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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 15.11.17

Reféns da arma de extermínio - José Goulão

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José Goulão  Reféns da arma de extermínio

 

 

Abrilabril, 2 de Novembro de 2017

 

As reacções arrogantes dos principais poderes mundiais às grandes vitórias recentemente obtidas na luta contra a bomba nuclear confirmam que todos e cada um dos cidadãos mundiais estão ainda reféns das armas de extermínio.

 

 

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/ nato.int

 

   A assinatura, por mais de metade dos países da ONU, do Tratado de Interdição de Armas Nucleares e a atribuição do Prémio Nobel da Paz à Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares revelam que, na opinião pública mundial, existe uma consciência crescente do risco para a vida no planeta representado pela existência de cerca de 15 mil engenhos desse tipo, em poder de um número restrito de países.

É certo que o Tratado Internacional começa apenas a ter existência prática depois de ratificado pelo menos por 55 países; e que a credibilidade do Nobel da Paz tem andado por níveis rasteiros, sobretudo desde a atribuição do galardão a entidades e figuras como a União Europeia e Barack Obama, militantes da guerra com abundantes provas dadas.

Porém, a reacção dos meios mais belicistas, com a NATO à cabeça, e logo em cima da aprovação do Tratado de Interdição, revela que as decisões agora tomadas contra as armas de extermínio massivo inquietaram os valentes generais da aliança, os políticos e interesses a quem servem de guarda-costas.

«Não aceitaremos qualquer argumento contido no Tratado», postulou o Conselho do Atlântico algumas horas apenas depois de o documento ter recebido as primeiras das 122 assinaturas recolhidas com a aprovação.

Quem fez suas estas palavras definitivas da NATO foi o ministro português dos Negócios Estrangeiros, certamente por considerar essencial e benéfico para todos nós, mesmo não tendo armas desse tipo, ficar na dependência dos que estão dispostos a usá-las «como meio de defesa», é claro. A NATO, como se sabe, nunca ataca ninguém, apenas se defende, como faz no Afeganistão e na Líbia.

Prevenindo o caso de o ministro português, neste caso por redução ao absurdo, ou qualquer um dos seus colegas de países de alguma forma associados à NATO, ou não, se sentir atraído pelo conteúdo do Tratado de Interdição de Armas Nucleares, o Conselho do Atlântico tratou de se antecipar com o habitual espírito dissuasor, o qual, vindo de quem vem, jamais poderá ser qualificado como ameaça: «apelamos aos nossos parceiros e a todos os países que tenham a intenção de assinar o tratado a reflectirem seriamente sobre as implicações», adverte.

Os signatários não digam depois que não estavam informados, caso a NATO venha a acertar contas com eles. Porque «o objectivo fundamental da nossa capacidade nuclear é preservar a paz e desencorajar a agressão», explica o Conselho do Atlântico; já o Tratado de Interdição, acrescenta, «arrisca-se a fazer o contrário, criando divisões e divergências».

É verdade que a argumentação atlantista parece propaganda para imbecis, mas quando se dispõe da força bruta e do poder discricionário para a usar, a credibilidade nas tomadas de posição não precisa de ser uma preocupação dos porta-vozes.

«Apelamos aos nossos parceiros e a todos os países que tenham a intenção de assinar o tratado a reflectirem seriamente sobre as implicações.»

conselho do atlântico

Por exemplo, convencidos ou não da bondade de tais teses «defensivas» e «pacifistas», os portugueses e o seu Parlamento, tal como os povos dos 28 outros Estados da NATO e respectivas assembleias legislativas, não serão chamados a pronunciar-se sobre o Tratado antinuclear aprovado pela maioria dos membros da ONU, porque a aliança atlantista, sem qualquer mandato ou mecanismo democrático, já falou por eles, já o deitou para o lixo.

Vale a pena reflectir uns instantes sobre a atitude de dois países da União Europeia e que não integram a NATO, a Irlanda e a Áustria, que foram dos primeiros a subscrever o Tratado, apesar de os seus governos nada terem de progressistas e de estarem perfeitamente alinhados com o sistema económico e político dominante.

Se os Parlamentos de Viena e Dublin ratificam ou não o documento, esse é outro aspecto, mas que será sempre decorrente do respeito pela democracia e de um acto de soberania nacional. O que não acontece com os povos reféns dos interesses agressivos, expansionistas e minoritários dos quais a NATO é um instrumento de poder.

As posições intransigentes de todos os possuidores de armas nucleares, com maior ou menor disponibilidade para abdicar delas em função dos outros, ou mais ou menos declarações de prontidão para negociar a redução de arsenais, dependendo, ainda e sempre da atitude dos outros, revela até que ponto estão congelados os passos no sentido da desnuclearização militar.

Com a agravante de ganharem terreno as teorias manipuladoras sobre o uso «limitado» de armas de extermínio e que parecem capazes de fragilizar a barreira do medo, que foi um poderoso dissuasor durante a guerra fria.

Os sinais de uma irresponsabilidade associada a uma nova inconsciência, a roçar pela loucura da suposta invulnerabilidade, perceptíveis sobretudo nos responsáveis da Coreia do Norte e dos Estados Unidos da América, colocam a ameaça de extermínio nuclear num patamar de risco nunca antes atingido. Daí que os cientistas que gerem o «relógio do juízo final» continuem a adiantá-lo e a aproximá-lo cada vez mais da hora fatal.

A aprovação do Tratado de Interdição de Armas Nucleares na ONU e a atribuição do Nobel à Campanha Internacional de Abolição chegaram, portanto, num momento decisivo e determinante que agita positivamente a opinião pública, apesar da continuada propaganda belicista.

As duas novas realidades são encorajadoras e mobilizadoras de vontades para todos os que, no mundo, ainda acreditam que é possível travar a fatalidade nuclear, apesar das ameaças da NATO, dos destrambelhamentos em Washington e Pyongyang, da proliferação de engenhos em países teoricamente não nucleares como é o caso de Itália, Alemanha, Holanda, Bélgica e Turquia – transformados em arsenais atlantistas – e de Israel, que os possui clandestinamente.

Neste cenário confrontam-se duas posições, agora claramente definidas com a ajuda do Tratado da ONU e da atribuição do Nobel: a belicista, claramente minoritária nos interesses que serve, mas dotada com o poder absoluto de extermínio e a eficácia de uma propaganda global tentando fazer crer que é possível usar a bomba nuclear como qualquer outra arma de guerra; e a que defende o fim das armas nucleares e de extermínio, verdadeiramente transversal à sociedade global, que procura favorecer o desarmamento total de maneira equilibrada e controlada. Ambas as posições têm ganho influência, o que demonstra como o problema nuclear atingiu um ponto crítico.

Por enquanto prevalece a assustadora realidade de cada um de nós, cidadãos do mundo, ser um refém das armas de extermínio, independentemente da nacionalidade e da localização no planeta. É vital, para todos os seres humanos, inverter a relação de forças; e os últimos êxitos revelam que foram alcançados avanços importantes nessa direcção.

O caminho está aberto; agora é preciso percorrê-lo em união cada vez mais ampla e sem perder tempo, porque o inimigo dispõe de armas letais – e não apenas as nucleares: a irresponsabilidade e, principalmente, o desprezo pela vida humana.

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por Augusta Clara às 17:58

Sábado, 21.10.17

Matança - José Goulão

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José Goulão  Matança

 

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abrilabril, 19 de Outubro de 2017

Ora a perda de cem vidas humanas, nas circunstâncias em que ocorreu – dois picos de vagas incendiárias muito concentradas no tempo e imprevisivelmente diversificadas no espaço –, não é um acidente: é uma matança, um selvático assassínio em série.

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 Ricardo Graça / Agência Lusa

 

   Anuncia-se que, por ora, as chamas estão extintas; fazem-se os enterros, recolhem-se os salvados, secam-se as lágrimas, respeita-se o luto, limpam-se os destroços, recontam-se as poupanças – se ainda as há – deitam-se mãos à obra porque a vida continua e sempre é menos dura sob o abrigo de um tecto. Até à próxima.

Sem surpresa, e como já percebemos, agora segue-se a campanha feroz contra o governo, exigem-se cabeças de ministros, sobe de tom a troca de soundbites como balas, exercita-se a caridadezinha público-privada, provavelmente teremos de assistir às repugnantes práticas de necrofilia política dos que, habituados a tratar mal os vivos jamais respeitarão os mortos.

Cem mortos e dezenas de feridos é o rescaldo provisório da hecatombe dos incêndios deste ano em Portugal. Ano após ano, fogos florestais sempre houve; mas não há memória de uma tragédia humana com esta envergadura, de uma insegurança, de um sentimento de fragilidade e de terror que se estende a todos os cidadãos que habitam no território português.

Onde havia jogos sujos de madeireiros e se apostavam grandes interesses imobiliários e florestais tornou-se este ano comum o sacrifício de vidas humanas. Salta à vista, sente-se no peito, que o País ficou desestabilizado num tempo em que, finalmente, recomeçava a olhar em frente.

Escrevi há dois meses que as circunstâncias qualitativamente diferentes dos fogos deste ano exigiam abordagens, medidas e respostas diferentes. Lembrei o caso, também único, do Verão de 1975, quando a multiplicação de incêndios, então centralizados no Alentejo, tinha como objectivo político não apenas a destruição da Reforma Agrária mas também a expansão de um clima de pânico que forçasse o país e os seus habitantes a desejarem um recuo drástico na Revolução.

E admiti a hipótese de estarmos agora perante uma desestabilizadora operação de terrorismo puro e duro, uma prática que, embora não pareça a quem se regula pela comunicação social dominante, não se cinge às malfeitorias do Daesh, nem sequer ao universo do radicalismo islâmico.

A menção ao terrorismo incomodou algumas pessoas, que logo a catalogaram na imensa pasta da «teoria da conspiração», onde afinal cabe tudo o que não corresponde às medidas autorizadas e padronizadas de análise político-militar-económica-financeira.

Ora a perda de cem vidas humanas, nas circunstâncias em que ocorreu – dois picos de vagas incendiárias muito concentradas no tempo e imprevisivelmente diversificadas no espaço –, não é um acidente: é uma matança, um selvático assassínio em série.

