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Jardim das Delícias


Domingo, 21.05.17

A terceira via para o abismo - José Goulão

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José Goulão  A terceira via para o abismo

 

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Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». 

 

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   A epidemia potencialmente letal que atinge hoje os partidos socialistas e social-democratas terá começado com Anthony Blair à frente dos trabalhistas britânicos, embora a degeneração gradual viesse de trás.

No entanto, a conversão ao ultraconservadorismo de Thatcher e Reagan, a submissão às inquestionáveis ordens do mercado, as ânsias de privatização do Estado e os ataques sem piedade aos direitos sociais e laborais dos cidadãos representaram um salto qualitativo na degradação, a que se foram juntando, numa vertigem que agora se conclui ser suicida, as mentiras na cena internacional, o culto da guerra, a rapina generalizada.

Aproveitando depois o balanço e as circunstâncias propícias da História ocorridas na transição da década de oitenta para a de noventa do século passado, os agentes da paciente conspiração norte-americana em Itália infiltrados nos Partidos Socialista e Comunista aceleraram a sua missão e, nos escombros das duas entidades históricas, ergueram o Partido Democrático, à imagem e semelhança do seu homónimo dos Estados Unidos – isto é, sem funcionamento orgânico e seguindo orientação económica neoliberal – que definiram como sendo a nova «esquerda», daí em diante a única com vocação de poder.

Há pouco mais de um ano, o então presidente francês, François Hollande, eleito pelo Partido Socialista, defendeu que os novos tempos exigiam um «hara-kiri do PS», uma transformação em algo de ideologia muito mais abrangente e indefinida, que imaginou como «Partido do Progresso»; na mesma altura, um dos primeiros-ministros que nomeou durante o seu mandato, Manuel Valls, declarou a necessidade de o Partido Socialista mudar de nome.

Há poucos meses, o ministro da Economia de ambos, Emmanuel Macron, também ele uma figura do PSF, lançou o movimento En Marche que, sem militantes e estrutura mas com financiamento dos bancos e banqueiros para os quais trabalhou, e com o apoio operacional de agentes enviados pelo Partido Democrático dos Estados Unidos, o catapultou quase do zero até à Presidência da República.

Enquanto isso, o candidato oficial do PS – ou do que dele resta – ficou abaixo dos sete por cento nas eleições presidenciais, abandonado pelo aparelho do partido, pela sua Fundação Jean Jaurès e pelas figuras de proa, com destaque para Hollande e Valls, que logo se puseram en marche com Macron.

Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». O resto é «extrema-esquerda» ou «esquerda radical», isto é, organizações «desfocadas» da realidade, «agarradas ao passado», incapazes de se adaptarem aos novos conceitos evolutivos, em suma, entidades que se atrevem a rejeitar a doutrina única e oficial, o capitalismo selvagem.

Dos casos citados a propósito do Reino Unido, Itália e França, só os trabalhistas britânicos ainda resistem à dissolução, por continuarem a recorrer, pelo menos até agora, a consultas às bases partidárias para elegerem os dirigentes e não ao artifício anti partidário das primárias, importado, claro, dos Estados Unidos da América. Porém, mesmo desacreditado perante o reconhecimento geral dos seus crimes e mentiras no drama do Iraque, Tony Blair e a sua teia de propaganda voltam a estar activos na intriga e desestabilização do Partido Trabalhista, de modo a reencaminhá-lo na senda da destruição que muitos outros estão a percorrer.

Os casos de Itália e França são exemplares. Renzi e Macron parecem saídos da mesma forma tecnocrática de políticos robotizados em práticas de direita, envolvidos na mentira, agora cada vez mais grosseira, de que eles são «a esquerda».

Outras situações do género, que traduzem a destruição de partidos socialistas, estão consumadas ou na calha. Em Espanha, a deriva do PSOE é total, acelerada depois de ter entregado o poder, de novo, aos neofranquistas de Rajoy; e, na Alemanha, o SPD está a pagar cara a submissão feita de cumplicidade ao autoritarismo de Merkel.

Na Grécia, a miniaturização do PASOK é idêntica à do PS francês, embora sem o efeito Macron; pelo menos por enquanto, embora não seja seguro que o tsiprarismo, cada vez mais fiel às ordens de Bruxelas à custa do ainda e sempre penalizado povo grego, não vá no mesmo sentido.

Na Holanda e na Bélgica, os partidos da Internacional Socialista pulverizaram-se devido ao envolvimento na gestão da crise, praticando políticas de direita – e até de extrema-direita e xenófobas, sob o interessante pretexto de travar a influência da extrema-direita. Hollande não foi, portanto, o caso único, embora tenha ido mais longe ao governar em estado de excepção durante grande parte do mandato.

No mundo nórdico, os partidos da social-democracia, outrora reis e senhores, afundam-se em situação de deriva depois de se terem rendido à prática neoliberal, por vezes seguindo os conservadores ou então tomando a iniciativa – também para «retirar espaço» à direita.

Nos países do leste europeu, a social-democracia mal viu a luz do dia depois da extinção da União Soviética. Nasceu já neoliberal e limitou-se a colaborar na afirmação do populismo e da extrema-direita como verdadeiros gestores do capitalismo selvagem.

