Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Terça-feira, 19.10.21

A Palavra - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Adão Cruz  A Palavra

245366871_5005008786193568_6993276631187832227_n1.

 

(Adão Cruz)

Mal-aventurada palavra
bem-aventurada palavra
espectaculosa ou mal-entendida
repentina
abandonada
terrosa ou etérea.
Penoso viver do lado direito
com obtuso cérebro
que irradia uma luz cor-de-rosa
de banal bom-senso
ridícula
religiosa e fria
estranho conúbio de cálculo e histeria.
Do lado esquerdo
vestígios de terra seca
retocados de sol e água
húmida palavra
secreta transição
da estreiteza da vida
para a infinita margem do sonho.
(palavras tépidas
impuras
laterais
insalubres
umbrosas
sepulcrais).
(Monumentais
desdobráveis
descobríveis
maduras de oiro e trigo
e absurdo desejo da verdade do céu azul
e do imenso tossir
na poeira dos ideais insubmissos).
(Jactância lodosa
leitosa
cuspida em translúcidos horizontes
respirando asfixia
na secura de todas as fontes).
Dúctil criatura de aço e pés pequenos
e largo sonho de vibrações
das manhãs de rosto alvo
sem distâncias nem delírios.
Bem-aventurada palavra
(mal-aventurada palavra)
viva
(morta)
sensual
(fria)
erecta
(impotente)
ondeante
(informe)
famélica
(obesa)
...palavras frementes.
"Eu temo muito o mar
o mar enorme
solene
enraivecido
turbulento...”
Se minha amada um longo olhar me desse
de seus olhos que ferem como espadas
eu domaria o mar que se enfurece..."
com a força das palavras estranguladas.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:48

Domingo, 17.10.21

Robert Burridge (EUA, Calfórnia, 2014)

robert burridge (EUA, california), 2014a.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 00:31

Quarta-feira, 13.10.21

Lágrima de Inverno - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Adão Cruz  Lágrima de Inverno

árvores1.jpg

(Adão Cruz) 

Aquece-nos o sol de Inverno
nascido de um amor criança
de muitos invernos de pés frios.
Dia pequenino e preguiçoso
suspiro de angústia e carícia
nascido nas entranhas das raízes.
A noite acende a beleza nua
escurecem as pupilas
por entre os lábios do desejo
no olhar tépido da lua.
As mãos da solidão abrem a madrugada
as árvores celebram o nascer do dia
e na lareira adormecida
um ramo seco aquece o frio da manhã vazia.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:07

