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Jardim das Delícias



Terça-feira, 27.01.15

RECORDAR É VIVER (no cinquentenário do livro LUUANDA de Luandino Vieira) - Leonel Cosme

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Leonel Cosme  Memórias de Imbondeiro e Luuanda

 

(texto publicado, em duas páginas com gravuras, no quinzenário As Artes entre as Letras nº137, de 31de Dezembro de 2014, Porto)

 

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   Duas justificadas e quase simultâneas comemorações que ocorreram no passado mês de Novembro, uma no Porto, outra em Ponte de Sor, - o cinquentenário do livro de contos de Luandino Vieira “Luuanda” e o centenário do nascimento do escritor Garibaldino de Andrade – fizeram aflorar à minha memória, ocasionalmente desperta, antigas vivências que remetem aqueles dois nomes para um mesmo passado em Angola. Falo de um tempo de cultura, acção e circunstância que fez e faz história (para quem a saiba ou queira saber), mesmo com as reservas que levaram John Steinbeck a ponderar que “a verdade do historiador só é verdade até que alguém passe e faça um novo arranjo do mundo no seu próprio estilo.”
Isto é certo quando alguém arrisca a fazer história pela leitura de memórias ou interpretação de factos. Mesmo que uma personalidade historiada tivesse acatado o conselho de Gabriel García Marquez – “Geralmente as memórias são escritas quando o seu autor já não se lembra de nada, e eu acho que deve começar-se mais cedo a escrevê-las”- nem por isso a “verdade” escaparia à contingência humana de que falava Blaise Pascal: “Somos tão vaidosos que quiséramos ser conhecidos em todo o mundo e também pelos que hão de viver quando nós já não vivermos.”
Ressalvando uma posição de interesse, e pensando em Garibaldino, meu companheiro de cultura e acção na criação das Publicações Imbondeiro, na cidade então chamada Sá da Bandeira, resistirei a biografá-lo cabalmente, agora e aqui (embora já o tenha feito, por duas vezes, em duas homenagens, a primeira em 1992, prestadas pela Câmara Municipal de Ponte de Sor, perante curiosos, amigos e familiares), privilegiando os factos que fazem realmente história, porque insusceptíveis de “arranjos” ou “estilos”.
O alentejano Garibaldino de Andrade, que viveu no sul de Angola entre 1953 e 1969, morreu com 56 anos, na sua terra natal de Ponte de Sor, onde nasceu a 8 de Novembro de 1914, sem ter tempo para escrever diários ou apontar memórias. Sequer para lembrar que no seu livro de contos O Sol e a Nuvem, editado pela Portugália em 1946, emergem os “levantados do chão” que guindariam, em 1980, José Saramago até às alturas do grande romancista que foi.
O que falará por Garibaldino são os seus romances alentejanos e os contos angolanos que ainda pôde escrever, nos curtos intervalos da sua actividade como “professor de meninos” do ensino primário e as exigências da co-gestão da editora Imbondeiro. Tudo com pressa, pois, como muitas vezes dizia, brincando, “não passarei dos 55 anos”. Enganou-se: viveu até chegar aos 56… pois viu a vida encerrada, por doença implacável, a 28 de Fevereiro de 1970. Mas poderia ter dito, e não disse - porque era visceralmente um homem modesto e discreto – como o brasileiro Mário de Andrade, que morreu com 52 anos: ”Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que vivi até agora. Tenho mais passado do que futuro.”
Do que valeu a sua acção editorial na Imbondeiro poderá aquilatar quem leu ou queira ler o que sobre o assunto escrevi, detalhadamente, no capítulo “O tempo da Imbondeiro” inserto no livro Agostinho Neto e o seu Tempo, publicado em 2004 pela Campo das Letras. Aqui e agora, julgo suficiente fixar que nos cinco anos da sua duração – 1960-1964 – a editora lançou 68 cadernos mensais, na Colecção Imbondeiro, preenchidos com textos de contistas e poetas, novos e consagrados, originários de todos os territórios de língua portuguesa, incluindo o Brasil,com tiragem já próxima dos 2.000 exemplares; 2 antologias só de contistas e 4 só de poetas. A última destas, constituindo o caderno nº5/6 da Colecção Mákua, dedicado a “Grandes Poetas do Século XX”, representativos de vários países, foi considerada, por estudiosos da literatura mundial, como o seu antologiador brasileiro Jonas Negalha, “única no género”.
Para se ter uma ideia plena, diga-se que os poetas escolhidos foram, por ordem alfabética: Attila Jozsef, Bertolt Brecht, Elias Simopoulos, Eugen Jebeleanu, Fernando Pessoa, Gaston-Henry Aufrère, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Jiriu Wolker, Langston Hughes, Pablo Neruda, Rafael Alberti, Thomas Stearns Eliot e Vladimir Maiakovski.
Não se estranhe, hoje, que não apareça ali o nome de Agostinho Neto, como Poeta Nacional que foi. Embora já incluído, antes, numa antologia de notáveis poetas de língua portuguesa, a internacionalização do seu nome só se verificou, entre nós, após a publicação do livro Sagrada Esperança, em 1974. Num projectado caderno seguinte seriam divulgados outros nomes de impacto mundial. Se a Imbondeiro continuasse…

