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Jardim das Delícias


Sábado, 22.07.17

Actualidade de Treblinka - José Goulão

 

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O poderoso e sufocante documentário inspirado no campo de extermínio de Treblinka que Sérgio Tréfaut acaba de nos oferecer, e que entra directamente no lote restrito de produções capazes de nos reconciliarem com a arte do cinema, tem como maior virtude a sua temível actualidade.

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«Andriy Parubiy, chefe das SS ucranianas de hoje, um favorito da NATO e da União Europeia, presidente do Parlamento de Kiev e identificado mentor do massacre de Odessa em 2014»Créditos / news.liga.net

 

   Tudo no filme atinge o espectador – a interminável viagem de comboio, os fantasmas que nele viajam, a incarnação da vida e da morte proporcionada pela figura lancinante de Isabel Ruth, as cores sem cor, as paisagens esbatidas e sem tempo olhadas por olhos que já não vêem, acompanhadas por palavras assombradas de quem sobreviveu depois de sentir-se morto – mas o grito mais alarmante que brota da tela é a actualidade do que é exposto aos nossos sentidos.

Ironicamente isso acontece através da evocação do campo de extermínio que os carrascos nazis se esforçaram por apagar até ao derradeiro vestígio, para nos convenceram de que nunca existiu. Dando-se ao trabalho de desenterrar centenas de milhares de cadáveres gaseados para os incinerar em grelhas gigantescas.

Haverá quem diga: isso foram outros tempos, já lá vão mais de setenta anos e foi obra de dementes inspirados por um louco.

Por isso o maior dos méritos do admirável trabalho de Sérgio Tréfaut é dizer-nos que não, aquilo não foi um fenómeno de época, a mente do ser vivo que foi capaz de tais degenerações anda por aí e basta-nos não levarmos a nossa vida ao compasso da informação de pechisbeque para descortinarmos as suas emanações, mesmo após cuidadosa aplicação do filtro dos paralelismos abusivos.

O documentário Treblinka é actual porque a realidade do início dos anos quarenta do século passado chega até hoje pela voz de quem sobreviveu à hecatombe. É uma actualidade factual, indesmentível, se bem que haja quem continue ocupado em garantir, até «cientificamente», que aquilo não aconteceu, foram exageros e vinganças dos vencedores.

Percebe-se, por isso, que as mentes perversas capazes de aceitar o extermínio em massa de milhões de seres humanos continuam activas, de modo algum satisfeitas com as tarefas de «limpeza» e «purificação» então executadas.

Os fenómenos expostos deste modo directo, porém, são mais identificáveis, portanto mais controláveis.

Eles são parte do perigo, ainda que não sejam a componente mais letal, sabendo-se que vivemos numa fase de perfídia, insídias e enganos. Os germes da verdadeira ameaça, temível e sempre latente, flutuam nas imagens e palavras de Treblinka e são um convite para que nos internemos mais nessa actualidade.

Aquela interminável viagem de um comboio da morte é uma metáfora da relação do ser humano com o poder, de como a fragilização dos mecanismos democráticos para controlo das actividades de governação e comando vai escancarando a porta dos desmandos.

Os nossos tempos são de democracias dia-a-dia mais frágeis, a que correspondem evidências de poderes cada vez mais absolutos e arbitrários. Ao compasso desta involução humanista vão florescendo manifestações de insensibilidade, de discricionariedade, de arrogância, enfim, de despotismo – e cada vez menos envernizado.

Há crueldade quando um presidente envia drones do seu gabinete para executar um «terrorista» a cinco mil quilómetros de distância, sabendo que a «operação» pode matar a família e dezenas de outras pessoas em redor, vítimas que passam de pessoas inocentes a «danos colaterais» num simples passe de estatística.

«Há crueldade quando um presidente envia drones do seu gabinete para executar um "terrorista" a cinco mil quilómetros de distância, sabendo que a "operação" pode matar a família e dezenas de outras pessoas em redor»

Há despotismo quando se arrasa um país, incluindo escolas e hospitais com meninas e meninos dentro, entregando-o depois a milícias selváticas, para se esquartejar um alegado ditador com o qual se mantiveram negócios e que, de um momento para o outro, é recomendável silenciar.

Há uma degeneração dramática da condição humana quando se tratam como párias, escravos, seres infra-humanos ou simples escória os milhões de vítimas humanas que pedem desesperadamente para sobreviver junto daqueles que são verdadeiramente responsáveis pelo seu martírio.

Há uma insensibilidade comprometedora quando se deixa a casta dos donos do dinheiro à solta para disporem da vida da maioria dos cidadãos, aos quais, paulatinamente, se vão retirando os direitos para se defenderem.

Existe uma arrogância despótica quando se encontra unicamente na imposição da austeridade aos mais desprotegidos a pretensa solução para as chamadas crises da sociedade, as quais, na maioria dos casos, não têm outras raízes que não sejam os obstáculos à acumulação interminável de lucros por elites desumanizadas.