Quarta-feira, 18.08.21

Adão Cruz, 2017

IMG_5857a.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:06

Quarta-feira, 18.08.21

Afeganistão — um mono, por Carlos Matos Gomes

pingos1.jpg

Carlos Matos Gomes Afeganistão — um mono

carlos matos gomes.jpg

   Tht’s all folks — é tudo, malta. Não há mais pipocas
Uma das definições de mono é a de “mercadoria sem venda no comércio”, de “qualquer coisa que deixou de interessar”. Desde o 11 de Setembro de 2001, o Afeganistão foi um falso alvo, uma fancaria. Um tigre de papel, na linguagem maoista dos anos 60 e 70. Transformou-se definitivamente num nono para os Estados Unidos com o anúncio da captura e morte no Paquistão, de Bin Laden, o saudita chefe da Alqaeda, em 2011, com direito a filme de rambos.
A Alqaeda e Bin Laden foram o produto desenvolvido a partir de um dos muitos bandos da região e de fanáticos locais, inchado, armado e subcontratado pela administração Reagan para fazer a guerrilha contra a URSS, que ocupara o Afeganistão para evitar a islamização das repúblicas soviéticas do sul. A teoria de que a URSS pretendia avançar para as “águas quentes” do Índico foi uma narrativa para vender armas e justificar ações, que muitos “estrategistas”, incluindo militares, pregaram sem correspondência com qualquer racionalidade. Na realidade, a administração Reagan pretendeu apenas negar a um inimigo (a URSS) a posse de um território que lhe era relativamente importante. Um objetivo clássico nas manobras militares. A administração dos EUA conseguiu a vitória de Pirro: a URSS abandonou o Afeganistão e os EUA “ganharam” a Alqaeda bem treinada e equipada, com um louco como chefe carismático e um imbróglio com os aliados sauditas, os maiores compradores da quinquilharia produzida pelo complexo militar americano e comparsas de Israel na desestabilização do Médio Oriente.
Neste escuro e pantanoso cenário, o Afeganistão passou a ser o saco de pancada de todos os males do Ocidente, o punching ball. Não servia para nada, a não ser para mostrar o poderio dos EUA, de campo de lançamento de bombas, algumas experimentais, de bode expiatório para atos do terrorismo islâmico, cujos verdadeiros autores nunca foram identificados. Mesmo considerando que estes atos poderiam ter servido de justificação aos governantes americanos para, através deles, imporem aos europeus determinadas cumplicidades políticas e impedirem determinadas alianças, caso das aproximações à Rússia, o Afeganistão esgotara-se como produto com alguma utilidade estratégica… De repente até o terrorismo islâmico na Europa se esvaiu como por milagre!
Durante a administração do idiota Bush, Bush Jr, o Afeganistão serviu para Donald Rumsfeld, ministro da defesa americano, amigo de Paulo Portas, o atual virologista da Televisão, e Dick Cheney, o vice-presidente, dois traficantes de armas e empresários de empresas militares privadas, desviarem as atenções das responsabilidades da Arábia Saudita no terrorismo e fazerem fortuna. Obama manteve em velocidade de cruzeiro o negócio do complexo militar industrial, até o secar quando entendeu conveniente, com o anúncio da captura de Bin Laden. O espetáculo montado à volta da eliminação de Bin Laden constituiu a cena preparatória do final do espetáculo americano no Afeganistão. Da hora de emalar a trouxa.
Os talibans estavam reduzidos a grupos de traficantes de heroína e de contrabandistas, sem valor militar, e apesar das barbas e das fatiotas medievais, já não serviam para apresentar aos americanos pagantes de impostos como justificativo para as exorbitantes despesas (impostos), nem para mobilizar uns soldaditos que perderiam vidas e membros. Acabara o enredo de filme épico do Afeganistão, quer como bandeira patriótica que justificaria aos simplórios americanos votar num atrasado mental porque é um presidente em guerra, quer como mercado de armas de empresas militares privadas. A administração Trump percebeu o fim do ciclo de negócio e do embuste e anunciou a retirada das tropas e empresas americanas. Biden encerrou as portas do estanco sem contemplações. That’s all folks, isso é tudo, malta, como diz o Bugs Bunny nos filmes da Walt Disney. Acabaram as pipocas.
Os EUA já haviam perdido as posições que lhe garantiam o domínio do Médio Oriente: perderam na Síria, perderam no Irão, o Iraque era e é um ninho de vespas da qual não sabem como se libertar, a Turquia joga com um pau de dois bicos com a Rússia. O Afeganistão já não tem, pois, qualquer utilidade no jogo de forças que se trava no Médio Oriente e na Ásia Central. Para os Estados Unidos o Afeganistão passou a ser um mono que podia, pode e deve ser abandonado à sua sorte a bem do negócio: os EUA têm de concentrar forças no seu quintal da América Latina e no Pacífico. O Afeganistão não tem qualquer serventia para nenhum dos atores mundiais, nem para a China, nem para Rússia. Há 38 milhões de afegãos? São danos colaterais. Também havia uns milhões de vietnamitas do Sul… Lamentamos. Levamo-los a todos para a América nos nossos corações e lembrar-vos-emos nas nossas orações. Os talibans prometeram-nos ser simpáticos, respeitadores e tolerantes. Alá é grande e misericordioso.
O Iraque será o próximo mono a ser despachado. O petróleo vale cada vez menos como produto estratégico, até está mal visto pelos ambientalistas que são cada vez mais. O Médio Oriente é para desinvestir, para fechar as cortinas, ou passar para segundo plano. O novo palco de disputa mundial será o Pacífico, o Mar da China.
Eu, se fosse dirigente da Arábia Saudita, punha as barbas de molho. Os pró-americanos da Ucrânia também deviam pensar na vida, assim como os das repúblicas bálticas, os polacos e húngaros que se têm disponibilizado tão servilmente para servir de bases temporárias aos espetáculos de circo e feras de Washington. É que bem podem ser os próximos monos a ficar sem pipocas e sem Coca Cola."

