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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 20.04.17

"Ainda a propósito das vacinas e do sarampo" - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  "Ainda a propósito das vacinas e do sarampo"

 

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       Ainda a propósito das vacinas e do sarampo:

Há uma doença infantil do jornalismo que se chama "equidistância" e que os maus jornalistas confundem com a saudável e indispensável "independência".

A independência significa que 1) um jornalista deve ter o cuidado de se distanciar de interesses particulares, 2) que, quando possua laços pessoais ou outros que impeçam essa independência em relação a determinados temas ou histórias, se deve abster de tratar esses temas e histórias como jornalista e 3) que deve adoptar no seu trabalho jornalístico uma atitude crítica, céptica e, tanto quanto possível, desapaixonada.

A equidistância (que os americanos chamam "balanced reporting") significa na prática que se deve ouvir sempre dois lados de uma questão. Bastam dois. Mesmo que a questão tenha (como quase todas têm) 7 lados, 23 perspectivas e 56 partes interessadas.

Nos EUA, tornou-se assim habitual fazer "balanced reporting" da política ouvindo um porta-voz do partido Democrata e outro do partido Republicano. Mesmo que se trate de um idiota de um partido e de um corrupto do outro ou que ambos defendam o mesmo interesse e a mesma mentira.

É mais fácil, mais rápido e mais barato que tentar apurar os factos, principalmente quando todas as fontes possíveis têm interesse em esconder a verdade. O problema é que nem todas as histórias do mundo são discussões teóricas onde apenas se confrontam duas opiniões igualmente válidas.

A responsabilidade do jornalista é apurar factos, quando eles possam ser apurados, e tratar de forma discriminada as diferentes versões. Não se trata de contar a história das vítimas ao lado da versão do torcionário. Ou apresentar como diferentes versões, diferentes "visões do mundo", relatos verificáveis e falsificáveis (no sentido Popperiano) ao lado de fantasias sem sentido. A evolução e o creacionismo, por exemplo. Ou a medicina científica e a homeopatia. Ou a astrofísica e a astrologia. Ou a cartomancia e a psicoterapia. Sempre com o argumento de que se trata, em todos os casos, de construções sociais. Serão certamente, mas acontece que as previsões de algumas podem ser avaliadas e outras nem sequer isso.

Nos melhores casos, os jornalistas preocupam-se, genuinamente, em ser independentes e em ouvir "todos os lados". Nesse afã, esquecem-se muitas vezes (ou não lhes dão meios) de que não podem apresentar a mentira e a verdade como versões igualmente válidas da realidade para o leitor escolher.

É um jornalismo barato, defensivo ("Eu não sei quem tem razão, mas ouvi-os todos e citei-os todos") mas socialmente pernicioso. Se o jornalismo não distinguir entre factos e fantasias não serve para nada. Ou serve apenas para manipular o público e defender os mais descarados dos manipuladores. E a verdade é que, se é admissível, no domínio dos princípios, uma escolha pessoal irracional (como não vacinar os filhos) não é admissível que um jornalista apresente essa escolha como estando baseada em sólidos argumentos racionais, tão válidos como os opostos. Não está. Se o jornalismo não tiver coragem para distinguir isso pode ser substituído com vantagem pelas palavras cruzadas.

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por Augusta Clara às 19:23

Sexta-feira, 04.09.15

Verdade e opinião em tempo de intoxicação - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Verdade e opinião em tempo de intoxicação

 

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   Já faltou mais para as eleições, aquele tempo em que, à semelhança de épocas de guerra e de caça mais se mente. A novidade está agora na forma insidiosa de mentir, multiplicando visões da verdade, e nos mentirosos, onde aos que mentem por dever de ofício, se juntam agora os que, por dever de ofício, deviam defender a verdade, os jornalistas e comentadores.

Um artigo do El País, de 28/08 alerta para que o princípio da manipulação consiste em: “hacernos creer que no existe la verdad más que en sus múltiples versiones.”

Num momento em que a comunicação social se transformou numa tropa de moços de recados do governo e os seus funcionários se converteram em meninos de deus a venderem a ideologia dominante, o artigo de El País sobre verdade e opinião, manipulação e propaganda, desenvolve a ideia de como as novas tecnologias e as redes na internet amplificam o trabalho de esvaziamento do sentido crítico iniciado pela propaganda política.

Os técnicos da propaganda, que incluem boa parte dos jornalistas, aproveitaram as três grandes formas dos escritores modernos se relacionarem com a verdade: dizer que é inabarcável, dizer que é inefável, isto é que não se pode exprimir, ou dizer que não existe.

Em períodos eleitorais são estas as abordagens à verdade feitas pela propaganda. Basta um pequeno exercício de leitura dos títulos dos jornais, ou das reportagens das televisões: ou se focam num pormenor para desviar as atenções, ou garantem que é indiscritível, ou pura e simplesmente ignoram-na.

“Se neste milénio os atletas do inabarcável parecem ter-se refugiado na autoficção para concentrar o esfoço e limitar o campo de batalha, as outras duas vias de relação com a verdade continuam a contar cadáveres porque a realidade se fez inefável, ou construindo mundos paralelos que podem equiparar-se ao mundo real e até suplanta-lo. “

Os técnicos de propaganda política agem de acordo com o ideal da linguagem niilista, aquilo que designam por pós-modernidade, para impingirem aos consumidores dos seus produtos que qualquer narração (o termo que usam é narrativa) pode criar uma verdade que não tenha nada a ver com a realidade. “Até aqui, nada de novo: a velha verdade das mentiras. O novo neste processo é que, após invadirem o terreno do jornalismo e da História, os propagandistas políticos estejam a ter êxito na venda da ideia de que a verdade só existe em múltiplas versões.” Em especial na versão do patrão, digo eu.

O caso típico é o dos números de fenómenos sociais e económicos. Se um ministro fornece números falsos sobre desemprego, ou sobre a dívida, logo os propagandistas agem apresentando múltiplas interpretações do fenómeno: desemprego de curta e longa duração, taxa homóloga, ou referida ao mês anterior, ou a 2011, ou a 2008. Seguindo o velho princípio do poeta Aleixo: “a mentira para ser segura e ter profundidade tem de ter à mistura alguma verdade.” Assistimos a este truque diariamente. Feito despudoradamente.

“Em 1950, quando Hannah Arendt regressou por algum tempo à Alemanha do seu exílio, descobriu com estupefacção que os seus compatriotas tratavam os factos históricos como se fossem meras opiniões. No relativismo, que os cidadãos (neste caso alemães) consideravam a essência da democracia, Hannah Arendt reconheceu a herança do regime nazi. Para a autora de «As origens do totalitarismo», a persuasão e a violência podem destruir a verdade, mas não substitui-la: “Os factos e as opiniões, se bem que devam manter-se separados, não são antagónicos; pertencem ao mesmo campo. Os factos dão origem às opiniões, e as opiniões, inspiradas por paixões e interesses diversos, podem diferenciar-se amplamente e ser legítimas conquanto respeitem a verdade factual.”

É no respeito pela verdade, ou pela simples aceitação de que a verdade existe, que a porca da propaganda torce o rabo. Ó verdade factual, quão longe andas da propaganda e da tua casa mãe, o noticiário!

De Hannah Arendt, no ensaio «Verdade e política»: “A liberdade de opinião é uma farsa, a menos que garanta uma informação objetiva e que não estejam em discussão os factos em si mesmos.”

Veja o artigo original em http://cultura.elpais.com/cultura/2015/08/28/actualidad/1440793795_270814.html

 

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por Augusta Clara às 08:00



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