E que interpretação se poderá dar ao comportamento de dirigentes e de um Estado capazes de sujeitar aos requintes de uma violência, que se dirá de uma crueldade cientificamente apurada, mais de um milhão de seres humanos submetidos ao universo concentracionário de Gaza, ou centenas de milhares de pessoas confrontadas com a impenetrabilidade de um muro que divide famílias, comunidades, recursos?

Assim se demonstrando que a actualidade de Treblinka nos deixa perante a evidência de que o Estado de Israel e os seus protectores universais não têm autoridade moral nem legitimidade humanista para invocarem e se apropriarem do Holocausto de judeus e não-judeus.

Neste magma de comportamentos enunciados não é difícil encontrar as sementes que, num caldo de cultura adequado – longe de esquecido – germinem em comportamentos susceptíveis de descambar em situações que Treblinka avisadamente recorda.

Não fiquemos, porém, pelas metáforas; as quais, mesmo sendo-o, vão aflorando em comportamentos assumidos ou insidiosos mais do que suficientes para nos deixar alerta.

«Há que registar obrigatoriamente, para memória presente e futura, que os herdeiros dos esbirros de Treblinka estão vivos, actuantes, e nas mesmas regiões.»

Há que registar obrigatoriamente, para memória presente e futura, que os herdeiros dos esbirros de Treblinka estão vivos, actuantes, e nas mesmas regiões. Bastariam as evocações dos comportamentos de dirigentes como os que desempenham actualmente funções na Polónia pré-fascista, na Hungria, na Eslováquia, na Croácia, nos Estados do Báltico que o neoliberalismo «libertou» ressuscitando forças que, não apenas saudosas de Hitler, tentam fazê-lo reviver. Mas tal não esgota a realidade.

Existe o case study da Ucrânia: nunca será excessivo recordá-lo porque continua a ser escandalosa e significativamente mistificado.

Muitos dos guardas que colaboraram com a guarnição alemã do campo de extermínio de Treblinka eram milicianos ucranianos inseridos na SS hitlerianas, como voluntários ou como membros do exército «livre» da Ucrânia. Entre eles, membros do Batalhão Galícia, que ficou para a História negra da guerra associado ao nome do seu líder e mentor, Stepan Bandera.

Pois bem, Bandera é herói nacional oficial da «nova» Ucrânia, «democratizada» com o envolvimento da União Europeia e os préstimos insubstituídeis da NATO. Ainda hoje, em tempo real, hordas nazis da nova Guarda Nacional ucraniana, corpo treinado por militares das forças armadas dos Estados Unidos, estão a participar nos exercícios da NATO no Mar Negro e que simulam «apropriação de território», quiçá uma formulação julgada menos comprometedora do que a tese hitleriana de «espaço vital».

Andriy Parubiy, comandante das milícias de assalto nazis envolvidas na chamada «revolução democrática» da Praça Maidan, um seguidor actual de Stepan Bandera que foi presidente do Conselho Nacional de Defesa e Segurança e hoje é presidente do Parlamento, depois de ter contribuído para a ilegalização de partidos como o Comunista, age como um interlocutor privilegiado nos areópagos que proclamam a democracia e os direitos humanos.

São habituais os seus briefings com os comandantes da NATO, tendo em conta os seus laços operacionais com os batalhões neonazis, que são determinantes nas actuais forças armadas ucranianas; numa visita recente a Itália, Parubiy escutou a presidente do Parlamento, Laura Boldrini, do Partido Democrático, dizer que deseja o reforço da cooperação parlamentar com a Ucrânia, «tanto no plano político como administrativo».

A actualidade de Treblinka é gritante. Ao fim e ao cabo, um «democrata» como Andriy Parubiy, chefe das SS ucranianas de hoje, um favorito da NATO e da União Europeia, presidente do Parlamento de Kiev e identificado mentor do massacre de Odessa em 2014, poderia ter sido um dos esbirros que mandava abrir as torneiras de monóxido de carbono sobre milhares e milhares e milhares de homens, mulheres e crianças cuja única culpa era existirem.

Bastava-lhe estar na força da vida em 1942 – em vez de em 2016.

 

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por Augusta Clara às 20:45

Terça-feira, 21.06.16

Falemos então do Brexit - José Goulão

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José Goulão  Falemos então do Brexit

 

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   Mundo Cão, 21 de Junho de 2016

   Está em curso uma intoxicação epidémica, que tem contornos de uma operação de terror, sobre as terríveis consequências que se abateriam sobre o mundo, a Europa e até este pobre cantinho lusitano se o Reino Unido, por sinal o braço europeu mais fraterno do grande império, sair da União Europeia.