Figuras governamentais como o secretário de Estado da Administração Interna, mas principalmente os testemunhos doridos dos bombeiros e de serviços de protecção civil, dão-nos a certeza de que muitos dos focos de incêndio foram provocados por mãos humanas.

Nem poderia ser de outra maneira: milhares de fogos acumulados em quatro dias (grosso modo) – mais de 700 só no passado domingo – e tocando desordenadamente grande parte do território nacional, tornando insuficientes as desmultiplicações possíveis dos serviços e meios de socorro existentes, só podem ser fruto de uma estratégia coordenada movendo centenas de piões; ou então Portugal é um perigoso ninho de pirómanos adormecidos os quais, movidos por um misterioso surto epidémico, e cada um por si, decidem atear e reacender fogos praticamente ao mesmo tempo e em sítios diferentes. Só acredita nesta delirante saga hollywoodesca quem quiser.

Além disso, não há circunstâncias climáticas, por muito duras que sejam e alteradas que estejam, susceptíveis de se combinarem de forma nociva e convergente para provocarem os efeitos trágicos registados, porque se fazem sentir de maneiras diferentes em zonas distantes e diversificadas como as que foram atingidas pelos incêndios, principalmente na vaga mais recente.

«(...) o executivo arrisca-se agora a queimar grande parte do capital de prestígio que amealhou.»

Quando se escuta o primeiro-ministro de Portugal, porém, verifica-se que não existe intenção de abordar a hecatombe dos incêndios deste ano de acordo com particularidades específicas que saltam à vista – a menos relevante das quais não é, por certo, a matança de uma centenas de cidadãos portugueses.

Para o governo, tudo continua a acontecer devido às insuficiências do ordenamento florestal, em circunstâncias que são «estruturais e não conjunturais». Isto é, a «época de incêndios» deste ano foi igual às de há cinco, dez ou vinte anos, resultante das mesmas causas, ainda que as consequências tenham sido muito diferentes e mais graves. Assim sendo, apenas conseguimos observar o Estado a fugir da definição e da denúncia de um inimigo que não olha a meios, que manipula e liquida a vida de cidadãos portugueses desde que isso sirva os seus fins.

Num país onde os serviços de espionagem se entretêm a espiolhar os cidadãos porque cada um de nós pode ser um terrorista islâmico em potência, quiçá um perigoso anti-neoliberalista, ou em que os detidos por atear incêndios são olhados como «lobos solitários», e depois quase sempre libertados, parece não haver condições para investigar o que poderá existir por detrás de cada alegado pirómano.

Ou será que os serviços de segurança e de investigação criminal não terão disponibilidade para se ocuparem de todas as possíveis pistas que possam esclarecer a morte de uma centena de portugueses? Mortes que foram assassínios, pois, segundo tantos testemunhos, houve fogos desencadeados de modo a dificultar ao máximo, ou até tornar impossíveis as operações de salvamento.

Este quadro deixa-nos a sensação de que a palavra «terrorismo» aplicada aos incendiários queima os sofisticados circuitos dos gadgets dos agentes de espionagem. Ora basta que alguém dê um piparote num bobby no Hide Park de Londres ou um sopapo num flic à entrada do Jardim das Tulherias, em Paris, para que estejamos perante atentados terroristas que dão instantaneamente a volta ao mundo e suscitam novas e cada vez mais apertadas medidas de segurança afectando comunidades inteiras; em Portugal, eventuais teias incendiárias assassinam cem pessoas e parece não haver interesse da comunidade de investigação, ou vontade política para esquadrinhar todas as circunstâncias até à mais recôndita hipótese.

As medidas de reordenamento florestal são essenciais, os pareceres científicos de uma laureada Comissão Técnica Independente serão valiosos; esses resultados, porém, seriam mais úteis e de efeito geral maximizado se acompanhados pelo despiste de todas as eventualidades criminosas, incluindo a hipótese terrorista, associadas aos incêndios em Portugal.

Se, por um acaso tão frequente por essa Europa afora, um qualquer indivíduo fizesse um telefonema reivindicando para o Daesh a autoria da vaga de fogos no território português, não faltaria quem gritasse «terrorismo, terrorismo!».

Porém, tal não aconteceu, e ainda bem: a tragédia é um acontecimento entre portugueses e qualquer manobra desse tipo criaria um ruído que nos deixaria ainda mais longe da realidade. Já é suficientemente gravoso que o Estado se exima de fazer aquilo que o mais comum dos sensos aconselharia para segurança dos portugueses: uma exaustiva investigação criminal.

A ausência de uma acção enérgica de investigação e a insistência numa gestão comum de circunstâncias recorrentes fragilizam o governo, transformam-no em bombo da festa que se põe a jeito, à mercê dos políticos sem escrúpulos que se movimentam na oposição, dos pescadores de águas turvas que medram no lodo da instabilidade, e, sem dúvida, dos que estão por detrás da estratégia incendiária.

É fartar vilanagem, com a comunicação social na dianteira, tocando a rebate, usando os mortos para disseminar recados exigindo demissões ministeriais, ou até de todo o governo. O terror, o boato e a mentira sempre foram pilares da desestabilização. Existe, porém, um facto dispensando apresentação de prova: o agravamento do fenómeno incendiário que se regista em Portugal coincide com a vigência de um governo que, além de ser uma lufada política de ar fresco, quebrou tabus, pôs em causa doutrinas manipuladoras que apodreciam a democracia portuguesa.

Um governo que, apesar das suas enormes limitações e das flagrantes tibiezas, como a situação presente demonstra, inquieta sistemas e poderes instalados, inventores de normas arbitrárias que lhes garantem privilégios por uma espécie de usucapião.

Porém, encolhido e defensivo quando teria tudo a seu favor, incluindo o apoio das populações, se optasse por uma estratégia determinada e enérgica que conduzisse ao levantamento da realidade incendiária até às últimas consequências, o executivo arrisca-se agora a queimar grande parte do capital de prestígio que amealhou.

Vulneráveis a campanhas de propaganda sem escrúpulos, enredados numa teia de insegurança e até de terror, os portugueses poderão não perdoar ao governo os efeitos da gestão burocrática de uma situação que adquiriu uma gravidade excepcional. Entretanto, moções de censura contra o executivo entram no Parlamento; algures, por detrás da teia de «lobos solitários», os verdadeiros pirómanos terroristas agradecem as hesitações de uns, o descaramento de outros, enquanto esfregam as mãos. E continuarão a matança, até que se sintam recompensados e satisfeitos.

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por Augusta Clara às 15:41

Sexta-feira, 29.09.17

A Catalunha e os fantasmas de Espanha - José Goulão

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José Goulão  A Catalunha e os fantasmas de Espanha

 

 

Em síntese: a chamada transição para a democracia foi viciada através da reactivação abusiva da monarquia, regime rejeitado em referendo pelos povos de Espanha.

 

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O ditador fascista Francisco Franco, ao centro

 

 

abrilabril, 28 de Setembro de 2017

 

   A violência discricionária de Madrid e a chantagem de Bruxelas, fomentando todo um indisfarçável ambiente de condenação, desde os governos da União Europeia à NATO, são as respostas autistas à intenção das legítimas instituições democráticas catalãs de auscultar o povo sobre a independência da Catalunha, velha, culta e personalizada nação europeia.

O comportamento do governo de Madrid, invocando a autoridade do Estado Espanhol e as normas de uma Constituição que nunca deixou de ser transitória e contrária às vontades em seu tempo manifestadas pelos povos de Espanha, não é surpreendente e está dentro da lógica anacrónica de Rajoy e companhia. Estes não passam de neofranquistas aproveitando-se do facto de a transição política de 1975/1976 e a Constituição dela decorrente serem orientadas pela necessidade de salvaguardar o essencial dos interesses franquistas e da monarquia, embora sob uma capa democrática, perante as urgências suscitadas por dois acontecimentos que desaconselhavam a inércia: a morte de Franco e a revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974.

O franquismo assumiu, por isso, as rédeas da transição fazendo o rei Juan Carlos suceder a Franco assim que este morreu e, com excepção de poucos, incipientes e colaboracionistas intervalos assegurados depois por «terceiras vias» socialistas, mantém-se à frente do Estado, chame-se o presidente do governo Aznar ou Rajoy e o Bourbon de turno Juan Carlos ou Felipe.

Em síntese: a chamada transição para a democracia foi viciada através da reactivação abusiva da monarquia, regime rejeitado em referendo pelos povos de Espanha.

É importante notar, contudo, o empenhamento da União Europeia em travar a simples manifestação democrática de opinião do povo da Catalunha sobre a independência ou não independência. Uma animosidade que teve como sonoro porta-voz o anterior presidente da Comissão, Durão Barroso – ou não fora ele um confrade de Aznar no lançamento da guerra para desmantelamento do Iraque – e que prossegue nas atitudes dos actuais dirigentes.

Apenas por pura ingenuidade poderíamos admitir que figuras como Juncker, Draghi, Mogherini, Georgieva, Dombrowskis, Tusk, Moedas e outros que tais conhecem a história europeia e a importância que nela tem a secular nação catalã, sobretudo quando comparada com Estados de conveniência brotando como cogumelos, aqui e ali, consoante os interesses que determinam o que deve acontecer no continente.

Os tecnocratas citados comportam-se como se a história do velho continente se resumisse às ordens, estatísticas, gráficos e powerpoints que recebem das entidades e interesses que lucram com a existência da União Europeia, a qual tem tanto a ver com a história da Europa como as fábulas difundidas a propósito das intenções atribuídas aos «pais fundadores».

Nessa sabedoria dos eurocratas não cabem, como é óbvio, as razões de ser do que acontece na Catalunha nem o respeito pela vontade dos catalães, ainda que manifestada livremente e através do voto democrático. Pelo contrário, Bruxelas apoia sem rebuço o governo de Madrid quando este viola princípios elementares do Estado de direito para impedir que os cidadãos catalães se pronunciem democraticamente sobre o seu futuro.

