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Jardim das Delícias


Sábado, 15.07.17

Um texto de Teresa Pizarro Beleza a propósito das lágrimas da Ministra

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Teresa Pizarro Beleza

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(Frederic Leight, Antígona, 1882)

 

 

   Há pouco mais de trinta anos, em 1985 se não estou em erro, na viagem à União Europeia - então CEE - para a qual a Comissão convidou 25 Portuguesas e 50 Espanholas, para nos mostrarem a Civilização - umas madames francesas explicaram-nos que o problema das Mulheres na Política era a emoção.

Eu retorqui que, com licença das presentes (eram Advogadas e nos cartões todas usavam «Avocat», não «Avocate», o que se começou a tornar comum algum tempo depois) o problema era que as reuniões partidárias eram em geral bastante «emmerdantes» e as Mulheres tinham mais que fazer.

Esta cena passou-se em Paris. Antes, em Marselha, e depois, em Bruxelas, tivemos de explicar pacientemente que sim, éramos - somos - um País antigo e sim, falávamos Francês e outras línguas.

E sim, tínhamos lido uns livros, frequentado umas Universidades, etc.
(respondiam frequentemente com as suas 'bonnes' e 'concierges' todas óptimas, etc)

Comigo estavam: Maria Isabel Barreno, Teresa Ricou, Helena Roseta, Margarida Carpinteiro, creio que a actual Secretária de Estado Margarida Marques e mais variadas 'Colegas' - tenho de recapitular a lista e recuperar um relato da viagem que publiquei numa revista 'Forum', creio, em espanhol, a pedido de um Senhor da Comissão (?). No Centro Jean Monnet em Lx deve existir mas esqueço-me sempre de lá ir e não sei que fiz ao meu exemplar, sumido há anos no meio dos meus mil papeis.

Pelas reacções patéticas e patetas que tenho visto às lágrimas de Constança Urbano de Sousa, de quem tenho a honra de ser amiga e colega, parece que afinal nada mudou, ou quase, no plano dos preconceitos e 'manias'.

O que é, no mínimo, descoroçoante.

Bem sei que trinta anos em mais de dois mil de juristas, teólogos & al a explicar a nossa «imbecillitas sexus» não é grande coisa, mas como pensar e agir sem referência ao horizonte das nossas pp Vidas?!?

Aqui vai a Antígona, pintada por Lord Leighton, para variar da Cassandra, minha antiga obsessão.
(Não me lembro se Antígona chora quando enterra o irmão, mas é coisa p'ra isso)»

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por Augusta Clara às 14:53

Terça-feira, 27.06.17

Reflexão extemporânea entre dois copos - Adão Cruz

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Adão Cruz  Reflexão extemporânea entre dois copos

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(Adão Cruz)

 

   Todos aqueles que já me leram sabem que eu considero o vinho como a melhor droga estimuladora da criatividade, moderado, claro está. Meia de tintol, ou mesmo de branco fresco, nestes dias de verão, é uma bênção do céu, admitindo que existe Céu. Apesar de o Papa Francisco ter negado o inferno, não é provável que venha a negar o Céu, pois o Céu ainda rende avultadíssimos milhões de espiritualíssimos euros ao Vaticano.

Gostaria que nesta extemporânea reflexão coubesse tudo o que há de bom no mundo, mas infelizmente há muito mais de mau do que de bom, o suficiente para defender a extinção do ser humano, a espécie que, apesar de tão infinitesimal no Universo, mais tem envergonhado a natureza e mais tem dado cabo de tudo o que, naturalmente, poderia criar o equilíbrio e a harmonia.

O vinho, como disse, é uma espécie de fio-de-prumo que calibra o nosso pensamento. O pensamento é o resultado de triliões de neuro-transmissões, e não é grosseira metáfora dizer que o vinho é uma espécie de óleo que lubrifica todos os nossos canais neuronais. Quem quiser que acredite, quem não quiser que beba água. Sem pretender colidir com a ética e a estética da existência, o vinho permite chegar mais depressa à interface que eu considero como fronteira entre a condição antropológica e a condição universal do ser humano. Só aí, calmamente sentados em qualquer tosca pedra que tenha sobrevivido à mão humana, poderemos ver ao longe o infinito e poderemos sentir-nos capazes de reconhecer a merda que somos.

O ser humano é um cadinho de sentimentos e pouco mais. O sentimento, sobretudo o sentimento de si é a única expressão de vida, dentro da cadeia neurobiológica. E, dentro das incontáveis formas de sentimento, eu tenho algumas verdades minhas que até podem ser Verdade. Muitas vezes despertadas por um copo de maduro tinto. Sempre fui contra a académica e artificial dicotomia do sentimento, dado que este é um fenómeno permanente e indispensável ao mais pequeno gesto vital. Tenho muita dificuldade em dissecar os sentimentos, isto é, em definir as incomensuráveis formas e manifestações dos sentimentos, até porque antes dos sentimentos há as emoções que lhes dão origem, e antes das emoções há as imagens resultantes dos estímulos que as provocam e aos quais cada pessoa reage de forma muito diferente, conforme o seu padrão neural. Assim sendo, os sentimentos constituem um mundo tão vasto de diferenças que me parece podermos incorrer em algum grau de estultícia, ao pretendermos dissecá-los, dimensioná-los, fraccioná-los, escaloná-los, hierarquizá-los, atribuir-lhes uma cronologia e uma metodologia intrínsecas, fora do campo neurocientífico. E muito menos separá-los, por exemplo, dentro do cesto da mente, como se de fruta se tratasse.

Atrevo-me, contudo, a considerar como o maior e mais nobre sentimento humano, o da SOLIDARIEDADE. Um sentimento que pode nascer da alma do mais humilde, do mais inculto, do mais ignorante, e pode não existir na alma do mais rico, do mais intelectual e do mais sábio. Por outro lado, julgo que há um único contexto em que me parece legítimo atrevermo-nos a abordar parcialmente e de forma particular os sentimentos e com eles lidar como matéria, contexto esse que se situa apenas no campo científico, daí decorrendo, para quem não aceita qualquer dualismo corpo-espírito, a sua abordagem no seio do mundo poético, literário e musical, por exemplo. Mesmo assim, com a prudência de nos contentarmos apenas com a plumagem, as cores, a luz e o som que muitas vezes nem existem.

Vem isto a propósito da conversa que hoje tive ao almoço, acompanhada de um branco fresco, versando aquilo para que se sente atraído quem não fala de futebol e já está enjoado de política, a arte e a poesia. Sentimentos nobilíssimos, todavia muito mal tratados, muito mal sentidos, tentando expressar-se, tantas vezes, através de palavras e gestos de uma pretensiosa alma seca, sem o humilde, filantrópico e filosófico calor de um copo de vinho. Eu diria que a arte e a poesia, que eu considero os mais nobres sentimentos a seguir ao sentimento da Solidariedade, existem entre nós. Contudo, os seus agentes são, por vezes, os próprios predadores, aqueles que as destroem e matam, ao tentarem traduzi-las por palavras e gestos que não entendem, ao julgarem que as prendem em gaiolas. As palavras e os gestos são cintilações do infinito, “filhos do silêncio, que rompem como um novo ser rompe a sua mãe, não sem dor, não sem perda. Cada palavra, cada gesto é um desafio novo, um início, um indício de fim, uma ilusão de identidade, um cão de casota que corre até esticar a corda”.

À nossa saúde!

Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 13:00

Quarta-feira, 07.06.17

Porto... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Porto...

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(Adão Cruz)

 

      O meu pai nunca foi um historiador, mas colecciona pérolas que acrescentam história à História. Apanha-as na rua, em cada esquina escondida desta cidade que é dele, minha e de quem a leva dentro, desenhada na alma como o aparelho circulatório cujas veias e artérias ele, cardiologista de profissão, conhece de cor. Desde pequeno que me lembro de o ver chegar, entusiasmado, tirando uma nova preciosidade de debaixo da língua e dando-nos a ver o seu brilho, antes de a guardar no baú que, de vez em quando, se dispunha a abrir para amigos.

Eu próprio, com ele, testemunhei episódios memoráveis. Sem querer rapinar-lhe o espólio, lembrarei apenas dois ou três, como aquele em que, ao balcão do Galo Branco, antigo tasco no Largo Tito Fontes, um homem não escondia dos demais o seu profundo desânimo, desabafando para si mesmo: “Estou tão arrependido de ser pobre…”. Era comum a manha tripeira vir ao de cima em apoio da miséria, uma arte territorial de fazer sorrir as dores. O meu amor pela cidade cresceu assim, aprendeu a andar sobre essas pedras.

Outra ocasião, esperando o sinal verde para atravessar a rua, cada um de seu lado, o meu pai e um transeunte idoso foram surpreendidos por um casal de verbo destravado que trocava insultos à força toda. O sinal veio e, a meio da passadeira, na fracção de segundo em que os caminhos inversos de ambos se cruzaram, o velho fez questão de partilhar o seu choque com o meu pai: “Foda-se, que linguaige…”.

É evidente que a graça destas coisas não se escreve, vive-se. Fica lá. Oralmente pode até reproduzir-se, fá-lo quem sabe, e o meu pai é um deles, mas o princípio activo perde-se na tradução. A cadência arrastada, o calor alcoólico da voz, o fastio aparente, a artificiosa indiferença ante a própria piada e, claro, os esgares e outras características pessoais estão entre as matérias-primas indispensáveis a uma receita de fabrico necessariamente caseiro. E depois a desinibição com que os autores percorrem todos os assuntos, como se nenhuma ciência lhes escapasse. Lembro-me dum episódio que o meu pai presenciou na Avenida dos Aliados, entre dois amigos que punham a conversa em dia. Perguntava um deles: "Oubi dizer que o teu sogro tebe uma crise. O que é que se passou?". O outro, encolhendo os ombros, respondia: "Sei lá, ou o caralho, deu-le assim uma espece de ataque celebral e o gajo ficou a tocar flauta [boca de lado] e a botar açúcar nas farturas [mão a abanar]".

Tudo isto sai como água, cada tripeiro de gema é uma torneira de humor para lavar a alma de quem passa. Parece que não se envolvem em nada, podem estar a falar das coisas mais trágicas que não abandonam aquela distância irónica de onde se sentem confortáveis, o que até dá a entender que são insensíveis, quando na verdade o que procuram é a melhor forma de lidar com o sofrimento. Uma vez, na Rua José Falcão, a minha tia quis comprar castanhas. "Dois euros", pediu o vendedor depois de as embrulhar. "Dois euros por uma dúzia de castanhas?!", exclamou a minha tia. "E metade são puâdres", respondeu o homem. A vida é mesmo assim.

Num tempo em que as mais diversas idiossincrasias e peculiaridades culturais tendem a ser vistas como engelhos de um lençol global que deve estar impecavelmente engomado, far-me-ia feliz que este pequeno testemunho, apenas um relance sobre o tanto que a minha cidade esconde debaixo dos postais, fosse um aperitivo capaz de estimular os menos atentos à descoberta de um mundo que, por mais antigo, será sempre novo, assim lhe assista o talento para fintar a extinção.

Quando passo, hoje, na Rua Sampaio Bruno, não são certamente os meus sapatos que têm saudades dos engraxadores.

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por Augusta Clara às 18:12

Sexta-feira, 02.06.17

Às prostitutas, no seu Dia - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Às prostitutas, no seu Dia

 

   Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. E no mundo, como todos sabemos, não há complacência para a tortura das costas, humanas e geográficas. Das costas e dos corpos, da terra inteira, dos continentes, que vão sofrendo e respirando mais e menos consoante as levas de pó, os ventos da ganância e os mares do egoísmo, que se vão habituando a desejar o mal dos outros por já só conceberem o seu bem à escala dele, tão funda vai a cegueira neste olho suspenso do universo, neste olho que, apesar de tudo, ainda gira, ainda espera que o olhemos, não aceita que sejamos dois com ele, ele o planeta e nós o anel, dois olhos da mesma cara, duas órbitas que nem do estrabismo nem da ciência se podem valer, dois poemas impedidos pelo visível, pelo palpável, de pousarem um no outro, reconhecendo cada um ao seu espelho que o amor é tudo aquilo de que a carne os separa. A carne, a razão concreta, a mãe da luta, a filha da puta. É por ela que protagonizamos este espectáculo sangrento da história humana, é por ela que queremos sempre mais guerras, mais vitórias de menos vencedores, menos deveres para quem tem mais direitos. É pelo dinheiro que gastamos o tempo, é pelo fruto que cortamos a árvore, é pela imagem que esvaziamos a substância, é pelo poder que proibimos, é pelo luxo que escondemos o lixo, é para seguir em frente que não olhamos para trás, é pela filha da puta que matamos a mãe. É por nós que não nos queremos. Nós, os filhos da puta. O que é, afinal, uma puta, uma puta homologada, se não alguém que vende o seu corpo para ganhar a vida, que o faz às claras, sem dissimular, sem enganar, que dá o que tem e a muito mais é obrigada por uma sociedade de fundo falso, ingrata, sem raiz, que se serve a todos os níveis desse exemplo de coragem, que se limpa diariamente a essa fralda, que desmente a autenticidade desse seu reflexo e faz dele sombra, sombra perseguida? As putas são, na verdade, oráculos, e não falo do que têm entre as pernas, não, são espelhos da loucura humana, da esquizofrenia da espécie, nessa demonstração inequívoca que proporcionam sobre o valor da carne: se uma pessoa vende o cérebro ou a alma, e poucas são as que hoje não o fazem ou tentam fazer, é um homem de sociedade, um exemplo de responsabilidade social, um cidadão do futuro, um indivíduo credor de todo o respeito; já se vende o corpo, e não tem a sorte de ser exclusiva de um desses portadores de virtude, é uma forma de vida moralmente repulsiva, uma doença contagiosa, uma vergonha para a sociedade, um coração pulsante que não merece estatuto, reconhecimento de dignidade, igualdade de direitos, amor, compaixão, gratidão, nada. Nada que não sejam uns trocos, pénis erectos a entrar-lhes pelos buracos adentro, suores porcos a untar-lhes a pele, ruídos animais a comer-lhes os tímpanos, como se já não bastasse o resto, e quem sabe umas chapadas, uns insultos e todos os maus-tratos que, cobardemente, ficaram por dar aos devidos destinatários. Eu ponho o meu nome em qualquer lista que defenda a profissionalização das putas, que lute por lhes ser dada assistência social, por lhes serem concedidos cuidados médicos, por lhes ser reconhecida toda a coragem e a dignidade que se atribui sem qualquer engulho, e só para dar um exemplo, aos mineiros. As putas são mineiros e minas, escavam o seu lugar ao sol por entre a escuridão do preconceito e da hipocrisia e são, claro, também elas perfuradas, alarvemente perfuradas, quer no seu corpo quer na sua alma. São paredes vivas, histórias ocultas como tesouros escondidos, enterrados, literalmente enterrados, ou emparedados, árvores humanas, anjos da noite, mulheres, mães. E nós, queiramos ou não, somos filhos delas, filhos de todo o tipo de prostituição acumulada que fomos varrendo para debaixo do tapete, desde o princípio dos tempos. Se isto custa a engolir, imaginem o que elas passam.

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por Augusta Clara às 16:35

Segunda-feira, 29.05.17

Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio - Eva Cruz

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Eva Cruz  Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio

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(Gustav Klimt)

 

 

   Nasceu uma criança. Havia de crescer, fazer-se menino , jogar à bola, decorar o caminho da escola.

