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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 20.11.17

Ouarzazate (Secreta ironia) - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ouarzazate (Secreta ironia)

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(Adão Cruz)

 

 

As franjas da memória abrem-se na manhã fria da solidão como torvelinho de água nas despojadas pedras do tempo.

Eis que nos damos conta de uma longa viagem a qualquer cidade para lá do horizonte, quando um mar de cal viva queima os sentimentos no estribo de um velho comboio sem princípio nem fim.

Eis que nos damos conta das lágrimas contidas por um mar de cinza que cobre a alegria de viver, quando se apaga o sol que brilha entre as mãos.

Eis que no crescer da angústia uma infinda tristeza afoga a razão, entranhando no sangue a sombra espessa da desilusão.

O coração tomba perdido na poeira da cidade, preso à orla do deserto de Ouarzazate como criança sem asas.

Na terra sem trilhos e sem regresso aos olhos onde se abre o sorriso de todas as manhãs, eis que nos damos conta de não fazermos parte do mundo.

E cai o sofrimento no profundo silêncio das noites sem nome, suspensas das estrelas.

E resta a saudade, ardendo em fogo lento como ramo seco da primeira folha verde.

 

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por Augusta Clara às 17:13

Domingo, 19.11.17

PIERRE BONNARD, A long time alone

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A long time alone  Pierre Bonnard

 

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por Augusta Clara às 17:16

Quinta-feira, 16.11.17

Adão Cruz, 2017

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 17:07

Quinta-feira, 16.11.17

Uma virgem de branco - Adão Cruz

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Adão Cruz  Uma virgem de branco

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(Adão Cruz)

 

Ela percorre a noite com a vida suja enfiada num saco, tentando vendê-la ao desbarato, enquanto a chuva pegajosa lambe as paredes negras sem lua, e os olhos caiem no chão dos curtíssimos horizontes de todas as incertezas.
No ar húmido paira um cheiro a palavras mortas e orações podres amontoadas numa lixeira, e o chão é um corpo inundado de terra enlameada de todas as virtudes.
Ela percorre a noite com a alma nua enfiada num saco, esperando que do espesso... nevoeiro irrompa uma virgem vestida de branco com uma pedra de sol em cada mão.
Mas a noite negra e sem lua apenas lhe promete a morte de estar viva, porque o sol é uma mentira tão grande como a verdade das pernas enroladas no medo e na fraqueza.
Ela percorre a noite por entre os buracos da ilusão, com a vida suja e a alma nua enfiadas num saco, tropeçando nas horas e nos absurdos do sentimento.
E as dores são gemidos mudos entre a cama fria e o vestido rasgado, e os braços repartidos numa esquálida vaga de fundo entre carnes a desfazer-se.
Ela percorre a noite remotamente mansa, escorrendo o corpo injusto e servil da chuva oleosa de um céu faminto de tempestade, e ninguém lhe compra a vida nem a alma.
No duro sono de um vão de escada, a morte vestida de virgem branca espera pacientemente entre a vida e a alma, a hora de ser a ponte para os restos de um sonho.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 15.11.17

Ao redor do vento - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do vento

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(Adão Cruz)

 

 

Não me encontraste mas eu sei que vieste ao meu encontro

porque pedalavas suavemente ao longo do rio

tão levemente que os teus olhos mo diziam e nem as gaivotas fugiam.

Outrora o sol nascia pachorrento a esta hora em que me davas um beijo de alento e eu corria rio fora em direcção ao vento.

Os veleiros rodavam em círculo inchando as velas brancas e amarelas

e também azuis como o poema.

Eu sei que vieste ao meu encontro mas não me viste

porque o sol de hoje nasce de forma alheia e os veleiros não dançam

porque deles é o vento e de ti também.

Eu sei que vieste ao meu encontro e tudo em redor mo leva a crer

mas os teus olhos perderam-me porque são de vento as horas de me ver.

