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Jardim das Delícias


Domingo, 23.04.17

Barcelona, a cidade dos livros - João de Melo

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João de Melo  Barcelona, a cidade dos livros

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(Salvador Dali, Livro-árvore)

 

       A 23 de Abril de cada ano, dia do livro e de Sant Jordi, patrono da Catalunha, todos os caminhos da festa e do sonho vão dar a Barcelona. Os livros saem à rua, levados pelos livreiros e pelos editores. Desfilam à proa de grandes medas, sobre bancas alinhadas e que se estendem ao longo do passeio público. Abrem-se bibliotecas, escolas e instituições de cultura às contínuas multidões de leitores que deslizam por ali ao som da música “callejera” e de vozes que cantam ou apregoam os indecifráveis comércios de tudo o que se compra e vende nos dias de Barcelona. Há uma espécie de bramido de mar e vento salgado na confusão desses rumores. Espreita-se o recital de poesia à porta das livrarias mais conhecidas, dá-se passagem a figuras alegóricas da literatura em desfile pelo passeio central da Rambla, assiste-se à aparição de personagens ressuscitadas das páginas dos livros e à encenação de episódios que toda a gente identifica ou intui a partir das suas próprias leituras. É sobretudo nas alegres Ramblas que se concentram as figuras de carne e osso dos livros, mas não só. Aí estão os poetas e os escritores a autografar as suas obras, a receber mãos e beijos agradecidos, a polir o ego tímido com sorrisos e elogios murmurados ao ouvido. Faz parte da tradição e da liturgia que as damas ofereçam livros aos cavalheiros, e que estes lhes retribuam com rosas. O certo é que se trata de uma das festas mais felizes do ano em Espanha (observada, aliás, em praticamente todas as suas cidades, mas com graus de incidência variáveis), porque vibra no ar e na carne de toda a gente algo como um orgulho pessoal acerca da literatura. Como se todos nela celebrassem a beleza do mundo, o princípio da vida, o género humano e o privilégio da língua e da palavra.

De resto, não creio que haja, em toda a Espanha, uma cidade mais poética e sobretudo mais literária do que Barcelona. A existência de uma literatura catalã parece, aliás, estar toda nela contida: essencialmente urbana, sócio-histórica, cada vez mais mundana e cosmopolita. Apesar de ser um dos grandes destinos turísticos do país, é sobretudo pelos roteiros culturais da cidade que se movem as contínuas multidões que a visitam, vindas de todos os continentes. Barcelona é de uma beleza tranquila, mediterrânica, cheia de vida nas longas noites estivais e de vozes que falam todos os idiomas do mundo. Cidade compacta, anfiteatro de labirintos, coração capital de uma Catalunha dono e senhora da sua glória histórica. O circuito da arquitectura de Gaudí (todo o mundo mágico de Gaudí, aliás) não deixa de sugerir uma atmosfera de irrealidade e de evanescência que nos aproxima tanto de um surrealismo exposto, à Dalí, como de um património integrado que faz dela um berço e um navio de sonhos.

