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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 24.07.17

Não ando muito de escritas,... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Não ando muito de escritas,...

 

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(actuação de Manel Cruz em Amarante, 23 Julho 2017)

   Não ando muito de escritas, há fases assim, mas até por me ser improvável gostava de rasgar este interregno com um testemunho sobre o momento artístico do meu irmão, Manel Cruz. Durante 16 anos, mais coisa menos coisa, cobri a cultura aqui a Norte pelo Diário de Notícias, tendo o início desse ciclo coincidido com o aparecimento dos Ornatos, a que nunca pude, como parte interessada que me reconhecia, dar atenção jornalística. Atravessei então toda a vida dessa primeira banda na qualidade de irmão, um privilégio, julgo eu, em face do que senti. Foram muitos momentos de arrepio, entre concertos incríveis, muito bons, bons, menos bons e até maus, foi um curso de emoções. Aquilo acabou, não interessa agora revisitar os porquês, e cada um deles, mais cedo ou mais tarde, se fez ao caminho. O Manel criou os Pluto, os Supernada, o Foge Foge Bandido e, após ter-se experimentado de forma diversa em todos esses projectos, assumiu-se finalmente em nome próprio. Não que andasse à procura de um novo registo onde pudesse fincar bandeira, isso não é, nunca foi e arrisco dizer que nunca será a cara do Manel. Tenho algum pudor neste tipo de discurso quando falo do meu mano, mas porque o amor é forte e ontem me emocionei vou deixar sair: o Manel é um artista. Um puto dum artista. Um gajo corajoso, bom, verdadeiro, que não desiste de lutar por aquilo em que acredita. Há poucos assim – eu, como ele, não conheço.

Para que não descambe aqui em lamechices, fico-me pela partilha de um texto que lhe enviei há uns meses e de que me lembrei ontem, com um sorriso na cara, a ver o concerto. E desculpem o tom de tudo isto.

"Pediu-me o Manel para escrever umas linhas sobre ele, por ser esse um palco a que não gosta de subir. O pudor da autorreferência sempre caracterizou o meu irmão, o que encerra um paradoxo interessante, na medida em que se há música reveladora da pessoa que a faz é a dele. Se recuar à nossa infância consigo vê-lo outra vez a brincar com os bonecos, empreendendo lutas, diálogos, celebrações e sonhos como quem constrói o seu próprio mundo. O desenho, que apareceu mais tarde, e a música, depois ainda, obedeceram à mesma pulsão: criar ilusões. Acontece que quando se é criança nos legitimam o espaço ilusório e, assim, mesmo brincando sozinhos estamos com os outros, somos o que é suposto sermos. Crescer implica, de certo modo, aceitar que há uma realidade, um planeta, mas a violência desse processo depende do que cada um de nós vai deixando em planetas anteriores. Ora, eu acredito que o Manel, tendo comprovadamente crescido e sustentado a sua residência neste chão, sente muitas vezes saudades das migalhas que de si foram voando pelo “existido”, como ele dizia quando era pequeno. Talvez, então, a arte seja para ele, entre os modelos de actividade que o planeta compreende, mais do que uma escolha, uma inevitabilidade. A nave onde rasga o universo à procura dos bonecos perdidos, dos desenhos perdidos, dos versos perdidos, das melodias perdidas, na esperança que não se lhe apaga de os poder vir a reunir, outra vez, lá mais à frente, e acabar a vida como a começou: brincando sozinho, com todos."

 

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por Augusta Clara às 15:49

Quarta-feira, 07.06.17

Porto... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Porto...

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(Adão Cruz)

 

      O meu pai nunca foi um historiador, mas colecciona pérolas que acrescentam história à História. Apanha-as na rua, em cada esquina escondida desta cidade que é dele, minha e de quem a leva dentro, desenhada na alma como o aparelho circulatório cujas veias e artérias ele, cardiologista de profissão, conhece de cor. Desde pequeno que me lembro de o ver chegar, entusiasmado, tirando uma nova preciosidade de debaixo da língua e dando-nos a ver o seu brilho, antes de a guardar no baú que, de vez em quando, se dispunha a abrir para amigos.

Eu próprio, com ele, testemunhei episódios memoráveis. Sem querer rapinar-lhe o espólio, lembrarei apenas dois ou três, como aquele em que, ao balcão do Galo Branco, antigo tasco no Largo Tito Fontes, um homem não escondia dos demais o seu profundo desânimo, desabafando para si mesmo: “Estou tão arrependido de ser pobre…”. Era comum a manha tripeira vir ao de cima em apoio da miséria, uma arte territorial de fazer sorrir as dores. O meu amor pela cidade cresceu assim, aprendeu a andar sobre essas pedras.

