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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 07.06.17

Porto... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Porto...

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(Adão Cruz)

 

      O meu pai nunca foi um historiador, mas colecciona pérolas que acrescentam história à História. Apanha-as na rua, em cada esquina escondida desta cidade que é dele, minha e de quem a leva dentro, desenhada na alma como o aparelho circulatório cujas veias e artérias ele, cardiologista de profissão, conhece de cor. Desde pequeno que me lembro de o ver chegar, entusiasmado, tirando uma nova preciosidade de debaixo da língua e dando-nos a ver o seu brilho, antes de a guardar no baú que, de vez em quando, se dispunha a abrir para amigos.

Eu próprio, com ele, testemunhei episódios memoráveis. Sem querer rapinar-lhe o espólio, lembrarei apenas dois ou três, como aquele em que, ao balcão do Galo Branco, antigo tasco no Largo Tito Fontes, um homem não escondia dos demais o seu profundo desânimo, desabafando para si mesmo: “Estou tão arrependido de ser pobre…”. Era comum a manha tripeira vir ao de cima em apoio da miséria, uma arte territorial de fazer sorrir as dores. O meu amor pela cidade cresceu assim, aprendeu a andar sobre essas pedras.

Outra ocasião, esperando o sinal verde para atravessar a rua, cada um de seu lado, o meu pai e um transeunte idoso foram surpreendidos por um casal de verbo destravado que trocava insultos à força toda. O sinal veio e, a meio da passadeira, na fracção de segundo em que os caminhos inversos de ambos se cruzaram, o velho fez questão de partilhar o seu choque com o meu pai: “Foda-se, que linguaige…”.

É evidente que a graça destas coisas não se escreve, vive-se. Fica lá. Oralmente pode até reproduzir-se, fá-lo quem sabe, e o meu pai é um deles, mas o princípio activo perde-se na tradução. A cadência arrastada, o calor alcoólico da voz, o fastio aparente, a artificiosa indiferença ante a própria piada e, claro, os esgares e outras características pessoais estão entre as matérias-primas indispensáveis a uma receita de fabrico necessariamente caseiro. E depois a desinibição com que os autores percorrem todos os assuntos, como se nenhuma ciência lhes escapasse. Lembro-me dum episódio que o meu pai presenciou na Avenida dos Aliados, entre dois amigos que punham a conversa em dia. Perguntava um deles: "Oubi dizer que o teu sogro tebe uma crise. O que é que se passou?". O outro, encolhendo os ombros, respondia: "Sei lá, ou o caralho, deu-le assim uma espece de ataque celebral e o gajo ficou a tocar flauta [boca de lado] e a botar açúcar nas farturas [mão a abanar]".

Tudo isto sai como água, cada tripeiro de gema é uma torneira de humor para lavar a alma de quem passa. Parece que não se envolvem em nada, podem estar a falar das coisas mais trágicas que não abandonam aquela distância irónica de onde se sentem confortáveis, o que até dá a entender que são insensíveis, quando na verdade o que procuram é a melhor forma de lidar com o sofrimento. Uma vez, na Rua José Falcão, a minha tia quis comprar castanhas. "Dois euros", pediu o vendedor depois de as embrulhar. "Dois euros por uma dúzia de castanhas?!", exclamou a minha tia. "E metade são puâdres", respondeu o homem. A vida é mesmo assim.

Num tempo em que as mais diversas idiossincrasias e peculiaridades culturais tendem a ser vistas como engelhos de um lençol global que deve estar impecavelmente engomado, far-me-ia feliz que este pequeno testemunho, apenas um relance sobre o tanto que a minha cidade esconde debaixo dos postais, fosse um aperitivo capaz de estimular os menos atentos à descoberta de um mundo que, por mais antigo, será sempre novo, assim lhe assista o talento para fintar a extinção.

Quando passo, hoje, na Rua Sampaio Bruno, não são certamente os meus sapatos que têm saudades dos engraxadores.

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por Augusta Clara às 18:12

Terça-feira, 06.06.17

Quem deu a mão a quem? - Eva Cruz

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Eva Cruz  Quem deu a mão a quem?

