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Jardim das Delícias


Terça-feira, 25.04.17

"Um cravo vermelho e luminoso" - Adão Cruz

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Adão Cruz  "Um cravo vermelho e luminoso"

 

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(Adão Cruz)

 

Um cravo vermelho e luminoso
Um cristal de vida no céu de chumbo
Cada dia um mundo limpo e perfumado
Graças a ti flor da minha idade
Graças a ti caminho da esperança às portas da cidade
Todo o mel e todos os frutos ali à mão
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
Veio o tempo ao nosso encontro
E a manhã despertou agitando as árvores
E a noite se fez de estrelas
Que desceram aos cantos do jardim
Um cravo vermelho e quente
Mais que tudo amando a vida
Em qualquer língua entendida
O mundo tinha o sabor de uma maçã
E os olhos inacabados eram cravos vermelhos
Não havia cárceres nem torturas
Apenas o calor de uma fogueira
Na praça do entusiasmo
E uma jovem mulher dormindo um sono de criança
Nos telhados da revolução
O seu rosto era uma nuvem
Dourada pelo sol e pela lua
Os cabelos trigueiros uma seara
Nos lábios a canção de Abril
Que gloriosa encheu a rua.

 

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por Augusta Clara às 15:38

Segunda-feira, 24.04.17

25 DE ABRIL SEMPRE!

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(Imagem de Adão Cruz)

 

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por Augusta Clara às 01:33

Domingo, 20.11.16

A medicina antes do 25 de Abril - Adão Cruz

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(Deram-me a honra de um convite para intervir, no âmbito do 11º Congresso da FNAM (Federação Nacional dos Médicos), num debate sobre o Serviço Médico à Periferia, cabendo-me falar sobre o exercício da medicina antes do 25 de Abril. Alguém sugeriu que era útil e interessante fazer um texto com o essencial da minha intervenção. Ele aí está, todavia liberto de todos os aspectos técnicos que só serviriam para entorpecer a leitura de quem não é médico).

 

Pelo texto que se segue, todos ficarão com uma ideia de como era, com algumas variantes, a prática da medicina rural e de todo o interior do país antes do 25 de Abril e, portanto, antes da criação do SNS, por volta de 1989, o qual, em três décadas, como sabemos, se haveria de tornar num dos melhores e mais respeitados do mundo. Hoje, infelizmente, encontra-se no meio do mais ignóbil processo de destruição, urdido pelo capital privado e pelas forças mais retrógradas que procuram miná-lo por todas as formas e feitio, de modo a poderem dizer que não funciona. Gente que se encontra nos antípodas dos homens progressistas que o criaram e ajudaram a desenvolver, homens de mente sã e avançada, como Miller Guerra, Albino Aroso, António Galhordas, Gonçalves Ferreira, Pereira de Moura, António Arnaut e outros.

  

Adão Cruz  A medicina antes do 25 de Abril

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(Adão Cruz) 

   Quando saí da Faculdade tive duas opções de vida: Fazer clínica na minha terra, como “João Semana”, ou aceitar o convite de um colega mais velho do que eu cerca de onze anos, amigo e conterrâneo que residia nos EU, médico hospitalar de medicina interna, para ir para a América. Tinha de escolher uma destas duas opções extremas. Optei pela primeira por duas razões principais: por um lado, tinha a guerra colonial à minha frente e dificilmente poderia sair do país, por outro lado, precisava de ganhar algum dinheiro. Os meus pais fizeram muitos sacrifícios para formarem dois filhos e eu não estava disposto a sacrificá-los mais tempo.

Estávamos no ano de 1964. E assim comecei a minha actividade clínica, em Vale de Cambra, sem estágio nem tese, três anos antes da ida para a guerra colonial da Guiné. Encostei-me a um velho clínico que era um monumento de sabedoria prática e experiência. Foram esses três anos os piores e mais difíceis. Vale de Cambra, um pequeno concelho com uma área de 147 Km2, tinha talvez menos de 15.000 habitantes. Dispersava-se por nove freguesias, algumas delas abrangendo os mais remotos e inóspitos lugares da Serra da Gralheira, com pequenos povoados e populações encravadas em locais quase inacessíveis, com muitas pessoas vivendo na maior ignorância e na mais extrema miséria.