Às práticas thatcheristas de Blair, os politólogos sempre em busca de baptismos para «novas esquerdas» chamaram «terceira via». Para onde? Para o socialismo, pois claro, de acordo com as suas doutas elucubrações em forma de mensagens propagandísticas primárias. Na verdade, mais uma via para o capitalismo puro e duro, à moda de Friedman e dos «Chicago Boys» que criaram «o milagre de Pinochet» – por fim o capitalismo isento de quaisquer inquietações sociais e com as pessoas, livre da mais ínfima das sequelas keynesianas.

Com maior ou menor convicção, os partidos socialistas e social-democratas seguiram Blair incarnando o flautista de Hamelin, institucionalizando-se como o «lado esquerdo» do sistema bipolar que governou a União Europeia como partido único, até estatelar-se estrondosamente, em 2008, nos frutos podres da subserviência ao casino financeiro – a «crise».

Se alguém tiver dúvidas, pode consultar as decisões do Parlamento Europeu tomadas ao longo de anos e anos: em matérias de cultura, questões de consciência e até direitos teóricos, é possível detectar diferenças entre os comportamentos dos membros do Partido Popular e do Grupo Socialista; mas quando se chega aos assuntos económicos, laborais, à imposição da austeridade, às medidas financeiras, de combate à crise ou de estruturação autoritária da União Europeia e da Zona Euro, aí a convergência é praticamente total entre os dois blocos.

A verdade é que a conjugação da crise com os efeitos sociais, a que se junta o problema dos refugiados resultante de guerras pelas quais a União Europeia também é responsável, desmoronou a arquitectura política de partido único com duas tendências. Na entropia resultante em que vivemos, na qual multidões de cidadãos desorientados, manipuladas pelos aprendizes de feiticeiros peritos em explorar o medo e a insegurança, são cativadas por apelos de populistas mais ou menos envernizados, por mensagens trabalhadas à maneira de anúncios de refrigerantes, ou até por fascistas retintos, as esquerdas que permanecem fiéis ao humanismo, à cidadania e às pessoas quase não conseguem fazer-se ouvir.

No meio das ruínas da arquitectura política em extinção tornou-se evidente que o papel da social-democracia oficial na gestão do neoliberalismo, mesmo temperada pela «terceira via», se tornou descartável, inútil. Cumpriu o papel, mas cabe agora à direita pura e dura, nas suas variantes que chegam até aos extremos do populismo e do fascismo, gerir o sistema neoliberal.

O arrastamento da crise, desmentindo a teoria dos ciclos altos e baixos da economia, tornou o funcionamento do sistema praticamente impossível em democracia. É preciso afastar os cidadãos do direito de decidirem, seja pela força, pelo autoritarismo em liberdade condicionada, pela intoxicação tecnocrática disfarçada de inovação política.

Por isso os Partidos Socialistas caem como pedras de dominó. A maioria dos seus dirigentes instalam-se no novo espaço. Onde já se encontra, há muito, a instituição que conduz este processo de modo cada vez mais indisfarçado: o Partido Democrático dos Estados Unidos. Daí que Hillary Clinton, senhora da guerra com as mãos sujas de sangue de milhões de mortos e feridos e do sofrimento de milhares de refugiados, seja a figura de referência da Internacional Socialista de hoje. Está encontrada mais uma «nova esquerda», agora sim fazendo inequivocamente parte da direita.

Porém, como sabemos, nem todos os dirigentes socialistas apanharam a boleia de Blair e discípulos: existem casos de resistência a alguns valores essenciais; além disso, os chefes que fogem deixam para trás multidões de cidadãos que não estão dispostos a acompanhá-los como os ratos seguiram o flautista de Hamelin – e assim volto ao velho conto de Grimm.

Por isso, a esquerda – ou as esquerdas, se preferirem – têm agora milhões de seres humanos como destinatários de mensagens que sejam capazes de mobilizar o combate contra um adversário poderosíssimo mas cada vez mais definido e identificável, por muito que use e abuse da intoxicação, do ilusionismo e da mistificação.

Para que as mensagens sejam unificadoras da mobilização e dinamizadoras dos objectivos de luta é necessário que as esquerdas decidam, de vez, deixar de se dividir e engalfinhar em torno de ilusões que a realidade está cansada de desmascarar: a burla do «mercado livre», o mito «europeísta», a ideia absurda de que a União Europeia é «regenerável», a mentira de que é possível compatibilizar a democracia e a soberania com a obediência aos ditadores servindo Bruxelas e a moeda alemã, também chamada única ou euro.

Num dia, que está próximo pela força das circunstâncias, a Internacional Socialista mudará também ela de nome, sem precisar de fazer hara-kiri. Grande parte dos seus membros já o fizeram. Se preferir continuar a chamar-se assim, ficará como um imprestável paquiderme em busca do seu cemitério.