Também a literatura pode mover-nos em torno de uma visão subjectiva, referencial, centrada ora no presente ora na intemporalidade de Barcelona. Os seus poetas são outrossim os seus cantores. Ouço-os nos meus próprios passos: as suas vozes batem o silêncio ao crepúsculo, atravessando comigo o Bairro Gótico. Se passeio ao fim da tarde pela orla marítima, no porto, ao longo do corpo salgado, grosso e cavo do Mediterrâneo catalão, vislumbro logo a figura de Dom Quixote de la Mancha a chegar ali, trazido pela mão de Miguel de Cervantes para conhecer o mar, num dos capítulos mais poéticos que ainda hoje se podem ler sobre uma cidade tão literária como esta. E quando desço ou subo as Ramblas, vendo milhões de pássaros de todas as cores dentro das gaiolas, floristas com mãos doces e olhos pálidos, músicos e artistas de rua nos seus números, é por dentro de outros livros que viajo: por exemplo, numa página de «A Cidade dos Prodígios», de Eduardo Mendoza; ou numa outra de «A Sombra do Vento», de Carlos Ruiz Zafón (onde Barcelona assume a poética misteriosa da vida que vem nos livros). Movo-me nas “Últimas Tardes com Teresa” e nos “Rabos de Lagartixa”, dois livros de Juan Marsé; e nas páginas de um romance simples, acerca de tudo, que se chama “Nada”, de Carmen Laforet. Movo-me também num dos magistrais «Doze Contos Peregrinos», de Gabriel García Márquez, dedicado a Barcelona, cuja geografia suburbana me anuncia o vento e os caminhos do grande feitiço, assim como a música das suas palavras. Mas existem páginas inesquecíveis nos livros cheios de bares e esplanadas de Terenci Moix, Enrique Vila-Matas, Manuel Vázquez Montalbán, Rosa Regàs e Pedro Zarraluki. Porém, quando vagueio ao acaso das ruas de Barcelona (ao acaso das vozes, dos odores, do peso rigoroso das coisas à tona dos meus cinco sentidos) - é aí, profundamente, totalmente, a cem por cento, que me sinto a bordo de um livro único: «A Praça do Diamante”, de Mercé Rodoreda. A escritora por antonomásia de Barcelona. Mercé está para a Catalunha como Flannery O’Connor para a América e Virginia Woolf para o Reino Unido. Quero dizer: o universo inteiro de qualquer literatura. Benditas sejam portanto as pessoas felizes que lêem e que vivem em Barcelona, a cidade dos sonhos e das palavras, cidade da vida que inspira a memória poética da literatura - e que, por sua vez, também a inspira e a explica! 

 

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por Augusta Clara às 14:16

Sexta-feira, 23.01.15

"Eu, que gosto tanto do mar ..." - João de Melo

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 João de Melo  "Eu, que gosto tanto do mar ..."

 

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(Adão Cruz)

 

 

   Eu, que gosto tanto do mar e da sua voz que por vezes adivinho até no encadeamento obscuro dos meus sonhos, tenho por hábito passear sozinho ao longo da praia, de onde posso admirá-lo ou ficar a ouvi-lo sob a luz branca dos fins de tarde. Vou por ali fora, sozinho, entregue aos meus pensamentos, caminhando ao rés das fímbrias de água que as ondas baldeiam sobre a areia húmida, tornando-a plana e lisa como vidro. Recebo do mar a sua paz azul que me entra pelos olhos e que enche de inconfessáveis segredos o meu coração. Sinto-a como um suspiro na pele. A voz do mar traz até mim essa música do indefinido que por certo existe por detrás do silêncio, nas regiões da alma e no limite extremo do ser. Ouço nela a minha mãe cantar. E a sua voz é a mesma de quando outrora, ensonada, ela me embalava o berço, que puxava para si até o encostar à sua grande cama de ferro forjado. Ouço-a de novo cantar, como se também ela passasse na brisa caminhando sobre as ondas. Não sei que outras coisas escuto: se o infinito que se foi embora para sempre com ela, se o princípio de mim mesmo no corpo materno, se tão-só as já longínquas histórias da minha infância.

Desde que ela morreu, creio absolutamente no meu regresso ao mar. Porque a vida da minha mãe não terminou ainda; apenas se mudou do júbilo vivo da terra para as tais regiões do espírito que agora caminha sobre as águas. O mar passou a ser não a morada, mas a natureza branca, o círculo luminoso, a essência da minha mãe. De certo modo, o mar é ela em mim, e sou eu nela. Numa espécie de hegemonia mística da sua alma sobre a minha.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 22.11.14

A isto chama-se solidariedade, não é? - João de Melo

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João de Melo  A isto chama-se solidariedade, não é?

 

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Lisboa, 21 nov (Lusa) - Um grupo de seis montanhistas portugueses vai partir no fim de semana para os Picos da Europa, em Espanha, onde iniciará uma operação de busca a João Marinho, disse à agência Lusa fonte responsável pela operação.
De acordo com o vice-presidente da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, Carlos Teixeira, estes seis montanhistas experientes - dois de Lisboa, dois de Coimbra e dois do Porto - vão juntar-se a outros dois, de Braga, que se já se encontram na zona onde João Marinho desapareceu há duas semanas.
"É uma questão de solidariedade fazer uma última tentativa de encontrar o João Marinho", disse Carlos Teixeira sobre a iniciativa, que surge na sequência de um pedido da família do montanhista desaparecido.
O vice-presidente da Federação acrescentou que a família está a fazer contactos com a Guardia Civil espanhola no sentido de prestar apoio ao grupo português.
"Estava prevista para hoje uma reunião com a Proteção Civil de Portugal para participar nesta operação, mas foi cancelada porque ficámos a saber que a [instituição] homóloga em Espanha não está envolvida. Estas operações de busca e salvamento na região são da responsabilidade da Guardia Civil espanhola, que tem todos os meios necessários", explicou o responsável.
Apesar de ainda não ser certo o apoio das autoridades espanholas, Carlos Teixeira indicou que a família de João Marinho está a fazer os contactos e não espera que surjam entraves.
"No entanto, as condições meteorológicas não são favoráveis. Prevê-se uma tempestade para quarta-feira, portanto vamos ter apenas entre domingo e terça-feira para fazer as buscas", indicou.
Carlos Teixeira parte de Lisboa no sábado com mais um montanhista numa carrinha com provisões e diverso equipamento para as buscas.
Os custos da operação vão ser pagos pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal: "Temos um papel social a desempenhar e não podíamos negar este pedido da família", comentou.
Sobre as esperanças de encontrar João Marinho vivo, o responsável disse que a probabilidade é baixa mas conhece muitas histórias de montanhistas que estavam dados como mortos e apareceram dias depois, sobrevivendo a condições muito adversas.
"O problema naquela zona é que existem muitos buracos fundos. Se uma pessoa cai ali e parte uma perna é difícil sair e ser encontrada, mas tudo faremos ao nosso alcance para encontrá-lo", disse.
A Guardia Civil de Espanha, que contou com o apoio de equipas de resgate da Guarda Nacional Republicana, deu quinta-feira por encerradas as operações de busca pelo montanhista desaparecido, após o agravamento das condições meteorológicas.

 

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por Augusta Clara às 16:30

Sábado, 06.09.14

Nordeste – os meus 500 anos - João de Melo

 

João de Melo  Nordeste – os meus 500 anos

 

 

 

