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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 25.09.15

"Maravilhosa lição de filosofia de vida do Manel Cruz" - Adão Cruz

o balanço das folhas2.jpg

 

 Porto Olhos nos Olhos (facebook), 23 de Setembro de 2015

 

[Manel Cruz - Músico e artista plástico] © Por Manuel Roberto (fotografia) e Mariana Correia Pinto (texto) Portugal, Porto, 23 de Setembro de 2015

 

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 (Foto de Porto Olhos nos Olhos)

 

   “As primeiras memórias que tenho são coladas pelos filmes Super-8 que o meu pai tinha. Nasci em 74, em São João da Madeira, e as lembranças que tenho de lá são reconstruídas assim, porque vim para o Porto muito cedo. Tinha dois anos. Fui o último de três filhos. O meu pai é médico, a minha mãe professora. Ele começou por praticar medicina na aldeia, onde os recursos eram muito limitados e onde, também pela profissão, era uma pessoa muito querida. Sempre gostou de poesia. Esteve na Guiné e documentava muito as vivências dele através da escrita. Pelos 30 anos, começou também a pintar. Teve sempre muita ligação às artes e quando sentiu que eu também tinha puxou-me muito para aí. A minha mãe, sendo professora, tinha também relações sociais fortes e um lado pedagógico muito premente. Havia uma abertura considerável para esse mundo — apesar de serem tempos de ressaca de ditadura. Os meus irmãos tinham boas notas, eu andava sempre na lua, só tinha boas notas a educação visual e educação física. Também por ter sido o terceiro e ter, por isso, mais liberdade. Puseram-me no piano quando era puto e detestei. Tinha de estudar e só queria fazer as coisas de ouvido. A professora batia-me nas mãos. Para mim, música eram os discos dos meus pais e dos meus irmãos — desde Jacques Brel passando pelos Beatles e Sérgio Godinho. Havia muita música portuguesa em casa e, talvez por isso, nunca tenha sequer pensado em escrever e cantar em inglês. De resto, estava sempre a desenhar. Até aos 15 anos, os meus cadernos de escola eram essencialmente desenhos. A música surge já na Soares dos Reis, quando conheci os meus amigos. Talvez por isso a música continue ainda hoje a ser um bocadinho esse sítio onde se brinca com os amigos. Profissionalizei-me, mas continuo a sentir alguma luta em relação à profissionalização. Isso no desenho não me é tão difícil porque desde puto que me pediam coisas. Aos 15 anos já trabalhava e já fazia livros para crianças. Era uma coisa muito natural vender aquele produto. Com a música isso custou mais. Na escola, mostraram-me os Violent Femmes e fiquei louco com aquilo! Depois foi aquela coisa do ‘também temos de ter uma banda’. Todas começam assim: a brincar às bandas. Discutíamos sobre quem ia fazer o quê. E eu nem ia cantar. Era guitarra ritmo. Decidimos que o Kinörm ia tocar bateria, porque o Peixe já sabia tocar guitarra e o Nuno já dava uns toques de baixo. E eu não sabia fazer nada. Aprendi uns acordes e fiquei maluco. Fiz logo duas ou três músicas com os acordes das Dunas e então fiquei o guitarra ritmo. Aí comecei a dedicar mais tempo à música, o que foi um sacrilégio na família. O meu pai apoiava-me muito no desenho e tinha um orgulho imenso — e a música era uma vontade meio irresponsável de puto. Foi um choque para ele. Fiz o secundário todo na Soares dos Reis e foi ainda lá que iniciámos os Ornatos Violeta. Em 1991. Tínhamos o nosso clube de namoradas e amigos que nos aturava e éramos nós que fazíamos o nosso sucesso: éramos uma banda incrível que ninguém conhecia. Tínhamos uma data de músicas, depois deitávamos tudo fora, fazíamos outras... Fomos num intercâmbio para Montpellier, onde conhecemos os Red Wings Mosquito Stings, uma banda de lá, incrível. Conheci o Nico, que veio viver para Portugal e agora está a tocar comigo. Mais uma vez, deitamos tudo fora porque olhávamos para o trabalho deles e era incrível. Eles ensaiavam todos os dias, eram super dedicados. Nós, pelo contrário, éramos uns baldas. Fomos para a Carvoeira, para a casa do meu pai. Para um sítio onde quase não nos podíamos mexer e não tinha ar: de 40 em 40 minutos tínhamos de abrir a porta. Mas ensaiávamos todos os dias para fazer o ‘Cão’. O disco saiu em 97. E foi aí que os Ornatos se tornaram mais conhecidos. No Porto, já havia algum pessoal que nos curtia antes, mas só depois a coisa se alastrou. Começamos a ter produtor, a olhar para certos aspectos mais profissionais que nos fizeram dar novos passos. A parte má é que se perdeu alguma da inocência que se tinha e de que gostava muito. O ‘Cão’ marca esse momento de mediatização. Mas mesmo assim acho que só ficamos mesmo mesmo conhecidos depois de acabarmos. Tivemos o grande ano imediatamente antes disso. Foram uns 60 concertos só nesse ano — e podiam ter sido mais. Mas sentia-me um ácido ambulante de andar sempre na estrada e não gostava da repetição. Às vezes, entrava em palco e não me apetecia estar lá. Paralelamente ao nosso crescimento como pessoas, foram acontecendo discussões sobre as autorias das músicas e outras que colocavam muita coisa em jogo. Coisas que rapidamente se resolviam, mas que, no momento, eram complicadas. O que me inspira é um pouco de tudo. Sentimentos que tenho em determinados momentos e depois reciclo. O próprio processo é, para mim, muito inspirador. Uma parte grande das ideias que tive apareceram quando estava a fazer trabalhos mais técnicos, como ilustrações para livros infantis. Uma coisa que sempre fui é um questionador. Não consigo ver a minha identidade marcada. Sou inconstante, insatisfeito, inquieto. Qualquer coisa que faço, passado uma semana parece-me completamente afastada do que quero fazer. Portanto, a inspiração surge sobretudo dessa inquietação. O Hugo, irmão da minha mulher, disse-me uma vez que o disco ‘O Monstro precisa de amigos’ era Porto Porto Porto. Fiquei super contente, porque adoro esta cidade e adoro que uma coisa minha faça lembrar o Porto. Não escrevo letras sobre. Mas a melancolia e a maneira de pensar do Porto — que não é uma cidade grande mas é uma grande