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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 14.12.17

Lágrima de sol - Adão Cruz

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Adão Cruz  Lágrima de sol

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(Adão Cruz, 2017)

 

 

O sol vem sempre, vermelho e quente.

O sol não mente, queimando a sede e roendo a fome de tanta gente inocente e sem nome.

Também o sol vem sempre, pálido e frio.

O sol não mente, congelando a sede e empedrando a fome, ainda que a gente o não veja e pareça ausente.

E também o deserto, o deserto não mente, o deserto sempre aberto na alma desta gente, ainda que pareça certo o caminho em frente.

Vem sempre a dor na secura das carnes, a dor não mente, ainda que ao mundo pouco importe a dor que dói a tanta gente.

E também a dor da alma não mente o sofrimento no esbugalhar dos olhos, ainda que a mente enlouqueça e até se esqueça de que é alma de gente.

E morre a paz, a paz podre não mente, ainda que na vaga esperança da sorte não seja mais do que a paz da morte.

 

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por Augusta Clara às 15:44

Terça-feira, 12.12.17

Dentro do meu caderno - Adão Cruz

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Adão Cruz  Dentro do meu caderno

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(Adão Cruz)

 

Dentro do meu caderno há uma pena branca de palavras e gestos cansados, de inocência a prazo ao longo do tempo.

Dentro do meu caderno há mensagens desamparadas como os dedos verdes das estrelas, ora inquietas no mar incerto, ora plácidas no mar sereno.

Sempre assim foi no meu caderno, criador de silêncios nos desertos de um poema.

A beleza embriagada de mel nasce dentro do meu caderno, sobre as águas de um mar de sol poente.

De tanto azul fiz um barco pintado de sonhos, e na cama infinda deste mar, perdi o respeito pelo silêncio do teu corpo.

Dentro do meu caderno cai a chuva no cristal do pensamento, embaciando nossos corpos e nossos mundos.

Dentro do meu caderno, para que servem vozes se não sabemos cantar?

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 11.12.17

Lágrima de chuva - Adão Cruz

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Adão Cruz  Lágrima de chuva

 

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(Adão Cruz)

 

 

A chuva diz que vem mas não vem.

Como tu, a chuva mente.

Ofereceram-me o sol de Inverno nascido de um amor criança,

Inverno de pés frios no olhar tépido da tua ausência.

Mas eu não quis.

Neste dia pequenino e preguiçoso, preferi o eco da angústia e a carícia das árvores.

As árvores celebram o dia e acendem um fantasma de mulher presa a um guarda-chuva na alameda da ilusão.

Cai a noite, entardecem as pupilas, e a solidão dos sonhos abre a madrugada por entre os lábios quentes do desejo.

Um ramo seco preso aos pés alimenta o fogo da manhã vazia.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 08.12.17

Palestina - Adão Cruz

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Adão Cruz  Palestina

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(Adão Cruz)

 

Não há sol nos céus da Palestina

não há luz nos olhos da Palestina.

Roubaram o sorriso à Palestina!

São de sangue as gotas de orvalho da madrugada

e o vento só é vento quando as balas assobiam.

Roubaram as manhãs à Palestina!

O céu de chumbo esmaga as almas e os ossos

e é de lágrimas a chuva quando cai.

Não há sol nos céus da Palestina!

Do ventre da lua cheia-cheia de aço e de amargura

nasce a cada hora

um menino com bombas à cintura.

Mataram a infância na Palestina!

Rasgam as mães os seios com arroubos de ternura

para alimentar a raiva

por cada filho que perdem outro nasce da sepultura.

Semearam a dor na Palestina!

Nas casas esventradas rompem por entre as pedras leitos de sofrimento

onde à noite se acoitam os amantes

queimando a dor na paixão de um momento.

Fizeram em pedaços o amor na Palestina!

Cada instante é uma vida na vida da Palestina

cada momento uma taça de vingança clandestina

cada gesto um vulcão de raiva que nem a morte amansa.