Esta União Europeia, no entanto, é a mesma que não teve qualquer hesitação em acolher no seu regaço, apressadamente, sem rigor nem exigências impostas a outros Estados membros, nações separatistas como a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Eslovénia, a Croácia; uma União Europeia que não se privou de, à boleia da NATO, sujar as mãos com sangue de centenas de milhares de inocentes para esfrangalhar a Jugoslávia e criar uma ninhada de Estados, alguns deles aberrações que não passam de simples protectorados sob tutela de exércitos estrangeiros, como são os casos da Bósnia-Herzegovina, do Kosovo ou do Montenegro.

É verdade que estes territórios têm as suas histórias próprias, as suas culturas intrínsecas integradas no todo Europeu; sendo assim, o que dizer então da ancestral Catalunha, da sua essência nacional, da sua riqueza histórica e cultural, da coragem e da capacidade de realização do seu povo?

«Espanha tem pela frente o confronto com os efeitos da bomba de relógio montada há 40 anos por via de um processo de transição egoísta e egocentrista, falso e politicamente desonesto, procurando instaurar um franquismo "renovado" através da imposição autocrática de uma monarquia que fora rejeitada pelo povo.»

O que está em causa, portanto, não é o direito dos povos a terem os seus Estados, a poderem decidir sobre as suas dependências e independências. O que ressalta à vista, de maneira flagrante, é que as entidades com poder de decisão à escala supranacional, neste caso a União Europeia e a NATO, espezinham os princípios pelos quais dizem guiar-se e recorrem à pura e simples arbitrariedade quando lhes convém, negando hoje as certezas em nome das quais ontem até promoveram guerras.

Ora desfazem a Líbia, segmentam o Iraque, esfacelam a Síria, como desmembraram a Jugoslávia – sem curarem de proteger os seres humanos das consequências dos seus actos, nem precaverem o futuro daqueles que ainda o têm – ora recorrem a pressões, sanções e chantagens para impedir o acesso à independência de velhas e históricas nações como são a Catalunha, a Escócia ou o País Basco.

Os contornos do frente-a-frente entre Madrid e Barcelona são bem conhecidos, mas podem atingir agora proporções que ameaçam ressuscitar velhos fantasmas em Espanha, como sempre devido à intransigência e à violência do poder central.

A invocação da Constituição é, em Rajoy e na casa real, a versão moderna do argumentário unificador dos reis católicos, em fins do século XV, continuado por Franco no seu interregno de monarquia com rei entre parêntesis, e reassumido através das habilidades da transição para garantia da sobrevivência do Estado unificado, então envernizado com a democracia e autonomias que não conseguem convencer os «autonomizados».

Pelo meio ficou muito daquilo que dá razão à Catalunha e torna inquestionável a essência de tendências centrífugas de novo vivas em Espanha: continuar o processo sufragado pelos espanhóis nos anos trinta e que foi abruptamente interrompido pela sangrenta irrupção fascista. 

No referendo de 1931 os espanhóis decidiram-se pela república e abriram as portas para que as nações aglutinadas sob a designação de Espanha decidissem elas mesmas sobre os rumos a tomar. Contudo, para restaurar a democracia depois da inquisição franquista, em 1976, instituições e dirigentes não eleitos impuseram-lhes a monarquia como se nada tivesse acontecido – e não se fala mais nisso.

Os franquistas que habilidosa e oportunisticamente assumiram o processo de transição em 1975, de mãos dadas com o rei, com as costas protegidas pelo intocado aparelho repressor militar franquista, e sempre com a bênção da reaccionária hierarquia católica, fizeram de conta que a vontade legitimamente manifestada pelos espanhóis antes do golpe e da guerra civil perdera validade; e proclamaram hipocritamente a restauração plena da monarquia como uma garantia de paz, estabilidade, unidade e democracia.

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É contra este imobilismo anacrónico da trindade rei, pátria e igreja católica que a Catalunha se vem movimentando, tentando retomar o fio à história sem golpes nem violência, apenas através do uso do voto pelos seus cidadãos em referendo decidido pelo Parlamento Autonómico, livre e democraticamente eleito.

Madrid responde procurando eternizar os efeitos do golpe franquista, recorrendo à violência numa escalada provocatória muito bem conhecida e ainda presente na memória de tantos espanhóis, demonstrando que, ao-fim-e-ao-cabo, os interesses por detrás de Rajoy são os mesmos que o Caudillo servia. Uma agressão irresponsável, que provoca reacções do mesmo tipo onde, antes disso, havia mecanismos democráticos em funcionamento e uma sociedade interrogando-se legitimamente sobre a necessidade de mudar, ou não, de rumo.

Na paralela guerra da propaganda nota-se que muitas vezes se agita, de maneira falaciosa, o argumento segundo o qual o processo de consulta popular é um instrumento monopolizado pela direita nacionalista, interpretação objectivamente falsa porque as correntes políticas que apoiam a convocatória, ou não se lhe opõem, percorrem todo o espectro político catalão.

De qualquer modo, achar que existe um pecado original na circunstância de o governo autonómico em funções ser oriundo da direita nacionalista é o mesmo que ilegitimar a restauração da independência portuguesa porque os conjurados, interpretando, sem dúvida, a vontade do povo, eram os Bragança e outros aristocratas, provavelmente muito mais interessados em fazer luzir os seus títulos e interesses de casta do que preocupados com o sofrimento do povo sob o domínio estrangeiro.

«Impedir a realização do referendo, ou declarar a sua nulidade, nunca serão vitórias definitivas do governo de Madrid, mas apenas obstáculos transitórios e traumáticos»

Percebe-se a inquietação dos sectores centralistas espanhóis com a situação na Catalunha. Os acontecimentos actuais desenvolvem-se em território catalão, mas este não é estanque; ali bem perto, na vizinhança e sempre com mil cuidados, outra velha nação, o País Basco, está madura para dar o mesmo passo – também à luz do regresso ao caminho da história, que Guernica relembra inapelavelmente.

Perante a dramática degeneração do conflito ouvem-se apelos frequentes que esbarram em impossibilidades enquistadas: a Madrid pede-se a serenidade, a capacidade de diálogo democrático e o bom senso que Madrid não tem; a Barcelona pede-se o recuo no referendo, quando este é um percurso histórico conscientemente assumido, e com décadas de atraso, que Barcelona não quer abandonar.

Para já, a opção repressiva adoptada pelos sectores centralistas de Madrid pode suscitar um clima de violência de tal modo generalizado que será capaz de acordar velhos e assustadores fantasmas em toda a Espanha, mesmo os mais adormecidos. Impedir a realização do referendo, ou declarar a sua nulidade, nunca serão vitórias definitivas do governo de Madrid, mas apenas obstáculos transitórios e traumáticos – com repercussões no presente e no futuro – num caminho que os catalães já decidiram percorrer.

Além disso, a política autista e trauliteira de Madrid terá como consequência o reforço da mobilização da Catalunha e a intensificação dos esforços para que a questão da independência passe a dominar toda a agenda dos assuntos políticos espanhóis, situação que acabará por se virar contra o governo central e mergulhará o país numa crise de identidade que terá de ser resolvida.

Espanha tem pela frente o confronto com os efeitos da bomba de relógio montada há 40 anos por via de um processo de transição egoísta e egocentrista, falso e politicamente desonesto, procurando instaurar um franquismo «renovado» através da imposição autocrática de uma monarquia que fora rejeitada pelo povo.

Os mentores da transição consumaram a parte política do golpe de Franco em 1936 – liquidar a república – e chamaram democracia a esta manobra. Nenhum país vive em paz e para sempre sob os efeitos de uma mentira com esta envergadura. Com a agravante de a casa real ser um dispositivo luxuoso, provocatório e comprovadamente corrupto.

Pelo que, além das movimentações secessionistas que se registam em nações de Espanha, e não apenas na Catalunha, o que está globalmente em causa, por detrás do clima de degeneração político-policial entre Barcelona e Madrid, continua a ser o confisco da legitimidade aos povos de Espanha quando estes proclamaram a república.

Fizeram-no em referendo, no ano distante de 1931; percebe-se, portanto, por que o centralismo madrileno nem quer ouvir falar em consulta popular que evoque esse tempo histórico, ainda que indirectamente. Porém, fugir ao problema, tal como soltar as hordas fascistas, como fez Franco, não é solução. Ele continua a existir e a assombrar.

Nada mais natural, neste ambiente, que os fantasmas supostamente enterrados com as centenas de milhares de vítimas da guerra civil só sosseguem quando o país regressar aos caminhos históricos legitimamente definidos.

Espanha enfrenta uma hora de grandes e indispensáveis decisões, que apenas foi conseguindo adiar iludindo-se com uma estratégia que tem prazo de validade – mesmo que não inscrito em qualquer rótulo.

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por Augusta Clara às 16:15

Sábado, 22.07.17

Actualidade de Treblinka - José Goulão

 

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O poderoso e sufocante documentário inspirado no campo de extermínio de Treblinka que Sérgio Tréfaut acaba de nos oferecer, e que entra directamente no lote restrito de produções capazes de nos reconciliarem com a arte do cinema, tem como maior virtude a sua temível actualidade.

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«Andriy Parubiy, chefe das SS ucranianas de hoje, um favorito da NATO e da União Europeia, presidente do Parlamento de Kiev e identificado mentor do massacre de Odessa em 2014»Créditos / news.liga.net

 

   Tudo no filme atinge o espectador – a interminável viagem de comboio, os fantasmas que nele viajam, a incarnação da vida e da morte proporcionada pela figura lancinante de Isabel Ruth, as cores sem cor, as paisagens esbatidas e sem tempo olhadas por olhos que já não vêem, acompanhadas por palavras assombradas de quem sobreviveu depois de sentir-se morto – mas o grito mais alarmante que brota da tela é a actualidade do que é exposto aos nossos sentidos.

Ironicamente isso acontece através da evocação do campo de extermínio que os carrascos nazis se esforçaram por apagar até ao derradeiro vestígio, para nos convenceram de que nunca existiu. Dando-se ao trabalho de desenterrar centenas de milhares de cadáveres gaseados para os incinerar em grelhas gigantescas.

Haverá quem diga: isso foram outros tempos, já lá vão mais de setenta anos e foi obra de dementes inspirados por um louco.

Por isso o maior dos méritos do admirável trabalho de Sérgio Tréfaut é dizer-nos que não, aquilo não foi um fenómeno de época, a mente do ser vivo que foi capaz de tais degenerações anda por aí e basta-nos não levarmos a nossa vida ao compasso da informação de pechisbeque para descortinarmos as suas emanações, mesmo após cuidadosa aplicação do filtro dos paralelismos abusivos.