 

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(Fotografia de Adão Cruz)

 

   A tarde caía lenta sob um sol coado de nuvens brancas. Uma tarde de fins de Maio com  algum orvalho  temporão a anunciar o fim do dia.

Alguns pássaros voavam de copa em copa. Outros mergulhavam certeiros no ventre  da hera e dos arbustos. Tempo de ninhos e ovos a chocar vida nova, de tenros cachos nas videiras.

No convívio habitual do fim do dia,  na mesa do pátio junto ao tanque, os amigos de sempre saboreavam a merenda  improvisada. A conversa fluía à medida do cantar da água da mina que corria. Arrefecia.

Entre a ramada e a varanda nascera poesia. A delgada leveza de um rebento de glicínia da varanda enroscava-se no talo comprido de uma videira da ramada. Tudo isto sobre o vazio nu da largura do pátio, através do ar, no vazio do nada.

Tão distanciadas, sem mão humana de permeio, assim entrelaçadas,  quem terá dado a mão a quem? Como foi possível este abraço, este nó que nenhuma força desatou?

Artes mágicas da natureza!

Algum serafim ou querubim ali passara. Um duende, um gnomo, qualquer força de moderna mitologia, sabe-se lá. E o pensamento abriu as asas e em toda a liberdade voou.

Terá sido o vento?

O vento tem coração?

O vento tem asas de poesia e sentimento?

Sim. Talvez o vento. Só pode ter sido a força do vento ou apenas uma brisa leve que tenha levado àquela união impossível, de amor tão natural.

Na  sua complexa simplicidade, a natureza é misteriosamente sábia. É um poço sem fundo e no silêncio mais profundo, no silêncio do absoluto, ensina a pensar. Basta ver e escutar.

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por Augusta Clara às 17:17

Sexta-feira, 02.06.17

Às prostitutas, no seu Dia - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Às prostitutas, no seu Dia

 

   Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. E no mundo, como todos sabemos, não há complacência para a tortura das costas, humanas e geográficas. Das costas e dos corpos, da terra inteira, dos continentes, que vão sofrendo e respirando mais e menos consoante as levas de pó, os ventos da ganância e os mares do egoísmo, que se vão habituando a desejar o mal dos outros por já só conceberem o seu bem à escala dele, tão funda vai a cegueira neste olho suspenso do universo, neste olho que, apesar de tudo, ainda gira, ainda espera que o olhemos, não aceita que sejamos dois com ele, ele o planeta e nós o anel, dois olhos da mesma cara, duas órbitas que nem do estrabismo nem da ciência se podem valer, dois poemas impedidos pelo visível, pelo palpável, de pousarem um no outro, reconhecendo cada um ao seu espelho que o amor é tudo aquilo de que a carne os separa. A carne, a razão concreta, a mãe da luta, a filha da puta. É por ela que protagonizamos este espectáculo sangrento da história humana, é por ela que queremos sempre mais guerras, mais vitórias de menos vencedores, menos deveres para quem tem mais direitos. É pelo dinheiro que gastamos o tempo, é pelo fruto que cortamos a árvore, é pela imagem que esvaziamos a substância, é pelo poder que proibimos, é pelo luxo que escondemos o lixo, é para seguir em frente que não olhamos para trás, é pela filha da puta que matamos a mãe. É por nós que não nos queremos. Nós, os filhos da puta. O que é, afinal, uma puta, uma puta homologada, se não alguém que vende o seu corpo para ganhar a vida, que o faz às claras, sem dissimular, sem enganar, que dá o que tem e a muito mais é obrigada por uma sociedade de fundo falso, ingrata, sem raiz, que se serve a todos os níveis desse exemplo de coragem, que se limpa diariamente a essa fralda, que desmente a autenticidade desse seu reflexo e faz dele sombra, sombra perseguida? As putas são, na verdade, oráculos, e não falo do que têm entre as pernas, não, são espelhos da loucura humana, da esquizofrenia da espécie, nessa demonstração inequívoca que proporcionam sobre o valor da carne: se uma pessoa vende o cérebro ou a alma, e poucas são as que hoje não o fazem ou tentam fazer, é um homem de sociedade, um exemplo de responsabilidade social, um cidadão do futuro, um indivíduo credor de todo o respeito; já se vende o corpo, e não tem a sorte de ser exclusiva de um desses portadores de virtude, é uma forma de vida moralmente repulsiva, uma doença contagiosa, uma vergonha para a sociedade, um coração pulsante que não merece estatuto, reconhecimento de dignidade, igualdade de direitos, amor, compaixão, gratidão, nada. Nada que não sejam uns trocos, pénis erectos a entrar-lhes pelos buracos adentro, suores porcos a untar-lhes a pele, ruídos animais a comer-lhes os tímpanos, como se já não bastasse o resto, e quem sabe umas chapadas, uns insultos e todos os maus-tratos que, cobardemente, ficaram por dar aos devidos destinatários. Eu ponho o meu nome em qualquer lista que defenda a profissionalização das putas, que lute por lhes ser dada assistência social, por lhes serem concedidos cuidados médicos, por lhes ser reconhecida toda a coragem e a dignidade que se atribui sem qualquer engulho, e só para dar um exemplo, aos mineiros. As putas são mineiros e minas, escavam o seu lugar ao sol por entre a escuridão do preconceito e da hipocrisia e são, claro, também elas perfuradas, alarvemente perfuradas, quer no seu corpo quer na sua alma. São paredes vivas, histórias ocultas como tesouros escondidos, enterrados, literalmente enterrados, ou emparedados, árvores humanas, anjos da noite, mulheres, mães. E nós, queiramos ou não, somos filhos delas, filhos de todo o tipo de prostituição acumulada que fomos varrendo para debaixo do tapete, desde o princípio dos tempos. Se isto custa a engolir, imaginem o que elas passam.