Continuei durante outros três anos, após o meu regresso da Guiné, estes já melhores, pois iniciei na altura o Internato Geral no Hospital de Santo António, para onde me deslocava todos os dias. Este facto, a experiência da guerra e alguma presença em reuniões científicas, permitiram-me uma maior competência, bem como relações pessoais e com o hospital, que me facilitaram muito a minha prestação de cuidados médicos. Não tive, propriamente, contacto com o Serviço Médico à periferia, criado em 1975. Nessa altura já eu tinha obtido a especialidade e fazia parte do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo António.

Pediram-me para falar da medicina em Portugal antes do 25 de Abril, ou seja, antes da criação do Serviço Médico à periferia em 1975, o primeiro passo, por assim dizer, para o nascimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e também uma experiência valiosa e ímpar. As duas realidades, o antes e o depois do 25 de Abril, não podem comparar-se. Claro que eu não posso falar do que se passava em Portugal. Posso falar, sim, do que se passava numa parte de Portugal, que, muito provavelmente, com algumas diferenças, era o que se passava em todo o interior do país. E digo interior, porque havia uma significativa diferença com o litoral, onde existiam os poucos recursos técnicos da época. Com efeito, não havia qualquer rede hospitalar digna desse nome, e os únicos hospitais situavam-se em Lisboa, Porto e Coimbra, havendo um ou outro pequeno hospital, aqui e ali, de muito pouca eficácia, quase sempre ligado às misericórdias. De qualquer forma, os cuidados primários de saúde eram um conceito quase desconhecido, sendo notória uma profunda degradação dos poucos serviços de saúde existentes e uma enorme incapacidade de resposta às necessidades mais elementares.

Antes do 25 de Abril a assistência médica não estava assegurada, sobretudo antes do fim da década de sessenta. Competia às famílias, às instituições privadas e à caridadezinha, que a despeito de aviltar a dignidade humana, lá ia  remendando as coisas aqui e ali, bem como aos débeis serviços médico-sociais da Previdência fazerem alguma coisa. Mas era sobretudo ao “João Semana”, pilar fundamental da saúde nesses tempos, que tudo se exigia. As áreas rurais dessa época tinham características comuns, o serem pouco populosas, muito isoladas, com uma população envelhecida, profundamente carenciada, com problemas de acessibilidade aos grandes centros que ficavam muito longe e com vias de comunicação péssimas, vivendo de uma agricultura de subsistência, e, portanto, profundamente vulneráveis. A saúde, ou o pouco que se poderia fazer na promoção da saúde era dependente da capacidade económica de cada cidadão, o que levava ao pagamento integral dos cuidados médicos, nomeadamente dos cuidados hospitalares, mesmo públicos. Só tinham direito a cuidados gratuitos, e obviamente de pior qualidade, aqueles que conseguissem apresentar um atestado de pobreza ou indigência passado pela junta de freguesia.

E foi nestas condições de 1964 que eu comecei a viver, de dia e de noite, 24 horas por dia, ao sol e à chuva, todas as peripécias clínicas que levaram um dia minha mãe a dizer-me: rapaz, muda de vida senão morres. Mas foram essas tremendas dificuldades e essas precaríssimas condições, que constituíram para mim uma segunda faculdade. Dizia o meu velho amigo Dr. Teixeira da Silva: você aqui vai ver tudo, desde a queda do cabelo à unha encravada. Com efeito, numa altura em que a esperança de vida era de quase menos 15 anos do que hoje, éramos senhores de todas as especialidades, desde a pediatria à ginecologia e obstetrícia, passando pela dermatologia, oftalmologia, psiquiatria etc. Em termos de material, eu tinha quase tudo o que era possível ter na altura, e muita coisa oferecida por um grupo de amigos: marquesa, mesa ginecológica, espéculos, estetoscópio, aparelho de tensões, otoscópio, oftalmoscópio, sondas e algálias, todo o material necessário a pequena cirurgia. Era frequente a incisão e drenagem de abcessos, a exérese de lipomas e quistos, extracção de unhas encravadas, circuncisões etc. Tinha ligaduras, pensos e desinfectantes variados, material para injectáveis, mala de urgência apetrechada com tudo o que era viável, e ainda fórceps e ventosa que o Dr. Teixeira da Silva me emprestava. Ele tinha também uma velha radioscopia cuja radiação nos deixava, ao fim de 5 minutos, como se tivéssemos apanhado uma descarga eléctrica. Para fazer uma radiografia, um electrocardiograma, qualquer exame mais avançado ou uma cirurgia, só no Porto, o que ficava muito caro. Fora do Porto nada havia, apenas um ou dois pequenos laboratórios de análises em concelhos limítrofes.

