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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 22.02.17

CRÓNICA-DESABAFO - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  CRÓNICA-DESABAFO

 

CL32a.jpg

(Adão Cruz)

 

   Depois de um dia de consultas desgastantes, passei  hoje [ontem] pelo hospital onde tenho alguém na Unidade de Cuidados Intermédios, em estado precário, todavia com sinais positivos de recuperação.

Esta melhoria legitimou a minha ida até à Ria de Ovar, a fim de comer qualquer coisa, neste caso concreto, meia dúzia de enguias fritas acompanhadas de dois copos. No fim, sob a abóbada de um crepúsculo quase sinfónico, daqueles que pintam de vermelho o horizonte do mar e dizem ao viajante:  “vermelho para o mar, pega no burrinho e põe-te a andar”, ou que dizem ao lavrador “pega nos bois e vai lavrar”, percorri a passo de caracol a berma da ria, ao som, nem de propósito, de “A Barcarola”, de Offenbach. Que maravilha de casamento entre o céu, a água, a música…e a nossa instabilidade emocional!

No fim desta encantadora peça musical que me encheu sempre a alma, desde remotos tempos em que, à beira-mar, eu procurava a calma e o equilíbrio dos meus momentos de desassossego, ouvi a entrevista de Luís Caetano a Luís Diamantino, um dos responsáveis pelas “Correntes de Escritas” da Póvoa de Varzim. Não digo que tenha ficado desiludido, mas também não me deixei iludir, pois não me iludo sempre que transformam eventos literários, poéticos e artísticos em espectáculos de folclore e feiras de fumeiro.

A criatividade, seja em que campo for, é sempre, sempre fruto de uma liberdade incondicional e não de uma fábrica de saberes. Além disso, a literatura, a poesia e a arte não são mercadorias a promover ou vender em feiras. É a cultura, política e socialmente considerada prioridade social, que deve trazer as pessoas ao encontro da literatura, da poesia e da arte, na descoberta de que a sua vida necessita delas como metabolito essencial, e não o contrário. Não sendo assim, tudo não passa de folclore.

Por exemplo, em vez desta espécie de feira, por que não tentar discutir a fundo e filosoficamente o que é a literatura, o que é a arte e o que é a poesia, que, praticamente, ninguém sabe o que são, a despeito de inúmeras definições, a maior parte verdadeiramente disparatadas e sem jeito nenhum. Além disso, uma boa parte da poesia que para aí se faz e consome, por exemplo, não passa de chachada, e, no entanto, anda por aí, lida, relida, declamada e pendurada em tudo quanto é esquina. Sejamos sérios. De uma vez por todas, para que possamos ter um fio de ligação, não há outra plataforma de entendimento que não seja assentarmos no conceito neurobiológico do sentimento como suporte de entendimento do sentimento artístico e do sentimento poético, iguaizinhos a quaisquer outros sentimentos. Não sendo assim, tudo o resto é fantasia e disparate.

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por Augusta Clara às 14:00




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