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por Augusta Clara às 16:35

Segunda-feira, 29.05.17

Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio - Eva Cruz

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Eva Cruz  Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio

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(Gustav Klimt)

 

 

   Nasceu uma criança. Havia de crescer, fazer-se menino , jogar à bola, decorar o caminho da escola.

De combóio chegava ao destino, esse menino ainda sem rumo, crescendo nos olhos e no  sonho dos pais como futuro moldado  de amor e trabalho duro. 

Partiu um dia para mais longe, para mais perto do futuro. Chamaram-no as águas do Mondego, rio de lágrimas e fado, de trovas, baladas  e capas negras. Cidade do amor, da nostalgia e da saudade, de serenatas à luz da lua espreitando o mundo na estreiteza da rua.

Conheceu a força do amor e com ele encheu o peito da alegria e da dor que a vida impõe a quem ama. Nem tudo na vida são rosas, mas eram mimosas as palavras e as mãos entrelaçadas.

O sonho fez-se vida pela vida fora e deu vida  a outros sonhos  meninos que cresceram à medida do amor.

Hoje, na dor de um sonho perdido, apenas ficou inteiro o amor que deixaste comigo.

  

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por Augusta Clara às 16:03

Quinta-feira, 11.05.17

Peregrina da saudade - Eva Cruz

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Eva Cruz  Peregrina da saudade

 

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(Tara Turner, "The same but different")

 

 

   A estrada é de maias amarelas. Solitário, o asfalto cinzento guia os olhos por detrás das lágrimas. Os montes caem em socalcos desdobrando a verdura sob o brilho do sol, coado por núvens brancas a delir-se. As maias são o tempo passado  que há-de voltar. O tempo, tal como o rio, não é de parar.

Os plátanos soltam as plumas e no rio de sombras e brumas  cai o sol a brilhar. Para tràs ficaram as maias amarelas e parte da vida com elas. O Maio há-de voltar de novo,  a florir, quer deseje cá estar, quer deseje  partir.

O rio, negro e fundo, corre manso e frágil sob as águas trémulas, cobertas de algodão branco, como manto de neve no calor da tarde.  Nem o  algodão branco, nem os pássaros vestidos de céu devolvem ao rio da vida  o brilho que a vida perdeu.

