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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 12.04.17

Grande intervenção do representante da Bolívia no Conselho de Segurança das Nações Unidas (completa)

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por Augusta Clara às 02:13

Terça-feira, 12.05.15

Efemérides, mesquinhez e morte - José Goulão

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José Goulão  Efemérides, mesquinhez e morte

 

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   Mundo Cão, 9 de Maio de 2015

 

   Os russos ainda estão a enterrar os restos dos seus mortos, como aconteceu em quase mil funerais realizados há dias nos arredores de São Petersburgo, mas o senhor secretário-geral das Nações Unidas, a mando do senhor Obama, porque nada se passa no Palácio de Vidro sem o aval deste, foi celebrar a derrota dos nazis a Kiev na companhia dos novos nazis. Quero crer que o envio do pau-mandado Ban Ki-moon se deveu à falta de coragem do senhor Obama para assumir até ao fim a provocação que fez aos 25 milhões de mortos soviéticos, e também aos mais de 400 mil compatriotas mortos para que o nazismo não passasse, e deslocar-se em pessoa a Kiev para abraçar os herdeiros de Stepan Bandera, o bandido que colaborou nas chacinas de Hitler e agora tutelam o regime oficial ucraniano. Coragem, seja política seja física, é o que normalmente falta àqueles que da guerra só conhecem a parte de mandar matar. Barack Obama incarna na perfeição esse tipo de mandante e por isso, mesmo não tendo estado em corpo em Kiev, foi representado a preceito, em insensibilidade e arbitrariedade, através do seu imediato a quem foi entregue a desacreditada ONU. Mais desacreditada agora depois de o seu mais alto representante ter celebrado o fim da guerra, acontecimento que determinou o nascimento da organização, ao lado dos herdeiros dos que provocaram a tragédia e estão na calha para repetir a façanha. Com o beneplácito da dita cuja.

Se lermos os escritos e paleios que a chamada comunicação de referência vai debitando, todos muito certinhos e afinados no mote de assinalar o fim da guerra como se não tivesse havido guerra, apuramos que se escreve e fala sobre tudo, desde o senhor Putin se sentir isolado, coitado, no palanque presidencial assistindo à passagem de temíveis armas com que ameaça a pacífica NATO, obrigada a defender-se ali tão pertinho, nas suas fronteiras; passando pela sismografia que atinge territórios onde terão de passar maléficos gasodutos; até às patéticas perorações sobre a Crimeia – onde vem ao de cima a tacanhez histórica dos autores - mas não se fala sobre a guerra.

Em boa verdade, continuando a ler e a escutar essas figuras tão referentes, antes Putin tivesse ficado verdadeiramente isolado no palanque; mas afinal teve companhia, a do líder chinês, e logo numa altura em que a Rússia e a China conversam muito, tratam de cooperação mutuamente vantajosa, fazem até ameaçadoras manobras militares conjuntas no Mediterrâneo, tudo isto acontecendo pela primeira vez, sabendo-se que há sempre uma primeira vez para tudo, ideia que não deveria valer para este contexto. O facto de a Rússia, então União Soviética, e a China terem sofrido três quartos dos mortos da guerra contra o nazismo, 45 milhões de vítimas (45 milhões, quatro vezes e meia a população de Portugal, mais ou menos a população de Espanha) são pormenores que não contam para nada numa coisa que, afinal, acabou já lá vão 70 anos mesmo que muitas familiares ainda hoje andem à procura dos seus mortos para lhes dar sepultura.

Por isso, a centralização das comemorações da derrota do nazismo sob a tutela oficial da ONU junto do regime revanchista polaco e das suas criaturas neonazis ucranianas, abençoadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos da América, não é apenas uma via mesquinha para tentar reescrever a história. É um insulto grave, um atentado à memória de todos os seres humanos que sofreram as consequências do flagelo, incluindo, repete-se, os mais de 400 mil norte-americanos que pagaram com a vida o combate à loucura nazi.