A vaga de propaganda chantagista sobre os horrores que adviriam dessa hipótese atingiu a histeria do vale-tudo e mesmo agonias de desespero que justificariam uma investigação séria sobre as circunstâncias que levaram ao cobarde assassínio da deputada trabalhista Jo Cox. Para todos os efeitos, o autor foi um demente dedicado aos folclores nazis, agiu sozinho e pronto. O assunto foi retirado das primeiras páginas, ficando agora cada qual com a resposta à pergunta clássica que se faz para adivinhar o criminoso nos romances policiais: a quem aproveita o crime?

Sair da União Europeia é um direito inalienável dos britânicos, que quase certamente não se livrarão de uma segunda consulta, ou das que forem necessárias, se teimarem em dizer que não desejam estar num sítio onde, em boa verdade, nunca estiveram de boa vontade. Não é este o hábito dos mandantes da União Europeia, vide as repetições de referendos na Irlanda, em França e na Holanda até se obterem os resultados pretendidos pela ditadura financeira internacional?

A saída do Reino Unido da União Europeia, ou a sua continuação, será o resultado de um exercício básico de democracia, essa coisa que está de tal maneira corrompida no espaço europeu que os senhores de Bruxelas até se esquecem de a invocar. Ao invés, em vez de promoverem o esclarecimento sereno dos britânicos, patrocinam uma campanha de medo e mentiras onde avultam figuras desacreditadas como o presidente dos Estados Unidos, o conspirador e golpista internacional George Soros através do seu Grupo Internacional de Crise (destruição da Jugoslávia, criação do Kosovo, golpe fascista na Ucrânia e outras coisas equivalentes) e o inimitável Tony Blair – será impossível resumir as suas malfeitorias, mas bastará recordar a sangria do Iraque baseada numa comprovada aldrabice. Enfim, são todos muito boas recomendações para um Reino Unido dentro da União.

O ambiente de pressão é de tal ordem que um cidadão comum quase terá que pedir desculpa para dizer que não virá mal nenhum ao mundo se o Reino Unido sair da União Europeia, entidade em implosão. O grau de desmantelamento é tal que Bruxelas e a colaboracionista David Cameron em Londres fabricaram uma União Europeia à la carte para os britânicos, a qual, bem à medida do primeiro-ministro inglês, é racista e xenófoba. Não foi ele que qualificou os refugiados e imigrantes como “uma praga”, levando Bruxelas atrás de si, o que nesta matéria nada tem de difícil? A partir de agora qualquer país da União pode reclamar um estatuto especial para si, ameaçando com a saída. Será uma simples questão de coragem política.

Alega-se: do lado do Brexit estão os fascistas britânicos. Pois estão. E quem está ao lado dos fascistas ucranianos, polacos, húngaros, eslovacos, estonianos, lituanos, croatas, kosovares, turcos com quem a NATO e a União Europeia anda nas palminhas? Os fascistas estão em todo o lado na Europa, porque os dirigentes da Europa lhes estendem as mãos, uns por oportunismo, outros por convicção. Quando se der o alerta geral provavelmente será tarde.

Com ou sem Brexit, a União Europeia está a cavar um pouco mais da sua sepultura. Enquanto isso, fortalecem-se os sinais, em todo o mundo, de que o neoliberalismo, como estado supremo do capitalismo, necessita cada vez mais de sistemas políticos autoritários para maximizar os proveitos da sua anarquia financeira. Isto é, o mercado verdadeiramente livre sente ainda como estorvo o pouco que resta de democracia. Por isso o fascismo ressurge em cada canto, por ser o infalível garante da equação exploração máxima igual a lucro máximo. Por isso, ao contrário do que malevolamente proclama a comunicação transformada em propaganda, mesmo que seja “de referência”, os manifestantes em França contra a lei laboral esclavagista não são “herdeiros de Pétain”. Lutam sim contra os políticos cúmplices dos imensos poderes internacionais que arrasam, sem dó, os direitos sociais e humanos. Os grandes impérios económicos e financeiros alemães lucraram a bom lucrar com o nazismo de Hitler. Por isso, é uma mentira deslavada e uma grosseira chantagem intelectual dizer que o fascismo e a liberdade sem limites do mercado são inconciliáveis.

Pelo contrário, são feitos um para o outro. E desta feita já têm em funções a União Europeia e a NATO como regaços dessa aliança criminosa, dispensando grandes invasões militares, pelo menos na Europa até às fronteiras russas.

Com ou sem Brexit, é claro.

 

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por Augusta Clara às 15:45

Quinta-feira, 12.05.16

Áustria outra vez - José Goulão

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José Goulão  Áustria outra vez

  

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Mundo Cão, 11 de Maio de 2016

   Dizem que a História não se repete; ou que se repete como farsa. Porém, ninguém pode garantir, apesar de asserções tão veementes, que ela não se repita como tragédia. Pode acontecer, parece mesmo que já está a acontecer sob os circunspectos narizes das eminências da União Europeia, porém tão ocupadas a estrangular a Grécia, a decifrar os oráculos de arbitrariedade do BCE e do Eurogrupo, a subverter as vontades legítimas dos portugueses, a devolver refugiados aos campos da morte, a minar o voto referendário dos britânicos, a bajular o sultão turco, a pretender caçar terroristas que não precisam de extraordinários talentos para estarem sempre dois passos à frente da parafernália de espionagem virada contra a privacidade do cidadão comum.