Não continuou porque a PIDE/DGS (com Delegação na cidade desde 1958) barrou a sua caminhada de cinco anos… Mesmo aquela Mákua 5/6, saída da Gráfica da Huíla nos finais de 1964, dando lugar à impressão de um novo caderno de Luandino Vieira, já não teve o tempo necessário para ser distribuída totalmente . A PIDE/DGS ainda apreendeu alguns exemplares nas instalações da editora, ao mesmo tempo que, na tipografia, apreendia as primeiras impressões no papel do novo texto de Luandino (outros já tinham sido publicados em 1961), mais o chumbo da composição, para não ficar qualquer rasto… Nesta altura já Luandino tinha sido transferido da cadeia de Luanda para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, com outros camaradas das letras, como António Jacinto e António Cardoso, também já publicados pela Imbondeiro. A nossa ligação a Luandino foi sempre assegurada por correspondência da sua companheira na época, Linda (ou Ermelinda), há poucos anos falecida.
Diga-se que há muito a PIDE/DGS (desde cedo acolitada por dois ou três inimigos locais do assumido “eclectismo” da Imbondeiro, - que “misturava” autores benquistos e malquistos do regime em nome do seu valor literário e do sentido pleno da lusofonia), seguia os passos da editora, tendo começado por querer ver o documento legal que cobria a actividade editorial de uma licenciada livraria-distribuidora. Por se contar com o risco, todas as publicações inseriam a declaração de serem propriedade e edição dos autores…- falácia que durou até ao colapso.
Este já nos tinha sido prenunciado pelo controverso, mas amigo de Garibaldino, escritor e crítico Amândio César, em carta de Lisboa, revelando o “incómodo” que a Imbondeiro estava a provocar no Terreiro do Paço, pela publicação de autores inimigos do Regime, alguns destes já julgados em tribunal e condenados a penas de prisão maior.
A atribuição do Prémio Mota Veiga a Luandino Vieira e a publicação, em Luanda, em Setembro de 1964, do seu livro de contos distinguido por um júri da Sociedade Cultural de Angola, pouco depois extinta pelo Governo Geral, desencadeou o prenunciado colapso.
Luandino já estava preso, em Luanda, quando, nos finais de 1962, a Imbondeiro publicou, na antologia Novos Contos d’África, o conto “Os Miúdos do Capitão Bento Abano”, um texto já emblemático da literatura angolana, que poderia eventualmente ter sido incluído em LUUANDA se os moldes do concurso que o distinguiu dois anos depois não condicionassem o “tamanho” das obras concorrentes.
Registe-se – creio que pela primeira vez – que aquele conto viria a constituir, com ligeira modificação, a narrativa inicial do livro NOSSO MUSSEQUE, editado pela Nzilda-Caminho em 2003. Infelizmente, a minha memória não permitiu recuperar o título e o texto do conto aprisionado na Gráfica da Huila, bem como toda a documentação, incluindo originais em apreciação, existente no nosso escritório na Livraria Imbondeiro. Esta fora criada para ser suporte nominal e financeiro de uma actividade que começara com o “capital” de 1.080$00 e se desenvolvera graças ao produto das centenas de assinantes rapidamente conseguidos em meio mundo, mobilizados, em grande parte, por “delegados” voluntaristas também entusiasmados com o projecto de continuar e desenvolver a iniciativa tomada pela Casa dos Estudantes do Império, em 1960, de divulgar os autores ultramarinos, mas que teve vida curta e circulação limitada. Impulsionadas pelo mesmo entusiasmo e a exemplo da Imbondeiro, foram criadas a Colecção Bailundo, em Nova Lisboa, e a Colecção Dragoeiro, em Cabo Verde, ambas, todavia, de curta duração.
O colapso continuou em 1965, com LUUANDA distinguido, em Lisboa, com o Prémio de Novelística, pela Sociedade Portuguesa de Escritores, e a extinção desta; e ainda em Sá da Bandeira, com a frustrada tentativa de Garibaldino - agora só de parceria com Orlando de Albuquerque, do Lobito, porque “insuspeito” e sem cadastro político - querer ressuscitar Imbondeiro com uma “Colecção Círculo”, que morreu à nascença e levou Garibaldino, pela primeira vez, a um “encontro” pessoal com a PIDE/DGS, em Luanda.
Escreveu Luandino que “águas profundas são as palavras dos poetas”. Passe o abuso do aproveitamento, serão também as memórias ainda não submersas daqueles – companheiros, amigos ou familiares – que sentiram os efeitos, morais ou materiais, directos ou indirectos, da aventura, cruzada ou odisseia (como se queira chamar) que foi o tempo da Imbondeiro, no contexto político-ideológico de um regime que lutava para sobreviver e de um povo para se afirmar.
Apaziguadas as amarguras, revivescidas as saudades, aqui festejo o seu cinquentenário.

 

 

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por Augusta Clara às 14:00




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