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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 15.05.17

São de lágrimas os olhos das andorinhas - Eva Cruz

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Eva Cruz  São de lágrimas os olhos das andorinhas

 

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(Augusto Peixoto)

 

 

Acordo com a luz da Primavera

foram-se os cheiros e as cores

a alegria do verde e o azul do céu.

Uma brisa suave leva-me  onde amei

dentro de um sonho que perdeu o futuro.

Não me dou com o malvado do tempo

que nada corrige e a nada obedece.

Fico à espera da manhã azul

e o  tempo adormece.

Os pássaros enamorados

não sabem que o Outono cinzento volta.

Julgam-se donos do mundo.

Tenho vontade de lhes contar a verdade.

Que vivam na ilusão! A Primavera volta sempre, ou talvez não...

Acordo com a luz da Primavera, mas ela vem despida de

azul e são de lágrimas os olhos das andorinhas.  

 

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por Augusta Clara às 15:57

Quinta-feira, 11.05.17

Peregrina da saudade - Eva Cruz

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Eva Cruz  Peregrina da saudade

 

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(Tara Turner, "The same but different")

 

 

   A estrada é de maias amarelas. Solitário, o asfalto cinzento guia os olhos por detrás das lágrimas. Os montes caem em socalcos desdobrando a verdura sob o brilho do sol, coado por núvens brancas a delir-se. As maias são o tempo passado  que há-de voltar. O tempo, tal como o rio, não é de parar.

Os plátanos soltam as plumas e no rio de sombras e brumas  cai o sol a brilhar. Para tràs ficaram as maias amarelas e parte da vida com elas. O Maio há-de voltar de novo,  a florir, quer deseje cá estar, quer deseje  partir.

O rio, negro e fundo, corre manso e frágil sob as águas trémulas, cobertas de algodão branco, como manto de neve no calor da tarde.  Nem o  algodão branco, nem os pássaros vestidos de céu devolvem ao rio da vida  o brilho que a vida perdeu.

Peregrina da saudade, percorro os mesmos caminhos e atravesso as mesmas pontes, segurando-te a mão. Lá em baixo, o rio  reflecte o mesmo céu, mas as  aves nada me dizem, não sabem de ti.

Oiço apenas o eco dentro de mim, o eco da serenidade e da partilha , para o bem e para o mal, naquele cantinho enfeitado com o meu chá e o teu jornal.

Escrevo-te da varandinha do quarto para te dizer que  os plátanos estão enormes. São dois, entrelaçados, abraçando o céu. Como nós, se a noite não fosse vazia e a mão estendida não fosse apenas a coberta branca e macia. 

No banco, à beira do rio, o cantar das rãs rompe a saudade. Tenho tanta inveja do rio, sempre vivo, sem idade!

Peço às estrelas que escrevam no céu, ao lado  de Corconte, a lenda do Palácio cor-de-rosa, que no silêncio daquela tarde, reflectido nas águas do rio, retoma lentamente e  para sempre a cor da pedra.

 

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por Augusta Clara às 17:43

Quarta-feira, 22.03.17

"Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera" - Eva Cruz

 

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Eva Cruz  "Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera"

 

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 (Imagem de Toshiyui Enoki)

Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera.

Vestida de menina despida de nada nesta emboscada do sonho perdido.

Voam borboletas brancas prenúncio de vida a partir do nada.

E chegam as primeiras andorinhas e o cantar dos melros.

Procuro-te por toda a parte e lá te encontro em tudo o que nasce.

A árvore vai florir de novo em seiva de cinzas.

A minha vida corre para a tua ausência e uma nova natureza há-de cantar o nosso encontro.

Tive um sonho .

Um sonho lindo!

Novos filhos nascem do nosso amor.

Vestidos de Primavera.

 

Nota: Em homenagem ao Orlando que agora partiu e foi o companheiro de toda a vida da Eva Cruz, uma amiga de ambos escreveu o texto que se segue:

 

(Relembrando com saudade a última vez que estive com o Orlando…)

 

   Murcharam as rosas que a Eva comprou no Dia dos Namorados. Duas. Vermelhas de sangue, de vida, de paixão. A Eva alimentava o Amor com pequenos gestos, momentos de ternura, rituais próprios… Orlando retribuía com um sorriso cúmplice, a tender para o irónico, os olhos babados de admiração e orgulho. Gente feliz!

Fevereiro era frio e o vento entrou, causando estragos. Nas flores e nos corações…

A Eva bem que tentou manter as rosas vivas por mais tempo mas o esforço foi inútil. Em vão as cuidava diariamente, o frio fora implacável. As rosas são efémeras e as pétalas foram caindo uma a uma…efémeras como a vida!

