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Jardim das Delícias


Domingo, 23.04.17

Barcelona, a cidade dos livros - João de Melo

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João de Melo  Barcelona, a cidade dos livros

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(Salvador Dali, Livro-árvore)

 

       A 23 de Abril de cada ano, dia do livro e de Sant Jordi, patrono da Catalunha, todos os caminhos da festa e do sonho vão dar a Barcelona. Os livros saem à rua, levados pelos livreiros e pelos editores. Desfilam à proa de grandes medas, sobre bancas alinhadas e que se estendem ao longo do passeio público. Abrem-se bibliotecas, escolas e instituições de cultura às contínuas multidões de leitores que deslizam por ali ao som da música “callejera” e de vozes que cantam ou apregoam os indecifráveis comércios de tudo o que se compra e vende nos dias de Barcelona. Há uma espécie de bramido de mar e vento salgado na confusão desses rumores. Espreita-se o recital de poesia à porta das livrarias mais conhecidas, dá-se passagem a figuras alegóricas da literatura em desfile pelo passeio central da Rambla, assiste-se à aparição de personagens ressuscitadas das páginas dos livros e à encenação de episódios que toda a gente identifica ou intui a partir das suas próprias leituras. É sobretudo nas alegres Ramblas que se concentram as figuras de carne e osso dos livros, mas não só. Aí estão os poetas e os escritores a autografar as suas obras, a receber mãos e beijos agradecidos, a polir o ego tímido com sorrisos e elogios murmurados ao ouvido. Faz parte da tradição e da liturgia que as damas ofereçam livros aos cavalheiros, e que estes lhes retribuam com rosas. O certo é que se trata de uma das festas mais felizes do ano em Espanha (observada, aliás, em praticamente todas as suas cidades, mas com graus de incidência variáveis), porque vibra no ar e na carne de toda a gente algo como um orgulho pessoal acerca da literatura. Como se todos nela celebrassem a beleza do mundo, o princípio da vida, o género humano e o privilégio da língua e da palavra.

De resto, não creio que haja, em toda a Espanha, uma cidade mais poética e sobretudo mais literária do que Barcelona. A existência de uma literatura catalã parece, aliás, estar toda nela contida: essencialmente urbana, sócio-histórica, cada vez mais mundana e cosmopolita. Apesar de ser um dos grandes destinos turísticos do país, é sobretudo pelos roteiros culturais da cidade que se movem as contínuas multidões que a visitam, vindas de todos os continentes. Barcelona é de uma beleza tranquila, mediterrânica, cheia de vida nas longas noites estivais e de vozes que falam todos os idiomas do mundo. Cidade compacta, anfiteatro de labirintos, coração capital de uma Catalunha dono e senhora da sua glória histórica. O circuito da arquitectura de Gaudí (todo o mundo mágico de Gaudí, aliás) não deixa de sugerir uma atmosfera de irrealidade e de evanescência que nos aproxima tanto de um surrealismo exposto, à Dalí, como de um património integrado que faz dela um berço e um navio de sonhos.

Também a literatura pode mover-nos em torno de uma visão subjectiva, referencial, centrada ora no presente ora na intemporalidade de Barcelona. Os seus poetas são outrossim os seus cantores. Ouço-os nos meus próprios passos: as suas vozes batem o silêncio ao crepúsculo, atravessando comigo o Bairro Gótico. Se passeio ao fim da tarde pela orla marítima, no porto, ao longo do corpo salgado, grosso e cavo do Mediterrâneo catalão, vislumbro logo a figura de Dom Quixote de la Mancha a chegar ali, trazido pela mão de Miguel de Cervantes para conhecer o mar, num dos capítulos mais poéticos que ainda hoje se podem ler sobre uma cidade tão literária como esta. E quando desço ou subo as Ramblas, vendo milhões de pássaros de todas as cores dentro das gaiolas, floristas com mãos doces e olhos pálidos, músicos e artistas de rua nos seus números, é por dentro de outros livros que viajo: por exemplo, numa página de «A Cidade dos Prodígios», de Eduardo Mendoza; ou numa outra de «A Sombra do Vento», de Carlos Ruiz Zafón (onde Barcelona assume a poética misteriosa da vida que vem nos livros). Movo-me nas “Últimas Tardes com Teresa” e nos “Rabos de Lagartixa”, dois livros de Juan Marsé; e nas páginas de um romance simples, acerca de tudo, que se chama “Nada”, de Carmen Laforet. Movo-me também num dos magistrais «Doze Contos Peregrinos», de Gabriel García Márquez, dedicado a Barcelona, cuja geografia suburbana me anuncia o vento e os caminhos do grande feitiço, assim como a música das suas palavras. Mas existem páginas inesquecíveis nos livros cheios de bares e esplanadas de Terenci Moix, Enrique Vila-Matas, Manuel Vázquez Montalbán, Rosa Regàs e Pedro Zarraluki. Porém, quando vagueio ao acaso das ruas de Barcelona (ao acaso das vozes, dos odores, do peso rigoroso das coisas à tona dos meus cinco sentidos) - é aí, profundamente, totalmente, a cem por cento, que me sinto a bordo de um livro único: «A Praça do Diamante”, de Mercé Rodoreda. A escritora por antonomásia de Barcelona. Mercé está para a Catalunha como Flannery O’Connor para a América e Virginia Woolf para o Reino Unido. Quero dizer: o universo inteiro de qualquer literatura. Benditas sejam portanto as pessoas felizes que lêem e que vivem em Barcelona, a cidade dos sonhos e das palavras, cidade da vida que inspira a memória poética da literatura - e que, por sua vez, também a inspira e a explica! 

