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Jardim das Delícias


Sábado, 22.07.17

Actualidade de Treblinka - José Goulão

 

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O poderoso e sufocante documentário inspirado no campo de extermínio de Treblinka que Sérgio Tréfaut acaba de nos oferecer, e que entra directamente no lote restrito de produções capazes de nos reconciliarem com a arte do cinema, tem como maior virtude a sua temível actualidade.

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«Andriy Parubiy, chefe das SS ucranianas de hoje, um favorito da NATO e da União Europeia, presidente do Parlamento de Kiev e identificado mentor do massacre de Odessa em 2014»Créditos / news.liga.net

 

   Tudo no filme atinge o espectador – a interminável viagem de comboio, os fantasmas que nele viajam, a incarnação da vida e da morte proporcionada pela figura lancinante de Isabel Ruth, as cores sem cor, as paisagens esbatidas e sem tempo olhadas por olhos que já não vêem, acompanhadas por palavras assombradas de quem sobreviveu depois de sentir-se morto – mas o grito mais alarmante que brota da tela é a actualidade do que é exposto aos nossos sentidos.

Ironicamente isso acontece através da evocação do campo de extermínio que os carrascos nazis se esforçaram por apagar até ao derradeiro vestígio, para nos convenceram de que nunca existiu. Dando-se ao trabalho de desenterrar centenas de milhares de cadáveres gaseados para os incinerar em grelhas gigantescas.

Haverá quem diga: isso foram outros tempos, já lá vão mais de setenta anos e foi obra de dementes inspirados por um louco.

Por isso o maior dos méritos do admirável trabalho de Sérgio Tréfaut é dizer-nos que não, aquilo não foi um fenómeno de época, a mente do ser vivo que foi capaz de tais degenerações anda por aí e basta-nos não levarmos a nossa vida ao compasso da informação de pechisbeque para descortinarmos as suas emanações, mesmo após cuidadosa aplicação do filtro dos paralelismos abusivos.

O documentário Treblinka é actual porque a realidade do início dos anos quarenta do século passado chega até hoje pela voz de quem sobreviveu à hecatombe. É uma actualidade factual, indesmentível, se bem que haja quem continue ocupado em garantir, até «cientificamente», que aquilo não aconteceu, foram exageros e vinganças dos vencedores.

Percebe-se, por isso, que as mentes perversas capazes de aceitar o extermínio em massa de milhões de seres humanos continuam activas, de modo algum satisfeitas com as tarefas de «limpeza» e «purificação» então executadas.

Os fenómenos expostos deste modo directo, porém, são mais identificáveis, portanto mais controláveis.

Eles são parte do perigo, ainda que não sejam a componente mais letal, sabendo-se que vivemos numa fase de perfídia, insídias e enganos. Os germes da verdadeira ameaça, temível e sempre latente, flutuam nas imagens e palavras de Treblinka e são um convite para que nos internemos mais nessa actualidade.

Aquela interminável viagem de um comboio da morte é uma metáfora da relação do ser humano com o poder, de como a fragilização dos mecanismos democráticos para controlo das actividades de governação e comando vai escancarando a porta dos desmandos.

Os nossos tempos são de democracias dia-a-dia mais frágeis, a que correspondem evidências de poderes cada vez mais absolutos e arbitrários. Ao compasso desta involução humanista vão florescendo manifestações de insensibilidade, de discricionariedade, de arrogância, enfim, de despotismo – e cada vez menos envernizado.

Há crueldade quando um presidente envia drones do seu gabinete para executar um «terrorista» a cinco mil quilómetros de distância, sabendo que a «operação» pode matar a família e dezenas de outras pessoas em redor, vítimas que passam de pessoas inocentes a «danos colaterais» num simples passe de estatística.

«Há crueldade quando um presidente envia drones do seu gabinete para executar um "terrorista" a cinco mil quilómetros de distância, sabendo que a "operação" pode matar a família e dezenas de outras pessoas em redor»

Há despotismo quando se arrasa um país, incluindo escolas e hospitais com meninas e meninos dentro, entregando-o depois a milícias selváticas, para se esquartejar um alegado ditador com o qual se mantiveram negócios e que, de um momento para o outro, é recomendável silenciar.

Há uma degeneração dramática da condição humana quando se tratam como párias, escravos, seres infra-humanos ou simples escória os milhões de vítimas humanas que pedem desesperadamente para sobreviver junto daqueles que são verdadeiramente responsáveis pelo seu martírio.

Há uma insensibilidade comprometedora quando se deixa a casta dos donos do dinheiro à solta para disporem da vida da maioria dos cidadãos, aos quais, paulatinamente, se vão retirando os direitos para se defenderem.

Existe uma arrogância despótica quando se encontra unicamente na imposição da austeridade aos mais desprotegidos a pretensa solução para as chamadas crises da sociedade, as quais, na maioria dos casos, não têm outras raízes que não sejam os obstáculos à acumulação interminável de lucros por elites desumanizadas.

E que interpretação se poderá dar ao comportamento de dirigentes e de um Estado capazes de sujeitar aos requintes de uma violência, que se dirá de uma crueldade cientificamente apurada, mais de um milhão de seres humanos submetidos ao universo concentracionário de Gaza, ou centenas de milhares de pessoas confrontadas com a impenetrabilidade de um muro que divide famílias, comunidades, recursos?

Assim se demonstrando que a actualidade de Treblinka nos deixa perante a evidência de que o Estado de Israel e os seus protectores universais não têm autoridade moral nem legitimidade humanista para invocarem e se apropriarem do Holocausto de judeus e não-judeus.