As pessoas viviam atormentadas com o medo da doença e viam-se obrigadas a algumas poupanças durante a vida não só para guardarem “um terço para a tarde”, como se dizia, mas também para ocorrerem ao inesperado, ou então tinham de vender terras e gados para pagar uma qualquer cirurgia ou outros cuidados de saúde mais dispendiosos. De uma maneira geral, só chamavam o médico quando viam que a coisa tinha atingido um tal estado que já não era resolúvel por si própria e pelas mezinhas caseiras. Claro que o nosso objectivo era muito mais o do alívio sintomático e a melhor resolução possível da situação, não havendo, por falta de meios de toda a espécie, nomeadamente meios auxiliares de diagnóstico, grandes preocupações de investigação e de diagnósticos precisos e etiológicos.

Uma das actividades para que mais vezes éramos solicitados era a assistência aos partos. Mas só quando a parteira habilidosa lá do lugar via o caso mal parado. Partos no hospital ou na maternidade eram uma raridade. A taxa de mortalidade neonatal andava pelos 25 por mil, a taxa de mortalidade perinatal pelos 40 por mil, a taxa de mortalidade infantil rondava os 60 por mil e a taxa de mortalidade materna atingia os 70 por 100.000. Fiz muitos partos, alguns à luz da candeia e do petróleo, em locais onde nunca passou Cristo, em que a camita de ferro da parturiente era por cima do curral da vaca. Quase todos os partos que fiz, por incrível que pareça, foram partos naturais, embora com auxílio de episiotomias, do fórceps e sobretudo da ventosa, o que a meu ver, pode pôr em causa a actual necessidade de muitas cesarianas.

As gastroenterites, sobretudo em bebés e crianças eram frequentes, e só nos chegavam às mãos em adiantado estado de desidratação que nós tentávamos resolver com a ministração subcutânea de soro, dos dois lados da barriguita, deixando a criança com dois ventres, como um sapinho. Era praticamente impossível canalizar e manter uma veia numa criança daquelas. Em adultos, lá conseguíamos fazer umas infusões com as poucas soluções parentéricas de que na altura dispúnhamos.

Caía-nos em cima tudo o que fosse infecções e todas as doenças infecto-contagiosas possíveis e imaginárias, incluindo tuberculose, febre tifóide, mononucleose, tétanos, muitos casos de sarampo, cuja vacina fora descoberta apenas um ano antes, escarlatina, varicela, coqueluche, reumatismo articular agudo e subsequentes doenças valvulares, meningites e a difteria ou garrotilho que produzia a terrível toxina diftérica. Na difteria, o que mais nos atemorizava eram as situações de obstrução respiratória, produzidas pelas placas brancas da orofaringe. Uma vez estive com o bisturi na mão, decidido a fazer uma traqueostomia (abertura na traqueia) num catraio de cinco ou seis anos, mas optei por fazer outra coisa que não era aconselhável, pois poderia disseminar a toxina, isto é, arrancar as placas da orofaringe. Felizmente correu bem, e a criança é hoje um saudável adulto emigrante na Alemanha. Infecções pulmonares, pneumonias graves, apendicites que nos chegavam algumas vezes com peritonite e que encaminhávamos para um pequeno hospital de que nos valíamos, o Hospital Conde de Sucena, em Águeda. Todavia, falar em ir para o hospital era sempre um problema e uma solução muitas vezes não aceite pelos familiares, não só porque constituía uma espécie de sentença de morte, mas também porque se temia a conta que daí adviria. Então para o Santo António nem pensar, não sei se por ser mais longe, se pela sua envergadura.