Roubaram a paz à Palestina!

Na sombra do dia ou na calada da noite

cravam os vampiros seus dentes de ferro no coração da Palestina

não há sangue que farte a fúria assassina.

Sangraram cobardemente a palestina!

Para atirar contra os tanques uma pedra

agiganta-se o ódio a cada bater do coração.

Por não haver sangue de tanto sangue vertido

outra força não há para erguer a mão…

e dar à Palestina algum sentido.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 07.12.17

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos 

 

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(Adão Cruz)

 

 

O menino corria

corria atrás do sol no correr de cada dia

e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.

O menino corria

corria atrás da lua que se erguia entre estrelas e magia

e no brilho dos olhos toda a alma luzia.

O menino corria

corria atrás do vento que fugia para lá do tempo

e nos olhos do menino o vento se perdia.

O menino corria

corria atrás da chuva e quanto mais água caía

mais o brilho dos olhos se acendia.

O menino dormia

dormia no reino dos sonhos e da fantasia

e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.

O menino acordava

acordava no alvor de cada dia

e a vida renascia no abrir dos olhos onde a alma luzia.

Até que um dia…

Uma nuvem negra

muito negra

tombou do céu e se fez gigante

de longas barbas e olhar perfurante

com um relâmpago em cada mão.

Roubava o brilho dos olhos

e nas entranhas do trovão se desfazia.

O menino tremia

tremia sem saber o que acontecia.

O menino chorava

chorava sem saber a razão.

O menino fugia

fugia

mas algo lhe dizia que de nada valia.

Chamou as pombas rouxinóis e cotovias

sardões caracóis e libelinhas

enlaçou-se de gavinhas

abraçou as árvores beijou a terra

e tudo o que nele vivia.

Mas ninguém lhe respondia

Todos o olhavam com tristeza e melancolia.

Perdera o menino o brilho dos olhos

e neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 05.12.17

Minha mãe terra - Adão Cruz

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Adão Cruz  Minha mãe terra

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(Adão Cruz)

 

Agora sei que minha mãe terra é esta terra de barro e planície, este chão de sol vermelho e pedras de silêncio sem história.

Sei agora que minha mãe terra dorme nas tímidas cores do horizonte, no interminável mundo de paletas impossíveis.

Agora sei que minha mãe terra é o irrevogável rosto do passado entre braços vazios e vozes que não se ouvem.

Sei agora que minha mãe terra vive no eco das palavras ditas ao longo de ruas sem qualquer sentido.

Agora sei que minha mãe terra é o fim desta terra interminável das palavras que ninguém ouve e das cores que ninguém vê.

Sei agora que minha mãe terra não é o calor do caminho da manhã, mas o frio das horas magoadas nos dias que nascem sem nome.

Agora sei que minha mãe terra é o lugar entre o sonho e a miragem recriado no tormento deste barro moldado sem memória.

Sei agora que minha mãe terra é segunda infância sem futuro, esta inocência singular de uma pintura sempre inacabada.

Agora sei que minha mãe terra é o amor perdido no granito falsamente incendiado pelo fulgor do sol poente.

Sei agora que minha mãe terra é o chão desta planície muda, adormecida nos frágeis sonhos da madrugada.

Agora sei que minha mãe terra é a saudade de tudo o que era… e não é nada.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 04.12.17

Ao fim da tarde - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao fim da tarde

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(Adão Cruz)

 

Ainda é dia ao fim da tarde, ainda há uma réstia de sol no horizonte.

Entre o fim do dia e a morte ainda há uma ponte onde mora o frio, mas onde o coração bate ao som das luminosas águas de um rio.

Não te posso responder a quente senão choro…o que há muito não acontece.

À margem da realidade, na magia de um sonho impossível que esmorece, nada mais consigo do que estender meu braço e tocar os dedos da tua mão firme.

