Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Terça-feira, 25.04.17

"Um cravo vermelho e luminoso" - Adão Cruz

16873377_Swd0T[1].jpg

 

Adão Cruz  "Um cravo vermelho e luminoso"

 

14901064_hGlLg.jpg

(Adão Cruz)

 

Um cravo vermelho e luminoso
Um cristal de vida no céu de chumbo
Cada dia um mundo limpo e perfumado
Graças a ti flor da minha idade
Graças a ti caminho da esperança às portas da cidade
Todo o mel e todos os frutos ali à mão
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
Veio o tempo ao nosso encontro
E a manhã despertou agitando as árvores
E a noite se fez de estrelas
Que desceram aos cantos do jardim
Um cravo vermelho e quente
Mais que tudo amando a vida
Em qualquer língua entendida
O mundo tinha o sabor de uma maçã
E os olhos inacabados eram cravos vermelhos
Não havia cárceres nem torturas
Apenas o calor de uma fogueira
Na praça do entusiasmo
E uma jovem mulher dormindo um sono de criança
Nos telhados da revolução
O seu rosto era uma nuvem
Dourada pelo sol e pela lua
Os cabelos trigueiros uma seara
Nos lábios a canção de Abril
Que gloriosa encheu a rua.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:38

Segunda-feira, 24.04.17

25 DE ABRIL SEMPRE!

1451531_271404459696222_2806446098173634136_n.jpg

(Imagem de Adão Cruz)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 01:33

Domingo, 23.04.17

Barcelona, a cidade dos livros - João de Melo

ao cair da tarde 5b.jpg

 

João de Melo  Barcelona, a cidade dos livros

o-livro-arvore-salvador-dali1.jpg 

(Salvador Dali, Livro-árvore)

 

       A 23 de Abril de cada ano, dia do livro e de Sant Jordi, patrono da Catalunha, todos os caminhos da festa e do sonho vão dar a Barcelona. Os livros saem à rua, levados pelos livreiros e pelos editores. Desfilam à proa de grandes medas, sobre bancas alinhadas e que se estendem ao longo do passeio público. Abrem-se bibliotecas, escolas e instituições de cultura às contínuas multidões de leitores que deslizam por ali ao som da música “callejera” e de vozes que cantam ou apregoam os indecifráveis comércios de tudo o que se compra e vende nos dias de Barcelona. Há uma espécie de bramido de mar e vento salgado na confusão desses rumores. Espreita-se o recital de poesia à porta das livrarias mais conhecidas, dá-se passagem a figuras alegóricas da literatura em desfile pelo passeio central da Rambla, assiste-se à aparição de personagens ressuscitadas das páginas dos livros e à encenação de episódios que toda a gente identifica ou intui a partir das suas próprias leituras. É sobretudo nas alegres Ramblas que se concentram as figuras de carne e osso dos livros, mas não só. Aí estão os poetas e os escritores a autografar as suas obras, a receber mãos e beijos agradecidos, a polir o ego tímido com sorrisos e elogios murmurados ao ouvido. Faz parte da tradição e da liturgia que as damas ofereçam livros aos cavalheiros, e que estes lhes retribuam com rosas. O certo é que se trata de uma das festas mais felizes do ano em Espanha (observada, aliás, em praticamente todas as suas cidades, mas com graus de incidência variáveis), porque vibra no ar e na carne de toda a gente algo como um orgulho pessoal acerca da literatura. Como se todos nela celebrassem a beleza do mundo, o princípio da vida, o género humano e o privilégio da língua e da palavra.

De resto, não creio que haja, em toda a Espanha, uma cidade mais poética e sobretudo mais literária do que Barcelona. A existência de uma literatura catalã parece, aliás, estar toda nela contida: essencialmente urbana, sócio-histórica, cada vez mais mundana e cosmopolita. Apesar de ser um dos grandes destinos turísticos do país, é sobretudo pelos roteiros culturais da cidade que se movem as contínuas multidões que a visitam, vindas de todos os continentes. Barcelona é de uma beleza tranquila, mediterrânica, cheia de vida nas longas noites estivais e de vozes que falam todos os idiomas do mundo. Cidade compacta, anfiteatro de labirintos, coração capital de uma Catalunha dono e senhora da sua glória histórica. O circuito da arquitectura de Gaudí (todo o mundo mágico de Gaudí, aliás) não deixa de sugerir uma atmosfera de irrealidade e de evanescência que nos aproxima tanto de um surrealismo exposto, à Dalí, como de um património integrado que faz dela um berço e um navio de sonhos.