Acidentes de trabalho, por vezes com graves feridas e traumatismos, fracturas e queimaduras extensas, tudo situações que nos exigiam grande responsabilidade, muito tempo de tratamento e a aplicação rigorosa de todos os conhecimentos aprendidos na faculdade, que não eram poucos nem frágeis, pois a nossa formação, na altura, foi muito boa. A medicina no trabalho não existia, embora começasse a nascer em conceito. Havia algumas pequenas empresas, sobretudo na área das madeiras, dos lacticínios e da metalo-mecânica, mas o trabalhador era uma máquina como qualquer outra, tendo de ser reparada quando avariava. O trabalhador não tinha quaisquer direitos laborais e era-lhe negada a possibilidade de ser um sujeito activo na construção da sua própria saúde, incluindo o controle de factores que a determinavam positivamente, factores protectores, ou que a punham em risco, factores de risco, quer dentro quer fora do local de trabalho.

Frequentes situações de insuficiência respiratória e graves crises de asma, silicoses, insuficiência cardíaca grave, com edema agudo do pulmão. Ainda nos valíamos dos garrotes e da sangria. Arritmias cardíacas que classificávamos conforme podíamos, sem qualquer registo electrocardiográfico, e que tentávamos reverter quando havia repercussão clínica. Cardiopatias congénitas e outras malformações, sobretudo aquelas que eram mais susceptíveis de diagnóstico clínico. O primeiro diagnóstico que fiz, a “solo”, de uma dessas graves malformações chamada coartação da aorta, foi num rapaz de vinte anos, pouco mais novo do que eu. Foi operado em Lisboa pelo Professor Celestino da Costa, e hoje, ao fim de mais de meio século ainda é vivo e ainda vem à minha consulta. Havia AVCs e enfartes do miocárdio, com diagnóstico apenas clínico, que encaminhávamos para o hospital de Águeda ou Santo António. Ao compararmos o que se fazia na altura perante um enfarte do miocárdio, por exemplo, e o que se faz hoje em termos de cardiologia de intervenção, damos com um abismo apenas preenchido por uma monumental ignorância. No fim de contas, o resultado era o doente morrer ou ficar com o coração gravemente mutilado.

Havia amigdalites muito frequentes e repetitivas, e como na altura havia grande medo do reumatismo articular agudo (RAA), quanto mais cedo extirpássemos as amígdalas melhor. Juntávamos três ou quatro pacientes, e uma vez ou outra vinha um otorrino de Lisboa a Oliveira de Azeméis de onde era natural, e passava pelo consultório, operando-os de empreitada.

Eram frequentes as cólicas renais e biliares, bem como doenças oncológicas terminais, cancros do estômago, cancros pulmonares avançados, com punções pleurais por vezes repetidas, nos confins da serra, para esvaziar o líquido pleural e aliviar a asfixia do doente. Gangrenas, cirroses e drenagens de ascites monstruosas, limpeza e tratamento, às vezes durante meses, de feridas de toda a ordem, nomeadamente feridas cancerosas da pele onde cabia um punho, cancros da boca, do pénis e do ânus.

Para terminar, gostaria de dizer que muita coisa que hoje é quase banal no nosso país, não existia na altura. Fui algumas vezes a Madrid com dois tipos de doentes: asmáticos e doentes com patologias cardíacas valvulares. Tratava-se, obviamente, de pessoas com dinheiro, ou, pelo menos, com posses suficientes para as despesas que não eram pequenas. Quanto aos primeiros, não havia ainda em Portugal a especialidade de alergologia nem a existência de vacinas, pelo que recorríamos ao Instituto La Paz, onde trabalhava um grande alergologista, o Dr. Ojeda Casas, e de lá trazíamos as vacinas. No que respeita aos doentes com indicação de cirurgia cardíaca, que não existia em Portugal, essencialmente implantação de próteses valvulares mecânicas, valíamo-nos do Hospital de Nuestra Senhora de La Concepcion, onde trabalhava um dos mais conhecidos cirurgiões cardíacos da época, o Dr. Gregório de Rábago, o qual operou o meu amigo e colega de consultório, estomatologista, filho do Dr. Teixeira da Silva.