Neste magma de comportamentos enunciados não é difícil encontrar as sementes que, num caldo de cultura adequado – longe de esquecido – germinem em comportamentos susceptíveis de descambar em situações que Treblinka avisadamente recorda.

Não fiquemos, porém, pelas metáforas; as quais, mesmo sendo-o, vão aflorando em comportamentos assumidos ou insidiosos mais do que suficientes para nos deixar alerta.

«Há que registar obrigatoriamente, para memória presente e futura, que os herdeiros dos esbirros de Treblinka estão vivos, actuantes, e nas mesmas regiões.»

Há que registar obrigatoriamente, para memória presente e futura, que os herdeiros dos esbirros de Treblinka estão vivos, actuantes, e nas mesmas regiões. Bastariam as evocações dos comportamentos de dirigentes como os que desempenham actualmente funções na Polónia pré-fascista, na Hungria, na Eslováquia, na Croácia, nos Estados do Báltico que o neoliberalismo «libertou» ressuscitando forças que, não apenas saudosas de Hitler, tentam fazê-lo reviver. Mas tal não esgota a realidade.

Existe o case study da Ucrânia: nunca será excessivo recordá-lo porque continua a ser escandalosa e significativamente mistificado.

Muitos dos guardas que colaboraram com a guarnição alemã do campo de extermínio de Treblinka eram milicianos ucranianos inseridos na SS hitlerianas, como voluntários ou como membros do exército «livre» da Ucrânia. Entre eles, membros do Batalhão Galícia, que ficou para a História negra da guerra associado ao nome do seu líder e mentor, Stepan Bandera.

Pois bem, Bandera é herói nacional oficial da «nova» Ucrânia, «democratizada» com o envolvimento da União Europeia e os préstimos insubstituídeis da NATO. Ainda hoje, em tempo real, hordas nazis da nova Guarda Nacional ucraniana, corpo treinado por militares das forças armadas dos Estados Unidos, estão a participar nos exercícios da NATO no Mar Negro e que simulam «apropriação de território», quiçá uma formulação julgada menos comprometedora do que a tese hitleriana de «espaço vital».

Andriy Parubiy, comandante das milícias de assalto nazis envolvidas na chamada «revolução democrática» da Praça Maidan, um seguidor actual de Stepan Bandera que foi presidente do Conselho Nacional de Defesa e Segurança e hoje é presidente do Parlamento, depois de ter contribuído para a ilegalização de partidos como o Comunista, age como um interlocutor privilegiado nos areópagos que proclamam a democracia e os direitos humanos.

São habituais os seus briefings com os comandantes da NATO, tendo em conta os seus laços operacionais com os batalhões neonazis, que são determinantes nas actuais forças armadas ucranianas; numa visita recente a Itália, Parubiy escutou a presidente do Parlamento, Laura Boldrini, do Partido Democrático, dizer que deseja o reforço da cooperação parlamentar com a Ucrânia, «tanto no plano político como administrativo».

A actualidade de Treblinka é gritante. Ao fim e ao cabo, um «democrata» como Andriy Parubiy, chefe das SS ucranianas de hoje, um favorito da NATO e da União Europeia, presidente do Parlamento de Kiev e identificado mentor do massacre de Odessa em 2014, poderia ter sido um dos esbirros que mandava abrir as torneiras de monóxido de carbono sobre milhares e milhares e milhares de homens, mulheres e crianças cuja única culpa era existirem.

Bastava-lhe estar na força da vida em 1942 – em vez de em 2016.

 

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por Augusta Clara às 20:45

Sexta-feira, 27.01.17

O polimento da tragédia Obama - José Goulão

 

 

   Recordemos palavras de Barack Obama no seu último discurso sobre o Estado da União: «A América é a nação mais forte da Terra. As nossas despesas militares são superiores às despesas conjuntas das oito nações que nos seguem. As nossas tropas formam a melhor força combatente da história do mundo».

 
Poderia chamar-lhe o discurso do imperador, mas não façamos disso um cavalo de batalha quando há tanta gente empenhada em descobrir um Obama que não existiu, como forma de esconjurar os legítimos receios com a entrada na Casa Branca de um sujeito como Trump.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obama não é melhor presidente do que alguma vez foi porque Donald Trump escancarou as portas da mansão presidencial como as de um saloon, semeou dourados pela decoração e pôs as botifarras em cima da mesa oval para assinar a sentença de morte do «Obamacare» e ditar que, para ele, o comércio livre é outra coisa.

Poucos dias antes de pronunciar as citadas palavras imperiais, o então ainda presidente Obama anunciara que o mais recente pacote de despesas militares inclui novos poderes para as 17 agências federais de espionagem, de modo a «contrariar a desinformação e propaganda», alegadamente fomentadas por outras potências; desse esforço, 17 mil milhões de dólares são dedicados à cibersegurança, isto é, à espionagem informática universal – as lendas sobre o papel da Rússia na eleição de Trump serviram assim de pretexto mais actual, como fato feito por medida.

Expansão militar universal, mentira e propaganda foram, portanto, as derradeiras mensagens deixadas pelo presidente Obama, o que torna ainda mais surpreendente o escândalo de tantas boas almas mainstream com a capacidade de Trump para entrar em funções logo a mentir descaradamente. Não descobriram ainda que a mentira é um comportamento inerente ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América (e de outros, claro)? Um mentiroso pode ser mais ou menos boçal, mas não deixa de mentir.

«É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.»

Por isso, antes de nos dedicarmos a Donald Trump – infelizmente razões não faltarão nos tempos que aí vêm – passemos uma sintética vista de olhos sobre o testamento político de Obama, esse sui generis Nobel da Paz, quanto mais não seja como antídoto perante a campanha de mistificação e de polimento dos seus catastróficos mandatos.

