência para a tortura das costas, humanas e geográficas. Das costas e dos corpos, da terra inteira, dos continentes, que vão sofrendo e respirando mais e menos consoante as levas de pó, os ventos da ganância e os mares do egoísmo, que se vão habituando a desejar o mal dos outros por já só conceberem o seu bem à escala dele, tão funda vai a cegueira neste olho suspenso do universo, neste olho que, apesar de tudo, ainda gira, ainda espera que o olhemos, não aceita que sejamos dois com ele, ele o planeta e nós o anel, dois olhos da mesma cara, duas órbitas que nem do estrabismo nem da ciência se podem valer, dois poemas impedidos pelo visível, pelo palpável, de pousarem um no outro, reconhecendo cada um ao seu espelho que o amor é tudo aquilo de que a carne os separa. A carne, a razão concreta, a mãe da luta, a filha da puta. É por ela que protagonizamos este espectáculo sangrento da história humana, é por ela que queremos sempre mais guerras, mais vitórias de menos vencedores, menos deveres para quem tem mais direitos. É pelo dinheiro que gastamos o tempo, é pelo fruto que cortamos a árvore, é pela imagem que esvaziamos a substância, é pelo poder que proibimos, é pelo luxo que escondemos o lixo, é para seguir em frente que não olhamos para trás, é pela filha da puta que matamos a mãe. É por nós que não nos queremos. Nós, os filhos da puta. O que é, afinal, uma puta, uma puta homologada, se não alguém que vende o seu corpo para ganhar a vida, que o faz às claras, sem dissimular, sem enganar, que dá o que tem e a muito mais é obrigada por uma sociedade de fundo falso, ingrata, sem raiz, que se serve a todos os níveis desse exemplo de coragem, que se limpa diariamente a essa fralda, que desmente a autenticidade desse seu reflexo e faz dele sombra, sombra perseguida? As putas são, na verdade, oráculos, e não falo do que têm entre as pernas, não, são espelhos da loucura humana, da esquizofrenia da espécie, nessa demonstração inequívoca que proporcionam sobre o valor da carne: se uma pessoa vende o cérebro ou a alma, e poucas são as que hoje não o fazem ou tentam fazer, é um homem de sociedade, um exemplo de responsabilidade social, um cidadão do futuro, um indivíduo credor de todo o respeito; já se vende o corpo, e não tem a sorte de ser exclusiva de um desses portadores de virtude, é uma forma de vida moralmente repulsiva, uma doença contagiosa, uma vergonha para a sociedade, um coração pulsante que não merece estatuto, reconhecimento de dignidade, igualdade de direitos, amor, compaixão, gratidão, nada. Nada que não sejam uns trocos, pénis erectos a entrar-lhes pelos buracos adentro, suores porcos a untar-lhes a pele, ruídos animais a comer-lhes os tímpanos, como se já não bastasse o resto, e quem sabe umas chapadas, uns insultos e todos os maus-tratos que, cobardemente, ficaram por dar aos devidos destinatários. Eu ponho o meu nome em qualquer lista que defenda a profissionalização das putas, que lute por lhes ser dada assistência social, por lhes serem concedidos cuidados médicos, por lhes ser reconhecida toda a coragem e a dignidade que se atribui sem qualquer engulho, e só para dar um exemplo, aos mineiros. As putas são mineiros e minas, escavam o seu lugar ao sol por entre a escuridão do preconceito e da hipocrisia e são, claro, também elas perfuradas, alarvemente perfuradas, quer no seu corpo quer na sua alma. São paredes vivas, histórias ocultas como tesouros escondidos, enterrados, literalmente enterrados, ou emparedados, árvores humanas, anjos da noite, mulheres, mães. E nós, queiramos ou não, somos filhos delas, filhos de todo o tipo de prostituição acumulada que fomos varrendo para debaixo do tapete, desde o princípio dos tempos. Se isto custa a engolir, imaginem o que elas passam.

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por Augusta Clara às 16:35


1 comentário

De alberto bastos a 02.06.2017 às 20:37

Oh quanta verdade! Comungo da totalidade do belíssimo texto apresentado.

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