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por Augusta Clara às 00:17

Quinta-feira, 20.04.17

"Ainda a propósito das vacinas e do sarampo" - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  "Ainda a propósito das vacinas e do sarampo"

 

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       Ainda a propósito das vacinas e do sarampo:

Há uma doença infantil do jornalismo que se chama "equidistância" e que os maus jornalistas confundem com a saudável e indispensável "independência".

A independência significa que 1) um jornalista deve ter o cuidado de se distanciar de interesses particulares, 2) que, quando possua laços pessoais ou outros que impeçam essa independência em relação a determinados temas ou histórias, se deve abster de tratar esses temas e histórias como jornalista e 3) que deve adoptar no seu trabalho jornalístico uma atitude crítica, céptica e, tanto quanto possível, desapaixonada.

A equidistância (que os americanos chamam "balanced reporting") significa na prática que se deve ouvir sempre dois lados de uma questão. Bastam dois. Mesmo que a questão tenha (como quase todas têm) 7 lados, 23 perspectivas e 56 partes interessadas.

Nos EUA, tornou-se assim habitual fazer "balanced reporting" da política ouvindo um porta-voz do partido Democrata e outro do partido Republicano. Mesmo que se trate de um idiota de um partido e de um corrupto do outro ou que ambos defendam o mesmo interesse e a mesma mentira.

É mais fácil, mais rápido e mais barato que tentar apurar os factos, principalmente quando todas as fontes possíveis têm interesse em esconder a verdade. O problema é que nem todas as histórias do mundo são discussões teóricas onde apenas se confrontam duas opiniões igualmente válidas.

A responsabilidade do jornalista é apurar factos, quando eles possam ser apurados, e tratar de forma discriminada as diferentes versões. Não se trata de contar a história das vítimas ao lado da versão do torcionário. Ou apresentar como diferentes versões, diferentes "visões do mundo", relatos verificáveis e falsificáveis (no sentido Popperiano) ao lado de fantasias sem sentido. A evolução e o creacionismo, por exemplo. Ou a medicina científica e a homeopatia. Ou a astrofísica e a astrologia. Ou a cartomancia e a psicoterapia. Sempre com o argumento de que se trata, em todos os casos, de construções sociais. Serão certamente, mas acontece que as previsões de algumas podem ser avaliadas e outras nem sequer isso.

Nos melhores casos, os jornalistas preocupam-se, genuinamente, em ser independentes e em ouvir "todos os lados". Nesse afã, esquecem-se muitas vezes (ou não lhes dão meios) de que não podem apresentar a mentira e a verdade como versões igualmente válidas da realidade para o leitor escolher.

É um jornalismo barato, defensivo ("Eu não sei quem tem razão, mas ouvi-os todos e citei-os todos") mas socialmente pernicioso. Se o jornalismo não distinguir entre factos e fantasias não serve para nada. Ou serve apenas para manipular o público e defender os mais descarados dos manipuladores. E a verdade é que, se é admissível, no domínio dos princípios, uma escolha pessoal irracional (como não vacinar os filhos) não é admissível que um jornalista apresente essa escolha como estando baseada em sólidos argumentos racionais, tão válidos como os opostos. Não está. Se o jornalismo não tiver coragem para distinguir isso pode ser substituído com vantagem pelas palavras cruzadas.

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por Augusta Clara às 19:23

Quinta-feira, 20.04.17

Os Antivax - João Vasconcelos-Costa

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João Vasconcelos-Costa  Os Antivax

 

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(doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador em virologia com agregação em Microbiologia pela Universidade Nova de Lisboa) 

 

18 de Abril de 2017

   Este é o termo que se vulgarizou nos EUA para os pais, geralmente de classe média alta, universitários, politicamente corretos, que recusam vacinar os filhos. Vou escrever sucintamente alguma coisa sobre isto, respondendo a Maria Leite, que comentou um “post” meu no facebook.
 
Deve-se distinguir (o que se reflete numa eventual penalização) da situação de pessoas de poucos meios, não informadas, marginalizadas, que não recorrem habitualmente aos recursos disponíveis do SNS. Da mesma forma, e é problema crescentemente importante, os imigrantes recentes e refugiados, ainda não inseridos.
 
Falo é d”os que sabem”, arrogantes na sua ignorância. Invocam três tipos principais de razões.
 
Primeiro, que a vacinação não é natural. É o estilo “paleo”, bem representado num filme de que agora não recordo o nome, de um pai que (des)educa os filhos a viver na floresta como crianças de Rousseau. Para eles, é boa a dieta das cavernas, do tempo da caça, a vida selvagem, embora todos os dias saiam para a sua vida real de yuppies. As crianças é que pagam.
 
Segundo, a tese de que as vacinações mexem na nossa imunidade natural. Ignorância científica total! Há de facto uma chamada imunidade natural, primitiva e sem grande significado (infelizmente) que não vou agora discutir. Mas, no que toca à generalidade da nossa imunidade, toda ela é memória de contactos adquiridos com tudo o que nos rodeia desde o nascimento, incluindo micróbios. E até temos ao nascer, embora transitoriamente, a imunidade das nossas mães, pelos seus anticorpos que circulam no sangue que passa da placenta para o feto.
 