É sintomático que venha imediatamente à superfície uma única realização quando pretendem passar-se em revista as supostas preocupações «sociais» da gestão Obama/Hillary Clinton/John Kerry: «Obamacare». Além de não ser, no final, nada daquilo que esteve para ser no início, a suposta reforma do sistema de saúde em benefício dos mais desfavorecidos foi, essencialmente, um bónus para as companhias seguradoras e para o totalitário sistema privado de saúde à custa dos contribuintes – incluindo os mais desfavorecidos – e dos cofres públicos federais.

É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.

Às guerras do Afeganistão e do Iraque – com que não acabou, antes alimentou – somam-se a destruição terrorista da Líbia, a catástrofe humanitária gerada na Síria, a tragédia no Iémen, os golpes e contragolpes no Egipto, as fraudes da suposta guerra contra o terrorismo, incluindo comprovados patrocínios da actividade de grupos de mercenários como a al-Qaida e o Daesh, a realização do golpe fascista na Ucrânia e da sequente guerra civil, o estabelecimento do recorde de execuções extra judiciais através de drones e outros métodos de liquidação.

Sem esquecer o constante apoio à transformação de Israel num Estado confessional e fascista que tornou de facto impraticável a tão falada «solução de dois Estados» na Palestina; ou a manutenção da vergonha torcionária de Guantánamo, enquanto dava passos em direcção a um aparente fim do bloqueio a Cuba – que, afinal, se mantém inquebrável.

A tão recente e celebrada abstenção norte-americana permitindo ao Conselho de Segurança da ONU aprovar uma moção condenando o colonialismo israelita não passa de uma manobra cínica e hipócrita. Se Obama tivesse tomado a mesma atitude há oito anos, talvez ainda houvesse margem de pressão internacional susceptível de forçar o fascismo sionista a corrigir o rumo. Mas Barack Obama, quando teve poder real, alinhou sempre, em última análise, no jogo anexionista de Israel; agora, conhecendo o que vai ser a prática de Trump nessa matéria, o gesto é inconsequente, apenas destinado a entrar na História sem fazer História.

Sob a gestão de Barack Obama, o número de países onde as forças especiais dos Estados Unidos fazem guerra passou de 75 para 135. Há meia dúzia de dias, tanques de última geração, mísseis de cruzeiro de longo alcance preparados para transportar ogivas nucleares e uns milhares de soldados norte-americanos foram instalados em nova base militar na Polónia.

A produção e o tráfico de heroína atingiram novos máximos nos últimos anos, graças às condições extremamente favoráveis criadas no Afeganistão e no Kosovo, territórios onde se vive sob a bandeira tutelar da NATO.

E o insuspeito The New York Times revelou que grupos como a al-Qaida e o Daesh foram financiados em milhares de milhões de dólares pelas petroditaduras do Golfo, fortunas essas canalizadas através de uma rede internacional gerida pela CIA.

Expansão, mentira e terror são pilares de qualquer doutrina económica e financeira fascista; pilares esses em que a administração Obama se apoiou sem reservas. Por isso, é injusto acusar Donald Trump de a eles recorrer como se fossem coisas inerentes a um tipo de gestão pessoal e exclusivo.

Democrata ou republicano, neoliberal ou ultranacionalista, deixemos os rótulos de lado. À primeira vista estamos perante duas abordagens diferentes da gestão presidencial, mas não apostemos em qualquer engano do establishment. Obama e Trump: cada um chegou em seu tempo e em determinadas circunstâncias para defender os mesmos interesses.

Podemos estar, porém, perante a explosão de grandes contradições associáveis a um capitalismo mergulhado numa crise a que nem sequer tem valido a fé inabalável no autocontrolo do mercado e na teoria dos ciclos sucessivos. O neoliberalismo puro e duro, assente na globalização, terá atingido os seus limites? Serão necessárias outras receitas, velhas ou renovadas?

Temos pela frente a procura de respostas e a definição de acções perante um novo cenário – mas que não sejam inconsequentes ou folclóricas. Para trás ficou Obama, no cumprimento da sua missão, tão hipócrita como sinistra e sangrenta, na «defesa da democracia». Não será a truculência de Trump – óbvia mas de consequências imprevisíveis – que fará do antecessor um presidente menos péssimo e nefasto do que foi.

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por Augusta Clara às 15:15

Quinta-feira, 12.05.16

Áustria outra vez - José Goulão

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José Goulão  Áustria outra vez

  

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Mundo Cão, 11 de Maio de 2016

   Dizem que a História não se repete; ou que se repete como farsa. Porém, ninguém pode garantir, apesar de asserções tão veementes, que ela não se repita como tragédia. Pode acontecer, parece mesmo que já está a acontecer sob os circunspectos narizes das eminências da União Europeia, porém tão ocupadas a estrangular a Grécia, a decifrar os oráculos de arbitrariedade do BCE e do Eurogrupo, a subverter as vontades legítimas dos portugueses, a devolver refugiados aos campos da morte, a minar o voto referendário dos britânicos, a bajular o sultão turco, a pretender caçar terroristas que não precisam de extraordinários talentos para estarem sempre dois passos à frente da parafernália de espionagem virada contra a privacidade do cidadão comum.

Adolf Hitler era austríaco, recorda-se. Isso não quer dizer que a Áustria seja um berço de führers nazis; mas também não se pode garantir que a semente geradora de um se tenha tornado improdutiva. Porque quando se lêem resultados eleitorais onde um herdeiro político do criminoso que desencadeou a Segunda Guerra Mundial atinge os 35 por cento à primeira – mais uns pozinhos do que os nazis alemães obtiveram no sufrágio que lhes ofereceu o governo em 1933 – deduz-se que o caso é de monta, deveria ser levado a sério.