 

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por Augusta Clara às 14:16

Quarta-feira, 14.12.16

Ler, vender romances e fazer mágicos - Carlos Vale Ferraz

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Carlos Vale Ferraz  Ler, vender romances e fazer mágicos

 

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InComunidade, Ano 4, Edição 51, Dezembro 2016

 

   Como tantos outros escritores sou às vezes convidado para falar dos meus romances em escolas e noutros locais, para almoços, jantares, tertúlias. Falo com professores, leitores, editores, bibliotecários, livreiros, pessoas que gostam de livros, de romances. Muitas vezes com elevadas habilitações, com muito maior experiência do que eu de contacto com jovens e menos jovens. Ganhei de todas as conversas, charlas e encontros um enorme capital que devia ser de esclarecimentos, mas acumulei dúvidas e perplexidades. Nenhuma das causas para os males da leitura de romances que tenho ouvido me parece responder a essas dúvidas. Existe uma questão comum nas explicações: porque não lêem os jovens, porque não se lê em Portugal? Reuni um catálogo com razões para todos os gostos. Acredito na validade de todas elas: a civilização do imediato, que não concede tempo para a leitura, as novas tecnologias, as intermetes, os tabletes, os telemóveis, os headphones, a cultura do indicador e do polegar, do teclado e do ecrã tátil. A preguiça do ver em vez do ler e do pensar, o pronto-a-vestir das ideias e dos conceitos, a facilidade do Google em vez da complexidade do pesquisar, o caminho direto em vez do labirinto. Ler cansa os olhos, pesa no bolso.

Sinceramente, penso que boa parte da responsabilidade pelo afastamento das pessoas ditas normais, jovens e menos jovens, é dos escritores e daqueles que deviam ser os seus agentes, os editores e os promotores dos livros de ficção. Tenho-me aproximado desta conclusão aos poucos, à medida que vou ouvindo as apresentações que fazem de mim e de colegas meus nessas sessões. Um bilhete de identidade um pouco mais desenvolvido: Local e data de nascimento, lista de obras, resumida, e aqui está o senhor que temos muito prazer em receber e a quem agradecemos a presença. É assim numa sala de aulas, num anfiteatro de biblioteca, num estúdio de televisão. Cá está um funcionário que escreve livros, igual a um operário que faz tijolos. Alguém está interessado num tipo que faz tijolos? Numa criatura ensimesmada, sem charme, que não causa “pica”(embirro com “pica”, mas…), que agradece humildemente falar da sua obra?

