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Jardim das Delícias



Segunda-feira, 12.12.16

Um abraço de amor - Adão Cruz

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Adão Cruz  Um abraço de amor 

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(Adão Cruz)  

 

(O MEU AMOR PELA GALIZA)

   Sim, um abraço de amor ou um poema de amor à minha querida Galiza. Até tem nome feminino e tudo.

Há longos anos que abro os meus braços para envolver em largo amplexo a minha amiga Galiza. Com o peito em Tui, o braço direito estende-se ao longo da margem direita do rio Minho, dobrando-se um pouco para tocar Ourense e afagando com a mão, lá em cima, a face de Lugo, a cidade de origem celta e romana que possui a única muralha do mundo intacta no seu perímetro. O braço esquerdo, dobrando-se e desdobrando-se a ocidente ao longo da costa desde A Guarda (La Guardia), para ir por ali acima acarinhar a luminosa Corunha e tocar com a ponta dos dedos o Ferrol.

Embora tenha passado a fronteira umas duas ou três vezes durante o tempo de estudante na Faculdade, o amor à primeira vista só nasceu quando atravessei clandestinamente de Melgaço para Ponte Barxas e daí para Cortegarda, uma vila termal que nos leva até Celanova e Ourense. Estava mobilizado para a guerra colonial da Guiné e, por conseguinte, proibido de sair do país. Foi o pai de uma amiga, funcionário da fronteira, que nos permitiu, a mim e outro amigo, a ida sem documentos até esta última cidade que com o tempo tão bem se foi acomodando no meu coração.

Antes de haver auto-estrada chegava-se a Ourense por diversos caminhos, indo todos desembocar em Celanova. Saindo por Porrinho tínhamos a 12 Km para leste Salvaterra de Minho, município raiano da Galiza mesmo em frente da nossa Monção, do outro lado do rio. Há já muito tempo, antes de haver a ponte, a travessia entre os dois países era feita numa jangada que transportava algumas pessoas e meia dúzia de carros. Lembro-me muito bem da última vez que atravessei o rio dessa forma…pois era um dia muito triste.

Podemos ir ainda hoje por Ponte da Barca e Lindoso e desfrutar a luminosa paisagem de montanha e água que se estende até Bande (um saltinho lateral para nascente a Xinzo de Limia é um encanto), ou atravessar o Gerês saindo pela Portela do Homem (outro saltinho lateral, desta vez para poente, passando por Entrimo e atravessando a serra de Castro Laboreiro é imperdível). De Celanova à cidade das Burgas, as águas termais que aliviam as comichões, é um instante.

Desde há vários anos que tenho em Ourense amigos de verdade, na área das artes e não só. Lembro, apenas como homenagem à sua amizade, a America Soto e família, a Dolores Reverter, o Pepe, o Joaquin Balsa e a Maria, bem como os familiares, o César Prada e a Olívia, a Gely e a Elvira, a Maria de los Angeles e outros. E também os que prematuramente, ainda jovens, deixaram esta vida, como Zapata, o pintor boémio que apelidava a sua barriga de cementerio de marisco, e Pastor Outeiral. Em Ourense realizámos duas ou três exposições de pintura, uma na Caixa Galicia ou Caixanova, não sei precisar, e outra no belo edifício Simeon. Quadros meus ainda resistem nas casas de alguns amigos. Não posso esquecer que em Ourense visitei uma imponente exposição de Jaime Quesada, artisticamente conhecido por Xaime Quessada, grande pintor ourensano que conheci ainda em vida, e que desenvolveu intensa actividade por todo o mundo.

Chegado o meu braço direito até ao Lugo (com a sua acolhedora Plaza Mayor de onde saem ruas pejadas de bares e tapas), e a seguir até Vegadeo e Ribadeo, entraria de imediato nas Astúrias para saborear essa suculenta fabada asturiana em recantos que eu cá sei, mas é da Galiza e não das Astúrias que estamos a falar. Esticando um pouco mais o braço talvez consiga tocar Viveiro, Carinho, Cedeira e Ferrol, essa encantadora terra do noroeste marítimo da Galiza, cheia de História boa e má. Da História má podemos destacar, como exemplo, que ali nasceu Francisco Franco, e ali morreram assassinados centenas de lutadores antifranquistas às mãos dos esquadrões da morte fascistas. Na História boa podemos registar o nome de Ricardo Calero, também de origem ferrolana, professor catedrático dos meados do século XX, reputado filólogo e crítico literário, grande defensor da unidade linguística galego-portuguesa. A propósito, mas já no início deste século, um outro professor universitário também linguista segredou-me um dia que o português é o galego correcto.