Também a literatura pode mover-nos em torno de uma visão subjectiva, referencial, centrada ora no presente ora na intemporalidade de Barcelona. Os seus poetas são outrossim os seus cantores. Ouço-os nos meus próprios passos: as suas vozes batem o silêncio ao crepúsculo, atravessando comigo o Bairro Gótico. Se passeio ao fim da tarde pela orla marítima, no porto, ao longo do corpo salgado, grosso e cavo do Mediterrâneo catalão, vislumbro logo a figura de Dom Quixote de la Mancha a chegar ali, trazido pela mão de Miguel de Cervantes para conhecer o mar, num dos capítulos mais poéticos que ainda hoje se podem ler sobre uma cidade tão literária como esta. E quando desço ou subo as Ramblas, vendo milhões de pássaros de todas as cores dentro das gaiolas, floristas com mãos doces e olhos pálidos, músicos e artistas de rua nos seus números, é por dentro de outros livros que viajo: por exemplo, numa página de «A Cidade dos Prodígios», de Eduardo Mendoza; ou numa outra de «A Sombra do Vento», de Carlos Ruiz Zafón (onde Barcelona assume a poética misteriosa da vida que vem nos livros). Movo-me nas “Últimas Tardes com Teresa” e nos “Rabos de Lagartixa”, dois livros de Juan Marsé; e nas páginas de um romance simples, acerca de tudo, que se chama “Nada”, de Carmen Laforet. Movo-me também num dos magistrais «Doze Contos Peregrinos», de Gabriel García Márquez, dedicado a Barcelona, cuja geografia suburbana me anuncia o vento e os caminhos do grande feitiço, assim como a música das suas palavras. Mas existem páginas inesquecíveis nos livros cheios de bares e esplanadas de Terenci Moix, Enrique Vila-Matas, Manuel Vázquez Montalbán, Rosa Regàs e Pedro Zarraluki. Porém, quando vagueio ao acaso das ruas de Barcelona (ao acaso das vozes, dos odores, do peso rigoroso das coisas à tona dos meus cinco sentidos) - é aí, profundamente, totalmente, a cem por cento, que me sinto a bordo de um livro único: «A Praça do Diamante”, de Mercé Rodoreda. A escritora por antonomásia de Barcelona. Mercé está para a Catalunha como Flannery O’Connor para a América e Virginia Woolf para o Reino Unido. Quero dizer: o universo inteiro de qualquer literatura. Benditas sejam portanto as pessoas felizes que lêem e que vivem em Barcelona, a cidade dos sonhos e das palavras, cidade da vida que inspira a memória poética da literatura - e que, por sua vez, também a inspira e a explica! 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:16

Quinta-feira, 06.04.17

PEQUENA ODE, EM ANOTAÇÃO QUASE BIOGRÁFICA - Ana Luísa Amaral

agnes noyes goodsir (pntora australia 1864-1939) a

 

(Agnes Noyes Goodsir)

Bom dia, cão e gata,
por essa saudação e de manhã,
o corpo de veludo, a língua suave,
em simultânea tradução:
bom dia

Bom dia, sol, que entraste aqui,
me ofereces este espelho
onde me vejo agora, e tão de frente,
tornaste um pouco clara a folha de papel
e nela: em faixa transparente,
o tempo

Bom dia, coisas todas que brilham na varanda,
folha de japoneira, o nome cintilante,
o som daquele pássaro,
como se o mundo, de repente,
se fizesse mais mundo, e de maneira tal
que nunca mais se visse
escurecente o dia

Bom dia, gente pequenina
que não consigo olhar desta cadeira,
mas que está: formigas e aranhas,
minúsculos insectos
que hão-de morrer, mas aqui nascerão,
todos os dias

Bom dia, minha filha, igual a girassol,
quantas mais vezes te direi bom dia,
olhando o corredor,
tu, já não de baloiço, mas de amor
e pura filigrana,
eu, quase entardecendo

