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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 22.02.17

CRÓNICA-DESABAFO - Adão Cruz

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Adão Cruz  CRÓNICA-DESABAFO

 

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(Adão Cruz)

 

   Depois de um dia de consultas desgastantes, passei  hoje [ontem] pelo hospital onde tenho alguém na Unidade de Cuidados Intermédios, em estado precário, todavia com sinais positivos de recuperação.

Esta melhoria legitimou a minha ida até à Ria de Ovar, a fim de comer qualquer coisa, neste caso concreto, meia dúzia de enguias fritas acompanhadas de dois copos. No fim, sob a abóbada de um crepúsculo quase sinfónico, daqueles que pintam de vermelho o horizonte do mar e dizem ao viajante:  “vermelho para o mar, pega no burrinho e põe-te a andar”, ou que dizem ao lavrador “pega nos bois e vai lavrar”, percorri a passo de caracol a berma da ria, ao som, nem de propósito, de “A Barcarola”, de Offenbach. Que maravilha de casamento entre o céu, a água, a música…e a nossa instabilidade emocional!

No fim desta encantadora peça musical que me encheu sempre a alma, desde remotos tempos em que, à beira-mar, eu procurava a calma e o equilíbrio dos meus momentos de desassossego, ouvi a entrevista de Luís Caetano a Luís Diamantino, um dos responsáveis pelas “Correntes de Escritas” da Póvoa de Varzim. Não digo que tenha ficado desiludido, mas também não me deixei iludir, pois não me iludo sempre que transformam eventos literários, poéticos e artísticos em espectáculos de folclore e feiras de fumeiro.

A criatividade, seja em que campo for, é sempre, sempre fruto de uma liberdade incondicional e não de uma fábrica de saberes. Além disso, a literatura, a poesia e a arte não são mercadorias a promover ou vender em feiras. É a cultura, política e socialmente considerada prioridade social, que deve trazer as pessoas ao encontro da literatura, da poesia e da arte, na descoberta de que a sua vida necessita delas como metabolito essencial, e não o contrário. Não sendo assim, tudo não passa de folclore.

Por exemplo, em vez desta espécie de feira, por que não tentar discutir a fundo e filosoficamente o que é a literatura, o que é a arte e o que é a poesia, que, praticamente, ninguém sabe o que são, a despeito de inúmeras definições, a maior parte verdadeiramente disparatadas e sem jeito nenhum. Além disso, uma boa parte da poesia que para aí se faz e consome, por exemplo, não passa de chachada, e, no entanto, anda por aí, lida, relida, declamada e pendurada em tudo quanto é esquina. Sejamos sérios. De uma vez por todas, para que possamos ter um fio de ligação, não há outra plataforma de entendimento que não seja assentarmos no conceito neurobiológico do sentimento como suporte de entendimento do sentimento artístico e do sentimento poético, iguaizinhos a quaisquer outros sentimentos. Não sendo assim, tudo o resto é fantasia e disparate.

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 06.02.17

Crónica, um tanto extemporânea, que eu dedico à minha amiga Augusta Clara e ao meu amigo José Carlos da "Taberna do Doutor", que fazem anos hoje - Adão Cruz

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(imagem de Adão Cruz)

 

1º - A semana passada, dirigia-me eu à Corunha a fim de almoçar com uns amigos, quando, perto da saída para Ponte de Lima, tive um furo, originado por um maldito parafuso que por ali ficou à espera de outra vítima, segundo me disse o remendador de pneus. Tive a sorte de, naquele preciso momento, passar ali uma carrinha da Brisa, cujo condutor, dada a minha provecta idade, gentilmente se prontificou a mudar o pneu. Claro que, sendo sábado, desisti de continuar a longa viagem, com um pneu raquítico como aqueles que agora se usam como substitutos, embora já tivesse tido a experiência de andar com um pneu desses desde Villefranche de Conflent, sul da França, até Portugal.

Resolvi ir comer um pernil assado na “A Carvalheira”, e, no fim do repasto, dirigi-me a Vigo, onde assentei arraiais no velho, modesto e conhecido Hotel La Junquera, desde os tempos em que ainda não havia a “parte nova”. Como em outras ocasiões, fui à //Afundación, ver o que havia por lá, em termos de exposições. Nesse mesmo local onde o meu grande amigo Pastor Outeiral, uns anos antes de morrer, fez uma das suas últimas exposições. Entre “Da Xeración doente aos Renovadores”, “Pegadas da Abstracción a nova Figuracción”, “Identidade Individual, Vontade Global”, dei com obras de pintores que tiveram muito a ver comigo. Desde já, Tino Grandio que morreu em 1977 com um cancro da bexiga, cuja obra descobri há muitos anos em Pontevedra. Xaime Quesada, que ainda conheci pessoalmente em vida, em Ourense. Caruncho que morreu o ano passado, e com quem, um dia, jantei na Corunha.

Fui jantar ao meu querido café “Luces de Boémia”, onde tenho amigos, e que eu conheço desde os tempos em que ia a Vigo comprar películas para o meu primitivo ecocardiógrafo, o único ecocardiógrafo bidimensional existente no país, nessa altura. Aí me mantive até às primeiras horas da madrugada, ouvindo música ao vivo, dos anos 60-80-90. Depois de uns copos bem bebidos, indutores de um belíssimo sono, lá fui para o hotel “la Junquera”.

Levantei-me a meio da manhã e percorri calmamente, dentro da neblina e de uma chuva miudinha, todo aquele rabinho de costa entre Vigo e a Guarda (La Guardia), que por mais conhecido que seja nunca cansa. Almocei no “Muralhas de caminha”, do meu velho amigo Tiago, e rumei ao Porto.

2º À noite jantei num tasco. Na mesa frente à minha sentou-se uma moça nova, engraçada, mulher dos seus trinta e tais, com um homem bastante mais velho, com ar de sem-abrigo. Entre ambos abundavam os sorrisos e gestos de uma felicidade fora do comum. Eram, na verdade, pai e filha, segundo me segredaram. Ela, empregada muito precária, ele, com efeito, sem-abrigo.  Ali vinham por vezes jantar. Desta vez uma suculenta picanha intercalada de sorrisos, salivações e lacrimosos olhares de felicidade. Dei comigo a entranhar bem dentro das entranhas o que é a vida e o que ela tem de absurdo, de relativo, de descarnado, de verdadeiro e de falso. Comparei, sem esforço, esta cena de plena felicidade, com as trombas (ainda que giras) transmitidas momentos antes, da execrável exploradora da miséria angolana, Isabel dos Santos, ao ver-se aprisionada durante meia hora num autocarro junto ao aeroporto de Lisboa.

                                                                                                       Adão Cruz

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por Augusta Clara às 16:20

Sábado, 07.01.17

EM PORTUGAL OS ÁRBITROS DE FUTEBOL VALEM MAIS DO QUE AS MULHERES - Augusta Clara

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Augusta Clara  EM PORTUGAL OS ÁRBITROS DE FUTEBOL VALEM MAIS DO QUE AS MULHERES 

 

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   Num país onde a ameaça a um árbitro de futebol desencadeia de imediato uma protecção reforçada das forças de segurança a todos os outros e suas famílias enquanto que as queixas de mulheres por violência doméstica levam tanto tempo e tanta burocracia a serem apreciadas que os casos de morte já fazem história, NÃO HÁ MACHISMO?

E o silêncio que sobre isto se faz por parte de um e do outro sexo chama-se como?

É forçoso que hoje deixe aqui um elogio à acção da Polícia Judiciária que ontem, em Grândola, salvou da morte uma mulher.