De combóio chegava ao destino, esse menino ainda sem rumo, crescendo nos olhos e no  sonho dos pais como futuro moldado  de amor e trabalho duro. 

Partiu um dia para mais longe, para mais perto do futuro. Chamaram-no as águas do Mondego, rio de lágrimas e fado, de trovas, baladas  e capas negras. Cidade do amor, da nostalgia e da saudade, de serenatas à luz da lua espreitando o mundo na estreiteza da rua.

Conheceu a força do amor e com ele encheu o peito da alegria e da dor que a vida impõe a quem ama. Nem tudo na vida são rosas, mas eram mimosas as palavras e as mãos entrelaçadas.

O sonho fez-se vida pela vida fora e deu vida  a outros sonhos  meninos que cresceram à medida do amor.

Hoje, na dor de um sonho perdido, apenas ficou inteiro o amor que deixaste comigo.

  

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por Augusta Clara às 16:03

Segunda-feira, 15.05.17

São de lágrimas os olhos das andorinhas - Eva Cruz

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Eva Cruz  São de lágrimas os olhos das andorinhas

 

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(Augusto Peixoto)

 

 

Acordo com a luz da Primavera

foram-se os cheiros e as cores

a alegria do verde e o azul do céu.

Uma brisa suave leva-me  onde amei

dentro de um sonho que perdeu o futuro.

Não me dou com o malvado do tempo

que nada corrige e a nada obedece.

Fico à espera da manhã azul

e o  tempo adormece.

Os pássaros enamorados

não sabem que o Outono cinzento volta.

Julgam-se donos do mundo.

Tenho vontade de lhes contar a verdade.

Que vivam na ilusão! A Primavera volta sempre, ou talvez não...

Acordo com a luz da Primavera, mas ela vem despida de

azul e são de lágrimas os olhos das andorinhas.  

 

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por Augusta Clara às 15:57

Quinta-feira, 11.05.17

Peregrina da saudade - Eva Cruz

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Eva Cruz  Peregrina da saudade

 

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(Tara Turner, "The same but different")

 

 

   A estrada é de maias amarelas. Solitário, o asfalto cinzento guia os olhos por detrás das lágrimas. Os montes caem em socalcos desdobrando a verdura sob o brilho do sol, coado por núvens brancas a delir-se. As maias são o tempo passado  que há-de voltar. O tempo, tal como o rio, não é de parar.

Os plátanos soltam as plumas e no rio de sombras e brumas  cai o sol a brilhar. Para tràs ficaram as maias amarelas e parte da vida com elas. O Maio há-de voltar de novo,  a florir, quer deseje cá estar, quer deseje  partir.

O rio, negro e fundo, corre manso e frágil sob as águas trémulas, cobertas de algodão branco, como manto de neve no calor da tarde.  Nem o  algodão branco, nem os pássaros vestidos de céu devolvem ao rio da vida  o brilho que a vida perdeu.

Peregrina da saudade, percorro os mesmos caminhos e atravesso as mesmas pontes, segurando-te a mão. Lá em baixo, o rio  reflecte o mesmo céu, mas as  aves nada me dizem, não sabem de ti.

Oiço apenas o eco dentro de mim, o eco da serenidade e da partilha , para o bem e para o mal, naquele cantinho enfeitado com o meu chá e o teu jornal.

Escrevo-te da varandinha do quarto para te dizer que  os plátanos estão enormes. São dois, entrelaçados, abraçando o céu. Como nós, se a noite não fosse vazia e a mão estendida não fosse apenas a coberta branca e macia. 

No banco, à beira do rio, o cantar das rãs rompe a saudade. Tenho tanta inveja do rio, sempre vivo, sem idade!

Peço às estrelas que escrevam no céu, ao lado  de Corconte, a lenda do Palácio cor-de-rosa, que no silêncio daquela tarde, reflectido nas águas do rio, retoma lentamente e  para sempre a cor da pedra.