   Não de trata de um mero ou simples exercício de imaginação. Nem de retórica literária. Mas o caso é que eu vivi os 500 anos do Nordeste. Vivi-os nos seus hábitos e costumes herdados dos antepassados, na língua portuguesa do século XVI que se falava na minha infância, trazida do mar pelos povoadores; na etnografia dos instrumentos de trabalho, vinda sabe-se lá de onde: o sacho, a enxó, o arado árabe, a grade, o rodado, a sapata, a ferragem, a sebe e os fueiros do carro de bois; vivi entre uma pobre gente implantada ao cimo das falésias nordestinas, tendo ali erguido casas, ruas e igrejas como fortalezas contra corsários, piratas e outros bichos da terra que porventura aportassem à foz das ribeiras para procederem à aguada de naus e navios que iam e vinham do Oriente.
  Conheci as últimas casas de palha da Achadinha. E muitas outras com chão de terra batida, a pedra das paredes à mostra, as arribanas com as suas reses, os sótãos escuros e as tulhas de milho e feijão. Andei com os pés descalços, como andavam os homens e as outras crianças, e sofri as minhas topadas nas pedras soltas e nos caminhos de cascalho: as unhas dos pés sangravam, destroçadas, mas logo se curavam com paranhos, teias de aranha (nunca soube como nem porquê). Subi vezes sem conta aos baldios do Mato do Povo, bem no alto da ilha, que o Salazar mandou depois esmoitar e pôr de renda a quem até então ali largava, no início do Verão, as suas vacas, cabras e ovelhas, sobre bardos e outeiros. Regressavam de lá (no fim do Outono) gordas, descabeladas e sobretudo prenhas. Conheci os trens de cozinha, as trempes e peneiras, os talhões de barro e os alguidares de Santa Maria, a engorda e a matança do porco, a venda do peixe ao cento para a salgadeira, tal como os torresmos e a carne de caçoila. Muita sopa de fervedouro comi, e muita fatia de pão de milho barrada com banha de porco, e outro tanto de feijão preto assado em forno de lenha. E caldos de toucinho de porco mal chamuscado, cujos pêlos se viam à transparência do couro e da gordura. Meu Deus, como éramos pobres, famintos, esquecidos e solitários; e como nos acusava o padre, na missa dos domingos, de termos pecado tanto; e como, por vezes, parecíamos mesquinhos para com os nossos vizinhos, maus nas contas e nas heranças e obscuros no quotidiano.
  Houve sempre, ao longo destes históricos anos, dois movimentos opostos nos Açores: uns vinham de fora e ficavam; outros, que tinham filhos, sonhos e outras paisagens no olhar, iam-se para sempre e nem olhavam para trás. Emigravam dia após dia, saindo de manhã muito cedo, em demanda de países com nomes tão estranhos que até pareciam inexistentes: Brasil, Venezuela, Argentina, Canadá, Estados Unidos - num movimento de partida que ameaçava despovoar os Açores. Depois chegavam cartas que falavam do “sinó”, dos carros de fogo chamados “comboios”, de uma língua estrangeira que só se falava lá longe, nessas terras planas do fim do mundo. As cartas cheiravam à América, traziam dentro notas de uma “dola”, muita dor de alma, saudade de tudo e todos, alguns erros de ortografia. Eram, pois, o tempo e a história a passar por nós. Sentia-os em fuga dos meus sentidos. Um dia, também eu me enamorei do destino e da viagem. No espaço de cinco dias e quatro noites, levaram-me da mais rural freguesia do Nordeste para a maior cidade portuguesa – Lisboa, aquela a que chamei a “cidade dos domingos”. Onde a minha memória açoriana é talvez mais nítida do que um girassol.
  Confesso o meu orgulho em ter escrito livros com verdades que mentem e mentiras que dizem a verdade acerca destes 500 anos do Nordeste. Sou um homem de esquerda (fui-o desde menino, na Achadinha e no continente, sei muito bem do que falo) e um escritor que pretendeu olhar a sua “décima ilha” à luz da solidão universal, da condição humana, da existência única do homem em toda a parte. Com essa escrita de protesto, sonhei outra realidade, uma utopia cultural e democrática para a terra que amei e amo como ninguém. Porque aconteceu o milagre da justiça e do progresso em volta das palavras que escrevi sobre a gente e a paisagem. O Nordeste deixou de ser um icebergue verdejante e florido,  creio que excessivamente rural, postado no limite extremo da ilha, para se tornar num lugar igual a qualquer outro em todo o mundo. A pobreza de hoje já não é uma ferida no olhar, como outrora aconteceu. Rasgaram-se caminhos por cima das antigas veredas onde passavam, de manhã e à vez da tarde, duas camionetas azuis entre Ponta Delgada e o Nordeste, nos dois sentidos. Volto à minha terra sempre que posso: as cidades deixaram de ser os sítios longínquos e impossíveis do meu tempo de criança. A liberdade de agora chama-se palavra, progresso, democracia, respeito pela diferença e pela opinião. Falta apenas dar voz aos que nunca a tiveram sobre a ordem do mundo. Mais do que nunca, as paisagens e as pessoas são livres e ainda mais belas do que antes, e limpas e desanuviadas sobre o horizonte que está para além do mar branco, mar eterno dos Açores e do meu coração. 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Sexta-feira, 06.06.14

Passos Coelho e o Tribunal Constitucional - João de Melo

 

João de Melo  Passos Coelho e o Tribunal Constitucional

 

 

   De marotos, manhosos e mesquinhos sabemos nós muito (a classe política portuguesa sempre nos deu, disso, uma escola e peras!). Carregando contra o Tribunal Constitucional, o P-M auto-vitimiza-se, devolvendo aos juízes uma espécie de culpa sem remédio nem perdão. Na verdade, a única auto-vitimização que se lhe conhece foi desde sempre feita contra a Constituição Portuguesa. Quando o elegeram para presidente do PSD (e após um daqueles verões da Manta Rota, com passagem pelo Pontal do Mendes Bota - lembram-se?), a primeira revoada que ele levantou foi, precisamente, a "revisão da Constituição". Depois acalmou. Mas traz essa espinha encravada na garganta. Ele e o Portas não têm feito outra coisa senão mordiscar, comer a erva, ruminar a Constituição. Talvez porque, não podendo revê-la sozinhos, vão-na estrangulando aos poucos, para que a breve trecho pareça desadequada e obsoleta. Fragilizando-a, mais facilmente a filarão pela jugular: para isso contam com zelosas criaturas que dão por nomes como Ulricht, Catrogas, Cavacos, um pitosga chamado Raposo, uma lástima como o Camilo Lourenço, um renegado Medina Carreira, um Miguel Beleza, um adiantado mental de nome Borges Macedo, toda uma chusma de marinheiros da política, organizados em grémio de contabilistas. Já não bastava termos um governo de portas e coelhos! Por isso, valha-nos a Constituição, valha-nos o Tribunal Constitucional.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 28.05.14

Uma Espanha e outra - João de Melo

 

João de Melo  Uma Espanha e outra

 

 

   Entender a Espanha de hoje exige algum exercício de imaginação. Devemos fazê-lo por amor, sem preconceitos e com conhecimento de causa. Aprendi a amar a Espanha desde o dia em que me foi inevitável concluir que ela estava dentro de mim. Na cabeça e no corpo da minha portugalidade. Não quero deter-me na falsa mitologia histórica que me foi imposta pela ideologia anti-castelhana do passado, nem pela visão patriótica de “Os Lusíadas”. Prefiro pensá-la como milagre económico, país inventado e unido sob várias dimensões regionais, Estado de países, povos e línguas oficiais que por milagre coexistem e se mantêm íntegros.
  Há imagens que ajudam a compreender essa Espanha intrínseca, não a que vemos no mapa. A das caixinhas chinesas e a das “matrioscas” russas são algumas delas. Trata-se de uma entidade matriarcal, espécie de gravidez no limite de si mesma; onde o fim da união espanhola pode também anunciar o princípio da sua desagregação. Dito de outro modo: a Espanha compõe-se de paradoxos que só a sua admirável Constituição consegue explicar no todo e na parte; levou ao limite extremo o paradigma das suas autonomias regionais, pondo-as na antecâmara da independência. Cada Comunidade Autónoma tem o seu governo, parlamento, municípios, largas competências políticas e administrativas, um poder reivindicativo sem par noutros modelos de regionalização. Eis um dos segredos da sua unidade. O outro, mais forte e mais pragmático, reside no facto de essa união representar um mercado e uma garantia de futuro interno e externo.
  Santos Juliá, num livro admirável (“Historias de las dos Españas”), fala de um país em duplo, duas gémeas não siamesas, mas diferentes, que vêm do passado e convivem mal num presente comum. Quais duas Espanhas? Uma, a do espírito, culta e democrática, humanista e aberta ao exterior; outra, o oposto: tão conservadora quanto autista, altiva e arrogante tanto na civilização como na barbárie. É impossível pormenorizar uma obra tão fascinante como a de Juliá. Mas a teoria sobre a existência de duas, e não de uma só Espanha, leva-nos a ter de perguntar muito mais do que a teorizar sobre ela. A minha paixão espanhola é essencialmente interrogativa. Uma República presidida por uma Monarquia? Ibérica, Europeia? “Espanhola” porque “castelhana?” Politicamente à direita ou à esquerda? Qual delas triunfou (moralmente, politicamente) na Guerra Civil, a franquista ou a republicana? Quem escreveu a sua história recente – os vencedores ou os vencidos dessa guerra?
  Interrogar é uma necessidade natural para quem ousa compreender aquilo que ama. O meu caso está no ponto de encontro do amor com a ânsia do conhecimento do espírito espanhol, onde eu não me importaria de me perder, de me diluir no seu povo alegre, positivo, capaz de se indignar por uma mentira ou um decreto político; viver no meio do património monumental da grande e nobre Espanha, sob a ordem dos seus mestres, das suas vanguardas artísticas, à sombra das catedrais de Sevilha, Saragoça, Barcelona, Compostela e Burgos, nos seus museus de tudo e em toda a parte, na vida vibrante das “calles” e das “copas y tapas”. E embarcar por fim nesta evidência: se nunca ouvi a um Português dizer-se europeu, menos ainda aos Espanhóis. Eles limitam-se a olhar para o “país vecino” (não o nosso, mas sim a França) e a nela resumir a sua ideia de Europa.
(13.05.2014)
(Texto publicado no DN de domingo passado, disseram-me. Mas eu não vi, paciência!).
 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Terça-feira, 29.04.14

Vasco Graça Moura em minha casa (em Madrid) deixou escrito no livro de visitas um soneto - João de Melo

 

João de Melo  Vasco Graça Moura em minha casa (em Madrid) deixou escrito no livro de visitas um soneto

 

 

   Havendo conselheiros  culturais
   a gente às vezes deles não espera
   que venham celebrar a primavera
   juntando à primavera muito mais

  Aqui vou falar de um. Mas quem me dera
  poder dizer na rima muito mais:...
  a esta hora estou na oitava esfera -
  em refastelações pós-quantiais.

  Numa palavra, comi bem, bebi
  ainda melhor e penso que em Madrid
  a poesia ganha muita pinta

  e mesmo quando é feita a martelo
  dá graças gratas ao João de Melo
  e à hospitalidade da Jacinta!

(Madrid, 21.03.2003)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Quarta-feira, 23.04.14

Capitão Salgueiro Maia - João de Melo

 

João de Melo  Capitão Salgueiro Maia

 

 

   Preciso de o dizer e repetir baixinho, de lentamente o repetir dentro de mim, baixinho e em presença dos meus sentidos, a fim de que tudo deixe de ser apenas um sonho e se transforme pouco a pouco em realidade. Sei que devo entrar de madrugada na cidade adormecida, contornar rotundas e passar os cruzamentos que me levam para o centro, e pensar que tudo o que está a acontecer-me vai a caminho da verdade, sob o imperativo de quem ordena e exige que chegue a hora de o tempo e o sonho serem só isso –  tempo e sonho de um país que se perdeu de si e da sua vontade. Os homens sob meu comando não são mais que sombras de si mesmos; a arma que empunham, um engenho fora de combate; os carros, uns modestos inventos nossos, brinquedos que todos, um dia, sonhámos – na memória daquelas guerras em que também eu fui um homem anterior, em tudo diferente de mim. O que sou agora é um exercício, uma parte experiente, um resumo do que outrora fui: o guerreiro tímido e assustado que no corpo traz o medo-sonho da missão noturna que os queridos companheiros me confiaram e que comigo discutiram e planearam com o secreto e devido pormenor. Tendo-me perguntado se queria livremente embarcar na noite temerária do golpe militar, eu de pronto lhes disse que sim, contassem comigo; para trabalhos, perigos e segredos em que nem eu neles acreditasse ou deles viesse a ter memória. Eles assim fizeram.
Vim à cidade para tomar a cidade. Visito ruas e casas para vigiar o sono, o silêncio, a tranquilidade das ruas e das casas. Ocuparei posições nos bairros antigos de Lisboa, cercando as ruas baixas que vão do Rossio ao movimento secreto dos barcos no rio; pelos vultos das sentinelas e pelos passos dos agentes duplos, irei até ao fundo da Grande Noite portuguesa que dura – disseram-me os mais velhos- há 48 anos soturnos, ao longo dos quais todos fomos sendo postos de parte, fora da vontade, da raiz, da moral e da história.
E mais me disseram os queridos companheiros que devia dispersar por ali os homens certos e os comandos por mim escolhidos, a cortar o trânsito das ruas e a vigiar os barcos que na altura vogassem no rio – com o que se poria a cidade suspensa, enchendo-se de boatos e vozes dos próprios remorsos, a um tempo tranquila e em estado de angústia. Mandarei apontar ao Tejo os dois formidáveis canhões da guarnição; guardarem as esquinas os meus soldados mais afoitos e experientes; e emboscarem-se, na sombra dos muros, os rostos lívidos e determinados. Os demais, por mim chamados e escolhidos, subirão comigo às zonas do perigo, onde se cumprirá uma única de todas as vontades em confronto.