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por Augusta Clara às 18:15

Sexta-feira, 06.01.17

Dia de Reis - Eva Cruz

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Eva Cruz  Dia de Reis

 

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(Monica Mora e Robin Ryan) 

 

Nasci a 6 de Janeiro.
Minha mãe dizia-me:
— Es rainha. Mas o mais importante é seres rainha nas virtudes.
Não fazia a mínima ideia do que seriam virtudes, e ainda hoje não sou capaz de medir o alcance das suas palavras.
O Dia de Reis era um dia especial.
Começava logo pela véspera, a primeira consoada do ano. Já noite dentro, lá vinha a toada dos Reis, as Janeiras, tocadas e cantadas por músicos da banda que nas festas se exibiam no coreto.
Muito distante no tempo, recordo apenas o som vivo do clarinete que cortava o silêncio sagrado da noite.
Um quarteto de homens vestidos de preto surgia na faixa de luz quando a porta se abria, ofuscados pelo reflexo metálico dos instrumentos.
O Dia de Reis era Dia Santo e as férias do Natal duravam até lá.
Sempre se festejaram os meus anos com amiguinhos da escola, cacau ou banacau, pão com manteiga e doce sortido.
Na mesa havia camélias brancas, as flores preferidas da minha mãe.
Brincadeira até à noitinha, a saltar à corda, jogar à cabra-cega, à patela, à roda ou a correr pelos campos.
As escondidas, lá íamos mirar o poço velho, de onde se tirava água com um sarilho. Era um dos maiores perigos do lugar.
O poço não tinha vedação e nós espreitávamos à volta. Lá em baixo, as nossas cabecitas reflectiam-se nas águas paradas, e no ventre da fantasia e do mistério, via sobre a minha cabeça uma coroa de rainha. Um poço de virtudes, soubesse eu o que eram virtudes!
Fui também rainha dos campos, com coroas de pampilos amarelos tecidas pela inocência da infância. Rainha dos montes com grinaldas de perfume das giestas e eucaliptos. Rainha do rio, com coroas de juncos ou bailando nas cheias que cobriam os lameiros, arrastando tudo em séquito majestoso.
Quando colhi as últimas camélias para a minha mãe, no Dia de Reis, tinha ela cem anos. Com a frescura e a brancura de Janeiro, poisei-lhe um ramo, ao de leve, no regaço.
— São as suas flores predilectas.
— São lindas.
— Faz hoje anos que teve uma menina, estavam a tocar as três para a missa. Lembra-se?
O seu rosto vestiu-se de uma expressão serena, perdida no tempo.
— Talvez.
— Teve uma rainha, não foi?
Revelou alguma surpresa, no ingénuo sorriso da candura da idade.
— Estou agora a sabê-lo!
Todos os Dias de Reis me apetece colher camélias brancas, mas as que mais gostaria de colher ficaram para sempre no seu regaço.
 

(in Cenas do Paraíso, ediçõesengenho)

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 23.12.16

A verdade (Ou a vinda de Francisco a Fátima) - Adão Cruz

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Adão Cruz  A verdade (Ou a vinda de Francisco a Fátima)

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   Qualquer um de nós que mantenha respeito por si próprio manifesta uma saudável vontade e necessidade de tentar aproximar-se o mais possível da verdade, esteja ela onde estiver. Só a verdade vos tornará livres, disse Cristo.

A mentira é a ofensa mais directa contra a verdade, diz a Igreja Católica, a despeito das fundamentais e colossais mentiras em que assenta.

É frequente ouvirmos comentários a dizer para deixarmos a Igreja em paz, e, se não lhe pertencemos, em nada temos que a criticar. Quem assim fala, obviamente que não reflecte, nem evidencia honestidade de pensamento.

A Igreja é um fenómeno social, um dos fenómenos sociais mais entranhados e mais influentes da nossa sociedade. Se é bom ou mau, pertence a cada de nós sabê-lo, e é obrigação de cada um sabê-lo. O que é certo é que todos nós, crentes, agnósticos, ateus, pessoas de outras religiões, temos o direito, o dever e a obrigação de nos debruçarmos, da forma como entendermos, sobre um fenómeno que nos afecta tão profundamente e que tão dramaticamente interfere nas nossas vidas.

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Todas as nossas vidas, desde o nascimento, estão, com efeito, profundamente influenciadas pelo cristianismo católico. Toda a nossa história, os nossos próprios nomes, os actos sociais, as festas, os nomes das instituições de saúde e educação, e não só os nomes mas toda a cultura que nelas se difunde, a visão do mundo e da ciência, a visão política, económica e financeira, nacional e internacional, as intervenções em todos os quadrantes, nomeadamente as intervenções bélicas estão embebidos pelo que de santo ou diabólico existe na religião e na Igreja.

Tudo o que atrás referi tem como finalidade chamar a atenção para o que nem tudo o que luz é ouro. Chamar a atenção para a necessidade de não nos deixarmos guiar apenas pelos costumes, pelas tradições e por tudo o que nos impingem. Chamar a atenção para a imperiosa necessidade de pensar e de ler, leituras sérias, fundadas e documentadas, que consigam pôr-nos a pensar pela nossa cabeça e não pela cabeça da igreja e dos poderes de que ela dispõe. Lembremo-nos que nada há de mais sagrado do que a nossa razão e a nossa mente. Passarmos por cima delas é o pior de todos os suicídios.

A sorte que actualmente temos de poder dispor, a nível mundial, de uma profusa literatura honesta e credível não pode ser desprezada.

“Mentiras Fundamentais da Igreja Católica”, por exemplo, de Pepe Rodriguez, é um fantástico livro, a não perder por quem sente, como disse atrás, a necessidade da verdade como metabolito essencial da sua existência.

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Pepe Rodriguez é licenciado em ciências da informação, é um destacado jornalista de investigação, um especialista em seitas e religiões comparadas. O livro é de uma seriedade, honestidade e transparência que não deixam dúvidas a qualquer leitor bem intencionado. Pressente-se que o trabalho de investigação que lhe deu origem foi extremamente sério e ciclópico. Basta o astronómico número de referências bibliográficas, e o apoio e colaboração de destacadas figuras da cultura como Victoria Camps, catedrática de ética, Enrique Magdalene conhecido teólogo católico, Maria Martinez Vendrell, psicóloga e Joaquin Navarro Esteban, magistrado da Audiência Provincial de Madrid.

Mas há muitos mais livros francamente aconselháveis, repito, a quem não pode viver acomodado com a pulhice e a mentira, livros que, por certo, mudarão a mentalidade de quem os ler com vontade e intuito de procurar a verdade, dentro do respeito que cada um nutre por si mesmo.

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Refiro apenas alguns do que tenho lido ultimamente:

- “Em nome de Deus” de David Yallop. Sobre o assassinato de João Paulo I pelo Vaticano, sobre o trabalho sujo da Igreja, nomeadamente os escândalos financeiros e a cobertura na fuga secreta dos grandes criminosos nazis bem como a sua colocação em esconderijos na América Latina.

- “A Desilusão de Deus” de Richard Dawkins. Sobre o problema Deus.

- “A Santa Aliança” de Eric Frattini. Sobre toda a ligação criminosa do Vaticano à mafia, loja maçónica, terrorismo de extrema-direita, apoios às mais ferozes ditaduras, e sobre os inimagináveis crimes e fraudes político-económico-financeiros.

- “ A vida sexual do clero” de Pepe Rodriguez. Mal aceite pela Igreja, como é óbvio, mas que ela não conseguiu impedir de chegar às mãos de imensos católicos. O próprio bispo Januário Torgal Ferreira considerou-o não ofensivo nem agressivo, e diz que, ao lê-lo, se tem a sensação de abrir os olhos.

- “Los Papas e el Sexo” de Eric Frattini. Sobre as “castíssimas virtudes” de tudo quanto é perversão papal, desde que o papado existe.