Os professores de português, de literatura, os críticos, os jornalistas culturais explicam o romance, ou o conto como um engenheiro civil explica o tijolo: através da composição química, da resistência aos elementos, do número de buracos tem, se não for tijolo burro, da utilidade: quantos tijolos são necessários por metro quadrado. Os mestres literários falam dos romances e dos contos do mesmo modo: o tema principal da obra é, por exemplo, a eterna luta do bem contra o mal, dos tempos da narrativa, das personagens principais e secundárias que variam entre o herói e o anti-herói… Cinco minutos depois o escritor está enterrado, assim como a obra. Aquela criatura carrega os males do mundo, reflete sobre o destino da humanidade, trabalha como um escravo, mas audiência já está noutro lado. Depois o escritor fala, nos casos mais comuns leva-se a sério, assume o seu papel de pensador, de herói ignorado da luta pela cultura nacional tão ameaçada, é um agente cultural que ali está. Ninguém compra esta cultura nacional tendo a selecção nacional de futebol no Palácio de Belém, ou sessões pornográficas em contínuo na Televisão da Teresa Guilherme, ou as sessões da tarde do Portugal é nosso, com concertinas e adolescentes gorduchas a dar à perna para a plateia nacional O escritor é um oráculo, mas isso também é uma senhora que vende horóscopos na televisão. Nos casos mais próximos da imortalidade fala do Homem, mas isso fazem os pastores da igreja maná a multidões nos estádios! O Homem onde tudo começa e acaba. Do Homem entendido como ser humano. Quando o escritor fala do Homem e da sua transcendência – e acreditem que este é um tema das sessões de promoção de romances e escritores, já a audiência está a pensar no jantar, nas férias, nos números da lotaria. E depois há o tema dos sentimentos, que são como os fundos dos mares, mais ou menos profundos. No final, o que levará alguém a ler o tijolo que um operário construiu com o que tinha à mão e com tanto esforço? E a comprá-lo?

Não, o culpado pela seca, pela falta de interesse não são as novas tecnologias, nem a cultura do imediato. A culpa é da chatice dos editores, promotores e escritores. A mais moderna estratégia para ultrapassar o interesse pela literatura é fazer de escritor-palhaço. Quem trata do assunto entendeu que, para incentivar a leitura de um romance, o escritor deve rapar o cabelo, colocar brincos nas pálpebras, cantar um fado, fazer o pino, contar anedotas. Há quem siga esse caminho. Não existindo matéria-prima literária, embrulham a redacção que lhes saiu do computador numa outra capa – que quem tem sempre escapa. Pode ser uma sessão espirita ou a apresentação do ou da namorada, do cão, do gato. Até de um prato de bacalhau. É o truque do escritor feira de enchidos, muito vivenciado e experienciado.

Tenho passado por todas estas dúvidas. Os livros electrónicos vendem mal, os escritores electrónicos também. Os dos programas da manhã são abafados pelas capitosas apresentadoras, os da tarde pelos que andam de mal de amores e das cruzes. Resta a pergunta: para onde foram os antigos leitores de romances? Os concertos estão cheios. Tanto os de música clássica como os das modernas expressões de efeitos especiais. Idiotas sobre um palco enchem salas e escritores tão idiotas como eles são votados ao desprezo, a questão não está na qualidade, nem na indigência, nem no que escrevem nas letras a acompanhar as músicas ou nos romances. Os estádios de espectáculos desportivos estão cheios e as livrarias vazias. E não se escreve melhor com os pés do que com as mãos. Em geral, claro. Os romances são difíceis de perceber, também a lenga-lenga do rap!

Onde está então a diferença entre um concerto, um jogo de futebol e um romance? Há a questão do grupo, do sentido de pertença a uma tribo, a um grupo, a um gangue. Os fans de um músico ou cantor, os adeptos de um clube ou de um jogador sentem o prazer da exibição da pertença, a excitação da matilha que vai à caça. Contra essa excitação a leitura de romances nada pode. Mas pode competir noutras áreas. O romance e o escritor têm uma qualidade que os distingue: são criadores de fantasias. São mágicos e têm de ser apresentados como mágicos. Eu gostava – tenho pensado nisso – de ser apresentado assim, ao som do rufar de tambores: Este senhor (Carlos Vale Ferraz, no caso) criou (criou e não escreveu) uma história que ninguém viveu ou viverá! Criou personagens que os leitores podem encontrar na rua, mas que nunca serão as que o respeitável público julga conhecer e terão pensamentos sobre a vida que talvez reconhecem de outros lugares, de outras pessoas. Este senhor já ouviu mortos falarem da sua vida. É verdade, acreditem. Leiam o que ele tem aqui dentro deste livro. E conheceu um tipo numa floresta de África que andou três dias com um amigo às costas até o salvar e o amigo só se manteve vivo para não o desiludir! E descobriu um homem que nunca se apaixonou até ao momento em que… Também criou uma mulher que escondeu o filho até ele enfrentar quem a desprezou e sabem como? Coisas assim. Se os escritores fossem apresentados como mágicos, em vez de homens que dão conselhos, que mergulham nas profundezas do ser… trabalhadores da escrita! Não os escritores não são trabalhadores da escrita, não são sequer trabalhadores. Fogem do trabalho inventando outros mundos! Se os livros fossem apresentados como caixas de segredos de onde saltam histórias maravilhosas, criminosos, amantes, mulheres louva-a-deus julgo que haveria muito mais leitores para os romances e para os contos. Digo eu…