                                                                              

Adão Cruz, 2016

(Correcções: onde refiro o Dr. Manuel Luciano de Almeida, quero dizer Dr. Manuel Luciano da Silva. Onde digo que ele queria provar que Colombo era americano, queria dizer português).

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por Augusta Clara às 16:15

Domingo, 24.04.16

Portugal - Georges Moustaki

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Georges Moustaki  Portugal

 

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por Augusta Clara às 20:00

Quinta-feira, 25.04.13

As brumas do futuro (Capitães de abril de Maria de Medeiros) - Madredeus

 

DIA 25 DE ABRIL

 

(música de António Victorino d'Almeida e letra de Pedro Ayres de Magalhães)

 

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 24.04.13

E houve uma noite antes dessa noite - José Jorge Letria

 

 

 

(O ensaio geral - fotografia de Carlos Gil)

Amigo

Maior que o pensamento

Por essa estrada amigo vem

Não percas tempo que o vento

É meu amigo também.

 

José Afonso

(«Traz Outro Amigo Também»)


   E houve uma noite antes dessa noite. Muitas noites, mas uma em particular, porque teve a emoção das vozes multiplicadas por outras vozes, vozes gémeas, vozes sem medo do lume das palavras. Eram os últimos dias de Março de 1974 e todas as salas eram pequenas para acolher a alegria tensa dos que reclamavam mudança. Falo do que sei, do que vivi, como cantor e como homem. Eu sei que não podias estar lá para ver, para sentir, mas em algum lugar havias de estar, por certo inquieto com o que pudesse acontecer. Eras assim e não sabias nem podias ser de outra maneira. Estávamos a 29 de Março, a me­nos de um mês da noite que mudaria as nossas vidas. O Manuel Freire vinha de Ovar, o Zeca Afonso de Setúbal, o Fanhais de parte incerta, eu de muito perto, como quase todos os outros, de uma Lisboa impaciente e grave. Cantava-se ou não se cantava? Os homens do mando policial garantiam que não, que não haveria cantigas, desse lá por onde desse. E tinham cães e matracas e prisões anunciadas, e nem se atreviam a ter medo, porque tinham a força do seu lado. Mas nós tínhamos as palavras das canções e muita gente para as cantar. Nada mais, e já era muito. Era quase tudo.

Cantava-se ou não se cantava? Claro que se cantava, pois nada havia já a perder, e havia o gosto febril de arriscar, por se sentir que a liberdade andava perto, quase ao virar da esquina, ali mesmo à mão de semear, de se cantar.

Imagino os teus temores, pai, se tivesses visto, nessa noite, o Coliseu apinhado, quase a transbordar, e as ruas cheias de polícias e de cães, e milhares de olhos postos num palco ao mesmo tempo exíguo e imenso, de onde iriam brotar, como papoilas esquivas, as canções da esperança dessa noite.

"Desculpa, Zeca, mas tens que ser tu a fechar".

"Mas, porquê eu? Qualquer um de vocês o fará melhor do que eu".

"Não, tens que ser tu, porque tu é que representas tudo aquilo que temos para dizer, e é a ti que as pessoas querem ver e ouvir".

"Deixem-se de tretas tutelares. Aqui não há bonzos nem chefes. Cada um faz a sua parte e acabou-se. Mesmo que nos deixem cantar só metade de cada canção, vamos até ao fim".

E fomos mesmo, acontecesse o que acontecesse. E guardou-se o "Grândola" para o fim, não se sabe bem porquê. Podia ter sido o "Venham Mais Cinco" ou "O Que Faz Falta", mas foi aquela porque falava de fraternidade, de amizade e porque era a menos amputada de todas as que poderiam ser cantadas, nessa noite de reprimido júbilo.