Para o senhor presidente Obama, celebrar a derrota do nazismo é desenvolver uma política de “polo asiático” que assenta na ressurreição do militarismo nacionalista nipónico; é dar largas ao revanchismo nazi na Europa manipulando o velho mas não gasto artifício propagandístico da “ameaça russa”. O senhor presidente Obama não vê qualquer defeito nesta estratégia. Afinal ele só manda matar.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 15.01.15

Um texto das Memórias do Nobel nigeriano Wole Soyinka "É Melhor Partires de Madrugada"

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Nota de edição: neste texto das Memórias de Wole Soyinca, cuja publicação me foi suscitada pelos bárbaros acontecimentos dos últimos dias na Nigéria e quando muitas pessoas perguntam porque não intervem a comunidade internacional, mais uma vez fica patente a passividade e a desvalorização da gravidade das situações com que as Nações Unidas têm actuado.

 

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   Na minha paisagem política, o vazio mais evidentemente acusador, criado por alguém que foi decisivo para a minha missão no exílio durante estes úl­timos cinco anos, é o do industrial Bashorun Moshood Kashimawo Abiola. Abiola era o presidente eleito de uma nação, mas nunca presidiu a algo mais do que a sua casa, a sua vasta rede de negócios e, por fim, o seu local de detenção. Sabe-se que é hábito inútil considerar como um fracasso pessoal aquilo que é claramente um crime de outros, mas essa reflexão irracional reclama por vezes esse tipo de posição nos nossos reveses. A morte de Xen Saro-Wiwa, naquela funesta sexta-feira 10 de Novembro de 1995, enforcado com oito dos seus companheiros na prisão de Port Harcourt, foi um brutal homicídio judicial, condenado universalmente, cuja evocação ainda hoje nos arrepia. No entanto, o de Abiola foi de uma crueldade persistente e sem igual. Espoliado da vitória, preso e isolado do contacto humano durante quase quatro anos e depois, à beira da sua segunda vitória, vitória assinalada pela morte do seu carcereiro e usurpador de mandato, Smi Abacha, acabarem-lhe de vez com a vida!...

Aquilo que as aspirações democráticas da nação tinham previsto depois da morte súbita de Abacha em Junho de 1998 era procurar um futuro nego­ciado em que, logicamente, Abiola, o presidente eleito preso, desempenharia um papel central, muito provavelmente como chefe de um governo interino de unidade nacional. Nenhum notável negara ainda que ele tinha ganho as eleições presidenciais de 1993. Então, um mês depois da morte de Sani Abacha, na presença de uma delegação oficial norte-americana - Thomas Pickering, ex-embaixador na Nigéria, Susan Rice, membro da administração do presidente Clinton, etc. -, serviram a Abiola uma chá­vena de chá que hoje alcançou um estatuto lendário no país: Abiola sofreu um ataque minutos depois de ingerir a bebida, teve um colapso e morreu. Tento recordar se houve alguma vez um Tântalo na história ou mitolo­gia nigerianas, mas nenhum me parece adequado. Só a figura do herói de Ogboju Ode, de D. O. Fagunwa, enterrado até ao pescoço no cativeiro, vítima de uma maldosa conspiração palaciana, se aproxima um pouco, mas trata-se de um conto que pelo menos oferecia aos seus leitores a recom­pensa moral de uma salvação, de um final feliz.