Carlos Vale Ferraz

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por Augusta Clara às 20:30

Terça-feira, 27.01.15

RECORDAR É VIVER (no cinquentenário do livro LUUANDA de Luandino Vieira) - Leonel Cosme

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Leonel Cosme  Memórias de Imbondeiro e Luuanda

 

(texto publicado, em duas páginas com gravuras, no quinzenário As Artes entre as Letras nº137, de 31de Dezembro de 2014, Porto)

 

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   Duas justificadas e quase simultâneas comemorações que ocorreram no passado mês de Novembro, uma no Porto, outra em Ponte de Sor, - o cinquentenário do livro de contos de Luandino Vieira “Luuanda” e o centenário do nascimento do escritor Garibaldino de Andrade – fizeram aflorar à minha memória, ocasionalmente desperta, antigas vivências que remetem aqueles dois nomes para um mesmo passado em Angola. Falo de um tempo de cultura, acção e circunstância que fez e faz história (para quem a saiba ou queira saber), mesmo com as reservas que levaram John Steinbeck a ponderar que “a verdade do historiador só é verdade até que alguém passe e faça um novo arranjo do mundo no seu próprio estilo.”
Isto é certo quando alguém arrisca a fazer história pela leitura de memórias ou interpretação de factos. Mesmo que uma personalidade historiada tivesse acatado o conselho de Gabriel García Marquez – “Geralmente as memórias são escritas quando o seu autor já não se lembra de nada, e eu acho que deve começar-se mais cedo a escrevê-las”- nem por isso a “verdade” escaparia à contingência humana de que falava Blaise Pascal: “Somos tão vaidosos que quiséramos ser conhecidos em todo o mundo e também pelos que hão de viver quando nós já não vivermos.”
Ressalvando uma posição de interesse, e pensando em Garibaldino, meu companheiro de cultura e acção na criação das Publicações Imbondeiro, na cidade então chamada Sá da Bandeira, resistirei a biografá-lo cabalmente, agora e aqui (embora já o tenha feito, por duas vezes, em duas homenagens, a primeira em 1992, prestadas pela Câmara Municipal de Ponte de Sor, perante curiosos, amigos e familiares), privilegiando os factos que fazem realmente história, porque insusceptíveis de “arranjos” ou “estilos”.
O alentejano Garibaldino de Andrade, que viveu no sul de Angola entre 1953 e 1969, morreu com 56 anos, na sua terra natal de Ponte de Sor, onde nasceu a 8 de Novembro de 1914, sem ter tempo para escrever diários ou apontar memórias. Sequer para lembrar que no seu livro de contos O Sol e a Nuvem, editado pela Portugália em 1946, emergem os “levantados do chão” que guindariam, em 1980, José Saramago até às alturas do grande romancista que foi.
O que falará por Garibaldino são os seus romances alentejanos e os contos angolanos que ainda pôde escrever, nos curtos intervalos da sua actividade como “professor de meninos” do ensino primário e as exigências da co-gestão da editora Imbondeiro. Tudo com pressa, pois, como muitas vezes dizia, brincando, “não passarei dos 55 anos”. Enganou-se: viveu até chegar aos 56… pois viu a vida encerrada, por doença implacável, a 28 de Fevereiro de 1970. Mas poderia ter dito, e não disse - porque era visceralmente um homem modesto e discreto – como o brasileiro Mário de Andrade, que morreu com 52 anos: ”Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que vivi até agora. Tenho mais passado do que futuro.”
Do que valeu a sua acção editorial na Imbondeiro poderá aquilatar quem leu ou queira ler o que sobre o assunto escrevi, detalhadamente, no capítulo “O tempo da Imbondeiro” inserto no livro Agostinho Neto e o seu Tempo, publicado em 2004 pela Campo das Letras. Aqui e agora, julgo suficiente fixar que nos cinco anos da sua duração – 1960-1964 – a editora lançou 68 cadernos mensais, na Colecção Imbondeiro, preenchidos com textos de contistas e poetas, novos e consagrados, originários de todos os territórios de língua portuguesa, incluindo o Brasil,com tiragem já próxima dos 2.000 exemplares; 2 antologias só de contistas e 4 só de poetas. A última destas, constituindo o caderno nº5/6 da Colecção Mákua, dedicado a “Grandes Poetas do Século XX”, representativos de vários países, foi considerada, por estudiosos da literatura mundial, como o seu antologiador brasileiro Jonas Negalha, “única no género”.
Para se ter uma ideia plena, diga-se que os poetas escolhidos foram, por ordem alfabética: Attila Jozsef, Bertolt Brecht, Elias Simopoulos, Eugen Jebeleanu, Fernando Pessoa, Gaston-Henry Aufrère, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Jiriu Wolker, Langston Hughes, Pablo Neruda, Rafael Alberti, Thomas Stearns Eliot e Vladimir Maiakovski.
Não se estranhe, hoje, que não apareça ali o nome de Agostinho Neto, como Poeta Nacional que foi. Embora já incluído, antes, numa antologia de notáveis poetas de língua portuguesa, a internacionalização do seu nome só se verificou, entre nós, após a publicação do livro Sagrada Esperança, em 1974. Num projectado caderno seguinte seriam divulgados outros nomes de impacto mundial. Se a Imbondeiro continuasse…

