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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 19.04.18

Tão cosmopolitas que eles são - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Tão cosmopolitas que eles são 

 

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   Porque é que as cidades não podem ter bairros antigos com gente lá dentro?

Como é que uma vereação socialista cede à explosão da especulação imobiliária que está aí outra vez sem ter nada a ver com isso? Só pelo turismo? Não acredito.

As cidades têm de preservar a sua história e essa opção, por si só, potencia o turismo, regula-o e educa-o não permitindo que, a pretexto da entrada de divisas, hordas invadam desenfreadamente as ruelas e os bairros mais antigos cuja população, na sua maioria, envelhecida e pobre merece viver em paz os anos tardios das suas vidas.

Eu sei que os cosmopolitas de pacotilha que por aí abundam consideram quem tem esta opinião um careta que “não tem mundo”, não está aberto ao futuro, etc., etc. etc.  Mas cosmopolitismo, na minha opinião, exige inteligência e gosto estético.

Ninguém nega que as cidades têm de evoluir, como tudo na vida e Lisboa já tem uma cidade nova na zona oriental. É pena que seja mais um amontoado de arranha-céus, muitos só ao alcance de detentores de vistos gold, e não se tenha aproveitado para praticar uma arquitectura arrojada mas bela como Óscar Niemeyer fez com Brasília,

Voltando aos bairros antigos do centro: para que serve uma autarquia que, em vez de recuperar as casas, interior e exteriormente, deixando em paz os seus habitantes, tratar dos pavimentos das ruas e preservar as características desses bairros também protegendo o seu património comercial e cultural – em Lisboa, têm desaparecido muitas lojas de qualidade, os cafés, os cinemas, as livrarias - aceita com toda a desfaçatez que “vem aí uma epidemia de despejos” como se fatalmente não tivesse nenhum poder na cidade?

Tenho ouvido dizer a alguns arquitectos que a sua arte tem muito a ver com o bem-estar das pessoas. Pois, por aqui, tudo se está a passar ao contrário.

Amigos cosmopolitas, olhem lá para isto com olhos de ver, sem preconceitos de “p’ra frentex”.

 

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por Augusta Clara às 20:03

Segunda-feira, 16.04.18

Les animaux de la Macronésie - César Príncipe

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César Príncipe  Les animaux de la Macronésie

 

 

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   Um tal Emmanuel Macron, o pauvre diable que se senta com ar de monarca no Eliseu, declarou ao Mundo e a Marte que tem provas do emprego de armas químicas pelo regime sírio. O garçon de bureau Rothschild dispõe de fontes autorizadas: os Capacetes Brancos, bandidos angélicos e evangélicos, que actuam como encenadores e delegados de propaganda médica no terreno dos terroristas; o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede natural em Londres, donde jorram informações diárias para o planeta e – claro – possui os seus serviços de intelligence à la carte, aptos a fabricar evidências à medida de Colin Powell e em tempo oportuno. Macron finge que acredita em si mesmo e inventou a Macronésie, a fim de assegurar um lugar que se veja e uma voz que se ouça à superfície do globo. O pauvre, abarrotado de problemas sociais em casa, oferece-se ao rambo Trump para ir à caça ao leão pelas estradas e sobretudo pelos céus de Damasco. E Theresa May, a inventora do fármaco Skripal, disponibilizou-se como enfermeira de drones.

É esta a parelha que tenta pregar um susto à Rússia: a ex-Grande França e a ex-Grã-Bretanha. A França, com o pigmeu de tacão alto Sarkozy, foi até à Líbia assassinar o financiador; a Inglaterra, com a dama de ferro Thatcher, foi até às Malvinas e obteve meia vitória militar. E não poderão ir muito mais além. Em termos de definição global de forças, a França e a Inglaterra esgotaram o potencial hegemónico no séc. XIX. Mas parece não haver maneira de se capacitarem da sua condição: não passam de duas fantasias pós-imperiais. Chegaram ao séc. XXI com um superego que não corresponde às circunstâncias. Não são as exibições de circo mediático que repõem a paridade geo-estratégica. Por isso, tementes de uma dura ensinadela (quem vai à guerra, dá e leva) prontificam-se a servir os USA e deita-fora. Pouco ou nada arriscam sozinhos. Não vá o diable tecê-las.

A guerra, em 2018, não se ganha com fanfarronadas do roy-soleil de la Macronésie nem bestialidades do hooligan Boris Foreign Office. Ou será que ninguém os detém até que os seus países se evaporem num sopro? Poupem o Musée du Louvre e oNational Theatre, meus senhores! Segundo os experts do royal power, em caso de conflito nuclear, mesmo selectivo, estas duas ufanas e medianas nações gozam de dez minutos para se benzerem e encomendarem a alma a Joana d'Arc e a São Jorge. Compete aos franceses e aos ingleses com mens sana exigir, com carácter de urgência, o desterro do casal Macron-May. Merkel afastou-se da armada do bidão de cloro . Um ex-presidente, Hollande, acaba de lembrar ao sucessor que os franceses costumam decapitar os monarcas. O próprio Pentágono reconhece que não tem provas credíveis da pulverização. Anda no seu encalço. Só conhece o caso do animal Assad pela Imprensa e pelas ditas redes sociais. Mas Macron está na posse da verdade revelada. Mas May convoca o Conselho de Guerra. Mas multiplicam-se os avisos, os agoiros, as reticências. Se os USA acabarem por dispensar os guerreiros franco-britânicos, será que estes avançarão de peito feito às balas, aos mísseis, aos gases, à hecatombe, à capitulação?

De qualquer modo, devido ao perigo que representam para a humanidade, embarquemos Macron para os cascalhos da Córsega e May para os rochedos de Gibraltar. Estão carecidos de descanso e algum estudo. Um dos manuais poderá ser de etiqueta. Por exemplo, Como Deverá Comportar-se uma Fera sem Garras ante um Predador de Grande Porte. La Fontaine, se fosse nosso contemporâneo, editaria uma fábula à propos: Les Animaux de la Macronésie.

 

Nota, 13/Abr/18/10h10: O facto do texto ter sido redigido na véspera dos bombardeamentos da Síria, não invalida nem uma letra da denúncia e do alcance da fábula Les Animaux de la Macronésie. Primeiro: as forças franco-britânicas não passam de chiens de guerre dos USA. Segundo: a operação de terrorismo aéreo do triunvirato não se aventurou ao ponto de uma contra-resposta da Rússia. Terceiro: a tríade não esperou pela chegada a Duma dos especialistas da Organização para a Proibição de Armas Químicas/OPAQ, que conta com o sufrágio de 190 países (incluindo os atacantes), e estava prevista para o dia 14 do corrente. Os amigos da verdade adiantaram-se às conclusões. Já assim foi no Iraque: mandaram retirar do terreno os inspectores que procuravam e não encontravam as armas de destruição maciça que existiam nas irrefutáveis provas de Bush, Blair, Aznar e Barroso e nas ilustres cabecinhas do império mediático.

 

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por Augusta Clara às 04:06

Terça-feira, 10.04.18

Emiliano Cavalcanti - "Samba"

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Emiliano Cavalcanti

 

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(Samba)

 

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por Augusta Clara às 21:00

Terça-feira, 10.04.18

Seita reaccionária de 'comentadeiros' lusitanos contra Lula - Alfredo Barroso

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Alfredo Barroso  Seita reaccionária de 'comentadeiros' lusitanos contra Lula

 

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   A indignidade dos "comentadeiros" reaccionários - que pululam como cogumelos venenosos nas páginas dos jornais e nos canais de TV portugueses - vai ao ponto de comparar Lula da Silva, o ex-presidente do Brasil que se tornou preso político, com o insensato, desbocado e colérico Bruno de Carvalho, futuro ex-presidente do Sporting. O que é o mesmo que, por exemplo, comparar o colunista do "New York Times" e Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, com o simploriamente reaccionário e sectário "comentadeiro" de última página do "Público", João Miguel Tavares, que se tornou famoso por ter insultado José Sócrates e por isso ter sido levado a julgamento e absolvido.

O que custa a esta "seita" reaccionária, que abunda nos órgãos de Informação lusitanos, é saber que Lula da Silva foi julgado e condenado sem provas, apenas pela "convicção" individual e colectiva dos juízes que quiseram, à viva força, enfiá-lo numa prisão para o afastar da possibilidade de se recandidatar ao cargo de Presidente do Brasil, quando todas as sondagens prevêem que ele seria o vencedor, com larguíssima vantagem sobre o seu mais directo rival, o fascista Jair Bolsonaro...

Claro que a "seita" reaccionária lusitana ainda não chegou ao ponto de fazer como aqueles controladores de voo militares que aconselharam o piloto do helicóptero que transportou Lula para a prisão de Curitiba a "lançá-lo dele abaixo" durante o vôo! Mas talvez não estejam muito longe de desejar a sua morte,,,

São já legião os juristas, não só brasileiros mas também dos quatro cantos do mundo, escandalizados com a condenação, sem provas, e apenas por mera convicção política, de Lula da Silva. O que a mim me faz lembrar aquela anedota do marido que bate sistematicamente na mulher sem qualquer motivo concreto, e que responde a quem lhe pergunta, então, qual é a razão: «Eu não sei, mas ela sabe com certeza!»...

Também custa muito à "seita" reaccionária lusitana ser lembrada do golpe montado por um "exército" de políticos corruptos da direita brasileira decididos a destituir Dilma Rousseff do cargo de Presidente do Brasil sem que a menor suspeita de corrupção incidisse sobre ela, apenas agarrados a um pretexto meramente formal que poderia servir para destituir todos os PR's e chefes de Governo do mundo. Se não houve "conspirata", e das mais vergonhosas, vou ali e já venho. E o que dizer da autêntica "múmia paralítica" que dá pelo nome de Michel Temer, acusado de corrupção em vários processos e um "fantoche" politicamente incompetente que traíu Dilma Rousseff para a substituir?!

Campo d' Ourique, 10 de Abril de 2018"

 

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por Augusta Clara às 17:22

Segunda-feira, 09.04.18

JOSÉ ROBERTO BATOCHIO, um dos advogados de Lula

 

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por Augusta Clara às 16:45

Sábado, 07.04.18

O GRANDE DISCURSO HISTÓRICO DE LULA DA SILVA NA ÍNTEGRA

 

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Lula aos ombros da multidão

 

Pragamatismo Político, 8 de Abril de 2018

 

   Na tarde deste sábado (7), em São Bernardo do Campo (SP), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou seu último discurso antes de entregar-se à Policia Federal para cumprir o mandado de prisão emitido pelo juiz de primeira instância Sérgio Moro nesta semana.

A milhares de pessoas que o acompanhavam desde sexta-feira em vigília, Lula, emocionado, relembrou o início de sua vida política no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e enviou uma mensagem de motivação para os que acreditam em seu projeto político.

 

Confira abaixo a transcrição do discurso histórico:

“Em 1979, esse sindicato fez uma das greves mais extraordinárias. E nós conseguimos fazer um acordo com a indústria automobilística que foi talvez o melhor possível. E eu tinha uma comissão de Fábrica com 300 trabalhadores. O acordo era bom. E eu resolvi levar o acordo para Assembleia. E resolvi pedir pra comissão de fábrica ir mais cedo para conversar com a peãozada. E eu fazia assembleia de manhã pra evitar que o pessoal bebesse um pouquinho a tarde, porque quando a gente bebe um pouquinho, a gente fica mais ousado.

Mesmo assim não evitava porque o cara levava litro de conhaque dentro da mala e quando eu passava tomava uma ‘dosinha’ para a garganta ficar melhor – coisa que não aconteceu hoje.