É muito simples a minha ideia: cercar o quartel de guarda nacional, dar-lhe um ultimato para que se renda e me entregue as suas armas, e depois ficar ali a encher-me de paciência, fome, desconforto, sono e frio, atento ao que der e vier. Quando me meti nos trabalhos desta missão, jurei que nela iria até ao fim. Empenhei nisso a palavra e a vida. Sabia-me sujeito tanto a perder-me como a salvar-me – sendo-me claramente dito que podia tratar-se de uma viagem longa, louca e sem regresso, feita daquele alvoroço que antecede o definitivo e fatal esquecimento. O qual só dá passagem para onde a morte é escura e irreversível. Por isso me despedi da mulher e das filhas. Disposto a morrer por elas, eis-me contra isto, para melhor ser por isto. Faz sentido a gente morrer por algo que ame; eu fui sempre, do primeiro dia da infância até esta madrugada de  25 de Abril de 1974, preparado tanto para o amor como para a morte.
«Se preciso for» - sublinharam os queridos companheiros - ,«alinhas os carros de combate no Largo do Carmo, apontas os canhões aos portados e à fachada da fortificação, dás ordem de fogo aos teus, e que haja choro e ranger de dentes lá dentro – e gritos e braços erguidos, cá fora, nos vivas à liberdade; e vozes saídas da clandestinidade para berrarem bem alto que o povo unido jamais será vencido.»
Pode ser que eu morra varrido por uma rajada de metralhadora ou pela bala do atirador solitário que ficará para contar a história. Ainda assim, morrerei a meio do maior de todos os gestos da minha vida. Mas pode acontecer o contrário de tudo isso: vir um mar de povo, erguerem-se as vozes, encherem-se de flores os canos das espingardas e não ser preciso matar nem morrer, nem tomar de assalto a corte, nem dar voz de prisão ao rei e aos seus vassalos. Dizem que em missões como esta vem sempre alguém dizer que o rei vai nu e que o reino velho, se lhe dão os ventos da agonia, logo de seus fios e cerzidos se desprende.
Preveniram-me os queridos e honestos companheiros contra  a loucura e o desespero da polícia política, sangrentos cães beligerantes do ditador. Eu sei que, para eles, defender o reino não é só uma questão de brio, mas uma ideia de grandeza proporcional à crueldade e à estupidez do todo-poderoso. Vim, na condição de oficial e cavalheiro, para dar voz de prisão aos ditadores, não para os julgar ou abater. Oficial e cavalheiro que sou, entrarei nos largos portões do Carmo, e a ninguém saudarei pelo caminho até estar certo de o fazer com a dignidade que passa do vencedor ao vencido. Quando chegar à presença do todo-poderoso, acederei a fazer-lhe uma pequena mesura, uma discreta vénia de cabeça, como se ainda pudesse confortá-lo com o olhar, antes de lhe exigir que se renda e se confie aos meus cuidados. Não que goste dele ou tenha pena da sua velhice, ou me mova qualquer piedade sobre as injustiças e os danos que ao povo causou – mas tratá-lo-ei sempre por Vossa Majestade ou por Vossa Excelência. Se me perguntar de onde venho e a quem devo obediência, qual a minha condição e como me chamo, responderei a Sua Excelência que venho de Santarém, às ordens do Movimento das Forças Armadas, tenho o posto de capitão e o meu nome é Salgueiro Maia.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 18.04.14