O que fazemos com as vacinas é simplesmente simular o que a natureza faz, mas orientando, em termos absolutamente biológicos e naturais, para a imunização contra doenças. Mesmo sem isso, adquirimos imunidade contra muitas doenças mesmo sem as termos, por infeções sem sinais clínicos. Por exemplo, eu não preciso de me vacinar contra a hepatite A porque tive contacto com o vírus e estou imunizado, mesmo sem alguma vez ter tido a doença. Não podemos é confiar neste processo natural, por ser muito falível.
 
Terceiro, e tenebroso. A grande fundamentação dos antivax é uma das maiores imposturas da medicina moderna, o trabalho fraudulento de um tal “Dr” Wakefield, que pretende que a vacina contra o sarampo (associada a papeira e rubéola) causa autismo. Esses “resultados” já foram claramente denunciados como fraude científica e ele foi expulso das ordens inglesa e americana. Mas continua a ser muito lido na net e a possuir (sem funções médicas, para que está proibido) uma clínica para autistas muito lucrativa.
 
Ou os antivax temem efeitos negativos das vacinas? Como tudo na medicina, existem, mas são irrelevantes (inchaços locais, alguma dor, febre pouco elevada e passageira) e pouco frequentes.

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por Augusta Clara às 18:36

Quinta-feira, 06.04.17

OS JUÍZES PORTUGUESES NÃO MERECEM CONFIANÇA - Augusta Clara

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Augusta Clara  OS JUÍZES PORTUGUESES NÃO MERECEM CONFIANÇA

 

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   Lamento insistir no tema, mas este é um caso que não pode cair no esquecimento.

Quem se sentir ofendido, abra a boca e denuncie o que se passou neste e se passa noutros julgamentos da mesma natureza porque os portugueses têm sido espoliados das mais diversas maneiras, desde ficarem sem as economias que tinham depositadas nos bancos até lhes terem sido subtraídas parcelas consideráveis dos salários e pensões, mesmo aos mais pobres, durante um período alargado para fazer face ao desfalque dos milhares de milhões de euros roubados à economia nacional.

E onde andam esses milhões? Com toda a certeza em offshores onde ninguém pode ir recuperá-los e que continuam a permitir aos agora libertos continuarem a ter vidas confortáveis comparadas com as de todos os que sacrificaram.

Desconfio e desconfiarei de todos os juízes enquanto nenhum deles tiver a honradez de mostrar solidariedade com os seus concidadãos.

 

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por Augusta Clara às 16:25

Quinta-feira, 06.04.17

OS CRIMINOSOS AMIGOS DE CAVACO SILVA FICARAM ILIBADOS - Augusta Clara

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Augusta Clara  OS CRIMINOSOS AMIGOS DE CAVACO SILVA FICARAM ILIBADOS 

 

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   Neste país os crimes de colarinho branco vivem num ambiente singular: descobre-se sempre tudo, ficamos a saber o que se passou. Depois, não se consegue provar nada.

Dizia ontem um inteligente da nossa praça que não vivemos no tempo dos tribunais plenários. Por isso, se não há prova não se pode condenar ninguém. Pois não, nem queremos de volta os tribunais plenários, mas noutros países onde a justiça funciona como era suposto funcionar a nossa, justiça de um Estado de Direito, tem havido gente presa por graves delitos financeiros: nos ESTADOS UNIDOS, Madox foi condenado a prisão perpétua; a ISLÂNDIA prendeu 29 banqueiros e levou um ex-governante a tribunal; em ESPANHA foram presos banqueiros pela primeira vez, no princípio deste ano, em número de seis - não foi preso o cunhado do rei, aqui os amigos do Cavaco-presidente; a GRÉCIA condenou um ministro a prisão perpétua, prendeu três antigos banqueiros e o presidente do Hellenic Postbank.

Em Portugal, onde os bandidos da área financeira andam todos à solta, a rir-se da nossa complacência, o que se adquire na escola de juízes? A capacidade para o exercício da profissão com competência ou a preparação para a conivência?

 

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por Augusta Clara às 00:28

Sexta-feira, 02.12.16

A respeito de Fidel, ... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A respeito de Fidel, ...

 

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   A respeito de Fidel, a palavra ditador tem sido a porta que a direita fecha na cara da discussão. Digo a direita não porque lhe assista em exclusivo a condenação do líder cubano, mas quando esta se apresenta sumária e indisponível para revogações (ehehe) não é difícil descortinar-lhe a proveniência. Um dos maiores apologistas nacionais da superficialidade, coincidentemente ou não, vai-se transformando também numa das mais populares caixas de ressonância da direita. Chama-se João Miguel Tavares e hoje, para o bem ou para o mal, dispensa apresentações. Sobre Fidel, cingiu o seu discurso a uma demanda: ensinar-nos a soletrar a palavra ditador.

Gostaria eu, sem estar preso a ideias pré-concebidas, de discutir aspectos que pudessem enquadrar a circunstância de Cuba continuar a ser uma ditadura, mas para ele, João Miguel Tavares, isso equivaleria a um sacrilégio, na medida em que pressuporia a admissão de uma hipótese hedionda: a de que nem a ilegitimidade de uma ditadura deva ser tomada como absoluta.