Sinto que os dedos da minha mão direita se entrelaçam agora nos dedos da minha mão esquerda que afaga o rosto da Corunha, essa cidade única, cristalina, cheia de luz e de água, a chamada cidade de cristal, com tanto para ver e sentir entre a praia de um lado e o porto de outro, tendo no meio a Praça Maria Pita, o museu do Homem (Casa do Home), o museu de Belas-Artes ou o seu emblemático monumento, a Torre de Hércules, o farol em funcionamento mais antigo do mundo. Sempre me cativou esta linda cidade, e por isso a ela voltei sempre que pude e sempre que ela me chamou. Nunca faltei às várias reuniões médicas que me proporcionou, não podendo esquecer as que mais me entusiasmaram, as conhecidas jornadas internacionais sobre Cardiomiopatias que durante alguns anos tiveram lugar no Palácio de Congressos, trazendo à Corunha os mais afamados investigadores do mundo nesse tipo de patologia. Sabia bem para além do mais, sermos recebidos principescamente com um lauto banquete nas belas salas do Ayuntamiento, na Plaza Mayor, onde saboreei as melhores tapas de sempre. Foi numa dessas alturas, em 1999, que havia aí uma exposição da conhecia pintora Maria Gato, de quem fiquei amigo.

Na Corunha conhecemos a famosa galeria Atlântica fundada por Salvador Corroto Parra recentemente falecido, e todo o seu espólio. Revimos a obra de Rafael Canogar e conhecemos pessoalmente Luis Caruncho com quem um dia jantámos, a seu convite. Falo no plural, porque além de outros andava sempre comigo, como compagnon de route, o grande amigo João Alexandre, pintor e hábil profissional nesta coisa da montagem das exposições. Faziam parte do nosso grupo André Welch, pintor francês de Pau, já falecido, e Hans Zingraff, alemão, que numa dessas vezes expunha na Atlântica. Ambos pertenciam como nós ao movimento MAI (Movimento artístico internacional). Foi também numa dessas idas à Corunha, desta vez sozinho, que ouvi falar pela primeira vez da afamada pintora Maria Antónia Dans, nascida aqui, em Oza dos Rios e na altura já falecida, da qual adquiri um lindo álbum repleto de obras um tanto naif com belas paisagens cheias de cor e nostalgia.

Nesta belíssima cidade fizemos, pelo menos, quatro exposições, a primeira numa galeria de cujo nome não me lembro, a segunda no lindo Hotel Maria Pita que fica junto ao mar e que há bastante tempo mudou de nome, a terceira no Clube Financeiro da Corunha (com o meu grande amigo Jaime Casais, pintor e arquitecto aqui residente), e a quarta, individual, do João Alexandre, também no Clube Financeiro. Com o Jaime voltei a fazer outra exposição no Clube Financeiro de Vigo a que dei o nome de Calles e Ruas da cidade interior. Do texto que fiz para essa exposição deixo aqui uma pequena frase:

A arte é uma procura de expressão da beleza e da poesia, uma pura questão de liberdade no processo racional da formação do Homem dentro da ética da existência…

Mas ao descermos agora pelo meu braço esquerdo para o sul, ainda é muito cedo para chegar a Vigo. Vamos permanecer um pouco em Cee, Corcubion, a dois passos do famoso pôr-do-sol de Finisterra. Não tenho a certeza se foi aqui que Jaime Casais nasceu mas é aqui que ele tem uma das mais belas casas que já vi, a casa dos pais, do início do século XX, e em cujas paredes mais nobres eu tenho a honra de ver pendurados alguns dos meus quadros. Entre Corcubion e Finisterra tem ele uma aprazível e poética casa na praia, salvo erro praia de Langosteira, que oferece de coração aberto aos amigos e onde comi o melhor pescado e as melhores navajas da minha vida.

