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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 16.12.16

Chico Carvalho - Francisco José - António Galopim de Carvalho

ao cair da tarde 5b.jpg

 

António Galopim de Carvalho  Chico Carvalho - Francisco José

(O Prof. Galopim de Carvalho, tão conhecido pelos seus estudos sobre os dinossauros em Portugal, fala-nos do seu irmão Francisco José que as gerações mais velhas recordam como o cantor de "Olhos castanhos")

 

Francisco José.jpg

 (Francisco José)

   Eu tinha oito anos e ele quinze. A Alemanha dava início à 2ª Guerra Mundial. Meu irmão mais velho, Francisco José, o Chico Carvalho, como era conhecido em Évora, a cidade onde nascemos e fomos criados, começou cedo a interessar-se pelo jogo do bilhar. Logo que a estatura lhe permitiu chegar à altura do tampo verde, pegou no taco e ensaiou as primeiras carambolas. Nessa época e até meados do século passado, o bilhar de carambola dominava entre nós. Só depois assistiríamos à invasão e expansão do snooker, importado da América.

Hoje, praticamente, desaparecido, o bilhar que ele e eu, aprendemos a jogar na Sociedade Harmonia Eborense e que, depois, praticámos no Cafés Montanha e no Café Camões, era o das três bolas, uma vermelha e duas brancas, no qual o jogador, com uma tacada numa das bolas brancas, fazia com que esta tocasse nas outras duas, isto é, carambolasse. Com o tempo, este meu irmão, seguindo as pisadas do nosso pai, tornou-se um grande jogador desta modalidade, quase ombreando com o José Silveira e o Matos, verdadeiros campeões na cidade e no país.

Por todos os cafés e sociedades recreativas com sala de bilhar, era comum o “jogo do tacho”, uma variante a dinheiro, em que o Chico Carvalho era exímio ganhador. No centro do tampo verde das mesas de bilhar colocava-se um pires, a fazer de tacho, dentro do qual, no início do jogo, cada participante colocava uma moeda de dez centavos, um tostão, como se dizia. De cada vez que um jogador tocasse com uma das bolas no tacho, tinha de ali colocar outra moeda. O jogo terminava quando concluídas vinte ou mais carambolas, conforme combinado, e ganhava quem primeiro completasse número de carambolas acordado, arrecadando todo o dinheiro ali acumulado no decurso do jogo.

Sempre com pouco dinheiro no bolso – a semanada era curta – foram muitas as vezes que lhe servi de banca, emprestando-lhe as quantias de que necessitava para jogar ao “tacho”, quantitativos que, no próprio dia ou no dia seguinte, me pagava com juros. Como a maioria das crianças, eu tinha, então, um “migalheiro” de barro onde ia metendo todos os tostões que angariava, os das semanadas e os dos mandados que fazia. Com uma faca e com a minha anuência, o Francisco José fazia deslizar pela lâmina, uma a uma, as moedas com que iria jogar. E a combinação era: por cada dez tostões ele restituía-me onze. O negócio foi bom para ambos. Ele ganhava sempre e o meu mealheiro engordava.

Nesse ano de 1939, subia à cena, no Teatro Garcia de Resende, a revista musical em dois actos “Palhas e Moínhas”, cujas coplas, da autoria de Vasconcelos e Sá, versam múltiplos e variados aspectos da cidade de Évora e, sobretudo, da vida nos campos do Alentejo e da personalidade dos alentejanos.

Com 15 anos fez-se ouvir em público, nesta revista, sem microfone e pela primeira vez, a voz bem timbrada e melodiosa e a dicção perfeita do que, anos mais tarde, foi o cantor dos Olhos Castanhos.

A partir de então foram as actuações nas galas do então Liceu André de Gouveia, por ocasião das festividades evocativas do 1º de Dezembro. Ouvidas nas ruas da cidade, foram, ainda, as serenatas, com ou sem luar, às suas pretendidas ou às dos colegas do liceu, as mais das vezes com público a assistir e a aplaudir. Muito antes de ser Francisco José, o Chico Carvalho era uma voz bem conhecida e apreciada no burgo que o viu crescer.

Com um enorme sucesso no Brasil, nunca igualado por algum seu conterrâneo, veio à terra natal em 1963: A áurea, que trazia, levou a RTP a apresentá-lo num programa musical, em directo e em horário nobre. Ele cantou, cantou e, no final, surpreendeu tudo e todos com a denúncia do tratamento mesquinho que era dado aos artistas nacionais, em contraste com as mãos largas oferecidas aos estrangeiros.

Foi um embaraço para os responsáveis pelo canal televisivo nacional e para os governantes de então. Uma multidão de gente do “reviralho” concentrou-se na Praça do Areeiro, para o aplaudir, frente ao restaurante “O Chicote”, onde actuava no fim do serão. Desde essa data deixou de haver programas de televisão em directo, uma prática só restabelecida com o fim da ditadura.

Como consequência desta sua ousadia foi chamado à PIDE. Não o prenderam, mas, como ele dizia, «leram-me a buena dicha». Nunca mais teve oportunidade de actuar na RTP e nunca mais deixou de estar vigiado. Todas as vezes que vinha a Portugal, desde o desembarque até ao momento de subir para o avião, no seu regresso ao Brasil, tinha um pide a seguir-lhe os passos.

Enquanto estudante universitário e antes de enveredar na carreira que o tornou conhecido, concluíra o essencial das cadeiras dos então Preparatórios de Engenharia. Foi já sexagenário que encontrou ritmo de vida que lhe deu condições para voltar à Universidade. Não para ser engenheiro mas, simplesmente, para estudar. Concluiu então a licenciatura em Matemática o que lhe permitiu ensinar Geometria Descritiva, numa Universidade para a terceira idade, a troco de poder frequentar nela aulas de outras disciplinas como História de Arte e Arqueologia.

 

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por Augusta Clara às 17:00




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