cidade —, a forma como as pessoas se relacionam, o facto de os sítios serem mais nossos do que do mapa: acho que isso está inevitavelmente presente nas minhas músicas. Para mim, o fim dos Ornatos foi um alívio muito grande. As coisas já não estavam a ser vividas com o prazer que deve existir. E aquele fim abriu-me a porta para fazer novas coisas, inclusive com as pessoas com quem fazia os Ornatos e com as quais tenho uma química tremenda que dificilmente se ganha com outras, porque está associado à virgindade da cassete. As coisas que foram impressas com eles são muito fortes. Portanto, com aquela saída pude partir do zero. Uma das coisas mais difíceis das bandas é a expectativa que os outros criam em relação ao que fazemos e, acima de tudo, a expectativa que projectámos sobre aquilo que as pessoas pensam de nós. Quando os Ornatos acabaram, pude também ver o outro lado: pessoas que me davam palmadinhas nas costas e diziam que era muito bom, de repente já não gostavam assim tanto. Um dia, tive uma conversa com o Kiko Serrano, o produtor, no Hard Club por causa da minha depressão à conta do fim da banda. Sentia nas minhas costas um grande peso, porque muita gente achava que era eu o complicado que queria terminar. Sentia-me um respigador com o casaco cheio de tralha que não conseguia dispensar. Nessa conversa, estava eu a lamentar-me quando o Kiko me diz: ‘Caga nisso, isto foi a melhor coisa que te aconteceu. Parte para coisas novas.’ Finalmente tudo o que queria ouvir. Comecei, nessa fase, a mexer no computador. Já tinha tido um gravador de pistas, mas poder gravar tudo era magia absoluta. E não havia aquela coisa de expectativa. Foi aí o começo do Bandido. Ainda tive os Pluto e os SuperNada, os dois iniciados em 2002, e foram casos tão fixes que muita gente me pergunta porque acabaram. É precisamente porque acontece um fenómeno de as pessoas gravarem um disco, irem tocar e depois ficarem um período enorme sem fazer música. Não gosto disso. O pessoal gosta muito de tocar ao vivo — coisa que eu gosto muito de fazer mas não gosto de fazer muito. O que me move é a parte de criar. Isso desmotivou-me um pouco para as bandas. E depois o ciclo normal: um gajo cresce, começa a ter casa, família, filhos. Comecei a sentir que, quer quisesse quer não, influenciava a vida de outros. E essa pressão é desconfortável. Preferia o descompromisso. Como o que existe neste projecto Estação de Serviço, onde tenho músicas minhas e algumas dos SuperNada e dos Pluto, feitas sozinho ou com outros. Estava há uns tempos sem tocar — depois do disco dos SuperNada, parido com ventosas — quando se dá o regresso dos Ornatos, em 2012. Era uma coisa muito irreal para mim no início, mas acabou por ser fantástica. Depois desse ano intenso, voltei ao silêncio. O Jorge Guerra e Paz — que tem um dom de me convencer incompreensível—, falou-me de um projecto no Silo-Auto e convidou-me para ir lá tocar. No fim de 2014 lá fomos. Ficou aquele trabalho todo que tinha soado bem. Então, decidimos continuar e fazer uma coisa. Mas com princípio, meio e fim. O fim é Setembro. Fiz a música do Ovo e agradou-me muito aquela ideia de fazer a música, gravá-la num sítio e aquilo ficar editado assim. Fazer e disponibilizar, sem necessidade de fazer um disco. Foi um tubo de ensaio para novas maneiras de fazer as coisas. Acima de tudo, o que pus de novo nesse concerto e no projecto Estação de Serviço foram coisas com uma estética um bocadinho diferente, muito mais minimal, a ir beber à portugalidade. Aquela coisa das rezinhas e das mnemónicas, pelas quais ando muito apaixonado. Não numa perspectiva de investigação de raízes de música popular, mas numa de deixar que saia essa inspiração. O que se segue não é uma banda. Duvido que algum dia venha a ter outra banda — pelo menos naquele sentido de ‘casa’ e ‘família’. As bandas têm coisas muito boas e, às vezes, ainda sonho: e se fizesse uma agora? Mas percebo que é quase um vício infantil. A minha vontade agora, sinceramente, é inverter as coisas: ganhar dinheiro com o desenho e ver a música noutra perspectiva. Se calhar, fazer bandas sonoras ou spots. Pegar em valências e fazer coisas para clientes. Esta ideia de ser vendido é um equívoco tremendo na cabeça de muita gente e ninguém sabe explicar muito bem o que significa. Sempre me senti um vendido, porque sempre vendi o que faço — e isso não me faz confusão nenhuma. Só nos vendemos a nós quando contrariamos a nossa essência e vendemos a nossa dignidade. Agora que tenho filhos penso bastante mais no futuro. Tendo sido sempre um irresponsável do caraças, agora começo mesmo a pensar. Provavelmente, vou continuar a fazer música — umas vinte num ano ou dois — e depois, como as tenho, farei outra fornada de concertos... Sei lá. Se tivesse de apostar, acho que diria que a minha vida vai ser sempre igual ao que foi. Em Portugal, é urgente as pessoas pensarem que votar é a primeira oportunidade que temos de mudar as coisas. E não deixar que o facto de o voto não resolver tudo nos leve a desistir. Votar é um direito. Mais do que um dever — porque acho que ninguém tem deveres. E não acredito que os partidos sejam todos iguais. Apesar de ser um bocado bicho do buraco, de não ter Facebook e ter imensa dificuldade em gerir o e-mail, tenho consciência de que, culturalmente, tem acontecido muita coisa no Porto. E que muita me passa ao lado. A sensação que tenho é a de que vivemos um bom momento criativo, de grande consciência do que se passa lá fora, com grande comunicação com o mundo. O tempo de absorção é muito rápido, mas antes a mais do que a menos. Um sinal de futuro pode ser precisamente o de as pessoas deixarem de ter a angustia de não apanharem tudo. O facto de acontecer muita coisa é sinal de que há meios para tal. As pessoas podem gravar e editar sem uma editora, um produtor ou um orçamento de uma multi-nacional. Há muito espaço para a criatividade. No fundo, está a cumprir-se um pouco uma crença que tinha de que a arte não é exclusiva dos profissionais da arte e das elites. E essa é uma democracia que me agrada.”

 

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por Augusta Clara às 08:00


6 comentários

De Augusta Clara a 25.09.2015 às 15:23

É justo dizer-se que o logótipo deste post , e tantas vezes usado neste blogue, é da autoria do Manel Cruz.

De adelino a 25.09.2015 às 16:13

Gostei muito de "conhecer" o Manel Cruz. Não é parecido com o pai, mas é fisicamente o mesmo. E inteligente como ele; talvez um pouco mais "baldas", mas o tempo cura isso.
Tem aqui um admirador. Do seu pai, já sou há bué de anos...
Adelino Matos

De adão cruz a 25.09.2015 às 18:22

Quer o pai quer o filho não podem deixar de ficar gratos pelas palavras de um grande amigo...e babados
Abraço

De adelino a 25.09.2015 às 18:29

Bom fim de semana.
Adelino

De Eva a 26.09.2015 às 12:01

É modéstia a mais. Ele esqueceu os prémios que recebeu, a escolaridade sem qualquer problema, a classificação com que entrou para a Escola Superior de Belas Artes no Porto onde começou por dar conta do recado. A questão é que o "sistema" não faz parte do seu sistema de vida e logo que a idade e a liberdade o permitiram , saiu dele. Deu no que deu e muito bem.
Beijinhos
Titi Eva

De Betina a 05.07.2017 às 14:11

São uma trajetória e um presente muito interessantes, de uma riqueza e de uma abertura de certa forma incomuns. Ele fala numa "portugalidade", quando talvez pudesse falar também numa universalidade. De minha parte continuaria a ver o que de bonito se pode enxergar no modo de ser deste país, sem prejuízo de encontrar no trabalho dele um mundo cheio de sons e de narrativas.

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