Em casa da Eva haverá sempre duas rosas vermelhas que nenhuma aragem poderá destruir. E que o seu perfume suavize o momento!    

Obrigada, Orlando, por ter adotado como seus os amigos da Eva!

Obrigada pelo convívio, pelas conversas, pelas viagens e pelos bons momentos que partilhámos em conjunto!

Obrigada por ter sido o amante, o companheiro, o cúmplice, o crítico que fizeram da Eva uma mulher feliz!

Será sempre recordado com muita saudade.

Carmina, 15/3/2017

 

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por Augusta Clara às 21:00

Quarta-feira, 22.03.17

Começo a entender - Adão Cruz

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(Janet Fitch)

 

(Para a Eva)

 

Começo a entender dentro desta idade esgotada

Que a vida tem sempre uma entrada que vai dar ao nada

E tem sempre uma saída que é sempre partida

Para nova entrada que vai dar ao nada.

Começo a entender nesta idade avançada

Que a ilusão é sempre entrada

Para a saída desencontrada da desilusão.

Começo a entender nesta idade escurecida de emoções

Palmilhada ao lado da fantasia e da loucura

Que o sangue dos sonhos e da esperança

Nunca pintou as caras pálidas das multidões.

Começo a entender no fim de contas desta idade

Que no deve-haver da memória e do segredo

Não há mais entrada para as palavras

Nem qualquer saída  para o medo.

Começo a entender que o roçar da vida

O rumor dos passos

A pedra do moinho a apertar o peito

O sol e a lua das Figueiras

E o saudoso cair da tarde dentro de mim

Nada mais são que restos perdidos do íntimo silêncio

Das esquinas de um tempo que sobrou até ao fim.

 

Adão cruz, 12 de Março de 2017

 

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por Augusta Clara às 00:29

Sexta-feira, 06.01.17

Dia de Reis - Eva Cruz

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Eva Cruz  Dia de Reis

 

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(Monica Mora e Robin Ryan) 

 

Nasci a 6 de Janeiro.
Minha mãe dizia-me:
— Es rainha. Mas o mais importante é seres rainha nas virtudes.
Não fazia a mínima ideia do que seriam virtudes, e ainda hoje não sou capaz de medir o alcance das suas palavras.
O Dia de Reis era um dia especial.
Começava logo pela véspera, a primeira consoada do ano. Já noite dentro, lá vinha a toada dos Reis, as Janeiras, tocadas e cantadas por músicos da banda que nas festas se exibiam no coreto.
Muito distante no tempo, recordo apenas o som vivo do clarinete que cortava o silêncio sagrado da noite.
Um quarteto de homens vestidos de preto surgia na faixa de luz quando a porta se abria, ofuscados pelo reflexo metálico dos instrumentos.
O Dia de Reis era Dia Santo e as férias do Natal duravam até lá.
Sempre se festejaram os meus anos com amiguinhos da escola, cacau ou banacau, pão com manteiga e doce sortido.
Na mesa havia camélias brancas, as flores preferidas da minha mãe.
Brincadeira até à noitinha, a saltar à corda, jogar à cabra-cega, à patela, à roda ou a correr pelos campos.
As escondidas, lá íamos mirar o poço velho, de onde se tirava água com um sarilho. Era um dos maiores perigos do lugar.
O poço não tinha vedação e nós espreitávamos à volta. Lá em baixo, as nossas cabecitas reflectiam-se nas águas paradas, e no ventre da fantasia e do mistério, via sobre a minha cabeça uma coroa de rainha. Um poço de virtudes, soubesse eu o que eram virtudes!
Fui também rainha dos campos, com coroas de pampilos amarelos tecidas pela inocência da infância. Rainha dos montes com grinaldas de perfume das giestas e eucaliptos. Rainha do rio, com coroas de juncos ou bailando nas cheias que cobriam os lameiros, arrastando tudo em séquito majestoso.
Quando colhi as últimas camélias para a minha mãe, no Dia de Reis, tinha ela cem anos. Com a frescura e a brancura de Janeiro, poisei-lhe um ramo, ao de leve, no regaço.
— São as suas flores predilectas.
— São lindas.
— Faz hoje anos que teve uma menina, estavam a tocar as três para a missa. Lembra-se?
O seu rosto vestiu-se de uma expressão serena, perdida no tempo.
— Talvez.
— Teve uma rainha, não foi?
Revelou alguma surpresa, no ingénuo sorriso da candura da idade.
— Estou agora a sabê-lo!
Todos os Dias de Reis me apetece colher camélias brancas, mas as que mais gostaria de colher ficaram para sempre no seu regaço.
 