Adolf Hitler era austríaco, recorda-se. Isso não quer dizer que a Áustria seja um berço de führers nazis; mas também não se pode garantir que a semente geradora de um se tenha tornado improdutiva. Porque quando se lêem resultados eleitorais onde um herdeiro político do criminoso que desencadeou a Segunda Guerra Mundial atinge os 35 por cento à primeira – mais uns pozinhos do que os nazis alemães obtiveram no sufrágio que lhes ofereceu o governo em 1933 – deduz-se que o caso é de monta, deveria ser levado a sério.

Sobretudo porque não é um caso isolado na Europa, embora tenha a enorme carga, e não apenas simbólica, de ter emergido na Áustria. Há os bandos da senhora Le Pen em França; o governo e os seus grupos de assalto fascistas na Ucrânia, entronizado um pela santíssima aliança entre a União Europeia e os Estados Unidos, treinados outros por militares norte-americanos, na reserva ao que dizem; há também as maquinações governamentais fascistas nos países nórdicos e bálticos; os garrotes do nacionalismo aristocrático ultramontano com que os governos polaco e húngaro asfixiam metodicamente os seus povos; há ainda o imperador pan-turco Erdogan, o garante de que as guerras no Médio Oriente estão para durar enquanto brinca com as vidas de milhões de fugitivos, abrindo-lhes ou fechando-lhes as portas da sobrevivência com as mãos untadas pelo dinheiro surripiado aos contribuintes europeus.

Para lá do Atlântico, Trump reina como um vingativo salvador de desvalidos e descontentes sobre o pântano republicano e a criminosa mentira democrática; nas Filipinas triunfa eleitoralmente El Castigador, o nacionalismo terrorista que comanda hordas de esquadrões da morte invocando a injustiça social, assustadora, que as “elites políticas” – assim lhes chama – têm aprofundado usando o Estado como se fosse coisa sua.

Na Venezuela, na Argentina, no Brasil, amanhã na Bolívia, quiçá no Uruguai, os fascistas outrora com fardas de generais e carrancas de carrascos, hoje de polo de marca, ou de fato e gravata e sorriso de gel, estão a dar largas ao ódio de vingança há muito acumulado contra as transformações democráticas e populares, comandados, como sempre, pela batuta de Washington.

Tudo isto acontece, aqui e lá, sobre os escombros dos sistemas tradicionais de poder, entre eles o tão famoso “bloco central” em que a sanguessuga neoliberal assentou o seu regime, usando a democracia para subverter a democracia. A realidade não é assim tão simplista, tem variantes, mas o que conta são os resultados: alargamento do fosso das desigualdades, mais milhões empurrados para junto dos milhões de deserdados, a fome e as epidemias alastrando, centenas de milhões de seres humanos à deriva pelo planeta, e o mundo nas mãos de meia dúzia de eleitos que ninguém elegeu e que usam a Terra como o seu quintal, manejando os cordelinhos das marionetas políticas – parece ter chegado o momento em que só as genuinamente fascistas lhes servem.

Enquanto isto acontece, a comunicação social dominante oferece-nos uma realidade paralela embalada no basbaquismo das maravilhas tecnológicas, e assim transforma a ficção em vida para consumo, na mais conseguida e universal das lavagens aos cérebros.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 05.04.16

A Europa à mercê de um padrinho do terrorismo - José Goulão

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José Goulão  A Europa à mercê de um padrinho do terrorismo

 

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Mundo Cão, 3 de Abril de 2016

 

   É provável que ao estabelecerem o recente e vergonhoso acordo com o regime turco sobre os refugiados os dirigentes europeus não se tenham apercebido do longo e trágico alcance da sua medida oportunista. Ao colocarem-se ao dispor do poder de chantagem de Recep Tayyp Erdogan, o presidente da Turquia, deixaram não apenas a União Europeia, mas todo o continente, à mercê de um dos principais patronos do terrorismo islâmico, um ditador que vem seguindo metodicamente uma via de poder absoluto e cujas ondas de choque não serão contidas no interior das fronteiras do seu país.

Erdogan não é um político, é um homem que crê ter uma missão superior. “A democracia é um eléctrico que apanhamos para nos levar até onde queremos, e depois descemos”, disse há 20 anos este homem que chefia um regime de índole totalitária, em relação ao qual a NATO não manifesta qualquer reserva, antes pelo contrário. Agora que chegou à presidência turca, em eleições adulteradas e nas quais dispôs do incentivo de dois milhões de euros doados pela ditadura da Arábia Saudita, Erdogan já suprimiu da comunicação social as vozes incómodas e, do palácio branco das mil e uma noites que fez erguer, prepara-se para consolidar a ditadura islâmica interna e institucionalizar, sem quaisquer limites, a marginalização da minoria curda.