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 17.09.13

Berlim, rataplão-plão-plão, sinfonia de uma capital - José Riço Direitinho, em Berlim

 

José Riço Direitinho  Berlim, rataplão-plão-plão, sinfonia de uma capital

 

 

 

 

Publicado no suplemento Ípsilon do Público em 15 de Abril de 2010

 

Os eléctricos da República de Weimar, a Torre da Televisão da ex-RDA, os bares sem moral da Alemanha reunificada: ao longo de todo o século XX, a Alexanderplatz foi um símbolo das metamorfoses de Berlim. O escritor  José Riço Direitinho atravessa agora a turbulência desse século com Franz Biberkopf (mais a informadora polaca, o agente russo caído em desgraça, a turba anti-semita e Fassbinder, pela trela da Schygulla) num texto que continua, como se fosse hoje, o romance de Alfred Döblin. 

   Este texto conta o que durante décadas se passou em Berlim com um tal Franz Karl Biberkopf [que um dia, no Inverno de 1928-29, num outro mundo, se apropriou dos documentos de Franz Biberkopf - em tudo igual a ele - falecido no Hospital Psiquiátrico de Buch]. Berlim é grande. Um frio de rachar, um calor de queimar. Franz Biberkopf, antigo trabalhador dos cimentos e mais tarde do transporte de mobílias, também assassino, vendedor de quinquilharia a retalho e de jornais, chulo e assaltante, está bem morto. Há um novo homem, um homem novo. Rufam os tambores, trrumm trrumm trrumm, há gritos e pólvora, barulhos, júbilo. A decência a todos pede sacrifícios [a uns mais do que a outros, ó Franz, a ti o anjo mau tam'ém não te tirava os olhinhos de cima, pá]. Foi preciso o teu sacrifício na pira berlinense, pois então. Isaac não podia escapar mais uma vez a Abraão. Peguem fogo aos madeiros depois de regados com petróleo de alumiar! Que se acendam as fogueiras! Imolem-se as ovelhas negras e as ranhosas nas piras sacrificiais por muito que isso vos custe! Depois da Morte há uma vida nova [Aleluia! Aleluia!], e desta vez calhou essa prenda a este novo Franz Karl Biberkopf, que é em tudo igual ao morto, como já foi dito, até na falta do braço direito. Portanto, à saúde deste homem novo. Mas seremos nós capazes de beber o cálice sem desconfiar dele, minhas hienas? O machado é o mesmo para todos, não nos esqueçamos. Às vezes as coisas correm de outra maneira, nem sempre se consegue o que se quer. Paciência! E este também vai querer ser um homem decente [achas que vais ser capaz, ó Franz Karl?]. Há que dar então outra vez o retrato dessa dor, dessa luta, parece uma coisa sem fim, este contar.