Sobretudo porque não é um caso isolado na Europa, embora tenha a enorme carga, e não apenas simbólica, de ter emergido na Áustria. Há os bandos da senhora Le Pen em França; o governo e os seus grupos de assalto fascistas na Ucrânia, entronizado um pela santíssima aliança entre a União Europeia e os Estados Unidos, treinados outros por militares norte-americanos, na reserva ao que dizem; há também as maquinações governamentais fascistas nos países nórdicos e bálticos; os garrotes do nacionalismo aristocrático ultramontano com que os governos polaco e húngaro asfixiam metodicamente os seus povos; há ainda o imperador pan-turco Erdogan, o garante de que as guerras no Médio Oriente estão para durar enquanto brinca com as vidas de milhões de fugitivos, abrindo-lhes ou fechando-lhes as portas da sobrevivência com as mãos untadas pelo dinheiro surripiado aos contribuintes europeus.

Para lá do Atlântico, Trump reina como um vingativo salvador de desvalidos e descontentes sobre o pântano republicano e a criminosa mentira democrática; nas Filipinas triunfa eleitoralmente El Castigador, o nacionalismo terrorista que comanda hordas de esquadrões da morte invocando a injustiça social, assustadora, que as “elites políticas” – assim lhes chama – têm aprofundado usando o Estado como se fosse coisa sua.

Na Venezuela, na Argentina, no Brasil, amanhã na Bolívia, quiçá no Uruguai, os fascistas outrora com fardas de generais e carrancas de carrascos, hoje de polo de marca, ou de fato e gravata e sorriso de gel, estão a dar largas ao ódio de vingança há muito acumulado contra as transformações democráticas e populares, comandados, como sempre, pela batuta de Washington.

Tudo isto acontece, aqui e lá, sobre os escombros dos sistemas tradicionais de poder, entre eles o tão famoso “bloco central” em que a sanguessuga neoliberal assentou o seu regime, usando a democracia para subverter a democracia. A realidade não é assim tão simplista, tem variantes, mas o que conta são os resultados: alargamento do fosso das desigualdades, mais milhões empurrados para junto dos milhões de deserdados, a fome e as epidemias alastrando, centenas de milhões de seres humanos à deriva pelo planeta, e o mundo nas mãos de meia dúzia de eleitos que ninguém elegeu e que usam a Terra como o seu quintal, manejando os cordelinhos das marionetas políticas – parece ter chegado o momento em que só as genuinamente fascistas lhes servem.

Enquanto isto acontece, a comunicação social dominante oferece-nos uma realidade paralela embalada no basbaquismo das maravilhas tecnológicas, e assim transforma a ficção em vida para consumo, na mais conseguida e universal das lavagens aos cérebros.

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 08.08.15

O caso dos cadáveres escondidos - José Goulão

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José Goulão  O caso dos cadáveres escondidos

 

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Orifícios de metralhadora de um caça Sukhoi no assento do piloto do MH 17

 

 

Mundo Cão, 7 de Agosto de 2015

 

   Passou mais de um ano e os familiares das 298 vítimas mortais do derrube na Ucrânia do avião da Malaysian Airlines que fazia o voo MH17 continuam sem saber o que realmente se passou no dia 17 de Julho de 2014. A gravidade das circunstâncias vai muito além do simples desconhecimento, porque um pacto secreto estabelecido entre as potências encarregadas de fazer o inquérito oficial impediu as famílias das vítimas, incluindo a do piloto Wuan Amran, de observarem os cadáveres. A mulher de Amran relatou, em entrevista, que foi obrigada a identificar o corpo através de fotografia e recebeu ordens estritas do governo da Malásia para não abrir o caixão, apesar de o cadáver estar aparentemente intacto.

Que escondem os cadáveres das vítimas, designadamente o do piloto, que poderá ser chocante para os familiares e, por extensão, para a opinião pública mundial? Em muitos casos tal medida será mais do que justificada devido ao estado em que ficaram os corpos de numerosos passageiros; mas quanto ao de Wuan Amran, tendo em conta a fotografia mostrada à viúva e as informações que lhe foram prestadas por quem tratou o corpo, não existem razões para que a tradição e os desejos da família não fossem respeitados.

Conjugue-se esta medida com outros factos que têm vindo a ser recolhidos por entidades e personalidades independentes – isto é, que não tenham nada a ver com as imposições dos governos da Holanda e o da Ucrânia sediado em Kiev – e não será difícil perceber duas coisas: a manipulação dos dados do inquérito oficial para que seja apresentada uma versão final coincidente com as especulações iniciais emanadas de Washington, Kiev e Haia – culpando a Rússia e os russófonos do Leste da Ucrânia -; e a marginalização ostensiva das provas que têm vindo a ser reunidas pelos sectores independentes.

Entre as provas ignoradas pela comissão oficial, formada pelos governos da Holanda, Bélgica, Austrália e da Ucrânia (neste caso as correntes nazis resultados do golpe de 2014), incluem-se as mais esclarecedoras de todas: as que testemunham o derrube do avião civil por pelo menos um caça Sukhoi ucraniano que, segundo fontes diferentes e em momentos distintos da tragédia, foi referenciado junto ao aparelho abatido. Tal circunstância é comprovada pelos orifícios redondos nos restos da fuselagem do MH 17 – e agora também descobertos no assento do piloto Wuan Amran –, pelo relato de um controlador aéreo feito instantes depois do derrube e, mais recentemente, por um filme divulgado na Austrália por uma cadeia do grupo Murdoch (insuspeito neste caso) revelando a existência, entre os escombros, de restos não apenas do MH 17 mas também de um caça Sukhoi, este abatido pelos “rebeldes” ucranianos. As opiniões dos peritos independentes relacionadas com os orifícios nos restos da fuselagem e no assento do piloto são coincidentes: resultam de disparos de um caça e são incompatíveis com a versão inicial atribuindo a tragédia ao lançamento de um míssil.

