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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 26.06.17

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Sento-me ali mesmo à beira do pensamento

 

a. gadeh1.jpg

(A. Gadeh)

 

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

A água cansada e frouxa vai correndo devagar, ensopando com o tempo o fundo do rego feito lama ou cama onde crescem ervas e lírios que floriram em Abril.

As formosas flores partiram e ficaram as hastes saudosas. Vieram os lilases e as rosas. Uma a uma caindo, deixaram depenados os rancos esgalhados.

E as hidrângeas enchem-se de flores de todas as cores. Cobrem o campo e o pensamento que por tormento não deixa reter o momento.

O tempo não dá refrigério na contenda. "Ai que prazer não cumprir um dever!"

A natureza é livre de nascer, criar e morrer.

No calor intenso da batalha , floresce a vida em plenitude, e a quietude de um momento trai a liberdade e faz da vida um tormento.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Tudo o que nasce morre. Mais tarde, mais cedo, à frente, atrás, tanto faz.

Se morrer fosse renascer, tinha descanso o guerreiro.

E a batalha perdida nunca seria vencida.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Dou à liberdade todas as asas para voar. A natureza tem muito a ensinar.

Partir, ficar... são apenas pontos finais nas frases concluídas.

E nada mais.

Tudo faz sentido e nada também faz.

Só que a vida anda para a frente e nunca para trás.

 

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento.

E volto a ver os lírios, as rosas e os lilases.

Mas é tudo tão fugaz que o olhar não é capaz de reter a cor.

A cor do amor.

Nem por um momento.

Se morrer fosse viver, tudo havia de renascer ainda que em pensamento.

 

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por Augusta Clara às 17:26



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