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Jardim das Delícias


Sábado, 15.07.17

Um texto de Teresa Pizarro Beleza a propósito das lágrimas da Ministra

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Teresa Pizarro Beleza

frederic leighton, antígona, 1882a.jpg

(Frederic Leight, Antígona, 1882)

 

 

   Há pouco mais de trinta anos, em 1985 se não estou em erro, na viagem à União Europeia - então CEE - para a qual a Comissão convidou 25 Portuguesas e 50 Espanholas, para nos mostrarem a Civilização - umas madames francesas explicaram-nos que o problema das Mulheres na Política era a emoção.

Eu retorqui que, com licença das presentes (eram Advogadas e nos cartões todas usavam «Avocat», não «Avocate», o que se começou a tornar comum algum tempo depois) o problema era que as reuniões partidárias eram em geral bastante «emmerdantes» e as Mulheres tinham mais que fazer.

Esta cena passou-se em Paris. Antes, em Marselha, e depois, em Bruxelas, tivemos de explicar pacientemente que sim, éramos - somos - um País antigo e sim, falávamos Francês e outras línguas.

E sim, tínhamos lido uns livros, frequentado umas Universidades, etc.
(respondiam frequentemente com as suas 'bonnes' e 'concierges' todas óptimas, etc)

Comigo estavam: Maria Isabel Barreno, Teresa Ricou, Helena Roseta, Margarida Carpinteiro, creio que a actual Secretária de Estado Margarida Marques e mais variadas 'Colegas' - tenho de recapitular a lista e recuperar um relato da viagem que publiquei numa revista 'Forum', creio, em espanhol, a pedido de um Senhor da Comissão (?). No Centro Jean Monnet em Lx deve existir mas esqueço-me sempre de lá ir e não sei que fiz ao meu exemplar, sumido há anos no meio dos meus mil papeis.

Pelas reacções patéticas e patetas que tenho visto às lágrimas de Constança Urbano de Sousa, de quem tenho a honra de ser amiga e colega, parece que afinal nada mudou, ou quase, no plano dos preconceitos e 'manias'.

O que é, no mínimo, descoroçoante.

Bem sei que trinta anos em mais de dois mil de juristas, teólogos & al a explicar a nossa «imbecillitas sexus» não é grande coisa, mas como pensar e agir sem referência ao horizonte das nossas pp Vidas?!?

Aqui vai a Antígona, pintada por Lord Leighton, para variar da Cassandra, minha antiga obsessão.
(Não me lembro se Antígona chora quando enterra o irmão, mas é coisa p'ra isso)»

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por Augusta Clara às 14:53

Sexta-feira, 15.05.15

Ontem fui ao São Luiz, ver 'Hécuba', aliás 'Hécuba - Teresa Pizarro Beleza

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Teresa Pizarro Beleza  Ontem fui ao São Luiz, ver 'Hécuba', aliás 'Hécuba

 

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   Ontem fui ao São Luiz, ver 'Hécuba', aliás 'Hécuba. O Sofrimento desmedido', 'a partir de Eurípedes, encenada por Fernanda Lapa. Co-produção 'Escola de Mulheres' e 'São Luiz Teatro Municipal'.
Primeira reacção: por que razão os gregos escreviam coisas tão desesperadamente trágicas? Tudo é sempre 'desmedido', na tragédia grega...
(Também escreviam coisas 'desesperadamente' cómicas, claro).

Na 'folha de sala', Fernanda Lapa escreve sobre este texto / espectáculo como um libelo contra a guerra, dedicando-o a «todas as mulheres que por esse mundo fora vivem, por esse motivo, um Sofrimento Desmedido». E lembra que a violência gera a violência, que a irracionalidade é o produto inevitável da sujeição a situações de privação de todos os direitos: a redução à escravidão dos vencidos é realidade e metáfora perfeita para nos lembrar das tragédias que vão pelo Mundo e a que continuamos razoavelmente indiferentes. As Mulheres Troianas, que tanto fascínio exerceram sobre os dramaturgos gregos, reduzidas à escravidão, despojadas de Filhos, Vida, Poder, Riqueza, Afecto, Dignidade, são hoje o exército de Refugiada/os que se arrasta entre Campos da ONU e caminhos impossíveis, sempre em fuga, sempre em busca da simples dignidade humana que lhes é negada.

