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Jardim das Delícias


Domingo, 17.06.18

Um dia me darei conta - Adão Cruz

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Adão Cruz  Um dia me darei conta

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(Adão Cruz)

 

Um dia me darei conta do teu corpo infindável
Um dia sorridente me sentirei infinito
nunca esgotado o desejo que nos abraça e nos atormenta
à distância dos sentidos sempre fugazes
sempre perdidos no corpo finito.

Um dia me darei conta
do tempo que não se perde para lá das formas
do tempo em que não murcham
os rebentos cálidos da minha carne
e o sangue não perde o fulgor
das cores abertas ao sol.

Um dia me darei conta
e nesse dia gostaria de partir.

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 16.06.18

Botão-flor da primeira folha verde - Adão Cruz

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Adão Cruz  Botão-flor da primeira folha verde

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(Adão Cruz)

 

Há uma mulher de alvor azul
com um fio de azeite nos lábios finos
e uma gota de água no canto dos olhos secos.
Os lábios foram carnudos e vermelhos de sangue
e os olhos eram verdes como o sol
quando o sol era verde.
Tem o rosto sumido na sombra
descaída ao longo dos braços
como vela despregada de navegar.
Outrora
o mar encapelado brilhava nos seus olhos
cobrindo de espuma branca as alamedas do desejo.
Havia uma cidade entre os lábios
envolta em lagos de montanha
com peixes verdes voando entre os pinheiros.
Não havia pombas brancas
caídas no chão da cidade morta.
Nas ruínas da ilusão
um edifício muito alto se erguia
nas paredes do deserto
e rompia o céu de nuvens negras.
No vão da noite que acolhe os sonhos
o botão-flor da primeira folha verde
inverteu a vida entre o real e o imaginário
nas dobras do tempo em universal dilema.
Há uma mulher de alvor azul
com um fio de azeite nos lábios roxos
e uma gota de água gelada no canto dos olhos
mas cedo se fez tarde a madrugada
sem tempo para morrer
na vida de um poema.

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 15.06.18

Ao redor do nevoeiro - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do nevoeiro

 

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(Adão Cruz)

 

Hoje sou eu que vou ao teu encontro
por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde.
Mas não sei onde estás
nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo
entre dálias e gerânios
entre memórias e sonhos de um segredo.
Mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou
levo comigo a razão
único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas
e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo
para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo
e eu quero abraçar-te pela cintura
neste apagado incêndio dos sentidos
ainda que seja demasiado tarde
para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro
em meu corpo de terra antiga que já não seduz.
Vou dar um passo em falso
para lá dos olhos sem luz
assim o decidi ao ver-te perdida
na altura em que o nevoeiro sem sentido
caía pesadamente sobre a rua.
Mas não eras tu…
era uma chama de lábios e lume
ardendo em estranho leito nupcial
de um qualquer tempo já perdido.
Foi então
que no ventre do nevoeiro
inventei a noite entre lençóis de neve
mordidos de uma luz oblíqua que não era minha nem tua
e se perdia na pele branca
de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse
entre a lua e as águas e o nada…
e fosse demasiado tarde
para ser música no violino da madrugada.

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 14.06.18

Ao fim da tarde - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao fim da tarde

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(Adão Cruz)

 

Ainda é dia ao fim da tarde
ainda há uma réstia de sol no horizonte.
Entre o fim do dia e a morte
ainda há uma ponte onde mora o frio
e onde o coração bate
ao som das luminosas águas de um rio.

Não te posso responder a quente senão choro…
o que há muito não acontece.
À margem da realidade
na magia de um sonho impossível que esmorece
nada mais consigo do que estender meu braço
e tocar os dedos da tua mão firme.
Mas tudo muda e resplandece
e se acende dentro de mim
no frágil redemoinho das palavras que disseste
e só a alma entende.
A música sorridente do teu rosto
canta bem fundo na alma nua da utopia
que ilumina a ponte da tristeza e da agonia.
Não saias dos meus olhos
e deixa-te estar um pouco mais
sobre esta ponte do fim da tarde em que ainda é dia
e há uma réstia de sol no horizonte
deliciosa mentira de uma primavera tardia
no castelo sideral da fantasia
onde hoje habito entre os teus olhos e o infinito.

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 13.06.18

Há-de flutuar uma cidade - Al Berto

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Al Berto  Há-de flutuar uma cidade

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há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade.

 

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por Augusta Clara às 20:32

Quarta-feira, 13.06.18

Exposição de pintura de Adão Cruz, 30 de Junho de 2018, pelas 16h, Galeria Zeller, Espinho

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 Adão Cruz  como um dia de primavera nos olhos de um prisioneiro

 

Caros amigos

A vossa presença, para além de tudo o mais, é uma rica forma de vos ver e estar convosco.

Com um grande abraço do amigo

adão

 

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Inauguração da exposição de pintura de Adão Cruz
"... como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro"

 

30 de Junho de 2018, pelas 16h
Galeria Zeller, Espinho

até 30 de Julho de 2018

 


Adão Cruz
Médico cardiologista.
Nasceu em Vale de Cambra há oito décadas.
Como prisioneiro atrás das grades, sempre amou a Liberdade
do Pensamento e da Razão, a verdadeira riqueza do ser humano.
Foi com este amor que sempre sonhou libertar-se ao longo da vida
pelos caminhos da ciência, da escrita e da pintura.



   Ao fim de uma vida, o futuro vai-se naturalmente dissolvendo, entre a razão e o sentimento, adentro de um ser humano preso à sua natureza antropocêntrica. A desilusão, como subtil nevoeiro, vai invadindo todos os cantos e recantos onde antes havia sol.

Ao fim de uma vida, para a vida entender, o ser humano já não precisa dos caminhos da arte e da poesia, principais sentimentos que sempre o conduziram à interface entre o Homem e a sua dimensão universal. Contenta-se com a restrita paisagem de um dia de Primavera, atrás das grades da sua ‘mente cultural’. Ele sabe que isso o derrota e, paradoxalmente, o alivia. Ele sabe ainda que são escassos os dias de Primavera, mesmo que a parte sã da humanidade procure tecer o ciclo da vida com fios de esperança. Ele sabe que há dias de penoso inverno que a parte mais podre da humanidade aproveita para romper o ciclo da vida rasgando a esperança. Ele sabe, ao fim de uma vida, que o estatuto de cada ser humano assenta num contexto de vivências e memórias que fazem o futuro e o desfazem na altura própria, sendo o último suspiro o momento mais democrático da nossa existência.

Por isso as lágrimas secam e os olhos passam a ver a vida humana com outros olhos. Por isso, esta singela exposição de pequenos gestos que se alimentam de corpos e sentimentos, na procura de uma última homeostasia entre a natureza humana e a humanização da vida.

Adão Cruz

 


   O Adão Cruz é um grande pintor e encanta-me o entrosamento perfeito do homem com a obra como acontece entre ele e a sua pintura. Conhecê-lo é verdade que me ajuda a fazer esta afirmação, mas já expôs em alguns países, tem aparecido em tantas mostras que muitos mais saberão encontrar essa estreita identidade. A sua arte não é inócua, sem que, contudo, obedeça a qualquer cânone.

Fossem as palavras os interlocutores felizes para desvelar a ligação entre a serenidade e o conflito que se digladiam na sua pintura, e eu saberia em que recantos da paleta as ir buscar. As cores e as formas não me deixam. Elas tanto gritam como sussurram, tanto apelam às raízes como ao sol e às invernias da árvore da vida, aos vendavais do mundo. E não toleram que lhes toquemos. ‘Podes intuir, mas não venhas perturbar-nos’ avisam mal me vêem por perto. No entanto, sabem que não me são indecifráveis porque à pintura do Adão Cruz nada é indiferente e deixa um ténue fio por onde se pode chegar à teia dos afectos e das revoltas que a permeiam, por vezes apenas ao puro reino da beleza.

Mas não me vencem! Como se se pudesse perder o que ainda é humanidade e, se não nos salva, nos reafirma neste caminho de altos e baixos das montanhas e das planícies, das marés vazias e do mar alto da existência.

Tudo lá está nos quadros do Adão Cruz.

Augusta Clara de Matos



   Tomei contacto com a obra de Adão Cruz tardiamente no blogue ‘Estrolábio’, onde ambos colaborávamos, despertando de imediato a minha atenção. De seguida, chegou-me o convite para a inauguração da sua exposição ‘rente ao cair da folha’, na Galeria Zeller, em Espinho, a que não pude assistir por razões profissionais. Na manhã do Sábado seguinte, fui o primeiro visitante da exposição, tendo tido o privilégio de a percorrer sozinho. Momento de felicidade que a vida me proporcionou!

Ao primeiro olhar fui de imediato atraído pela cor e, de seguida, pela luz, por uma luz que afasta a escuridão, ajudando-nos a ver o que, às vezes, os olhos não detectam. Depois, ao passar de um quadro para outro, algo me obrigava a regressar ao anterior por sentir, nesse curto afastamento, que havia mais um pormenor a atrair a minha atenção. O diálogo entre mim e o autor estabeleceu-se, a pintura do Adão levava‑me a ver o real muito para lá do que a minha simples visão me permitia quando olhava esse mesmo real, ajudando-me assim a procurar a verdade, a procurar a resposta para alguns dos enigmas com que somos confrontados. Regressado a casa, sentei-me ao computador e escrevi quase tudo o que senti nesse diálogo com a pintura do Adão.

A necessidade de conhecer toda a sua obra nasceu em mim.

Lia a sua poesia, lia a sua prosa e a sua pintura logo se me tornava presente, seguindo-se o necessário encontro pessoal, que aconteceu por mero acaso. O médico, o pintor, o poeta, o contista faz do seu saber e da sua arte uma das formas de actuar em prol do humano, numa acção, que é também política e social, assim contribuindo para a necessária transformação do mundo em que vive.

António Gomes Marques

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por Augusta Clara às 16:19

Terça-feira, 12.06.18

Os pássaros brancos - W.B. Yeats

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W.B. Yeats  Os pássaros brancos

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(William Turner) 

 

Quem me dera que fôssemos, amor, pássaros brancos sobre a espuma do mar!
Cansamo-nos da chama do meteoro antes de ele fugir e se extinguir;
E a chama da estrela azul do crepúsculo, suspensa sobre a orla do céu,
Despertou nos nossos corações, amor, uma tristeza que não pode morrer.
Humedecida de orvalho chega uma lassitude daqueles que sonharam o lírio e a rosa;
Oh. não sonhes com eles, amor, a chama do meteoro que passa,
Ou a chama da estrela azul que se detém suspensa na queda do orvalho,
Pois quem me dera que nos tornássemos pássaros brancos sobre a espuma errante: eu e tu!
Estou assombrado por inúmeras ilhas e muitas praias dos Danaan,
Onde o Tempo certamente nos esqueceria e a Tristeza não mais se aproximaria de nós;
Em breve estaríamos longe da rosa e do lírio e seríamos consumidos pelas chamas,
Se ao menos fôssemos pássaros brancos, amor, flutuando na espuma do mar!

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por Augusta Clara às 16:11

Segunda-feira, 11.06.18

Homens entulho - Adão Cruz

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Adão Cruz  Homens entulho

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(Adão Cruz)

 

Para além de nós há o mundo
e durante muito tempo ignoramos o mundo
esquecemos as valas comuns que toquei ao de leve
muito ao de leve
não fosse os mortos magoar.
Nas margens verdes do Dniepre
regadas de lágrimas
onde cresceram flores sobre o chão de Babi-yar
umas de sal e água no mar quente de Bissau
bordando a lodo o cais de Pidjiguiti
outras de sangue esguichado das cabeças
à tona de água em último respiro
outras de terra ensopada em rios de morte
no ventre de um Wiriyamu fuzilado
na penugem de Chinteya
nas balas de Vaina
no esventrar de Zostina
nos gestos de um vulcão de raiva
em cada taça de vingança
que nem a morte amansa
nos túmulos da Palestina.
Sangue de Cristo
In Nomine Patris
mártires sem martirológio
corpos fecundos
erguei bem alto os ossos descarnados
que a morte é de acordar
e semear flores na aposta de outros mundos
erguei os rostos mirrados dos famintos da Terra
dos homens-entulho da grande vala comum
cavada no peito dos Humilhados e Ofendidos
pelos homens sem rosto
rasgada no ventre dos Condenados da Terra
pelos homens sem alma.

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por Augusta Clara às 16:14

Sábado, 09.06.18

Saudade - Adão Cruz

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Adão Cruz  Saudade

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(Adão Cruz)

 

Nem sempre a saudade é distância, tempo ido ou presente incerto.

Nem sempre a poesia é de flores e música.

Tudo isto pode ser apenas uma porta que se abre para tu entrares.

 

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por Augusta Clara às 17:39

Segunda-feira, 04.06.18

Adão Cruz, 2018

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 17:23



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