A seguir vem Muros, um bom pedaço mais abaixo nesta interminável costa. É um dos pueblos marineros mais bonitos e mais bem conservados da Galiza. A sua história começa no século X e a sua riqueza em arte rupestre conta com uma infinidade de calçadas romanas, castros e cruzeiros. Foi Jaime Casais o principal arquitecto responsável pela fiel reconstrução desta antiquíssima vila, que, para além do prazer que nos dá ao percorrermos todas as suas medievais ruas e vielas, possui uma gastronomia inigualável… que uma qualquer noite nos traiu. Era uma noite de fim de ano com tudo fechado, em que eu e uma amiga queríamos comer alguma coisa e arranjar algum sítio onde dormir e nada havia. Apenas um pequeno hotel, também fechado, mas cujos donos, prestes a encerrar, chegaram ao insólito mas encantador absurdo de nos entregarem a chave do hotel, onde pernoitamos como únicos hóspedes e senhores absolutos. Mas a sorte não ficou por aqui. Cheios de fome percorremos as ruas de ponta a ponta na pouco esperançosa tentativa de encontrar algum local aberto. Já desanimados, ao dirigirmo-nos para o hotel de barriga vazia, demos com uma cave aberta e iluminada onde se comemorava a passagem do ano repleta de comes e bebes e também de uma invulgar simpatia e de um franco acolhimento.

Noia fica no caminho, com o seu casco antigo como o de Muros e tantas outras povoações desta costa infindável, repleta de sonho, nostalgia e passado. Noia lembra-me logo o modesto mas muito agradável Hotel do Parque com o seu quarto 115, semicircular, todo ele janelas que nos permitem uma vista global sobre a ria banhada de sol e luar. O quarto não é um quarto mas dois, separados mas comunicantes. Aí pernoitei algumas vezes, uma delas com o meu filho mais novo, a minha nora e o meu primeiro netinho.

Já que estamos a 23 Km de Santiago de Compostela vamos sair por instantes da costa e dar uma olhada a esta vetusta cidade tão acolhedora. Não vou falar daquilo que é bom em Santiago pois não deve haver quem não conheça. Ao contrário de muita gente peregrina, não é propriamente a catedral e o santo que me interessam e atraem. Nem o museu de arte contemporânea de Siza Vieira mais do que visitado. Nem de todas as vezes me absorve a memória da grande Senhora da poesia galega, Rosalía de Castro, de quem dizem ser a fundadora da literatura galega moderna, aqui nascida, em Caminho Novo, em 1837.

Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros,
Ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros,
Lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso,
De mí murmuran y exclaman:
Ahí va la loca soñando
Con la eterna primavera de la vida y de los campos…

Como pecador e humilde poeta, ao entrar em Santiago logo me cresce água na boca ao ver por trás dos vidros embaciados dos bares que se estendem ao longo das ruas estreitas, as travessas de pulpo e percebas. Mas, perdoado o pecado da gula, posso dizer que são as reuniões médicas dos tempos passados, na prestigiada faculdade de Medicina, que mais me avivam a memória. Retenho com alguma saudade aquela importante jornada que constituiu a celebração dos 25 anos da primeira circulação extracorporal.

De Noia a Vigo, esta filigrânica e rendilhada costa não pode ser descrita em pormenor num simples texto, apesar de eu a conhecer quase a palmo, pois só poderá caber em volumoso livro. Mas um livro que apenas contivesse magia, sonho, música e poesia. Porto do Son, Vilagarcia de Arousa, Isla de Arousa, Cambados, O Grove, A Toxa (La Toja), Sanxenxo…alto lá, já não posso com tantos poemas e tantas mariscadas.

Um saltinho ao casco velho de Pontevedra para tomar nem que seja um café solo. Ao entrar, também não são as sinistras procissões da Semana Santa, serpenteando pelas ruelas, que me vêm à cabeça, nem o jamon ibérico e a macia espuma das cañas douradas, nem a “minha” livraria há muito fechada, mas a magnífica exposição que há uns largos anos tive a sorte de ali encontrar: Uma mostra das obras de Tino Grandío, o grande pintor dos cinzentos, natural de Lugo, que a morte agarrou demasiado jovem, sem conseguir impedir que os seus quadros se espalhassem pelo mundo. Dele disse um dia Camilo José Cela:
Tino Grandío era grande e solemne, aparatoso, disparatado, sólido e vitalista, quizá por eso murió casi joven…

O meu abraço, já que aqui estamos, vai mais alguns quilómetros para o interior, nos arredores de Pontevedra, mais propriamente Tenorio, ao encontro de Marise e Celestino, donos da estalagem O Casal, que nunca deixaram de estar presentes em Portugal nas minhas exposições e nas apresentações dos meus livros.

De Pontevedra a Vigo pela auto-estrada é uma questão de minutos. Mas não podemos deixar de saborear este restinho de costa que demora muito mais, Marin, Bueu e Cangas, indo desembocar na mesma auto-estrada e atravessar para Vigo pela elegante Ponte de Rande que nos libertou da enorme volta para contornar a ria, como se fazia antigamente. Mas os braços já começam a doer. Paremos em Vigo, no antigo e lindíssimo café-restaurante Luces de Bohemia onde o António me recebe sempre de forma calorosa. Entrei pela primeira vez neste deslumbrante espaço há mais de vinte e cinco anos. Mas ao contrário do que pensava ele ainda não existia quando eu e alguns familiares nos deslocávamos a Vigo para comprar películas para o meu primitivo ecocardiógrafo - o primeiro ecocardiógrafo bidimensional a entrar em Portugal -, que não existiam no nosso país e que as senhoras escondiam debaixo dos vestidos ao passar a fronteira. Aqui em Vigo, como disse atrás, realizámos, eu e o Jaime, uma exposição no Clube Financeiro. Também aqui, ou melhor, em Vigo e Redondela, pude estar presente em duas belas exposições, não sei se as últimas, do grande artista e amigo Pastor Outeiral, de Ourense. Já doente, teve a gentileza e a coragem de se deslocar um dia a Santa Maria da Feira para colaborar na apresentação de um livro meu, no Europarque. São outras memórias a Casa del Libro onde passei muitas tardes, bem como El Rincon de los Artistas, bar com música e dança e a edição da sua própria revista, na mesma rua em que há uma rotunda com a escultura de Rosalía de Castro no centro. Hoje cerrado, infelizmente.

Não é sem saudade que se deixa a brilhante marginal de Vigo até à praia de Canido, por onde se chega a Nigran no caminho para a esbelta Bayona. Primoroso casamento entre o homem e a natureza, é de todos conhecida, mais pela marina e o parador e menos pela parte velha, interior, cheia de bares, onde se realizam genuínas festas medievais. Mais uma vez a longa e nostálgica costa se estende à nossa frente, não tão sinuosa como a norte, até A Guarda, acolhedora vila piscatória e capital dos mariscos e da sua rainha a lagosta. A 10 Km a ponte para Vila Nova de Cerveira que nos libertou do antigo Ferryboat. Mas não entremos já em Portugal. Façamos marcha atrás e recuemos um pouco até ao sopé do monte de Santa Tecla. Se subirmos lá acima, os nossos olhos encontrarão pela frente uma das mais belas paisagens do mundo, não tenho dúvidas. Mas é tarde e o poema já vai longo. Ficaremos aqui na base, em Camposancos, e vamos dar um saltinho ao Hotel Molino, mesmo junto à foz do rio frente a Caminha e Moledo. Propriedade dos amigos Carlos e Margarida, praticamente família da amiga America Soto, de Ourense, oferece uma tão solitária calma e sossego que nos incute a sensação de termos chegado ao fim da terra. Na paz da sua esplanada, junto à praia, podemos saborear a frescura de uma caña, mirando do outro lado do rio a suavíssima costa portuguesa a perder-se no horizonte. Em noite de estrelas e luar talvez ouçamos da boca da Margarida histórias antigas da região, muito especialmente o relato dos horrores da guerra civil, lembrando a casa das torres, um pouco mais acima, onde se refugiavam os seus familiares e muitos outros antifranquistas.

E pronto. Por aqui deixo espalhados alguns dos últimos versos deste magnífico poema que é a Galiza, pois já não serão muitos os abraços que hei-de dar-lhe.

Adão Cruz

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por Augusta Clara às 17:15




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