De Erdogan sabemos, por exemplo, que tem um convívio habitual e familiar com Yassin al-Qadi, o príncipe saudita conhecido, pela própria ONU, como o “banqueiro da al-Qaida”, ligação que chegou a ser denunciada pela justiça e a polícia turcas, o que custou o saneamento imediato de todos os envolvidos; sabemos que tem dado guarida à logística do terrorismo no Médio Oriente, “moderado” ou “radical”, assegurando condições para o treino, armamento e infiltração na Síria, ou o transbordo aéreo para outros países, da Líbia ao Iémen, de milhares de mercenários islamitas que tanto podem servir o “Exército Livre da Síria”, como a Al-Nusra, heterónimo da al-Qaida, como o Estado Islâmico e os seus heterónimos, conforme calha ou lhe convém; e também sabemos que a Turquia é o entreposto privilegiado, com envolvimento de navios fretados por Bilal, filho de Erdogan, do petróleo roubado pelo Estado Islâmico, sobretudo no Curdistão iraquiano, e de cujo contrabando tira proveito para financiar os seus massacres.

O que talvez muitos desconheçam sobre Erdogan é de onde vem o seu espírito de missão. Ele é oriundo da milícia Milli Gorus, a organização dos “lobos cinzentos” fascistas a que pertencia, por exemplo, Ali Agca, que tentou assassinar o Papa João Paulo II em 1981. Os supremacistas formados nessa milícia pan-turca consideram-se herdeiros dos hunos de Átila e do espírito duro e insensível do lobo das estepes da Ásia Central, características de uma raça pura e superior que adoptou os Islamismo como instrumento de expansão e afirmação. Entre esta maneira de pensar e o arianismo de Hitler descubra as diferenças.

O espírito pan-turco tem-se manifestado regularmente na História do país pelos massacres de não-turcos, como os cometidos pelo sultão Abdulhamid II, no final do século XIX, e pelos “jovens turcos” – apesar do seu carácter secular – contra os arménios e outras comunidades de cristãos, entre 1915 e 1923. Erdogan crê chegado o seu momento, e o alvo preferencial são agora os curdos.

Foi a este homem, aliás com as costas sempre bem protegidas pela NATO, que os dirigentes da União Europeia entregaram a Europa em troca da contenção dos refugiados e do seu repatriamento à força, violando essas coisas anacrónicas como são o direito internacional e os direitos humanos. Erdogan exigiu a Bruxelas três mil milhões de euros por ano para conter os refugiados da guerra da Síria, mantendo o poder discricionário de lhes abrir ou fechar as fronteiras europeias quando lhe interessa, e a verba foi garantida. Os chefes europeus asseguraram-lhe ainda que vão acelerar a integração turca na União e suprimiram os vistos de circulação com a Turquia. Os operacionais da al-Qaida ou do Estado Islâmico passam, deste modo, a mover-se muito mais facilmente, por exemplo, entre o Oriente e Bruxelas, ou Paris, ou qualquer recanto europeu.

Aliás nota-se que o regime turco dispõe já de um agudo poder premonitório sobre acontecimentos trágicos na Europa. O diário Star, órgão oficial do erdoganismo, encheu a capa com a manchete “A Bélgica Estado terrorista” na manhã de 22 de Março, isto é, em simultâneo com os atentados de Bruxelas. A acusação do jornal baseia-se no facto de a Bélgica acolher comunidades curdas e autorizar as suas manifestações contra a opressão turca.

Enquanto impõe a austeridade feroz contra os povos europeus, a União Europeia passa a entregar três mil milhões de euros por ano ao fascista Erdogan, a fundo perdido e sem garantias. Juncker, Donald Tusk e os chefes dos governos da União não podem garantir-nos, a partir de agora, que esses três mil milhões não sirvam para financiar atentados cometidos pelos protegidos de Erdogan, chamem-se Estado Islâmico, al-Qaida ou “moderados”, algures, a qualquer momento, em qualquer lugar da Europa.

Pelo que somos forçados a concluir que a famosa “guerra contra o terrorismo” nos principais Estados europeus serve, em primeiro lugar, para impor, paulatinamente, uma sociedade policial.

 

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por Augusta Clara às 15:40

Segunda-feira, 07.12.15

Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo - Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira  Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo

 

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   Insistimos em falar, com a boca cheia de esquecimento, nos “valores europeus”. Como se Hitler, Estaline, a Solução Final, os gulags, o colonialismo, tudo a tão poucas gerações de distância, fossem coisas que se perdem na memória do tempo. Uma grande crise financeira foi suficiente para deslaçar as frágeis solidariedades europeias que mantinham os monstros fechados nas suas caves. A ausência do perigo comunista foi suficiente para iniciar o processo de desmantelamento do Estado Social, que garantia a paz social e a estabilidade política. As nossas ilusões estão a ruir. Um dos mais poderosos países europeus pode finalmente voltar a ser governado por um partido assumidamente xenófobo. Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo. Ele exibe-se de forma descarada no novo governo polaco, no já velho governo húngaro e na Frente Nacional. Mas também na arrogância imperial alemã, na rendição securitária de Hollande, na brutalidade social imposta à Grécia. No meio disto, já nem sei ao certo o que quererá dizer o “europeísmo”. Talvez seja a memória de uma ideia que matámos com o euro. A senhora Le Pen é apenas a consequência. Os carrascos foram outros.

