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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 14.12.16

Ler, vender romances e fazer mágicos - Carlos Vale Ferraz

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Carlos Vale Ferraz  Ler, vender romances e fazer mágicos

 

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InComunidade, Ano 4, Edição 51, Dezembro 2016

 

   Como tantos outros escritores sou às vezes convidado para falar dos meus romances em escolas e noutros locais, para almoços, jantares, tertúlias. Falo com professores, leitores, editores, bibliotecários, livreiros, pessoas que gostam de livros, de romances. Muitas vezes com elevadas habilitações, com muito maior experiência do que eu de contacto com jovens e menos jovens. Ganhei de todas as conversas, charlas e encontros um enorme capital que devia ser de esclarecimentos, mas acumulei dúvidas e perplexidades. Nenhuma das causas para os males da leitura de romances que tenho ouvido me parece responder a essas dúvidas. Existe uma questão comum nas explicações: porque não lêem os jovens, porque não se lê em Portugal? Reuni um catálogo com razões para todos os gostos. Acredito na validade de todas elas: a civilização do imediato, que não concede tempo para a leitura, as novas tecnologias, as intermetes, os tabletes, os telemóveis, os headphones, a cultura do indicador e do polegar, do teclado e do ecrã tátil. A preguiça do ver em vez do ler e do pensar, o pronto-a-vestir das ideias e dos conceitos, a facilidade do Google em vez da complexidade do pesquisar, o caminho direto em vez do labirinto. Ler cansa os olhos, pesa no bolso.

Sinceramente, penso que boa parte da responsabilidade pelo afastamento das pessoas ditas normais, jovens e menos jovens, é dos escritores e daqueles que deviam ser os seus agentes, os editores e os promotores dos livros de ficção. Tenho-me aproximado desta conclusão aos poucos, à medida que vou ouvindo as apresentações que fazem de mim e de colegas meus nessas sessões. Um bilhete de identidade um pouco mais desenvolvido: Local e data de nascimento, lista de obras, resumida, e aqui está o senhor que temos muito prazer em receber e a quem agradecemos a presença. É assim numa sala de aulas, num anfiteatro de biblioteca, num estúdio de televisão. Cá está um funcionário que escreve livros, igual a um operário que faz tijolos. Alguém está interessado num tipo que faz tijolos? Numa criatura ensimesmada, sem charme, que não causa “pica”(embirro com “pica”, mas…), que agradece humildemente falar da sua obra?

Os professores de português, de literatura, os críticos, os jornalistas culturais explicam o romance, ou o conto como um engenheiro civil explica o tijolo: através da composição química, da resistência aos elementos, do número de buracos tem, se não for tijolo burro, da utilidade: quantos tijolos são necessários por metro quadrado. Os mestres literários falam dos romances e dos contos do mesmo modo: o tema principal da obra é, por exemplo, a eterna luta do bem contra o mal, dos tempos da narrativa, das personagens principais e secundárias que variam entre o herói e o anti-herói… Cinco minutos depois o escritor está enterrado, assim como a obra. Aquela criatura carrega os males do mundo, reflete sobre o destino da humanidade, trabalha como um escravo, mas audiência já está noutro lado. Depois o escritor fala, nos casos mais comuns leva-se a sério, assume o seu papel de pensador, de herói ignorado da luta pela cultura nacional tão ameaçada, é um agente cultural que ali está. Ninguém compra esta cultura nacional tendo a selecção nacional de futebol no Palácio de Belém, ou sessões pornográficas em contínuo na Televisão da Teresa Guilherme, ou as sessões da tarde do Portugal é nosso, com concertinas e adolescentes gorduchas a dar à perna para a plateia nacional O escritor é um oráculo, mas isso também é uma senhora que vende horóscopos na televisão. Nos casos mais próximos da imortalidade fala do Homem, mas isso fazem os pastores da igreja maná a multidões nos estádios! O Homem onde tudo começa e acaba. Do Homem entendido como ser humano. Quando o escritor fala do Homem e da sua transcendência – e acreditem que este é um tema das sessões de promoção de romances e escritores, já a audiência está a pensar no jantar, nas férias, nos números da lotaria. E depois há o tema dos sentimentos, que são como os fundos dos mares, mais ou menos profundos. No final, o que levará alguém a ler o tijolo que um operário construiu com o que tinha à mão e com tanto esforço? E a comprá-lo?