Circunscrita, portanto, a discussão ponderável ao sim ou não, porque só há quem possa repudiar de cima a baixo qualquer ditadura ou apoiá-la incondicionalmente, aguça-se-me a curiosidade sobre o que terá ele ensinado aos filhos sobre o Robin dos Bosques, esse ladrão que emagrecia o bolso dos ricos para engordar o dos pobres. Por mais que o nosso democrático país faça propagar de geração em geração o ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, a lógica inflexível de João Miguel Tavares não lhe permitirá esquecer que “um ladrão é um ladrão é um ladrão”, tanto quanto “um ditador é um ditador é um ditador”. Coitados dos miúdos, cerceados tão cedo das maravilhas da relatividade. E logo por um liberal.

Ora, diz-me o bom senso que um pequeno país em contra-corrente com um mundo apostado na ofuscação dos valores pelos preços talvez precisasse de tomar algumas providências para resistir – e sabemos como esta é a palavra-chave quando se fala de Cuba. Tudo o que ali se conseguiu em matéria de saúde, educação, emprego, combate à desigualdade social ou erradicação da fome, apesar dos condicionalismos económicos radicalizados por um bloqueio com mais de meio século e da sujeição permanente a um belicismo mediático que encheu o planeta de baba raivosa contra o regime, merece da minha parte, pelo menos, um olhar curioso, capaz de suplantar a rigidez da moldura para melhor apreciar o quadro. Mais ainda quando, à volta, as tão benfazejas democracias que construímos deram no que se sabe, com outras molduras, outros muros, no horizonte.

Não se infira daqui, como já estou a prever que muita gente faça, qualquer simpatia minha pela ideia de ditadura. Agora, não devemos deixar que os rótulos nos toldem o discernimento, nem a capacidade de enquadrar os factos com as circunstâncias. E em Cuba, apesar das circunstâncias, há factos que falam por si. Alguns até poeticamente, como o de os polícias andarem sem armas. Enquanto isso, ali perto, na democracia de todos os sonhos e liberdades, há mais civis com arma do que carro... 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 01.12.16

Fidel - José Goulão

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José Goulão  Fidel

 

A opinião pública portuguesa, europeia e, a bem dizer, da maior parte do mundo, sem esquecer as Américas, continua a ser fuzilada pela metralha de insultos, mentiras e dislates mais ou menos idiotas – o que não significa pouco eficazes – sobre a figura historicamente imortal e humanamente inesquecível do Comandante Fidel Castro Ruz.

 

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                   Agência Lusa 

 

abrilabril, 1 de Dezembro de 2016

   Dir-se-á que o seu apagamento físico soltou a bílis há muito entranhada para esta ocasião, tal como acendeu os rastilhos dos foguetes bafientos de alguns gusanos que, em Miami e noutros lugares, continuam a sonhar com a Cuba bordel, a Cuba das mafias, a Cuba do contrabando e das negociatas clandestinas, a Cuba de todos os vícios dos ricaços norte-americanos, a Cuba colónia, quintalinho e caixote do lixo.

Os pobres de espírito, que não de intenções revanchistas e de má-fé, têm dificuldade em entender, ou fingem não entender, que não lhes basta fazer a festa, deitar os foguetes, apanhar as canas e disparar rajadas de mensagens construídas em laboriosas centrais de propaganda para liquidar a Cuba independente, tornada possível e consolidada por Fidel, seus companheiros e, sobretudo, pela vontade e coragem dos cubanos – do povo cubano.

Será que tais mentes enfezadas alguma vez pararam para pensar como é possível que a bem sucedida resistência de um país à ocupação estrangeira e criminosa de parte do território – como Guantánamo –, a um bloqueio asfixiante que ferra há quase sessenta anos, a sucessivas tentativas e ameaças constantes de invasões, golpes, conspirações e incentivos à expatriação, seja obra de um dirigente, de um aparelho repressivo de poder, de um partido?

Já se deram conta de que Cuba tem resistido a uma ofensiva esmagadora dos mais poderosos e concentrados meios de intoxicação ideológica atacando, sem alguma oposição, a partir de um território situado a menos de cem quilómetros, da outra margem do estreito?

Já imaginaram a coragem, o sentido de independência, a ousadia de um povo para resistir, como aconteceu durante os anos noventa, ao regresso à penúria de uma economia de sobrevivência – ao pé da qual a austeridade que nos foi imposta é uma penalidade benigna?

É verdade que ter ideias, formar opiniões, pensar fora da formatação oficial é, hoje em dia, nas nossas sociedades, um anacronismo, um atrevimento, quiçá a antecâmara do mais ameaçador terrorismo. O que importa é consumir doutores, comentadores, politólogos, desideólogos, mentirólogos, alter-egos de fulgêncios batistas, acenar-lhes ordeiramente e ficar com a informação necessária e suficiente para repetir no café, no metro, no emprego, se possível até no Parlamento.

Nos dias em que regimes políticos que se supunham sólidos ruíram fragorosamente com o muro de Berlim, sem dúvida porque, a dada altura dos seus caminhos históricos, perderam ou cortaram os vínculos com a sua essência, a ligação ao povo e os mecanismos para que este decidisse da sua vida, a Cuba independente e com os olhos no socialismo conseguiu sobreviver.