- “O Labirinto de Água” de Eric Frattini. Sobre o Evangelho de Judas Escariote.

- “O Espectáculo da Vida” de Richard Dawkins. Sobre a Evolução. O mais fantástico documento anti-criacionista que já li.

- “El Catolicismo Explicado a las Ovejas” de Juan Eslava Galán.

- “Los Péssimos Exemplos de Dios” de Pepe Rodriguez.

- “deus não é Grande” de Christopher Hitchens. Como a religião envenena tudo.

- “Opus Dei” de Bénédicte e Patrice Des Mazery.

- “CIA, Jóias de Família”, de Eric Frattini.

- “Segredos do Vaticano” de John Follain. Sobre o assassinato do coronel Alois Estermann, da Guarda Suíça, e sua esposa, a venezuelana Meza Romero, perpetrado pelo cabo Cédric Tornay, que se suicidou, e que o Vaticano abafou de forma altamente suspeita.

-“La puta de Babilonia” de Fernando Vallejo.

- “O Empório do Vaticano” de Nino Lo Bello. Sobre tudo o que o título sugere.

- “O Holocausto do Vaticano” de Avro Manhattan. Este livro, especialmente temido e banido pelo Vaticano é algo de tenebroso, recheado de exemplos chocantes do terrorismo contemporâneo do Vaticano, com documentos e fotos dos campos de concentração católicos na Jugoslávia e não só, de execuções de centenas de milhar de não-católicos, e de inacreditáveis atrocidades e execuções em massa, com enterramento de famílias inteiras vivas e conversões forçadas.

- “Vaticano S.A.” de Gianluigi Nuzzi, um documento histórico e exclusivo que revela a mão do Vaticano nos bastidores dos jogos políticos e financeiros.

- “Sua Santidade” de Gianluigi Nuzzi”, as cartas secretas de Bento XVI. Como o Vaticano Vendeu a alma.

-“Conspiração no Vaticano”, de G.L. Barone. Terrorismo, Alta finança, Santo Sudário, Vaticano e Guarda Suíça.

- “Os abutres do Vaticano”, de Eric Frattini, o livro que previu a renúncia de um Papa.

- “Avareza”, de Emiliano Fittipaldi, os documentos que expõem a riqueza, os escândalos e os segredos da Igreja do Papa francisco. Um livro que abalou o Vaticano e levou o autor a tribunal.

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- “Via Crucis”, de Gianluiggi Nuzzi. Francisco, um papa em perigo no seio do Vaticano.

Longe de mim a pretensão de ensinar alguma coisa a alguém, sobretudo em matéria desta ordem. Longe de mim a intenção de procurar distorcer o pensamento de quem quer que seja. Reconheço a minha ignorância em muita e muita coisa, apesar de ter uma grande avidez de conhecimento e saber. Sou suficientemente humilde para reconhecer a fragilidade humana, mas sou suficientemente racional para saber que a verdade, esteja onde estiver, não é esta que para aí impingem de forma dogmática, e que a mentira é demasiado poderosa para a tudo se sobrepor, quando por trás dela existe a indigna exploração da ignorância, escancarada “ad nauseam” em todo este triste folclore a que assistimos, e os inconfessáveis e misteriosos interesses do poder estabelecido. O Vaticano é um regime teocrático arcaico e empedernido, que visa a defesa a todo o custo da sua “religião”, a despudorada propaganda, e a extensão e expansão dos inadmissíveis e obscenos privilégios materiais e temporais de uma religião, cuja essência e verdade pouco ou nada lhe interessa.

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por Augusta Clara às 19:46

Sexta-feira, 16.12.16

Chico Carvalho - Francisco José - António Galopim de Carvalho

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António Galopim de Carvalho  Chico Carvalho - Francisco José

(O Prof. Galopim de Carvalho, tão conhecido pelos seus estudos sobre os dinossauros em Portugal, fala-nos do seu irmão Francisco José que as gerações mais velhas recordam como o cantor de "Olhos castanhos")

 

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 (Francisco José)

   Eu tinha oito anos e ele quinze. A Alemanha dava início à 2ª Guerra Mundial. Meu irmão mais velho, Francisco José, o Chico Carvalho, como era conhecido em Évora, a cidade onde nascemos e fomos criados, começou cedo a interessar-se pelo jogo do bilhar. Logo que a estatura lhe permitiu chegar à altura do tampo verde, pegou no taco e ensaiou as primeiras carambolas. Nessa época e até meados do século passado, o bilhar de carambola dominava entre nós. Só depois assistiríamos à invasão e expansão do snooker, importado da América.

Hoje, praticamente, desaparecido, o bilhar que ele e eu, aprendemos a jogar na Sociedade Harmonia Eborense e que, depois, praticámos no Cafés Montanha e no Café Camões, era o das três bolas, uma vermelha e duas brancas, no qual o jogador, com uma tacada numa das bolas brancas, fazia com que esta tocasse nas outras duas, isto é, carambolasse. Com o tempo, este meu irmão, seguindo as pisadas do nosso pai, tornou-se um grande jogador desta modalidade, quase ombreando com o José Silveira e o Matos, verdadeiros campeões na cidade e no país.

Por todos os cafés e sociedades recreativas com sala de bilhar, era comum o “jogo do tacho”, uma variante a dinheiro, em que o Chico Carvalho era exímio ganhador. No centro do tampo verde das mesas de bilhar colocava-se um pires, a fazer de tacho, dentro do qual, no início do jogo, cada participante colocava uma moeda de dez centavos, um tostão, como se dizia. De cada vez que um jogador tocasse com uma das bolas no tacho, tinha de ali colocar outra moeda. O jogo terminava quando concluídas vinte ou mais carambolas, conforme combinado, e ganhava quem primeiro completasse número de carambolas acordado, arrecadando todo o dinheiro ali acumulado no decurso do jogo.

Sempre com pouco dinheiro no bolso – a semanada era curta – foram muitas as vezes que lhe servi de banca, emprestando-lhe as quantias de que necessitava para jogar ao “tacho”, quantitativos que, no próprio dia ou no dia seguinte, me pagava com juros. Como a maioria das crianças, eu tinha, então, um “migalheiro” de barro onde ia metendo todos os tostões que angariava, os das semanadas e os dos mandados que fazia. Com uma faca e com a minha anuência, o Francisco José fazia deslizar pela lâmina, uma a uma, as moedas com que iria jogar. E a combinação era: por cada dez tostões ele restituía-me onze. O negócio foi bom para ambos. Ele ganhava sempre e o meu mealheiro engordava.

Nesse ano de 1939, subia à cena, no Teatro Garcia de Resende, a revista musical em dois actos “Palhas e Moínhas”, cujas coplas, da autoria de Vasconcelos e Sá, versam múltiplos e variados aspectos da cidade de Évora e, sobretudo, da vida nos campos do Alentejo e da personalidade dos alentejanos.

Com 15 anos fez-se ouvir em público, nesta revista, sem microfone e pela primeira vez, a voz bem timbrada e melodiosa e a dicção perfeita do que, anos mais tarde, foi o cantor dos Olhos Castanhos.

A partir de então foram as actuações nas galas do então Liceu André de Gouveia, por ocasião das festividades evocativas do 1º de Dezembro. Ouvidas nas ruas da cidade, foram, ainda, as serenatas, com ou sem luar, às suas pretendidas ou às dos colegas do liceu, as mais das vezes com público a assistir e a aplaudir. Muito antes de ser Francisco José, o Chico Carvalho era uma voz bem conhecida e apreciada no burgo que o viu crescer.