Sim, eu li umas coisas (Maria Helena da Rocha Pereira, por exemplo), incluindo várias peças - recordo algumas traduções excelentes da FL da Universidade de Coimbra - e vi várias em cena, sobretudo em Inglaterra, quando lá vivia. Sempre 'coisas' como a 'Oresteia' me deixaram a pensar se, ao contemplá-las, concluiríamos que a nossa Vida não é assim tão desgraçada (?!?).
Mas vendo bem, a Vida de muita gente na Terra é mesmo assim. Mas será que as pessoas se apercebem disto mesmo, isto é, do 'realismo' destas brutais recriações da crueldade e da irracionalidade humanas?

Também (segunda reacção) sempre penso como os actores / actrizes conseguem aguentar várias noites seguidas aquele imenso esforço físico e 'moral'. Impossível não ficar exausta, depois. Será catártico? Não sei, só fiz teatro em pequenita, ou talvez adolescente, quando reunia à minha volta a pequenada em Miramar, nas férias, arranjava uma cortina de palco e inventava histórias que depois representávamos. Não tenho esta experiência de enorme esforço, a única coisa vagamente semelhante é dar aulas ou fazer conferências que implicam às vezes um cansaço grande, mas não comparável.

Terceira reacção: a encenação de Fernanda Lapa é notável. Sóbria e brilhante ao mesmo tempo, com soluções muito bem pensadas para o coro e para os protagonistas. Nada fácil, imagino, encenar uma coisa destas (o texto é 'a partir de Eurípedes', e não a peça na sua totalidade original mas, pelo que me pude aperceber, os 'desvios' não são muito significativos - explicação, também, na 'folha de sala'). Um conjunto de actores e actrizes também notável - sobretudo porque, ao contrário de Inglaterra (bem sei, é uma comparação impossível) não temos em Portugal escola e tradição de teatro clássico a sério. Coreografia rica e muito sugestiva. Vozes ritmadas, bem alinhadas, afinadas. Boa dicção, em geral. Luzes, cores (cenário, adereços, figurinos) e marcações excelentes.
Pena maior: menos gente no Teatro do que esta produção merece.

Em suma: VÃO VER, NÃO PERCAM ESTA BELEZA DE ESPECTÁCULO, mesmo se a seguir tiverem de recuperar do 'susto'. Eu recuperei, confesso, comendo um belo 'prego especial' junto à 'roulotte' da minha Amiga B. junto ao Jardim Zoológico, onde às vezes paro quando me dá a fome a desoras.

E ao chegar a casa pus-me a ler o mais engraçado escritor que descobri, pela mão de Adriana, nos últimos tempos: o Finlandês Arto Paasilina, uma incrível 'personagem' que é capaz de nos fazer rir com os mais improváveis assuntos e temas, mas sempre com uma inteligência e percepção agudas sobre a natureza humana e as suas falhas (o seu ridículo) que, afinal tão improvavelmente, o aproximam da tragédia clássica.

Bom para 'recuperar' de Eurípedes.

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 05.12.14

Teresa Pizarro Beleza fala da relação entre democracia e o respeito pelo traje

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 Democaracia e direito ao traje, por Teresa Pizarro Beleza

 