Mas tudo muda e resplandece e se acende dentro de mim, no frágil redemoinho das palavras que disseste e só a alma entende.

A música sorridente do teu rosto canta bem fundo na alma nua da utopia que ilumina a ponte da tristeza e da agonia.

Não saias dos meus olhos e deixa-te estar um pouco mais sobre esta ponte do fim da tarde, em que ainda é dia e há uma réstia de sol no horizonte, deliciosa mentira de uma primavera tardia.

No castelo sideral da fantasia, ainda hoje habito entre os teus olhos e o infinito.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Domingo, 03.12.17

O meu poema azul - Adão Cruz

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Adão Cruz  O meu poema azul

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(Adão Cruz)

 

Não sei fazer uma rosa nem me interessa, não sei descer à cidade cantando nem é grande a pena minha.
Não sei comer do prato dos outros nem quero, não sei parar o fluir dos dias e das noites e nem isso me apoquenta.
Não sei recriar o brilho do poema azul...e isso dá-me vontade de morrer.
Procuro para além das sílabas e dos versos a voz poderosa mais vizinha do silêncio, o meu poema azul…o suspiro de Outono onde a brisa se aninha no breve silêncio do perfume do alecrim, lugar das palavras e dos versos no caminho do teu rosto junto ao rio dos teus olhos onde a vida se faz poema e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia.
Procuro para lá das sílabas e dos versos encontrar meu barco à entrada do mar, onde repousa teu corpo entre algas e maresia, meu amor perdido num campo de violetas.
O meu poema é tudo isto que me vive que me ilude que me prende ao lugar azul que procuro dia e noite por entre os versos do meu ser.
O poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu, não tem asas nem olhos nem sentimento, que o traga um dia o vento se vento houver, que a saudade o encontre onde ele estiver.
Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera mas tão alto não chego, mais à mão molho a minha camisa primaveril no regato cristalino que vai correndo por entre os dedos num solo de cores e violino.
Não sei colher uma rosa nem sei descer à cidade cantando, sou apenas aquele que ontem dormia sobre um poema azul e das asas da ilusão se desprendia.
Sou aquele que ontem se despia nos braços do poema que vivia, sou aquele que ontem habitava em silêncio o poema azul que acontecia, sou aquele que ontem sonhou em vão…com o poema azul de mais um dia.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 02.12.17

Preso à cidade - Adão Cruz

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Adão Cruz  Preso à cidade

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(Adão Cruz)

 

 

Preso à cidade nesta inquietante angústia das sombras ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange, cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.

Lá atrás, uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido sob as janelas podres lembra que se alma houvesse, seria presa fácil de um qualquer rígido corpo enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo ao longo das ruas.

A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo, definhada de luz e consciência, deixando atrás de si os últimos passos de uma existência presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.

Até o vento se foi, para não arrastar a neblina estranha e para não incomodar o pesado silêncio que se prende ao corpo e às paredes, como mortalha do tempo e pegajoso crude que desfaz essa réstia de luz, presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.

Ainda ontem era dia, nos braços repartidos do trabalho e nas carnes que não conheciam o exílio, recusando morrer fora dos sonhos e da vida no meio da tempestade, e o vento varria o silêncio para libertar o corpo e a mente da neblina estranha das noites pegajosas.

Havia certezas por entre os tremores da indecisão, havia sorrisos, verdades e ilusões, e havia brisas sonâmbulas calando os medos, e no fundo do silêncio corriam rios arrastando as paredes negras e todas as sombras dos candeeiros partidos.

Preso à cidade, na tristeza que nos envolve e nos liberta por momentos o pensamento, cai dos telhados a poeira do tempo que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos, e abre no chão quadriculado um espelho negro com um menino tocando o céu azul, rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos, e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa, e carinhosamente e sigilosamente nos devolve ao nada por um caminho celular, oculto, irrepetível.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 01.12.17

Adão Cruz, 2017

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 16:23



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