Com um enorme sucesso no Brasil, nunca igualado por algum seu conterrâneo, veio à terra natal em 1963: A áurea, que trazia, levou a RTP a apresentá-lo num programa musical, em directo e em horário nobre. Ele cantou, cantou e, no final, surpreendeu tudo e todos com a denúncia do tratamento mesquinho que era dado aos artistas nacionais, em contraste com as mãos largas oferecidas aos estrangeiros.

Foi um embaraço para os responsáveis pelo canal televisivo nacional e para os governantes de então. Uma multidão de gente do “reviralho” concentrou-se na Praça do Areeiro, para o aplaudir, frente ao restaurante “O Chicote”, onde actuava no fim do serão. Desde essa data deixou de haver programas de televisão em directo, uma prática só restabelecida com o fim da ditadura.

Como consequência desta sua ousadia foi chamado à PIDE. Não o prenderam, mas, como ele dizia, «leram-me a buena dicha». Nunca mais teve oportunidade de actuar na RTP e nunca mais deixou de estar vigiado. Todas as vezes que vinha a Portugal, desde o desembarque até ao momento de subir para o avião, no seu regresso ao Brasil, tinha um pide a seguir-lhe os passos.

Enquanto estudante universitário e antes de enveredar na carreira que o tornou conhecido, concluíra o essencial das cadeiras dos então Preparatórios de Engenharia. Foi já sexagenário que encontrou ritmo de vida que lhe deu condições para voltar à Universidade. Não para ser engenheiro mas, simplesmente, para estudar. Concluiu então a licenciatura em Matemática o que lhe permitiu ensinar Geometria Descritiva, numa Universidade para a terceira idade, a troco de poder frequentar nela aulas de outras disciplinas como História de Arte e Arqueologia.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 12.12.16

Um abraço de amor - Adão Cruz

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Adão Cruz  Um abraço de amor 

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(Adão Cruz)  

 

(O MEU AMOR PELA GALIZA)

   Sim, um abraço de amor ou um poema de amor à minha querida Galiza. Até tem nome feminino e tudo.

Há longos anos que abro os meus braços para envolver em largo amplexo a minha amiga Galiza. Com o peito em Tui, o braço direito estende-se ao longo da margem direita do rio Minho, dobrando-se um pouco para tocar Ourense e afagando com a mão, lá em cima, a face de Lugo, a cidade de origem celta e romana que possui a única muralha do mundo intacta no seu perímetro. O braço esquerdo, dobrando-se e desdobrando-se a ocidente ao longo da costa desde A Guarda (La Guardia), para ir por ali acima acarinhar a luminosa Corunha e tocar com a ponta dos dedos o Ferrol.

Embora tenha passado a fronteira umas duas ou três vezes durante o tempo de estudante na Faculdade, o amor à primeira vista só nasceu quando atravessei clandestinamente de Melgaço para Ponte Barxas e daí para Cortegarda, uma vila termal que nos leva até Celanova e Ourense. Estava mobilizado para a guerra colonial da Guiné e, por conseguinte, proibido de sair do país. Foi o pai de uma amiga, funcionário da fronteira, que nos permitiu, a mim e outro amigo, a ida sem documentos até esta última cidade que com o tempo tão bem se foi acomodando no meu coração.

Antes de haver auto-estrada chegava-se a Ourense por diversos caminhos, indo todos desembocar em Celanova. Saindo por Porrinho tínhamos a 12 Km para leste Salvaterra de Minho, município raiano da Galiza mesmo em frente da nossa Monção, do outro lado do rio. Há já muito tempo, antes de haver a ponte, a travessia entre os dois países era feita numa jangada que transportava algumas pessoas e meia dúzia de carros. Lembro-me muito bem da última vez que atravessei o rio dessa forma…pois era um dia muito triste.

Podemos ir ainda hoje por Ponte da Barca e Lindoso e desfrutar a luminosa paisagem de montanha e água que se estende até Bande (um saltinho lateral para nascente a Xinzo de Limia é um encanto), ou atravessar o Gerês saindo pela Portela do Homem (outro saltinho lateral, desta vez para poente, passando por Entrimo e atravessando a serra de Castro Laboreiro é imperdível). De Celanova à cidade das Burgas, as águas termais que aliviam as comichões, é um instante.

Desde há vários anos que tenho em Ourense amigos de verdade, na área das artes e não só. Lembro, apenas como homenagem à sua amizade, a America Soto e família, a Dolores Reverter, o Pepe, o Joaquin Balsa e a Maria, bem como os familiares, o César Prada e a Olívia, a Gely e a Elvira, a Maria de los Angeles e outros. E também os que prematuramente, ainda jovens, deixaram esta vida, como Zapata, o pintor boémio que apelidava a sua barriga de cementerio de marisco, e Pastor Outeiral. Em Ourense realizámos duas ou três exposições de pintura, uma na Caixa Galicia ou Caixanova, não sei precisar, e outra no belo edifício Simeon. Quadros meus ainda resistem nas casas de alguns amigos. Não posso esquecer que em Ourense visitei uma imponente exposição de Jaime Quesada, artisticamente conhecido por Xaime Quessada, grande pintor ourensano que conheci ainda em vida, e que desenvolveu intensa actividade por todo o mundo.

Chegado o meu braço direito até ao Lugo (com a sua acolhedora Plaza Mayor de onde saem ruas pejadas de bares e tapas), e a seguir até Vegadeo e Ribadeo, entraria de imediato nas Astúrias para saborear essa suculenta fabada asturiana em recantos que eu cá sei, mas é da Galiza e não das Astúrias que estamos a falar. Esticando um pouco mais o braço talvez consiga tocar Viveiro, Carinho, Cedeira e Ferrol, essa encantadora terra do noroeste marítimo da Galiza, cheia de História boa e má. Da História má podemos destacar, como exemplo, que ali nasceu Francisco Franco, e ali morreram assassinados centenas de lutadores antifranquistas às mãos dos esquadrões da morte fascistas. Na História boa podemos registar o nome de Ricardo Calero, também de origem ferrolana, professor catedrático dos meados do século XX, reputado filólogo e crítico literário, grande defensor da unidade linguística galego-portuguesa. A propósito, mas já no início deste século, um outro professor universitário também linguista segredou-me um dia que o português é o galego correcto.

Sinto que os dedos da minha mão direita se entrelaçam agora nos dedos da minha mão esquerda que afaga o rosto da Corunha, essa cidade única, cristalina, cheia de luz e de água, a chamada cidade de cristal, com tanto para ver e sentir entre a praia de um lado e o porto de outro, tendo no meio a Praça Maria Pita, o museu do Homem (Casa do Home), o museu de Belas-Artes ou o seu emblemático monumento, a Torre de Hércules, o farol em funcionamento mais antigo do mundo. Sempre me cativou esta linda cidade, e por isso a ela voltei sempre que pude e sempre que ela me chamou. Nunca faltei às várias reuniões médicas que me proporcionou, não podendo esquecer as que mais me entusiasmaram, as conhecidas jornadas internacionais sobre Cardiomiopatias que durante alguns anos tiveram lugar no Palácio de Congressos, trazendo à Corunha os mais afamados investigadores do mundo nesse tipo de patologia. Sabia bem para além do mais, sermos recebidos principescamente com um lauto banquete nas belas salas do Ayuntamiento, na Plaza Mayor, onde saboreei as melhores tapas de sempre. Foi numa dessas alturas, em 1999, que havia aí uma exposição da conhecia pintora Maria Gato, de quem fiquei amigo.