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 12:54

Segunda-feira, 16.08.21

Impossibilidade - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Impossibilidade

image002a.jpg

(Adão Cruz) 

Persegue-me a impossibilidade de lá chegar…
Como se fora um belo dia de primavera
nos olhos de um prisioneiro atrás das grades.
Faltam-me as pernas
o tempo
as palavras e o caminho.
Falta-me a força das coisas simples
e o gesto subtil da liberdade.
Cada dia é um mundo
oferecendo-me todos os frutos que não sei colher
cada cidade um labirinto por onde não sei andar.
A minha fragilidade é metade de um sonho inacabado
a outra metade é este quadro
que pinto numa manhã de sol da minha doce loucura.
Tremem-me as pernas a caminho de Belvedere
onde me espera Egon Schiele
num salão enorme tendo ao fundo uma mulher.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:15

Quinta-feira, 05.08.21

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

IMG_5815a.jpg

(Adão Cruz)

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas rouxinóis e cotovias
sardões caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
Todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
e neles a inocência morria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 23:00

Terça-feira, 03.08.21

Poesia - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  Poesia

 

vale de cambra 9 de julho de 2018 (2).jpg

 

 

   É muito difícil saber o que é a poesia, e eu duvido de quem diz que sabe o que é a poesia. Tenho ouvido as mais variadas explicações e definições, mas o horizonte que me transmitem é sempre nebuloso. Isto não impede, contudo, que tenhamos o direito à manifestação do nosso pensamento e da nossa razão.
Pessoalmente, sem ter a veleidade de pretender procurar definições de poesia, senti sempre a necessidade de perceber o que é, necessidade de a entender e de me entender no seu complexo e maravilhoso mundo. Por isso, ao longo de tantos anos de reflexão, fui dando comigo a pensar que a poesia não é mais do que um sentimento como outro qualquer. Assim sendo, prefiro chamar-lhe sentimento poético. Um sentimento como o sentimento do amor e do ódio, o sentimento da alegria e da tristeza, o sentimento da coragem e do medo, o sentimento da felicidade e da infelicidade, bem como o magnífico sentimento da liberdade, sobretudo da liberdade interior, a liberdade do pensamento e da razão, as maiores riquezas do ser humano. Um sentimento, não no sentido sentimentalista mas no sentido neurobiológico do termo, um sentimento muito subtil, uma espécie de brisa mágica perpassando pela nossa mente, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, provavelmente de uma neuronalidade muito específica e delicada, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem. Eu penso que a sua arte reside na combinação da palavra justa com a adequada sensibilidade e energia sinestésica que fazem o poema acordar. A poesia não é uma emoção porque a emoção não é consciente, embora a emoção poética seja o caminho obrigatório e quase instantâneo para o sentimento, o sentimento poético, esse sim, consciente. Não é, contudo, um sentimento de cópia da realidade mas de simbolização, a evocação e a invocação ao mais alto nível, da beleza e da nobreza da realidade. O fenómeno poético poderá ser entendido como uma harmonia verbal e mental em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se fundem num resultado de suprema fruição estética para quem o vive de forma profunda. O chamado poema, considerado a matriz literária onde habitualmente nasce e germina a poesia, pode até ser estéril, pode não passar de uma espécie de andaimes da construção poética, ou ser mesmo a negação da poesia. A poesia, o sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo mesmo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida numa pintura ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso, em minha opinião, qualquer forma de expressão artística, qualquer obra de arte só o é se contiver dentro de si a poesia do sentimento artístico, o sentimento poético.
Daniel Barenboim dizia que a música não é o som. De facto, todos sabemos que a música se exprime através do som, mas o som, em si mesmo, não é música, é apenas o meio físico através do qual é possível transmitir a mensagem mental da música. Todos conhecemos as notas musicais, todos somos capazes de as dedilhar nas teclas de um piano, mas daí a gerar um sentimento poético e artístico musical vai um abismo. Todos conhecemos as letras e as palavras, todos somos capazes de as juntar e com elas comunicar, de forma primária ou erudita, mas daí a criar arte literária ou sentimento poético vai um abismo. Criar poesia pode não ser apenas entrelaçar palavras dentro de uma construção ou estrutura chamada poema, pode não ser encastelar versos uns em cima dos outros, fazer frases labirínticas que ninguém entende, engendrar rimas e outras coisas que não passam, muitas vezes, de execuções sumárias da poesia. Assim sendo, a poesia pertence á nossa área neuronal, à esfera das emoções, sentimentos, consciência e afectos. Ao fim de uma vida de interrogações e reflexões, eu posso dizer que encontrei as minhas verdades, que sempre o serão até me provarem e convencerem de que o não são, o que não tem acontecido. Para quem, como eu, materialista convicto, não aceita qualquer dualismo corpo-espírito mas apenas o todo uno e indivisível do ser humano, essas verdades ou pelo menos algumas delas até poderão ser a Verdade.