Pode argumentar-se que o recente veto da Rússia à formação de um “tribunal” da ONU para este crime fragiliza a argumentação de Moscovo quando proclama inocência. A propósito, é importante associar-lhe uma faceta do caso omitida pela comunicação social sintonizada com as versões dos fascistas de Kiev: o mecanismo pretendido através da constituição do citado “tribunal” mais não seria do que a transposição do comportamento da comissão existente para o âmbito das Nações Unidas. Sendo que esta comissão funciona segundo um regimento absurdo: secretismo total dos seus membros e a garantia de que o governo fascista de Kiev tem veto sobre qualquer conclusão que venha a ser apurada para divulgação e que não esteja de acordo com as suas versões dos acontecimentos. A própria Malásia só foi admitida nessa comissão depois de ter subscrito o pacto secreto de silêncio e de submissão ao parecer final de Kiev. Nesse pacto inclui-se o relatório do médico legista holandês sobre a autópsia efetuada ao piloto Wuan Amran.

É fácil perceber porque este é um caso onde se escondem cadáveres e se descartam provas. Tão fácil como perceber como os direitos humanos e o direito internacional são tratados pelos que se proclamam paladinos dos direitos humanos e do direito internacional.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 12.05.15

Efemérides, mesquinhez e morte - José Goulão

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José Goulão  Efemérides, mesquinhez e morte

 

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   Mundo Cão, 9 de Maio de 2015

 

   Os russos ainda estão a enterrar os restos dos seus mortos, como aconteceu em quase mil funerais realizados há dias nos arredores de São Petersburgo, mas o senhor secretário-geral das Nações Unidas, a mando do senhor Obama, porque nada se passa no Palácio de Vidro sem o aval deste, foi celebrar a derrota dos nazis a Kiev na companhia dos novos nazis. Quero crer que o envio do pau-mandado Ban Ki-moon se deveu à falta de coragem do senhor Obama para assumir até ao fim a provocação que fez aos 25 milhões de mortos soviéticos, e também aos mais de 400 mil compatriotas mortos para que o nazismo não passasse, e deslocar-se em pessoa a Kiev para abraçar os herdeiros de Stepan Bandera, o bandido que colaborou nas chacinas de Hitler e agora tutelam o regime oficial ucraniano. Coragem, seja política seja física, é o que normalmente falta àqueles que da guerra só conhecem a parte de mandar matar. Barack Obama incarna na perfeição esse tipo de mandante e por isso, mesmo não tendo estado em corpo em Kiev, foi representado a preceito, em insensibilidade e arbitrariedade, através do seu imediato a quem foi entregue a desacreditada ONU. Mais desacreditada agora depois de o seu mais alto representante ter celebrado o fim da guerra, acontecimento que determinou o nascimento da organização, ao lado dos herdeiros dos que provocaram a tragédia e estão na calha para repetir a façanha. Com o beneplácito da dita cuja.

Se lermos os escritos e paleios que a chamada comunicação de referência vai debitando, todos muito certinhos e afinados no mote de assinalar o fim da guerra como se não tivesse havido guerra, apuramos que se escreve e fala sobre tudo, desde o senhor Putin se sentir isolado, coitado, no palanque presidencial assistindo à passagem de temíveis armas com que ameaça a pacífica NATO, obrigada a defender-se ali tão pertinho, nas suas fronteiras; passando pela sismografia que atinge territórios onde terão de passar maléficos gasodutos; até às patéticas perorações sobre a Crimeia – onde vem ao de cima a tacanhez histórica dos autores - mas não se fala sobre a guerra.

Em boa verdade, continuando a ler e a escutar essas figuras tão referentes, antes Putin tivesse ficado verdadeiramente isolado no palanque; mas afinal teve companhia, a do líder chinês, e logo numa altura em que a Rússia e a China conversam muito, tratam de cooperação mutuamente vantajosa, fazem até ameaçadoras manobras militares conjuntas no Mediterrâneo, tudo isto acontecendo pela primeira vez, sabendo-se que há sempre uma primeira vez para tudo, ideia que não deveria valer para este contexto. O facto de a Rússia, então União Soviética, e a China terem sofrido três quartos dos mortos da guerra contra o nazismo, 45 milhões de vítimas (45 milhões, quatro vezes e meia a população de Portugal, mais ou menos a população de Espanha) são pormenores que não contam para nada numa coisa que, afinal, acabou já lá vão 70 anos mesmo que muitas familiares ainda hoje andem à procura dos seus mortos para lhes dar sepultura.

Por isso, a centralização das comemorações da derrota do nazismo sob a tutela oficial da ONU junto do regime revanchista polaco e das suas criaturas neonazis ucranianas, abençoadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos da América, não é apenas uma via mesquinha para tentar reescrever a história. É um insulto grave, um atentado à memória de todos os seres humanos que sofreram as consequências do flagelo, incluindo, repete-se, os mais de 400 mil norte-americanos que pagaram com a vida o combate à loucura nazi.

Para o senhor presidente Obama, celebrar a derrota do nazismo é desenvolver uma política de “polo asiático” que assenta na ressurreição do militarismo nacionalista nipónico; é dar largas ao revanchismo nazi na Europa manipulando o velho mas não gasto artifício propagandístico da “ameaça russa”. O senhor presidente Obama não vê qualquer defeito nesta estratégia. Afinal ele só manda matar.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 12.02.15

Apelo do Conselho Português para a Paz e Cooperação

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PELA PAZ NA UCRÂNIA!