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   Cada vez mais me convenço de que a mais evidente medida (sinal, talvez) de democracia e liberdade numa sociedade é a tolerância e o respeito relativos ao traje (dos outros e das outras). Todas as sociedades totalitárias são obsessivas neste campo, da China maoísta [sinal dos tempos: o software não reconhece esta palavra... ] à República Islâmica do Irão, passando pela RDA - onde uma vez, chegada de viagem e esbaforida, entrei num teatro de ópera em Leipzig informalmente vestida; olharam-me como se fora Belzebu; mas não me impediram de entrar, ao contrário do que me lembro de acontecer em S. Carlos há muitos anos com um Amigo meu - já falecido, infelizmente - que ia de casaco mas com gola alta, etc. Na verdade o 'direito' a agredir uma mulher ou a molestá-la sexualmente porque tem a saia curta, ou o vestido justo, ou o que seja tem a mesmíssima raiz: a sujeição das Mulheres, como diria o meu Amigo John Stuart Mill. As mulheres não são sujeito, mas estão sujeitas ao que os homens pensam ou querem ou acham delas, ie, são objecto. De propriedade, de cobiça, de olhares e ditos e gestos não queridos nem solicitados. Nos países do género do nosso (ditos 'ocidentais'), as mulheres querem-se atraentes e até provocantes, mas sem nunca ultrapassar a barreira invisível, ténue e traiçoeira entre senhora e prostituta. Atraente, HOT, como agora se diz (ai as americanices televisivas...) mas não demasiado «oferecida», senão o tribunal dirá que estava a pedi-las. E com fair play para achar que os «piropos» são tão giros e agradáveis. Etc. É uma canseira.

beleza3.jpg

 

(E na verdade as mulheres prestam-se a cada coisa, em nome da moda e da suposta beleza, ie, da capacidade de atracção, de ser «hot», «sexy», para se auto-identificarem como valiosas aos olhos dos homens? E talvez para atrair um macho que as sustente, ainda? Será atavismo, ou ainda outra forma de perpetuar desigualdades e submissão?)

(A foto dos sapatos vermelhas fica truncada; o salto deve ter pr'aí 20 cm e o conforto será equivalente a sapatos 'de pontas' - de bailado)

Nota de edição: A foto aqui não está truncada, aparece por inteiro.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Domingo, 09.11.14

Nos 25 Anos da Queda do Muro - Teresa Pizarro Beleza

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Teresa Pizarro Beleza  Nos 25 Anos da Queda do Muro

 

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   Lembro-me muito bem da minha (excelente) professora de alemão no Liceu Maria Amália, que nos ensinava a dizer «Eine Mauer trennt das deutsche Volk». Conheci pessoalmente o Muro e a terra de ninguém que o rodeava, onde vi coelhos à solta, nos anos 80. Espantei-me com o rigor maníaco dos guardas no aeroporto de Berlim (Oriental) e com os episódios de autoritarismo verdadeiramente prussiano que presenciei ou em que estive envolvida em várias cidades da RDA. Tudo misturado com Teatro e Música e Ópera de altíssima qualidade, mas também com poluição horrenda nos rios à vista desarmada. Um país estranhíssimo. Passar de Berlim Leste para Oeste e vice versa, o que fiz várias vezes, era uma coisa muito esquisita, por todas as implicações políticas e históricas do que eu vi - e que conhecia razoavelmente. Um amigo meu estava na Humboldt a doutorar-se e eu pude acompanhá-lo. Mas até uma 'Geldbusse' (em português, 'coima') paguei por não ter ido à Policia carimbar o passaporte em 24h, uma das vezes que estive em Leipzig. O 'controleiro' do prédio tb ralhou com o meu amigo, porque não registara a minha presença a tempo... e lembro-me do desprezo com que a mesma ou semelhante entidade falava connosco, que claramente considerava inferiores aos germânicos; fez-me lembrar qualquer coisa da História Alemã mais recente... só vos digo que o 'socialismo real' combinado com a tradição prussiana era de susto. Apesar de alguma segurança estagnada de que as pessoas - sobretudo se já de mais idade, mas não só - sentiram depois da reunificação, dita de «takeover» por críticos como Christa Wolf (1929 - 2011). Às vezes penso que a Frau Merkl treinou o seu desprezo pelos preguiçosos do Sul nesses tempos, de que ela vem. O que pensará ela do nosso Primeiro, tão atento, obsequioso e obrigado?
Terrível é também que, além de todas as outras divisões menos visíveis, ainda subsistam muros reais, alguns bem mais recentes: Israel, Chipre... e o 'Muro' que o Mediterrâneo simboliza e incorpora, jazida de milhares e milhares de deserdados que procuram o El Dorado da Europa. E que «nós, os Europeus» ajudámos a manter explorados e «atrasados», numa economia desigual que cavou e cava a separação entre a Humanidade que morre à fome e a Humanidade que morre de excesso de comida.
Que Mundo!
 