Todos nós possuímos no nosso cérebro o mesmo esquema neural de um sentimento, já que é o esquema neural da nossa espécie. Mas o padrão neural desse sentimento que vai encaixar no nosso esquema neural é diferente em cada um de nós. Todos, de uma maneira geral, temos o mesmo esquema de vida. Todos nos levantamos, todos tomamos banho, vamos para o trabalho, andamos de carro, fazemos férias, todos rimos e choramos, mas as nossas vidas, os nossos padrões de vida podem ser muito diferentes, desde a simples camisa à profundidade do nosso íntimo. Os sentimentos não se constroem, não aparecem nem se manifestam aleatoriamente de um dia para o outro. Além disso, os sentimentos são o resultado de uma infinidade de factores que interagem entre si e os tornam tão intimamente ligados que só de forma artificial e académica tentamos separá-los e individualizá-los. Todos nós nascemos, como disse, com os esquemas neurais dos sentimentos da nossa espécie. Mas assentes nesse terreno genético, cada um de nós vai criando os padrões dos seus próprios sentimentos, através de uma curva de vivência e aprendizagem de uma vida inteira. Uma pessoa que tenha tido uma vida repleta de amor, que tenha vivenciado o amor na sua plenitude, adquire um padrão do sentimento do amor muito diferente do sentimento do amor de uma pessoa que nunca amou ou nunca foi amada. Uma pessoa que toda a vida viveu na miséria, no meio de agruras e dificuldades de toda a ordem, terá provavelmente um sentimento de carência que pode ser totalmente diferente do sentimento da pessoa que nunca teve dificuldades e viveu toda a vida na abundância. Dentro do nosso esquema neural já haverá, porventura, embriões dos diversos sentimentos que vão nascer connosco, que depois crescem, se desenvolvem e se vivenciam, e que a epigenética vai moldando, construindo, estruturando, apurando e afinando dentro de cada um. Para o bem e para o mal. Assim acontece com o amor, o ódio, a alegria, a tristeza, o medo, a coragem, sentimentos do nosso dia-a-dia. Não acontece tão facilmente, penso eu, com o sentimento poético e o sentimento artístico porque eles, a meu ver, não são vividos nem desenvolvidos pela globalidade das pessoas. Apenas os vivem aqueles que deles sentem necessidade e por eles se sentem atraídos, aqueles que os vão apurando, que os enobrecem e que com eles se habituaram a conviver como metabolitos essenciais da sua vida. Como é óbvio, mesmo assim, de formas diferentes em cada um de nós.
Então, poderemos tentar dizer, cautelosamente, o que será um poeta. Eu penso que ser poeta é, antes de tudo, ser possuidor de um sentimento poético profundo e muito apurado, construído através de uma vivência de amor, atracção e dedicação à poesia, vivendo-a de uma forma indissociável do viver da vida. Mas para além desta aprendizagem de uma vida inteira, creio que é fundamental na construção do sentimento poético uma formação cultural global do ser humano tão sólida quanto possível, uma visão humanística e livre do mundo e das coisas, a par de uma bem estruturada formação ética e estética. Só assim se entende, como parece comprovado através de estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, melhoram e purificam todos os outros sentimentos, ajudando-nos no caminho do equilíbrio, da harmonia e da justiça. Penso ainda que muito daquilo que andamos para aqui a fazer e a que chamamos poesia, não passa, tantas vezes, de arremedo, de ilusão e desilusão. E também penso que é um erro pretender que o sentimento poético chegue às pessoas por artes mágicas. Dito por outras palavras, julgo que é um erro pretender levar às pessoas a poesia ou sentimento poético como se de uma actividade lúdica ou de prenda banal se tratasse. Dizia Schiller que o vulgar é tudo aquilo que não desperta outro interesse que não o sensível. A arte e a poesia não podem descer ao puramente sensível, à mera receptividade sensorial, à fugaz captação de estímulos incapazes de serem vividos condignamente nas complexas oficinas neuronais da nossa mente. Não é a poesia e a arte que têm de ir ao encontro das pessoas, não é a poesia e a arte que têm de descer ao comum dos mortais, mas é o ser humano que tem de ascender ao sentimento artístico e poético através de políticas culturais e condições sociais que a todos permitam sentir a necessidade da poesia e da arte como um elemento essencial da vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 00:25