Peregrina da saudade, percorro os mesmos caminhos e atravesso as mesmas pontes, segurando-te a mão. Lá em baixo, o rio  reflecte o mesmo céu, mas as  aves nada me dizem, não sabem de ti.

Oiço apenas o eco dentro de mim, o eco da serenidade e da partilha , para o bem e para o mal, naquele cantinho enfeitado com o meu chá e o teu jornal.

Escrevo-te da varandinha do quarto para te dizer que  os plátanos estão enormes. São dois, entrelaçados, abraçando o céu. Como nós, se a noite não fosse vazia e a mão estendida não fosse apenas a coberta branca e macia. 

No banco, à beira do rio, o cantar das rãs rompe a saudade. Tenho tanta inveja do rio, sempre vivo, sem idade!

Peço às estrelas que escrevam no céu, ao lado  de Corconte, a lenda do Palácio cor-de-rosa, que no silêncio daquela tarde, reflectido nas águas do rio, retoma lentamente e  para sempre a cor da pedra.

 

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por Augusta Clara às 17:43

Quarta-feira, 22.02.17

CRÓNICA-DESABAFO - Adão Cruz

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Adão Cruz  CRÓNICA-DESABAFO

 

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(Adão Cruz)

 

   Depois de um dia de consultas desgastantes, passei  hoje [ontem] pelo hospital onde tenho alguém na Unidade de Cuidados Intermédios, em estado precário, todavia com sinais positivos de recuperação.

Esta melhoria legitimou a minha ida até à Ria de Ovar, a fim de comer qualquer coisa, neste caso concreto, meia dúzia de enguias fritas acompanhadas de dois copos. No fim, sob a abóbada de um crepúsculo quase sinfónico, daqueles que pintam de vermelho o horizonte do mar e dizem ao viajante:  “vermelho para o mar, pega no burrinho e põe-te a andar”, ou que dizem ao lavrador “pega nos bois e vai lavrar”, percorri a passo de caracol a berma da ria, ao som, nem de propósito, de “A Barcarola”, de Offenbach. Que maravilha de casamento entre o céu, a água, a música…e a nossa instabilidade emocional!

No fim desta encantadora peça musical que me encheu sempre a alma, desde remotos tempos em que, à beira-mar, eu procurava a calma e o equilíbrio dos meus momentos de desassossego, ouvi a entrevista de Luís Caetano a Luís Diamantino, um dos responsáveis pelas “Correntes de Escritas” da Póvoa de Varzim. Não digo que tenha ficado desiludido, mas também não me deixei iludir, pois não me iludo sempre que transformam eventos literários, poéticos e artísticos em espectáculos de folclore e feiras de fumeiro.

A criatividade, seja em que campo for, é sempre, sempre fruto de uma liberdade incondicional e não de uma fábrica de saberes. Além disso, a literatura, a poesia e a arte não são mercadorias a promover ou vender em feiras. É a cultura, política e socialmente considerada prioridade social, que deve trazer as pessoas ao encontro da literatura, da poesia e da arte, na descoberta de que a sua vida necessita delas como metabolito essencial, e não o contrário. Não sendo assim, tudo não passa de folclore.

Por exemplo, em vez desta espécie de feira, por que não tentar discutir a fundo e filosoficamente o que é a literatura, o que é a arte e o que é a poesia, que, praticamente, ninguém sabe o que são, a despeito de inúmeras definições, a maior parte verdadeiramente disparatadas e sem jeito nenhum. Além disso, uma boa parte da poesia que para aí se faz e consome, por exemplo, não passa de chachada, e, no entanto, anda por aí, lida, relida, declamada e pendurada em tudo quanto é esquina. Sejamos sérios. De uma vez por todas, para que possamos ter um fio de ligação, não há outra plataforma de entendimento que não seja assentarmos no conceito neurobiológico do sentimento como suporte de entendimento do sentimento artístico e do sentimento poético, iguaizinhos a quaisquer outros sentimentos. Não sendo assim, tudo o resto é fantasia e disparate.