 

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por Augusta Clara às 18:45

Quinta-feira, 12.11.15

Um teste à União Europeia - José Goulão

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José Goulão  Um teste à União Europeia

 

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Mundo Cão, 11 de Novembro de 2015

 

   Depois da Grécia, e em condições com alguns pontos de contacto e abundantes dissemelhanças, Portugal está a deixar a União Europeia perante um novo teste ao conceito de democracia que pretende tornar único no universo dos 28 Estados membros. Na Grécia, por razões que agora não vêm ao caso uma vez que, como costuma dizer-se, “quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro”, os tecnocratas à solta em Bruxelas e que ninguém elegeu conseguiram fazer vingar as suas vozes de pequenos gauleiters do grande reich do mercantilismo.

Como será em Portugal no caso de os acordos estabelecidos à esquerda se transformarem num governo legítimo acima de qualquer suspeita, imaculado nos termos da mais elementar democracia?

Uma primeira dedução creio não levantar dúvidas. As afirmações de soberania popular contra a crueldade autoritária de Bruxelas começaram pelos dois países mais fustigados e destratados pela arbitrariedade austeritária. O que não acontece por acaso: os povos, por mais conformados que pareçam, não aceitam eternamente as cangas com que lhes carregam os corpos e, mais tarde ou mais cedo, lá chega o dia das surpresas.

Surpresas para alguns, sem dúvida: os partidos portugueses até agora governantes – e os seus gémeos em escala europeia - ainda não recuperaram do choque com o que lhes está a acontecer através da derrocada do “arco da governação”, erguido sobre caboucos de segregação e apartheid político que supostamente lhes outorgava o direito natural, quiçá divino, de governarem ad aeternum como se as eleições não passassem de pró-formas.

Agora, a maioria parlamentar portuguesa, unida em torno de objectivos muito claros e democráticos, propõe-se governar pondo as pessoas em primeiro lugar, privilegiando os direitos destas e não as supostas legitimidades dessa entidade arrogante mas volátil, cruel mas cada vez mais difusa conhecida como “mercado”. Nada, afinal, de muito surpreendente: a maioria parlamentar portuguesa limita-se a seguir os caminhos livres da democracia e a fazer funcionar a soberania do voto popular genuinamente expresso, tudo aquilo que Bruxelas, respectivos mentores e súbditos pregam mas não praticam.

De modo que a declaração de soberania que devolve a Portugal um orgulho e uma esperança que se julgavam perdidos vem questionar, no fundo, a essência actual da própria União Europeia, sobretudo a partir do momento em que instaurou a austeridade como política única a cargo de um sistema de falsificação da democracia através de um partido único com dois polos, o tal “arco da governação”.

O sr. Rajoy, um neofranquista que trata os povos do Estado espanhol como lacaios que o servem e à casa real, diz que “não gosta” do que acontece em Portugal. Em boa verdade, ninguém lhe pediu opinião, mas já que a dá serve para entender o espírito que percorre o espaço da União, provavelmente desde a Península até aos revanchistas fascistoides do Báltico, pequeninos mas com os dentes bem aguçados pelos donos em Berlim. Ao ponto de Bruxelas parecer mais incomodada com o governo que ainda não existe em Portugal e as suas previsíveis declarações de soberania perante os mercados do que com as preocupações da senhora Le Pen, aterrorizada com “a epidemia bacteriana da imigração”, isto é, as supostas doenças contagiosas trazidas pelos refugiados e que mancham a pureza sanitária dos franceses, um mal que ela promete erradicar se lhe entregarem os bastões governamentais.

De qualquer modo deixemos o teste no ar. O que mais tira o sono aos tecnocratas austeritários de Bruxelas? O eventual governo de esquerda em Portugal construído segundo as normas básicas da democracia e da soberania nacional? Ou declarações racistas e incendiárias, potencialmente pré governamentais, proferidas por uma dirigente política de um dos dois mais poderosos países da União que não esconde o seu programa fascista mas respeita sabujamente “o mercado”?