Domingo, 01.08.21

Mas - Carlos Matos Gomes

pingos1.jpg

 

Carlos Matos Gomes  MAS

carlos matos gomes.jpg

 
Dos que atiram a pedra e escondem a mão
 
   Além dos putativos herdeiros dos movimentos mais violentos e totalitários da história moderna e contemporânea de Portugal, desde a Vilafrancada miguelista de 1823, até aos bombistas e saqueadores reunidos na sé de Braga e nas escritórios do franquismo em Madrid, do cónego Melo ao comandante Alpoim Calvão que colocaram “Portugal a arder” com o ELP e o movimento Maria da Fonte, dos que ainda choram o fim da ditadura e da guerra colonial, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho proporcionou o ressurgimento de um outro grupo, o do “mas”. O grupo dos falsos “cândidos”, dos que argumentam candidamente que a operação militar foi boa, “mas” a revolução não foi democrática e o seu desenrolar até foi atribulado.
Os do “mas” não perdoam a Otelo a responsabilidade de ter transformado um putsh militar numa revolução, incentivado os portugueses a agir e a organizar-se espontaneamente para decidir o que fazer após o derrube da ditadura, o fim da polícia política, dos tribunais plenários, da censura, do poder patronal absoluto! Ora, esta liberdade tomada por necessidade e impulsionada por Otelo, constituiu e constitui uma ofensa imperdoável aos “mas” sobre o que “devia ser uma democracia”, trazida já talhada, pronta-a-vestir do Posto de Comando da Pontinha, ou, ainda melhor, de casa do general Spínola.
O grupo do “mas” acusa Otelo de ter aberto as portas a uma democracia para a qual não se tinham preparado, que não lhe reservara lugares, que não respeitava os seus chefes de clãs, que não resultava de confrarias e ordens com santos hierarquizados, doutrinas e credos estabelecidos, com programa, estatutos, cartões, controleiros e chefes de secção! Otelo abriu as portas a uma democracia sem ungidos, sem secretários-gerais e adjuntos, herética aos olhos dos defensores do condicionamento político da sociedade, para quem a democracia é um exclusivo dos partidos e, destes, apenas os das famílias com denominação de origem controlada — DOC — pela elite europeia e americana.
Otelo não foi nem quis ser o fila guia, o turibulário, o incensador de um golpe que se limitaria a legalizar o Partido Comunista e a distribuir os lugares e prebendas no aparelho do Estado até aí exclusivas da União Nacional/ANP por pessoal de confiança das famílias políticas europeias do pós II Guerra. Uma nova elite que, quanto ao problema colonial, se libertasse da guerra na Guiné, dividisse Moçambique e se concentrasse em preservar o domínio de Angola pelos grandes grupos europeus e americanos e que, quanto a Portugal, abrisse o mercado e não assustasse os falangistas espanhóis. Este era o papel reservado a Spínola e aos partidos que iriam ser fundados, ou desenvolvidos a partir de embriões de recente fecundação.
O reconhecimento imediato da independência da Guiné declarada pelo PAIGC por parte dos militares do Movimento dos Capitães local e das negociações desde logo iniciadas com a FRELIMO, em Moçambique, pelos oficiais do Movimento daquela colónia não permitiu a Spínola desempenhar o papel de “descolonizador conveniente”; e o aparecimento do COPCON, comandado por Otelo, como um contrapoder e não como um aparelho repressivo, impediu a rápida partidarização do novo regime, a sua “normalização, ou domesticação. É esta conjugação de fatores que os adeptos do “mas”, os falsos cândidos, apelidaram de PREC, que levou Spínola à demissão em Setembro de 1974, ao 11 de Março de 1975 e ao “Verão Quente”.
A descolonização imposta pela recusa das tropas de continuarem a combater em África e o subdesenvolvimento de Portugal não permitiram a “transição pacífica” do regime, a maquilhagem do Estado Novo colonial numa “democracia” sem alterar as relações de poder das castas superiores e mantendo os cidadãos à distância, como viria a acontecer em Espanha.
Na morte de Otelo, os “ressabiados”, herdeiros do absolutismo, do Portugal grotesco e caceteiro, arrogante e pesporrente, saíram à luz do dia a verter lágrimas de crocodilo pelas vítimas da violência, sendo que esta sempre constituiu a sua principal ferramenta de domínio, os “ mas” vieram apoucar o papel de Otelo, reduzi-lo a um major de artilharia que rabiscou um plano de operações numa folha de A4 e num mapa do Automóvel Clube, que não sabia o que era “uma democracia como devia ser”. Classificam-no como uma personalidade controversa e contraditória, sem perceberem que o estão a distinguir e a elevar entre os comuns. Os primeiros, os ressabiados, são os “tios” e “tias” que continuam a lamentar o fim das criadas de servir, os agrários que se queixam do fim dos trabalhadores pagos à jorna e dos ranchos de “ratinhos” idos das Beiras para o Alentejo, os patrões que viviam à custa de operários sem direito a sindicato ou a até a horário. Os segundos, os “mas”, são os que temeram e temem uma democracia da qual não fossem e não sejam os mestres!
Otelo não levantou nem guarneceu as barreiras de proteção que, segundo os ressabiados e os “mas”, deviam separar o povo instalado na geral do teatro do poder do dos senhores doutores acomodados nos camarotes! A sua morte trouxe para os jornais e televisões os herdeiros dos integralistas e relembrou a persistência de um Portugal de seres mesquinhos, interesseiros, de um lupmen de bem-apessoados e bem instalados que, para defender os seus interesses, não hesitará em colocar um “mas” na fórmula atual de democracia e de Estado de Direito, de se unir aos ressabiados, não certamente para melhorar a vida dos portugueses, nem lhes acrescentar liberdade, mas para impor um regime que lhes seja mais rentável, porque sempre viveram de rendas e de ausência de princípios."