Pois bem, nós começamos a colocar o acordo em votação e 100 mil pessoas no Estádio da Vila Euclides não aceitavam o acordo. Era o melhor possível. A gente não perdia dia de férias, não perdia décimo terceiro e tinha 15% de aumento. Mas a peãozada ‘tava’ tão radicalizada que queria 83% ou nada. E não conseguimos. E passamos um ano sendo chamado de pelego pelos trabalhadores. A gente, Guilherme, ia na porta de fábrica… [Lula começa a fazer saudações diversas]. Então companheiros e companheiras, nós conseguimos… os trabalhadores não aprovaram o acordo… [interrupção para atendimento médico à pessoa na multidão].

Eu ia dizendo pra vocês que nós não conseguimos aprovar a proposta que eu considerava boa e o pessoal então passou a desrespeitar a diretoria do Sindicato. Eu ia na porta da fábrica ninguém parava.

E a imprensa escrevia: “Lula fala para os ouvidos moucos dos trabalhadores”.

Nós levamos um ano para recuperar o nosso prestígio na categoria. E eu fiquei ṕensando com ar de vingança: “Os trabalhadores pensam que eles podem fazer 100 dias de greve, 400 dias de greve, que eles vão até o fim. Pois eu vou testá-los em 1980”.

E fizemos a maior greve da nossa história. A maior greve. 41 dias de greve. Com 17 dias de greve fui preso e os trabalhadores começaram depois de alguns dias a furar greve e nós então – eu sei que Tuma, eu sei que o doutor Almir eu sei que Teotônio Vilela ia dentro da cadeia e falava assim pra mim: “Ô Lula cê precisa acabar com a greve, cê precisa dar um conselho para acabar com a greve”. E eu dizia: “Eu não vou acabar com a greve. Os trabalhadores vão decidir por conta própria”.

O dado concreto é que ninguém aguentou 41 dias porque na prática o companheiro tinha que pagar leite, tinha que pagar a conta de luz, tinha que pagar gás, a mulher começou a cobrar o dinheiro do pão, ele então começou a sofrer pressão e não aguentou. Mas é engraçado porque na derrota a gente ganhou muito mais sem ganhar economicamente do que quando a gente ganhou economicamente. Significa que não é dinheiro que resolve o problema de uma greve, não é 5%, não é 10%, é o que está embutido de teoria política de conhecimento político e de tese política numa greve.

“Significa que não é dinheiro que resolve o problema de uma greve, não é 5%, não é 10%, é o que está embutido de teoria política de conhecimento político e de tese política numa greve”

Agora, nós estamos quase que na mesma situação. Quase que na mesma situação. Eu tô sendo processado e eu tenho dito claramente: “O processo do meu apartamento, eu sou o único ser humano que sou processado por um apartamento que não é meu”. E ele sabe que o Globo mentiu quando disse que era meu. A Polícia Federal da Lava Jato quando fez o inquérito mentiu que era meu, o Ministério Público quando fez a acusação mentiu dizendo que era meu e eu pensei que o Moro ia resolver e ele mentiu dizendo que era meu e me condenou a nove anos de cadeia.

É por isso que eu sou um cidadão indignado, porque eu já fiz muita coisa com meus 72 anos. Mas eu não os perdoo por ter passado para a sociedade a ideia de que eu sou um ladrão. Deram a primazia dos bandidos fazerem um pixuleco pelo Brasil inteiro. Deram a primazia dos bandidos chamarem a gente de petralha. Deram a primazia de criar quase um clima de guerra negando a política nesse país. E eu digo todo dia: nenhum deles, nenhum deles, tem coragem ou dorme com a consciência tranquila da honestidade, da inocência que eu durmo. Nenhum deles [aplausos].

Eu não estou acima da Justiça. Se eu não acreditasse na Justiça, eu não tinha feito partido político. Eu tinha proposto uma revolução nesse país. Mas eu acredito na Justiça, numa Justiça justa, numa Justiça que vota um processo baseado nos autos do processo, baseado nas informações das acusações, das defesas, na prova concreta que tem a arma do crime.

O que eu não posso admitir é um procurador que fez um Powerpoint e foi pra televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil e que o Lula, por ser a figura mais importante desse partido, o Lula é o chefe, e portanto, se o Lula é o chefe, diz o procurador, “eu não preciso de provas, eu tenho convicção”. Eu quero que ele guarde a convicção deles para os comparsas deles, para os asseclas deles e não para mim. Certamente um ladrão não estaria exigindo prova. Estaria de rabo preso com a boca fechada torcendo para a imprensa não falar o nome dele.

Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me atacando. Eu tenho mais de milhares de páginas de jornais e materias me atacando. Eu tenho mais a Record me atacando. Eu tenho mais a Bandeirantes me atacando, eu tenho a rádio do interior me atacando. E o que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam mais cresce a minha relação com o povo brasileiro.

“E o que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam mais cresce a minha relação com o povo brasileiro”

Eu não tenho medo deles. Eu até já falei que gostaria de fazer um debate com o Moro sobre a denúncia que ele fez contra mim. Eu gostaria que ele me mostrasse alguma coisa de prova. Eu já desafiei os juízes do TRF4 que eles fossem prum debate na universidade que ele quiser, no curso que ele quiser, provar qual é o crime que eu cometi nesse país. E eu as vezes tenho a impressão e tenho a impressão porque eu sou um construtor de sonhos. Eu há muito tempo atrás sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões de pessoas nas universidades, criando milhões e milhões de empregos nesse país, eu sonhei, eu sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma universitário, cuidar mais da educação que os diplomados e concursados que governaram esse país e cuidaram da educação. Eu sonhei que era possível a gente diminuir a mortalidade infantil levando leite feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia. Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha juíz e procuradores só da elite, daqui a pouco vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliopólis, nascidos em Itaquera, nascidos na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, do MTST, da CUT formados.

Esse crime eu cometi.

Eu cometi esse crime e eles não querem que eu cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esses crimes, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi eu quero dizer que vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais. [Povo começa a gritar “Lula, guerreiro do povo brasileiro]

“Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha juíz e procuradores só da elite”

Companheiros e companheiras, eu em 1986 eu fui o deputado constituinte mais votado na história do país. E, na época, havia uma desconfiança que só tinha poder no PT quem tinha mandato.. Quem não tivesse mandato era tido… [começa a fazer saudações]. Então companheiros, quando eu percebi que o povo desconfiava que só tinha valor no PT quem era deputado, Manoela e Guilherme sabe o que eu fiz? Deixei de ser deputado. Porque eu queria provar ao PT que ia continuar sendo a figura mais importante do PT sem ter mandato porque se alguém quiser ganhar de mim no PT só tem um jeito: é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu, porque se não gostar não vai ganhar.

Pois bem: nós agora estamos num trabalho delicado. Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família. Não é fácil o que sofrem meus filhos. Não é fácil o que sofreu a Marisa e eu quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela. Eu tenho certeza. Essa gente eu acho que não tem filho, não tem alma e não tem noção do que sente uma mãe ou um pai quando vê um filho massacrado, quando vê um filho sendo atacado.

Eu então, companheiros, resolvi levantar a cabeça. Não pense que eu sou contra a Lava Jato não. A Lava Jato, se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo que roubou e prender. Todos nós queremos isso. Todos nós a vida inteira dizíamos: “A Justiça só prende pobre, não prende rico”. Todos nós dizíamos. E eu quero que continue prendendo rico. Eu quero. Agora qual é o problema? É que você não pode fazer julgamento, subordinado à imprensa. Porque no fundo, no fundo, você destrói as pessoas na sociedade, na imagem da pessoas e depois os juízes vão julgar e vão dizer “eu não posso ir contra a opinião pública tá pedindo pra caçar”. Quem quiser votar com base na opinião pública largue a toga e vá ser candidato a deputado, escolha um partido político e vá ser candidato. Ora, a toga ela é o emprego vitalício. O cidadão tem que votar apenas com base nos autos do processo, aliás eu acho que ministro da Suprema Corte não deveria dar declaração de como vai votar. Nos EUA termina a votação e você não sabe em quem o cidadão votou exatamente para que ele não seja vítima de pressão.

“Quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela”

Imagina um cara sendo acusado de homícidio e não tenha sido ele o assassino. O que a família do morto quer? Que ele seja morto, que ele seja condenado. Então o juíz tem que ter, diferentemente de nós, a cabeça mais fria, mais responsabilidade de fazer a acusação ou de condenar. O Ministério Público é uma instituição muito forte. Por isso esses meninos que entram muito novo fazem um curso direito e depois faz três anos de concurso porque o pai pode pagar, esses meninos precisavam conhecer um pouco da vida, um pouco de política para fazer o que eles fazem na sociedade brasileira.

Tem uma coisa chamada responsabilidade. E não pense que quando eu falo assim [quer dizer que] eu sou contra. Eu fui presidente e indiquei quatro procuradores e fiz discurso em todas as posses e eu dizia: “Quanto mais forte for a instituição mais responsável os seus membros tem que ser”. Você não pode condenar a pessoa pela imprensa para depois julgá-la. Vocês estão lembrados de que quando eu fui prestar depoimento lá em Curitiba, eu disse para o Moro: “Você não tem condições de me absolver porque a globo tá exigindo que você me condene e você vai me condenar.

Pois bem, eu acho que tanto o TRF4, quanto o Moro, a Lava Jato e a Globo, eles têm um sonho de consumo. O sonho de consumo é que primeiro: o golpe não terminou com a Dilma. O golpe só vai concluir quando eles conseguirem convencer que o Lula não possa ser candidato a presidência da república em 2018. Não é que eu não vou ser, eles não querem que eu participe porque existe a possibilidade de cada um se eleger, eles não querem o Lula de volta porque pobre na cabeça deles não pode ter direito. Não pode comer carne de primeira. Pobre não pode andar de avião. Pobre não pode fazer universidade. Pobre nasceu, segundo a lógica deles, para comer e ter coisas de segunda categoria.

“Eles não querem o Lula de volta porque pobre na cabeça deles não pode ter direito”

Então, companheiros e companheiras, o outro sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Ah, eu fico imaginando o tesão da Veja colocando a capa comigo preso. Eu fico imaginando o tesão da Globo colocando a minha fotografia preso. Eles vão ter orgasmos múltiplos.

Eles decretaram a minha prisão. E deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu vou atender o mandado deles. E vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo que acontece neste país acontece por minha causa. Eu já fui condenado a 3 anos de cadeia porque um juiz de Manaus entendeu que eu não preciso de arma, eu tenho uma língua ferina, então precisa me calar, porque se não me calar, ele vai continuar falando frases como eu falei, tá chegando a hora da onça beber água, e os camponeses mataram um fazendeiro e eles achavam que era a senha.

Eles já tentaram me prender por obstrução de justiça, não deu certo. Eles agora querem me pegar numa prisão preventiva, que é uma coisa mais grave, porque não tem habeas corpus. O Vaccari já tá preso há três anos. O Marcelo Odebrecht gastou R$ 400 milhões e não teve habeas corpus. Eu não vou gastar um tostão. Mas vou lá com a seguinte crença: eles vão descobrir pela primeira vez o que eu tenho dito todo dia. Eles não sabem que o problema deste país não chama-se Lula, o problema deste país chama-se vocês, a consciência do povo, o partido dos trabalhadores, o PCdoB, o MST, o MTST, eles sabem que tem muita gente.

E aquilo que a nossa pastora disse, e eu tenho dito em todo discurso, não adianta tentar de me impedir de andar por este país, porque tem milhões e milhões de Boulos, de Manuelas, de Dilmas Rousseffs neste país para andar por mim.

Não adianta tentar acabar com as minhas idéias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las.

Não adianta parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês.

Não adianta achar que tudo vai parar o dia que o Lula tiver um infarto, é bobagem, porque o meu coração baterá pelos corações de vocês, e são milhões de corações.

Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não sou um ser humano, sou uma idéia, uma idéia misturada com a idéia de vocês, e eu tenho certeza que companheiros como os sem-terra, o MTST, os companheiros da CUT e do movimento sindical sabem, e esta é uma prova, esta é uma prova, eu vou cumprir o mandado e vocês vão ter de se transformar, cada um de vocês, vocês não vão se chamar chiquinho, zezinho, joãozinho, albertinho… Todos vocês, daqui pra frente, vão virar Lula e vão andar por este país fazendo o que você tem que fazer, e é todo dia! Todo dia!

Eles tem de saber que a morte de um combatente não para a revolução.

Eles tem de saber. Eles tem de saber que nós vamos fazer definitivamente uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia.

Eles têm de saber que vocês, quem sabe, são até mais inteligentes que eu, e queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas, as ocupações no campo e na cidade; parecia difícil a ocupação de São Bernardo, e amanhã vocês vão receber a notícia que vocês ganharam o terreno que vocês invadiram.

“Não adianta parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês.”

Companheiros, eu tive chance, agora, eu estava no Uruguai, entre Livramento e Vera, e as pessoas diziam assim, ô, Lula, você finge que vai comprar um “uisquizinho”, e você vai para o Uruguai com o Pepe Mujica e vai embora e não volta mais, pede asilo político. Você pode ir na embaixada da Bolívia, do Uruguai, da Rússia, e de lá você fica falando… Eu não tenho mais idade. Minha idade é de enfrentá-los com olho no olho e eu vou enfrentá-los aceitando cumprir o mandado.

Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que tão me prendendo e quantos mais dias eles me deixarem lá mais lulas vão nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país, porque numa democracia, não tem limite, não tem hora para a gente brigar. Eu falei para os meus companheiros: se dependesse da minha vontade eu não ia, mas eu vou porque eles vão dizer a partir de amanhã que o lula tá foragido, que o lula tá escondido, e não! Eu não to escondido, eu vou lá na barba deles pra eles saberem que eu não tenho medo, que eu não vou correr, e para eles saberem que eu vou provar minha inocência.

Eles têm de saber isso.

E façam o que quiserem. Façam o que quiserem. Eu vou pegar uma frase que eu peguei em 1982 de uma menina de 10 anos em Catanduva, e essa frase não tem autor. Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais poderão deter a chegada da primavera.

E a nossa luta é em busca da primavera.

Eles tem de saber que nós queremos mais casa, mais escola, nós queremos menos mortalidade, nós não queremos repetir a barbaridade que fizeram com a Marielle no Rio de Janeiro.

Não queremos repetir a barbaridade que se faz com meninos negros neste país.

Não queremos mais a mortalidade por desnutrição neste país. Não queremos mais que um jovem não tenha esperança de entrar numa universidade, porque este país é tão cretino, que foi o ultimo país do mundo a ter uma universidade. O último! Todos os países mais pobres tiveram, porque eles não queriam que a juventude brasileira estudasse.

E falavam que custava muito. É de se perguntar: quanto custou não fazer há 50 anos atrás?

Eu quero que vocês saibam que eu tenho orgulho, profundo orgulho, de ter sido o único presidente da República sem ter um diploma universitário, mas sou o presidente da república que mais fiz universidade na história deste país para mostrar para essa gente que não confunda inteligência com a quantidade de anos na escolaridade, isso não e inteligência, é conhecimento.

Inteligência é quando você tem lado, inteligência é quando você não tem medo de discutir com os companheiros aquilo que é prioridade, e a prioridade é garantir que este país volte a ter cidadania. Não vão vender a Petrobras! Vamos fazer uma nova constituinte! Vamo revogar a lei do petróleo que eles tão fazendo! Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa, não vamos deixar destruir o Banco do Brasil! E vamos fortalecer a agricultura familiar, que é responsável por 70% do alimento que nós comemos neste país.

E com essa crença, companheiros, de cabeça erguida, como eu tô falando com vocês, que eu quero chegar lá e dizer ao delegado: estou à disposição.

E a história, daqui a alguns dias, vai provar que quem cometeu crime foi o delegado que me acusou, foi o juiz que me julgou e foi o Ministério Público que foi leviano comigo.

Por isso companheiros, eu não tenho lugar no meu coração pra todo mundo, mas eu quero que vocês saibam que se tem uma coisa que eu aprendi a gostar neste mundo é da minha relação com o povo.

Quando eu pego na mão de um de vocês, quando eu abraço um de vocês… porque agora eu beijo homem e mulher igualzinho, não mistura mais… Quando eu beijo um de vocês, eu não to beijando com segundas intenções, eu to beijando porque quando eu era presidente, eu dizia:

“Eu vou voltar pra onde eu vim”.

E eu sei quem são meus amigos eternos e quem são os eventuais. Os de gravatinha, que iam atrás de mim, agora desapareceram. E quem está comigo são aqueles companheiros que eram meus amigos antes de eu ser presidente da república. É aquele que comia rabada no Zelão, que comia frango com polenta no Demarchi, é aquele que tomava caldo de mocotó no Zelão, esses continuam sendo nossos amigos. São que tem coragem de invadir terreno pra fazer casa, são aqueles que têm coragem de fazer uma greve contra a previdência, são aqueles que ocupam no campo pra fazer uma fazenda produtiva, são aqueles que na verdade precisam do estado.

Companheiros, eu vou dizer uma coisa pra vocês: Vocês vão perceber que eu vou sair desta maior, mais forte, mais verdadeiro, e inocente, porque eu quero provar que eles é que cometeram um crime, um crime político de perseguir um homem que tem 50 anos de história política, e por isso eu sou muito grato.

Eu não tenho como pagar a gratidão, o carinho e o respeito que vocês tem dedicado a mim nesses anos todos. E quero dizer a vocês Guilherme, e à Manuela, a vocês dois, que para mim é motivo de orgulho pertencer a uma geração, que está no final dela, ver nascer dois jovens disputando o direito de ser presidente da república neste país. Por isso, grande abraço, e podem ficar certos: esse pescoço aqui não baixa, minha mãe já fez o pescoço curto pra ele não baixar, e não vai baixar, porque eu vou sair de lá de cabeça erguida e de peito estufado porque eu vou provar a minha inocência.

Um abraço companheiros, obrigado, mas muito obrigado, pelo que vocês me ajudaram, um beijo, querido, muito obrigado!”

 

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por Augusta Clara às 23:58

Quarta-feira, 04.04.18

Cândido Portinari (Brasil)

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Cândido Portinar

 

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por Augusta Clara às 21:56

Terça-feira, 03.04.18

A marcha pelas nossas vidas em Gaza - Alexandra Lucas Coelho

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Alexandra Lucas Coelho  A marcha pelas nossas vidas em Gaza

 

SAPO24, 30 de Março de 2018

 

O mundo viu a cara de Emma Gonzalez. No mesmo exacto dia, estudantes revoltavam-se em Gaza. Saem de casa para a escola a cada dia, marcham pela sua vida todos os dias. Espero o dia em que a América, e o mundo, também se possam ver na cara deles.

1. A América em luto viu-se na cara de Emma Gonzalez. A América em choque desde a eleição de Trump viu-se na cara de Emma Gonzalez durante seis minutos e vinte segundos, o tempo que o atirador da Florida levou a matar 17 pessoas. Essa América respirou com ela, sofreu com dela, chorou com ela, lágrimas rolando em silêncio, perante meio milhão de pessoas ali em Washington, perante o mundo. Quando Emma Gonzalez saiu do palco, a América tinha um ícone para o futuro, um perfil do Monte Rushmore. A nova estrela da América, ou a estrela da nova América era mulher, bissexual, 18 anos, cabelo rapado, cara lavada, a pele escura dos latino-americanos, o apelido de quem descende de outra América, mais abaixo (no caso dela, Cuba). Go Emma, we love you, tinham gritado jovens na assistência, ao todo dois milhões de americanos nas ruas de várias cidades contra a violência das armas, pelas suas vidas. Emma Gonzalez era o épico de um tempo, este tempo, a coisa mais poderosa que acontecia na América desde a eleição de Donald Trump. Seis minutos e vinte segundos de cinema, feito na América, pela América, essa utopia de uma só palavra na voz de Walt Whitman (America // Centre of equal daughters, equal sons…)

 

Aconteceu sábado, em directo dos Estados Unidos da América.

 

2. Por assombrosa coincidência, nesse mesmo dia, nesse mesmo sábado, houve uma revolta de estudantes na Faixa de Gaza. Um sit-in disperso à bastonada pela polícia local. Não soube disso em tempo real, como em tempo real soubemos de Emma em Washington, e todos os seus colegas que iniciaram o movimento #neveragain, propulsionando a histórica March For Our Lives de 24 de Março. Soube por um email quatro dias depois, do Palestinian Center of Human Rights (PCHR), um centro baseado em Gaza que conheço há bastantes anos, e regularmente envia relatórios da situação na Faixa para os seus contactos em todo o mundo. Há pouquíssimas notícias de Gaza, há muitos poucos jornalistas em Gaza a reportar para fora, então os relatórios do PCHR são pelo menos um vislumbre regular.

Esse email contava:

“De acordo com informação obtida pelo PCHR, a administração da Universidade al-Azhar anunciou dia 21 Março de 2018 a decisão de impedir qualquer estudante masculino ou feminino de entrar nas salas de exame sem pagar as propinas. Centenas de estudantes recusaram a decisão por as famílias não terem meios de fazer o pagamento, dada a deterioração das condições económicas e sociais [na Faixa de Gaza]. Na manhã de sábado, 24 de Março 2018, centenas de estudantes protestaram dentro do campus da universidade contra a decisão, causando altercações entre os estudantes e os empregados. A Segurança da Universidade interveio para dispersar o sit-in. Os acontecimentos precipitaram-se e agentes do Serviço de Polícia Palestiniana intervieram, chamados pela Administração da Universidade. Os agentes dispersaram o sit-in, e dezenas de estudantes ficaram feridos, depois de serem espancados com bastões. A polícia deteve também vários estudantes e um fotojornalista, Mahmoud Zo'abor, que trabalha para a al-Hadaf News, após um homem, que se identificou como sendo do Ministério do Interior, confiscar a câmara e o telemóvel do jornalista [foram mais tarde libertados].” Cheguei entretanto a outras, breves, notícias que confirmam a tensão estudantil em Gaza nas últimas semanas.

E pensei nos rapazes e nas raparigas da universidade al-Azhar com quem estive em Maio passado, lá em Gaza. Valerá a pena algum contexto, para perceber melhor o que está a acontecer agora.

 

3. O pedacinho de orla que é Gaza (40 quilómetros de comprimento por seis a dez de largura) tem dois milhões de pessoas lá dentro, literalmente presas há décadas, como o mundo sabe. Literalmente presas quer dizer: impedidas de sair. Não há metáfora. E não há nada, mas nada, que se compare a isto em todo o planeta

Desses dois milhões de pessoas 66 por cento têm menos de 25 anos. Ou seja, dois terços dos habitantes daquela prisão única são jovens. Pensem em todos os jovens que viram pela TV nas ruas dos EUA, sábado passado. Em Gaza são mais. E o desemprego, que em Gaza está em 50 por cento, é mais alto ainda entre os jovens. Centenas de milhares de rapazes e raparigas que literalmente, sem metáfora, não têm saída. E, além de não terem forma de sair, fisicamente, nem terem trabalho quando acabam de estudar, não têm um único cinema, já quase não têm música ao vivo, não têm água potável nas torneiras, não têm electricidade 20 horas por dia, nem podem ser bissexuais, gays, trans, intersexo, sob risco, real, de serem mortos (no ano anterior, o Hamas executara um seu comandante, alegadamente condenado por roubo e “sexo homossexual”).

Em Maio, conversei com mais de uma dezenas destes estudantes junto à universidade da Cidade de Gaza onde agora os protestos aconteceram. Não dentro do campus, porque isso os podia pôr em risco, chamar a atenção dos empregados, mas nas imediações. Primeiro, com um grupo de rapazes, depois com um gupo de raparigas. Todos usavam as redes sociais: Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter. Essa era a janela, o único oxigénio do mundo. Nas três ou quatro horas de electricidade, que são as que restam diariamente, carregavam os telemóveis, e muitas vezes usavam os ecrãs como lanterna para estudar à noite.

E, vendo agora Emma Gonzalez, lembrei-me sobretudo de Rozan, a Rozan de 18 anos que estava ao centro do grupo de universitárias com quem falei, depois dos rapazes. Emma e Rozan têm a mesma idade, um carisma natural, uma força que sabe-se lá de onde vem. Rozan, cuja cara o mundo não conhece, falou-me como uma líder nata. “Somos muçulmanas mas não apoiamos o Hamas”, disse, rodeada pelas colegas, todas de cabelo coberto, todas de telemóvel na mão. “O Hamas passou dez anos no poder aqui, e como estamos? Não há electricidade, não há salários, não há gasolina. Três guerras! Eu tenho 18 anos e vivi uma intifada e três guerras. E ainda uma guerra civil entre Fatah e Hamas. Isto não é vida, é morte. E temos a certeza de que nos vamos licenciar e não encontraremos trabalho.”
Como a esmagadora maioria das pessoas que encontrei em Gaza nessa estadia de 2017 (em reportagem para a “Visão História”), Rozan e os seus contemporâneos sentiam-se duplamente reféns. Primeiro, reféns de Israel, a potência que controla Gaza por terra, mar e ar, a bombardeia regularmente, a sujeita ao mais longo e desumano bloqueio do planeta. Depois, reféns do Hamas, porque os últimos dez anos de poder em Gaza, os dez anos de divisão interna palestiniana são o fruto dramático do cerco israelita. Conheci Gaza em 2002, e fui visitando a faixa ao longo dos anos. Em Maio de 2017, a atmosfera era não só literalmente pútrida, como toda a gente parecia à beira de enlouquecer, e disparara a desconfiança sobre quem serve o quê, quem espia para quem. A gaiola onde Israel fechou os palestinianos chegava ao ponto a que chega uma gaiola nestas circunstâncias. Só que à vista do mundo, e com dois milhões de pessoas lá dentro, em vez de ratinhos.

 

4. Este é o contexto. O mais espantoso, porém, é que estas centenas de milhares de jovens em Gaza não estão a matar ninguém, nem a fazerem-se explodir, apesar de conhecerem na carne a violência das armas, e das bombas, desde que nasceram. Estão a ir às aulas, estão a lutar pelos seus exames. Estão a marchar todos os dias pelas suas vidas, na verdade, de casa para as aulas, das aulas para casa, de vez em quando para a praia, onde já nem se pode tomar banho sem risco de adoecer, porque é um mar de fezes, porque os esgotos não são tratados, proque não há condições para os tratar, porque o contexto é este. Há décadas. À vista de todos.

Em Outubro, Hamas e Fatah assinaram um acordo de reconciliação, que mal saiu do papel até agora. Não houve eleições, Abbas ainda é aquele presidente da Palestina lá em Ramallah, com quem o mundo fala porque acha que é o único que há, mas em quem os palestinianos não se revêm. O Hamas deu sinais de ter percebido que alguma coisa tinha de mudar, porque a situação em Gaza era insustentável, e a popularidade interna dos islamistas estava em queda, mas o mundo continuou a ter mais em que pensar. Há dias, o primeiro-ministro de Ramallah foi a Gaza inaugurar uma coisa e rebentou um explosivo que atingiu dois carros da sua caravana. Fatah e Hamas puniram-se mutamente, mostrando como é utópica a reconciliação neste contexto.

A partir de hoje, sexta-feira, e até 15 de Maio, quando Israel celebra o aniversário da sua fundação, o Hamas tem cinco acampamentos montados ao longo da fronteira de Gaza com Israel e incentivou a população a manifestar-se, como forma de lembrar o direito de retorno, de assinalar os 70 anos desse 15 de Maio, que para os palestinianos é a Naqba, ou Catástrofe. Israel está a responder com um aparato militar ao longo da fronteira, incluindo atiradores de elite. No momento em que escrevo, sete palestinianos já morreram e há dezenas de feridos.

Isto é Gaza, 30 de março de 2018.

 

5. Em Fevereiro estive nos EUA, parti no dia em que o atirador da Florida matou os colegas de Emma. Esse dia fez um clique que nenhum outro massacre tinha feito. Dos dois milhões que terão saído à rua no dia 24, quase um terço nunca se manifestara, e havia muita gente que não era adolescente. Outro dado interessante: 70 por cento de mulheres. É bom acreditar que uma nova geração esteja em pé. É bom ver Emma Gonzalez, com tudo o que ela é, arrebatar o mundo. E sim, ser bissexual não é um detalhe sem importância, foi nessa luta que ela se fez também, activista da Gay-Straight Alliance na sua escola. Emma é a primeira a dizer que, para ela, o activismo pelos direitos gay e o activismo contra as armas estão ligados. É a vida dela, com tudo o que ela é, e sem ter percebido quem era não estaria agora ali, dando a cara ao mundo.

Vejo a cara de Emma e penso até que ponto os estudantes que conheci em Gaza a acompanharam, desde o massacre na Florida, eles que seguem tudo pelas redes sociais. Penso como terão olhado para o movimento que se estava a formar, eles que mais do que nunca viram o inimigo sentar-se na Casa Branca, com a eleição de Trump. Eles que estão assistir à construção da nova embaixada dos EUA em Jerusalém, contra todas as resoluções internacionais. E que viram Trump cortar fundos para a UNRWA, a agência das Nações Unidas responsável pelos seis milhões de refugiados palestinianos. A maioria da população em Gaza tem esse estatuto, refugiada, e depende da UNRWA. Se tem algum abrigo, alguma comida, alguma educação, algum cuidado de saúde, é devido à UNRWA. Faca de dois gumes, porque isso também permite que Israel, e o mundo, continuem a assobiar para o ar.
E não tenho forma de a contactar, mas gostava muito de saber o que Rozan, aquela estudante de Gaza, pensa de tudo isto. Ela não tem uma cabeleira loura descoberta como Ahed Tamimi, a brava adolescente da Cisjordânia que se tornou recentemente um símbolo da luta pró-palestiniana, condenada a oito meses de pisão por ter esbofeteado um soldado isrealita. Rozan não é a cara com que uma plateia não-muçulmana se identifica mais facilmente, nem usa as roupas casuais de Ahed. Tal como Gaza não é a Cisjordânia, nem os forasteiros podem entrar em Gaza como entram na Cisjordânia. É mesmo muito difícil uma rapariga de Gaza não cobrir o cabelo, ainda que não seja essa a sua escolha. E é em Gaza que Rozan, como todos os outros, marcha pela vida todos os dias. Espero o dia em que a América, e o mundo, também se possam ver na cara dela.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 02.04.18

Adão Cruz

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 02.04.18

EUA foram derrotados na Síria como num novo Vietname - Lucia H.Issa

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Lucia H.Issa  EUA foram derrotados na Síria como num novo Vietname

 

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 Facebook, 31.03.2018

   Há poucos meses, em uma manhã de sábado como hoje, eu voltava ao Brasil, vinda da fronteira da morte, de um campo de refugiados em Zahle e de Majdar.

Passei aquelas duas primeiras semanas tendo pesadelos com o que eu havia testemunhado, crianças cujas pernas e sonhos foram amputados, mulheres sírias lindas que tiveram seu rosto deformado com ácido pelos terroristas armados pelos EUA, um menino de 6 anos que tinha o olhar de um velho e me perguntara por que o mundo não os via. A moça de cabelos negros e longos como o meu e perdera uma filha de 3 anos num dos bombardeios dos EUA.

Há menos de um mês, escrevi que a guerra global na Síria, vendida por alguns veículos da imprensa como guerra local, estava chegando ao fim, e que os EUA haviam sido derrotados. Reafirmei o que eu vi na fronteira e o que me levava a acreditar na derrota norte -americana e no fato de que o governo sírio não tinha armas químicas. Vi cidades como Aleppo sendo recuperadas pelo exército sírio e os terroristas armados pelos EUA fugindo para as fronteiras. Os ingleses perceberam muito antes dos americanos que seriam derrotados e retiraram sem alarde suas tropas em setembro. Os ingleses sentiram logo que não ganhariam uma guerra utilizando um exército de terroristas e mercenários pagos para matar os sírios.

Ao saber que Trump decidiu retirar suas tropas da Síria , admitindo indiretamente a derrota, um pequeno alívio, uma certa esperança e muitas perguntas para as quais a menina dentro de mim não encontrá respostas invadiram meu coração.

A guerra não terminou completamente mas caminha para um desfecho que frustra os EUA e fortalece um mundo mais multipolar.

Mas por que permitimos que o ódio fosse alimentado dessa forma na Síria? Por que permitimos que 450.000 pessoas fossem assassinadas ao longo de sete anos? Por que permitimos, como humanidade, que os EUA financiassem e armassem terroristas? Por que permitimos que mais de 10 milhões de pessoas se tornassem refugiadas? Por que permitimos que até as narrativas sobre a guerra fossem manipuladas? Por que permitimos que crianças fossem mutiladas em nome de uma guerra que jamais foi por democracia, mas sim por gás e petróleo?

A guerra na Síria tem um grande derrotado. Os EUA, que viram a Síria se transformar num novo Vietnã. Mas não há vencedores absolutos.

Cidades inteiras foram destruídas e milhares de mulheres foram violentadas. Uma geração inteira foi dizimada.

Minha esperança, meu desejo de dar voz às mulheres refugiadas e denunciar os que alimentam o ódio no Oriente Médio são muito maiores, hoje maiores do que nunca, mas a dor da menina que sonha com um outro Oriente Médio ainda me dilacera.

 

NOTA: Lucia H. Issa, brasileira de origem síria, é Jornalista e Escritora. Trabalhou como jornalista e correspondente internacional no Jornal do Brasil e hoje é jornalista independente, com graduação em Comunicação Social e especialização em Linguagem e Semiótica, pela Universidade de Roma. É autora do livro-reportagem «Quando amanhece na Sicília...», premiado na Itália e no Brasil, sobre a luta das mulheres e da sociedade civil contra a máfia na Itália, onde entrevistou mais de 120 mulheres. Residiu em Londres, Florença, São Paulo e durante seis anos em Roma, de onde colaborou, como jornalista correspondente de alguns dos principais veículos de comunicação brasileiros, como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e revista Istoé. Viajou por cerca de sessenta países do mundo, alguns deles devastados por guerras recentes e reportadas por ela, in loco, tais como, Sérvia, Kosovo, Palestina e Líbano. Actualmente, mora no Rio de Janeiro, onde é correspondente internacional e está terminando um novo livro-reportagem, sobre mulheres do Oriente Médio que lutam pela paz. É Embaixadora da Paz pelo Royal Society Group of London. Prémio Recife de Liberdade de Expressão, outorgado em 2015. Comenda Leonardo Da Vinci por seu trabalho pelos direitos humanos. Medalha Anita Garibaldi. Prémio Nelson Mandela de Defensores da Paz. Troféu Melhores do Ano, Curitiba , 2016, pelo conjunto de reportagens sobre a Palestina. Fala e escreve em português, árabe, italiano e inglês.

 

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por Augusta Clara às 18:53



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    Interessante, este tipo de pintura.

  • Anónimo

    Obrigada:). Enfim li a triste notícia.

  • Anónimo

    i love poema

  • Augusta Clara

    Quem morreu foi Marielle Franco.

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    Um grande poeta não morre senão de corpo.


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