 

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por Augusta Clara às 17:43

Domingo, 26.03.17

Anda no ar um cheiro triste - Adão Cruz

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Adão Cruz  Anda no ar um cheiro triste

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(Adão Cruz)

 

 

Fujo do rio vazio
e sento-me neste banco cinzento que já foi branco
quando havia borboletas brancas e muitas flores
e alegrias e pedaços de sol entre os braços da sombra.
Fujo deste banco escuro do cais do Ouro
onde os corvos marinhos secam as asas ao sol
e a tristeza invade as margens com a maré cheia.
Fujo do rio quando os barcos se enterram no lodo
e a luz é uma neblina densa que invade a alma pelos olhos dentro
e os corvos marinhos fazem voo rasante para outras paragens.
Fujo do rio e vou sentar-me noutras paisagens
neste banco cinzento que já foi branco e de outras cores
onde tudo o que chama por mim é silêncio
e o corpo me dói
e a alma se dissolve na água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho.
Sento-me na pedra fria deste banco que já foi branco
no tempo das flores e das borboletas brancas
em que não havia desertos ao fim da tarde.

Anda no ar um cheiro triste
e por isso deixei que a tarde me falasse
mas tudo o que chamava por mim era silêncio
e era silêncio o cantar da água que ia regar as cinzas
e as carnes moles de um corpo velho.
Não havia desertos entre a folhagem
neste banco pintado de branco
entre os pedaços de sol e os braços da sombra
mas os desertos aí estão
desertos de areias que são sementes de cabeças de criança
sim
as desse tal Herberto
caminhando ao longe
vagarosamente
sobre as areias do deserto.

Anda no ar um cheiro triste
e eu sento-me na margem húmida do rio num barco inventado
ali mesmo ao lado do minititanic
a sobrar de podre e a dobrar o tempo do amor de um velho
na loucura do sonho do cair da tarde
e a noite não tarda
salpicada de borboletas negras de voo pesado
e barcos enterrados no lodo.
Fujo do rio antes que chegue a maré cheia
e a tristeza baixe as asas dos corvos marinhos
e o sol não seja mais que uma densa neblina afogando o rio
e os corvos marinhos chamem por mim em desafio
e tudo o que chame por mim não passe de silêncio.

Anda no ar um cheiro triste
e eu fujo do rio que dá a ideia que vai secar
como os pedaços de sol e os braços da sombra
e vou sentar-me naquele banco cinzento que fora branco.
Fujo do rio e do cais do Ouro
mas o silêncio beliscado pelo fio de água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho
não passa do silêncio de tudo o que pode ser
o desesperado voo rasante dos corvos marinhos
sobre um rio negro deserto e frio que faz tremer.

 

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por Augusta Clara às 15:06

Quarta-feira, 22.02.17

CRÓNICA-DESABAFO - Adão Cruz

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Adão Cruz  CRÓNICA-DESABAFO

 

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(Adão Cruz)

 

   Depois de um dia de consultas desgastantes, passei  hoje [ontem] pelo hospital onde tenho alguém na Unidade de Cuidados Intermédios, em estado precário, todavia com sinais positivos de recuperação.

Esta melhoria legitimou a minha ida até à Ria de Ovar, a fim de comer qualquer coisa, neste caso concreto, meia dúzia de enguias fritas acompanhadas de dois copos. No fim, sob a abóbada de um crepúsculo quase sinfónico, daqueles que pintam de vermelho o horizonte do mar e dizem ao viajante:  “vermelho para o mar, pega no burrinho e põe-te a andar”, ou que dizem ao lavrador “pega nos bois e vai lavrar”, percorri a passo de caracol a berma da ria, ao som, nem de propósito, de “A Barcarola”, de Offenbach. Que maravilha de casamento entre o céu, a água, a música…e a nossa instabilidade emocional!

No fim desta encantadora peça musical que me encheu sempre a alma, desde remotos tempos em que, à beira-mar, eu procurava a calma e o equilíbrio dos meus momentos de desassossego, ouvi a entrevista de Luís Caetano a Luís Diamantino, um dos responsáveis pelas “Correntes de Escritas” da Póvoa de Varzim. Não digo que tenha ficado desiludido, mas também não me deixei iludir, pois não me iludo sempre que transformam eventos literários, poéticos e artísticos em espectáculos de folclore e feiras de fumeiro.

A criatividade, seja em que campo for, é sempre, sempre fruto de uma liberdade incondicional e não de uma fábrica de saberes. Além disso, a literatura, a poesia e a arte não são mercadorias a promover ou vender em feiras. É a cultura, política e socialmente considerada prioridade social, que deve trazer as pessoas ao encontro da literatura, da poesia e da arte, na descoberta de que a sua vida necessita delas como metabolito essencial, e não o contrário. Não sendo assim, tudo não passa de folclore.

Por exemplo, em vez desta espécie de feira, por que não tentar discutir a fundo e filosoficamente o que é a literatura, o que é a arte e o que é a poesia, que, praticamente, ninguém sabe o que são, a despeito de inúmeras definições, a maior parte verdadeiramente disparatadas e sem jeito nenhum. Além disso, uma boa parte da poesia que para aí se faz e consome, por exemplo, não passa de chachada, e, no entanto, anda por aí, lida, relida, declamada e pendurada em tudo quanto é esquina. Sejamos sérios. De uma vez por todas, para que possamos ter um fio de ligação, não há outra plataforma de entendimento que não seja assentarmos no conceito neurobiológico do sentimento como suporte de entendimento do sentimento artístico e do sentimento poético, iguaizinhos a quaisquer outros sentimentos. Não sendo assim, tudo o resto é fantasia e disparate.

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 11.01.17

A Falácia da República Portuguesa dos Sovietes - Augusta Clara

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Augusta Clara  A Falácia da República Portuguesa dos Sovietes 

 

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   Para terminar a conversa porque amanhã já estamos "noutra", convoquemos à cena aquela indómita fantasia que por aí fez caminho no chamado "Verão quente" de 1975. Fantasia, sim, só para quem dela se convenceu porque quem a congeminou sabia bem ao que vinha. Tinha ela como argumento a existência do perigo da instalação aqui no país duma república soviética do tipo da existente na então URSS.
Ora, partindo da improvável hipótese de que um cérebro de caracol - lembrem-se que Álvaro Cunhal era um homem de grande inteligência e, como ele, outro(a)s dirigentes político(a)s da esquerda da altura - conseguia pôr em prática esse projecto, a tal República Soviética do Portugal dos Pequeninos ficaria obrigada a passar a fazer a grande maioria das suas trocas comerciais com a URSS lá na outra ponta da Europa porque, pela certa, sofreria o maior boicote económico de todos os tempos por parte dos países da Europa Ocidental e Central bem como dos EUA.
A esquerda queria mais poder? Queria, sem dúvida, porque já era mais do que evidente a guerra que os sectores donos do dinheiro faziam a uma política que pretendia estender os benefícios e garantir uma vida digna a toda a população. Coisa que não lhes agradava porque, evidentemente, iriam perder privilégios. Porque se nacionalizaram os bancos? Porque os capitais começaram a fugir do país. Que pena não terem ficado nacionalizados, não andaríamos agora a pagar do nosso bolso os monumentais roubos do banqueiros ladrões.
Foi esse medo, a perda das vidas faustosas, custassem o que sempre tinham custado a tantos e tantos portugueses durante os 48 anos de fascismo salazarista que levou ao golpe da direita reaccionária em 25 de Novembro de 1975 e não uma guerra civil que ninguém tinha em mente nem temia. Esse era apenas um capítulo da fantasia propagada. Medo esse que já se tinha manifestado nos atentados do ELP e do MDLP tutelados pelo general Spínola. Lembram-se dos incêndios das sedes do PCP e da morte do padre Max e da jovem que o acompanhava?
E pronto, assim viemos parar ao que nos aconteceu nos últimos anos e que o Governo de António Costa, com o acordo que fez com os partidos de esquerda, tem tentado emendar.

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por Augusta Clara às 19:50



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