 

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por Augusta Clara às 19:28

Segunda-feira, 13.11.17

Adão Cruz, 2017

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 15:23

Segunda-feira, 06.11.17

Adão Cruz, 2017

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 16:51

Segunda-feira, 30.10.17

MARIA FILOPOULOU, "Ancient pool, Lerapolis", 2009

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MARIA FILOPOULOU, "Ancient pool, Lerapolis", 2009

 

maria filopoulou, ancient pool, lerapolis, 2009a.j

 

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por Augusta Clara às 17:11

Segunda-feira, 30.10.17

Caros homens - Bruno Maia

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Bruno Maia  Caros homens

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(Bruno Maia é neurologista no Centro Hosptalar de Lisboa Central)

 

É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.

 

esquerda.net, 28 de Outubro de 2017

   É-nos muito difícil falar sobre emoções. Eu sei. Desde bebés que nos dizem que os homens não choram. Que todo e qualquer sentimento que não seja regozijo numa qualquer vitória ou domínio sobre outro ser humano, não é aceitável. Talvez não nos tenham dito explicitamente mas estava lá implícito, nos contos de crianças, na banda desenhada, nos videojogos, nas conversas de recreio, no campo de futebol. Afinal histeria e choradeira são só para meninas. E aprendemos inconscientemente que há deveres que não são nossos: quando a mãe nos dispensava de arrumarmos o quarto, quando a professora “tolerava” o nosso lixo porque “éramos rapazes”, quando a namorada da adolescência passou a escolher a roupa por nós, quando a casa que partilhamos com outros rapazes na faculdade tinha que estar imunda, ou não era uma casa de rapazes. Os mais velhos diziam com frequência que tinham a esperança de um dia encontrarmos uma rapariga com a cabeça no lugar para “tomar conta” de nós (dos tais deveres que aos rapazes não assistem).

Lembram-se dos primeiros dias de vida? Claro que não. Mas vários investigadores já demonstraram que o tom de voz com que os pais tratam os meninos recém-nascidos é muito diferente daquele com que se dirigem às meninas. E lembram-se daquele tio, ou amigo do pai, que se ria e divertia sempre que dizíamos asneiras? Ou que nos incentivavam, ainda com 3 anos, quando agarrávamos a menina lá no infantário para dar um “inocente” beijo, quer ela quisesse ou não?

Lembram-se de todas aquelas vezes em que, para nos insultarem, os outros rapazes diziam: “pareces uma menina”? E certamente lembram-se do que pensávamos todos de uma rapariga com muitos namorados… E um rapaz com muitas namoradas? Era o quê? Lembram-se?

Todos crescemos para sermos campeões. Bem-sucedidos. Décadas nisto tornaram o nosso inconsciente impermeável a “emoções frágeis” e o nosso ego imbatível. Convenceram-nos (consciente e inconscientemente) que nós “temos direito” a uma série de coisas. Os privilégios de sermos homens. De vivermos com regalias das quais nem temos noção no dia-a-dia que elas existem! Já participaram em reuniões certamente – do trabalho, políticas, qualquer coisa onde estejam homens e mulheres. Na próxima reparem no número de vezes que os homens falam por cima delas e ninguém se importa – afinal temos a voz mais grossa, impomos a nossa presença, enfim, somos homens! E sempre que uma mulher fala mais alto reparem naquela vossa voz interior que vos diz: “é uma histérica” – porque nem pensar aceitar que uma mulher pode simplesmente ter razão.

Por tudo isto é tão difícil que alguém venha pôr em causa estes nossos privilégios. Mexemos na cadeira, ficamos incomodados, espumamos de raiva, sentimo-nos frustrados. Mas não podemos chorar que isso não é de homem – temos de bater em alguém, insultar, provocar, assediar uma rapariga qualquer que esteja por ali a passar. Chorar e falar sobre as nossas emoções é que não. Gritar não dá porque é para “histéricas”. Que coisa mais efeminada.

Tudo isto poderia ser apenas um problema nosso – uma coisa que nós resolvêssemos com o tempo, com a mudança de mentalidades. Mas não é um problema só nosso por esta pequena mas importantíssima razão: os nossos privilégios existem à custa das mulheres!

Façam agora um pequeno exercício: invertam tudo o que está descrito acima para nós homens e ponham-se no lugar das mulheres! Já se colocaram? Pois, não chega! Porque para termos sequer um vislumbre do que é ser mulher nesta sociedade não bastam 2 minutos de pensamento solidário – é preciso viver como mulher todos os dias desde o momento em que nascemos. É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.

Para terminar deixo dois conselhos:

  1. Não falem por elas! Nós sabemos lá o que é ser assobiado na rua dia sim, dia não, ou ter o chefe constantemente a colocar a mãozinha no ombro. Se tantas mulheres se revoltam porque um juiz atenua uma agressão a uma mulher por adultério, não fiquem presos no vosso umbigo a pensar: “mas eu não quero ser traído, também me ia sentir revoltado…”; elas lidam com o problema da violência diariamente, sabem que podem ser agredidas ou até mortas por quem mais amam – nós nunca sentimos isto, não sabemos o que é!
  2. Têm filhos rapazes? Pois comecem a mudar o mundo – ensinem-nos a expressar as emoções, a chorar quando é preciso, a aceitar a vulnerabilidade como normal, caso contrário anos de repressão emocional costumam desabar em violência.

Ah e já me esquecia: feminismo quer dizer igualdade entre os géneros. Por isso, se não és feminista és um porco machista e estás na mira para ser aniquilado a curto prazo! Passem bem!

 

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por Augusta Clara às 16:08

Domingo, 29.10.17

Mais uma vez os velhinhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  Mais uma vez os velhinhos

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(Adão Cruz)

 

   Aqui há uns tempos atrás escrevi um texto intitulado “os velhinhos”, o qual transcrevo de seguida, a fim de dar sequência ao que hoje, sobre o mesmo tema, vos quero dizer. Desta forma, tento fazer um enxerto de encosto, ou melhor, um enxerto de garfo entre este texto e o que hoje vivi à hora do almoço.

“Há vários restaurantes clássicos e tradicionais no Porto, aos quais acorrem, sobretudo ao Domingo, as terceira e quarta idades. Como é óbvio, também por lá ando. Odeio a velhice mas nunca os velhinhos, um pouco na mesma linha de que odeio as religiões mas nunca os que as professam. Por vezes convido o meu filho Marcos, não só porque gosto de estar com ele, mas também como contrapeso. Empresta-me um certo arejo de mais novo, e permite-nos discorrer sobre filosofias da vida para as quais nos estaríamos marimbando se não fosse a garrafinha à nossa frente, às vezes duas.

Hoje fui sozinho a um desses restaurantes comer um cozidinho à portuguesa. Ia eu a meio da orelheira quando eles, os velhinhos, começaram a chegar. Bem alinhados nas roupas e nos arranjos, eles e elas, mais elas do que eles, numa derradeira tentativa de exumar alguns restos de juventude. Logo à cabeça, um antigo colega meu do Hospital de Santo António, que por acaso operara em tempos idos a minha irmã, e logo atrás a sua própria irmã, que fora minha colega de curso. Que ternura! Quem os viu e quem os vê! O suficiente para eu parar de roer a unha, do porco, claro, e abrir os arquivos neuronais de há trinta ou quarenta anos atrás. Quase me apetecia chorar se não fosse as couvinhas estarem-me a saber tão bem.

Logo a seguir, uma senhora de média idade, com ar de Senhora de Fátima, pedia uma mesa para seis. Podia ser aquela que estava mesmo à minha frente, disse o empregado. Logo entraram dois de terceira idade, mais um de quarta idade, e, um tanto atrasados, uma outra senhora de meia idade, também com ar de Nossa Senhora de outra coisa qualquer, amparando um velhinho a arrastar-se, de braços trémulos no ar, como que a dizer “Dominus Vobiscum”. Uma cena provavelmente comum no Reino dos Céus. Dizia um dos de terceira idade, carteira a tiracolo, calça pelo meio da perna e sapatilhas brancas da moda: então, o que escolhem? Ao que respondeu o outro, de quarta idade, a quem uma lufada de vento havia tombado definitivamente para o lado esquerdo: comida mole, comida mole.

Tomei o meu cafezinho e pedi a conta. Nesse preciso momento, sentou-se na mesa ao lado um sujeito dos seus oitenta e muitos, torcendo a face com aquele esgar esquisito que denuncia a puta da dor das artroses, todo vestido a condizer, certamente ao gosto da filha ou da neta e não da mulher, que Deus provavelmente já havia chamado à sua Divina Presença. No meio da confusão, o empregado colocou a minha factura na mesa do velho, ao que ele reagiu vociferando: Que caralho é isto? Eu ainda nem pedi nada!

É preciso vir a estes sítios para sentirmos a ternura da velhice. Odeio a velhice, mas cada vez mais me sinto pateticamente encantado com o mundo dos velhos, a sua profunda poesia e a dramática coreografia da antecâmara da morte”.

Hoje, dia 29 de Outubro, lá estava eu no meu lugarzinho no centro da primeira sala do “Caetano”, quando começam a entrar os velhinhos da terceira e quarta idades. Uma verdadeira enchente, quase parecia uma peregrinação. Não sei qual a causa de tal invasão, mas talvez o facto de a hora ter mudado lhes tenha feito sentir que tinham mais uma hora de vida. Um verdadeiro caos que pôs os empregados à nora, a servirem aos gritos e a trocarem peixe por carne e entradas por saídas. Nunca tal barafunda eu vi. Gostaria de descrevê-los a todos mas é impossível. Um deles, com muitos em cima dos oitenta, de calção e mochila às costas, presa apenas pela asa esquerda e que o fazia pender para esse lado, pendência que ele equilibrava com a bengala na mão esquerda, caminhava quase afoitamente em frente. Dizia o provável filho que o seguia atrás:

- Sempre em frente, cuidado com o degrau.

Respondia o velhinho:

- Sempre em frente, cuidado com o degrau.

Mas se não fosse, de imediato, o filho deitar-lhe a mão à alça da mochila bem que ele batia com o nariz no chão.

Logo de seguida, outro pai velhinho com um andarilho em cada mão.

Dizia-lhe o presumível filho:

- Cuidado com o degrau.

- Eu sei, respondeu o pai, mas se não fosse a rápida mão do filho a arrepanhar-lhe a gola do casaco, lá ia o almoço no dia em que a hora mudou.

Um outro velhinho, de braço dado com a filha ou nora, era delicadamente arrastado ao longo da sala. Ao passar junto à minha mesa que ficava mesmo em cima do trajecto, embateu com uma cadeira que estava um pouco desalinhada. Olhou-me com a ferocidade que a idade lhe permitia e atacou:

-Que grande merda.

Uns passos adiante, alguns neurónios lhe devem ter dito que não foi correcto. Voltou a cabeça na minha direcção, e com um esgar em forma de sorriso emendou:

- Desculpe.

Eu ia a meio do pernil, quando uma velhinha muito pequenina e curvada, a passar para a quinta idade, acompanhada pela filha - desta vez era mesmo filha porque as caras eram iguais - alta, quase velha e de mini-saia na fronteira do arrojo, me desejou bom apetite, com um sorriso do tamanho da filha que tinha uns saltos dos sapatos do tamanho da mãe.

Já eu tinha na frente o cafezinho, quando entram três irmãs, bem perto dos noventas, discutindo entre elas se o cozido teria orelheira e focinho. Se não tivesse iriam para o robalo. Sentaram-se atrás de mim e a conversa continuou, desta vez à volta do tintol. Um quarto, meia, ou uma?

Sabia-me bem estar ali mais algum tempo, mas a minha mesa que era de três estava a ser precisa.

Um após outro, uma após outra, entrelaçados de filhos, netos e artroses, os velhinhos entravam aos magotes, como eu nunca vi, em direcção ao sacrossanto altar das tripinhas e do cozido do “Caetano”. 

Eu sei lá, era tal a balbúrdia que os empregados perderam a postura e até me debitaram metade do que eu consumi. Não incluíram a segunda caneca de tinto nem o pão nem o bagaço, mas puseram na conta uma sopa que não comi. Costumo sempre corrigir as contas, mas desta vez, dada a confusão, calei-me. Ficou ela por ela.

 

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por Augusta Clara às 15:57



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