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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 14.08.17

Adão Cruz escreve sobre o conflito entre os EUA e a Coreia do Norte

  

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   Nada tenho a ver com a Coreia do Norte, seja de que ponto de vista for, a não ser, como cidadão do mundo, a sua inclusão nos graves problemas que ameaçam, neste momento, o futuro da humanidade. Mas pergunto. Por que razão, a Coreia do Norte há-de ser tida sempre, em qualquer conversa ou opinião como agressora, quando não agrediu ninguém e foi vítima de históricas e indescritíveis agressões, continuando a ser vítima potencial de uma constante ameaça de destruição maciça?

Por que razão, numa tentativa de falso equilíbrio no arame ou na corda bamba, a maioria das pessoas procura dar uma no cravo e outra na ferradura sempre que se referem à loucura de Trump, não deixando de referir, em consciente falsa igualdade de circunstâncias, a loucura do maluquinho nortecoreano? Seria melhor pararem um pouco para pensarem, por respeito a si mesmas.

Sendo eu inimigo de armas, sobretudo armas nucleares, pergunto que direito divino permite a países agressores que tantas tragédias têm provocado, desenvolverem permanentemente e sem limite armas nucleares para liquidarem outros países proibidos de as desenvolverem? Hipocrisia monumental que a minha mente não consegue entender.

Eu penso que se acabasse de uma vez, nem que fosse por milagre, a ganância cleptomaníaca, salteadora e predadora do imperialismo americano, o mundo seria, como pensa Oliver Stone, muito mais pacífico.

 

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por Augusta Clara às 03:50

Sexta-feira, 07.04.17

59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra

 

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59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra.

Os 59 mísseis disparados pelos EUA contra um objectivo na Síria representam o regresso à agenda de guerra da política externa estabelecida no final do século XX. Trump sofreu mais uma derrota. Na campanha eleitoral Trump prometeu desinvestir nas guerras do Médio Oriente (o termo técnico é baixar o nível de empenhamento), porque o petróleo estava barato, era abundante e ele preferia o carvão que dava emprego a americanos. Trump considerava a NATO obsoleta e a Rússia um parceiro em vez de um inimigo.

Esta agenda colidia com os interesses de Israel e da Arábia Saudita que há décadas (pelo menos desde Nixon e Kissinger) dominam a matilha política de Washington. Os tiranetes radicais da Arábia Saudita e de Israel necessitam da desestabilização da região para se manterem no poder. Um Médio Oriente estabilizado é o fim dos negócios e do poder da família Saud e dos radicais judeus. A agenda tradicional dos EUA, a agenda de Clinton, marido e mulher, de Bush pai e filho, de Obama foi a de criar e manter um turbilhão na zona.

Em 2007, o general Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, numa entrevista muito difundida, desvendou o plano dos EUA e dos seus aliados locais e europeus de tomarem ou destruírem 7 países em 5 anos: Síria, Líbano, Líbia, Somália e Irão, que iriam fazer companhia ao caos do Iraque. Era este o programa de Hillary Clinton.

Em 3 de Fevereiro de 2017, logo após a posse de Trump, o general David Petraeus, antigo director da CIA, alertava o novo presidente para o perigo de alterar a “war agenda”. Numa conferência na Comissão Militar afirmou que a América não podia dar como garantida a atual situação (a situação herdada de Obama). Esclarecia que essa situação não era autosustentada e que fora criada pelos Estados Unidos. Se não for mantida colapsará, garantiu.

Os 59 mísseis lançados sobre uma base siria demonstra que os velhos poderes já estão bem instalados em Washington. A velha situação de desestabilização não colapsou. A família Saud e Benjamin Netanyahu podem celebrar de novo a vitória. Os lobistas do armamento, das companhias militares privadas podem acender charutos.

Não deixa de ser caricato que Trump tenha justificado a sua derrota com um impulso piedoso devido ao choque sofrido com as imagens das crianças atingidas pelas armas químicas. Armas cuja origem ninguém se interessou em investigar, a começar pelo próprio Trump. Já o mesmo tinha acontecido com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram Bush filho à segunda invasão do Iraque.