Na Corunha conhecemos a famosa galeria Atlântica fundada por Salvador Corroto Parra recentemente falecido, e todo o seu espólio. Revimos a obra de Rafael Canogar e conhecemos pessoalmente Luis Caruncho com quem um dia jantámos, a seu convite. Falo no plural, porque além de outros andava sempre comigo, como compagnon de route, o grande amigo João Alexandre, pintor e hábil profissional nesta coisa da montagem das exposições. Faziam parte do nosso grupo André Welch, pintor francês de Pau, já falecido, e Hans Zingraff, alemão, que numa dessas vezes expunha na Atlântica. Ambos pertenciam como nós ao movimento MAI (Movimento artístico internacional). Foi também numa dessas idas à Corunha, desta vez sozinho, que ouvi falar pela primeira vez da afamada pintora Maria Antónia Dans, nascida aqui, em Oza dos Rios e na altura já falecida, da qual adquiri um lindo álbum repleto de obras um tanto naif com belas paisagens cheias de cor e nostalgia.

Nesta belíssima cidade fizemos, pelo menos, quatro exposições, a primeira numa galeria de cujo nome não me lembro, a segunda no lindo Hotel Maria Pita que fica junto ao mar e que há bastante tempo mudou de nome, a terceira no Clube Financeiro da Corunha (com o meu grande amigo Jaime Casais, pintor e arquitecto aqui residente), e a quarta, individual, do João Alexandre, também no Clube Financeiro. Com o Jaime voltei a fazer outra exposição no Clube Financeiro de Vigo a que dei o nome de Calles e Ruas da cidade interior. Do texto que fiz para essa exposição deixo aqui uma pequena frase:

A arte é uma procura de expressão da beleza e da poesia, uma pura questão de liberdade no processo racional da formação do Homem dentro da ética da existência…

Mas ao descermos agora pelo meu braço esquerdo para o sul, ainda é muito cedo para chegar a Vigo. Vamos permanecer um pouco em Cee, Corcubion, a dois passos do famoso pôr-do-sol de Finisterra. Não tenho a certeza se foi aqui que Jaime Casais nasceu mas é aqui que ele tem uma das mais belas casas que já vi, a casa dos pais, do início do século XX, e em cujas paredes mais nobres eu tenho a honra de ver pendurados alguns dos meus quadros. Entre Corcubion e Finisterra tem ele uma aprazível e poética casa na praia, salvo erro praia de Langosteira, que oferece de coração aberto aos amigos e onde comi o melhor pescado e as melhores navajas da minha vida.

A seguir vem Muros, um bom pedaço mais abaixo nesta interminável costa. É um dos pueblos marineros mais bonitos e mais bem conservados da Galiza. A sua história começa no século X e a sua riqueza em arte rupestre conta com uma infinidade de calçadas romanas, castros e cruzeiros. Foi Jaime Casais o principal arquitecto responsável pela fiel reconstrução desta antiquíssima vila, que, para além do prazer que nos dá ao percorrermos todas as suas medievais ruas e vielas, possui uma gastronomia inigualável… que uma qualquer noite nos traiu. Era uma noite de fim de ano com tudo fechado, em que eu e uma amiga queríamos comer alguma coisa e arranjar algum sítio onde dormir e nada havia. Apenas um pequeno hotel, também fechado, mas cujos donos, prestes a encerrar, chegaram ao insólito mas encantador absurdo de nos entregarem a chave do hotel, onde pernoitamos como únicos hóspedes e senhores absolutos. Mas a sorte não ficou por aqui. Cheios de fome percorremos as ruas de ponta a ponta na pouco esperançosa tentativa de encontrar algum local aberto. Já desanimados, ao dirigirmo-nos para o hotel de barriga vazia, demos com uma cave aberta e iluminada onde se comemorava a passagem do ano repleta de comes e bebes e também de uma invulgar simpatia e de um franco acolhimento.

Noia fica no caminho, com o seu casco antigo como o de Muros e tantas outras povoações desta costa infindável, repleta de sonho, nostalgia e passado. Noia lembra-me logo o modesto mas muito agradável Hotel do Parque com o seu quarto 115, semicircular, todo ele janelas que nos permitem uma vista global sobre a ria banhada de sol e luar. O quarto não é um quarto mas dois, separados mas comunicantes. Aí pernoitei algumas vezes, uma delas com o meu filho mais novo, a minha nora e o meu primeiro netinho.

Já que estamos a 23 Km de Santiago de Compostela vamos sair por instantes da costa e dar uma olhada a esta vetusta cidade tão acolhedora. Não vou falar daquilo que é bom em Santiago pois não deve haver quem não conheça. Ao contrário de muita gente peregrina, não é propriamente a catedral e o santo que me interessam e atraem. Nem o museu de arte contemporânea de Siza Vieira mais do que visitado. Nem de todas as vezes me absorve a memória da grande Senhora da poesia galega, Rosalía de Castro, de quem dizem ser a fundadora da literatura galega moderna, aqui nascida, em Caminho Novo, em 1837.

Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros,
Ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros,
Lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso,
De mí murmuran y exclaman:
Ahí va la loca soñando
Con la eterna primavera de la vida y de los campos…

Como pecador e humilde poeta, ao entrar em Santiago logo me cresce água na boca ao ver por trás dos vidros embaciados dos bares que se estendem ao longo das ruas estreitas, as travessas de pulpo e percebas. Mas, perdoado o pecado da gula, posso dizer que são as reuniões médicas dos tempos passados, na prestigiada faculdade de Medicina, que mais me avivam a memória. Retenho com alguma saudade aquela importante jornada que constituiu a celebração dos 25 anos da primeira circulação extracorporal.

De Noia a Vigo, esta filigrânica e rendilhada costa não pode ser descrita em pormenor num simples texto, apesar de eu a conhecer quase a palmo, pois só poderá caber em volumoso livro. Mas um livro que apenas contivesse magia, sonho, música e poesia. Porto do Son, Vilagarcia de Arousa, Isla de Arousa, Cambados, O Grove, A Toxa (La Toja), Sanxenxo…alto lá, já não posso com tantos poemas e tantas mariscadas.

Um saltinho ao casco velho de Pontevedra para tomar nem que seja um café solo. Ao entrar, também não são as sinistras procissões da Semana Santa, serpenteando pelas ruelas, que me vêm à cabeça, nem o jamon ibérico e a macia espuma das cañas douradas, nem a “minha” livraria há muito fechada, mas a magnífica exposição que há uns largos anos tive a sorte de ali encontrar: Uma mostra das obras de Tino Grandío, o grande pintor dos cinzentos, natural de Lugo, que a morte agarrou demasiado jovem, sem conseguir impedir que os seus quadros se espalhassem pelo mundo. Dele disse um dia Camilo José Cela:
Tino Grandío era grande e solemne, aparatoso, disparatado, sólido e vitalista, quizá por eso murió casi joven…

O meu abraço, já que aqui estamos, vai mais alguns quilómetros para o interior, nos arredores de Pontevedra, mais propriamente Tenorio, ao encontro de Marise e Celestino, donos da estalagem O Casal, que nunca deixaram de estar presentes em Portugal nas minhas exposições e nas apresentações dos meus livros.

De Pontevedra a Vigo pela auto-estrada é uma questão de minutos. Mas não podemos deixar de saborear este restinho de costa que demora muito mais, Marin, Bueu e Cangas, indo desembocar na mesma auto-estrada e atravessar para Vigo pela elegante Ponte de Rande que nos libertou da enorme volta para contornar a ria, como se fazia antigamente. Mas os braços já começam a doer. Paremos em Vigo, no antigo e lindíssimo café-restaurante Luces de Bohemia onde o António me recebe sempre de forma calorosa. Entrei pela primeira vez neste deslumbrante espaço há mais de vinte e cinco anos. Mas ao contrário do que pensava ele ainda não existia quando eu e alguns familiares nos deslocávamos a Vigo para comprar películas para o meu primitivo ecocardiógrafo - o primeiro ecocardiógrafo bidimensional a entrar em Portugal -, que não existiam no nosso país e que as senhoras escondiam debaixo dos vestidos ao passar a fronteira. Aqui em Vigo, como disse atrás, realizámos, eu e o Jaime, uma exposição no Clube Financeiro. Também aqui, ou melhor, em Vigo e Redondela, pude estar presente em duas belas exposições, não sei se as últimas, do grande artista e amigo Pastor Outeiral, de Ourense. Já doente, teve a gentileza e a coragem de se deslocar um dia a Santa Maria da Feira para colaborar na apresentação de um livro meu, no Europarque. São outras memórias a Casa del Libro onde passei muitas tardes, bem como El Rincon de los Artistas, bar com música e dança e a edição da sua própria revista, na mesma rua em que há uma rotunda com a escultura de Rosalía de Castro no centro. Hoje cerrado, infelizmente.