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ - João de Melo

 

João de Melo  Gabriel García Márquez

 

 

   A Literatura deve tudo à condição humana, e nada a quem a pretenda separada da vida, dos povos e da representação ficcional do Homem (criador de todos os mitos, com excepção do mito de si próprio). Por isso eu digo que o “maior” escritor do mundo é aquele que “melhor” o escreve. E esse tem nome. Chama-se Gabriel García Márquez.   É-o não porque escreva melhor do que todos os que até agora fizeram a educação, a diferença e a paixão da minha vida literária – mas porque há na sua escrita o eco de todas as escritas e linguagens, uma segunda amplitude temática, uma repetição de tropos e motivos herdados de todas as culturas e civilizações. Não se trata, porém de uma nova estética da imitação. Pelo contrário. Estamos em presença de um imaginário completamente novo, inspirado pelo sopro e pelo barro criador de um demiurgo e de um virtuoso. A sua escrita possui não apenas o poder de encantar e comover os sentidos, mas sobretudo uma vertigem narrativa, uma superior narratividade literária – e um tal magnetismo simbólico, que em tudo se aproxima novamente da grande alegoria, a da caverna de Platão, assim como dos textos que até nós trouxeram a memória e a mitologia dos tempos e lugares todos do mundo.

 

(in Dicionário de Paixões pp.221-222, Lisboa,1994)

 

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por Augusta Clara às 16:00

Segunda-feira, 14.04.14

Poema do mar - João de Melo

 

João de Melo  Poema do mar

 

 

(Autor desconhecido)

 

 Tudo o que vive no mar é movimento
e o que nele vibra tem o mistério
do profundo que principia na cor
e que logo se perde de toda a luz.
Do branco passa o mar ao obscuro
mistério agonizante do infinito.
Ele cativa o tempo, a eternidade,
o limite do entendimento para o ser;
e por último uma tão grande escuridão
que já nenhuma forma de vida anuncia.
Dizem-me: a morte é eterna para além
De ti. Mas creio no mar como um fim
para o renascer da minha essência.
Quero-o naquilo que me pertence: a água
que lhe devolvi saindo do ventre da minha mãe,
a memória de uma planície ondulando
no vento e no fascínio dos meus olhos,
os navios de sonho que nele demandavam
os caminhos do poente - e eu sentado
na ilha entre o canavial a ouvi-lo
repercutir o abismo que então separava
o tempo da viagem. Vim para o mundo,
atravessei o meu deserto de água
mas ainda assim não sei ver o mar
ao contrário, isto é, daqui para o lado de lá.
Não penso que seja a descer ou a subir,
mas antes a contemplação e o sentimento
de o haver perdido. O mar é música,
corda de metal, território sagrado
da alma, o deus que me falta nomear
entre o cabo do dia e o início da noite.
Deito-me, pouso a cabeça no mar.
Ouço-lhe a voz em azul, trago
comigo o odor em branco da sua luz.
Pertenço-lhe concretamente e em abstracto.
Amo-o no jogo de contra ele atirar palavras
mansas como pedrinhas e conchas. O mar
chega e parte comigo para todo o lado.
Ninguém como eu é o mar sendo ele em mim
o sal da alegria, a rede e o peixe do amor.

 

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por Augusta Clara às 17:00



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