APELO A UMA SOLUÇÃO PACÍFICA E DEMOCRÁTICA PARA A UCRÂNIA E DE REJEIÇÃO DA INGERÊNCIA DA NATO

O Conselho Português para a Paz e Cooperação acompanha com profunda preocupação a situação que se vive na Ucrânia, resultante do golpe que, com o apoio político, económico e militar dos Estados Unidos da América, da NATO e da União Europeia, foi levado a cabo em 22 de Fevereiro de 2014.

Ao longo de quase um ano sucederam-se, como é conhecido, graves situações anti-democráticas e ilegítimas, designadamente a constituição de governos que incluíram e incluem elementos de extrema-direita e, mesmo, neonazis; os atentados dos grupos paramilitares de extrema-direita e neonazis do Svoboda, do Pravy Sektor às sedes de sindicatos e de partidos e forças democráticas e anti-fascistas, a perseguição e assassinato de democratas e patriotas ou a promoção da xenofobia, de divisões étnicas e da repressão pelo novo poder golpista. Esta situação levou à resistência e lutas populares nas regiões do Leste e Sul da Ucrânia, – como na Crimeia e no Donbass (Lugansk, Donetsk, Mariupol, entre outras cidades) -, de populações maioritariamente de língua russa, movidas por por sentimentos anti-fascista e patriótico. Como consequência, a população da Crimeia decidiu reintegrar a Federação Russa. E no caso do Donbass, as autoridades de Kiev responderam com uma violenta repressão militar contra as populações, provocando uma guerra civil.

A resposta das, entretanto criadas, Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk obrigaram ao recuo destes militares, mas não conseguiu impedir que milhares de civis tenham sido mortos e centenas de milhar se tenham refugiado e que inúmeras casas, bens e infraestruturas, tenham sido destruídas.

O cessar-fogo negociado em Minsk, em Setembro de 2014, foi sucessivamente violado por militares às ordens de Kiev e por mercenários dos grupos paramilitares, como o Batalhão Azov, que segundo a OSCE utilizaram, em finais de Janeiro e primeiros dias de Fevereiro de 2015, bombas de fósforo e de fragmentação - armas proibidas pelas convenções internacionais - sobre as populações da cidade de Donetsk.

Nos últimos dias têm vindo a público inúmeras, e contraditórias, posições assumidas por diversos apoiantes activos do governo de Kiev e, no dia 5 de Fevereiro, a NATO decidiu constituir uma Força de Intervenção Rápida para actuar na “Europa do Leste” constituída por 6 unidades sediadas na Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, Roménia e Bulgária, que contarão com 30 000 efectivos, 5 000 dos quais das forças especiais. Força essa que constitui uma clara ameaça para a Federação Russa e para a paz na Europa.

No dia 6 de Fevereiro, Vladimir Putin, Ângela Merkel e François Hollande reuniram em Moscovo, tendo declarado ser a via diplomática a única opção para pôr fim ao conflito na Ucrânia, mas mantendo a União Europeia – que segue os EUA - um processo de pressão e chantagem, incluindo sanções contra Rússia. Nos dia 6 e 7 de Fevereiro, na Conferência de Segurança da NATO, reunida em Munique, os Estados Unidos e o Comandante militar das forças dos Estados Unidos e da NATO na Europa, General Philip Breedlove, defenderam o reforço do apoio militar ao governo de Kiev.

Ontem, 8 de Fevereiro, a Chanceler alemã, Ângela Merkel, anunciou a realização de uma Cimeira de Alto Nível da Alemanha, Rússia, França e Ucrânia, na próxima quarta – feira 11 de Fevereiro, em Minsk (Bielorrússia), declarando ser seu objectivo discutir um conjunto de medidas que visem por fim à violência na Região do Donbass. Tendo-se deslocado, posteriormente aos EUA, para se encontrar com Obama.

Perante uma tão grave situação, como a que se vive na Ucrânia, e as ameaças à paz que ela comporta, o Conselho Português para a Paz e Cooperação reafirma que só uma solução politica que respeite a democracia, as liberdades e o direito dos povos a decidirem do seu futuro pode garantir a paz na Ucrânia e, consequentemente, na região e na Europa. Por isso, o CPPC repudia o recurso ao militarismo preconizado pela NATO e pelos Estados Unidos e exige do Governo Português uma posição consentânea com os princípios da Constituição da República.

A Direcção Nacional do CPPC
Lisboa, 11 de Fevereiro de 2015

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 01.11.14

Estado Islâmico e Ucrânia lançam euforia na indústria de guerra americana - Martha Ladesic, Nova York

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Martha Ladesic, Nova York  Estado Islâmico e Ucrânia lançam euforia na indústria de guerra americana

 

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Tomahawk prontos a usar a 1,1 milhões cada

 

 

 