Creio que sabemos a resposta. Por isso a União Europeia deu no que deu.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 11.09.15

El derecho de vivir en paz - Victor Jara

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Por todos os 11 de Setembro que tantos terroristas têm escolhido como data preferida, sabe-se lá porquê

 

 

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por Augusta Clara às 15:20

Segunda-feira, 30.06.14

Ucrânia é o laboratório de um novo fascismo - Castro Gomez e Norman Wycomb,

http://www.jornalistassemfronteiras.com/

 

Castro Gomez (Donetsk), Norman Wycomb (Londres)  Ucrânia é o laboratório de um novo fascismo

 

 

 

 

22 de Juho de 2014

 

   O primeiro ministro da Ucrânia, Arseni Iatseniuk, escreveu no site da Embaixada do seu país nos Estados Unidos que os cidadãos do Leste que se opõem ao regime de Kiev são “sub-humanos” de que “é preciso limpar a nossa terra”; interrogada sobre o que fazer com os oito  milhões de russos que vivem na Ucrânia, a ex-primeira ministra Iulia Timoshenko respondeu: “exterminá-los com bombas atómicas”. Isto passa-se com apoio da União Europeia e dos Estados Unidos da América no ano da graça de 2014.
“A Ucrânia transformou-se num laboratório do neofascismo de que os principais dirigentes mundiais são cúmplices, pelo menos ao tentarem esconder do mundo esta realidade assustadora”, denuncia Irina Galinkin, socióloga ucraniana que se dedica a investigar o percurso dos nacionalismos ucranianos desde o colaboracionismo de Stepan Bandera com Hitler às suas manifestações actuais.
“Em termos de genealogia política trata-se da mesma família”, explica a socióloga. “Tem as suas desavenças internas, os seus  clãs, as suas lutas pelo poder, mas querem todos o mesmo, um país governado por uma elite ‘pura’, esclavagista, detentora de todos os poderes políticos e económicos. Mas como isso não é possível de modo isolado num mundo global como o de hoje, essa ‘elite’ cativa os  interesses militares e económicos dominantes num sistema de troca de favores e convertendo-se ao neoliberalismo económico, abdicando do serôdio e anacrónico nacionalismo económico. Esta Ucrânia é o laboratório de um fascismo novo, um neofascismo adaptado, no fundo tão velho como o mais velho”, afirma Irina Galinkin.
Numerosos intelectuais ucranianos investigam hoje este fenómeno, muitos deles sofrendo ameaças e perseguições por “porem o dedo na ferida e demonstrarem que o rei vai nu”, diz Anton, que revelou apenas um nome próprio porque reside e trabalha em Kiev e já foi “interpelado” por milicianos do Sector de Direita.
“A parafernália nazi está em movimento no país, quer falemos de comportamentos, discurso, conceitos de nação e qualificação das oposições”, diz Derek Baynes, professor britânico de Ciências Políticas que investiga o neofascismo na Europa, trabalhou algum tempo na Ucrânia e se corresponde com colegas ucranianos.
“Considero paradigmático o caso do escrito do primeiro ministro Iatseniuk no site da Embaixada da Ucrânia nos Estados Unidos quando qualifica de ‘sub-humanos’ os oposicionistas do Leste, ´separatistas’ e ‘terroristas’ como diz”, afirma Baynes. “Tudo isto para deixar a promessa, feita em título da declaração, de que irá limpar a nossa terra do mal’ – e sabemos muito bem o que isso significa nestas bocas".
Ao mesmo tempo, acrescenta o professor britânico, o ministro da Defesa, este oriundo das tendências declaradamente fascistas, “propõe a criação de ‘campos de filtração’ para internar os ‘terroristas’ que sobrevivam às operações militares a decorrer no Leste”.
A Agência Territorial Ucraniana, prossegue Derek Baynes, “anunciou entretanto que os soldados que participam nas operações contra as oposições no Leste serão contemplados com a concessão de terras para que possa ser garantido o ‘espaço vital’ ou ‘Lebensraum’ ucraniano perante os ‘russos sub-humanos’ – e quanto a isto escuso de me expandir em mais comentários”.
A vulgarização deste léxico, dos conceitos de pátria fascista e até o recurso a grupos de assalto como o "Batalhão Donbass” ou o “Batalhão Azov”, formados por organizações nazis e integrados na Guarda Nacional criada depois do golpe de Estado de Março, entraram no dia-a-dia da Ucrânia de hoje, governada por um regime apoiado sem restrições pelas instituições europeias e norte-americanas.
Interrogada sobre a utilização do termo “sub-humanos” pelo primeiro ministro no site da Embaixada em Washington, a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Jen Psaki, iludiu o assunto e proclamou que os Estados Unidos “apoiam de maneira consistente uma revolução pacífica”.
A propaganda oficial segue o mesmo registo. Anne Apllebaum, do corpo editorialista do Washington Post e ex-editora do The Economist, escreve que “o nacionalismo é exactamente o que a Ucrânia precisa”. A Forbs, revista que publica o ranking anual dos mais ricos do mundo, garante que “os separatistas do Leste são saudosos dos tempos da União Soviética”.
“Não sou historiadora, não quero entrar por comparações entre épocas separadas por muitas décadas, mas não tenho dúvidas de que são muitos e excessivos os sinais de que estamos perante uma ameaça grave a que o oportunismo dos dirigentes ocidentais dá gás de maneira irresponsável”, afirma a socióloga Irina Galinkin.
“Por exemplo”, diz, “perguntaram à ex-primeira ministra Timochenko o que fazer com os oito milhões de russos que vivem na Ucrânia e a solução por ela defendida foi a de os exterminar com bombas atómicas. E não vi que a imprensa europeia se escandalizasse com esta declaração de uma figura tão destacada do regime de Kiev, chefe do partido do primeiro ministro”.
Segundo a socióloga, “isto não foi um desabafo, é a mentalidade dominante”. Revela, a propósito, que o Canal 5, televisão que pertence ao presidente Poroshenko, “compara os habitantes do Leste a baratas, aconselhando o seu extermínio com um insecticida preto e vermelho, as cores do grupo fascista Sector de Direita”.
Irina Galinkin considera particularmente “repugnante” que a imprensa ocidental deixe “passar em claro incitamentos como os feitos pelos órgãos de propaganda que se dizem intérpretes do espírito da ‘revolução de Maidan’ segundo os quais o urânio existente nos sítios nucleares ucranianos deveria ser recolhido e espalhado através da Rússia”.
“A banalização do apelo ao extermínio é a essência de todos os nazismos e semente de muitas guerras”, adverte Irina Galinkin.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 28.05.14