Não é sem saudade que se deixa a brilhante marginal de Vigo até à praia de Canido, por onde se chega a Nigran no caminho para a esbelta Bayona. Primoroso casamento entre o homem e a natureza, é de todos conhecida, mais pela marina e o parador e menos pela parte velha, interior, cheia de bares, onde se realizam genuínas festas medievais. Mais uma vez a longa e nostálgica costa se estende à nossa frente, não tão sinuosa como a norte, até A Guarda, acolhedora vila piscatória e capital dos mariscos e da sua rainha a lagosta. A 10 Km a ponte para Vila Nova de Cerveira que nos libertou do antigo Ferryboat. Mas não entremos já em Portugal. Façamos marcha atrás e recuemos um pouco até ao sopé do monte de Santa Tecla. Se subirmos lá acima, os nossos olhos encontrarão pela frente uma das mais belas paisagens do mundo, não tenho dúvidas. Mas é tarde e o poema já vai longo. Ficaremos aqui na base, em Camposancos, e vamos dar um saltinho ao Hotel Molino, mesmo junto à foz do rio frente a Caminha e Moledo. Propriedade dos amigos Carlos e Margarida, praticamente família da amiga America Soto, de Ourense, oferece uma tão solitária calma e sossego que nos incute a sensação de termos chegado ao fim da terra. Na paz da sua esplanada, junto à praia, podemos saborear a frescura de uma caña, mirando do outro lado do rio a suavíssima costa portuguesa a perder-se no horizonte. Em noite de estrelas e luar talvez ouçamos da boca da Margarida histórias antigas da região, muito especialmente o relato dos horrores da guerra civil, lembrando a casa das torres, um pouco mais acima, onde se refugiavam os seus familiares e muitos outros antifranquistas.

E pronto. Por aqui deixo espalhados alguns dos últimos versos deste magnífico poema que é a Galiza, pois já não serão muitos os abraços que hei-de dar-lhe.

Adão Cruz

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por Augusta Clara às 17:15

Domingo, 04.12.16

Un recuerdo... - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  Un recuerdo...

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   Hace más de veinte años que Daniel Mordzinski hizo click con su Leica y atrapó esta imagen. Nos costó mucho dar con esta cabaña en un rincón de la Patagonia, hicimos cientos y cientos de kilómetros en auto o caminando hasta que, gracias a la información de una protagonista de la historia patagona, pudimos llegar al lugar preciso.

La cabaña fue construída por Butch Cassidy, Sundance Kid y Etta Place, fugitivos de los caza recompensas norteamericanos y criollos.

La cabaña, en 1996 estaba habitada por un grupo familiar numeroso, don Aladino Sepúlveda y una caterva de hijos, hijas, yernos, nueras , nietos y nietas. Al aproximarnos, bastante emocionados por el hallazgo, abrió la puerta el viejo don Aladino y salió a nuestro encuentro. Fiel a las buenas costumbres gauchas estiró la mano derecha y dijo " Sepúlveda, mucho gusto". Daniel, mi socio de aventuras, me pegó un codazo y murmuró " no lo puedo creer, te conoce", y me apresuré a decirle que no, que presentarse con el apellido es la más antigua de las costumbres conservada por los gauchos del sur del mundo.
Tomamos unos mates con él. Su padre había conocido a "los bandidos", y nos pareció muy justo que la cabaña fuera el hogar del nonagenario don Aladino y su familia tejedora de sueños humildes.

En esa cabaña se pensaron y fraguaron varios asaltos a bancos, gran parte del botín conseguido se empleó para financiar revueltas de obreros laneros y revoluciones anarquistas aplastadas a sangre y fuego, pero que viven en el viento eterno de la Patagonia. 

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por Augusta Clara às 17:30

Terça-feira, 22.11.16

Ouve-me, meu amor! - Eva Cruz

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Eva Cruz  Ouve-me, meu amor!

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(Kaori Nagayoshi)

 

   A enfermaria era mista. Quando se trata de vida ou morte, não há fronteira entre sexos.

A angústia e o medo ensombravam os olhos dos familiares acom­panhantes. A doença anula o raciocínio.

Na cama do lado, a Sónia de vinte e seis anos. A cabeceira, o seu nome e a data em que nasceu. Muito branca, olhos azuis, umas sar­das a pintar as maçãs do rosto, rentes ao nariz uns cabelitos loiros a fugirem da ligadura que lhe envolve a cabeça. Os olhos muito aber­tos fixam-se nos olhos rasos de lágrimas da cama ao lado. A Sónia perdeu a fala, não diz nada para além da expressão do olhar vazio. Assim esteve três dias.

A Sónia é um caso muito especial. Uma hemorragia cerebral.

Teve várias visitas. Entre elas um rapaz, o José Carlos, cara morena e bigode preto. Tinha vinte e oito anos.

Tratava-a como quem trata uma criança. Muito mimo e muito humor. Chegava e partia a sorrir.

Contou que se sentia muito feliz. A Sónia ressuscitou. Sou o homem mais feliz do mundo. Nem que a minha mulher fique paralítica e ape­nas olhe para mim, já me sinto o homem mais feliz do mundo.

Abriram-lhe o crânio, tiraram-lhe um osso que ficou enxertado na barriga a aguardar nova cirurgia. Foi recolocado um mês depois. A mesma barriga que alimentou o Henrique, o seu filho de dezas­sete meses.

Passavam os dias embalando o seu menino na troca de olhares azuis e negros.

Uma bela lição de amor.

Na cama em frente, outro olhar sem expressão. Uma senhora de meia-idade perdera a fala. A tempo inteiro, numa dedicação angus­tiada, o marido afagava-a com a dor dos seus olhos.

Dias depois, a senhora levantou-se, andou a pé. Um jogo ajudava a mão entorpecida a encontrar os gestos naturais.

A alegria voltou ao rosto do homem.

Uma manhã, de repente, teve uma convulsão. Fecharam-se as cor­tinas, tubos e mais tubos, técnicos, enfermeiros, médicos de branco, azul e amarelo, uma onda de cor e agilidade pela enfermaria dentro. A doente é levada. Sobe ao piso de cima e volta pouco depois, reani­mada. A cortina meio aberta, o ritmo arrítmico das máquinas e ele murmurando ouve-me, meu amor. Meu amor, tão doce e suplicante!

Ela já não o ouviu. A máquina parou. Puxaram-no, correu-se a cortina. Os tubos foram para o lixo. Evacuou-se a enfermaria dos acompanhantes.

Depois, um corpo envolto num plástico cinzento, sobre uma maca fria de lata, seguia pelo corredor frio de pedra.

E nos meus ouvidos ouve-me, meu amor, a ecoar no infinito.

A Sónia continuava de olhos abertos, impávida e serena, como todos os outros. Ninguém deu conta que a morte andou por ali na sua ceifa traiçoeira de ave de rapina.

Aprendi a relativizar a vida.