   29 de Outubro de 2014

   O início dos bombardeamentos norte-americanos contra territórios do Iraque e da Síria sob o falso pretexto do combate ao Estado Islâmico e o reforço armamentista nas fronteiras com a Rússia, sob pretexto de defender a Ucrânia, devolveram a euforia financeira à indústria de guerra dos Estados Unidos, que ficara inquieta com a diminuição do peso das ocupações do Iraque e do Afeganistão.
As preocupações dos gigantes militares dos Estados Unidos com as promessas de Obama sobre a redução do orçamento militar duraram pouco: nos últimos meses, as acções dessas expoentes da indústria da morte cresceram entre 5 e 10% apesar de a média de Wall Street ser de uma queda de 2%.
Os principais incentivos aos êxitos financeiros da indústria de guerra foram os ataques ditos contra o Estado Islâmico, um aliado dos Estados Unidos na guerra contra o governo da Síria, a militarização da Europa de Leste com as mais modernas gerações de armas e a multiplicação do recurso aos drones um pouco por todo o lado, “contra o terrorismo”, uma opção militar que “ficará como uma chancela das administrações Obama”, segundo uma fonte do Pentágono.
A guerra supostamente contra o Estado Islâmico, grupo terrorista que, apesar disso, continua a manter-se em alta, tanto na Síria como no Curdistão Iraquiano, iniciou-se a 23 de Setembro com o lançamento de 47 mísseis de cruzeiro Tomahawk, que em vez de atingirem contingentes terroristas destruíram casernas que eles já haviam desocupado e instalações petrolíferas pertencentes ao Estado sírio. Uma tal barragem de fogo custou quase 52 milhões de euros sem que fosse atingido um único dos objectivos proclamados para essa guerra.
Cada míssil Tomahawk custa 1,1 milhões de euros. Depois dos primeiros ataques, e por necessidades de reposição de stocks, o Pentágono encomendou mais armas desse tipo ao respectivo fabricante, a Raytheon, um contrato que atingiu cerca de 200 milhões de euros.
As acções da Raytheon subiram 4% na Bolsa de Nova York, que registava então uma queda média de 2%.
Os tempos de vacas gordas não são exclusivos da Raytheon, segundo elementos estatísticos oficiais que é possível inventariar de várias fontes. A Lockeed Martin conseguiu ir muito mais longe, até subidas de 9,5% no valor das suas acções, graças ao uso cada vez mais intensivo de mísseis Hellfire que são lançados pelos drones Reaper. A Lockheed tira igualmente proveito da maior procura pelo Pentágono de navios capazes de navegar em águas costeiras e pouco profundas, considerados fulcrais nas patrulhas efectuadas pela NATO no Mar Negro para manter a ameaça sobre a Rússia a pretexto da situação na Ucrânia.
O início da instalação dos chamados “escudos defensivos” na Roménia e na Polónia, dotados com meios de espionagem e mísseis Sm-3, também eles ditos “defensivos”, são como bênçãos financeiras para gigantes da morte como a General Dynamics e novamente a Lockheed. Enquanto isso, a Boeing pode já fazer avultadas contas de multiplicar graças ao desenvolvimento do avião espacial robot X-37B, que foi testado durante quase dois anos em órbita e cuja missão é “secreta”.
No entanto, quando responsáveis do Pentágonos são colocados perante a possibilidade de se tratar de um engenho capaz de transportar armas nucleares em órbita ou de liquidar “satélites inimigos” previamente a um ataque nuclear, o silêncio como resposta já quer dizer muita coisa.

Martha Ladesic, Nova York

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 23.09.14

Os acontecimentos na Ucrânia causam-me uma constante amargura e dor - Alexander Solzhenitsyn

 

Alexander Solzhenitsyn  Os acontecimentos na Ucrânia causam-me uma constante amargura e dor

 

 

Foto: AP

 

 

Voz da Rússia, 30 de Agosto de 2014

 

A Voz da Rússia continua a publicação de uma série de textos de Alexander Solzhenitsyn dedicados às relações russo-ucranianas.

 

Excerto da entrevista dada a Vitali Tretiakov para o semanário Moskovskie Novosti (Notícias de Moscou) de 28 de abril/4 de maio de 2006.

 

V.T.: Eu penso que se os três principais sujeitos da civilização euro-atlântica (cristã), nomeadamente a União Norte-Atlântica, a União Europeia e a União Leste-Europeia (Russa), ou seja, os EUA, os Estados Unidos da Europa e os Estados Unidos da Rússia, não estabelecerem entre si uma aliança estratégica (com órgãos supranacionais), a nossa civilização irá desaparecer mais tarde ou mais cedo. Onde vê uma salvação para a civilização euro-atlântica, se é que ela precisa de uma salvação?

A.S.: Infelizmente o processo político mundial não evolui de forma alguma na direção que você deseja. Os Estados Unidos instalam suas tropas de ocupação num país após outro. Essa é a posição de fato na Bósnia já há 9 anos, no Kosovo e no Afeganistão – há 5 anos, no Iraque por enquanto são 3, mas aí isso irá durar muito tempo. As ações da OTAN e as ações dos EUA em separado têm diferenças pouco significativas. Vendo claramente que a Rússia atual não representa para eles qualquer ameaça, a OTAN desenvolve metódica e insistentemente seu aparelho militar – para o leste da Europa e num cerco continental à Rússia a sul. Isso inclui o evidente apoio material e ideológico das revoluções “coloridas” e a introdução paradoxal dos interesses norte-atlânticos na Ásia Central. Tudo isso não deixa dúvidas que se prepara um cerco total à Rússia e, mais tarde, a sua perda de soberania. Não, a adesão da Rússia a uma aliança euro-atlântica desse tipo, que realiza a propaganda e a introdução pela força, em diversas partes do planeta, da ideologia e das formas da atual democracia ocidental, iria provocar não o alargamento, mas a decadência da civilização cristã.

V.T.: Como vê aquilo que se passa na Ucrânia e o problema da divisão da nação russa? Deverá a Rússia, mesmo que não seja politicamente, mas apenas de forma intelectual, colocar a questão da reunificação dos russos e das terras russas no caso de uma deslocação pela elite ucraniana da Ucrânia para a União Europeia e especialmente para a OTAN?

A.S.: Os acontecimentos na Ucrânia, e que vêm ainda desde a fórmula falsamente elaborada para o referendo de 1991 (eu já escrevi e falei sobre isso), causam-me uma constante amargura e dor. A repressão e perseguição fanática da língua russa (a qual nas pesquisas anteriores foi reconhecida como principal por mais de 60% da população da Ucrânia) é simplesmente uma medida cruel, e é mesmo dirigida contra as perspectivas culturais da própria Ucrânia. – Espaços enormes que nunca pertenceram à Ucrânia histórica, como a Novorossiya, a Crimeia e toda a região do Sudeste, foram enfiadas à força no atual Estado ucraniano e na sua política de desejo ávido em entrar para a OTAN. Durante todo o tempo de Yeltsin, nenhuma das suas reuniões com os presidentes ucranianos decorreu sem capitulações e cedências de sua parte. A erradicação da Frota do Mar Negro de Sevastopol (que nem no tempo de Khruschev tinha sido cedido à República Socialista Soviética da Ucrânia) é um baixo e sórdido sacrilégio relativamente a toda história russa dos séculos XIX e XX.

Em todas essas circunstâncias, a Rússia não pode ousar de forma nenhuma trair friamente os muitos milhões de habitantes russos da Ucrânia e negar a nossa unidade com essa população.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 08.09.14

Em Rostov do Don: o grito de alarme das vítimas de “limpeza étnica” - Castro Gomez

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Castro Gomez (Rostov do Don)  Em Rostov do Don: o grito de alarme das vítimas de “limpeza étnica”

(foi há um mês)

 

 

Em Rostov do Don (Associated Press)

 

   3 de Julho de 2014

   Os serviços das Nações Unidas calculam que mais de cem mil cidadãos ucranianos se refugiaram na  Rússia desde que os responsáveis pelo aparelho de segurança de Kiev decidiram atacar militarmente as províncias do Leste e Sudeste da Ucrânia para “repor a ordem constitucional no país”.
As autoridades russas montaram acampamentos na região de Rostov do Don e procuram minorar os efeitos da tragédia humana. A maior parte dos refugiados são mulheres e crianças e chegaram praticamente com a roupa que tinham no corpo quando foram forçadas a fugir aos bombardeamentos das tropas ucranianas. Os refugiados passam a ter direito a um período de permanência de um ano, em vez dos 90 dias que vigoravam até ao início do êxodo, e os responsáveis de acolhimento procuram que todos os adultos tenham acesso a emprego e os mais jovens encontrem lugares nas escolas.
“Estamos a ser vítimas de uma limpeza étnica e o mundo aceita que os de Kiev digam que têm autoridade para a fazer”, afirma Ielena Alexandrova, fugida de Kramatorsk juntamente com uma filha de 13 anos. “Não sei do meu marido, não consigo notícias dele, ficou a tentar convencer a mãe a fugir mas entretanto perdemos o contacto”.
Em Kramatorsk não há água nem luz. “Os bombardeamentos são cegos, hordas fascistas andam à solta, usam bombas de fósforo, queimam a nossa gente, querem obrigar-nos a fugir – não sei o que mais é preciso para se falar numa limpeza étnica”, insiste Ielena.
“Não somos separatistas, não somos pró-russos, nem terroristas nem outras coisas que nos chamam no ocidente, como se fôssemos uns bichos raros, gente com peçonha”, lamenta Viktoria, mulher de 60 anos de Kondrashkova, aldeia que continua a ser sistematicamente arrasada pelas tropas de Kiev. Tenta distribuir os familiares pelas duas tendas que lhe foram facultadas e não cala a revolta: “Somos gente, somos ucranianos como todos os outros, falamos russo, queremos continuar a falar russo e depois? Tínhamos vizinhos que falam ucraniano e foi preciso estes fascistas tomarem conta do governo de Kiev para déssemos por isso, sempre nos entendemos, sempre vivemos em paz”.
Muitas destas famílias distribuídas pelo acampamento que vai crescendo viviam da agricultura. “Semeámos mas não vamos colher, ficaram lá as nossas terras tratadas, os nossos animais, tudo aquilo que era a nossa vida”, lamenta Olga, que declina revelar o nome de família. “O meu marido e o meu filho mais velho ficaram lá, a combater contra os novos fascistas, as milícias do Sector de Direita e da Guarda Nacional. Nunca pensaram em fazer guerra, até que a guerra entrou pelas portas da nossa casa, espezinhou a nossa horta.”
Poroshenko “é tão mentiroso e criminoso como os outros, mesmo que tenha chegado depois e digam que foi eleito”, sublinha Viktoria, inconformada, revoltada. “Todos eles estão no governo por golpe e com que direito dizem que vêm restabelecer a ordem nas nossas terras? A ordem deles é roubar: não é por acaso que estão a oferecer terras nas nossas províncias aos soldados que se alistem para nos vir matar. São as nossas terras que eles se preparam para lhes oferecer. É como disse Ielena, isto é uma limpeza étnica”.
São mais de cem mil, grande parte deles concentrados em Rostov do Don, no coração da terra cossaca. Muitos ficaram pelo caminho. Os que pretendem “restabelecer a ordem constitucional” pela força das armas são os mesmos que se recusam a abrir corredores humanitários às populações que fogem do massacre ou lhes reservam “campos de filtração” para impedir que os “verdadeiros ucranianos” sejam contaminados “pelos outros”.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 05.09.14

Ukraine et médiamensonges, comment ne pas se faire manipuler? - Michel Collon

 

Michel Collon  Ukraine et médiamensonges, comment ne pas se faire manipuler?

 

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por Augusta Clara às 14:30



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