Bom dia, meu sofá,
onde me sento à noite, e devagar,
as flores que ora não são, ora às vezes
povoam esta mesa, a porta em vidro,
iluminada, em mais pura esquadria,
livros e quadros, curtas
fotografias em breve
desalinho

Bom dia, a ti também,
pelo perfume em fio que me trouxeste,
como se encera um chão rugoso de madeira,
os veios de uma planta desejosa de folhas,
ou mesmo as falhas na paz que me ofereceste,
e que desejo tua

Mesmo no tom cruel
que é acordar todos os dias
para um mundo sem sol em tantas mãos,
mesmo nesse desmando e tão violento curso
que é o mundo,
ainda assim, esta pequena anotação
de abrir os olhos e dizer bom dia,
e respirar de fresco o ar de tudo
em tudo –

(in E todavia, Assírio & Alvim, 2015)

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 00:47

Domingo, 26.03.17

Anda no ar um cheiro triste - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Anda no ar um cheiro triste

36-2013a.jpg

(Adão Cruz)

 

 

Fujo do rio vazio
e sento-me neste banco cinzento que já foi branco
quando havia borboletas brancas e muitas flores
e alegrias e pedaços de sol entre os braços da sombra.
Fujo deste banco escuro do cais do Ouro
onde os corvos marinhos secam as asas ao sol
e a tristeza invade as margens com a maré cheia.
Fujo do rio quando os barcos se enterram no lodo
e a luz é uma neblina densa que invade a alma pelos olhos dentro
e os corvos marinhos fazem voo rasante para outras paragens.
Fujo do rio e vou sentar-me noutras paisagens
neste banco cinzento que já foi branco e de outras cores
onde tudo o que chama por mim é silêncio
e o corpo me dói
e a alma se dissolve na água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho.
Sento-me na pedra fria deste banco que já foi branco
no tempo das flores e das borboletas brancas
em que não havia desertos ao fim da tarde.

Anda no ar um cheiro triste
e por isso deixei que a tarde me falasse
mas tudo o que chamava por mim era silêncio
e era silêncio o cantar da água que ia regar as cinzas
e as carnes moles de um corpo velho.
Não havia desertos entre a folhagem
neste banco pintado de branco
entre os pedaços de sol e os braços da sombra
mas os desertos aí estão
desertos de areias que são sementes de cabeças de criança
sim
as desse tal Herberto
caminhando ao longe
vagarosamente
sobre as areias do deserto.

Anda no ar um cheiro triste
e eu sento-me na margem húmida do rio num barco inventado
ali mesmo ao lado do minititanic
a sobrar de podre e a dobrar o tempo do amor de um velho
na loucura do sonho do cair da tarde
e a noite não tarda
salpicada de borboletas negras de voo pesado
e barcos enterrados no lodo.
Fujo do rio antes que chegue a maré cheia
e a tristeza baixe as asas dos corvos marinhos
e o sol não seja mais que uma densa neblina afogando o rio
e os corvos marinhos chamem por mim em desafio
e tudo o que chame por mim não passe de silêncio.

Anda no ar um cheiro triste
e eu fujo do rio que dá a ideia que vai secar
como os pedaços de sol e os braços da sombra
e vou sentar-me naquele banco cinzento que fora branco.
Fujo do rio e do cais do Ouro
mas o silêncio beliscado pelo fio de água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho
não passa do silêncio de tudo o que pode ser
o desesperado voo rasante dos corvos marinhos
sobre um rio negro deserto e frio que faz tremer.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:06

Sábado, 25.03.17

A tempestade - Ian Hamilton

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Ian Hamilton  A tempestade

rebecca guay, love poem1.jpg

(Rebecca Guay, "Love poem"

 

Ao longe rebenta a tempestade. Encrespa o nosso quarto.
Tu olhas para a luz em cima e ela te apanha um lado
Da cara, a tua boca firme, o teu olhar espantado.
Voltas-te para mim e quando chamo vens
Até mim e ajoelhas-te ao lado, querendo que tome
A tua cabeça entre as mãos como se fosse
Uma delicada taça que a tempestade podia quebrar.
Queres que me ponha entre ti e a brutal trovoada.
Mas na tua carne as minhas mãos se agitam,
Pulsam em ti e então, sem saber como, apertam.
A tempestade rola em mim ao abrir-se a tua boca.