E sobreviveu paupérrima, isolada, amesquinhada, quase sem amigos, ridicularizada por aqueles que, de barriga cheia, anafados de «democracia» e «direitos humanos», profetizavam diariamente «o fim do regime» para o dia seguinte. Bastaria isso para que qualquer ser pensante se desse ao trabalho de se interrogar sobre as razões pelas quais a Cuba de referências socialistas não seguiu o destino – que hoje se percebe catastrófico – de outras nações «irmãs».

Falta de democracia? Sim, dessa coisa que obriga governos eleitos a terem de sujeitar os orçamentos de Estado aprovados por Parlamentos eleitos aos pareceres de grupos de sujeitos não eleitos, marionetas manipuladas por interesses tendencialmente mafiosos; essa coisa que obrigou o povo do mais poderoso país do mundo, o país que se permite tentar matar os vizinhos à fome, a escolher para presidente entre uma fascista com provas dadas e um fascista com ameaças por cumprir.

Violação dos direitos Humanos? Sim, dessa coisa que a NATO leva na boca dos canhões, nos bojos das aeronaves ao Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Palestina, Líbano, Iémen, Mali, República Centro Africana, Nigéria e lá onde lhe aprouver.

«Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos "barbudos" de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.»

Enquanto isto, a célebre oposição cubana, endeusada aqui e além, e também no Parlamento Europeu, continua a ter como ícone esse sénior e incontornável terrorista e criminoso chamado Posada Carriles. Um verdadeiro democrata, como está provado.

Na hora em que o Comandante Fidel Castro Ruz nos deixa, e principalmente se transforma numa imensa saudade para o povo cubano e os seus amigos, os ansiosos de revanchismo não se deram ao recato de, ao menos, respeitar esse direito humano de sempre, o direito ao luto.

Também não precisam de verter lágrimas de crocodilo porque, ao contrário do que profetizam, a Cuba independente e o povo cubano não ficam órfãos. Têm o seu sistema de vida. Estão habituados a provações e a que agora lhes aconteceu estava prevista no eterno ciclo da vida e da morte, não é uma traição, nem golpe, nem conspiração.

Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos «barbudos» de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.

Os dias da despedida são já de um futuro no qual a Cuba livre e independente sabe que continuará a sua gesta de sempre, num ambiente infestado de fulgêncios batistas, contra as ganâncias das Monsanto e United Fruit deste mundo, das petrolíferas do costume e outras, das mil e uma mafias do turismo, do armamento, da droga, da química e farmacêutica, do jogo, da prostituição, do agroalimentar; ganância pelos bens e riquezas que são de todo o povo cubano.

A gesta de sempre contra o bloqueio, contra a ocupação de Guantánamo e contra os criminosos que mantêm estas situações, incluindo aqueles que usam e abusam do ilusionismo mediático prometendo revogá-las para melhor as sustentar.

Nestes dias, a evocação mais sincera e emocionada que é possível fazer da memória indestrutível do Comandante Fidel Castro Ruz é a de que a Cuba livre e independente está viva e pode contar com a solidariedade combativa de milhões e milhões de cubanos adoptivos em todo o mundo.

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por Augusta Clara às 22:36

Terça-feira, 22.11.16

GRANDE REPORTAGEM SIC - Angola, um país rico com 20 milhões de pobres - 17 Novembro 2016

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   Na última década, Angola registou um dos maiores crescimentos económicos do mundo mas manteve-se líder nos índices de mortalidade infantil. Uma semana depois de se assinalarem os 41 anos da independência de Angola, a Grande Reportagem SIC mostra-lhe um país que tem um dos maiores consumos de champanhe per capita e onde 70% da população vive com menos de dois dólares por dia. (youtube)

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 12.11.16

A ordem natural das coisas - José Goulão

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José Goulão  A ordem natural das coisas

 

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O que está a acontecer nos Estados Unidos da América, reflectido nos acontecimentos envolvendo a escolha do novo presidente, nada tem de surpreendente nem de aberrante, prossegue apenas o alinhamento da ordem natural das coisas.
 
Créditos / Agência Lusa

   O sistema de poder mais fiscalizado, filtrado e policiado do mundo jamais se enganaria na escolha daquele que interpreta os seus interesses e exigências num determinado momento e nas circunstâncias existentes.

Não confundir sistema de poder com sistema político. Os dois universos estão normalmente em consonância, porque disso cuida a estabilidade fundamental para os magnos interesses que enformam a estrutura que comanda. Porém, quando esta não se sente confortável nem segura com os caminhos da política interna, e externa, é óbvio que se vê obrigada a recorrer ao exterior da estrutura tradicional, abrindo caminho a um outsider, tornado insider enquanto o diabo esfrega um olho.

É o caso da entronização de Donald Trump em detrimento da senhora Clinton, que tantas etapas queimou para corresponder ao que o sistema de poder actualmente exige de um presidente que se esturricou a si mesma, numa sucessão de malfeitorias com as quais o establishment tem muitas dificuldades em lidar perante a opinião pública, por muito condicionada esta seja.