Sei que a verdade virá à tona um dia. Quatro anos para realizarem este homicídio, mas por fim assassinaram-no, e só posso pensar que o facto se deveu a alguma insuficiência da nossa parte, minha, embora não saiba ao certo o que eu ou qualquer outra pessoa na luta pela democracia poderia ter feito para o evitar. Surge ainda como absolutamente injusto que, a poucos dias da sua morte, eu tenha sido surpreendido em Viena por um fax que me avisava da iminência do seu assassínio. Por causa deste alerta e ape­sar da sua inutilidade em termos de tempo e de meios, arrasto comigo um incómodo sentimento de culpa. De pouco consolo me serviu saber depois que não fui o único a receber essa mensagem cujo texto roçava claramente a histeria. Mesmo no seu registo mais calmo e neutro, tratava-se de uma fonte que tínhamos aprendido a tomar a sério. No caso presente, o estado de espírito do autor do fax - dávamos às nossas principais fontes de infor­mação o nome colectivo de Longa Throat, Garganta Comprida, inspirado no informador que fez perder Richard Nixon, Garganta Funda - parecia ter afectado a sua utilização das maiúsculas e minúsculas:

 

0 novo regime e os seus colaboradores têm uma única nova adenda: ARRANJAR MANEIRA DE 0 CHEFE M. K. 0. ABIOLA NÃO VIR A SER PRESIDENTE DA NIGÉRIA DE MODO ALGUM... Deixe-me afirmar aqui categoricamente que isto está longe de se tratar de um palpite. É um plano preconcebido do novo regime, revelado por alguém que está por dentro...

0 RELATÓRIO IMPORTANTE QUE ME ENVIARAM HOJE: UM GANG NOTÓRIO NO EXÉRCITO NIGERIANO completou o seu plano para assassinar o chefe Moshood Abiola para pôr ponto final à guerra abacha/abiola numa solução de “nem vencido, nem vencedor". Acredite ou não, a crer no relatório que me deram, a morte do chefe Abiola pode ocorrer dentro de poucos dias ou antes do fim de Setembro... Isto pode parecer ridículo, impensá­vel ou pura invenção mas, acredite, é verdade. Diga ao Prof. e a outros grupos pró-democracia dentro e fora do país que exerçam uma pressão muito intensa sobre Abdulsalami para que liberte de imediato o chefe M. K. 0. Abiola!

0 novo regime não conseguirá proteger o chefe Abiola dos seus assassinos por­que não foi capaz de os persuadir a repensar a questão nacional da Nigéria. Até podem tomar o poder a Abubakar para pôr em prática o seu plano de destruição. Esta gente está mais disposta a dar cabo da unidade do país do que a deixar que Abiola seja presidente.

 

 O último elo da cadeia que me enviava esta mensagem era o meu filho Ilemakin, que havia muito se tinha lançado sozinho na luta, fugira do país e começara a realizar algumas missões para o movimento democrático. O apelo desesperado chegou por fim ao seu destino no último dia que pas­sei em Viena, mas só depois da partida de Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas. Na véspera, eu estivera reunido a sós com ele durante quase uma hora e meia. Aparentava estar bastante descontraído; a confe­rência sobre direitos humanos que nos trouxera à Áustria parecia ter preen­chido todos os objectivos das Nações Unidas, e Kofi Annan pensava já na próxima missão: viajar na manhã seguinte para a Nigéria, onde iria visitar o novo chefe de Estado - decididamente interino - Abubakar Abdulsalami e, evidentemente, avistar-se com Moshood Abiola na prisão. Nenhum de  nós precisou de ser pressionado para aceitar a ideia de que tínhamos de nos encontrar e conversar antes da sua partida.

A minha paciência foi rudemente posta à prova pela sua atitude de “razoabilidade”... sim, sim, Wole, com a morte de Abacha apresentou-se agora oportunidade e não devemos desperdiçá-la. Muito se pode conseguir, agora a crise pode ser resolvida, mas, bem vê, também tem de dizer à sua gente que seja razoável. A oposição tem de mostrar-se razoável.