28 de maio de 1926 - Carlos Esperança

 

Carlos Esperança  28 de maio de 1926

 

   Há quem esqueça o período negro do salazarismo que oprimiu Portugal, quem denigra a primeira República para justificar a ditadura e deprecie a democracia para reabilitar o regime fascista que a precedeu.

São reacionários, oportunistas e trânsfugas para quem a história é um conjunto de factos que se deturpam ao sabor dos interesses e da sua ideologia.

Faz hoje 88 anos que um golpe militar, igual a outros que os militares tinham por hábito levar a cabo, sempre em defesa da ordem, do saneamento financeiro e da restauração da autoridade do Estado, deu origem a uma longa e sinistra ditadura.

Deixar que o tempo apague a memória e a amnésia absolva os crimes, é serviço que se presta às forças totalitárias que estão adormecidas e não foram erradicadas.

É preciso recordar o tempo em que o país, com 40% de analfabetismo, uma mortalidade infantil que envergonhava qualquer país europeu e uma esperança de vida diminuta, era apresentado como tendo a governá-lo um homem providencial.

O ensino primário que na primeira República se tornou obrigatório e tinha cinco anos de escolaridade foi reduzido a 4, para rapazes, e a 3, para meninas.

Mas foi a repressão e a miséria que fizeram do Estado Novo, o pseudónimo da ditadura, uma mancha indelével na história do séc. XX, em Portugal.

Prisões sem culpa formada, degredo, exílio, espancamentos, assassinatos e perseguições foram a chave do triunfo de uma obscura ditadura que excluiu Portugal do convívio das nações livres e prolongou o atraso que a monarquia legou.

O 28 de maio foi um acidente de percurso na história, a nódoa que manchou a honra do País e comprometeu o progresso de Portugal. Triste sina a nossa. Maldito esquecimento.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 07.05.14

Memória - Margarida Pino

 

Margarida Pino  Memória

 

 

(a Margarida e o filho em 1972)

 

   Em 1967 no isolamento em Caxias para onde me levaram esta canção teve um papel fundamental na minha sobrevivência. No isolamento havia a ausência de tudo. Roupas para além da que tinha vestida, incluindo roupa interior, Nem papel, nem nenhum objecto de escrita ou leitura. Uma caneca , um prato e uma colher de alumínio. Mais nada. Quando menos se esperava abriam a porta da cela fechada electricamente e levavam-me para a Rua António Maria Cardoso para interrogatórios. Uma vez foram 5 dias e 5 noites. Lembro-me que era o mês de Dezembro e que a minha mãe teria feito anos (quando? já teria sido o dia do seu aniversário? vazio total) A força da convicção pela causa que defendia e os meus companheiros que sabia também terem sido presos mantinha-me firme. Nem uma palavra. Nem uma cedência. Regressando a Caxias e ao isolamento temi poder perder a memória. Foi então que resolvi dedicar uma grande parte do dia a recitar os  poemas que sabia de cor. "Le déserteur" era um deles.  Recitei-o não sei quantas vezes. Lembro-me que um dia o postigo da cela se abriu e uma guarda gritou: "cala-te com essa merda! se pensas que dás cabo de nós mais depressa dou eu cabo de ti". Parei. No dia seguinte, retomei e assim sucessivamente. Uma coisa posso estar certa, nenhuma daquelas bestas se esquecerá de Boris Vian, mesmo que na puta das suas vidas nunca tenham ouvido pronunciar o seu nome.

 

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por Augusta Clara às 15:00



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