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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 29.05.17

Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio - Eva Cruz

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Eva Cruz  Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio

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(Gustav Klimt)

 

 

   Nasceu uma criança. Havia de crescer, fazer-se menino , jogar à bola, decorar o caminho da escola.

De combóio chegava ao destino, esse menino ainda sem rumo, crescendo nos olhos e no  sonho dos pais como futuro moldado  de amor e trabalho duro. 

Partiu um dia para mais longe, para mais perto do futuro. Chamaram-no as águas do Mondego, rio de lágrimas e fado, de trovas, baladas  e capas negras. Cidade do amor, da nostalgia e da saudade, de serenatas à luz da lua espreitando o mundo na estreiteza da rua.

Conheceu a força do amor e com ele encheu o peito da alegria e da dor que a vida impõe a quem ama. Nem tudo na vida são rosas, mas eram mimosas as palavras e as mãos entrelaçadas.

O sonho fez-se vida pela vida fora e deu vida  a outros sonhos  meninos que cresceram à medida do amor.

Hoje, na dor de um sonho perdido, apenas ficou inteiro o amor que deixaste comigo.

  

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por Augusta Clara às 16:03

Segunda-feira, 15.05.17

São de lágrimas os olhos das andorinhas - Eva Cruz

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Eva Cruz  São de lágrimas os olhos das andorinhas

 

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(Augusto Peixoto)

 

 

Acordo com a luz da Primavera

foram-se os cheiros e as cores

a alegria do verde e o azul do céu.

Uma brisa suave leva-me  onde amei

dentro de um sonho que perdeu o futuro.

Não me dou com o malvado do tempo

que nada corrige e a nada obedece.

Fico à espera da manhã azul

e o  tempo adormece.

Os pássaros enamorados

não sabem que o Outono cinzento volta.

Julgam-se donos do mundo.

Tenho vontade de lhes contar a verdade.

Que vivam na ilusão! A Primavera volta sempre, ou talvez não...

Acordo com a luz da Primavera, mas ela vem despida de

azul e são de lágrimas os olhos das andorinhas.  

 

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por Augusta Clara às 15:57

Terça-feira, 25.04.17

"Um cravo vermelho e luminoso" - Adão Cruz

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Adão Cruz  "Um cravo vermelho e luminoso"

 

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(Adão Cruz)

 

Um cravo vermelho e luminoso
Um cristal de vida no céu de chumbo
Cada dia um mundo limpo e perfumado
Graças a ti flor da minha idade
Graças a ti caminho da esperança às portas da cidade
Todo o mel e todos os frutos ali à mão
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
Veio o tempo ao nosso encontro
E a manhã despertou agitando as árvores
E a noite se fez de estrelas
Que desceram aos cantos do jardim
Um cravo vermelho e quente
Mais que tudo amando a vida
Em qualquer língua entendida
O mundo tinha o sabor de uma maçã
E os olhos inacabados eram cravos vermelhos
Não havia cárceres nem torturas
Apenas o calor de uma fogueira
Na praça do entusiasmo
E uma jovem mulher dormindo um sono de criança
Nos telhados da revolução
O seu rosto era uma nuvem
Dourada pelo sol e pela lua
Os cabelos trigueiros uma seara
Nos lábios a canção de Abril
Que gloriosa encheu a rua.

 

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por Augusta Clara às 15:38

Quinta-feira, 06.04.17

PEQUENA ODE, EM ANOTAÇÃO QUASE BIOGRÁFICA - Ana Luísa Amaral

agnes noyes goodsir (pntora australia 1864-1939) a

 

(Agnes Noyes Goodsir)

Bom dia, cão e gata,
por essa saudação e de manhã,
o corpo de veludo, a língua suave,
em simultânea tradução:
bom dia

Bom dia, sol, que entraste aqui,
me ofereces este espelho
onde me vejo agora, e tão de frente,
tornaste um pouco clara a folha de papel
e nela: em faixa transparente,
o tempo

Bom dia, coisas todas que brilham na varanda,
folha de japoneira, o nome cintilante,
o som daquele pássaro,
como se o mundo, de repente,
se fizesse mais mundo, e de maneira tal
que nunca mais se visse
escurecente o dia

Bom dia, gente pequenina
que não consigo olhar desta cadeira,
mas que está: formigas e aranhas,
minúsculos insectos
que hão-de morrer, mas aqui nascerão,
todos os dias

Bom dia, minha filha, igual a girassol,
quantas mais vezes te direi bom dia,
olhando o corredor,
tu, já não de baloiço, mas de amor
e pura filigrana,
eu, quase entardecendo