O documentário Treblinka é actual porque a realidade do início dos anos quarenta do século passado chega até hoje pela voz de quem sobreviveu à hecatombe. É uma actualidade factual, indesmentível, se bem que haja quem continue ocupado em garantir, até «cientificamente», que aquilo não aconteceu, foram exageros e vinganças dos vencedores.

Percebe-se, por isso, que as mentes perversas capazes de aceitar o extermínio em massa de milhões de seres humanos continuam activas, de modo algum satisfeitas com as tarefas de «limpeza» e «purificação» então executadas.

Os fenómenos expostos deste modo directo, porém, são mais identificáveis, portanto mais controláveis.

Eles são parte do perigo, ainda que não sejam a componente mais letal, sabendo-se que vivemos numa fase de perfídia, insídias e enganos. Os germes da verdadeira ameaça, temível e sempre latente, flutuam nas imagens e palavras de Treblinka e são um convite para que nos internemos mais nessa actualidade.

Aquela interminável viagem de um comboio da morte é uma metáfora da relação do ser humano com o poder, de como a fragilização dos mecanismos democráticos para controlo das actividades de governação e comando vai escancarando a porta dos desmandos.

Os nossos tempos são de democracias dia-a-dia mais frágeis, a que correspondem evidências de poderes cada vez mais absolutos e arbitrários. Ao compasso desta involução humanista vão florescendo manifestações de insensibilidade, de discricionariedade, de arrogância, enfim, de despotismo – e cada vez menos envernizado.

Há crueldade quando um presidente envia drones do seu gabinete para executar um «terrorista» a cinco mil quilómetros de distância, sabendo que a «operação» pode matar a família e dezenas de outras pessoas em redor, vítimas que passam de pessoas inocentes a «danos colaterais» num simples passe de estatística.

«Há crueldade quando um presidente envia drones do seu gabinete para executar um "terrorista" a cinco mil quilómetros de distância, sabendo que a "operação" pode matar a família e dezenas de outras pessoas em redor»

Há despotismo quando se arrasa um país, incluindo escolas e hospitais com meninas e meninos dentro, entregando-o depois a milícias selváticas, para se esquartejar um alegado ditador com o qual se mantiveram negócios e que, de um momento para o outro, é recomendável silenciar.

Há uma degeneração dramática da condição humana quando se tratam como párias, escravos, seres infra-humanos ou simples escória os milhões de vítimas humanas que pedem desesperadamente para sobreviver junto daqueles que são verdadeiramente responsáveis pelo seu martírio.

Há uma insensibilidade comprometedora quando se deixa a casta dos donos do dinheiro à solta para disporem da vida da maioria dos cidadãos, aos quais, paulatinamente, se vão retirando os direitos para se defenderem.

Existe uma arrogância despótica quando se encontra unicamente na imposição da austeridade aos mais desprotegidos a pretensa solução para as chamadas crises da sociedade, as quais, na maioria dos casos, não têm outras raízes que não sejam os obstáculos à acumulação interminável de lucros por elites desumanizadas.

E que interpretação se poderá dar ao comportamento de dirigentes e de um Estado capazes de sujeitar aos requintes de uma violência, que se dirá de uma crueldade cientificamente apurada, mais de um milhão de seres humanos submetidos ao universo concentracionário de Gaza, ou centenas de milhares de pessoas confrontadas com a impenetrabilidade de um muro que divide famílias, comunidades, recursos?

Assim se demonstrando que a actualidade de Treblinka nos deixa perante a evidência de que o Estado de Israel e os seus protectores universais não têm autoridade moral nem legitimidade humanista para invocarem e se apropriarem do Holocausto de judeus e não-judeus.

Neste magma de comportamentos enunciados não é difícil encontrar as sementes que, num caldo de cultura adequado – longe de esquecido – germinem em comportamentos susceptíveis de descambar em situações que Treblinka avisadamente recorda.

Não fiquemos, porém, pelas metáforas; as quais, mesmo sendo-o, vão aflorando em comportamentos assumidos ou insidiosos mais do que suficientes para nos deixar alerta.

«Há que registar obrigatoriamente, para memória presente e futura, que os herdeiros dos esbirros de Treblinka estão vivos, actuantes, e nas mesmas regiões.»

Há que registar obrigatoriamente, para memória presente e futura, que os herdeiros dos esbirros de Treblinka estão vivos, actuantes, e nas mesmas regiões. Bastariam as evocações dos comportamentos de dirigentes como os que desempenham actualmente funções na Polónia pré-fascista, na Hungria, na Eslováquia, na Croácia, nos Estados do Báltico que o neoliberalismo «libertou» ressuscitando forças que, não apenas saudosas de Hitler, tentam fazê-lo reviver. Mas tal não esgota a realidade.

Existe o case study da Ucrânia: nunca será excessivo recordá-lo porque continua a ser escandalosa e significativamente mistificado.

Muitos dos guardas que colaboraram com a guarnição alemã do campo de extermínio de Treblinka eram milicianos ucranianos inseridos na SS hitlerianas, como voluntários ou como membros do exército «livre» da Ucrânia. Entre eles, membros do Batalhão Galícia, que ficou para a História negra da guerra associado ao nome do seu líder e mentor, Stepan Bandera.

Pois bem, Bandera é herói nacional oficial da «nova» Ucrânia, «democratizada» com o envolvimento da União Europeia e os préstimos insubstituídeis da NATO. Ainda hoje, em tempo real, hordas nazis da nova Guarda Nacional ucraniana, corpo treinado por militares das forças armadas dos Estados Unidos, estão a participar nos exercícios da NATO no Mar Negro e que simulam «apropriação de território», quiçá uma formulação julgada menos comprometedora do que a tese hitleriana de «espaço vital».

Andriy Parubiy, comandante das milícias de assalto nazis envolvidas na chamada «revolução democrática» da Praça Maidan, um seguidor actual de Stepan Bandera que foi presidente do Conselho Nacional de Defesa e Segurança e hoje é presidente do Parlamento, depois de ter contribuído para a ilegalização de partidos como o Comunista, age como um interlocutor privilegiado nos areópagos que proclamam a democracia e os direitos humanos.

São habituais os seus briefings com os comandantes da NATO, tendo em conta os seus laços operacionais com os batalhões neonazis, que são determinantes nas actuais forças armadas ucranianas; numa visita recente a Itália, Parubiy escutou a presidente do Parlamento, Laura Boldrini, do Partido Democrático, dizer que deseja o reforço da cooperação parlamentar com a Ucrânia, «tanto no plano político como administrativo».

A actualidade de Treblinka é gritante. Ao fim e ao cabo, um «democrata» como Andriy Parubiy, chefe das SS ucranianas de hoje, um favorito da NATO e da União Europeia, presidente do Parlamento de Kiev e identificado mentor do massacre de Odessa em 2014, poderia ter sido um dos esbirros que mandava abrir as torneiras de monóxido de carbono sobre milhares e milhares e milhares de homens, mulheres e crianças cuja única culpa era existirem.

Bastava-lhe estar na força da vida em 1942 – em vez de em 2016.

 

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por Augusta Clara às 20:45

Domingo, 21.05.17

A terceira via para o abismo - José Goulão

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José Goulão  A terceira via para o abismo

 

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Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». 

 

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   A epidemia potencialmente letal que atinge hoje os partidos socialistas e social-democratas terá começado com Anthony Blair à frente dos trabalhistas britânicos, embora a degeneração gradual viesse de trás.

No entanto, a conversão ao ultraconservadorismo de Thatcher e Reagan, a submissão às inquestionáveis ordens do mercado, as ânsias de privatização do Estado e os ataques sem piedade aos direitos sociais e laborais dos cidadãos representaram um salto qualitativo na degradação, a que se foram juntando, numa vertigem que agora se conclui ser suicida, as mentiras na cena internacional, o culto da guerra, a rapina generalizada.

Aproveitando depois o balanço e as circunstâncias propícias da História ocorridas na transição da década de oitenta para a de noventa do século passado, os agentes da paciente conspiração norte-americana em Itália infiltrados nos Partidos Socialista e Comunista aceleraram a sua missão e, nos escombros das duas entidades históricas, ergueram o Partido Democrático, à imagem e semelhança do seu homónimo dos Estados Unidos – isto é, sem funcionamento orgânico e seguindo orientação económica neoliberal – que definiram como sendo a nova «esquerda», daí em diante a única com vocação de poder.

Há pouco mais de um ano, o então presidente francês, François Hollande, eleito pelo Partido Socialista, defendeu que os novos tempos exigiam um «hara-kiri do PS», uma transformação em algo de ideologia muito mais abrangente e indefinida, que imaginou como «Partido do Progresso»; na mesma altura, um dos primeiros-ministros que nomeou durante o seu mandato, Manuel Valls, declarou a necessidade de o Partido Socialista mudar de nome.

Há poucos meses, o ministro da Economia de ambos, Emmanuel Macron, também ele uma figura do PSF, lançou o movimento En Marche que, sem militantes e estrutura mas com financiamento dos bancos e banqueiros para os quais trabalhou, e com o apoio operacional de agentes enviados pelo Partido Democrático dos Estados Unidos, o catapultou quase do zero até à Presidência da República.

Enquanto isso, o candidato oficial do PS – ou do que dele resta – ficou abaixo dos sete por cento nas eleições presidenciais, abandonado pelo aparelho do partido, pela sua Fundação Jean Jaurès e pelas figuras de proa, com destaque para Hollande e Valls, que logo se puseram en marche com Macron.

Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». O resto é «extrema-esquerda» ou «esquerda radical», isto é, organizações «desfocadas» da realidade, «agarradas ao passado», incapazes de se adaptarem aos novos conceitos evolutivos, em suma, entidades que se atrevem a rejeitar a doutrina única e oficial, o capitalismo selvagem.

Dos casos citados a propósito do Reino Unido, Itália e França, só os trabalhistas britânicos ainda resistem à dissolução, por continuarem a recorrer, pelo menos até agora, a consultas às bases partidárias para elegerem os dirigentes e não ao artifício anti partidário das primárias, importado, claro, dos Estados Unidos da América. Porém, mesmo desacreditado perante o reconhecimento geral dos seus crimes e mentiras no drama do Iraque, Tony Blair e a sua teia de propaganda voltam a estar activos na intriga e desestabilização do Partido Trabalhista, de modo a reencaminhá-lo na senda da destruição que muitos outros estão a percorrer.

Os casos de Itália e França são exemplares. Renzi e Macron parecem saídos da mesma forma tecnocrática de políticos robotizados em práticas de direita, envolvidos na mentira, agora cada vez mais grosseira, de que eles são «a esquerda».

Outras situações do género, que traduzem a destruição de partidos socialistas, estão consumadas ou na calha. Em Espanha, a deriva do PSOE é total, acelerada depois de ter entregado o poder, de novo, aos neofranquistas de Rajoy; e, na Alemanha, o SPD está a pagar cara a submissão feita de cumplicidade ao autoritarismo de Merkel.

Na Grécia, a miniaturização do PASOK é idêntica à do PS francês, embora sem o efeito Macron; pelo menos por enquanto, embora não seja seguro que o tsiprarismo, cada vez mais fiel às ordens de Bruxelas à custa do ainda e sempre penalizado povo grego, não vá no mesmo sentido.

Na Holanda e na Bélgica, os partidos da Internacional Socialista pulverizaram-se devido ao envolvimento na gestão da crise, praticando políticas de direita – e até de extrema-direita e xenófobas, sob o interessante pretexto de travar a influência da extrema-direita. Hollande não foi, portanto, o caso único, embora tenha ido mais longe ao governar em estado de excepção durante grande parte do mandato.

No mundo nórdico, os partidos da social-democracia, outrora reis e senhores, afundam-se em situação de deriva depois de se terem rendido à prática neoliberal, por vezes seguindo os conservadores ou então tomando a iniciativa – também para «retirar espaço» à direita.

Nos países do leste europeu, a social-democracia mal viu a luz do dia depois da extinção da União Soviética. Nasceu já neoliberal e limitou-se a colaborar na afirmação do populismo e da extrema-direita como verdadeiros gestores do capitalismo selvagem.

Às práticas thatcheristas de Blair, os politólogos sempre em busca de baptismos para «novas esquerdas» chamaram «terceira via». Para onde? Para o socialismo, pois claro, de acordo com as suas doutas elucubrações em forma de mensagens propagandísticas primárias. Na verdade, mais uma via para o capitalismo puro e duro, à moda de Friedman e dos «Chicago Boys» que criaram «o milagre de Pinochet» – por fim o capitalismo isento de quaisquer inquietações sociais e com as pessoas, livre da mais ínfima das sequelas keynesianas.

Com maior ou menor convicção, os partidos socialistas e social-democratas seguiram Blair incarnando o flautista de Hamelin, institucionalizando-se como o «lado esquerdo» do sistema bipolar que governou a União Europeia como partido único, até estatelar-se estrondosamente, em 2008, nos frutos podres da subserviência ao casino financeiro – a «crise».

Se alguém tiver dúvidas, pode consultar as decisões do Parlamento Europeu tomadas ao longo de anos e anos: em matérias de cultura, questões de consciência e até direitos teóricos, é possível detectar diferenças entre os comportamentos dos membros do Partido Popular e do Grupo Socialista; mas quando se chega aos assuntos económicos, laborais, à imposição da austeridade, às medidas financeiras, de combate à crise ou de estruturação autoritária da União Europeia e da Zona Euro, aí a convergência é praticamente total entre os dois blocos.

A verdade é que a conjugação da crise com os efeitos sociais, a que se junta o problema dos refugiados resultante de guerras pelas quais a União Europeia também é responsável, desmoronou a arquitectura política de partido único com duas tendências. Na entropia resultante em que vivemos, na qual multidões de cidadãos desorientados, manipuladas pelos aprendizes de feiticeiros peritos em explorar o medo e a insegurança, são cativadas por apelos de populistas mais ou menos envernizados, por mensagens trabalhadas à maneira de anúncios de refrigerantes, ou até por fascistas retintos, as esquerdas que permanecem fiéis ao humanismo, à cidadania e às pessoas quase não conseguem fazer-se ouvir.

No meio das ruínas da arquitectura política em extinção tornou-se evidente que o papel da social-democracia oficial na gestão do neoliberalismo, mesmo temperada pela «terceira via», se tornou descartável, inútil. Cumpriu o papel, mas cabe agora à direita pura e dura, nas suas variantes que chegam até aos extremos do populismo e do fascismo, gerir o sistema neoliberal.

O arrastamento da crise, desmentindo a teoria dos ciclos altos e baixos da economia, tornou o funcionamento do sistema praticamente impossível em democracia. É preciso afastar os cidadãos do direito de decidirem, seja pela força, pelo autoritarismo em liberdade condicionada, pela intoxicação tecnocrática disfarçada de inovação política.

Por isso os Partidos Socialistas caem como pedras de dominó. A maioria dos seus dirigentes instalam-se no novo espaço. Onde já se encontra, há muito, a instituição que conduz este processo de modo cada vez mais indisfarçado: o Partido Democrático dos Estados Unidos. Daí que Hillary Clinton, senhora da guerra com as mãos sujas de sangue de milhões de mortos e feridos e do sofrimento de milhares de refugiados, seja a figura de referência da Internacional Socialista de hoje. Está encontrada mais uma «nova esquerda», agora sim fazendo inequivocamente parte da direita.

Porém, como sabemos, nem todos os dirigentes socialistas apanharam a boleia de Blair e discípulos: existem casos de resistência a alguns valores essenciais; além disso, os chefes que fogem deixam para trás multidões de cidadãos que não estão dispostos a acompanhá-los como os ratos seguiram o flautista de Hamelin – e assim volto ao velho conto de Grimm.

Por isso, a esquerda – ou as esquerdas, se preferirem – têm agora milhões de seres humanos como destinatários de mensagens que sejam capazes de mobilizar o combate contra um adversário poderosíssimo mas cada vez mais definido e identificável, por muito que use e abuse da intoxicação, do ilusionismo e da mistificação.

Para que as mensagens sejam unificadoras da mobilização e dinamizadoras dos objectivos de luta é necessário que as esquerdas decidam, de vez, deixar de se dividir e engalfinhar em torno de ilusões que a realidade está cansada de desmascarar: a burla do «mercado livre», o mito «europeísta», a ideia absurda de que a União Europeia é «regenerável», a mentira de que é possível compatibilizar a democracia e a soberania com a obediência aos ditadores servindo Bruxelas e a moeda alemã, também chamada única ou euro.

Num dia, que está próximo pela força das circunstâncias, a Internacional Socialista mudará também ela de nome, sem precisar de fazer hara-kiri. Grande parte dos seus membros já o fizeram. Se preferir continuar a chamar-se assim, ficará como um imprestável paquiderme em busca do seu cemitério.

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por Augusta Clara às 00:17

Sábado, 25.02.17

O rosto repelente da verdade - José Goulão

 

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O óbito da solução de dois Estados não foi declarado só agora. A resolução da ONU estabelecendo a partilha da Palestina foi logo sabotada pelo recém-nascido Estado de Israel, quando iniciou a limpeza étnica das populações árabes.

 

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Donald Trump recebeu Benjamin Netanyahu na Casa Branca, a 15 de Fevereiro Créditos / Agência Lusa

 

   E a verdade chegou pelo rosto e pela voz que não encobrem as normas escabrosas regedoras do mundo, aplicadas por estruturas dominantes sem princípios nem valores, mesquinhas, desumanas, xenófobas, hipócritas. No seu discurso boçal, mas franco, Donald Trump disse que o rei ia nu, isto é, proclamou o que toda a gente sabia mas nenhum dos seus parceiros ousava admitir: não há lugar para a solução de dois Estados na Palestina. Ou seja, nega-se ao povo palestiniano o direito ao seu Estado. É uma cruel ignomínia; mas também é, por ora, a realidade dos factos.

Milhões de dedos escandalizados espetaram-se na figura odienta do novo presidente dos Estados Unidos da América, autor de uma blasfémia contra o direito internacional e, sobretudo, inquietador das boas consciências dos chefes da ONU, da União Europeia, de todos os «quartetos para a paz» feitos e desfeitos, de quantos se contentam em garantir a criação de dois Estados na Palestina enquanto o único existente, protegido a qualquer preço pelos poderes dominantes – vai engolindo palmo-a-palmo, traulitada-a-traulitada, todo o pedaço de terra onde deveria nascer o outro.

Avaliando, sem rodeios nem sob o efeito de melífluas declarações diplomáticas, a situação no Médio Oriente, apenas pode concluir-se que a solução de dois Estados na Palestina fracassou há muito. Terá morrido até à nascença, há 70 anos, quando as Nações Unidas, na vetusta e incumprida resolução 181, de 27 de Novembro de 1947, aprovaram o plano de partilha da Palestina, então sob mandato britânico.

Talvez seja este, afinal, o histórico, magno e escandaloso alcance da polémica proclamação de Trump. Apenas recordou e reafirmou as exigências impostas, em seu tempo, pelos Rockfellers, Rostchilds e quejandos, permanentemente lembradas ao complexo militar, industrial e tecnológico dos Estados Unidos pelos todo-poderosos lobbies judaicos.

O óbito da solução de dois Estados não foi declarado só agora. A resolução da ONU estabelecendo a partilha da Palestina foi logo sabotada pelo recém-nascido Estado de Israel, quando iniciou a limpeza étnica das populações árabes, a rapina dos seus bens, a destruição dos seus lares, vilas, aldeias e propriedades; prosseguiu com as deportações e anexações contínuas, as guerras de 1968, 1973, 1982, 1986, 1996...

A possibilidade de existência de um Estado Palestiniano ressurgiu vagamente com os acordos Rabin-Arafat de 1993, logo desmantelada pelo assassínio do então primeiro-ministro israelita e pela sequente sabotagem das negociações de paz por Peres, Sharon, Netanyahu, os beneficiários políticos da liquidação de Isaac Rabin por um criminoso saído das suas fileiras.

«A arrastada coexistência de falsas negociações com a colonização israelita da Cisjordânia, sempre em crescendo, e o sangrento desmantelamento de Gaza, inviabiliza, de facto, a existência de um Estado independente que tenha condições para sobreviver.»

 

A arrastada coexistência de falsas negociações com a colonização israelita da Cisjordânia, sempre em crescendo, e o sangrento desmantelamento de Gaza, inviabiliza, de facto, a existência de um Estado independente que tenha condições para sobreviver. Resta o gueto dito «autónomo» de Ramallah, preso nas suas próprias malhas, submetido ao ocupante sionista, mergulhado nos vícios da pequena e baixa política, joguete de interesses de uma aliança espúria entre o Estado segregacionista de Israel, agora plenamente racista e fascizante, e as petroditaduras do Golfo, com a Arábia Saudita à cabeça.

A tudo isto o mundo assistiu nos últimos 25 anos, repetindo a ladainha dos dois Estados como um mantra – enquanto Israel prosseguia tranquilamente a colonização/ocupação, acusando os palestinianos de se recusarem a negociar por contestarem as ininterruptas invasões dos destacamentos de assalto colonizadores.

A opinião pública deixou-se embalar nesta espécie de determinismo dos dois Estados, crente de que um dia qualquer veria nascer um Estado Palestiniano, espécie de sucedâneo dos milagres criadores de Bósnias, Kosovos, Sudões do Sul, Somalilândias; até que Trump estilhaçou o limbo com a crueza da verdade repelente: não há – nem nunca houve – ideia de cumprir a promessa da existência de dois Estados na Palestina.

A União Europeia, a ONU, as famílias Bush e Clinton, o próprio Obama sobem então ao palco exibindo consciências virginais, clamando contra o maléfico atrevimento do novo presidente norte-americano. Contudo, eles sabem como ninguém do que fala Trump.

Com eles esfumou-se a possível criação de um Estado palestiniano, porque cobriram, toleraram e encorajaram sempre a estratégia dilatória e as práticas criminosas de Israel. E a Obama, que se ufana de ter permitido a primeira resolução do Conselho de Segurança contra a colonização, há que recordar que o fez com oito anos de atraso. O ex-presidente sabia perfeitamente que qualquer dos seus sucessores – fosse Hillary Clinton ou Trump – inverteria tal posição, assumida já em fase de transição de mandato.

A proclamação sionista de Donald Trump tem ainda um outro significado, que não pode ficar soterrado nos escombros dos inflamados, hipócritas e inócuos protestos da chamada «comunidade internacional». O seu tom e conteúdo provam que o actual presidente norte-americano não surge do exterior do establishment e à margem do complexo militar, industrial e tecnológico que domina o sistema de poder federal e imperial.

Trump é o homem escolhido para o actual momento de crise e contradições da desordem capitalista neoliberal. As proclamações trovejantes por ele proferidas, em sintonia com as vontades da teia financeira, económica e política dos lobbies judaicos, confirmam-no – caso houvesse dúvidas.

Trump é a verdadeira imagem da América e do capitalismo de hoje.

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por Augusta Clara às 21:15

Sexta-feira, 27.01.17

O polimento da tragédia Obama - José Goulão

 

 

   Recordemos palavras de Barack Obama no seu último discurso sobre o Estado da União: «A América é a nação mais forte da Terra. As nossas despesas militares são superiores às despesas conjuntas das oito nações que nos seguem. As nossas tropas formam a melhor força combatente da história do mundo».

 
Poderia chamar-lhe o discurso do imperador, mas não façamos disso um cavalo de batalha quando há tanta gente empenhada em descobrir um Obama que não existiu, como forma de esconjurar os legítimos receios com a entrada na Casa Branca de um sujeito como Trump.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obama não é melhor presidente do que alguma vez foi porque Donald Trump escancarou as portas da mansão presidencial como as de um saloon, semeou dourados pela decoração e pôs as botifarras em cima da mesa oval para assinar a sentença de morte do «Obamacare» e ditar que, para ele, o comércio livre é outra coisa.

Poucos dias antes de pronunciar as citadas palavras imperiais, o então ainda presidente Obama anunciara que o mais recente pacote de despesas militares inclui novos poderes para as 17 agências federais de espionagem, de modo a «contrariar a desinformação e propaganda», alegadamente fomentadas por outras potências; desse esforço, 17 mil milhões de dólares são dedicados à cibersegurança, isto é, à espionagem informática universal – as lendas sobre o papel da Rússia na eleição de Trump serviram assim de pretexto mais actual, como fato feito por medida.

Expansão militar universal, mentira e propaganda foram, portanto, as derradeiras mensagens deixadas pelo presidente Obama, o que torna ainda mais surpreendente o escândalo de tantas boas almas mainstream com a capacidade de Trump para entrar em funções logo a mentir descaradamente. Não descobriram ainda que a mentira é um comportamento inerente ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América (e de outros, claro)? Um mentiroso pode ser mais ou menos boçal, mas não deixa de mentir.

«É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.»

Por isso, antes de nos dedicarmos a Donald Trump – infelizmente razões não faltarão nos tempos que aí vêm – passemos uma sintética vista de olhos sobre o testamento político de Obama, esse sui generis Nobel da Paz, quanto mais não seja como antídoto perante a campanha de mistificação e de polimento dos seus catastróficos mandatos.

É sintomático que venha imediatamente à superfície uma única realização quando pretendem passar-se em revista as supostas preocupações «sociais» da gestão Obama/Hillary Clinton/John Kerry: «Obamacare». Além de não ser, no final, nada daquilo que esteve para ser no início, a suposta reforma do sistema de saúde em benefício dos mais desfavorecidos foi, essencialmente, um bónus para as companhias seguradoras e para o totalitário sistema privado de saúde à custa dos contribuintes – incluindo os mais desfavorecidos – e dos cofres públicos federais.

É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.

Às guerras do Afeganistão e do Iraque – com que não acabou, antes alimentou – somam-se a destruição terrorista da Líbia, a catástrofe humanitária gerada na Síria, a tragédia no Iémen, os golpes e contragolpes no Egipto, as fraudes da suposta guerra contra o terrorismo, incluindo comprovados patrocínios da actividade de grupos de mercenários como a al-Qaida e o Daesh, a realização do golpe fascista na Ucrânia e da sequente guerra civil, o estabelecimento do recorde de execuções extra judiciais através de drones e outros métodos de liquidação.

Sem esquecer o constante apoio à transformação de Israel num Estado confessional e fascista que tornou de facto impraticável a tão falada «solução de dois Estados» na Palestina; ou a manutenção da vergonha torcionária de Guantánamo, enquanto dava passos em direcção a um aparente fim do bloqueio a Cuba – que, afinal, se mantém inquebrável.

A tão recente e celebrada abstenção norte-americana permitindo ao Conselho de Segurança da ONU aprovar uma moção condenando o colonialismo israelita não passa de uma manobra cínica e hipócrita. Se Obama tivesse tomado a mesma atitude há oito anos, talvez ainda houvesse margem de pressão internacional susceptível de forçar o fascismo sionista a corrigir o rumo. Mas Barack Obama, quando teve poder real, alinhou sempre, em última análise, no jogo anexionista de Israel; agora, conhecendo o que vai ser a prática de Trump nessa matéria, o gesto é inconsequente, apenas destinado a entrar na História sem fazer História.

Sob a gestão de Barack Obama, o número de países onde as forças especiais dos Estados Unidos fazem guerra passou de 75 para 135. Há meia dúzia de dias, tanques de última geração, mísseis de cruzeiro de longo alcance preparados para transportar ogivas nucleares e uns milhares de soldados norte-americanos foram instalados em nova base militar na Polónia.

A produção e o tráfico de heroína atingiram novos máximos nos últimos anos, graças às condições extremamente favoráveis criadas no Afeganistão e no Kosovo, territórios onde se vive sob a bandeira tutelar da NATO.

E o insuspeito The New York Times revelou que grupos como a al-Qaida e o Daesh foram financiados em milhares de milhões de dólares pelas petroditaduras do Golfo, fortunas essas canalizadas através de uma rede internacional gerida pela CIA.

Expansão, mentira e terror são pilares de qualquer doutrina económica e financeira fascista; pilares esses em que a administração Obama se apoiou sem reservas. Por isso, é injusto acusar Donald Trump de a eles recorrer como se fossem coisas inerentes a um tipo de gestão pessoal e exclusivo.

Democrata ou republicano, neoliberal ou ultranacionalista, deixemos os rótulos de lado. À primeira vista estamos perante duas abordagens diferentes da gestão presidencial, mas não apostemos em qualquer engano do establishment. Obama e Trump: cada um chegou em seu tempo e em determinadas circunstâncias para defender os mesmos interesses.

Podemos estar, porém, perante a explosão de grandes contradições associáveis a um capitalismo mergulhado numa crise a que nem sequer tem valido a fé inabalável no autocontrolo do mercado e na teoria dos ciclos sucessivos. O neoliberalismo puro e duro, assente na globalização, terá atingido os seus limites? Serão necessárias outras receitas, velhas ou renovadas?

Temos pela frente a procura de respostas e a definição de acções perante um novo cenário – mas que não sejam inconsequentes ou folclóricas. Para trás ficou Obama, no cumprimento da sua missão, tão hipócrita como sinistra e sangrenta, na «defesa da democracia». Não será a truculência de Trump – óbvia mas de consequências imprevisíveis – que fará do antecessor um presidente menos péssimo e nefasto do que foi.

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por Augusta Clara às 15:15

Quinta-feira, 01.12.16

Fidel - José Goulão

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José Goulão  Fidel

 

A opinião pública portuguesa, europeia e, a bem dizer, da maior parte do mundo, sem esquecer as Américas, continua a ser fuzilada pela metralha de insultos, mentiras e dislates mais ou menos idiotas – o que não significa pouco eficazes – sobre a figura historicamente imortal e humanamente inesquecível do Comandante Fidel Castro Ruz.

 

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                   Agência Lusa 

 

abrilabril, 1 de Dezembro de 2016

   Dir-se-á que o seu apagamento físico soltou a bílis há muito entranhada para esta ocasião, tal como acendeu os rastilhos dos foguetes bafientos de alguns gusanos que, em Miami e noutros lugares, continuam a sonhar com a Cuba bordel, a Cuba das mafias, a Cuba do contrabando e das negociatas clandestinas, a Cuba de todos os vícios dos ricaços norte-americanos, a Cuba colónia, quintalinho e caixote do lixo.

Os pobres de espírito, que não de intenções revanchistas e de má-fé, têm dificuldade em entender, ou fingem não entender, que não lhes basta fazer a festa, deitar os foguetes, apanhar as canas e disparar rajadas de mensagens construídas em laboriosas centrais de propaganda para liquidar a Cuba independente, tornada possível e consolidada por Fidel, seus companheiros e, sobretudo, pela vontade e coragem dos cubanos – do povo cubano.

Será que tais mentes enfezadas alguma vez pararam para pensar como é possível que a bem sucedida resistência de um país à ocupação estrangeira e criminosa de parte do território – como Guantánamo –, a um bloqueio asfixiante que ferra há quase sessenta anos, a sucessivas tentativas e ameaças constantes de invasões, golpes, conspirações e incentivos à expatriação, seja obra de um dirigente, de um aparelho repressivo de poder, de um partido?

Já se deram conta de que Cuba tem resistido a uma ofensiva esmagadora dos mais poderosos e concentrados meios de intoxicação ideológica atacando, sem alguma oposição, a partir de um território situado a menos de cem quilómetros, da outra margem do estreito?

Já imaginaram a coragem, o sentido de independência, a ousadia de um povo para resistir, como aconteceu durante os anos noventa, ao regresso à penúria de uma economia de sobrevivência – ao pé da qual a austeridade que nos foi imposta é uma penalidade benigna?

É verdade que ter ideias, formar opiniões, pensar fora da formatação oficial é, hoje em dia, nas nossas sociedades, um anacronismo, um atrevimento, quiçá a antecâmara do mais ameaçador terrorismo. O que importa é consumir doutores, comentadores, politólogos, desideólogos, mentirólogos, alter-egos de fulgêncios batistas, acenar-lhes ordeiramente e ficar com a informação necessária e suficiente para repetir no café, no metro, no emprego, se possível até no Parlamento.

Nos dias em que regimes políticos que se supunham sólidos ruíram fragorosamente com o muro de Berlim, sem dúvida porque, a dada altura dos seus caminhos históricos, perderam ou cortaram os vínculos com a sua essência, a ligação ao povo e os mecanismos para que este decidisse da sua vida, a Cuba independente e com os olhos no socialismo conseguiu sobreviver.

E sobreviveu paupérrima, isolada, amesquinhada, quase sem amigos, ridicularizada por aqueles que, de barriga cheia, anafados de «democracia» e «direitos humanos», profetizavam diariamente «o fim do regime» para o dia seguinte. Bastaria isso para que qualquer ser pensante se desse ao trabalho de se interrogar sobre as razões pelas quais a Cuba de referências socialistas não seguiu o destino – que hoje se percebe catastrófico – de outras nações «irmãs».

Falta de democracia? Sim, dessa coisa que obriga governos eleitos a terem de sujeitar os orçamentos de Estado aprovados por Parlamentos eleitos aos pareceres de grupos de sujeitos não eleitos, marionetas manipuladas por interesses tendencialmente mafiosos; essa coisa que obrigou o povo do mais poderoso país do mundo, o país que se permite tentar matar os vizinhos à fome, a escolher para presidente entre uma fascista com provas dadas e um fascista com ameaças por cumprir.

Violação dos direitos Humanos? Sim, dessa coisa que a NATO leva na boca dos canhões, nos bojos das aeronaves ao Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Palestina, Líbano, Iémen, Mali, República Centro Africana, Nigéria e lá onde lhe aprouver.

«Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos "barbudos" de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.»

Enquanto isto, a célebre oposição cubana, endeusada aqui e além, e também no Parlamento Europeu, continua a ter como ícone esse sénior e incontornável terrorista e criminoso chamado Posada Carriles. Um verdadeiro democrata, como está provado.

Na hora em que o Comandante Fidel Castro Ruz nos deixa, e principalmente se transforma numa imensa saudade para o povo cubano e os seus amigos, os ansiosos de revanchismo não se deram ao recato de, ao menos, respeitar esse direito humano de sempre, o direito ao luto.

Também não precisam de verter lágrimas de crocodilo porque, ao contrário do que profetizam, a Cuba independente e o povo cubano não ficam órfãos. Têm o seu sistema de vida. Estão habituados a provações e a que agora lhes aconteceu estava prevista no eterno ciclo da vida e da morte, não é uma traição, nem golpe, nem conspiração.

Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos «barbudos» de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.

Os dias da despedida são já de um futuro no qual a Cuba livre e independente sabe que continuará a sua gesta de sempre, num ambiente infestado de fulgêncios batistas, contra as ganâncias das Monsanto e United Fruit deste mundo, das petrolíferas do costume e outras, das mil e uma mafias do turismo, do armamento, da droga, da química e farmacêutica, do jogo, da prostituição, do agroalimentar; ganância pelos bens e riquezas que são de todo o povo cubano.

A gesta de sempre contra o bloqueio, contra a ocupação de Guantánamo e contra os criminosos que mantêm estas situações, incluindo aqueles que usam e abusam do ilusionismo mediático prometendo revogá-las para melhor as sustentar.

Nestes dias, a evocação mais sincera e emocionada que é possível fazer da memória indestrutível do Comandante Fidel Castro Ruz é a de que a Cuba livre e independente está viva e pode contar com a solidariedade combativa de milhões e milhões de cubanos adoptivos em todo o mundo.

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por Augusta Clara às 22:36

Sábado, 12.11.16

A ordem natural das coisas - José Goulão

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José Goulão  A ordem natural das coisas

 

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O que está a acontecer nos Estados Unidos da América, reflectido nos acontecimentos envolvendo a escolha do novo presidente, nada tem de surpreendente nem de aberrante, prossegue apenas o alinhamento da ordem natural das coisas.
 
Créditos / Agência Lusa

   O sistema de poder mais fiscalizado, filtrado e policiado do mundo jamais se enganaria na escolha daquele que interpreta os seus interesses e exigências num determinado momento e nas circunstâncias existentes.

Não confundir sistema de poder com sistema político. Os dois universos estão normalmente em consonância, porque disso cuida a estabilidade fundamental para os magnos interesses que enformam a estrutura que comanda. Porém, quando esta não se sente confortável nem segura com os caminhos da política interna, e externa, é óbvio que se vê obrigada a recorrer ao exterior da estrutura tradicional, abrindo caminho a um outsider, tornado insider enquanto o diabo esfrega um olho.

É o caso da entronização de Donald Trump em detrimento da senhora Clinton, que tantas etapas queimou para corresponder ao que o sistema de poder actualmente exige de um presidente que se esturricou a si mesma, numa sucessão de malfeitorias com as quais o establishment tem muitas dificuldades em lidar perante a opinião pública, por muito condicionada esta seja.

As circunstâncias em que decorreu o presente episódio eleitoral nos Estados Unidos exibem o nível mais reles da política. Nada do que aconteceu tem a ver com democracia, com uma ideologia que não seja a não-ideologia, com debate de ideias ou esclarecimento da situação social.

É certo que nada de substancial poderia ser discutido, porque o sistema chegou a uma fase em que a sua própria sobrevivência, tal como ele se conhece ou funciona, já não é compatível com debate, ideias e transparência, impõe subserviência e conformismo como nunca exigiu – isto é, um poder forte e autoritário comandando um exército de desiludidos receptivos a radicais promessas de mudança e melhoria de vida, ainda que pressintam falsas.

«Nada do que aconteceu tem a ver com democracia, com uma ideologia que não seja a não-ideologia, com debate de ideias ou esclarecimento da situação social»

 

Não é novidade que, desde meados da década de setenta do século passado, a ortodoxia neoliberal tomou conta das rédeas do capitalismo, promovendo o mercado a entidade suprema da sociedade, malignizando o Estado, exorcizando qualquer sistema de apoio e solidariedade social, libertando o trabalho de quaisquer amarras, direitos e vínculos, uma solução que temos ouvido definida na forma do slogan «liberalização do mercado laboral».

O capitalismo, para seu próprio desenvolvimento e progresso na fase de boom tecnológico que exibe o esplendor do mercado nos salões do casino financeiro em que rolam milhões de milhões virtuais, e vai tornando a economia subsidiária da especulação, precisou de cortar quaisquer amarras com o seu passado keynesianista.

Isto é, deixaram de existir condições lucrativas satisfatórias para se falsificar um qualquer «rosto humano» do capitalismo. O capitalismo necessita de ser absolutamente livre, de dispor de acesso sem peias aos recursos humanos, às matérias-primas, ao território global – isto é, exige ausência de restrições políticas, sociais, humanistas e estratégicas; e não tolera obstáculos à conquista de espaço vital, também por isso se fala tanto em globalização.

Como, ainda assim, a crise continua a miná-lo devido a resistências várias, sejam de povos ou nações, e também devido às contradições própria das rivalidades das ganâncias à solta, há muito que o capitalismo se incompatibilizou com o que resta de democracia.

O que é válido para o templo mais sagrado do capitalismo, os Estados Unidos da América, é-o igualmente para o resto do mundo, principalmente para a moribunda União Europeia, e disso falam bem as nossas experiências pessoais e institucionais.

Afinal, não é uma humilhação dos direitos dos cidadãos, e da sua liberdade de voto, o facto de um governo português ter de submeter o orçamento aprovado pelos eleitos dos portugueses ao exame com poder deliberativo de fiscais não eleitos, algures em Bruxelas, Berlim e sabe-se lá mais onde? Conseguem descortinar a democracia no meio da teia de artimanhas de bastidores onde até são possíveis acordos secretos de burla como entre o senhor Hollande e a Comissão Europeia?

Trump surge na ordem natural das coisas estabelecida pela cavalgada neoliberal para o «fim da História», porém tornada escorregadia por uma crise até agora indomável.

«Obama e Clinton, "príncipes democratas" de pura cepa, promoveram mil e uma acções de aniquilação da democracia e de expansão do espaço vital, na esteira do republicano fascistóide George W. Bush»

 

Na sua não-ideologia ideológica, há muito que o sistema global capitalista identificou o funcionamento dos mecanismos democráticos como o principal problema a remover. Por isso, o baixo espectáculo político dado pelas eleições norte-americanas já nem escondia a realidade da não-escolha.

Obama e Clinton, «príncipes democratas» de pura cepa, promoveram mil e uma acções de aniquilação da democracia e de expansão do espaço vital, na esteira do republicano fascistóide George W. Bush: o golpe fascista na Ucrânia; o incentivo à ressurreição dos fascismos e militarismos, arcaicos ou renovados, no Leste da Europa; o crescimento e globalização da NATO e o seu funcionamento agressivo e arbitrário, recorrendo, quando considera necessário, a grupos terroristas islâmicos como divisões operacionais; a aniquilação da União Europeia – sempre «bom aluno» de Washington – através do TTIP, do enfeudamento a rígidos e expansionistas compromissos atlantistas e da tragédia dos refugiados; o incentivo à guerra, ao militarismo e a situações de caos regional ao serviço do crescimento económico através da indústria militar e do acesso, sem restrições, às mais importantes fontes de matérias-primas e de recursos energéticos; o estado de excepção em França e a ascensão de movimentos fascistas, populistas, xenófobos e racistas através da Europa, decorrente da convergência de efeitos das guerras de expansão, do terrorismo e dos problemas criados pela vaga de refugiados; a tomada e manipulação da ONU por Washington. Tudo isto marca os tempos modernos, com as assinaturas indeléveis de Hillary Clinton e Barack Obama.

Apesar das provas dadas pela senhora Clinton, o sistema de poder escolheu Trump. Os serviços prestados pela candidata deixaram rastos incómodos, mesmo numa opinião pública ferreamente manipulada.

Donald Trump surge de novo e de fora, mas do interior do sistema de capitalista, do capitalismo «de sucesso». Diz o que a doentia sociedade da «América profunda» deseja ouvir, trabalhada pelo fascismo das seitas protestantes, pela estupidificação burilada sistematicamente pela comunicação social e pela degenerada indústria cinematográfica, educada pela violência do entretenimento e dos lobbies securitários e das armas, assustada pelos pregadores obscurantistas, aterrada pela insegurança social, física e pela falta de perspectivas, minada pelas acicatadas e artificiais contradições entre grupos sociais e étnicos mergulhados nas desigualdades.

Assim se construiu o discurso «novo» de Trump sobre a cama, há muito preparada, do descrédito das ideias políticas (a ideologia) e do nível zero da democracia. A resultante do discurso do sistema de poder capitalista, o discurso vencedor de Trump, é agora uma mensagem fascista.

Iremos confrontar-nos, a seguir, com o conteúdo prático que assumirá tal programa ainda disperso, anárquico e oportunista, elaborado para vencer num dado momento e circunstâncias.

Embora suspeite de que, necessitando de derrubar barreiras nesta ânsia de atingir o estado supremo neoliberal, em que também joga a própria sobrevivência, o capitalismo descartou de vez qualquer réstia de democracia. É a ordem natural das coisas.

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 06.08.16

Líbia, uma obra-prima da NATO - José Goulão

Este Daesh líbio que agora o Pentágono combate é o mesmo de que a NATO se serviu para silenciar Khaddafi

Este Daesh líbio que agora o Pentágono combate é o mesmo de que a NATO se serviu para silenciar Khaddafi

Foto de Ilustração de Amjad Rasm

 

 

AbrilAbril, 4 de Agosto de 2016

 

   Quem desejar conhecer os exemplos dos resultados mais relevantes da cruzada democratizadora que a NATO desenvolve um pouco por todo o mundo poderá estudar a democracia afegã – e não ficará mal servido. Eleições falsificadas para manter os políticos convenientes nos cargos públicos, uma guerra interminável e cada vez mais privatizada, para gáudio das multinacionais de segurança, mercenários e armamentos, e, acima de tudo, o paraíso monopolista da indústria mundial de heroína, fazendo empalidecer a Colômbia como Meca da coca e derivados, transformando os barões mexicanos da droga em pouco mais que merceeiros.

Ou poderia analisar os case studies da Polónia e da Ucrânia – e outros com inegáveis afinidades; a Polónia sob ocupação militar da própria NATO, tal é a parafernália guerreira ali instalada; a Ucrânia transformada em campo de formação de grupos de assalto nazis e de bandos de mercenários islâmicos treinados por oficiais norte-americanos «na reserva», com o pretexto de que a ameaça putinista não abranda enquanto o mundo não se transformar numa gigantesca Crimeia; e ambos os países demonstrando como a democracia moderna, a favorita da Aliança Atlântica, convive com o fascismo tal e qual Deus e os anjos.

Tratando-se todos eles de casos meritórios, permitam-me, contudo, que escolha a Líbia de hoje como obra-prima da NATO. É que nunca qualquer ideólogo, por mais retorcido e criativo que fosse ou seja, conseguiu imaginar algo tão democrático.

Na Líbia, ao que consta, aviões militares norte-americanos, isto é, da NATO, travam a guerra final contra o Daesh, ou pelo menos para retirar a estes mercenários ambulantes o controlo do Golfo e da costa de Sirte, por acaso – por mero acaso – o maior centro da indústria petrolífera líbia. Na Líbia, pelo menos agora, o Pentágono pode dar largas à sua tão propagandeada batalha «contra o Daesh» sem estar obrigado a conter-se, como acontece por exemplo na Síria. Aqui, tal ofensiva não pode ser plena para não se transformar em «fogo amigo» e vitimar os terroristas «moderados» que lutam ao lado do Daesh e da al-Qaida, ou para não prejudicar o objectivo prioritário de aniquilar o governo da Síria, ou ainda para não aborrecer Israel, que «não quer a derrota do Isis na Síria», segundo o seu chefe da espionagem militar. Este Daesh líbio que agora o Pentágono combate é o mesmo de que a NATO se serviu para silenciar Khaddafi – como os dirigentes de Paris tanto queriam – e no qual a CIA e correlativos recrutaram os chefes para infiltrar o terrorismo islâmico na Síria, por exemplo Abelhakim Belhadj, identificado pela Interpol como «chefe do Estado Islâmico no Magrebe».

Na Líbia, o país maior produtor de terroristas islâmicos per capita, confrontam-se hoje vários governos, numerosas milícias e hordas de mercenários, dezenas de senhores da guerra e respectivos exércitos tribais. Isto é, poucas democracias serão tão ricas, multifacetadas e plurais como a que a NATO criou na Líbia.

Há o governo do Congresso Geral Nacional (CGN) em Trípoli, assente numa coligação islamita «de salvação nacional» que não aceitou os resultados gerais das eleições de 2014, por um lado porque as perdeu; por outro lado, invocando uma razão óbvia: alguém no seu juízo perfeito pode ter como referência eleições feitas numa situação caótica e de terror como a líbia?

«Enfim, cinco anos e mais de duas centenas de milhares de mortos depois, a Líbia tem um "governo unificador" com mandato da ONU em Trípoli (...).»

A coligação islamita assenta na Irmandade Muçulmana, com apoio mais ou menos tácito do Ansar al-Sharia (heterónimo líbio da al-Qaida) e sustentada internacionalmente por reconhecidas democracias como o Qatar, o Sudão, a Turquia de Erdogan e, na sombra, a Arábia Saudita. Esta coligação tem como inimigos jurados o Egipto dos generais e os Emirados Árabes Unidos, que de vez em quando a bombardeiam por motivos também inspirados na transparente democracia que ambos os Estados praticam – de tal modo que os Emirados se transformaram num farol para alguns dirigentes europeus, como o actual primeiro-ministro italiano Matteo Renzi.

O CGN de Trípoli, no entanto, parece já não estar apenas por conta própria e dos países que o apoiam. Testemunhou recentemente o seu apoio ao Governo do Acordo Nacional, uma descoberta da ONU que simula um entendimento entre muitas facções para a formação de um «governo unido» em Trípoli. Neste momento, portanto, a diplomacia da ONU e o «islamismo» moderado flirtando com a al-Qaida e apoiado pelo democrata Erdogan fingem que existe uma rota de unificação na Líbia que todos percorrem.

Porém, na Cirenaica, em Tobruk, existe o governo do «Conselho dos Deputados». Junta forças vitoriosas das eleições de 2014, usufrui, em princípio, do reconhecimento internacional e beneficia dos apoios do Egipto, dos Emirados Árabes Unidos e dos serviços secretos de grandes potências da NATO como a França, o Reino Unido e os Estados Unidos. A morte de três espiões franceses na Líbia, em 17 de Julho, escancarou o tipo de envolvimento da espionagem internacional no apoio a esta facção. Como se percebe, nem todas as aventuras dos expeditos agentes secretos acabam em glória como as do James Bond.

A par do «Conselho de Deputados» em Tobruk existe uma espécie de exército regular líbio, também reconhecido internacionalmente, comandado pelo general Khalifa Haftar, um antigo dissidente da estrutura dirigente de Khaddafi. Nesse cenário emerge agora a figura de Saif Islami, o filho sobrevivente de Khaddafi, recentemente libertado da prisão e que vai mobilizando mais apoios políticos do que seria de supor.

Enfim, cinco anos e mais de duas centenas de milhares de mortos depois, a Líbia tem um «governo unificador» com mandato da ONU em Trípoli, ao qual se associou a coligação islamita «moderada», discretamente apoiada pela al-Qaida, Qatar, Arábia Saudita e por um membro da NATO como a Turquia; caças norte-americanos, logo da NATO, usam o espaço aéreo do país como coisa sua para combaterem um grupo terrorista que vão poupando noutros lados, por exemplo na Síria; entretanto, o governo reconhecido internacionalmente, que não é o da ONU, continua instalado em Tobruk com o apoio exposto do Egipto e dos Emirados Árabes Unidos e encoberto dos serviços secretos das principais potências da NATO – Estados Unidos, França e Reino Unido. A alegada legitimidade eleitoral e o apoio da ONU estão em campos opostos enquanto os membros da NATO distribuem o seu apoio por várias facções, incluindo a do filho do dirigente que derrubaram e silenciaram.

A democracia da NATO brilha na Líbia em todo o seu esplendor.

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por Augusta Clara às 08:00



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