(in Cenas do Paraíso, ediçõesengenho)

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por Augusta Clara às 18:00

Terça-feira, 22.11.16

Ouve-me, meu amor! - Eva Cruz

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Eva Cruz  Ouve-me, meu amor!

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(Kaori Nagayoshi)

 

   A enfermaria era mista. Quando se trata de vida ou morte, não há fronteira entre sexos.

A angústia e o medo ensombravam os olhos dos familiares acom­panhantes. A doença anula o raciocínio.

Na cama do lado, a Sónia de vinte e seis anos. A cabeceira, o seu nome e a data em que nasceu. Muito branca, olhos azuis, umas sar­das a pintar as maçãs do rosto, rentes ao nariz uns cabelitos loiros a fugirem da ligadura que lhe envolve a cabeça. Os olhos muito aber­tos fixam-se nos olhos rasos de lágrimas da cama ao lado. A Sónia perdeu a fala, não diz nada para além da expressão do olhar vazio. Assim esteve três dias.

A Sónia é um caso muito especial. Uma hemorragia cerebral.

Teve várias visitas. Entre elas um rapaz, o José Carlos, cara morena e bigode preto. Tinha vinte e oito anos.

Tratava-a como quem trata uma criança. Muito mimo e muito humor. Chegava e partia a sorrir.

Contou que se sentia muito feliz. A Sónia ressuscitou. Sou o homem mais feliz do mundo. Nem que a minha mulher fique paralítica e ape­nas olhe para mim, já me sinto o homem mais feliz do mundo.

Abriram-lhe o crânio, tiraram-lhe um osso que ficou enxertado na barriga a aguardar nova cirurgia. Foi recolocado um mês depois. A mesma barriga que alimentou o Henrique, o seu filho de dezas­sete meses.

Passavam os dias embalando o seu menino na troca de olhares azuis e negros.

Uma bela lição de amor.

Na cama em frente, outro olhar sem expressão. Uma senhora de meia-idade perdera a fala. A tempo inteiro, numa dedicação angus­tiada, o marido afagava-a com a dor dos seus olhos.

Dias depois, a senhora levantou-se, andou a pé. Um jogo ajudava a mão entorpecida a encontrar os gestos naturais.

A alegria voltou ao rosto do homem.

Uma manhã, de repente, teve uma convulsão. Fecharam-se as cor­tinas, tubos e mais tubos, técnicos, enfermeiros, médicos de branco, azul e amarelo, uma onda de cor e agilidade pela enfermaria dentro. A doente é levada. Sobe ao piso de cima e volta pouco depois, reani­mada. A cortina meio aberta, o ritmo arrítmico das máquinas e ele murmurando ouve-me, meu amor. Meu amor, tão doce e suplicante!

Ela já não o ouviu. A máquina parou. Puxaram-no, correu-se a cortina. Os tubos foram para o lixo. Evacuou-se a enfermaria dos acompanhantes.

Depois, um corpo envolto num plástico cinzento, sobre uma maca fria de lata, seguia pelo corredor frio de pedra.

E nos meus ouvidos ouve-me, meu amor, a ecoar no infinito.

A Sónia continuava de olhos abertos, impávida e serena, como todos os outros. Ninguém deu conta que a morte andou por ali na sua ceifa traiçoeira de ave de rapina.

Aprendi a relativizar a vida.

(in Cenas do Paraíso, ediçõesengenho)

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 29.07.16

O sapo cor de terra - Eva Cruz

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Eva Cruz  O sapo cor de terra

 

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(Pol Ledent)

 

   Um clarão alaranjado fazia adivinhar que a lua cheia ia nascer ali naquele bocadinho de serra, entre os bicos de dois pinheiros.

Já tinha regado o pátio, arbustos, flores e plantas. A água fresca do poço acalmara o calor tórrido do dia que findava. Muito pálidas, tremeluziam no céu umas luzinhas, e apetecia-me deitar-me numa cama de estrelas, lá no ar, a espreitar a lua antes de ela nascer. Ser um pokémon, um D. Quixote, uma bolinha de fantasia. Ser um momento de glória lá no infinito, onde tudo é possível.

De repente, passa-me um tira-olhos pela frente da cara, como uma flecha. Olhos nos olhos, parecia um helicóptero. E a minha fantasia foi atrás dele, outro pokémon. Num instante desapareceu. Os tira-olhos têm um campo visual muito amplo, e este era tão corpulento que estaria provavelmente a banquetear-se com todas as moscas e mosquitos das redondezas. Pareceu-me que tinha poisado num vaso de cravinas cor-de-rosa, daquelas que têm o perfume enraizado na lembrança, já a deixar cair as sementes. Procurei-o, porque diz a sabedoria popular que não fazem mal nem se atrevem a enfrentar os humanos.

Num vaso de húmido brilho vislumbrei, à luz do candeeiro que espreitava por entre a hera, um montículo castanho que não parecia ser terra. De repente, uma língua enorme e pegajosa dispara em direcção a uma aranha que fazia teia por entre as folhas, fazendo-a desaparecer. O sapo cor de terra, aninhado no mais reservado silêncio, virou para mim os olhos esbugalhados, como que a dizer: chchchiu!

Já há muito tempo que não via um sapo. Diz o povo que é bom sinal haver sapos.

Não o matem. Ele come todos os bichinhos prejudiciais à terra. Mas cuidado com o espinhaço de sapo esborrachado, é venenoso. Além disso ele mija veneno e pode cegar.

Muitas vezes ouvira isto na minha infância. Recordo as maldades dos meninos que punham um sapo na ponta de uma tábua e batiam na outra ponta fazendo o bichinho saltar tão alto que se perdia no ar. Ou homens que lhes enfiavam um cigarro na boca. Maldades que o pobre sapo não merecia.

Olhei para ele. De olhos fitos nos meus, ali permaneceu quietinho e discreto, de papo cheio, a saborear a frescura da terra acabada de regar. O meu Pokémon do dia, no meio das cravinas perfumadas.

Já não precisava de subir ao céu às escondidas da lua. Ela acabava de libertar-se, redonda e brilhante, da serra negra.

O sapo disparou novamente a língua, tão rápida e comprida, que até tive medo que engolisse a lua.

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por Augusta Clara às 23:15

Quinta-feira, 19.05.16

Mais uma amiga que partiu - Eva Cruz

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Eva Cruz  Mais uma amiga que partiu 

 

(À morte da amiga D. Conceição, companheira de sempre do nosso grande amigo Dr. Magalhães dos Santos)

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(Andrei Markin)

 

   Dizem que há uma torre branca de marfim para lá das árvores frondosas.

Quanto custa lá chegar!

O caminho sem regresso é do tamanho da vida, feito de maduras lágrimas e pedaços de sol e alegria, que se vão apagando lentamente ao longo do percurso.

Há quem acredite e quem não acredite.

Mas nada disso nos interessa agora.

Aqui e agora o que nos prende é dar contas à saudade.

À saudade de um exemplo de vida, à saudade de uma alegria amiga, à saudade de uns olhos doces de orvalho em cuja bondade cabia o mundo.

Sempre acreditei nesta torre de marfim para cá das árvores frondosas, vestida das pétalas brancas das rosas de Maio.

Mas não esperava que o Maio de hoje murchasse desta forma inesperada, roubando mais uma das rosas, a quarta, que teceram de ternura e amizade os nossos habituais jantares de convívio e a nossa vida. Os saudosos Eng.º Teixeira Pinto, Dr. Renato Figueiredo, Sr. Joaquim Matos e, agora, a D. Conceição. Permanecerão, de facto, não tenho dúvidas, na torre branca de marfim do nosso peito vivo, muito mais à mão do que a dos campos do infinito. 

 

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por Augusta Clara às 19:30

Terça-feira, 10.05.16

Não há hora nem dia para a Liberdade! - Eva Cruz

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Eva Cruz  Não há hora nem dia para a Liberdade!

  

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(Edouard Ambrose)

 

 

   Pelo caminho ouvi, atrás de mim, uma voz muito fresca:

- Tenha um bom dia, minha senhora.

Reparei que era um rapazinho, aparentando os seus dezoito anos, tão espontâneo e sorridente que me fez responder no mesmo tom:

- E tu também.

Tive vontade de meter conversa e perguntei-lhe o que andava ele ali a fazer.

- Ando aqui a ver se arranjo mais uns tostõezitos para o almoço.

Tinha uns olhos muito azuis que faziam adivinhar uma boa alma.

Perguntei-lhe a idade. Disse-me que já tinha vinte e cinco, nunca tivera trabalho, só fizera o sexto ano, vivera com a avó, mas agora estava sozinho porque ela fora para um lar. Nunca conhecera o pai, e a mãe só a vira em criança, mal dela se lembrava. Disse ainda que tinha o nome de dois santos, João Pedro, mas de pouco lhe terá valido.

Pareceu-me muito sincero, embora este tipo de história seja sempre o mesmo.

Perguntei-lhe se o dinheiro que tinha já chegava para o almoço. Abriu a mão com algumas moeditas e disse que o almoço custava quase quatro euros.

Pensei, com os meus botões, que me estava a querer levar mais algum. Tinha, no entanto, uma postura tão aparentemente honesta, que até me custou julgá-lo desta forma.

- Vamos ali que te pago o almoço.

- A senhora vai-me pagar o almoço? Então devolvo-lhe o euro que me deu.

- Fica lá com o euro, rapaz!

- Eu fumo, mas pouco. Peço às pessoas um cigarrito. Eu era capaz de cozinhar para mim, que a minha avó até me ensinou, mas não tenho dinheiro para o gás.

No pequeno café em frente, perguntei ao homem quanto custava a refeição.

- Três euros e setenta, lombo assado, o prato do dia, menos a bebida.

- Vê! Eu não lhe menti! Com a bebida vai lá para os quatro e tal.

Paguei-lhe o almoço e a bebida.

- Tens mais sorte do que eu, pois já tens o almoço pronto, e eu ainda vou fazer o meu.

- Então almoce comigo.

- Não posso, tenho gente em casa à espera.

Deu-me dois beijos, um de cada lado da cara.

Quando cheguei a casa, além da gente que tinha à minha espera, aguardava-me uma amiga com quem sempre partilhei o sonho de Abril. Trazia na mão o ramo de cravos vermelhos mais lindos que tive na minha vida. Robustos, e de um vermelho retinto e aveludado.

Esta amiga, todos os anos me deixa um cravo vermelho debruçado na minha caixa do correio, no dia vinte e cinco de Abril. Pela primeira vez, este ano, não vi o cravo vermelho na caixa do correio, nem consegui comprá-lo em lugar algum, apesar de me ter esforçado. Muito triste por me ter faltado a sua companhia em dia tão abençoado, ainda voltei à caixa do correio, já noite tardia, mas não o vi.

- Pela primeira vez não lhe deixei o cravo na sua caixa do correio. Não estive cá.

Dentro da beleza daquele ramo de cravos vermelhos havia um cartãozinho que, entre outras palavras de amizade, dizia:

- Não há dia nem hora para a Liberdade!

Não me enganei. O rapazinho era mesmo sincero, ao desejar-me um Bom Dia.

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por Augusta Clara às 17:20

Quinta-feira, 05.05.16

À noite é diferente - Eva Cruz

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Eva Cruz  À noite é diferente

 

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(Claudio Cargiolli)

 

 

   Decidi lá ficar, a dormir.

À noite é diferente, e é preciso alguma coragem para dormir num sítio tão ermo.

Acendem-se as luzes de fora, fecham-se os portões e cresce em nós uma sensação de segurança, dentro de portas. O lume a crepitar aconchega o espaço e faz companhia.

Cá em baixo, nada se ouve. Não há rumores. Lá em cima, nos quartos, já os pequenos estalidos da madeira ou o ranger do soalho, na calada da noite, impõem algum respeito. E se há vento, ainda que uma leve brisa, as portadas lanceiras e gastas do tempo abanam, fazendo chiar ou assobiar o ar através das frinchas.

As noites ainda são longas. Debrucei-me à janela, por detrás dos vidros, a olhar a meia-lua que espreitava por entre um céu cinzento, cheio de sono.

Contemplei o jardim, e por entre as sombras que o invadiam perdi a noção do tempo. Uma sensação confusa fez-me esquecer que existia, e dos tons ressequidos de plantas e arbustos nasceram folhas verdes e flores de mil cores. Senti que a vida, pesada e seca, me fugia dos ombros e voava pelos campos na leveza de um verso.

Escrevi duas ou três linhas na palma da mão e fechei-a. Encostei-me ao parapeito e tive vontade de a abrir e lançar ao vento essas palavras tecidas na alma e com elas colorir a noite cinzenta, já com tons de cobre lá para os lados da serra.

As doze badaladas no relógio da sala acordaram o silêncio.

Um relâmpago incendiou o céu e o negro da serra tremeu com o trovão. Trovoada perto! O céu desfez-se em água mas a lua lá ia escapando, em pedacinhos de brilho por entre manchas de azul.

Corri as cortinas brancas de linho e o ar do quarto acordou-me trazendo-me de novo ao seio do tempo.

O espírito é tão livre! À frente dos olhos haverá sempre uma janela.

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por Augusta Clara às 19:00



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