Outra ocasião, esperando o sinal verde para atravessar a rua, cada um de seu lado, o meu pai e um transeunte idoso foram surpreendidos por um casal de verbo destravado que trocava insultos à força toda. O sinal veio e, a meio da passadeira, na fracção de segundo em que os caminhos inversos de ambos se cruzaram, o velho fez questão de partilhar o seu choque com o meu pai: “Foda-se, que linguaige…”.

É evidente que a graça destas coisas não se escreve, vive-se. Fica lá. Oralmente pode até reproduzir-se, fá-lo quem sabe, e o meu pai é um deles, mas o princípio activo perde-se na tradução. A cadência arrastada, o calor alcoólico da voz, o fastio aparente, a artificiosa indiferença ante a própria piada e, claro, os esgares e outras características pessoais estão entre as matérias-primas indispensáveis a uma receita de fabrico necessariamente caseiro. E depois a desinibição com que os autores percorrem todos os assuntos, como se nenhuma ciência lhes escapasse. Lembro-me dum episódio que o meu pai presenciou na Avenida dos Aliados, entre dois amigos que punham a conversa em dia. Perguntava um deles: "Oubi dizer que o teu sogro tebe uma crise. O que é que se passou?". O outro, encolhendo os ombros, respondia: "Sei lá, ou o caralho, deu-le assim uma espece de ataque celebral e o gajo ficou a tocar flauta [boca de lado] e a botar açúcar nas farturas [mão a abanar]".

Tudo isto sai como água, cada tripeiro de gema é uma torneira de humor para lavar a alma de quem passa. Parece que não se envolvem em nada, podem estar a falar das coisas mais trágicas que não abandonam aquela distância irónica de onde se sentem confortáveis, o que até dá a entender que são insensíveis, quando na verdade o que procuram é a melhor forma de lidar com o sofrimento. Uma vez, na Rua José Falcão, a minha tia quis comprar castanhas. "Dois euros", pediu o vendedor depois de as embrulhar. "Dois euros por uma dúzia de castanhas?!", exclamou a minha tia. "E metade são puâdres", respondeu o homem. A vida é mesmo assim.

Num tempo em que as mais diversas idiossincrasias e peculiaridades culturais tendem a ser vistas como engelhos de um lençol global que deve estar impecavelmente engomado, far-me-ia feliz que este pequeno testemunho, apenas um relance sobre o tanto que a minha cidade esconde debaixo dos postais, fosse um aperitivo capaz de estimular os menos atentos à descoberta de um mundo que, por mais antigo, será sempre novo, assim lhe assista o talento para fintar a extinção.

Quando passo, hoje, na Rua Sampaio Bruno, não são certamente os meus sapatos que têm saudades dos engraxadores.

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por Augusta Clara às 18:12

Sexta-feira, 02.06.17

Às prostitutas, no seu Dia - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Às prostitutas, no seu Dia

 

   Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. E no mundo, como todos sabemos, não há complacência para a tortura das costas, humanas e geográficas. Das costas e dos corpos, da terra inteira, dos continentes, que vão sofrendo e respirando mais e menos consoante as levas de pó, os ventos da ganância e os mares do egoísmo, que se vão habituando a desejar o mal dos outros por já só conceberem o seu bem à escala dele, tão funda vai a cegueira neste olho suspenso do universo, neste olho que, apesar de tudo, ainda gira, ainda espera que o olhemos, não aceita que sejamos dois com ele, ele o planeta e nós o anel, dois olhos da mesma cara, duas órbitas que nem do estrabismo nem da ciência se podem valer, dois poemas impedidos pelo visível, pelo palpável, de pousarem um no outro, reconhecendo cada um ao seu espelho que o amor é tudo aquilo de que a carne os separa. A carne, a razão concreta, a mãe da luta, a filha da puta. É por ela que protagonizamos este espectáculo sangrento da história humana, é por ela que queremos sempre mais guerras, mais vitórias de menos vencedores, menos deveres para quem tem mais direitos. É pelo dinheiro que gastamos o tempo, é pelo fruto que cortamos a árvore, é pela imagem que esvaziamos a substância, é pelo poder que proibimos, é pelo luxo que escondemos o lixo, é para seguir em frente que não olhamos para trás, é pela filha da puta que matamos a mãe. É por nós que não nos queremos. Nós, os filhos da puta. O que é, afinal, uma puta, uma puta homologada, se não alguém que vende o seu corpo para ganhar a vida, que o faz às claras, sem dissimular, sem enganar, que dá o que tem e a muito mais é obrigada por uma sociedade de fundo falso, ingrata, sem raiz, que se serve a todos os níveis desse exemplo de coragem, que se limpa diariamente a essa fralda, que desmente a autenticidade desse seu reflexo e faz dele sombra, sombra perseguida? As putas são, na verdade, oráculos, e não falo do que têm entre as pernas, não, são espelhos da loucura humana, da esquizofrenia da espécie, nessa demonstração inequívoca que proporcionam sobre o valor da carne: se uma pessoa vende o cérebro ou a alma, e poucas são as que hoje não o fazem ou tentam fazer, é um homem de sociedade, um exemplo de responsabilidade social, um cidadão do futuro, um indivíduo credor de todo o respeito; já se vende o corpo, e não tem a sorte de ser exclusiva de um desses portadores de virtude, é uma forma de vida moralmente repulsiva, uma doença contagiosa, uma vergonha para a sociedade, um coração pulsante que não merece estatuto, reconhecimento de dignidade, igualdade de direitos, amor, compaixão, gratidão, nada. Nada que não sejam uns trocos, pénis erectos a entrar-lhes pelos buracos adentro, suores porcos a untar-lhes a pele, ruídos animais a comer-lhes os tímpanos, como se já não bastasse o resto, e quem sabe umas chapadas, uns insultos e todos os maus-tratos que, cobardemente, ficaram por dar aos devidos destinatários. Eu ponho o meu nome em qualquer lista que defenda a profissionalização das putas, que lute por lhes ser dada assistência social, por lhes serem concedidos cuidados médicos, por lhes ser reconhecida toda a coragem e a dignidade que se atribui sem qualquer engulho, e só para dar um exemplo, aos mineiros. As putas são mineiros e minas, escavam o seu lugar ao sol por entre a escuridão do preconceito e da hipocrisia e são, claro, também elas perfuradas, alarvemente perfuradas, quer no seu corpo quer na sua alma. São paredes vivas, histórias ocultas como tesouros escondidos, enterrados, literalmente enterrados, ou emparedados, árvores humanas, anjos da noite, mulheres, mães. E nós, queiramos ou não, somos filhos delas, filhos de todo o tipo de prostituição acumulada que fomos varrendo para debaixo do tapete, desde o princípio dos tempos. Se isto custa a engolir, imaginem o que elas passam.

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por Augusta Clara às 16:35

Sexta-feira, 02.12.16

A respeito de Fidel, ... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A respeito de Fidel, ...

 

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   A respeito de Fidel, a palavra ditador tem sido a porta que a direita fecha na cara da discussão. Digo a direita não porque lhe assista em exclusivo a condenação do líder cubano, mas quando esta se apresenta sumária e indisponível para revogações (ehehe) não é difícil descortinar-lhe a proveniência. Um dos maiores apologistas nacionais da superficialidade, coincidentemente ou não, vai-se transformando também numa das mais populares caixas de ressonância da direita. Chama-se João Miguel Tavares e hoje, para o bem ou para o mal, dispensa apresentações. Sobre Fidel, cingiu o seu discurso a uma demanda: ensinar-nos a soletrar a palavra ditador.

Gostaria eu, sem estar preso a ideias pré-concebidas, de discutir aspectos que pudessem enquadrar a circunstância de Cuba continuar a ser uma ditadura, mas para ele, João Miguel Tavares, isso equivaleria a um sacrilégio, na medida em que pressuporia a admissão de uma hipótese hedionda: a de que nem a ilegitimidade de uma ditadura deva ser tomada como absoluta.

Circunscrita, portanto, a discussão ponderável ao sim ou não, porque só há quem possa repudiar de cima a baixo qualquer ditadura ou apoiá-la incondicionalmente, aguça-se-me a curiosidade sobre o que terá ele ensinado aos filhos sobre o Robin dos Bosques, esse ladrão que emagrecia o bolso dos ricos para engordar o dos pobres. Por mais que o nosso democrático país faça propagar de geração em geração o ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, a lógica inflexível de João Miguel Tavares não lhe permitirá esquecer que “um ladrão é um ladrão é um ladrão”, tanto quanto “um ditador é um ditador é um ditador”. Coitados dos miúdos, cerceados tão cedo das maravilhas da relatividade. E logo por um liberal.