Bom dia, meu sofá,
onde me sento à noite, e devagar,
as flores que ora não são, ora às vezes
povoam esta mesa, a porta em vidro,
iluminada, em mais pura esquadria,
livros e quadros, curtas
fotografias em breve
desalinho

Bom dia, a ti também,
pelo perfume em fio que me trouxeste,
como se encera um chão rugoso de madeira,
os veios de uma planta desejosa de folhas,
ou mesmo as falhas na paz que me ofereceste,
e que desejo tua

Mesmo no tom cruel
que é acordar todos os dias
para um mundo sem sol em tantas mãos,
mesmo nesse desmando e tão violento curso
que é o mundo,
ainda assim, esta pequena anotação
de abrir os olhos e dizer bom dia,
e respirar de fresco o ar de tudo
em tudo –

(in E todavia, Assírio & Alvim, 2015)

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por Augusta Clara às 00:47

Domingo, 26.03.17

Anda no ar um cheiro triste - Adão Cruz

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Adão Cruz  Anda no ar um cheiro triste

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(Adão Cruz)

 

 

Fujo do rio vazio
e sento-me neste banco cinzento que já foi branco
quando havia borboletas brancas e muitas flores
e alegrias e pedaços de sol entre os braços da sombra.
Fujo deste banco escuro do cais do Ouro
onde os corvos marinhos secam as asas ao sol
e a tristeza invade as margens com a maré cheia.
Fujo do rio quando os barcos se enterram no lodo
e a luz é uma neblina densa que invade a alma pelos olhos dentro
e os corvos marinhos fazem voo rasante para outras paragens.
Fujo do rio e vou sentar-me noutras paisagens
neste banco cinzento que já foi branco e de outras cores
onde tudo o que chama por mim é silêncio
e o corpo me dói
e a alma se dissolve na água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho.
Sento-me na pedra fria deste banco que já foi branco
no tempo das flores e das borboletas brancas
em que não havia desertos ao fim da tarde.

Anda no ar um cheiro triste
e por isso deixei que a tarde me falasse
mas tudo o que chamava por mim era silêncio
e era silêncio o cantar da água que ia regar as cinzas
e as carnes moles de um corpo velho.
Não havia desertos entre a folhagem
neste banco pintado de branco
entre os pedaços de sol e os braços da sombra
mas os desertos aí estão
desertos de areias que são sementes de cabeças de criança
sim
as desse tal Herberto
caminhando ao longe
vagarosamente
sobre as areias do deserto.

Anda no ar um cheiro triste
e eu sento-me na margem húmida do rio num barco inventado
ali mesmo ao lado do minititanic
a sobrar de podre e a dobrar o tempo do amor de um velho
na loucura do sonho do cair da tarde
e a noite não tarda
salpicada de borboletas negras de voo pesado
e barcos enterrados no lodo.
Fujo do rio antes que chegue a maré cheia
e a tristeza baixe as asas dos corvos marinhos
e o sol não seja mais que uma densa neblina afogando o rio
e os corvos marinhos chamem por mim em desafio
e tudo o que chame por mim não passe de silêncio.

Anda no ar um cheiro triste
e eu fujo do rio que dá a ideia que vai secar
como os pedaços de sol e os braços da sombra
e vou sentar-me naquele banco cinzento que fora branco.
Fujo do rio e do cais do Ouro
mas o silêncio beliscado pelo fio de água da mina
a regar as cinzas e as carnes moles de um corpo velho
não passa do silêncio de tudo o que pode ser
o desesperado voo rasante dos corvos marinhos
sobre um rio negro deserto e frio que faz tremer.

 

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por Augusta Clara às 15:06

Sábado, 25.03.17

A tempestade - Ian Hamilton

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Ian Hamilton  A tempestade

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(Rebecca Guay, "Love poem"

 

Ao longe rebenta a tempestade. Encrespa o nosso quarto.
Tu olhas para a luz em cima e ela te apanha um lado
Da cara, a tua boca firme, o teu olhar espantado.
Voltas-te para mim e quando chamo vens
Até mim e ajoelhas-te ao lado, querendo que tome
A tua cabeça entre as mãos como se fosse
Uma delicada taça que a tempestade podia quebrar.
Queres que me ponha entre ti e a brutal trovoada.
Mas na tua carne as minhas mãos se agitam,
Pulsam em ti e então, sem saber como, apertam.
A tempestade rola em mim ao abrir-se a tua boca.