O Fanhais ficou sentado na primeira fila, porque era padre, porque, sendo padre e cantor, era ainda mais perigoso, e, por isso, nem o direito lhe foi concedido de subir ao palco com os outros. E, mesmo assim, cantou e comoveu-se com o canto dos outros a crescer no palco como uma sentença, como um aviso, como uma promessa. Tão unidos que nós estávamos ainda nessa noite, nesses dias, sem as armadilhas da ideologia a porem cada um para seu lado. Não havia comunistas, nem esquerdistas, nem anarquistas. Havia somente a força exaltada e solidária da malta das cantigas e milhares de vozes a dar-lhe espessura de multidão e sentido de mudança. E era só isso que contava. Nada mais. Já tinha sido assim no Barreiro, na Marinha Grande, em Ferreira do Alentejo, em Alhos Vedros, em Coimbra, em salas apinhadas de estudan­tes, em cooperativas de consumo, clubes de campismo e em cineclubes. Já era assim há vários anos. Eu estava lá e vi. Por isso posso contar.

"Ai, filho, e se a polícia vem e os prende a todos? O que vai ser das vossas vidas, dos vossos cursos, dos vossos trabalhos?". Tu não estavas lá para perguntar, mas eu sei que era esta a pergunta que me farias se tivesses conseguido chegar com vida a esse dia de Março.

Na assistência havia militares, os que aguardavam a partida para mais uma comissão em África, os que há mais de um ano preparavam, numa vagarosa clandestinidade, a noite de todas as noites.

O primeiro dos meus filhos tinha meses, muito poucos, e estava em casa a dormir. A minha mulher e a minha mãe estavam nas primeiras filas, no meio da assistência, a ver, a ouvir e a sofrer. Já não havia espaço nem tempo para se ter medo. Jogava-se ali, naquela noite de Março, mais uma cartada, uma daquelas que marcam as memórias de uma vida. Depois, é certo, podiam vir as prisões e os transtornos, como sempre acontecia nas vésperas do 1° de Maio, mas que importava? Tudo estava já em movimento, como se um grande comboio se tivesse posto em marcha sobre os carris de um tempo que não admitia renúncia ou retrocesso.

O palco foi pequeno para cabermos todos, ombro com ombro, braço dado, voz colada às outras vozes, a sussurrar o nome de um mês prestes a inundar as ruas e o sono estremunhado das casas.

Não, pai, já não havia motivo para teres receio, porque a máquina da alvorada estava em andamento e tudo se combinava, numa insólita harmonia, para que os homens e as vozes chegassem finalmente ao seu destino.

Eu estava lá e vi, e ouvi, e cantei. Já lá vão tantos anos e é como se tivesse sido ainda ontem. E havia a presença morna e envolvente de uma fraternidade que guardava em si todos os outros valores, todas as outras certezas. Ninguém disputava nada a ninguém, nem es­paço, nem fama, nem fortuna. Era a adversidade que nos unia e o sonho que nos exaltava, e fosse lá alguém tentar explicar o que isso era e como podia ser tradu­zido em palavras. Não havia maneira de se verbalizar o que era somente pressentimento e vontade. E houve quem chorasse no meio da assistência. E houve quem gritasse algumas das palavras proibidas, como se tentasse fazer o ensaio geral e definitivo da noite de todas as noites que estava para chegar, com o embalo contagiante das cantigas.

O Zeca levantava, como sempre fazia, o indicador da mão direita para nos dizer que as vozes altas se deviam erguer ainda mais, de forma presente e audível, na partilha do refrão: "O povo é quem mais ordena/ dentro de ti ó cidade ". E já faltava tão pouco para que essas palavras fossem a senha e a chave da noite que estava para vir, com soldados misturando-se com a treva e com flores de júbilo a beberem a água que as manteria viçosas até ao fim de todas as quimeras.

Já podias dormir descansado, pai, que o perigo, apa­rentemente, tinha passado. Viola no saco, voltávamos para casa, com a certeza de que se acrescentara mais um dia na contagem decrescente dos nossos destinos por cumprir.

(in José Jorge Letria, Uma Noite Fez-se Abril, Hugin)

 

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por Augusta Clara às 22:00



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