A velha ordem regressou a Washington. E à Europa também, com uma diferença: a doutrina Blair de sujeição activa da Europa ganhou adeptos. Hollande e Merkel não estiveram à altura de Chirac e Schroeder. Esses também tinham que vender armas, mas a estes não lhes custa serem rafeiros…

Tudo como dantes. Quartel em Abrantes

 

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por Augusta Clara às 23:43

Sábado, 05.03.16

Pronunciamento de generais contra Hollande - José Goulão

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José Goulão  Pronunciamento de generais contra Hollande

 

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Mundo Cão, 5 de Março de 2016

 

   Generais franceses na reserva publicaram uma carta aberta contra o chefe de Estado, François Hollande, acusando-o de ter “capitulado” na sua actuação contra a chamada “selva de Calais”, os miseráveis campos montados por refugiados fugidos às guerras no Médio Oriente e que esperam a oportunidade de atravessar a Mancha com destino ao Reino Unido. De acordo com Le Figaro, o jornal de direita que dá letra de forma à carta, muitos outros generais, entre os cerca de mil que estão na reserva, são da mesma opinião.

A generalidade da comunicação social francesa não esconde que este pronunciamento militar está alinhado com as posições da extrema-direita fascista contra os refugiados, uma vez que a carta serve de igualmente de protesto contra a detenção de um outro general, Christian Piquemal, ex-comandante da Legião Estrangeira francesa, por ter participado numa manifestação xenófoba não autorizada promovida por Pegida, uma filial do grupo de choque alemão e que gravita no universo dos bandos de assalto controlados pela Frente Nacional de Marine Le Pen. “Em vez de visar um soldado, general e patriota, convém estabelecer a ordem em Calais”, advertem os generais na carta. Estabelecer a ordem, segundo os subscritores, “inclui erradicar a selva – pode existir uma selva na República? – e o envio de todos os clandestinos para os países de origem”.

Nos países de origem dos refugiados, como se sabe, existem guerras nas quais têm participado activamente muitos generais franceses, tanto no âmbito da NATO como por decisão directa dos presidentes franceses Nicolas Sarkozy e François Hollande. A carta dos generais é omissa quanto a essa causa do problema – limita-se a defender o reenvio dos refugiados para o caos e a morte pelos quais o seu país tem elevada quota-parte de responsabilidade – preferindo destacar a “ironia” do facto de o general Piquemal “ter sido detido em nome da ordem pública, enquanto imigrantes ilegais continuam livres”.

Entre os signatários da carta estão o general Coursier, ex-comandante da Região Militar de Lille (que integra Calais), e os também generais Antoine Martinez e Jean du Vernier, além de Yvan Flot, ex-deputado da Frente Nacional pela região de Calais.

A designada “selva de Calais” é um vasto descampado entretanto ocupado por milhares de refugiados, em situação de degradação humilhante, e que pretendem alcançar o Reino Unido, onde o governo de David Cameron lhes fecha as portas, agora ainda com maior firmeza porque se considera forçado a cumprir a agenda da extrema-direita para tentar ganhar o referendo sobre a permanência na União Europeia.

A política da administração Hollande, interpretada no terreno pelo seu primeiro-ministro Manuel Valls, conhecido há muito pelas inclinações xenófobas, tem sido a de reprimir e desmantelar os acampamentos informais e desapoiados existentes na “selva”, ao mesmo tempo que manobra a crise em sintonia com as dificuldades do governo de Londres. A actuação que os generais qualificam de “capitulação” caracteriza-se pelo desmantelamento violento dos acampamentos de refugiados – a exemplo do que Valls está habituado a fazer com comunidades de ciganos em todo o país – sem ter conseguido ainda passar à prática o objectivo de os reenviar para os países de origem. Não se pode fugir ao artigo da Constituição que “determina a integridade do território”, lê-se no pronunciamento dos generais. “Os imigrantes ilegais entram massivamente em França e instalam-se em lugares como Calais”, acrescentam os militares, enquanto os habitantes de Calais vivem em “situação desastrosa, com medo de bandos mafiosos”.

Um dos promotores da iniciativa, Nicolas Stoquer, presidente da Confederação France Armée, explica que “foi a urgência da situação de crise que os empurrou a proceder de maneira descomplexada”.