Não, o culpado pela seca, pela falta de interesse não são as novas tecnologias, nem a cultura do imediato. A culpa é da chatice dos editores, promotores e escritores. A mais moderna estratégia para ultrapassar o interesse pela literatura é fazer de escritor-palhaço. Quem trata do assunto entendeu que, para incentivar a leitura de um romance, o escritor deve rapar o cabelo, colocar brincos nas pálpebras, cantar um fado, fazer o pino, contar anedotas. Há quem siga esse caminho. Não existindo matéria-prima literária, embrulham a redacção que lhes saiu do computador numa outra capa – que quem tem sempre escapa. Pode ser uma sessão espirita ou a apresentação do ou da namorada, do cão, do gato. Até de um prato de bacalhau. É o truque do escritor feira de enchidos, muito vivenciado e experienciado.

Tenho passado por todas estas dúvidas. Os livros electrónicos vendem mal, os escritores electrónicos também. Os dos programas da manhã são abafados pelas capitosas apresentadoras, os da tarde pelos que andam de mal de amores e das cruzes. Resta a pergunta: para onde foram os antigos leitores de romances? Os concertos estão cheios. Tanto os de música clássica como os das modernas expressões de efeitos especiais. Idiotas sobre um palco enchem salas e escritores tão idiotas como eles são votados ao desprezo, a questão não está na qualidade, nem na indigência, nem no que escrevem nas letras a acompanhar as músicas ou nos romances. Os estádios de espectáculos desportivos estão cheios e as livrarias vazias. E não se escreve melhor com os pés do que com as mãos. Em geral, claro. Os romances são difíceis de perceber, também a lenga-lenga do rap!

Onde está então a diferença entre um concerto, um jogo de futebol e um romance? Há a questão do grupo, do sentido de pertença a uma tribo, a um grupo, a um gangue. Os fans de um músico ou cantor, os adeptos de um clube ou de um jogador sentem o prazer da exibição da pertença, a excitação da matilha que vai à caça. Contra essa excitação a leitura de romances nada pode. Mas pode competir noutras áreas. O romance e o escritor têm uma qualidade que os distingue: são criadores de fantasias. São mágicos e têm de ser apresentados como mágicos. Eu gostava – tenho pensado nisso – de ser apresentado assim, ao som do rufar de tambores: Este senhor (Carlos Vale Ferraz, no caso) criou (criou e não escreveu) uma história que ninguém viveu ou viverá! Criou personagens que os leitores podem encontrar na rua, mas que nunca serão as que o respeitável público julga conhecer e terão pensamentos sobre a vida que talvez reconhecem de outros lugares, de outras pessoas. Este senhor já ouviu mortos falarem da sua vida. É verdade, acreditem. Leiam o que ele tem aqui dentro deste livro. E conheceu um tipo numa floresta de África que andou três dias com um amigo às costas até o salvar e o amigo só se manteve vivo para não o desiludir! E descobriu um homem que nunca se apaixonou até ao momento em que… Também criou uma mulher que escondeu o filho até ele enfrentar quem a desprezou e sabem como? Coisas assim. Se os escritores fossem apresentados como mágicos, em vez de homens que dão conselhos, que mergulham nas profundezas do ser… trabalhadores da escrita! Não os escritores não são trabalhadores da escrita, não são sequer trabalhadores. Fogem do trabalho inventando outros mundos! Se os livros fossem apresentados como caixas de segredos de onde saltam histórias maravilhosas, criminosos, amantes, mulheres louva-a-deus julgo que haveria muito mais leitores para os romances e para os contos. Digo eu…

Carlos Vale Ferraz

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por Augusta Clara às 20:30




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