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 06.02.17

Crónica, um tanto extemporânea, que eu dedico à minha amiga Augusta Clara e ao meu amigo José Carlos da "Taberna do Doutor", que fazem anos hoje - Adão Cruz

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(imagem de Adão Cruz)

 

1º - A semana passada, dirigia-me eu à Corunha a fim de almoçar com uns amigos, quando, perto da saída para Ponte de Lima, tive um furo, originado por um maldito parafuso que por ali ficou à espera de outra vítima, segundo me disse o remendador de pneus. Tive a sorte de, naquele preciso momento, passar ali uma carrinha da Brisa, cujo condutor, dada a minha provecta idade, gentilmente se prontificou a mudar o pneu. Claro que, sendo sábado, desisti de continuar a longa viagem, com um pneu raquítico como aqueles que agora se usam como substitutos, embora já tivesse tido a experiência de andar com um pneu desses desde Villefranche de Conflent, sul da França, até Portugal.

Resolvi ir comer um pernil assado na “A Carvalheira”, e, no fim do repasto, dirigi-me a Vigo, onde assentei arraiais no velho, modesto e conhecido Hotel La Junquera, desde os tempos em que ainda não havia a “parte nova”. Como em outras ocasiões, fui à //Afundación, ver o que havia por lá, em termos de exposições. Nesse mesmo local onde o meu grande amigo Pastor Outeiral, uns anos antes de morrer, fez uma das suas últimas exposições. Entre “Da Xeración doente aos Renovadores”, “Pegadas da Abstracción a nova Figuracción”, “Identidade Individual, Vontade Global”, dei com obras de pintores que tiveram muito a ver comigo. Desde já, Tino Grandio que morreu em 1977 com um cancro da bexiga, cuja obra descobri há muitos anos em Pontevedra. Xaime Quesada, que ainda conheci pessoalmente em vida, em Ourense. Caruncho que morreu o ano passado, e com quem, um dia, jantei na Corunha.

Fui jantar ao meu querido café “Luces de Boémia”, onde tenho amigos, e que eu conheço desde os tempos em que ia a Vigo comprar películas para o meu primitivo ecocardiógrafo, o único ecocardiógrafo bidimensional existente no país, nessa altura. Aí me mantive até às primeiras horas da madrugada, ouvindo música ao vivo, dos anos 60-80-90. Depois de uns copos bem bebidos, indutores de um belíssimo sono, lá fui para o hotel “la Junquera”.

Levantei-me a meio da manhã e percorri calmamente, dentro da neblina e de uma chuva miudinha, todo aquele rabinho de costa entre Vigo e a Guarda (La Guardia), que por mais conhecido que seja nunca cansa. Almocei no “Muralhas de caminha”, do meu velho amigo Tiago, e rumei ao Porto.

2º À noite jantei num tasco. Na mesa frente à minha sentou-se uma moça nova, engraçada, mulher dos seus trinta e tais, com um homem bastante mais velho, com ar de sem-abrigo. Entre ambos abundavam os sorrisos e gestos de uma felicidade fora do comum. Eram, na verdade, pai e filha, segundo me segredaram. Ela, empregada muito precária, ele, com efeito, sem-abrigo.  Ali vinham por vezes jantar. Desta vez uma suculenta picanha intercalada de sorrisos, salivações e lacrimosos olhares de felicidade. Dei comigo a entranhar bem dentro das entranhas o que é a vida e o que ela tem de absurdo, de relativo, de descarnado, de verdadeiro e de falso. Comparei, sem esforço, esta cena de plena felicidade, com as trombas (ainda que giras) transmitidas momentos antes, da execrável exploradora da miséria angolana, Isabel dos Santos, ao ver-se aprisionada durante meia hora num autocarro junto ao aeroporto de Lisboa.

                                                                                                       Adão Cruz

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por Augusta Clara às 16:20

Sábado, 07.01.17

EM PORTUGAL OS ÁRBITROS DE FUTEBOL VALEM MAIS DO QUE AS MULHERES - Augusta Clara

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Augusta Clara  EM PORTUGAL OS ÁRBITROS DE FUTEBOL VALEM MAIS DO QUE AS MULHERES 

 

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   Num país onde a ameaça a um árbitro de futebol desencadeia de imediato uma protecção reforçada das forças de segurança a todos os outros e suas famílias enquanto que as queixas de mulheres por violência doméstica levam tanto tempo e tanta burocracia a serem apreciadas que os casos de morte já fazem história, NÃO HÁ MACHISMO?

E o silêncio que sobre isto se faz por parte de um e do outro sexo chama-se como?

É forçoso que hoje deixe aqui um elogio à acção da Polícia Judiciária que ontem, em Grândola, salvou da morte uma mulher.

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por Augusta Clara às 18:15

Sexta-feira, 06.01.17

Dia de Reis - Eva Cruz

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Eva Cruz  Dia de Reis

 

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(Monica Mora e Robin Ryan) 

 

Nasci a 6 de Janeiro.
Minha mãe dizia-me:
— Es rainha. Mas o mais importante é seres rainha nas virtudes.
Não fazia a mínima ideia do que seriam virtudes, e ainda hoje não sou capaz de medir o alcance das suas palavras.
O Dia de Reis era um dia especial.
Começava logo pela véspera, a primeira consoada do ano. Já noite dentro, lá vinha a toada dos Reis, as Janeiras, tocadas e cantadas por músicos da banda que nas festas se exibiam no coreto.
Muito distante no tempo, recordo apenas o som vivo do clarinete que cortava o silêncio sagrado da noite.
Um quarteto de homens vestidos de preto surgia na faixa de luz quando a porta se abria, ofuscados pelo reflexo metálico dos instrumentos.
O Dia de Reis era Dia Santo e as férias do Natal duravam até lá.
Sempre se festejaram os meus anos com amiguinhos da escola, cacau ou banacau, pão com manteiga e doce sortido.
Na mesa havia camélias brancas, as flores preferidas da minha mãe.
Brincadeira até à noitinha, a saltar à corda, jogar à cabra-cega, à patela, à roda ou a correr pelos campos.
As escondidas, lá íamos mirar o poço velho, de onde se tirava água com um sarilho. Era um dos maiores perigos do lugar.
O poço não tinha vedação e nós espreitávamos à volta. Lá em baixo, as nossas cabecitas reflectiam-se nas águas paradas, e no ventre da fantasia e do mistério, via sobre a minha cabeça uma coroa de rainha. Um poço de virtudes, soubesse eu o que eram virtudes!
Fui também rainha dos campos, com coroas de pampilos amarelos tecidas pela inocência da infância. Rainha dos montes com grinaldas de perfume das giestas e eucaliptos. Rainha do rio, com coroas de juncos ou bailando nas cheias que cobriam os lameiros, arrastando tudo em séquito majestoso.
Quando colhi as últimas camélias para a minha mãe, no Dia de Reis, tinha ela cem anos. Com a frescura e a brancura de Janeiro, poisei-lhe um ramo, ao de leve, no regaço.
— São as suas flores predilectas.
— São lindas.
— Faz hoje anos que teve uma menina, estavam a tocar as três para a missa. Lembra-se?
O seu rosto vestiu-se de uma expressão serena, perdida no tempo.
— Talvez.
— Teve uma rainha, não foi?
Revelou alguma surpresa, no ingénuo sorriso da candura da idade.
— Estou agora a sabê-lo!
Todos os Dias de Reis me apetece colher camélias brancas, mas as que mais gostaria de colher ficaram para sempre no seu regaço.
 

(in Cenas do Paraíso, ediçõesengenho)

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 23.12.16

A verdade (Ou a vinda de Francisco a Fátima) - Adão Cruz

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Adão Cruz  A verdade (Ou a vinda de Francisco a Fátima)

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   Qualquer um de nós que mantenha respeito por si próprio manifesta uma saudável vontade e necessidade de tentar aproximar-se o mais possível da verdade, esteja ela onde estiver. Só a verdade vos tornará livres, disse Cristo.

A mentira é a ofensa mais directa contra a verdade, diz a Igreja Católica, a despeito das fundamentais e colossais mentiras em que assenta.

É frequente ouvirmos comentários a dizer para deixarmos a Igreja em paz, e, se não lhe pertencemos, em nada temos que a criticar. Quem assim fala, obviamente que não reflecte, nem evidencia honestidade de pensamento.

A Igreja é um fenómeno social, um dos fenómenos sociais mais entranhados e mais influentes da nossa sociedade. Se é bom ou mau, pertence a cada de nós sabê-lo, e é obrigação de cada um sabê-lo. O que é certo é que todos nós, crentes, agnósticos, ateus, pessoas de outras religiões, temos o direito, o dever e a obrigação de nos debruçarmos, da forma como entendermos, sobre um fenómeno que nos afecta tão profundamente e que tão dramaticamente interfere nas nossas vidas.

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Todas as nossas vidas, desde o nascimento, estão, com efeito, profundamente influenciadas pelo cristianismo católico. Toda a nossa história, os nossos próprios nomes, os actos sociais, as festas, os nomes das instituições de saúde e educação, e não só os nomes mas toda a cultura que nelas se difunde, a visão do mundo e da ciência, a visão política, económica e financeira, nacional e internacional, as intervenções em todos os quadrantes, nomeadamente as intervenções bélicas estão embebidos pelo que de santo ou diabólico existe na religião e na Igreja.

Tudo o que atrás referi tem como finalidade chamar a atenção para o que nem tudo o que luz é ouro. Chamar a atenção para a necessidade de não nos deixarmos guiar apenas pelos costumes, pelas tradições e por tudo o que nos impingem. Chamar a atenção para a imperiosa necessidade de pensar e de ler, leituras sérias, fundadas e documentadas, que consigam pôr-nos a pensar pela nossa cabeça e não pela cabeça da igreja e dos poderes de que ela dispõe. Lembremo-nos que nada há de mais sagrado do que a nossa razão e a nossa mente. Passarmos por cima delas é o pior de todos os suicídios.

A sorte que actualmente temos de poder dispor, a nível mundial, de uma profusa literatura honesta e credível não pode ser desprezada.

“Mentiras Fundamentais da Igreja Católica”, por exemplo, de Pepe Rodriguez, é um fantástico livro, a não perder por quem sente, como disse atrás, a necessidade da verdade como metabolito essencial da sua existência.

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Pepe Rodriguez é licenciado em ciências da informação, é um destacado jornalista de investigação, um especialista em seitas e religiões comparadas. O livro é de uma seriedade, honestidade e transparência que não deixam dúvidas a qualquer leitor bem intencionado. Pressente-se que o trabalho de investigação que lhe deu origem foi extremamente sério e ciclópico. Basta o astronómico número de referências bibliográficas, e o apoio e colaboração de destacadas figuras da cultura como Victoria Camps, catedrática de ética, Enrique Magdalene conhecido teólogo católico, Maria Martinez Vendrell, psicóloga e Joaquin Navarro Esteban, magistrado da Audiência Provincial de Madrid.

Mas há muitos mais livros francamente aconselháveis, repito, a quem não pode viver acomodado com a pulhice e a mentira, livros que, por certo, mudarão a mentalidade de quem os ler com vontade e intuito de procurar a verdade, dentro do respeito que cada um nutre por si mesmo.

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Refiro apenas alguns do que tenho lido ultimamente:

- “Em nome de Deus” de David Yallop. Sobre o assassinato de João Paulo I pelo Vaticano, sobre o trabalho sujo da Igreja, nomeadamente os escândalos financeiros e a cobertura na fuga secreta dos grandes criminosos nazis bem como a sua colocação em esconderijos na América Latina.

- “A Desilusão de Deus” de Richard Dawkins. Sobre o problema Deus.

- “A Santa Aliança” de Eric Frattini. Sobre toda a ligação criminosa do Vaticano à mafia, loja maçónica, terrorismo de extrema-direita, apoios às mais ferozes ditaduras, e sobre os inimagináveis crimes e fraudes político-económico-financeiros.

- “ A vida sexual do clero” de Pepe Rodriguez. Mal aceite pela Igreja, como é óbvio, mas que ela não conseguiu impedir de chegar às mãos de imensos católicos. O próprio bispo Januário Torgal Ferreira considerou-o não ofensivo nem agressivo, e diz que, ao lê-lo, se tem a sensação de abrir os olhos.

- “Los Papas e el Sexo” de Eric Frattini. Sobre as “castíssimas virtudes” de tudo quanto é perversão papal, desde que o papado existe.

- “O Labirinto de Água” de Eric Frattini. Sobre o Evangelho de Judas Escariote.

- “O Espectáculo da Vida” de Richard Dawkins. Sobre a Evolução. O mais fantástico documento anti-criacionista que já li.

- “El Catolicismo Explicado a las Ovejas” de Juan Eslava Galán.

- “Los Péssimos Exemplos de Dios” de Pepe Rodriguez.

- “deus não é Grande” de Christopher Hitchens. Como a religião envenena tudo.

- “Opus Dei” de Bénédicte e Patrice Des Mazery.

- “CIA, Jóias de Família”, de Eric Frattini.

- “Segredos do Vaticano” de John Follain. Sobre o assassinato do coronel Alois Estermann, da Guarda Suíça, e sua esposa, a venezuelana Meza Romero, perpetrado pelo cabo Cédric Tornay, que se suicidou, e que o Vaticano abafou de forma altamente suspeita.

-“La puta de Babilonia” de Fernando Vallejo.

- “O Empório do Vaticano” de Nino Lo Bello. Sobre tudo o que o título sugere.

- “O Holocausto do Vaticano” de Avro Manhattan. Este livro, especialmente temido e banido pelo Vaticano é algo de tenebroso, recheado de exemplos chocantes do terrorismo contemporâneo do Vaticano, com documentos e fotos dos campos de concentração católicos na Jugoslávia e não só, de execuções de centenas de milhar de não-católicos, e de inacreditáveis atrocidades e execuções em massa, com enterramento de famílias inteiras vivas e conversões forçadas.

- “Vaticano S.A.” de Gianluigi Nuzzi, um documento histórico e exclusivo que revela a mão do Vaticano nos bastidores dos jogos políticos e financeiros.

- “Sua Santidade” de Gianluigi Nuzzi”, as cartas secretas de Bento XVI. Como o Vaticano Vendeu a alma.

-“Conspiração no Vaticano”, de G.L. Barone. Terrorismo, Alta finança, Santo Sudário, Vaticano e Guarda Suíça.

- “Os abutres do Vaticano”, de Eric Frattini, o livro que previu a renúncia de um Papa.

- “Avareza”, de Emiliano Fittipaldi, os documentos que expõem a riqueza, os escândalos e os segredos da Igreja do Papa francisco. Um livro que abalou o Vaticano e levou o autor a tribunal.

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- “Via Crucis”, de Gianluiggi Nuzzi. Francisco, um papa em perigo no seio do Vaticano.

Longe de mim a pretensão de ensinar alguma coisa a alguém, sobretudo em matéria desta ordem. Longe de mim a intenção de procurar distorcer o pensamento de quem quer que seja. Reconheço a minha ignorância em muita e muita coisa, apesar de ter uma grande avidez de conhecimento e saber. Sou suficientemente humilde para reconhecer a fragilidade humana, mas sou suficientemente racional para saber que a verdade, esteja onde estiver, não é esta que para aí impingem de forma dogmática, e que a mentira é demasiado poderosa para a tudo se sobrepor, quando por trás dela existe a indigna exploração da ignorância, escancarada “ad nauseam” em todo este triste folclore a que assistimos, e os inconfessáveis e misteriosos interesses do poder estabelecido. O Vaticano é um regime teocrático arcaico e empedernido, que visa a defesa a todo o custo da sua “religião”, a despudorada propaganda, e a extensão e expansão dos inadmissíveis e obscenos privilégios materiais e temporais de uma religião, cuja essência e verdade pouco ou nada lhe interessa.

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por Augusta Clara às 19:46



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