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sábado, 18.05.13

Como é estranho e curioso que em Portugal ... - Teresa Pizzarro Beleza


 

Teresa Pizzarro Beleza a propósito da adopção por casais do mesmo sexo

 




Como é estranho e curioso que em Portugal haja avanços extraordinários e até certo ponto inesperados em algumas áreas de direitos humanos (possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo, hoje aprovada na AR, depois da aprovação da possibilidade de casamento há três anos) e recuos igualmente extraordinários, num sentido inverso, na área dos direitos sociais constitucionalmente consagrados (educação, saúde, segurança social…). Nenhuma destas coisas pareceria provável ou sequer verosímil há escassos dez anos. É assim como uma espécie de trade-off entre a desesperança e o encantamento da compreensão das variações humanas, de caminho errático entre a exclusão dos mais vulneráveis (pobres, velhos, doentes) e o acolhimento de alguns que estavam social e juridicamente diminuídos pela sua ostracização (crianças de casais de homens ou mulheres, além de estes mesmos, é claro). Estranho, estranho mundo, estranho país. Seja como for: a Assembleia da República, melhor a REPÚBLICA portuguesa está de parabéns. Nem a Senhora de Fátima conseguiu opor-se a este incrível avanço civilizacional que constituiu a votação de hoje. Podia dar um jeito no resto, mas desconfio que termos de ser nós, humanos pedestres, a tratar de segurar a Constituição da República – também ensinando-a nas escolas. Quase tenho vontade de propor que se faça renascer a velha disciplina de ‘Organização Política e Administrativa da Nação’… cujo programa seria, agora, 'simplesmente' o estudo da Constituição. Os seus princípios mais sagrados: dignidade, liberdade, solidariedade, igualdade, democracia… não deve ser coisa complicada ensinar isto às criancinhas, mesmo antes de as apanharmos numa licenciatura em Direito :)

 

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 03.04.13

No aniversário da Constituição da República Portuguesa diz-nos a Prof. Teresa Pizarro Beleza


 

Que a Constituição tem que ser respeitada, aplicada e defendida por todos não será uma simples evidência? pergunta a Professora Teresa Beleza

 


   É extraordinário como a simples lembrança do texto de alguns artigos da Constituição da República sugere, nos dias de hoje, uma generosa e  longínqua Utopia. Como se fosse um Manifesto de uma vanguarda histórica revolucionária e não uma lei votada da forma mais democrática, participada e livre possível, pela instância competente, órgão legislativo e constituinte por excelência, a Assembleia da Rep...ública. E no entanto essa mesma Constituição é Direito vigente, no mais pleno sentido da expressão, a mais básica de todas as leis, face à qual todas as outras se medem e vêem a sua validade confirmada ou infirmada... e como tal tem de ser respeitada, aplicada e defendida por todos, começando pelas Magistraturas. O TC, o STJ, TODOS os tribunais. Pelos (outros) órgãos de soberania. Pelas instituições e pelas pessoas que nelas servem. Pelas forças de segurança. Pelos cidadãos e cidadãs. É a identidade de Portugal que está em jogo, a sua soberania e o seu futuro - ou seja, a de todos nós. Não será isto uma simples evidência?!?

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 19.02.13

A "diferença" abordada por Teresa Pizarro Beleza

 
A "diferença" abordada por Teresa Pizarro Beleza
 
 
9 de Fevereiro de 2013
 
   Escreve-me um Amigo:
" … Ontem na farmácia ouvi uma senhora de cerca de setenta anos queixar-se. Não percebi o início da conversa mas ela queixava-se: ‘agora querem (julgo que no Centro de Saúde) que a minha mãe, que tem 89 anos e é analfabeta, tenha correio electrónico e ligação à internet. Ora eu não sei o que é isso, quanto mais a minha mãe’. Ignoro em que contexto e a que respeitava a queixa.... Mas há muitas formas de matar as pessoas. "

TPB: A queixa desta Senhora é coisa muito séria, pouco audível mas certamente muito comum; e o problema começa muito “atrás”, ou muito “antes”: atravessar a Avª da República (Lx) é uma aventura para quem tenha uma mobilidade minimamente diminuída; usar uma caixa de Multibanco com os anúncios que confundem ainda mais o utilizador é coisa complicada para quem só começou a lidar com essas coisas depois dos 40 ou 50 anos. Um “simples” telemóvel ou um computador são coisas cuja utilização é tudo menos óbvia para quem lá chega depois da idade madura. Etc. Mas a nossa sociedade cada vez mais funciona como se todos tivessem a mesma facilidade de acesso (tb económica, mas agora falo de acesso ‘geracional’) a tudo.

Cada vez mais o mundo - e o nosso País em especial - está feito para jovens, able-bodied, excluindo os mais velhos ou os que sofrem de qq problema de mobilidade, entendimento, rapidez ou o que seja. A própria obsessão com a juventude e a beleza (certos tipos de beleza) reforça essa exclusão progressiva da velhice, da doença, de qq espécie de 'diminuição de capacidades', do que frequentemente é descrito – quantas vezes problematicamente – como 'diferença'.

A sabedoria e a experiência da velhice são profundamente desprezadas nas nossas sociedades contemporâneas. Paradoxalmente, os talentos jovens por vezes são ultrapassados pelos 'velhos do costume', porque são os do Clube dos Amigos; isto inverte-se outras vezes com as juventudes partidárias, que muitas vezes são 'coisas' sinistras, por muito que os Partidos sejam essenciais à Democracia, na nossa contemporaneidade – mas não necessariamente o sistema político-partidário como ele existe no nosso quadro juridico-constitucional (Círculos eleitorais, por ex).

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por Augusta Clara às 12:00

Quinta-feira, 07.02.13

Acabo de ouvir ... - Teresa Pizarro Beleza

 
   Teresa Pizarro Beleza  "Que Mundo estuporado"
 
   Acabo de ouvir o David Cameron a pedir desculpas à Nação pela negligência assassina nos Hospitais britânicos. Resultado de uma política cega, sem compaixão (disse ele), na sequência das 'revoluções' da Mrs Thatcher - digo eu, que assisti a muito da dita Senhora. Velhos abandonados sem cuidados, sem medicação, sem líquidos, sem compaixão. Deixados morrer nas camas dos hospitais, provavelmente sós e... abandonados, sem qualquer atenção ou cuidado, sem qualquer gesto de humanidade, simplesmente.
 
São estas coisas que deveríamos discutir e ponderar, me thinks. A diferença entre racionalização e contenção de custos e a indiferença cruel e assassina para com os mais vulneráveis.
 
Eu preferiria "to shape compassionate minds" às "powerful minds" que a Nova SBE escolheu para o seu motto. Será assim tão difícil para as pessoas que estão em fase de plena força de vida imaginarem-se no lugar dos outros? Ao menos pensarem que podem ser eles, um dia? É com este argumento que costumo sarrazinar a cabeça do Vasco G. Moura quando ele se põe a reclamar a pena de morte, o que num Poeta me faz a maior confusão; mas o suplício do Damiens que abre o 'Surveiller et Punir' do M. Foucault é contemporâneo da Música de Bach; o suplício dos Távoras é coevo de grandes delicadezas arquitectónicas e outras... e sobretudo da espantosa racionalidade 'antes-do-tempo' da Baixa Pombalina; vá-se lá perceber a Humanidade.
 
Bem, sabemos que todos os dias morre gente à fome, todos os dias há prisioneiros torturados, todos os dias há mulheres violadas e agredidas, todos os dias crianças e velhos maltratados e vamos vivendo as nossas vidinhas...
 
Que Mundo estuporado, excuse my French. Como não me há-de subir a TA???

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por Augusta Clara às 12:00

Quarta-feira, 06.02.13

Carta a minha mãe sobre o SNS e outras coisas em Portugal - Teresa Pizarro Beleza

 

Teresa Pizarro Beleza  Carta a minha mãe sobre o SNS e outras coisas em Portugal

 

 

 

Publicada no jornal Público no dia 10 de Janeiro de 2013

 

   Aqui vai o meu texto para ela:

"Mãe, sabes que agora em Portugal mandam uns senhores que estão a dar cabo do Serviço Nacional de Saúde? E que dizem que é por causa de uma tal de troika, que agora manda neles? Lembras-te da "Lei Arnaut", que, segundo ele mesmo diz, tu redigiste, depois de muito pensares e estudares sobre o assunto, com a seriedade e o empenho que punhas em tudo o que fazias?

Lembras-te das nossas conversas sobre a necessidade de toda a gente em Portugal ter acesso a cuidados de saúde básicos de boa qualidade e de como essa possibilidade fizera em poucos anos baixar drasticamente a mortalidade materna e infantil, flagelos nacionais antigos, como uma das coisas boas que se tornaram realidade depois de 1974 e com a restauração da democracia?

Lembras-te de quando eu te dizia que eras tão mais socialista do que "eles",os do Partido Socialista, e tu te zangavas porque não era essa a tua imagem e a tua crença? E quando eu te dizia que o ministro António Arnaut era maçon e tu não acreditavas, porque ele era (e é) um homem bom - e para ti a Maçonaria era a encarnação do Diabo...

Mãe, tu, que te dizias e julgavas convictamente monárquica, católica, miguelista, jurista cartesiana (isso era o que eu te dizia e que penso que eras, também), que conhecias a Bíblia e Teilhard de Chardin como ninguém e me ensinaste que Deus criara o homem e a mulher à Sua imagem, quando pronunciou o fiat, porque assim se diz no Génesis...

Tu que dizias que o problema dos economistas era que não tinham aprendido latim... e me tiravas as dúvidas de português e outras coisas, quando me não mandavas ir ao dicionário, como agora eu mando o meu Filho...

Tu que foste o meu "Google", às vezes renitente, quando este ainda não existia... Sabes que agora manda em Portugal gente ignorante e pacóvia, que nem se lembra já de como se vivia na pobreza e na doença, que julga que o Estado se deve retirar de tudo, incluindo da Saúde, e confunde a absoluta e premente necessidade de controlar e conter o imenso desperdício com a ideia de fechar portas, urgências claramente úteis social e geograficamente...

Sabes que fecharam o Serviço de Urgência e o excelente Serviço de Cardiologia do Hospital Curry Cabral sem sequer prevenirem ou consultarem o seu chefe? Onde irão agora todas aquelas pessoas tão claramente pobres, vulneráveis e humildes que tantas vezes lá encontrei e que não pareciam capazes de aprenderem outro caminho, outro destino, de encontrarem outros dedicados e pacientes "ouvidores"?

Sabes que um ministro qualquer disse que o edifício da Maternidade Alfredo da Costa não tinha qualquer interesse urbanístico ou arquitectónico, para além de condenar ao abate essa unidade de saúde, com limitações já evidentes, mas que tão importante foi para tanta gente humilde ter os seus filhos em segurança? Será mesmo que não a poderiam "refundar",como agora se diz? Ou quererão construir um condomínio fechado, luxuoso e kitsch, no meio de uma das minhas, das nossas cidades?

Lembras-te de me ires buscar à MAC quando nasceu o meu Filho e de como te contei da imensa dedicação do pessoal médico e de enfermagem e da clara sobre-representação de parturientes de origem social modesta, imigrantes, ciganas, ou simplesmente pobres?

Sabes que há muita gente que pensa que a iniciativa privada, incontrolada e à solta, é que vai salvar Portugal da bancarrota, e que ignora o sentido das palavras solidariedade, justiça, igualdade, compaixão?

Sabes, Mãe, eu lembro-me de ver pessoas que partiram de Portugal para o mundo em busca de trabalho e rendimento a viver em "casas" feitas de bocados de camioneta, de restos de madeira, de cartão e outros improváveis e etéreos materiais, emigrantes portugueses que foram parar ao bidonville em St Denis, nos arredores de Paris, num Inverno em que a temperatura desceu a 20 graus Celsius abaixo de zero (1970).

Nas "paredes", havia toda a sorte de inscrições contra a guerra colonial e contra o regime que então reinava em Portugal.

O padre Zé, o nosso amigo da Mission Catholique Portugaise que me acompanhava e me quis mostrar o bairro, proibiu-me de falar português e de sair do carro enquanto ali passávamos... e aqui em Portugal eu vi tanta miséria envergonhada, homens de chapéu na mão a pedir emprego, mulheres ecrianças a pedir esmola, apesar de todas as leis e medidas que o Estado Novo produziu para as esconder, como já fizera a Primeira República.

A pobreza e a vadiagem não se eliminam com Mitras e medidas de segurança, mas com produção e distribuição de riqueza e de justiça social. Com a promoção da igualdade e da solidariedade, como manda a Constituição.

E a Saúde, Mãe, que vão fazer dela? Da saúde dos pobres, dos velhos, das crianças, dos que não têm nem podem ter seguros de saúde de luxo, porque não têm dinheiro, porque já não têm idade, ou porque não têm saúde?

E as crianças, Mãe? Vão de novo morrer antes do tempo porque o parto foi solitário ou mal assistido, porque a saúde materno-infantil passou a ser de novo um bem reservado a alguns privilegiados, ou porque a "selecção natural" voltará a equilibrar a demografia em Portugal, recolhidas as mulheres a suas casas, desempregadas e de novo domesticadas, e perdida de novo a possibilidade de controlo sobre a sua própria fertilidade?

O planeamento familiar, que tu tão bem explicaste que deveria segundo a lei seguir a autonomia que o Código Civil reconhece na capacidade natural dos adolescentes - tu, católica, jurista, supostamente conservadora (assim te pensavas, às vezes?)...

Sabes que aqui há tempos ouvi uma jurista ignorante dizer em público que só aos 18 anos os jovens poderiam ir sozinhos a uma consulta de planeamento familiar, quando atingissem a maioridade, sem autorização de pai ou mãe?

Ai, minha Mãe, como a ignorância é perigosa... Será que nos espera um qualquer Ceausescu ou equivalente, dado o progressivo estrangulamento político e social a que a necessidade económica e a cegueira política nos estão levando?

Os traços fascizantes que são visíveis na repressão da liberdade de expressão e de manifestação, em tudo tão contrários à Constituição da República, serão só impressão de uns "maníacos de esquerda", como dizem umas pessoas que há tão pouco tempo garantiam que essa coisa de esquerda e direita era coisa do passado?

Mas as crianças são o futuro, Mãe, que será deste país sem elas, sem a sua saúde e sem a sua educação, sem o seu bem-estar, sem a sua alegria?

Eu lembro-me tão bem dos miúdos descalços e ranhosos nas ruas da minha infância... e da luta legal, tão recente ainda, quem sabe se perdida, contra o trabalho clandestino, ilegal e infame das crianças a coserem sapatos em casa, a faltarem à escola, a ajudarem as famílias, ainda há tão pouco tempo, ou dos miuditos com carregos e encargos maiores que eles, à semelhança das mulheres da carqueja a subirem aquela rampa infame que Helder Pacheco, o poeta-guia do nosso Porto, tão bem descreve...

"Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor,porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!..."

Mãe, se agora cá voltasses, ao mundo dos vivos, acho que terias uma desilusão terrível.

Melhor que não vejas o que estão fazendo do nosso pobre país.

Da tua Filha, com muita saudade,

Maria Teresa"

Ericeira, Portugal, Europa, dia 31 de Dezembro de 2012

* Professora de Direito Penal, directora da Faculdade de Direito da
Universidade Nova de Lisboa. tpb@fd.unl.p

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por Augusta Clara às 09:00



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