(in Cenas do Paraíso, ediçõesengenho)

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por Augusta Clara às 18:00

Domingo, 20.11.16

A medicina antes do 25 de Abril - Adão Cruz

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(Deram-me a honra de um convite para intervir, no âmbito do 11º Congresso da FNAM (Federação Nacional dos Médicos), num debate sobre o Serviço Médico à Periferia, cabendo-me falar sobre o exercício da medicina antes do 25 de Abril. Alguém sugeriu que era útil e interessante fazer um texto com o essencial da minha intervenção. Ele aí está, todavia liberto de todos os aspectos técnicos que só serviriam para entorpecer a leitura de quem não é médico).

 

Pelo texto que se segue, todos ficarão com uma ideia de como era, com algumas variantes, a prática da medicina rural e de todo o interior do país antes do 25 de Abril e, portanto, antes da criação do SNS, por volta de 1989, o qual, em três décadas, como sabemos, se haveria de tornar num dos melhores e mais respeitados do mundo. Hoje, infelizmente, encontra-se no meio do mais ignóbil processo de destruição, urdido pelo capital privado e pelas forças mais retrógradas que procuram miná-lo por todas as formas e feitio, de modo a poderem dizer que não funciona. Gente que se encontra nos antípodas dos homens progressistas que o criaram e ajudaram a desenvolver, homens de mente sã e avançada, como Miller Guerra, Albino Aroso, António Galhordas, Gonçalves Ferreira, Pereira de Moura, António Arnaut e outros.

  

Adão Cruz  A medicina antes do 25 de Abril

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(Adão Cruz) 

   Quando saí da Faculdade tive duas opções de vida: Fazer clínica na minha terra, como “João Semana”, ou aceitar o convite de um colega mais velho do que eu cerca de onze anos, amigo e conterrâneo que residia nos EU, médico hospitalar de medicina interna, para ir para a América. Tinha de escolher uma destas duas opções extremas. Optei pela primeira por duas razões principais: por um lado, tinha a guerra colonial à minha frente e dificilmente poderia sair do país, por outro lado, precisava de ganhar algum dinheiro. Os meus pais fizeram muitos sacrifícios para formarem dois filhos e eu não estava disposto a sacrificá-los mais tempo.

Estávamos no ano de 1964. E assim comecei a minha actividade clínica, em Vale de Cambra, sem estágio nem tese, três anos antes da ida para a guerra colonial da Guiné. Encostei-me a um velho clínico que era um monumento de sabedoria prática e experiência. Foram esses três anos os piores e mais difíceis. Vale de Cambra, um pequeno concelho com uma área de 147 Km2, tinha talvez menos de 15.000 habitantes. Dispersava-se por nove freguesias, algumas delas abrangendo os mais remotos e inóspitos lugares da Serra da Gralheira, com pequenos povoados e populações encravadas em locais quase inacessíveis, com muitas pessoas vivendo na maior ignorância e na mais extrema miséria.

Continuei durante outros três anos, após o meu regresso da Guiné, estes já melhores, pois iniciei na altura o Internato Geral no Hospital de Santo António, para onde me deslocava todos os dias. Este facto, a experiência da guerra e alguma presença em reuniões científicas, permitiram-me uma maior competência, bem como relações pessoais e com o hospital, que me facilitaram muito a minha prestação de cuidados médicos. Não tive, propriamente, contacto com o Serviço Médico à periferia, criado em 1975. Nessa altura já eu tinha obtido a especialidade e fazia parte do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo António.

Pediram-me para falar da medicina em Portugal antes do 25 de Abril, ou seja, antes da criação do Serviço Médico à periferia em 1975, o primeiro passo, por assim dizer, para o nascimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e também uma experiência valiosa e ímpar. As duas realidades, o antes e o depois do 25 de Abril, não podem comparar-se. Claro que eu não posso falar do que se passava em Portugal. Posso falar, sim, do que se passava numa parte de Portugal, que, muito provavelmente, com algumas diferenças, era o que se passava em todo o interior do país. E digo interior, porque havia uma significativa diferença com o litoral, onde existiam os poucos recursos técnicos da época. Com efeito, não havia qualquer rede hospitalar digna desse nome, e os únicos hospitais situavam-se em Lisboa, Porto e Coimbra, havendo um ou outro pequeno hospital, aqui e ali, de muito pouca eficácia, quase sempre ligado às misericórdias. De qualquer forma, os cuidados primários de saúde eram um conceito quase desconhecido, sendo notória uma profunda degradação dos poucos serviços de saúde existentes e uma enorme incapacidade de resposta às necessidades mais elementares.

Antes do 25 de Abril a assistência médica não estava assegurada, sobretudo antes do fim da década de sessenta. Competia às famílias, às instituições privadas e à caridadezinha, que a despeito de aviltar a dignidade humana, lá ia  remendando as coisas aqui e ali, bem como aos débeis serviços médico-sociais da Previdência fazerem alguma coisa. Mas era sobretudo ao “João Semana”, pilar fundamental da saúde nesses tempos, que tudo se exigia. As áreas rurais dessa época tinham características comuns, o serem pouco populosas, muito isoladas, com uma população envelhecida, profundamente carenciada, com problemas de acessibilidade aos grandes centros que ficavam muito longe e com vias de comunicação péssimas, vivendo de uma agricultura de subsistência, e, portanto, profundamente vulneráveis. A saúde, ou o pouco que se poderia fazer na promoção da saúde era dependente da capacidade económica de cada cidadão, o que levava ao pagamento integral dos cuidados médicos, nomeadamente dos cuidados hospitalares, mesmo públicos. Só tinham direito a cuidados gratuitos, e obviamente de pior qualidade, aqueles que conseguissem apresentar um atestado de pobreza ou indigência passado pela junta de freguesia.

E foi nestas condições de 1964 que eu comecei a viver, de dia e de noite, 24 horas por dia, ao sol e à chuva, todas as peripécias clínicas que levaram um dia minha mãe a dizer-me: rapaz, muda de vida senão morres. Mas foram essas tremendas dificuldades e essas precaríssimas condições, que constituíram para mim uma segunda faculdade. Dizia o meu velho amigo Dr. Teixeira da Silva: você aqui vai ver tudo, desde a queda do cabelo à unha encravada. Com efeito, numa altura em que a esperança de vida era de quase menos 15 anos do que hoje, éramos senhores de todas as especialidades, desde a pediatria à ginecologia e obstetrícia, passando pela dermatologia, oftalmologia, psiquiatria etc. Em termos de material, eu tinha quase tudo o que era possível ter na altura, e muita coisa oferecida por um grupo de amigos: marquesa, mesa ginecológica, espéculos, estetoscópio, aparelho de tensões, otoscópio, oftalmoscópio, sondas e algálias, todo o material necessário a pequena cirurgia. Era frequente a incisão e drenagem de abcessos, a exérese de lipomas e quistos, extracção de unhas encravadas, circuncisões etc. Tinha ligaduras, pensos e desinfectantes variados, material para injectáveis, mala de urgência apetrechada com tudo o que era viável, e ainda fórceps e ventosa que o Dr. Teixeira da Silva me emprestava. Ele tinha também uma velha radioscopia cuja radiação nos deixava, ao fim de 5 minutos, como se tivéssemos apanhado uma descarga eléctrica. Para fazer uma radiografia, um electrocardiograma, qualquer exame mais avançado ou uma cirurgia, só no Porto, o que ficava muito caro. Fora do Porto nada havia, apenas um ou dois pequenos laboratórios de análises em concelhos limítrofes.

As pessoas viviam atormentadas com o medo da doença e viam-se obrigadas a algumas poupanças durante a vida não só para guardarem “um terço para a tarde”, como se dizia, mas também para ocorrerem ao inesperado, ou então tinham de vender terras e gados para pagar uma qualquer cirurgia ou outros cuidados de saúde mais dispendiosos. De uma maneira geral, só chamavam o médico quando viam que a coisa tinha atingido um tal estado que já não era resolúvel por si própria e pelas mezinhas caseiras. Claro que o nosso objectivo era muito mais o do alívio sintomático e a melhor resolução possível da situação, não havendo, por falta de meios de toda a espécie, nomeadamente meios auxiliares de diagnóstico, grandes preocupações de investigação e de diagnósticos precisos e etiológicos.

Uma das actividades para que mais vezes éramos solicitados era a assistência aos partos. Mas só quando a parteira habilidosa lá do lugar via o caso mal parado. Partos no hospital ou na maternidade eram uma raridade. A taxa de mortalidade neonatal andava pelos 25 por mil, a taxa de mortalidade perinatal pelos 40 por mil, a taxa de mortalidade infantil rondava os 60 por mil e a taxa de mortalidade materna atingia os 70 por 100.000. Fiz muitos partos, alguns à luz da candeia e do petróleo, em locais onde nunca passou Cristo, em que a camita de ferro da parturiente era por cima do curral da vaca. Quase todos os partos que fiz, por incrível que pareça, foram partos naturais, embora com auxílio de episiotomias, do fórceps e sobretudo da ventosa, o que a meu ver, pode pôr em causa a actual necessidade de muitas cesarianas.

As gastroenterites, sobretudo em bebés e crianças eram frequentes, e só nos chegavam às mãos em adiantado estado de desidratação que nós tentávamos resolver com a ministração subcutânea de soro, dos dois lados da barriguita, deixando a criança com dois ventres, como um sapinho. Era praticamente impossível canalizar e manter uma veia numa criança daquelas. Em adultos, lá conseguíamos fazer umas infusões com as poucas soluções parentéricas de que na altura dispúnhamos.

Caía-nos em cima tudo o que fosse infecções e todas as doenças infecto-contagiosas possíveis e imaginárias, incluindo tuberculose, febre tifóide, mononucleose, tétanos, muitos casos de sarampo, cuja vacina fora descoberta apenas um ano antes, escarlatina, varicela, coqueluche, reumatismo articular agudo e subsequentes doenças valvulares, meningites e a difteria ou garrotilho que produzia a terrível toxina diftérica. Na difteria, o que mais nos atemorizava eram as situações de obstrução respiratória, produzidas pelas placas brancas da orofaringe. Uma vez estive com o bisturi na mão, decidido a fazer uma traqueostomia (abertura na traqueia) num catraio de cinco ou seis anos, mas optei por fazer outra coisa que não era aconselhável, pois poderia disseminar a toxina, isto é, arrancar as placas da orofaringe. Felizmente correu bem, e a criança é hoje um saudável adulto emigrante na Alemanha. Infecções pulmonares, pneumonias graves, apendicites que nos chegavam algumas vezes com peritonite e que encaminhávamos para um pequeno hospital de que nos valíamos, o Hospital Conde de Sucena, em Águeda. Todavia, falar em ir para o hospital era sempre um problema e uma solução muitas vezes não aceite pelos familiares, não só porque constituía uma espécie de sentença de morte, mas também porque se temia a conta que daí adviria. Então para o Santo António nem pensar, não sei se por ser mais longe, se pela sua envergadura.

Acidentes de trabalho, por vezes com graves feridas e traumatismos, fracturas e queimaduras extensas, tudo situações que nos exigiam grande responsabilidade, muito tempo de tratamento e a aplicação rigorosa de todos os conhecimentos aprendidos na faculdade, que não eram poucos nem frágeis, pois a nossa formação, na altura, foi muito boa. A medicina no trabalho não existia, embora começasse a nascer em conceito. Havia algumas pequenas empresas, sobretudo na área das madeiras, dos lacticínios e da metalo-mecânica, mas o trabalhador era uma máquina como qualquer outra, tendo de ser reparada quando avariava. O trabalhador não tinha quaisquer direitos laborais e era-lhe negada a possibilidade de ser um sujeito activo na construção da sua própria saúde, incluindo o controle de factores que a determinavam positivamente, factores protectores, ou que a punham em risco, factores de risco, quer dentro quer fora do local de trabalho.

Frequentes situações de insuficiência respiratória e graves crises de asma, silicoses, insuficiência cardíaca grave, com edema agudo do pulmão. Ainda nos valíamos dos garrotes e da sangria. Arritmias cardíacas que classificávamos conforme podíamos, sem qualquer registo electrocardiográfico, e que tentávamos reverter quando havia repercussão clínica. Cardiopatias congénitas e outras malformações, sobretudo aquelas que eram mais susceptíveis de diagnóstico clínico. O primeiro diagnóstico que fiz, a “solo”, de uma dessas graves malformações chamada coartação da aorta, foi num rapaz de vinte anos, pouco mais novo do que eu. Foi operado em Lisboa pelo Professor Celestino da Costa, e hoje, ao fim de mais de meio século ainda é vivo e ainda vem à minha consulta. Havia AVCs e enfartes do miocárdio, com diagnóstico apenas clínico, que encaminhávamos para o hospital de Águeda ou Santo António. Ao compararmos o que se fazia na altura perante um enfarte do miocárdio, por exemplo, e o que se faz hoje em termos de cardiologia de intervenção, damos com um abismo apenas preenchido por uma monumental ignorância. No fim de contas, o resultado era o doente morrer ou ficar com o coração gravemente mutilado.

Havia amigdalites muito frequentes e repetitivas, e como na altura havia grande medo do reumatismo articular agudo (RAA), quanto mais cedo extirpássemos as amígdalas melhor. Juntávamos três ou quatro pacientes, e uma vez ou outra vinha um otorrino de Lisboa a Oliveira de Azeméis de onde era natural, e passava pelo consultório, operando-os de empreitada.

Eram frequentes as cólicas renais e biliares, bem como doenças oncológicas terminais, cancros do estômago, cancros pulmonares avançados, com punções pleurais por vezes repetidas, nos confins da serra, para esvaziar o líquido pleural e aliviar a asfixia do doente. Gangrenas, cirroses e drenagens de ascites monstruosas, limpeza e tratamento, às vezes durante meses, de feridas de toda a ordem, nomeadamente feridas cancerosas da pele onde cabia um punho, cancros da boca, do pénis e do ânus.

Para terminar, gostaria de dizer que muita coisa que hoje é quase banal no nosso país, não existia na altura. Fui algumas vezes a Madrid com dois tipos de doentes: asmáticos e doentes com patologias cardíacas valvulares. Tratava-se, obviamente, de pessoas com dinheiro, ou, pelo menos, com posses suficientes para as despesas que não eram pequenas. Quanto aos primeiros, não havia ainda em Portugal a especialidade de alergologia nem a existência de vacinas, pelo que recorríamos ao Instituto La Paz, onde trabalhava um grande alergologista, o Dr. Ojeda Casas, e de lá trazíamos as vacinas. No que respeita aos doentes com indicação de cirurgia cardíaca, que não existia em Portugal, essencialmente implantação de próteses valvulares mecânicas, valíamo-nos do Hospital de Nuestra Senhora de La Concepcion, onde trabalhava um dos mais conhecidos cirurgiões cardíacos da época, o Dr. Gregório de Rábago, o qual operou o meu amigo e colega de consultório, estomatologista, filho do Dr. Teixeira da Silva.

                                                                              

Adão Cruz, 2016

(Correcções: onde refiro o Dr. Manuel Luciano de Almeida, quero dizer Dr. Manuel Luciano da Silva. Onde digo que ele queria provar que Colombo era americano, queria dizer português).

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por Augusta Clara às 16:15



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