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 23:53

Segunda-feira, 26.07.21

Em homenagem a Otelo - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Em homenagem a Otelo

otelo3.jpg

 

Um cravo vermelho
cristal de vida no céu de chumbo
cada dia um mundo limpo e perfumado
graças a ti flor da minha idade.
Caminho da esperança às portas da cidade
todo o mel e todos os frutos ali à mão.
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã despertou agitando as árvores.
E a noite se fez de estrelas que desceram aos cantos do jardim.
Um cravo vermelho e quente
mais que tudo amando a vida
em qualquer língua entendida.
O mundo tinha o sabor de uma maçã
e os olhos inacabados eram cravos vermelhos.
Não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira na praça do entusiasmo
e uma jovem mulher
dormindo um sono de criança nos telhados da revolução.
O seu rosto era uma nuvem dourada pelo sol e pela lua
os cabelos trigueiros uma seara
e nos lábios a canção de Abril que encheu a rua.
Hoje…
Hoje não sei se é dor se alegria
o que sonho quando abro ao sol as portas de Abril.
Não sei se é dor
tristeza ou alegria
aquilo que sinto neste dia
em que Abril faz tantos anos de saudade e nostalgia.
Anos de luminoso tremor
corações ao alto
quadros verdes de sonho e raiva
de sol e chuva em celeste azul
luzindo nos olhos de uma gaivota
branca gaivota de penas mansas voando solitária dentro de mim
à volta de um cravo vermelho que me ficou dentro do peito.
Abro as janelas a medo neste areal de céu escuro
contra o mundo
a idade e o cansaço
e não sei se é vida ou amargura a estreiteza deste espaço.
Sei que um rio de negras águas cavalga as margens do meu ser
por entre as fendas da secura
e outra vez afoga a democracia às mãos de nova ditadura.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:02



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • frar

    NÃO FALES EM EUROPA FALA EM LIBERDADE!---> a l...

  • Augusta Clara

    Pela minha parte obrigada Inês. Bj

  • Anónimo

    A poesia é como a música. Compreendo-o. E a Baremb...

  • Augusta Clara

    Obrigada pelo seu comentário. Vou ver se descubro ...

  • Eugénio

    W. B. Yeats é um poeta wue gosto muito. O meu pred...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos