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Jardim das Delícias


Terça-feira, 04.07.17

Qu'é da Santa Bárbara?! - Eva Cruz

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Eva Cruz  Qu'é da Santa Bárbara?!

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(Camille Pissarro)

 

 

A conversa fluía, entrelaçada como as cerejas.

- Morreu Sicrano, Beltrano já se divorciou, ainda há dois dias cum casamento de arromba para dar em nada, este anda metido co aquela, aquela anda metida co este...

Por tristes razões, era difícil o pensamento concentrar-se, e tudo  soava a uma ladainha desafinada. Apenas quando foi interpelada, acordou do torpor mental.

- Você sabe o que aconteceu à Santa Bárbara?

A capela fora sempre o pequeno tesouro da aldeia. O sino só  repicava a baptizado e tinha um som tão fresco e alegre que sabia sempre a festa. Caiada de branco, com uma torre em bico a desenhar-se na serra negra, vestia-se de sol por dentro e por fora, de tão arejada que era. Granito e azulejos enriqueciam as paredes, e a madeira nobre entrelaçava-se no varandim do coro, do púlpito e na grade que separava o lugar das mulheres do lugar dos homens. Lindos altares, muito sóbrios, com belas imagens provavelmente valiosas, airosas, bem vestidas e bem talhadas. Tirando o Sr. dos Passos, vestido de roxo, coroado de espinhos, a sangrar por todos os lados, metendo medo a quem dele se abeirasse, todas as outras santas e santos tinham um ar de felicidade, apesar de estarem para ali especados, sempre de pé no seu recanto. Nunca mostravam caras de enfado ou cansaço, bem pelo contrário, tinham um rosto sorridente e sereno, caras de santidade.

- No fim da missa, o Sr. Prior acenou-me e fiquei aflita. O que é que ele me quererá?

Ela era a principal zeladora da capela e a mais responsável por tudo o que lá dentro se encontrava.

- Qu´é da Santa Bárbara? Você sabe onde está a Santa Bárbara?!

- Eu não, Sr. Prior, ainda na semana passada lhe limpei o pó.

Qual o seu espanto, quando olhou para o altar e viu o lugar da santa, vazio!

- Mas esteja descansado, Sr. Prior, que eu vou descobrir quem a levou. E andei, andei... fui a missas a outras capelas da freguesia, a capelas de outras instituições, e que Deus me perdoe, se não prestei atenção a nada. Os meus olhos e pensamento estavam unicamente concentrados na Santa Bárbara. E, sabe que a descobri! Vou-lhe dizer onde é que ela estava, mas é segredo. Na missa seguinte, esperei pelo Sr. Prior e disse-lhe: Já sei onde está a Santa Bárbara. Está em tal sítio.

O prior percebeu logo o que se passava. A Santa era muito valiosa. Fez muitos milagres mas não foi capaz de se livrar do rapto. Pobre santa! Foi resgatada e voltou para a capela, para o seu devido lugar.

Quando o ribombar do trovão faz tremer os céus, e o relâmpago fulmina a serra negra de lés-a-lés, lá continua a Santa Bárbara, na serenidade do altar, a fazer milagres, a desterrar a trovoada para monte maninho, onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira, nem bafinho de menino.

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por Augusta Clara às 16:31

Quarta-feira, 28.06.17

Sunrise - Ravi Shankar e Jean Pierre Rampal (Sitar and Flute)

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Ravi Shankar e Jean Pierre Rampal  Sunrise

 

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por Augusta Clara às 16:47

Segunda-feira, 26.06.17

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento - Eva Cruz

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Eva Cruz  Sento-me ali mesmo à beira do pensamento

 

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(A. Gadeh)

 

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

A água cansada e frouxa vai correndo devagar, ensopando com o tempo o fundo do rego feito lama ou cama onde crescem ervas e lírios que floriram em Abril.

As formosas flores partiram e ficaram as hastes saudosas. Vieram os lilases e as rosas. Uma a uma caindo, deixaram depenados os rancos esgalhados.

E as hidrângeas enchem-se de flores de todas as cores. Cobrem o campo e o pensamento que por tormento não deixa reter o momento.

O tempo não dá refrigério na contenda. "Ai que prazer não cumprir um dever!"

A natureza é livre de nascer, criar e morrer.

No calor intenso da batalha , floresce a vida em plenitude, e a quietude de um momento trai a liberdade e faz da vida um tormento.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Tudo o que nasce morre. Mais tarde, mais cedo, à frente, atrás, tanto faz.

Se morrer fosse renascer, tinha descanso o guerreiro.

E a batalha perdida nunca seria vencida.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Dou à liberdade todas as asas para voar. A natureza tem muito a ensinar.

Partir, ficar... são apenas pontos finais nas frases concluídas.

E nada mais.

Tudo faz sentido e nada também faz.

Só que a vida anda para a frente e nunca para trás.

 

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento.

E volto a ver os lírios, as rosas e os lilases.

Mas é tudo tão fugaz que o olhar não é capaz de reter a cor.

A cor do amor.

Nem por um momento.

Se morrer fosse viver, tudo havia de renascer ainda que em pensamento.

 

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por Augusta Clara às 17:26

Terça-feira, 06.06.17

Quem deu a mão a quem? - Eva Cruz

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Eva Cruz  Quem deu a mão a quem?

 

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(Fotografia de Adão Cruz)

 

   A tarde caía lenta sob um sol coado de nuvens brancas. Uma tarde de fins de Maio com  algum orvalho  temporão a anunciar o fim do dia.

Alguns pássaros voavam de copa em copa. Outros mergulhavam certeiros no ventre  da hera e dos arbustos. Tempo de ninhos e ovos a chocar vida nova, de tenros cachos nas videiras.

No convívio habitual do fim do dia,  na mesa do pátio junto ao tanque, os amigos de sempre saboreavam a merenda  improvisada. A conversa fluía à medida do cantar da água da mina que corria. Arrefecia.

Entre a ramada e a varanda nascera poesia. A delgada leveza de um rebento de glicínia da varanda enroscava-se no talo comprido de uma videira da ramada. Tudo isto sobre o vazio nu da largura do pátio, através do ar, no vazio do nada.

Tão distanciadas, sem mão humana de permeio, assim entrelaçadas,  quem terá dado a mão a quem? Como foi possível este abraço, este nó que nenhuma força desatou?

Artes mágicas da natureza!

Algum serafim ou querubim ali passara. Um duende, um gnomo, qualquer força de moderna mitologia, sabe-se lá. E o pensamento abriu as asas e em toda a liberdade voou.

Terá sido o vento?

O vento tem coração?

O vento tem asas de poesia e sentimento?

Sim. Talvez o vento. Só pode ter sido a força do vento ou apenas uma brisa leve que tenha levado àquela união impossível, de amor tão natural.

Na  sua complexa simplicidade, a natureza é misteriosamente sábia. É um poço sem fundo e no silêncio mais profundo, no silêncio do absoluto, ensina a pensar. Basta ver e escutar.

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por Augusta Clara às 17:17

Domingo, 23.04.17

Barcelona, a cidade dos livros - João de Melo

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João de Melo  Barcelona, a cidade dos livros

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(Salvador Dali, Livro-árvore)

 

       A 23 de Abril de cada ano, dia do livro e de Sant Jordi, patrono da Catalunha, todos os caminhos da festa e do sonho vão dar a Barcelona. Os livros saem à rua, levados pelos livreiros e pelos editores. Desfilam à proa de grandes medas, sobre bancas alinhadas e que se estendem ao longo do passeio público. Abrem-se bibliotecas, escolas e instituições de cultura às contínuas multidões de leitores que deslizam por ali ao som da música “callejera” e de vozes que cantam ou apregoam os indecifráveis comércios de tudo o que se compra e vende nos dias de Barcelona. Há uma espécie de bramido de mar e vento salgado na confusão desses rumores. Espreita-se o recital de poesia à porta das livrarias mais conhecidas, dá-se passagem a figuras alegóricas da literatura em desfile pelo passeio central da Rambla, assiste-se à aparição de personagens ressuscitadas das páginas dos livros e à encenação de episódios que toda a gente identifica ou intui a partir das suas próprias leituras. É sobretudo nas alegres Ramblas que se concentram as figuras de carne e osso dos livros, mas não só. Aí estão os poetas e os escritores a autografar as suas obras, a receber mãos e beijos agradecidos, a polir o ego tímido com sorrisos e elogios murmurados ao ouvido. Faz parte da tradição e da liturgia que as damas ofereçam livros aos cavalheiros, e que estes lhes retribuam com rosas. O certo é que se trata de uma das festas mais felizes do ano em Espanha (observada, aliás, em praticamente todas as suas cidades, mas com graus de incidência variáveis), porque vibra no ar e na carne de toda a gente algo como um orgulho pessoal acerca da literatura. Como se todos nela celebrassem a beleza do mundo, o princípio da vida, o género humano e o privilégio da língua e da palavra.

De resto, não creio que haja, em toda a Espanha, uma cidade mais poética e sobretudo mais literária do que Barcelona. A existência de uma literatura catalã parece, aliás, estar toda nela contida: essencialmente urbana, sócio-histórica, cada vez mais mundana e cosmopolita. Apesar de ser um dos grandes destinos turísticos do país, é sobretudo pelos roteiros culturais da cidade que se movem as contínuas multidões que a visitam, vindas de todos os continentes. Barcelona é de uma beleza tranquila, mediterrânica, cheia de vida nas longas noites estivais e de vozes que falam todos os idiomas do mundo. Cidade compacta, anfiteatro de labirintos, coração capital de uma Catalunha dono e senhora da sua glória histórica. O circuito da arquitectura de Gaudí (todo o mundo mágico de Gaudí, aliás) não deixa de sugerir uma atmosfera de irrealidade e de evanescência que nos aproxima tanto de um surrealismo exposto, à Dalí, como de um património integrado que faz dela um berço e um navio de sonhos.

Também a literatura pode mover-nos em torno de uma visão subjectiva, referencial, centrada ora no presente ora na intemporalidade de Barcelona. Os seus poetas são outrossim os seus cantores. Ouço-os nos meus próprios passos: as suas vozes batem o silêncio ao crepúsculo, atravessando comigo o Bairro Gótico. Se passeio ao fim da tarde pela orla marítima, no porto, ao longo do corpo salgado, grosso e cavo do Mediterrâneo catalão, vislumbro logo a figura de Dom Quixote de la Mancha a chegar ali, trazido pela mão de Miguel de Cervantes para conhecer o mar, num dos capítulos mais poéticos que ainda hoje se podem ler sobre uma cidade tão literária como esta. E quando desço ou subo as Ramblas, vendo milhões de pássaros de todas as cores dentro das gaiolas, floristas com mãos doces e olhos pálidos, músicos e artistas de rua nos seus números, é por dentro de outros livros que viajo: por exemplo, numa página de «A Cidade dos Prodígios», de Eduardo Mendoza; ou numa outra de «A Sombra do Vento», de Carlos Ruiz Zafón (onde Barcelona assume a poética misteriosa da vida que vem nos livros). Movo-me nas “Últimas Tardes com Teresa” e nos “Rabos de Lagartixa”, dois livros de Juan Marsé; e nas páginas de um romance simples, acerca de tudo, que se chama “Nada”, de Carmen Laforet. Movo-me também num dos magistrais «Doze Contos Peregrinos», de Gabriel García Márquez, dedicado a Barcelona, cuja geografia suburbana me anuncia o vento e os caminhos do grande feitiço, assim como a música das suas palavras. Mas existem páginas inesquecíveis nos livros cheios de bares e esplanadas de Terenci Moix, Enrique Vila-Matas, Manuel Vázquez Montalbán, Rosa Regàs e Pedro Zarraluki. Porém, quando vagueio ao acaso das ruas de Barcelona (ao acaso das vozes, dos odores, do peso rigoroso das coisas à tona dos meus cinco sentidos) - é aí, profundamente, totalmente, a cem por cento, que me sinto a bordo de um livro único: «A Praça do Diamante”, de Mercé Rodoreda. A escritora por antonomásia de Barcelona. Mercé está para a Catalunha como Flannery O’Connor para a América e Virginia Woolf para o Reino Unido. Quero dizer: o universo inteiro de qualquer literatura. Benditas sejam portanto as pessoas felizes que lêem e que vivem em Barcelona, a cidade dos sonhos e das palavras, cidade da vida que inspira a memória poética da literatura - e que, por sua vez, também a inspira e a explica! 

 

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por Augusta Clara às 14:16

Terça-feira, 06.12.16

A VOZ AO LONGE - Exposição de pintura de Adão Cruz, Museu de Ovar, Setembro de 2016

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   Vídeo da exposição de pintura de Adão Cruz "A Voz ao Longe", no Museu de Ovar, realizado e gentilmente oferecido pelo amigo Dr. Jorge Bacelar. Honrosa oferta, dado que o Dr. Jorge Bacelar é um fotógrafo de renome internacional e prémio mundial da UNESCO.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Domingo, 04.12.16

Un recuerdo... - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  Un recuerdo...

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   Hace más de veinte años que Daniel Mordzinski hizo click con su Leica y atrapó esta imagen. Nos costó mucho dar con esta cabaña en un rincón de la Patagonia, hicimos cientos y cientos de kilómetros en auto o caminando hasta que, gracias a la información de una protagonista de la historia patagona, pudimos llegar al lugar preciso.

La cabaña fue construída por Butch Cassidy, Sundance Kid y Etta Place, fugitivos de los caza recompensas norteamericanos y criollos.

La cabaña, en 1996 estaba habitada por un grupo familiar numeroso, don Aladino Sepúlveda y una caterva de hijos, hijas, yernos, nueras , nietos y nietas. Al aproximarnos, bastante emocionados por el hallazgo, abrió la puerta el viejo don Aladino y salió a nuestro encuentro. Fiel a las buenas costumbres gauchas estiró la mano derecha y dijo " Sepúlveda, mucho gusto". Daniel, mi socio de aventuras, me pegó un codazo y murmuró " no lo puedo creer, te conoce", y me apresuré a decirle que no, que presentarse con el apellido es la más antigua de las costumbres conservada por los gauchos del sur del mundo.
Tomamos unos mates con él. Su padre había conocido a "los bandidos", y nos pareció muy justo que la cabaña fuera el hogar del nonagenario don Aladino y su familia tejedora de sueños humildes.

En esa cabaña se pensaron y fraguaron varios asaltos a bancos, gran parte del botín conseguido se empleó para financiar revueltas de obreros laneros y revoluciones anarquistas aplastadas a sangre y fuego, pero que viven en el viento eterno de la Patagonia. 

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por Augusta Clara às 17:30

Domingo, 27.11.16

A violência na política e o politicamente correcto - António Ribeiro

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António Ribeiro  A violência na política e o politicamente correcto

 

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   A violência na Política é um tema recorrente e ganhou presença e intensidade nos Media e nas redes sociais com a morte de Fidel Castro. Não gostava de deixar passar o assunto em claro num momento destes, em que vejo tantos neo-pacifistas a verterem lágrimas sobre algumas vítimas de Castro, tendo eles mesmos branqueado com o seu silêncio as vítimas dos fascismos europeus, as vítimas das primaveras árabes, as vítimas da intervenção imperialista no Médio Oriente e na Líbia, as vítimas do apartheid na África do Sul, as vítimas dos algozes que destruíram as sociedades do Chile, da Argentina e do Brasil há não muitos anos. E nem recordo as nossas próprias vitimas do Tarrafal, de Pidjiguití, de Batepá, de Wiriamu, que são tão discretamente nossas e tão privativas... Onde andavam esses humanistas da 25ª hora quando as tragédias aconteciam e eles se refugiavam no "não sei o que se passou", no "deve ser exagero", ou no famigerado desabafo apaziguador do "a guerra é muito injusta"? Eu sei o que se passava e conto-vos. Desgraças e violências longe da nossa casa são pimenta e refresco no cu dos outros. A nossa cultura judaico-cristã é aliás exímia na segmentação da violência política, ou, melhor dizendo, da "violência na Política". Mas a violência sempre fez parte da Política e não começou propriamente no nosso tempo, com a dureza da ditadura castrista em Cuba, que aliás tinha boas razões para não poder ser muito mansa. Essa violência vem muito de trás. Das Cruzadas. Da Revolução Francesa. Do Colonialismo em África e nas Américas. Do esclavagismo, que é componente fundadora dos EUA modernos e parte integrante da desgraçada história da América Latina. Da revolução soviética e da chinesa. Da luta anti-imperialista. Do sofrimento dos palestinos. E da resistência legítima dos trabalhadores e sindicalistas, dos comunistas perseguidos, dos camponeses sem terra, das mulheres esmagadas pelo machismo, e das minorias LGBT. A violência é uma espécie de legitimação pragmática das soluções políticas de quem não pode ir a votos. Eu sou contra a violência na Política em Democracia, mas não sou contra toda a violência na Política em sistemas que ignoram os direitos mais básicos das pessoas e onde não existem válvulas de escape. Quando um agrário é abatido por um sem-terra nos confins da Rondônia brasileira, depois de ele mesmo ter morto muitos camponeses antes disso, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas compreendo. Quando Fidel mandou abater o general Ochoa, que andara por Angola a amassar fortunas e a conspirar, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas acho que só teve o único castigo possível. Mas não me venham agora, a propósito da morte natural de Fidel Castro, com essa conversa de mau-pagador, de quem se esqueceu de que a História avançou com sangue, suor e lágrimas e com muitas vítimas inocentes enterradas em valas comuns. Lembrem-se da Bósnia, lembrem-se de Aleppo, lembrem-se do que se passa agora nas Filipinas, lembrem-se disso tudo e mais do quem aí com Trump & amigos. E denunciem sempre os hipócritas do politicamente correcto e da memória curta. Sou Democrata, mas não sou parvo. A violência é uma coisa muito chata, mas às vezes faz muita falta. Sem ela, a História tinha parado há mil anos e não havia sequer Democracia nos dias de hoje. 

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por Augusta Clara às 14:35

Sábado, 26.11.16

FIDEL... - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  FIDEL...

(No dia da morte de Fidel Castro)

 

fidel castro.jpg

 

   La noticia llega con las primeras luces del día, tal vez con la misma intensa luminosidad del amanecer que vieron los tripulantes del "Gramma" en la costa de la isla antes de desembarcar y empezar la gesta que inauguró la dignidad latinoamericana.
En las pupilas de ese grupo de hombres y mujeres que tocaron la arena blanca de Cuba, iba también la luz de los caídos en el asalto al cuartel Moncada y, por eso, el brazalete con la leyenda"26 de Julio" era la gran identidad de aquellos que, como más tarde escribiría un argentino al que llamaban simplemente Che, daban el paso a la condición superior del insurgente, del rebelde, del militante, y se convertían en Guerrilleros.
La dignidad latinoamericana se inauguró de verde olivo y con olor a cordita, a pólvora, al sudor de las marchas selva adentro, a la fatiga combatiente que, lejos de cansar, entregaba más ánimo a la vocación justiciera de los guerrilleros, de los combatientes de Fidel, de "los barbudos" vestidos con retazos, armados de machetes zafreros y de las armas arrebatadas al enemigo en cada combate.
Los combatientes de Sierra Maestra, los guajiros, estudiantes y poetas, paso a paso, tiro a tiro, enseñaron a Latinoamérica que la estrella de Comandante Guerrillero era el distintivo del primero en el fragor de la lucha, del que combatía en primera fila, del que sembraba ejemplo y confianza en un destino superior.
Y mientras los guerrilleros del "26 de Julio" avanzaban por las sierras y las selvas, en todo el continente latinoamericano, desde el río Bravo hasta la Tierra del Fuego, los humildes alzaban sus banderas de harapos, "porque ahora la historia tendrá que contar con los pobres de América".
Hoy es un día de recogimiento revolucionario. Hoy es el día del dolor de aquellos que se atrevieron a dar el paso imprescindible, a romper con la existencia dócil y sumisa , y se unieron al camino sin retorno de la lucha revolucionaria.
¡Hasta la Victoria Siempre, Fidel! ¡Hasta la Victoria Siempre, Comandante Guerrillero!
 

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por Augusta Clara às 18:30

Quinta-feira, 24.11.16

No Dia Nacional da Cultura Científica, o mesmo em que, no ano de 1906, nasceu Rómulo de Carvalho

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ANTÓNIO GEDEÃO  Poema para Galileo

 

antónio gedeão.jpg

 

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício,
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della
Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Amo às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu;
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar — que disparate, Galileo!
— e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação —
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um
seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas
os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das
estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas — parece-me que estou
a vê-las—,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que
era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem, a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento,
livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Gálileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste
pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de
braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Gálileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens
ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estòicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

(in Poesia Completa (1956-1967), Portugália Editora)

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por Augusta Clara às 18:30



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