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Jardim das Delícias



Sábado, 19.04.14

Surpresas de Agosto - Gabriel García Márquez

 

Gabriel García Márquez  Surpresas de Agosto

 

 

   Chegámos a Arezzo pouco antes do meio-dia e per­demos mais de duas horas à procura do castelo renas­centista que o escritor venezuelano Miguel Otero Silva comprara naquele recanto idílico da campina toscana. Era um domingo de princípios de agosto, ardente e bu­liçoso, e não era fácil dar com alguém que soubesse fosse o que fosse no meio das ruas a abarrotar de turistas. Ao cabo de múltiplas tentativas inúteis, regressámos ao au­tomóvel, saímos da cidade por um caminho de ciprestes sem sinais de trânsito, e uma velha guardadora de gansos indicou-nos com precisão o local onde ficava o castelo. Antes de se despedir de nós, perguntou-nos se pensáva­mos pernoitar por lá e nós respondemos-lhe, segundo o que prevíramos, que íamos só para almoçar.

- Menos mal - disse ela -, porque a casa está assom­brada.

A minha mulher e eu, que não acreditamos em apari­ções do meio-dia, rimos da credulidade da guardadora de gansos. Mas os nossos dois filhos, com nove e sete anos, ficaram felizes com a perspetiva de travarem conhe­cimento ao vivo com um fantasma.

Miguel Otero Silva, que além de bom escritor era anfitrião magnífico e um requintado apreciador de cozinha, tinha à nossa espera um almoço inesquecível. Como vínhamos atrasados não tivemos tempo para visitar o interior do castelo antes de nos sentarmos à mesa, mas o seu aspeto exterior nada tinha de pavoroso, e qualquer inquietação se dissipava instantaneamente com a vista completa da cidade de que desfrutávamos do terraço florido onde estávamos a almoçar. Era difícil acreditar que naquela colina de casas umas por cima das outras, onde mal cabiam noventa mil pessoas, tivessem nascido tantos homens de génio duradouro. Contudo, Miguel Otero Silva disse-nos com o seu humor de caribenho que nenhum desses em que estávamos a pensar fora o mais insigne morador de Arezzo.

- O maior - sentenciou ele - foi Ludovico.

Assim mesmo, sem apelidos: Ludovico, o grande senhor das artes e da guerra, que construíra aquele castelo da sua própria desgraça, e de quem Miguel nos falou durante todo o almoço. Falou-nos do seu poder imenso, do seu amor contrariado e da sua morte assombrosa. Contou-nos como num instante de loucura do coração, apunhalara a sua dama no leito onde tinham acabado de se amar, e como logo a seguir açulara contra si próprio os ferozes cães de guerra que o despedaçaram com os dentes. Garantiu-nos, muito a sério, que a partir da meia-noite o espetro de Ludovico deambulava pela casa mergulhada em trevas tentando conseguir sossego para o seu purgatório de amor.

O castelo, na realidade, era imenso e sombrio. Mas pleno dia, com o estômago cheio e o coração satisfeito, o relato de Miguel só conseguia parecer um gracejo como os outros a que ele se entregava a fim de distrair os seus convidados. Os oitenta e dois quartos que percorremos sem que nada de surpreendente se passasse depois da sesta, haviam sofrido numerosas e diferentes alterações às mãos dos seus sucessivos donos. Miguel restaurara por completo o piso inferior e construíra um quarto de cama moderno com chão de mármore e instalações, nas suas dependências, de sauna e cultura física, bem como o ter­raço de flores inebriantes onde acabáramos de almoçar. O segundo piso, que fora o mais utilizado no decurso dos séculos, era uma sucessão de quartos sem caráter espe­cial, com móveis de diferentes épocas abandonados à sua sorte. Mas no último piso conservava-se uma divi­são intacta onde o tempo se esquecera de passar. Era o quarto de Ludovico.

Foi um instante mágico. Ali estava a cama de cortinas bordadas com fios de ouro e o dossel com a sua prodi­giosa passamanaria, ainda manchado pelo sangue resse­quido da amante sacrificada. Havia a lareira com as cinzas geladas e o último toro transformado em pedra, o armá­rio com as suas armas bem oleadas, e o retrato a óleo do cavaleiro pensativo numa moldura de ouro, pintado por um desses mestres florentinos que não tiveram a sorte de sobreviver ao seu tempo. Todavia, o que mais me impres­sionou foi o cheiro a morangos frescos que permanecia vivo e sem explicação possível na atmosfera daqueles aposentos.

Os dias de verão são longos e comedidos na Toscana, e o horizonte não se altera até às nove da noite. Quando acabámos de conhecer o castelo passava das cinco, mas Miguel insistiu em levar-nos a ver os frescos de Piero delia Francesca na Igreja de São Francisco; depois tomámos um café copiosamente conversado sob as pérgolas praça, e quando voltámos a buscar as malas encontrámos o jantar na mesa. E assim ficámos para jantar.

Enquanto o fazíamos, debaixo de um céu cor de malva onde se via uma única estrela, os miúdos foram buscar uns archotes à cozinha e puseram-se a explorar as trevas dos pisos superiores. Da mesa ouvíamos os seus galopes de cavalos à solta nas escadas, os queixumes das portas, gritos felizes que chamavam por Ludovico nos quartos escuros. Foram eles que tiveram a má ideia de ali passarmos a noite. Miguel Otero Silva deu-lhes, encantado, o seu apoio, e nós não tivemos a coragem civilizada de dizer que não.

Ao contrário do que eu temia, dormimos muitíssimo bem, a minha mulher e eu, no nosso quarto do piso baixo, com os miúdos num quarto ao lado. Ambos os quartos haviam sido devidamente atualizados e nada tinham de tenebroso. Enquanto tentava conciliar o sono, contei as doze pancadas insones do relógio de pêndulo da sala, e recordei o pavoroso aviso da guardadora de gansos. Mas estávamos tão cansados que rapidamente adormecemos, mergulhando num sono denso e continuado, de tal maneira que só acordei depois das sete, já com um sol esplêndido nas trepadeiras da janela. Ao meu lado, minha mulher continuava a navegar no aprazível mar dos inocentes. «Que disparate», disse eu para comigo, "haver quem nestes tempos ainda acredite em fantasmas." Só então me fez estremecer um cheiro de morangos recém-colhidos, e vi a chaminé com as cinzas frias e o último toro convertido em pedra, e o retrato do cavaleiro triste que nos olhava de uma distância de três séculos da sua moldura de ouro. Porque não estávamos no quarto do piso de baixo onde nos deitáramos na noite anterior, mas na alcova de Ludovico, debaixo da cornija e das cortinas poeirentas e dos lençóis encharcados no sangue ainda quente da sua cama maldita.

Outubro de 1980

 

(in Contos Completos, 1947-1992, D. Quixote)

 

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por Augusta Clara às 14:00


1 comentário

De Beatriz Santos a 19.04.2014 às 21:45

Afinal ainda me falta comprar este livro de contos de Gabriel Garcia Marquez. Este senhor tem prosa encantatória. Há pessoas que nasceram para fazer os outros felizes com o que escrevem. Ele, por exemplo.

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