Colocado perante o texto da carta, um diplomata francês em Bruxelas lamentou que os generais não se tenham pronunciado, em devido tempo, contra a participação das forças armadas francesas em guerras “sem razão e sem fim que estão na base da crise dos refugiados, o que prova também a incongruência das instituições europeias”. Antes dessas guerras, acrescentou, a Europa não sabia “o que era uma crise provocada pela afluência de refugiados”.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 04.04.14

Marguerite Duras faria hoje 100 anos

 

Os últimos dias da Guerra

 

   As pessoas estão nas ruas como de costume. Filas diante das lojas. Já há algumas cerejas. Compro um jornal. Os russos encontram-se em Strausberg e talvez mesmo mais longe, perto de Berlim. Espero também a queda de Berlim. Toda a gente espera por isso, o mundo inteiro. Todos os governos estão de acordo. O coração da Alemanha, dizem os jornais. As mulheres de deportados também: «Eles hão-de ver.» E a minha por­teira. Quando deixar de bater, estará tudo acabado. As ruas estão cheias de assassinos. Têm-se sonhos de assassinos. Eu sonho com uma cidade ideal, em cinzas, entre as ruínas da qual correria o sangue alemão. Jul­go sentir o odor desse sangue, é mais vermelho do que o sangue de boi, seria semelhante ao sangue de porco, não se coagularia, escorreria para longe, e, nas margens dos rios, mulheres em lágrimas nas quais eu daria pontapés no cu, e meteria o nariz no sangue dos seus homens. As pes­soas que neste momento, neste dia, sentem piedade pela Alemanha, ou antes não sentem ódio por ela, metem-me também elas dó. Muito es­pecialmente a espécie dos padres.

Um deles, nestes últimos dias, levou uma criança alemã órfã para o centro, com um sorriso nos lábios, explicando: «É um pequeno órfão.» Todo orgulhoso. Levando-o pela mão. Evidentemente, não está errado (ignomínia das pessoas que nunca erram), evidentemente que se devia ficar com ele, esse pobre rapazinho irresponsável. A espécie dos padres arranja sempre uma oportunidade para fazer caridade, a sua pequena Boa Acção alemã. E provável que, se eu tivesse esse miúdo, não o matasse, trataria dele. Mas porquê lembrar-nos que restam criancinhas na Ale­manha? Porquê lembrar-nos isso neste momento? Eu quero o meu ódio pleno e inteiro. O meu pão negro. Uma rapariga dizia-me há pouco tem­po: «Os alemães? Eles são oitenta milhões. Pois bem, oitenta milhões de balas arranjam-se, não?» Aquele que não sonhou este sonho sangrento a respeito da Alemanha pelo menos durante uma noite da sua vida, neste mês de Abril de 1945 (era cristã), está doente. Entre as voluntárias engra­vidadas pelos nazis e o padreco que traz o pequeno alemão, eu sou pelas voluntárias. Primeiro que tudo, o padreco nunca será voluntário, era pri­sioneiro de guerra, e depois, não há problema, a função clerical paga bas­tante bem ao seu homem para que ele não tenha de escolher - e pode bem perdoar todos os pecados, nunca cometeu pecados, tem muito cui­dado com isso. Que ele possa julgar-se no direito de absolver - não.

 

(in Cadernos da Guerra, Oceanos)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Quarta-feira, 31.07.13

A guerra que elas não entendem

 

A guerra que elas não entendem

 

 Nota: Chegou-me assim de várias pessoas e subscrevo.

 

É difícil comentar esta fotografia…
“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.”  

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por Augusta Clara às 17:30

Sábado, 19.01.13

Au Mali, une intervention française aux contours incertains - L'actualité vue par la rédaction

 

Au Mali, une intervention française aux contours incertains

 

(Le Monde Diplomatique)

 

 

jeudi 17 janvier 2013

 

 

Pour quels objectifs la France s’est-elle engagée militairement au Mali ? Pour empêcher des « terroristes islamistes » de prendre Bamako ? Pour reconquérir le Nord du pays ? Pour rétablir une légalité démocratique, ébranlée par une tentative de coup d’Etat ? Pour contribuer à « la guerre contre le terrorisme » et éviter la création d’un « Sahelistan » aux portes de l’Europe ?

