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Jardim das Delícias



Terça-feira, 27.06.17

Reflexão extemporânea entre dois copos - Adão Cruz

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Adão Cruz  Reflexão extemporânea entre dois copos

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(Adão Cruz)

 

   Todos aqueles que já me leram sabem que eu considero o vinho como a melhor droga estimuladora da criatividade, moderado, claro está. Meia de tintol, ou mesmo de branco fresco, nestes dias de verão, é uma bênção do céu, admitindo que existe Céu. Apesar de o Papa Francisco ter negado o inferno, não é provável que venha a negar o Céu, pois o Céu ainda rende avultadíssimos milhões de espiritualíssimos euros ao Vaticano.

Gostaria que nesta extemporânea reflexão coubesse tudo o que há de bom no mundo, mas infelizmente há muito mais de mau do que de bom, o suficiente para defender a extinção do ser humano, a espécie que, apesar de tão infinitesimal no Universo, mais tem envergonhado a natureza e mais tem dado cabo de tudo o que, naturalmente, poderia criar o equilíbrio e a harmonia.

O vinho, como disse, é uma espécie de fio-de-prumo que calibra o nosso pensamento. O pensamento é o resultado de triliões de neuro-transmissões, e não é grosseira metáfora dizer que o vinho é uma espécie de óleo que lubrifica todos os nossos canais neuronais. Quem quiser que acredite, quem não quiser que beba água. Sem pretender colidir com a ética e a estética da existência, o vinho permite chegar mais depressa à interface que eu considero como fronteira entre a condição antropológica e a condição universal do ser humano. Só aí, calmamente sentados em qualquer tosca pedra que tenha sobrevivido à mão humana, poderemos ver ao longe o infinito e poderemos sentir-nos capazes de reconhecer a merda que somos.

O ser humano é um cadinho de sentimentos e pouco mais. O sentimento, sobretudo o sentimento de si é a única expressão de vida, dentro da cadeia neurobiológica. E, dentro das incontáveis formas de sentimento, eu tenho algumas verdades minhas que até podem ser Verdade. Muitas vezes despertadas por um copo de maduro tinto. Sempre fui contra a académica e artificial dicotomia do sentimento, dado que este é um fenómeno permanente e indispensável ao mais pequeno gesto vital. Tenho muita dificuldade em dissecar os sentimentos, isto é, em definir as incomensuráveis formas e manifestações dos sentimentos, até porque antes dos sentimentos há as emoções que lhes dão origem, e antes das emoções há as imagens resultantes dos estímulos que as provocam e aos quais cada pessoa reage de forma muito diferente, conforme o seu padrão neural. Assim sendo, os sentimentos constituem um mundo tão vasto de diferenças que me parece podermos incorrer em algum grau de estultícia, ao pretendermos dissecá-los, dimensioná-los, fraccioná-los, escaloná-los, hierarquizá-los, atribuir-lhes uma cronologia e uma metodologia intrínsecas, fora do campo neurocientífico. E muito menos separá-los, por exemplo, dentro do cesto da mente, como se de fruta se tratasse.

Atrevo-me, contudo, a considerar como o maior e mais nobre sentimento humano, o da SOLIDARIEDADE. Um sentimento que pode nascer da alma do mais humilde, do mais inculto, do mais ignorante, e pode não existir na alma do mais rico, do mais intelectual e do mais sábio. Por outro lado, julgo que há um único contexto em que me parece legítimo atrevermo-nos a abordar parcialmente e de forma particular os sentimentos e com eles lidar como matéria, contexto esse que se situa apenas no campo científico, daí decorrendo, para quem não aceita qualquer dualismo corpo-espírito, a sua abordagem no seio do mundo poético, literário e musical, por exemplo. Mesmo assim, com a prudência de nos contentarmos apenas com a plumagem, as cores, a luz e o som que muitas vezes nem existem.

Vem isto a propósito da conversa que hoje tive ao almoço, acompanhada de um branco fresco, versando aquilo para que se sente atraído quem não fala de futebol e já está enjoado de política, a arte e a poesia. Sentimentos nobilíssimos, todavia muito mal tratados, muito mal sentidos, tentando expressar-se, tantas vezes, através de palavras e gestos de uma pretensiosa alma seca, sem o humilde, filantrópico e filosófico calor de um copo de vinho. Eu diria que a arte e a poesia, que eu considero os mais nobres sentimentos a seguir ao sentimento da Solidariedade, existem entre nós. Contudo, os seus agentes são, por vezes, os próprios predadores, aqueles que as destroem e matam, ao tentarem traduzi-las por palavras e gestos que não entendem, ao julgarem que as prendem em gaiolas. As palavras e os gestos são cintilações do infinito, “filhos do silêncio, que rompem como um novo ser rompe a sua mãe, não sem dor, não sem perda. Cada palavra, cada gesto é um desafio novo, um início, um indício de fim, uma ilusão de identidade, um cão de casota que corre até esticar a corda”.

À nossa saúde!

Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 13:00


1 comentário

De Alberto Bastos a 28.06.2017 às 10:17

Concordo plenamente, meu caro Adão.
Pois num gole de vinho bebido com alguma triste tristeza, por vezes depois a tristeza alegra-se, revolta-se, empolga-se e dá-nos confiança e até imaginação...

Abraço
alberto

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