(in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 21:19

Quarta-feira, 22.03.17

"Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera" - Eva Cruz

 

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Eva Cruz  "Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera"

 

toshiyuki enoki1.jpg

 (Imagem de Toshiyui Enoki)

Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera.

Vestida de menina despida de nada nesta emboscada do sonho perdido.

Voam borboletas brancas prenúncio de vida a partir do nada.

E chegam as primeiras andorinhas e o cantar dos melros.

Procuro-te por toda a parte e lá te encontro em tudo o que nasce.

A árvore vai florir de novo em seiva de cinzas.

A minha vida corre para a tua ausência e uma nova natureza há-de cantar o nosso encontro.

Tive um sonho .

Um sonho lindo!

Novos filhos nascem do nosso amor.

Vestidos de Primavera.

 

Nota: Em homenagem ao Orlando que agora partiu e foi o companheiro de toda a vida da Eva Cruz, uma amiga de ambos escreveu o texto que se segue:

 

(Relembrando com saudade a última vez que estive com o Orlando…)

 

   Murcharam as rosas que a Eva comprou no Dia dos Namorados. Duas. Vermelhas de sangue, de vida, de paixão. A Eva alimentava o Amor com pequenos gestos, momentos de ternura, rituais próprios… Orlando retribuía com um sorriso cúmplice, a tender para o irónico, os olhos babados de admiração e orgulho. Gente feliz!

Fevereiro era frio e o vento entrou, causando estragos. Nas flores e nos corações…

A Eva bem que tentou manter as rosas vivas por mais tempo mas o esforço foi inútil. Em vão as cuidava diariamente, o frio fora implacável. As rosas são efémeras e as pétalas foram caindo uma a uma…efémeras como a vida!

Em casa da Eva haverá sempre duas rosas vermelhas que nenhuma aragem poderá destruir. E que o seu perfume suavize o momento!    

Obrigada, Orlando, por ter adotado como seus os amigos da Eva!

Obrigada pelo convívio, pelas conversas, pelas viagens e pelos bons momentos que partilhámos em conjunto!

Obrigada por ter sido o amante, o companheiro, o cúmplice, o crítico que fizeram da Eva uma mulher feliz!

Será sempre recordado com muita saudade.

Carmina, 15/3/2017

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 21:00

Quarta-feira, 22.02.17

CRÓNICA-DESABAFO - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  CRÓNICA-DESABAFO

 

CL32a.jpg

(Adão Cruz)

 

   Depois de um dia de consultas desgastantes, passei  hoje [ontem] pelo hospital onde tenho alguém na Unidade de Cuidados Intermédios, em estado precário, todavia com sinais positivos de recuperação.

Esta melhoria legitimou a minha ida até à Ria de Ovar, a fim de comer qualquer coisa, neste caso concreto, meia dúzia de enguias fritas acompanhadas de dois copos. No fim, sob a abóbada de um crepúsculo quase sinfónico, daqueles que pintam de vermelho o horizonte do mar e dizem ao viajante:  “vermelho para o mar, pega no burrinho e põe-te a andar”, ou que dizem ao lavrador “pega nos bois e vai lavrar”, percorri a passo de caracol a berma da ria, ao som, nem de propósito, de “A Barcarola”, de Offenbach. Que maravilha de casamento entre o céu, a água, a música…e a nossa instabilidade emocional!

No fim desta encantadora peça musical que me encheu sempre a alma, desde remotos tempos em que, à beira-mar, eu procurava a calma e o equilíbrio dos meus momentos de desassossego, ouvi a entrevista de Luís Caetano a Luís Diamantino, um dos responsáveis pelas “Correntes de Escritas” da Póvoa de Varzim. Não digo que tenha ficado desiludido, mas também não me deixei iludir, pois não me iludo sempre que transformam eventos literários, poéticos e artísticos em espectáculos de folclore e feiras de fumeiro.