As circunstâncias em que decorreu o presente episódio eleitoral nos Estados Unidos exibem o nível mais reles da política. Nada do que aconteceu tem a ver com democracia, com uma ideologia que não seja a não-ideologia, com debate de ideias ou esclarecimento da situação social.

É certo que nada de substancial poderia ser discutido, porque o sistema chegou a uma fase em que a sua própria sobrevivência, tal como ele se conhece ou funciona, já não é compatível com debate, ideias e transparência, impõe subserviência e conformismo como nunca exigiu – isto é, um poder forte e autoritário comandando um exército de desiludidos receptivos a radicais promessas de mudança e melhoria de vida, ainda que pressintam falsas.

«Nada do que aconteceu tem a ver com democracia, com uma ideologia que não seja a não-ideologia, com debate de ideias ou esclarecimento da situação social»

 

Não é novidade que, desde meados da década de setenta do século passado, a ortodoxia neoliberal tomou conta das rédeas do capitalismo, promovendo o mercado a entidade suprema da sociedade, malignizando o Estado, exorcizando qualquer sistema de apoio e solidariedade social, libertando o trabalho de quaisquer amarras, direitos e vínculos, uma solução que temos ouvido definida na forma do slogan «liberalização do mercado laboral».

O capitalismo, para seu próprio desenvolvimento e progresso na fase de boom tecnológico que exibe o esplendor do mercado nos salões do casino financeiro em que rolam milhões de milhões virtuais, e vai tornando a economia subsidiária da especulação, precisou de cortar quaisquer amarras com o seu passado keynesianista.

Isto é, deixaram de existir condições lucrativas satisfatórias para se falsificar um qualquer «rosto humano» do capitalismo. O capitalismo necessita de ser absolutamente livre, de dispor de acesso sem peias aos recursos humanos, às matérias-primas, ao território global – isto é, exige ausência de restrições políticas, sociais, humanistas e estratégicas; e não tolera obstáculos à conquista de espaço vital, também por isso se fala tanto em globalização.

Como, ainda assim, a crise continua a miná-lo devido a resistências várias, sejam de povos ou nações, e também devido às contradições própria das rivalidades das ganâncias à solta, há muito que o capitalismo se incompatibilizou com o que resta de democracia.

O que é válido para o templo mais sagrado do capitalismo, os Estados Unidos da América, é-o igualmente para o resto do mundo, principalmente para a moribunda União Europeia, e disso falam bem as nossas experiências pessoais e institucionais.

Afinal, não é uma humilhação dos direitos dos cidadãos, e da sua liberdade de voto, o facto de um governo português ter de submeter o orçamento aprovado pelos eleitos dos portugueses ao exame com poder deliberativo de fiscais não eleitos, algures em Bruxelas, Berlim e sabe-se lá mais onde? Conseguem descortinar a democracia no meio da teia de artimanhas de bastidores onde até são possíveis acordos secretos de burla como entre o senhor Hollande e a Comissão Europeia?

Trump surge na ordem natural das coisas estabelecida pela cavalgada neoliberal para o «fim da História», porém tornada escorregadia por uma crise até agora indomável.

«Obama e Clinton, "príncipes democratas" de pura cepa, promoveram mil e uma acções de aniquilação da democracia e de expansão do espaço vital, na esteira do republicano fascistóide George W. Bush»

 

Na sua não-ideologia ideológica, há muito que o sistema global capitalista identificou o funcionamento dos mecanismos democráticos como o principal problema a remover. Por isso, o baixo espectáculo político dado pelas eleições norte-americanas já nem escondia a realidade da não-escolha.

Obama e Clinton, «príncipes democratas» de pura cepa, promoveram mil e uma acções de aniquilação da democracia e de expansão do espaço vital, na esteira do republicano fascistóide George W. Bush: o golpe fascista na Ucrânia; o incentivo à ressurreição dos fascismos e militarismos, arcaicos ou renovados, no Leste da Europa; o crescimento e globalização da NATO e o seu funcionamento agressivo e arbitrário, recorrendo, quando considera necessário, a grupos terroristas islâmicos como divisões operacionais; a aniquilação da União Europeia – sempre «bom aluno» de Washington – através do TTIP, do enfeudamento a rígidos e expansionistas compromissos atlantistas e da tragédia dos refugiados; o incentivo à guerra, ao militarismo e a situações de caos regional ao serviço do crescimento económico através da indústria militar e do acesso, sem restrições, às mais importantes fontes de matérias-primas e de recursos energéticos; o estado de excepção em França e a ascensão de movimentos fascistas, populistas, xenófobos e racistas através da Europa, decorrente da convergência de efeitos das guerras de expansão, do terrorismo e dos problemas criados pela vaga de refugiados; a tomada e manipulação da ONU por Washington. Tudo isto marca os tempos modernos, com as assinaturas indeléveis de Hillary Clinton e Barack Obama.

Apesar das provas dadas pela senhora Clinton, o sistema de poder escolheu Trump. Os serviços prestados pela candidata deixaram rastos incómodos, mesmo numa opinião pública ferreamente manipulada.

Donald Trump surge de novo e de fora, mas do interior do sistema de capitalista, do capitalismo «de sucesso». Diz o que a doentia sociedade da «América profunda» deseja ouvir, trabalhada pelo fascismo das seitas protestantes, pela estupidificação burilada sistematicamente pela comunicação social e pela degenerada indústria cinematográfica, educada pela violência do entretenimento e dos lobbies securitários e das armas, assustada pelos pregadores obscurantistas, aterrada pela insegurança social, física e pela falta de perspectivas, minada pelas acicatadas e artificiais contradições entre grupos sociais e étnicos mergulhados nas desigualdades.

Assim se construiu o discurso «novo» de Trump sobre a cama, há muito preparada, do descrédito das ideias políticas (a ideologia) e do nível zero da democracia. A resultante do discurso do sistema de poder capitalista, o discurso vencedor de Trump, é agora uma mensagem fascista.

Iremos confrontar-nos, a seguir, com o conteúdo prático que assumirá tal programa ainda disperso, anárquico e oportunista, elaborado para vencer num dado momento e circunstâncias.

Embora suspeite de que, necessitando de derrubar barreiras nesta ânsia de atingir o estado supremo neoliberal, em que também joga a própria sobrevivência, o capitalismo descartou de vez qualquer réstia de democracia. É a ordem natural das coisas.

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 10.11.16

Para que nos entendamos, si esto es todavía posible - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  Para que nos entendamos, si esto es todavía posible

 

luís sepúlveda1.png

 

   Como hombre de izquierda sé que uno de los males mayores de cierta izquierda -la más ruidosa- es entender lo que quiere y no lo que debe. En política la imposición del deseo por sobre el análisis se llama voluntarismo, y ese vicio siempre conduce a confundir la realidad con la fantasía.

Leo muchas opiniones que, en lugar de preocuparse por entender las razones del triunfo de Trump, condenan no sólo a quienes lo votaron sino también a los que intentan entender lo ocurrido.

Para que nos entendamos voy a poner un ejemplo real, y se llama Detroit, una ciudad del estado de Michigan y que fue la capital mundial de la industria automotriz. Detroit era la ciudad de Ford; Chrysler y General Motors entre otras marcas. Hasta 1973 llegó a tener un millón y medio de habitantes, empleo pleno, hospitales, universidades, bibliotecas, transporte público y, desde luego, viviendas muy caras.

Hoy, en Detroit, una ciudad arruinada que se declaró en bancarrota hace dos años, malviven unas seiscientas ochenta mil personas y de ellas, unas doscientas cincuenta mil viven en la extrema pobreza . Y no hay universidades, salvo sus ruinas, ni hospitales, salvo sus ruinas, ni teatros, salvo sus ruinas, ni industria automotriz, salvo sus ruinas, ni bibliotecas ni transporte público, salvo sus ruinas.

¿Qué ocurrió? Sería fácil decir que simplemente las industrias se " deslocalizaron" y se marcharon a producir en otros países más "competitivos". También sería fácil decir que todo es consecuencia de la "globalización", pero sin explicar qué es y cómo actuó esa globalización.

Esencialmente, la globalización de la economía es la unión de los grandes capitales que forman un poder paralelo y superior al poder de los Estados. Más simple aún, son el 1% poseedor del 99% de la riqueza del planeta que decide las reglas del juego de la economía al margen de cualquier consideración social o de respeto a los derechos conquistados.

En el caso de Detroit, los dueños, los accionistas de la industria del automóvil , trasladaron sus capitales a países de mayor flexibilidad laboral e impositiva. No hay marcas de autos "nacionales", en los directorios de todas las empresas que fabrican autos se cruzan nombres de accionistas de todas las marcas. La patria no existe en la economía globalizada.

Hasta Detroit, hasta los jodidos, los pobres, los parados, los sin esperanza , los que sobreviven entre las ruinas de la que fuera una ciudad espléndida, llegó el discurso abstracto, comprensible sólo para ciertas élites, profesores de Berkeley o Harvard, que no hacía la menor referencia a lo ocurrido en esa ciudad y al por qué. Y llegó también el discurso populista, simplón de Trump , pero que explicó por qué Detroit esta en ruinas, culpó directamente a la globalización -ocultando que como empresario es parte de ella-, y ofreció algo llamado "proteccionismo", conjunto de medidas que, en una economía absolutamente globalizada, no es más que un intento de regreso a una fase del capitalismo superada por el mismo capitalismo, pero que a los jodidos, a los pobres, a los parados, a los desesperanzados sonó como música celestial. Sonó a trabajo.

Trump no ganó por ser un machista, un misógino, un racista, un intolerante. Ganó porque, siendo sin duda todo lo anterior, supo construir un discurso convincente para los jodidos, los parados, los sin esperanza.

Y esos jodidos, parados, hambrientos y sin esperanza aceptaron un discurso que tiene cualquier cosa menos "corrección política" y se aferraron a él.

Así de simple, y así de complejo.

Foto de Luis Sepúlveda.
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por Augusta Clara às 08:00



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