Ora, diz-me o bom senso que um pequeno país em contra-corrente com um mundo apostado na ofuscação dos valores pelos preços talvez precisasse de tomar algumas providências para resistir – e sabemos como esta é a palavra-chave quando se fala de Cuba. Tudo o que ali se conseguiu em matéria de saúde, educação, emprego, combate à desigualdade social ou erradicação da fome, apesar dos condicionalismos económicos radicalizados por um bloqueio com mais de meio século e da sujeição permanente a um belicismo mediático que encheu o planeta de baba raivosa contra o regime, merece da minha parte, pelo menos, um olhar curioso, capaz de suplantar a rigidez da moldura para melhor apreciar o quadro. Mais ainda quando, à volta, as tão benfazejas democracias que construímos deram no que se sabe, com outras molduras, outros muros, no horizonte.

Não se infira daqui, como já estou a prever que muita gente faça, qualquer simpatia minha pela ideia de ditadura. Agora, não devemos deixar que os rótulos nos toldem o discernimento, nem a capacidade de enquadrar os factos com as circunstâncias. E em Cuba, apesar das circunstâncias, há factos que falam por si. Alguns até poeticamente, como o de os polícias andarem sem armas. Enquanto isso, ali perto, na democracia de todos os sonhos e liberdades, há mais civis com arma do que carro... 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 26.05.16

"Era uma vez um tipo ..." - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  "Era uma vez um tipo ..."

 

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(Chrysti Hydeck)

 

   Era uma vez um tipo que todos os dias vivia cada dia sem pensar nos dias que lhe faltava viver. Secretamente, esse tipo esperava que, assim vivendo, um dia acabaria por deixar de sofrer. Mas como esse dia demorava a chegar, chegou um dia em que o tipo se fartou de viver um dia de cada vez e passou a viver em cada dia dois dias e três. Misturava assim o dia sim e o dia não, sem se aperceber da confusão em que se afundava. Tudo o que queria tinha de ser prontamente satisfeito, mas a falta de proveito levou-lhe a alegria. Nesse dia lembrou-se de que se a perdera foi porque um dia já a tivera. Meio envergonhado, sorriu, e então viu, numa árvore ao seu lado, a primeira flor da Primavera.

 

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por Augusta Clara às 19:30

Quarta-feira, 04.05.16

A tardinha cai - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A tardinha cai

 

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       A tarde calma tem um encanto infinito. Transforma-se em noite, como todas as tardes, mas dentro de mim mantém-se tarde e arde num brando lume sem fim. Olhem para a de hoje, a pousar o seu manto etéreo com arejados requebros de medusa. Ela insinua-se e a sua chama chama-me como se a cada segundo se fosse apagar, mas eu, que já a conheço, porque a trago na alma desde a primeira tarde, sei que isto é uma dança como a que mantenho com o tempo desde que o tempo perde tempo comigo. 

 

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por Augusta Clara às 16:50

Quinta-feira, 28.04.16

A paz num abrir e fechar de olhos - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A paz num abrir e fechar de olhos

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(Adão Cruz)

 

   Há um antes e um depois do respirar fundo assim que se chega ao cais de embarque para a Afurada. Podem o dia ou a noite, dependendo dos casos, ter sido cansativos, frustrantes ou até deprimentes, que ali, massajada pelo bater de asas das pombas, pela bricolage sonora das tainhas nas águas marginais (como elas), pela placidez distante da povoação em frente e pela milagrosa frescura de toda aquela velhice, uma pessoa esvazia-se de tudo. Sobretudo de si.

Lá vem, então, um dos barcos. São dois, o Flor do Douro e o Flor do Gás. Partem de quarto em quarto de hora, para cá e para lá. E não se cansam. A história repete-se, mas as histórias dentro dela e deles têm sempre um dia mais, um gesto novo. As margens são como braços que nos restituem a idade em que do sossego ao espanto, e do espanto ao sossego, vai um abrir e fechar de olhos. É esse o tempo que dura a travessia.

Casimiro Manuel, Cristiana Marlene, Jesus Valei-nos, O Predador, Ricardo Filipe. Atracadas de um lado e do outro, as casquitas de noz têm nos nomes a única raiz, que os cabos também se desprendem. Apetece fazê-lo de cada vez que ali se está, suspenso da brisa e de todos os clichés que, simbolizados no pôr do Sol, essa incorrigível instituição do romantismo, nunca perdem o encanto. Naquele leito, o lodo é um fait divers, não mais que o mau princípio onde a vontade desenha a possibilidade dos sonhos.

Mas fiquemo-nos pelas flores, a do Douro e a do Gás. É uma forma de, atravessando o rio, mantermos os pés na terra. Bandeira de Portugal como cauda de cão feliz, lá vão e vêm uma e outra, envoltas no cheiro dos nomes que lhes deu a dona, D. Maria de Lurdes, 70 anos de vida sofrida, trinta e tal de dona das lanchas. E dos lanches, alegria dos reformados, muitos deles pescadores que ali se sentam para bater trunfos na mesa, beber uns copos e, se a maré estiver de feição, tirar peixes a rios antigos.

A paz revê-se nisto, superior à perturbação dos prédios feios que vão espreitando no cimo da encosta, por sobre a dita Afurada de casas francas e relações firmes. O rio propaga o som das sandálias que lhe marcam o ritmo e entra-nos na boca como a saliva do apetite, feito desejo de nos descozinharmos. A crueza acena dali. Crua e cruel, por se mostrar tão nossa e ser dos outros. A Afurada é esse espelho. Cortando o rio de sol a sol, o Flor do Douro e o Flor do Gás são vozes únicas em defesa da travessia. Um euro para cá, um euro para lá. Se euros maiores lhes cortarem o pio, respirar fundo nunca mais vai ser a mesma coisa.

 

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por Augusta Clara às 15:30

Sábado, 02.04.16

Lanthimos e o cinema - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Lanthimos e o cinema

 

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   Não é que eu ande a ver muitos filmes, mas fico com a sensação de que há poucos realizadores capazes de problematizar a história, a sociedade, o futuro, o amor, o terrorismo ou qualquer outra construção humana sem se apoiar nas suas representações reconhecíveis, para não dizer convencionais. O cinema, como a arte de um modo geral, vive hoje sob o medo do público, quando deveria ter por ele o desejo de sempre, ou mais ainda. É o drama do “overqualified”: o... problema não está em ficar aquém da exigência do espectador mais capaz, mas em ir além do “average”. Neste sentido, parece-me importante sinalizar as excepções que por aí andam. Gente que transige pouco, que leva a sua ideia até próximo das últimas consequências. É o caso de Yorgos Lanthimos, o grego de "Canino", que agora nos serve "The Lobster", sempre no afã de desconstruir os códigos e as convenções que aqui nos trouxeram, à civilização do medo. O percurso de Lanthimos tem sido sinuoso, com avanços e recuos que denunciam um equilíbrio entre a vontade de questionar, de desafiar, de provocar, e a consciência de que tal vontade se revela infecunda se não penetrar de algum modo o chão que todos pisamos. "Canino", até agora o meu preferido dos seus filmes, foca o medo do outro, do exterior, do impuro, e a protecção fanática de uma ideia de pureza que, enquanto não escrutinada, sê-lo-á apenas pretensamente. Tivemos, ainda há pouco, a estreia de um documentário, "Wolf Pack", que transporta um bocadinho a proposta aparentemente estapafúrdia de "Canino" para a realidade mais central e urbana dos nossos dias – embora sem proveito que se lhe compare, quer do ponto de vista do cinema quer da capacidade de estimular a reflexão. "Canino" podia perfeitamente ser a encenação do drama artístico, e assim existencial, de um cineasta: a recusa em profanar as suas ideias num exterior que não as aceita. Lanthimos tem, como hoje é raro ver-se, essa capacidade metafórica. E a coragem de a experimentar. "Alpeis", o filme seguinte, radicaliza o império da mente do realizador, que talvez tenha lido na aceitação mais ou menos generalizada de "Canino" uma carta branca para desconcertar, levando a desreferenciação a pontos pouco compatíveis com o tal equilíbrio que acima mencionei. Mas nem isso, do meu ponto de vista, beliscou a convicção de ser Lanthimos um farol do cinema nesta actualidade escura e nebulosa – aliás, veio mesmo confirmá-lo como um artista comprometido, antes de mais, com a sua arte. Corporizando um recuo na liberdade experimental, porventura até uma perda de profundidade, o recém-estreado "The Lobster" obtém a proeza de se estender a um público alargado sem renunciar ao propósito de analisar fria e desempoeiradamente a nossa natureza, os nossos propósitos, os nossos métodos, e de nos co-responsabilizar não apenas por tudo o que vemos como pelo que nos recusamos a ver. E hoje temos obrigação de saber que não nos salva de nada continuar de cabeça enfiada na areia.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 15.03.16

A cerveja no topo do dolo - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A cerveja no topo do dolo

 

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   Antes, a análise política nos media era bem mais profunda, a fasquia do argumentário estava alta e o leitor/espectador, regra geral, sentia a necessidade de se informar, de trabalhar o seu eu político para acompanhar a discussão das matérias. Depois, já com o fim do milénio à vista, alguns órgãos de comunicação social, e não só tabloides, também jornais de referência, entenderam que se Maomé não ia à montanha era preciso levar a montanha a Maomé, pelo que, postas as coisas em palavras francas, baixaram consideravelmente o nível. Veio a política pop, aquela que se faz parecer democrática, na medida em que todos se sentem capazes de a discutir, mas afasta, talvez como nenhuma outra, as pessoas dos assuntos que afectam mais as suas vidas. A “gaffe” passou a ter honras de manchete, qual sardinha que um dia acorda e é marisco, o fait-divers suplantou a premência noticiosa do grande facto, a escolha da gravata do político tornou-se mais importante que o seu ideário. Um dos ícones do novo paradigma era então meu chefe: Carlos Magno. Independentemente de estarem sanados os conflitos que tivemos e de hoje nos cumprimentarmos com amabilidade, manda a verdade que o descreva como um surfista da análise política, alguém que contribuiu conscientemente para um strip que reduziu a esfera política não à sua essência mas, bem pelo contrário, ao seu artifício. Ele e outros cavalgaram essa onda e, no seio de uma opinião pública lisonjeada com a promessa de maior participação (ou “interactividade”, era a palavra), ajudaram a legitimar uma nova concepção de política, destituída dos pressupostos de nobreza e representatividade que a distinguiam. A partir dali, tendia a ser tacitamente aceite que os políticos se representassem a si mesmos e aos seus interesses, como acontece com os clubes de futebol, que há muito já se livraram da responsabilidade de promover o desporto. Para a análise, em consequência ou conformidade, sobravam os aspectos tácticos e, menos, estratégicos (os dias passaram a ser mais curtos), desvalorizados que haviam sido os da substância política – no que ela contém de ética, cultura, ideologia, etc. – quer do discurso quer da acção. A aferição da qualidade de um político deixou de se prender tanto com os seus valores (não materiais, entenda-se) e tornou-se mais vinculada ao conhecimento que ele revela do xadrez em que se move e à habilidade com que dentro dele verga os adversários e rechaça os seus ataques. Muitas vezes, observando esta autodesresponsabilização do jornalismo, a cada dia mais enredado na política dos interesses, promovendo orgulhosamente o trânsito de dois sentidos entre o seu espaço e o dos políticos (com claro prejuízo da política), falei na necessidade de dar às pessoas instrumentos – fossem eles notícias, reportagens ou os então glorificados conteúdos – para compreender, discutir e co-criar a realidade, em vez de as anestesiar com programas que as tornavam menos e menos exigentes, atentas, profundas, responsáveis e interventivas. Em resposta, era-me sistematicamente despejado aquele chavão: "Deve dar-se às pessoas o que elas querem".

Hoje, ao ver Marcelo na presidência da República, é inevitável lembrar-me desse tempo.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Segunda-feira, 08.02.16

Reportagem de Marcos Cruz na pesca em alto mar

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   E agora para algo completamente diferente: um texto especial, uma memória grata do meu tempo de jornalista. A reportagem que fiz, com o Hernani Pereira, em alto mar. Perdi o rasto aos companheiros de tripulação, mas se por um feliz acaso o Rui, o Nelson, o Russo, o João, o Batata ou o mestre José Luís encalharem uns minutos nestas linhas, gostava de os fazer saber que, de algum modo, nunca os esquecerei. Terminada a leitura, encontram umas quantas fotografias da aventura, cujo relato rezava assim:

Durante a greve dos pescadores, ouvi uma senhora, na doca de Matosinhos, dizer que o primeiro-ministro “devia era ir ao mar”. Não sou primeiro-ministro nem pretendo sê-lo, mas achei pertinente, para um jornalista, a sugestão. Tratei das coisas, fui e não me arrependo. Tão cedo, no entanto, não me apanham nesta rede. É vida dura, demasiado dura para um burguês como eu, habituado a ter peixe na mesa.

 

MARCOS CRUZ Texto
HERNÂNI PEREIRA Fotografia

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“Vocês agora vão descansar”, recomendou a voz da experiência. Eu, apesar de ter questionado o sentido de se descansar quando não se está cansado, acatei a “ordem” e fui. Bem vistas as coisas, o Eça de Queirós acabara de sair da doca de Matosinhos e havia ainda “duas horas, duas horas e meia” de liberdade pela frente. Depois disso pedir-me-iam para arregaçar as mangas, e eu não fazia a mínima ideia da intensidade do trabalho que me esperava.
O Hernâni, repórter fotográfico, não queria perder pitada. “A mim interessa-me apanhar as várias fases da viagem”, respondeu ao armador. Este, nada paternalista, acedeu. Ficaram então os dois à conversa, na casa do leme. A noite estava óptima, e eu, quando desci aos “aposentos” para me enfiar num caixão em cujos extremos os meus extremos tocavam, pensei que eles iriam ter ali um bocadinho agradável. Eis senão quando, depois de haver concluído que não conseguiria dormir ali nem um minuto (com a excitação, o aperto do leito e o balanço das ondas), percebi, pelo ar nauseado do Hernâni, mal voltei “à tona”, que fizera bem em ser obediente.
José Luís Silva ria-se. O ritual iniciático estava cumprido.
A partir dali, aquela raposa do mar, presidente da Associação de Armadores de Pesca do Norte, não era apenas o mestre dos pescadores da embarcação. Era também o nosso. Os seus conselhos eram ordens.
Foi então que o suplício começou. “Vocês vão trabalhar?”, perguntou Nélson, rapaz novo, pai de um casal de crianças. “Sim”, retorqui, expondo o processo e o objectivo da reportagem. “Esta vida não interessa a ninguém”, postulou ele, num misto de espanto e desdém. Enquanto isso, vestíamos as fardas: os sete pescadores, alguns dos quais acabavam de sair das tocas, puseram oleados (calças e casaco), luvas, chapéus e galochas; eu enfiei-me numa jardineira de pesca desportiva com botas incorporadas. Quem dá (apenas) o que tem... pode ver-se obrigado a aceitar a ajuda dos outros: luvas, mangas impermeáveis e umas palmadas nas costas.
De súbito, placas, cordas, roldanas, tudo em andamento. “O que é que eu posso fazer?”, perguntei. “Arrumares-te para aí”, foi a resposta. A operação pesca de polvo estava no warm-up, forma de dizer preparação do equipamento: monta mesa, tira bóia, aperta nós, levanta isto, baixa aquilo... Um corre-corre que eu, embaraçado como um qualquer daqueles muitos fios, só acompanhava com os olhos.

O polvo, mesmo unido, lá foi vencido

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Até hoje, a palavra pote desenhou sempre na minha cabeça a imagem do recipiente onde, em pequeno, fazia as necessidades fisiológicas mais repugnantes. Agora, se me falarem num pote, a primeira coisa que me assoma ao pensamento é um polvo desesperado. Um representando muitos. Só eu, naquela noite, devo ter matado mais de uma centena. Posso estar a exagerar, pelo que me custou, mas pareceu. Vinham nos ditos potes, amarrados a um cabo imenso puxado com uma roldana para o porão do barco.
“E agora?”, inquiri-me, não querendo atrapalhar a tripulação. “Pegas na lixívia e mandas um bocado lá para dentro. Assim, vês? Olha o gajo a sair. Agora espetas-lhe a faca no meio dos olhos e quando aparecer esta coisa branca ele já está morto. Atiras para ali”, ensinou sumária e eficazmente o Nélson. As fotografias ao canto superior direito da página ao lado documentam as minhas primeiras tentativas e, julgo, o meu parco talento.
Foi aí que me senti mais perto do vómito. Chamem-lhe hipersensibilidade burguesa, reacção de menino, o que quiserem. Eu procurava equilibrar-me física e emocionalmente face, por um lado, à agitação do barco e, por outro, à luta estóica dos moluscos contra a morte, forma eufemística de dizer contra mim. Eu, transformado num serial killer, tentando contrabalançar cada facada com a imagem de uma garfada. Matar para dar a viver, que inevitável contra-senso.

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“Anda, vamos fazer outra coisa.” Era a voz do Rui, mostrando-me a que sabe o som de um gong antes do soco fatal. Fomos enfileirar potes vazios para voltarem ao mar. Tirando o “pormenor” da vida, o porão é uma linha de montagem. “Enjoado?”, perguntou. Olhei bem para ele: corpo enorme, olhar manso, uma atitude afável inspirando competência.“Não, não, fiquei só um bocado impressionado por matar tanto polvo.”

Que pescador gosta da vida no mar?

Aos 28 anos, o Rui é um homem que não teme a dureza do trabalho. Antes da pesca, passou pela construção civil, como cofrador e a acartar ferro. “Quando um gajo é novo não quer estudar. Depois lixa-se”, resume. A conversa foi seguindo ao ritmo dos potes. Soube que ele era pai de um bebé de sete meses, que adorava ter outro, que o pior dia da semana para ele e para os outros pescadores era o domingo (“depois de um fim-de-semana com a família, o jantar antes de voltar ao barco nem nos sabe”), que dantes os armadores tratavam os “camaradas” do pior mas agora já mudaram o registo (“como falta mão-de-obra eles são obrigados a respeitar as pessoas; e eu tenho sorte, porque o nosso mestre é cinco estrelas”), que a pesca aceita tudo (“drogados, criminosos, gente boa”) e que, ao contrário do que por aí se veicula, os pescadores não gostam da vida no mar (“pergunta a qualquer um destes, vais ver o que ele te diz”). Pudera...
Ouve-se um grito de zanga e o Rui traduz: “É a hora a passar. O pessoal começa a ficar cansado”. Nada como o entoar de um fado para acalmar as águas. Está a acabar mais uma rodada de polvo e chega a informação de que talvez o mestre permita uma pausa. Confirma-se, vamos poder encostar-nos, literalmente, às boxes. 40 minutos contados.
Estourado mas sem sono, conjecturo sobre o que ainda virá. Penso numa rede cheia, despejada sobre o porão, todo o tipo de peixe a rabear e nós a separá-lo. Parece-me mais interessante. Qual quê...Assim que a buzina soa e eu me levanto, percebo pelo preparar da mecânica que o esquema não é tão simples. A primeira rede vem e eu furto-me a partilhar a minha imaginação. Sou mesmo ignorante. O peixe chega aos poucos, enredado na teia densa e que vai saindo do mar como uma língua infinita. A nossa tarefa é, ironia das ironias, “safá-lo”, termo utilizado para dizer desprendê-lo da rede.

As várias maneiras de “safar” o peixe

O Russo (parece nome de peixe mas é de pescador) vê-me em apuros com os primeiros “convidados”. Explica-me que cada um é safo à sua maneira. Vem uma cavala e eu aplico os novos conhecimentos: dobro-lhe o rabo, que se desenvencilha, e puxo-a cá para fora, orgulhoso. Aparece um linguado e abordo-o confiante, sem fazer ideia de que ele escorrega mais que um sabonete. O João, pai do Nélson, velha guarda do mar, com histórias mirabolantes de vida que incluem vinte minutos debaixo
de fogo da Frente Polisário nas águas de Marrocos, ri-se. Claro. “Se queres safar um linguado tens de o apertar aqui [debaixo das guelras], que ele já não mexe. Depois tiras os fios com cuidado.” Eu querer, queria, só que um linguado é um magnífico exemplo da distinção entre a teoria e a prática.
“A faneca é pela cabeça”, “esse, dá cá, que ainda te espetas”, “havia era de vir uma tremedeira para apanhares um choque”, “bota isso fora, não vês que está podre?” – a pouco e pouco, resignado a ser motivo de riso, fui-me sentindo mais pescador.
O facto de ver que a minha presença aligeirava o dia dos camaradas também ajudou. Caí no erro de o confessar. “Ai é? Então queres voltar no domingo?”, troçou o Batata, fartinho de saber a resposta: “Nem pensar!”
Ao todo, demos conta de 50 redes, em cinco séries de dez. No final de cada uma, recordávamos uns para os outros: “Só faltam x”. A resistência, no meu caso, tornava-se já uma questão de orgulho e, com o aproximar do fim da “escravatura”, as forças caíam a pique. Um ou outro incentivo, do tipo “tu davas para marinheiro, és rijo!”, ia atrasando o estouro. Quando o Rui sentenciou a trégua, eu nem festejar conseguia. Em típica conversa de balneário masculino, “picaram-me” eles: “Anda lá que tens uma gaja boa à tua espera na doca.” Claro que o assunto mulheres não poderia deixar de aparecer. Mulheres de fantasia, como sereias, até porque as caxineiras “são tesas”.

Há conclusões que também vêm à rede

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Nisto tudo, o Hernâni esteve presente. Por vezes, confesso, até me constrangia a convivência com a objectiva, como se eu fosse uma estrela no meio de gente infinitamente mais capaz em inúmeros aspectos da vida. Gente humilde, franca, de fibra. Gente grande forçada a viver pequeno. Gente que nunca se vingou do novato na oportunidade que teve, como acontece tantas vezes em sectores de actividade mais bem cotados.
Foi, pois, uma experiência para reter na memória. Valeria a pena alguns dos nossos governantes porem-se, um dia, na pele de produtores das áreas que tutelam. Claro que aqui, como em quase todos os domínios, se aplica a máxima “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, ou seja, o equilíbrio estará algures entre o que quem anda com redes nas ondas e o que quem lida com papéis nos gabinetes defende. Mas o que também se aplica é a velha lei: quem se lixa é o mexilhão. Neste caso, o pescador.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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