A criatividade, seja em que campo for, é sempre, sempre fruto de uma liberdade incondicional e não de uma fábrica de saberes. Além disso, a literatura, a poesia e a arte não são mercadorias a promover ou vender em feiras. É a cultura, política e socialmente considerada prioridade social, que deve trazer as pessoas ao encontro da literatura, da poesia e da arte, na descoberta de que a sua vida necessita delas como metabolito essencial, e não o contrário. Não sendo assim, tudo não passa de folclore.

Por exemplo, em vez desta espécie de feira, por que não tentar discutir a fundo e filosoficamente o que é a literatura, o que é a arte e o que é a poesia, que, praticamente, ninguém sabe o que são, a despeito de inúmeras definições, a maior parte verdadeiramente disparatadas e sem jeito nenhum. Além disso, uma boa parte da poesia que para aí se faz e consome, por exemplo, não passa de chachada, e, no entanto, anda por aí, lida, relida, declamada e pendurada em tudo quanto é esquina. Sejamos sérios. De uma vez por todas, para que possamos ter um fio de ligação, não há outra plataforma de entendimento que não seja assentarmos no conceito neurobiológico do sentimento como suporte de entendimento do sentimento artístico e do sentimento poético, iguaizinhos a quaisquer outros sentimentos. Não sendo assim, tudo o resto é fantasia e disparate.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 06.02.17

Crónica, um tanto extemporânea, que eu dedico à minha amiga Augusta Clara e ao meu amigo José Carlos da "Taberna do Doutor", que fazem anos hoje - Adão Cruz

IMG_5715a.jpg

(imagem de Adão Cruz)

 

1º - A semana passada, dirigia-me eu à Corunha a fim de almoçar com uns amigos, quando, perto da saída para Ponte de Lima, tive um furo, originado por um maldito parafuso que por ali ficou à espera de outra vítima, segundo me disse o remendador de pneus. Tive a sorte de, naquele preciso momento, passar ali uma carrinha da Brisa, cujo condutor, dada a minha provecta idade, gentilmente se prontificou a mudar o pneu. Claro que, sendo sábado, desisti de continuar a longa viagem, com um pneu raquítico como aqueles que agora se usam como substitutos, embora já tivesse tido a experiência de andar com um pneu desses desde Villefranche de Conflent, sul da França, até Portugal.

Resolvi ir comer um pernil assado na “A Carvalheira”, e, no fim do repasto, dirigi-me a Vigo, onde assentei arraiais no velho, modesto e conhecido Hotel La Junquera, desde os tempos em que ainda não havia a “parte nova”. Como em outras ocasiões, fui à //Afundación, ver o que havia por lá, em termos de exposições. Nesse mesmo local onde o meu grande amigo Pastor Outeiral, uns anos antes de morrer, fez uma das suas últimas exposições. Entre “Da Xeración doente aos Renovadores”, “Pegadas da Abstracción a nova Figuracción”, “Identidade Individual, Vontade Global”, dei com obras de pintores que tiveram muito a ver comigo. Desde já, Tino Grandio que morreu em 1977 com um cancro da bexiga, cuja obra descobri há muitos anos em Pontevedra. Xaime Quesada, que ainda conheci pessoalmente em vida, em Ourense. Caruncho que morreu o ano passado, e com quem, um dia, jantei na Corunha.

Fui jantar ao meu querido café “Luces de Boémia”, onde tenho amigos, e que eu conheço desde os tempos em que ia a Vigo comprar películas para o meu primitivo ecocardiógrafo, o único ecocardiógrafo bidimensional existente no país, nessa altura. Aí me mantive até às primeiras horas da madrugada, ouvindo música ao vivo, dos anos 60-80-90. Depois de uns copos bem bebidos, indutores de um belíssimo sono, lá fui para o hotel “la Junquera”.

Levantei-me a meio da manhã e percorri calmamente, dentro da neblina e de uma chuva miudinha, todo aquele rabinho de costa entre Vigo e a Guarda (La Guardia), que por mais conhecido que seja nunca cansa. Almocei no “Muralhas de caminha”, do meu velho amigo Tiago, e rumei ao Porto.