Razoável? Estávamos a ser irrazoáveis? Após quase trinta anos de regime militar, os últimos dos quais sob a forma ditatorial mais repugnante, reclamávamos a libertação imediata do presidente eleito - e de todos os restantes presos políticos - e o estabelecimento de um governo interino dirigido por Abiola, o presidente legítimo. Um governo interino com a vigência de um a dois anos. Em simultâneo, os representantes da nação encontrar-se-iam numa Conferência Nacional Soberana para apurar qual a verdadeira vontade popular, preparar condições para as eleições seguintes e ao mesmo tempo rever as modalidades de associação dos elementos constitutivos da nação. Depois, eleições gerais - que havia de irrazoável nestas propostas? E de resto, que outras alternativas havia? Tive o terrível pressentimento de que Kofi Annan ia para a Nigéria com um guião preparado, um guião já acordado entre as Nações Unidas e um comité de governos ocidentais. O programa da nossa coligação democrática não fazia parte desse guião.

O aviso sobre a ameaça de morte que pesava sobre Abiola só me foi entregue depois de Kofi Annan partir para a Nigéria e ter estado reunido com o preso! Se eu o tivesse recebido antes, teria submetido toda a discussão política à urgência da libertação imediata de Abiola! Teria decerto informado oficialmente a ONU, insistindo - mesmo sem saber se valia a pena - em que o seu secretário-geral se recusasse a encontrar-se com Abiola a menos que ele estivesse em liberdade, na sua casa, rodeado da sua família e asso­ciados políticos. Sabíamos por experiência que qualquer aviso de Garganta Comprida devia ser tido em conta. No entanto, era demasiado tarde, Abiola já estava a morrer, com os órgãos enfraquecidos por uma dieta diabólica que o envenenava lentamente. Tudo isto acabará por ser revelado um dia com todos os seus detalhes bizantinos - disso tenho absoluta certeza.

Portanto, a nossa discussão - e as minhas principais preocupações - girou essencialmente em volta do futuro da Nigéria, sem qualquer ideia do perigo que corria o homem que estava no centro de tudo. No fim dessa reunião, tão convencido estava eu de que o futuro já fora decidido por outros que de imediato enviei mensagens para o país, insistindo em que se exercesse o máximo de pressão sobre o visitante para o obrigar a dar ouvidos ao nosso programa e a defendê-lo junto do novo inquilino de Aso Rock [sede do governo em Abuja], o general Abdulsalami. No entanto, adverti ao mesmo tempo que isso de nada ser­viria. Estas frequentes contradições definem muitos dos momentos desta postura democrática. A inutilidade dos nossos esforços era óbvia, mas a inacção era muito mais intolerável.

De um modo irónico e incongruente, nestes momentos vem-me à ideia um dos aforismos preferidos da minha mãe, com a sua cómica iorubização da importante palavra inglesa try (tentar): itirayi ni gbogbo nkan - no tentar é que está tudo. A Cristã Selvagem aplicava-o a uma vasta gama de situa­ções incompatíveis - desde o encolher de ombros resignado na sequência de uma tentativa abortada de cobrar quantias exorbitantes pelos seus pro­dutos, até ao atacar com muito gosto o resultado duvidoso de uma receita culinária exótica que experimentava pela primeira vez. Abiola, como o pre­sidente socialista francês François Mitterrand - e a comparação termina aqui -, era adepto ferrenho da doutrina de itirayi. Não era a sua primeira tentativa de ocupar a presidência da Nigéria. Sendo um ioruba do Sul, a sua primeira tentativa, demasiado confiante, foi ridicularizada e sabotada por uma cabala feudal que considerava risível alguém fora do seu círculo pri­vilegiado poder pensar em governar o país. Serviam-se - e muito - do seu dinheiro, mas ironizavam abertamente acerca das suas ambições. Abiola fez um recuo estratégico, esperou por uma boa ocasião, lançou-se numa cru­zada filantrópica, alargou e consolidou a sua base política. Numa segunda tentativa, conseguiu. E por isso foi morto.

(in Wole Soyinka, É Melhor Partires de Madrugada, Pedra da Lua)

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 11.10.13

Discurso de Malala Yousafzai nas Nações Unidas

 

Malala na ONU

 

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por Augusta Clara às 10:00



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