(in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte)

 

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por Augusta Clara às 21:19

Quarta-feira, 22.03.17

"Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera" - Eva Cruz

 

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Eva Cruz  "Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera"

 

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 (Imagem de Toshiyui Enoki)

Procuro-te por toda a parte ao longo dos campos a florir de Primavera.

Vestida de menina despida de nada nesta emboscada do sonho perdido.

Voam borboletas brancas prenúncio de vida a partir do nada.

E chegam as primeiras andorinhas e o cantar dos melros.

Procuro-te por toda a parte e lá te encontro em tudo o que nasce.

A árvore vai florir de novo em seiva de cinzas.

A minha vida corre para a tua ausência e uma nova natureza há-de cantar o nosso encontro.

Tive um sonho .

Um sonho lindo!

Novos filhos nascem do nosso amor.

Vestidos de Primavera.

 

Nota: Em homenagem ao Orlando que agora partiu e foi o companheiro de toda a vida da Eva Cruz, uma amiga de ambos escreveu o texto que se segue:

 

(Relembrando com saudade a última vez que estive com o Orlando…)

 

   Murcharam as rosas que a Eva comprou no Dia dos Namorados. Duas. Vermelhas de sangue, de vida, de paixão. A Eva alimentava o Amor com pequenos gestos, momentos de ternura, rituais próprios… Orlando retribuía com um sorriso cúmplice, a tender para o irónico, os olhos babados de admiração e orgulho. Gente feliz!

Fevereiro era frio e o vento entrou, causando estragos. Nas flores e nos corações…

A Eva bem que tentou manter as rosas vivas por mais tempo mas o esforço foi inútil. Em vão as cuidava diariamente, o frio fora implacável. As rosas são efémeras e as pétalas foram caindo uma a uma…efémeras como a vida!

Em casa da Eva haverá sempre duas rosas vermelhas que nenhuma aragem poderá destruir. E que o seu perfume suavize o momento!    

Obrigada, Orlando, por ter adotado como seus os amigos da Eva!

Obrigada pelo convívio, pelas conversas, pelas viagens e pelos bons momentos que partilhámos em conjunto!

Obrigada por ter sido o amante, o companheiro, o cúmplice, o crítico que fizeram da Eva uma mulher feliz!

Será sempre recordado com muita saudade.

Carmina, 15/3/2017

 

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por Augusta Clara às 21:00

Quarta-feira, 22.03.17

Começo a entender - Adão Cruz

janet fitch.jpg

 

(Janet Fitch)

 

(Para a Eva)

 

Começo a entender dentro desta idade esgotada

Que a vida tem sempre uma entrada que vai dar ao nada

E tem sempre uma saída que é sempre partida

Para nova entrada que vai dar ao nada.

Começo a entender nesta idade avançada

Que a ilusão é sempre entrada

Para a saída desencontrada da desilusão.

Começo a entender nesta idade escurecida de emoções

Palmilhada ao lado da fantasia e da loucura

Que o sangue dos sonhos e da esperança

Nunca pintou as caras pálidas das multidões.

Começo a entender no fim de contas desta idade

Que no deve-haver da memória e do segredo

Não há mais entrada para as palavras

Nem qualquer saída  para o medo.

Começo a entender que o roçar da vida

O rumor dos passos

A pedra do moinho a apertar o peito

O sol e a lua das Figueiras

E o saudoso cair da tarde dentro de mim

Nada mais são que restos perdidos do íntimo silêncio

Das esquinas de um tempo que sobrou até ao fim.

 

Adão cruz, 12 de Março de 2017

 

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por Augusta Clara às 00:29

Quarta-feira, 07.12.16

Meu amor, meu amor - Amália Rodrigues

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Amália Rodrigues  Meu amor, meu amor 

(assinalando o dia do nascimento de José Carlos Ary dos Santos)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Quinta-feira, 24.11.16

No Dia Nacional da Cultura Científica, o mesmo em que, no ano de 1906, nasceu Rómulo de Carvalho

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ANTÓNIO GEDEÃO  Poema para Galileo

 

antónio gedeão.jpg

 

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício,
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della
Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Amo às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu;
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar — que disparate, Galileo!
— e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação —
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um
seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas
os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das
estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas — parece-me que estou
a vê-las—,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que
era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem, a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento,
livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Gálileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste
pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de
braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Gálileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens
ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estòicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

(in Poesia Completa (1956-1967), Portugália Editora)

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por Augusta Clara às 18:30



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