Mas antes de este texto acabar, ainda se convocará também para aqui o senhor realizador Rainer Werner Fassbinder [ou será o Franz Karl por ele?], que se apresentará uma noite no bar "A Era do Vazio" [Lipovetsky Str., Kreuzberg, Berlin, Deutschland] em versão decadente e muito berlinense, isto é, apenas trajando as suas habituais botas de cano alto, portanto nu, no pescoço uma coleira de bicos de onde pende uma corrente comprida puxada por uma loura rechonchuda, uma tal Hanna Schygulla, [e com licença do prezado leitor] estará ele de pila na mão e toalhinha de bidé [para o que der e vier] a adejar no braço, à garçon canhoto, portanto. Mas lá chegaremos, para tanto as musas nos inspirem.

Outra vez largado ao mundo

O Inverno de 1965 estava a ser um dos mais frios de que se lembrava. Os dedos roxos, encurvados, enregelados. Parecia-lhe que nunca tivera tanto frio, nem quando dormira meses ao relento como um javali entre os arbustos do Tiergarten, que as árvores tinham desaparecido, também ele as ajudara a cortar em troços pequenos para fazer lenha, já lá vão quase 20 anos, ainda se viam muitas bombas meio enterradas que nunca chegaram a rebentar. Chovia quando lhe abriram o portão e os dois polícias o puseram cá fora. E continuou a chover. "Vai e não tornes a pecar", pareceu-lhe ouvir dizer numa voz doce, mas não me podem ter disto isto, é a confusão na minha cabeça. Estava diante dos muros altos cinzentos de arenito da Hohenschönhausen, a prisão, o campo de trabalho, o quartel-general da Stasi, assim tudo junto, e bem murado. A roupa que agora trazia era a mesma com que entrara, a que tinha vestida quando o foram buscar às águas-furtadas com maus modos, calças finas e casaquinho leve, só a camisa o aconchegava mais, era de flanela já muito puída. Valia-lhe também a boina de couro mal tingida de preto. E agora outra vez largado para o mundo, ó Franz Karl! Berlim é grande. Bem sei que a culpa não foi tua, desta vez não fizeste nada, mesmo nada. Mas guardaram-te durante três anos e mais uns mesitos, muitos dos quais no "U-Boot", no "submarino", no isolamento daquelas celas frias debaixo do chão. E interrogavam-te e acordavam-te e batiam-te, tinhas que falar, mas eu não sabia de quê. Agora tens que esquecer. Vá, faz-te ao mundo, tem-te nas pernas, firma-te, estás um bocado escangalhado da porrada e escanzelado das 14 horas de trabalho por dia, carregar pedras descarregar pedras, abrir buracos fechar buracos, e tudo só com um braço, o esquerdo, porque a prótese é disfuncional, mas há que evitar fazer a vida mais difícil do que ela é. Agora tens que esquecer para que o veneno não te afogue a cabeça, bem sabes que isso pode ser o pior. Berlim é grande.

O despeito é sempre um curto caminho para a vingança. Foi a Lina, aquela polaca gorducha, foi ela que inventou a história que te meteu dentro. Ao fim de tantos anos, deu-lhe para ser informadora, não custa nada, a boca que ela abre para contar da vida dos outros é a mesma que eles lhe atafulham de comida, e ainda lhe dão mais uns trocos para se embonecar. Tu não a conheces, nem ela a ti, mas ela conhecia o morto, muitas foram as noites dormidas juntos, e dias passados, e até tiveram juntos uma banca de jornais na esquina da Invalidenstrasse com a Chausseestrasse, vê lá tu! Ela topou-te na estação de metro da Alexanderplatz e pensou, olha, aqui vai o meu Franz Biberkopf, o cabeça-de-castor, o bode feio que me encornou com meia Berlim [a dor de corno leva sempre a muitos exageros, esta é uma verdade muito experimentada], e finge que não me conhece! Ela não sabe que esse morreu, o Franz, e que tu és o novo homem, o homem novo, o Franz Karl. E seguiu-te até ao prédio onde moravas. Foi fácil. Depois inventou a história dos panfletos contra o regime e as conversas com os americanos, e falou com os patrões dela lá da Stasi. E eles engavetaram-te, sem mais nem ontem. Obrigações dos amanhãs que cantam! Que a malta tem que ser mantida à rédea curta! E tu a esforçares-te para ser um tipo decente! A vida é grande. Mas Berlim é maior. Nunca desistimos.

 

 

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