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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 29.07.16

O sapo cor de terra - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O sapo cor de terra

 

pol ledent1.jpg

(Pol Ledent)

 

   Um clarão alaranjado fazia adivinhar que a lua cheia ia nascer ali naquele bocadinho de serra, entre os bicos de dois pinheiros.

Já tinha regado o pátio, arbustos, flores e plantas. A água fresca do poço acalmara o calor tórrido do dia que findava. Muito pálidas, tremeluziam no céu umas luzinhas, e apetecia-me deitar-me numa cama de estrelas, lá no ar, a espreitar a lua antes de ela nascer. Ser um pokémon, um D. Quixote, uma bolinha de fantasia. Ser um momento de glória lá no infinito, onde tudo é possível.

De repente, passa-me um tira-olhos pela frente da cara, como uma flecha. Olhos nos olhos, parecia um helicóptero. E a minha fantasia foi atrás dele, outro pokémon. Num instante desapareceu. Os tira-olhos têm um campo visual muito amplo, e este era tão corpulento que estaria provavelmente a banquetear-se com todas as moscas e mosquitos das redondezas. Pareceu-me que tinha poisado num vaso de cravinas cor-de-rosa, daquelas que têm o perfume enraizado na lembrança, já a deixar cair as sementes. Procurei-o, porque diz a sabedoria popular que não fazem mal nem se atrevem a enfrentar os humanos.

Num vaso de húmido brilho vislumbrei, à luz do candeeiro que espreitava por entre a hera, um montículo castanho que não parecia ser terra. De repente, uma língua enorme e pegajosa dispara em direcção a uma aranha que fazia teia por entre as folhas, fazendo-a desaparecer. O sapo cor de terra, aninhado no mais reservado silêncio, virou para mim os olhos esbugalhados, como que a dizer: chchchiu!

Já há muito tempo que não via um sapo. Diz o povo que é bom sinal haver sapos.

Não o matem. Ele come todos os bichinhos prejudiciais à terra. Mas cuidado com o espinhaço de sapo esborrachado, é venenoso. Além disso ele mija veneno e pode cegar.

Muitas vezes ouvira isto na minha infância. Recordo as maldades dos meninos que punham um sapo na ponta de uma tábua e batiam na outra ponta fazendo o bichinho saltar tão alto que se perdia no ar. Ou homens que lhes enfiavam um cigarro na boca. Maldades que o pobre sapo não merecia.

Olhei para ele. De olhos fitos nos meus, ali permaneceu quietinho e discreto, de papo cheio, a saborear a frescura da terra acabada de regar. O meu Pokémon do dia, no meio das cravinas perfumadas.

Já não precisava de subir ao céu às escondidas da lua. Ela acabava de libertar-se, redonda e brilhante, da serra negra.

O sapo disparou novamente a língua, tão rápida e comprida, que até tive medo que engolisse a lua.

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por Augusta Clara às 23:15


3 comentários

De Salete leite a 30.07.2016 às 17:44

Que bela história de um sapo!A sensibilidade de sempre...

De alberto bastos a 01.08.2016 às 11:22

Oh Eva, "este teu Sapo", é um bichinho tão brilhante e tão nosso amigo!
Parabéns!

De Augusta Clara a 02.08.2016 às 17:45

Mais uma história de encantar à espera do livro que a acolha.

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