 

Alors qu’en représailles à cette intervention, des djihadistes ont organisé une prise d’otages en Algérie qui semble s’acheminer vers un désastre, ce sont autant de questions auxquelles il n’est pas facile d’apporter des réponses, tant les déclarations officielles à Paris restent floues. Décidée dans l’urgence à l’appel d’un gouvernement à la légitimité ébranlée, cette expédition prend une ampleur inattendue, alors même que les pays africains tardent à s’engager et que les partenaires européens et américain se contentent de promettre un appui logistique. Sans buts clairs, le risque est grand d’assister à un enlisement et à faire ainsi le jeu des groupes les plus radicaux qui veulent « attirer » les Occidentaux dans des conflits sans fin : les guerres d’Irak et d’Afghanistan ont-elles réduit la menace terroriste ou l’ont-elles, au contraire, alimentée ?

 

L’expédition au Mali repose aussi la question des relations de la France avec le continent africain, de ses responsabilités, de ses méthodes d’action. Le temps de la Françafrique est, paraît-il, terminé. Pourtant, si les ressources de l’Afrique suscitent encore bien des convoitises, la volonté de contribuer à un développement économique, social et politique du continent semble absente des préoccupations européennes ou des organisations financières internationales. Mais seul ce développement peut garantir, à long terme, la stabilité et la prospérité.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 05.12.12

Deixei-a num ninho feito de terra - Albano Esteves Martins

Albano Esteves Martins  Deixei-a num ninho feito de terra

 

(Albano Esteves Martins é engenheiro civil, natural do Porto, actualmente a trabalhar em Angola)

 

(Adão Cruz)

 

   Tenta descansar, vê se dormes um pouco. Eu sei, as bombas, mas disparam à toa e estão muito longe. Estás na casa do Rei Leão, nada te acontecerá aqui. E eu volto já. Tenta descansar, tenta dormir. Deixo a Lua ligada? Se te juro que volto? Ouve só: volto. E vou trazer coisas boas para comer. Não minha filha, não trarei a tua mãe, é-me impossível, aceita-me com o que eu te posso dar. Viverás, viveremos, e encontraremos a tua mãe. Mas não hoje.

Deixei-a num ninho feito de terra e pequenos trapos no mais alto cubículo do Huambo, exactamente onde há 4 anos atrás eu e Jacinta nos abraçámos.

A guerra tinha tomado conta da cidade e cada esquina das muitas que era preciso dobrar para buscar um naco de vida, podia ser a última. Fugir da cidade implicava caminhar sobre um chão crivado de minas, de medo, um chão traiçoeiro que te deita por terra e te sepulta numa amálgama do teu próprio sangue, da tua própria terra e da tua própria carne, onde toda a ajuda que podes chorar é um tiro, limpo, numa esquina, ontem.

Ficámos assim até ao último latido do último cão.

Num olhar que já não cruzávamos há tanto tempo dissemo-nos que nada mais havia para continuar. E que não esperaríamos mais pelo fim da guerra dos outros: seríamos dois seres em paz numa cidade em guerra. E assim que sacudimos a poeira, o sangue, toda a guerra das nossas pobres roupas rompemos pela cidade de mãos dadas, num riso leve, num passo dobrado, numa nuvem do nosso amor, fulgurante, achado, reencontrado, sacudido do peso de alimentar apenas os corpos, de não lhes deixar esvair a carne.

Não houve um único tiro contra nós, não houve uma única bala perdida que nos encontrasse. Nem sei sequer o que foi na alma da chaimite que abrandou estupefacta em frente aos nossos risos e que nos seguiu com o seu canhãozito ridículo que só nos fez rir ainda mais. Sei que se assustou quando a Jacinta lhe bateu o pé e se foi. Sorrimos, outra vez, corremos outra vez com as mãos ainda dadas, talvez cantando, não sei, talvez.

A casa do Rei Leão é um cubículo na cobertura do velho Fapa, um edifício inacabado de 17 andares, na rua 5, em frente à saída para Benfica. Fomos amigos de infância mas foi lá que nos conhecemos como amantes, inocentes, claro, virgens, claro, de amor pelo menos, de amar pelo menos.

E foi lá que subimos para chorar abraçados o pôr-do-sol que sabíamos que não tardaria a ser engolido pela noite, o pôr da nossa loucura que sabíamos que não tardaria a ser engolida pela infame sanidade da sobrevivência.

Está fraca, esfaimada, morre a nossa filha. Sou o que lhe resta, quase nada.

Tenho que lhe levar um pouco de comida para depois de descansarmos tentarmos chegar ao avião que talvez poise por um momento apressado para levar os que couberem. Chegar lá não é fácil, não é seguro, não é. Mas talvez pela manhã, confundidos na pequena agitação matinal que é concedida às cidades em guerra, na hora em que os soldados, cansados de matar, adormecem.

Está fraca, esfaimada, morre a nossa filha. O meu tronco nú, os meus pés descalços, a minha fome, a minha vertigem, a minha parte da minha vida, escadas abaixo, calados, silenciosos, cheios de medo de não voltar.

Escondo-me do tanque que passa a ranger. Ouço uma rajada, um grito, um homem que morre. O tanque volta a ranger mas para longe. Vou tentar sair. Vejo agora que o meu corpo é branco, que eu sou branco, que não posso procurar nada assim, branco, branco, visível, alvo. Não voltarei se sair assim. Paro. Ouço e estranho o silêncio cortado por um outro grito. Mas não outro grito igual, não houve tiro, não houve rajada, nada rangeu nem o grito foi de dor ou raiva de nenhum homem. A mãe águia, o ninho da águia, como não me ocorreu, como? Subo, subo, corro escadas acima, subo, grito baixinho já vou, estou a chegar minha pequenina.

O ninho lá estava, no mesmo sítio onde onde eu e Jacinta ajudámos o seu filhote a voltar ao ninho. Deixa-me amiga, não ouço as crias, são ovos, tens quantos ovos? Deixa-me, salvei-te um filho um dia, salvo-te estes também deste mundo de tiros, de guerras, de gente malvada que mata crianças de tristeza e homens de razão. Deixa-me. Voa.

Não voou logo, não sei, deixou-se cair, talvez pensasse, não sei, asas abertas, desceu pelos ares abaixo sem me olhar, sem hesitar, parecendo saber tudo. No lugar dos ovos encontrei pequenas penas, velhas, sinais de que há muito as novas águias teriam já partido. Não faz sentido, o que faz aqui a águia se não há ovos, se não há crias?

Cambaleio para o cubículo, para a Teresinha.

Sou o que lhe resta, nada.

Sobre a cama de terra, já fria, uma pedra sobre um papel azul sem nada escrito. Entre os dois, uma pena de águia, enorme, linda.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Domingo, 02.12.12

Apelo de Eman Qwaider, uma jovem palestiniana

 

My name is Eman.

 

I am 18, a first year student at university where I study physical therapy. I have lived my whole life in Gaza. My dream is to one day study in the United States. My dream, also, is simply to survive.

I want to share with you something I wrote during the last few weeks when we were being bombarded from above by bombs, drones and fighter jets that were largely paid for by the United States. In Gaza, there is no place to flee. Every one of us is waiting for his/her destiny. In other words, every single minute you have the feeling that you could be the next victim in Gaza. Israel is using an insane amount of force and power against us. They are using the entire might of their Air Force, including F16s and drones, against us. Very close to our house, there were at least 8 air strikes.

Every airstrike shakes our doors, windows causing a great panic for us and particularly for our children. Over the past three nights, our best wish is to have a proper few hours of sleep. My father went to the market to buy us food, we were very scared to let him go since Israeli drones could have targeted him. We are cooped up in one room, with limited access to communication due to intentional, regular electricity blackouts.

The nighttime is very scary for us, because that is when Israel intensifies its airstrikes all cross the Gaza strip. No matter where you are in the Gaza Strip, one can easily hear the massive loud explosions and can only imagine the horror that is happening to family and  friends caught in the cross-fire. We listen to local  radio stations broadcasting from Gaza.

Every single minute, there are reports of deaths, injuries, and immense destruction to our homes, schools, and infrastructure.

In Gaza, empty fields have been regularly bombarded. Gaza is a very densely populated civilian area. These bombardments are designed to terrorize us.

Our children carry the physical and mental scars of trauma of a defenseless war. I always say we are children. We have done nothing to deserve this brutality. While at the same time, our children have faced the daily threat of violence and death from above, and have been subjected to a starvation diet imposed by Israel's control of our borders. The effects on their brain development and their health will last a lifetime.

Today, I am grateful the ceasefire seems to be holding. Please sign this letter to Obama - http://www.obamaletter.org/ - so my family and friends don't have to endure this yet again.

With love and hope for freedom and a just peace,

 

Eman Qwaider

P.S. Thank you for forwarding my letter.

 

Nota de edição: a Carta Aberta ao Presidente Obama conta já com 35.683 assinaturas. Mas é preciso recolher mais.

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por Augusta Clara às 16:00



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