2º À noite jantei num tasco. Na mesa frente à minha sentou-se uma moça nova, engraçada, mulher dos seus trinta e tais, com um homem bastante mais velho, com ar de sem-abrigo. Entre ambos abundavam os sorrisos e gestos de uma felicidade fora do comum. Eram, na verdade, pai e filha, segundo me segredaram. Ela, empregada muito precária, ele, com efeito, sem-abrigo.  Ali vinham por vezes jantar. Desta vez uma suculenta picanha intercalada de sorrisos, salivações e lacrimosos olhares de felicidade. Dei comigo a entranhar bem dentro das entranhas o que é a vida e o que ela tem de absurdo, de relativo, de descarnado, de verdadeiro e de falso. Comparei, sem esforço, esta cena de plena felicidade, com as trombas (ainda que giras) transmitidas momentos antes, da execrável exploradora da miséria angolana, Isabel dos Santos, ao ver-se aprisionada durante meia hora num autocarro junto ao aeroporto de Lisboa.

                                                                                                       Adão Cruz

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:20

Sexta-feira, 06.01.17

Dia de Reis - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Dia de Reis

 

monica mora e robin ryan5a.jpg

(Monica Mora e Robin Ryan) 

 

Nasci a 6 de Janeiro.
Minha mãe dizia-me:
— Es rainha. Mas o mais importante é seres rainha nas virtudes.
Não fazia a mínima ideia do que seriam virtudes, e ainda hoje não sou capaz de medir o alcance das suas palavras.
O Dia de Reis era um dia especial.
Começava logo pela véspera, a primeira consoada do ano. Já noite dentro, lá vinha a toada dos Reis, as Janeiras, tocadas e cantadas por músicos da banda que nas festas se exibiam no coreto.
Muito distante no tempo, recordo apenas o som vivo do clarinete que cortava o silêncio sagrado da noite.
Um quarteto de homens vestidos de preto surgia na faixa de luz quando a porta se abria, ofuscados pelo reflexo metálico dos instrumentos.
O Dia de Reis era Dia Santo e as férias do Natal duravam até lá.
Sempre se festejaram os meus anos com amiguinhos da escola, cacau ou banacau, pão com manteiga e doce sortido.
Na mesa havia camélias brancas, as flores preferidas da minha mãe.
Brincadeira até à noitinha, a saltar à corda, jogar à cabra-cega, à patela, à roda ou a correr pelos campos.
As escondidas, lá íamos mirar o poço velho, de onde se tirava água com um sarilho. Era um dos maiores perigos do lugar.
O poço não tinha vedação e nós espreitávamos à volta. Lá em baixo, as nossas cabecitas reflectiam-se nas águas paradas, e no ventre da fantasia e do mistério, via sobre a minha cabeça uma coroa de rainha. Um poço de virtudes, soubesse eu o que eram virtudes!
Fui também rainha dos campos, com coroas de pampilos amarelos tecidas pela inocência da infância. Rainha dos montes com grinaldas de perfume das giestas e eucaliptos. Rainha do rio, com coroas de juncos ou bailando nas cheias que cobriam os lameiros, arrastando tudo em séquito majestoso.
Quando colhi as últimas camélias para a minha mãe, no Dia de Reis, tinha ela cem anos. Com a frescura e a brancura de Janeiro, poisei-lhe um ramo, ao de leve, no regaço.
— São as suas flores predilectas.
— São lindas.
— Faz hoje anos que teve uma menina, estavam a tocar as três para a missa. Lembra-se?
O seu rosto vestiu-se de uma expressão serena, perdida no tempo.
— Talvez.
— Teve uma rainha, não foi?
Revelou alguma surpresa, no ingénuo sorriso da candura da idade.
— Estou agora a sabê-lo!
Todos os Dias de Reis me apetece colher camélias brancas, mas as que mais gostaria de colher ficaram para sempre no seu regaço.
 

(in Cenas do Paraíso, ediçõesengenho)

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 18:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2017

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30


Comentários recentes

  • separatista-50-50

    «Tudo como dantes. Quartel em Abrantes» não é bem ...

  • adão cruz

    Completamente de acordo. Alguém tem dúvidas das mo...

  • Anónimo

    Que não nos falte o sonho...

  • adao druz

    Muito bonito. Só eu sei...

  • adelino

    Velhos são os trapos! Espero que daqui a dez anos,...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos