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Jardim das Delícias


Domingo, 23.06.19

Miniatura persa

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Miniatura persa

 

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por Augusta Clara às 01:42

Sexta-feira, 07.06.19

Adão Cruz - O Médico Pintor, Carlos Gomes

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Textos e fotografias do Blogue do Minho, 6 de Junho de 2019

Exposição na Ordem dos Médicos de Viana

É uma realidade bem evidente, os médicos, normalmente, têm uma acentuada tendência para a escrita, para as artes e para a cultura em geral: Abel Salazar, Miguel Torga, e Fernando Namora, no seu tempo, eram médicos e foram grandes escritores, tal como hoje o é Lobo Antunes, que também já exerceu a medicina. Nas artes, entre vários, podem-se destacar, Abel Salazar, uma figura eminente da medicina e da cultura portuguesa, Celestino Gomes e Mário Botas. E a atestar que a arte toca muito de perto os médicos, a Ordem dos Médicos, através das suas diversas delegações regionais, promove regularmente exposições de médicos artistas. No ano em curso, em Viana, a OM quase só vai fazer exposições com médicos, em várias especialidades artísticas.

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E foi aqui que, no sábado passado, dia 01, mais uma mostra foi inaugurada, desta vez com Adão Cruz, um médico cardiologista, com um longo percurso ligado às artes e à escrita, com inúmeras exposições realizadas, particularmente em Portugal e Espanha, representado em oito países, com 12 livros publicados, na área da literatura e da pintura. Segunda afirma, pinta e escreve com a mesma paixão com que exerceu a medicina, que ainda hoje pratica de forma voluntária, apesar de dez bem sentidas décadas de vida. Como a justificar o seu percurso pelos caminhos da arte diz “que sempre amou a liberdade de pensamento e da razão, a verdadeira riqueza do ser humano e que foi com este amor que sempre sonhou libertar-se ao longo da vida, também pelos caminhos da ciência, da escrita e da pintura”.

Adão cruz apresenta 22 quadros com pintura em acrílico, com laivos expressionistas, predominância de cores quentes e onde perpassa, em muitos deles, uma acentuada crítica social. Diz que nem sequer gosta de atribuir títulos para os seus quadros, com a preocupação de que seja o observador a interpretar o que passou para a tela. Atribuir nomes aos quadros pode não se conjugar com a visão de quem os aprecia, afirma. Presente na cerimónia, Emerenciano, um pintor de referência no contexto da arte em Portugal, salientou o facto de Adão Cruz, apesar de não ser um pintor de escola, ter feito uma carreira de permanente aprendizagem na pintura, sempre com a preocupação

de ver para além da estética em cada quadro que produz.

A exposição vai estar patente até a o dia 30 do corrente mês na Galeria da Ordem dos Médicos, sita na Rua da Bandeira, 472, aberta ao público às terças e quintas-feiras, das 17, 30 às 19, 30 horas e aos sábados, das 9,00 às 13,00 horas.

Gonçalo Fagundes Meira

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por Augusta Clara às 15:18

Segunda-feira, 27.05.19

CONVITE

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Exposição de pintura de Adao Cruz na sede da Ordem dos Médicos de Viana do Castelo de 1 a 30 de Junho de 2019

 

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ADÃO CRUZ
Médico cardiologista
Nasceu em Vale de Cambra há oito décadas.
Sempre amou a liberdade do pensamento e da razão, a verdadeira riqueza do ser humano. Foi com este amor que sempre sonhou libertar-se ao longo da vida, também pelos caminhos da ciência, da escrita e da pintura.
Tem doze livros publicados, na área da literatura e da pintura, e fez várias
exposições, sobretudo em Portugal e Espanha.
Tem quadros em oito países.

O QUE PENSO
O sentimento poético e o sentimento artístico são irmãos gémeos. Ou trigémeos, se os irmanarmos com a sua própria essência, o sentimento da beleza. Quase místicos, quase indefiníveis, eles geram a sublimidade da mente, a força incontida do desejo de ser-se de outra forma, a necessidade de fugir do não autêntico, um quase sentir a verdade total e a dimensão universal.

Sem eles, dificilmente uma obra será uma obra de arte, dificilmente poderá adquirir a grandeza em que todos os processos formais serão ofuscados pelos seus próprios efeitos, dificilmente terá tantas estórias quantos os olhos que a contemplam. Contudo, ao fim de uma vida, o futuro vai-se naturalmente dissolvendo, entre a razão e o sentimento, dentro de um ser humano preso à sua natureza antropocêntrica. A desilusão, como subtil nevoeiro, vai invadindo todos os cantos e recantos onde antes havia sol.

Ao fim de uma vida, o ser humano vai-se desprendendo dos caminhos da arte e da poesia, principais sentimentos que sempre o conduziram à interface entre o Homem e a sua dimensão universal, sem qualquer sentido místico ou metafísico. Contenta-se com a restrita paisagem de um dia de Primavera, atrás das grades da sua ‘mente cultural’. Ele sabe que isso o derrota e, paradoxalmente, o alivia. Ele sabe ainda que são escassos os dias de Primavera, mesmo que a parte sã da humanidade procure tecer o ciclo da vida com fios de esperança. Ele sabe que há dias de penoso inverno que a parte mais podre da humanidade aproveita para romper o ciclo da vida rasgando a esperança. Ele sabe, ao fim de uma vida, que o estatuto de cada ser humano assenta num contexto de vivências e memórias que fazem o futuro e o desfazem na altura própria, sendo o último suspiro o momento mais democrático da nossa existência.

Por isso as lágrimas secam e os olhos passam a ver a vida humana com outros “olhos”. Por isso, esta singela exposição de pequenos gestos que se alimentam de corpos e sentimentos, na procura de uma última homeostasia entre a natureza humana e a humanização da vida.

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 27.05.19

Assim as corporações alimentam a ultradireita - Jean Ziegler

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Jean Ziegler  Assim as corporações alimentam a ultradireita

 

OutrasMídias, Publicado 24/05/2019 às 10:13 - Atualizado 24/05/2019 às 19:47

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Por Swi Brasil

Relator especial da ONU explica como as “sociedades multinacionais privadas” tornaram-se as verdadeiras donas do mundo, e impedem qualquer Estado, cidadão ou política social de conter fome, pobreza e as crises humanitárias

 

Jean Ziegler, entrevistado por Jamil Chade, no SWI Brasil | Imagem: Laurent Gillieron

Jean Ziegler é uma ave rara na cena política suíça, encarnando há quase meio século a figura do intelectual público de projeção global. Seu ativismo político e atuação internacional, como relator especial da ONU, rendeu-lhe uma extensa gama de inimigos, não só entre os bancos, empresários e lideranças conservadoras, mas até mesmo no campo mais progressista. Mas Ziegler continua um observador ativo, e nota que os cidadãos das grandes democracias vivem um “desespero silencioso e secreto”.

Ele, porém, não perde a esperança e insiste que a resposta à atual crise está no fortalecimento de uma sociedade civil planetária. Para Ziegler, os acontecimentos nos últimos anos e a impotência do sistema político em dar respostas mostram que a “democracia representativa está esgotada”.

Eis a entrevista

Vemos em diferentes partes do mundo uma reação popular contra partidos tradicionais e contra a política. Também vemos a vitória de políticos como Orban, Trump, Salvini e Bolsonaro. Por qual motivo o sr. acredita que estamos vendo essa onda?

O mundo se tornou incompreensível para o cidadão, que não mais consegue ler o mundo. As 500 empresas multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo (todos os setores reunidos, bancos, serviços e empresas). Elas monopolizam um poder econômico-financeiro, ideológico e político que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade. Eles escapam de todos os controles de estado, parlamentares, sindicais ou qualquer outro controle social. Eles têm uma estratégia só: maximização dos lucros, no tempo mais curto e não importa a qual preço humano.

Elas são responsáveis, sem dúvida, por um processo de invenção científica, eletrônica e tecnológica sem precedentes, e de fato extraordinário. Até o fim da URSS, um terço dos habitantes do mundo vivia sob algum tipo de regime comunista. Havia a bipolaridade da sociedade dos Estados. O capitalismo estava regionalmente limitado.

A partir de 1991, o capitalismo se espalhou como fogo de palha por todo o planeta e instaurou uma só instância reguladora: a mão invisível do mercado. Isso também produziu uma ideologia que totalmente alienou a consciência política dos homens. Há, hoje, uma ideologia que dá legitimidade a uma só instância de regulação: o neoliberalismo. Esse sistema sustenta que não são os homens, mas os mercados que fazem a história e que as forças do mercado obedecem às leis da natureza.

E qual é a implicação disso para o cidadão?

As forças do mercado trabalham com as forças da natureza e o homem é dito que não é mais o sujeito da história. No neoliberalismo, não é mais o homem que é o sujeito da história. Cabe ao homem se adaptar a esse mundo.

De fato, entre o fim da URSS no começo dos anos 1990, e o ano de 2000, o PIB mundial dobrou. O volume do comércio se multiplicou por três e o consumo de energia dobrou em quatro anos. Isso é um dinamismo formidável. Mas isso tudo ocorreu de uma forma concentrada e nas mãos de um número reduzido de pessoas.

Se considerarmos a fortuna pessoal dos 36 indivíduos mais ricos do mundo, segundo a Oxfam, ela é igual à renda dos 4,7 bilhões de pessoas mais pobres da humanidade. A cada cinco segundos, uma criança com menos de dez anos morre de fome ou de suas consequências imediatas.

E no mesmo relatório sobre a insegurança alimentar no mundo da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) diz: no atual estado de seu desenvolvimento, a agricultura mundial poderia alimentar normalmente 12 bilhões de seres humanos. Ou seja, quase o dobro da humanidade – somos 7,7 bilhões de pessoas hoje. Não há fatalidade. A fome é feita pelas mãos do homem e pode ser eliminada pelos homens. Uma criança que morre de fome é assassinada.

Isso é sustentável?

De forma alguma. A desigualdade não é só moralmente vergonhosa. Mas ela também faz com que o estado social seja esvaziado. Os mais ricos não pagam impostos como deveriam. Os paraísos fiscais, o sigilo bancário suíço – que continua – isso tudo ainda permite uma enorme opacidade. Empresas são contratadas para criar estruturas que impedem que os reais donos do dinheiro sejam encontrados em sociedades offshore. Os documentos revelados pelos Panama Papers mostram muito bem isso. Portanto, podemos dizer que as maiores fortunas do mundo e as maiores multinacionais pagam os impostos que querem.

E qual a consequência disso?

O fato que os mais ricos pilham o país e não pagam impostos gera duas situações: esvaziam a capacidade social de resposta dos governos e impedem contribuições obrigatórias dos países mais ricos às organizações especializadas da ONU que lutam contra a miséria no mundo. Portanto, esse sistema mata.

No fundo, essa ditadura do mercado faz com que os cidadãos entendam que não é o governo pelo qual eu votei que tem o poder de definir o destino. Isso cria uma insegurança completa e a desigualdade não é controlável. Se não bastasse, o cidadão é informado que seu emprego passa por um período profundo de flexibilização. A França, a segunda maior economia da Europa, tem 9 milhões de desempregados e três quartos dos empregos no setor privado são contratos de duração limitada (CDD, contrato de duração determinada). Outros milhões vivem de forma precária, como a maioria dos aposentados.

Quem são, portanto, os atores que influenciam o destino econômico de um país?

Vou dar um exemplo. As sociedades multinacionais privadas são as verdadeiras donas do mundo. Nos EUA, sob a administração Obama, foi criado uma lei que proibia o acesso ao mercado americano de minerais que tenham sido extraídos por crianças em suas minas, principalmente do Congo. O cobalto, por exemplo, foi um deles.

Essa lei gerou a mobilização de Glencore, RioTinto e tantas outras, denunciando que era inaceitável, pois era contra a liberdade dos mercados. Uma das primeiras medidas que Donald Trump tomou ao assumir o governo, em janeiro de 2017, foi a de acabar com essa lei. Como este, existem muitos outros exemplos no meu livro.

Em quais setores?

A agricultura é outro. Em 2011, três semanas antes da reunião do G7 em Cannes, o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, foi à televisão e declarou que iria propor que a especulação nas bolsas e no mercado financeiro fosse proibida, principalmente sobre o arroz, milho e trigo e outros produtos agrícolas de base. Isso seria uma forma de lutar contra o aumento de preços dos alimentos básicos, especialmente nos países mais pobres.

Faltando poucos dias para o G7, a França retirou sua proposta, depois de ter sido pressionada pelas grandes empresas do setor, como Unilever, Nestlé e outras. Essa mobilização impediu uma ação do presidente da França.

Portanto, voltando ao ponto inicial: o capitalismo é o modo de produção que mais mostrou vitalidade nos avanços tecnológicos e de inovação e tem uma produtividade muito superior a qualquer outro do passado, incluindo o da escravidão. Mas, ao mesmo tempo, o modelo capitalista escapa de todo o controle político, sindical ou da ONU. Eu insisto: ele funciona sob apenas um princípio, que é o da maximização dos lucros, no tempo mais curto possível e a qualquer preço.

E o que isso significa para uma democracia?

É um sistema que priva o cidadão, mesmo numa democracia, de todo tipo de resposta efetiva à precariedade, à desigualdade que destrói o estado social. E é nesse contexto que se cria uma espécie de desespero silencioso e secreto entre os cidadãos. E, como sempre ocorreu na história e como ocorreu nos anos 30 na Alemanha, é neste momento que vêm os grupos de extrema-direita com sua estratégia de criar um bode expiatório.

De que forma?

O discurso é simples. Eles chegam a declaram ao cidadão: sim, sua situação é insuportável. Você tem razão. Não falam como outros que tentam dar esperanças ou dizer que as coisas vão melhorar. Mas, num segundo momento, o que fazem? Apresentam um bode expiatório para essa crise. Na Europa, eles são os imigrantes e os refugiados.  

Justamente, em comum, esses movimentos denunciam a entrada de estrangeiros em seus países. Como o senhor avalia?

São governos europeus que cometem crimes contra a humanidade, ao recusar de examinar os pedidos de asilo dos refugiados. O direito a pedir asilo é uma convenção internacional de 1951, ratificada por todos os países, e os governos são obrigados a receber os pedidos.

Os eslovacos, por exemplo, aceitaram apenas 285 refugiados, sob a condição de que sejam cristãos. Em outros locais, como na Hungria, crianças estão na prisão. Mas mesmo assim esses governos continuam sendo sancionados pela UE, que continua a lhes enviar dinheiro. Só Viktor Orban (primeiro-ministro húngaro) recebeu 18 bilhões de euros no ano passado em fundos de solidariedade da Europa. As sanções, portanto, são inexistentes.

E qual tem sido o resultado dessa estratégia desses grupos populistas na Europa?

Eles mudam de paradigma e ganham força. Basta ver os resultados do partido Alternativa para a Alemanha (AfD). Hoje, eles têm o mesmo número de representantes no Parlamento que o tradicional SPD, o partido social democrata alemão que já nos deu políticos como Willy Brandt. O mesmo ocorreu com Matteo Salvini na Itália, Viktor Orban na Hungria, e ainda na Holanda, na Áustria. A estratégia do bode expiatório é uma estratégia que tem funcionado. Além disso, a consciência coletiva está sendo cimentada por uma ideologia neoliberal de que o homem não é mais o sujeito da história e que apenas pode se adaptar à situação e às forças do mercado, que obedecem às leis naturais.

Mas, voltando ao ponto da representatividade, tal cenário não ameaça minar a própria democracia?

Jean Jacques Rousseau publicou seu livro O Contrato Social em 1762, que foi a Bíblia para a revolução francesa. Ele descreveu a soberania popular e o fato de dar a voz a alguém para me representar. A delegação é um pilar do contrato social. Mas esse contrato social, que é a fundação da República, está esgotado. Essa democracia representativa está esgotada.

O povo não acredita mais nela. O povo vê que, ao votar em um deputado, não é ele que toma decisões, mas a ditadura mundial das oligarquias do capital financeiro globalizado. Portanto, há uma percepção de que ela não serve para nada. Não é ele quem vai garantir meu trabalho.

Ao mesmo tempo, esse povo não está disposto a abrir mão de seu poder e nem de sua capacidade de intervenção. No caso dos Coletes Amarelos, na França, um dos pontos principais é o apelo por um referendo popular como mecanismo. O que eles estão dizendo: o Parlamento faz o que quer. Queremos ter o direito de propor leis, de votar por elas. Hoje, a democracia representativa não funciona, num período de total alienação.

Quais são as respostas possíveis?

Retirar essa placa de cimento das consciências, que foi imposta. Liberar a consciência dos homens que é, por natureza, uma consciência de identidade. Se uma pessoa, seja de qual classe social ele for ou de qualquer religião, vir diante dele ou dela uma criança martirizada, algo de si afunda. Ele se reconhece imediatamente nela. Somos a única criatura na terra com essa consciência de identidade. E é por isso que milhões de jovens na Europa e na América do Norte se mobilizam em imensos cortejos, todas as semanas, pela sobrevivência do planeta e contra o capitalismo. O que eles estão dizendo aos seus governos? Que assim não podemos continuar. Façam algo contra essa ordem canibal do mundo.

A questão climática pode ser decisiva nesse contexto para modificar a forma de pensamento?

Pelo Acordo de Paris, cada um dos 190 estados que assinaram assumiu obrigações precisas para limitar as emissões de CO2 na atmosfera. 85% do CO2 emitido vem de energias fósseis. O acordo pede que as cinco maiores empresas de petróleo reduzam 50% de suas emissões até 2030 e de dar parte dos lucros ao desenvolvimento de energia alternativas, como solar, eólica e outras.

Mas o que é que ocorreu desde 2015? As cinco grandes empresas de petróleo do mundo aumentaram, em média, sua produção em 18%. E financiaram energias alternativas somente em 5%. Os jovens dizem: isso não funcionará.

Então, existe esperança?

Por anos, fui membro do Conselho Executivo da Internacional Socialista. Seu presidente, Willy Brandt, dizia a nós jovens, como eu, Brizola e Jospin: não se preocupem. A cada votação, vamos avançar aos poucos e as pessoas vão se dar conta. Lei por lei, vamos instaurar uma democracia social, igualdade de oportunidades e justiça social. Mas isso não ocorreu. No lugar do progresso da democracia social, o que vimos foi a instauração da ditadura mundial de oligarquias do capital financeiro globalizado que dá suas ordens, mesmo aos estados mais poderosos.

Desde a queda do Muro de Berlim em 1989, a liberalização do mercado e a perda do poder normativo dos estados avançou mais que nunca e, ao mesmo tempo, a desigualdade social aumentou. Mas Brandt também nos dizia: quando vocês falarem publicamente, é necessário dar esperança. O discurso deve ser analiticamente exato. Mas ele precisa ser concluído com uma afirmação de esperança. Caso contrário, é melhor ficar em casa.

Mas onde está essa esperança?

É a sociedade civil planetária. É a misteriosa fraternidade da noite, a miríade de movimentos sociais – Greenpeace, Anistia Internacional, movimento antirracista, de luta pela terra – que lutam contra a ordem canibal do mundo, cada qual em seu domínio. São entidades que não obedecem a um comitê central ou a uma linha de partido, e que funcionam por um só princípio: o imperativo categórico.

Emmanuel Kant dizia: “a desumanidade infligida a um outro humano destrói a humanidade em mim”. Eu sou o outro e outro sou eu. Essa consciência, em termos políticos, cria uma prática de solidariedade entre os indivíduos e reciprocidade entre povos. Mas essa sociedade é invisível. Não tem uma sede. Ela é visível cinco dias por ano, no Fórum Social Mundial, organizado pelos brasileiros em Porto Alegre.

O escritor francês George Bernanos escreveu: “Deus não tem outra mão que seja a nossa”. Ou somos nós que mudaremos essa ordem canibal do mundo, ou ninguém o fará.

Notas:

[1] Jean Ziegler ocupa hoje a vice-presidência do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

[2] Em seu novo livro – Le capitalisme expliqué à ma petite-fille (en espérant qu’elle en verra la fin) – O capitalismo explicado à minha neta (com a esperança que ela veja o fim), da editora Seuil, o sociólogo tenta dissecar o sistema atual de produção e suas consequências para a cidadania.   

[3] Ziegler já foi deputado federal, professor da Universidade de Genebra e professor da Universidade Paris Sorbonne. No início do século XXI, ele foi ainda o primeiro relator da ONU para o direito à alimentação.

 
 

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por Augusta Clara às 04:42

Quinta-feira, 23.05.19

CONVITE

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Fios enlaçados de realidade e sonho na fragilidade de uma textura
que a morte acaba por romper. Vivências dolorosas, dramas
sentidos, sonhos compreendidos, desilusões partilhadas.
Este livro não é mais do que uma mão cheia dessas realidades
semeadas nas suas páginas, onde muitas vidas se misturam,
sem que as personagens sê identifiquem. Cada uma
delas é apenas uma semente que a liga à realidade da emigração
de tantas famílias portuguesas nos anos sessenta. Dessas
sementes nasce uma seara de gente regada pelo sonho, onde
cresce uma flor rara. Flor rara que é também ela o símbolo da
minha acção educativa e da minha relação sentimental com
muitas crianças da aldeia que me viu nascer.
Foi essa vivência tão próxima guer no meu país quer nos países
de emigracão, que motivou a escrita deste livro. Pintado a
preto e branco, as corês da verdade, pouco tem de fantasía.
Testemunho de amor, nascido na rudeza e miséria da aldeia
ou no brilho ofuscante da cidade e seus boulevards, é também
ele uma homenagem à luta pelo sonho que pode levar à conquista
da mais nobre ambição do homem, a arte., EVA CRUZ

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por Augusta Clara às 19:04

Quinta-feira, 23.05.19

"Educar é um acto de amor" - Eva Cruz

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Eva Cruz  "Educar é um acto de amor"

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labor.pt, 23 de Maio de 2019

Entrevista conduzida por Gisella Nunes

 

Não há dúvida que o ensino é um dos grandes amores da vida de Eva Cruz. Que o digam os milhares de alunos, a maioria de S. João da Madeira, que lhe passaram pelas mãos. Esta professora de Inglês e Alemão orgulha-se de, em 36 anos de profissão, nunca ter sido alvo de má educação nem de ter marcado uma falta disciplinar

Agora com 77 anos e já aposentada há quase 20, como se sente?

Não tenho razões de queixa de saúde nem tampouco de vida. Acho que levei uma vida bem preenchida, uma vida de que não me arrependo absolutamente de nada.

Resido em S. João da Madeira (SJM), mas vou várias vezes para a nossa casa nas Figueiras [Vale de Cambra], um sítio realmente magnífico onde ouço o murmúrio do rio. É um refúgio onde realmente gosto muito de estar, mesmo no inverno.

Estou lá à lareira, a maior parte das vezes, com alguns amigos do meu tempo de criança, pessoas que têm muito a ver comigo afetivamente. Tenho uma amiga que é muito engraçada, com quem passo as tardes, tomo chá.Lá chamam-me Evinha, sabe?

“Tenho um irmão de ouro”

Sempre quis ser professora?

A minha paixão foi ser sempre professora. Já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava os alunos, contrariando o meu pai, que gostava muito que fosse advogada.

Era boa aluna em tudo menos no desenho. Tive sempre pouco jeito para desenho, assim como para a música. A minha mãe bem queria que aprendesse música e ainda cheguei a andar no seminário, com os jesuítas, a aprender a tocar órgão, para tocar nas missas. Mas era para fazer mesmo música a martelo, não dava.

Sabe que naquele tempo tirávamos um curso para ter uma vida melhor. Os meus pais não tinham formação académica, mas mandaram a mim e ao meu irmão estudar. E fizeram sacrifícios nesse sentido, porque o curso do meu irmão [Medicina] era caríssimo. E o meu também foi um curso caro, tirado em Coimbra longe de casa.

Antes de ir para Coimbra, fui para o Liceu CarolinaMichaëlis, no Porto, cidade onde o meu irmão já estava a estudar. E a minha mãe, na altura, alugou uma casa para nós os dois, com uma empregada, porque ficava mais barato.

Eu e o Adão fomos sempre muito unidos. Toda a gente se admira da nossa amizade. Há uma cumplicidade muito grande entre nós. Posso dizer que tenho um irmão de ouro.

Como é que uma adolescente de uma aldeia de Vale de Cambra deixa tudo para trás e vai para o Porto e, ainda por cima, para um liceu como o CarolinaMichaëlis?

Foi difícil! Ainda me lembro da minha primeira aula de Filosofia, com uma professora que tinha o cabelo “tipo regueifa” e umas unhas muito compridas, pintadas de vermelho, a dizer, com as mãos viradas para mim, “porque o homem é um microcosmo dentro do macrocosmo” [risos].

O CarolinaMichaëlis era um liceu de meninas de bem. A maioria era da Foz. A única que vinha do campo era eu e depois havia mais três que vinham da beira-mar, da Póvoa.

Mas isso não foi obstáculo. Integrei-me muito bem e fui sempre boa aluna.

“Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]”

Mas, na altura, já queria seguir línguas?

Bem… Gostava mais de ciências do que línguas. Mas como as ciências tinham desenho escolhi línguas germânicas. Além disso, houve um senhor da Oliva, que era economista, que disse ao meu irmão que “o melhor curso para a tua irmãzita era germânicas, porque vem para aqui uma senhora formada em germânicas que ganha quanto quer”.

E não se arrepende?

Não, não me arrependo. Gostava de ter tirado um curso de ciências, mas não me arrependo. Porque a língua também é uma ciência. No caso do Alemão, é uma língua de estrutura superior, rígida, muito difícil, mas muito racional, de que gosto muito.

Acabei até por me dedicar mais ao Alemão do que ao Inglês. Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]. Depois que saí, desapareceu o Alemão da escola. Acho que durou apenas mais um ou dois anos.

Ao ir estudar para Coimbra, como foi o “corte umbilical” com o seu irmão?

Não foi fácil. Imagine o que era uma miúda com 17 anos, naquele tempo, ir para Coimbra. Só vinha de três em três meses a casa.  As estradas eram terríveis. De Coimbra a Vale de Cambra demorava-se quase um dia. Naquelas curvas e contracurvas de Águeda vomitava quase sempre.

Mas, tirando isso, Coimbra foi um fascínio, de facto. Adorei Coimbra. Gostei mais de Coimbra do que do Porto.

“Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo”

Tem algum professor de quem ainda hoje se recorda?

Tenho pena, mas não. Não tive um professor que me marcasse. Não sei, talvez pela rigidez que encontrei no ensino da “velha escola”. Na primária, apanhei uma vez dois “bolos” porque dei quatro erros e só podia dar dois. Mas foram dados devagarinho, de forma diferente dos que eram dados a outros meninos.

Já em Coimbra, gostei, por acaso, de um professor de Fonética, mas também não foi assim uma coisa que me marcasse por aí além.

Mas, curiosamente, lembro-me de muitos alunos. Até tenho uma saudade e uma relação afetiva muito grande com todos eles. Há alunos que me marcaram de uma maneira excecional. No entanto, só dei dois 20 na minha vida, um a Inglês e o outro a Alemão.

Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo.  Claro que havia sempre brejeirices e marotices da parte deles. Mas nunca tive uma falta de educação de um aluno meu. Pelo contrário. Tive sempre manifestações de muito carinho.

Acabou o curso com que idade?

Com 22 anos, idade com que vim para a Molaflex, para S. João da Madeira.

Veio fazer o quê para a Molaflex?

Estava na altura a fazer a tese e fui para a Molaflex como tradutora de Alemão, com o Sr. Rui Moreira, pai do atual presidente da câmara do Porto, e com o engenheiro Mário Moreira, considerado uma das melhores cabeças que tinham passado pela FEUP.

Já na Molaflex, fui mandada para a Suíça alemã, com três operários. Fomos para uma fábrica de fazer molas e eu fui para o meio dos operários, sentadinha numa cadeira a traduzir a língua para os nossos trabalhadores. Ganhei ali relações muito interessantes. Foi um período muito interessante.

Entretanto, acabei a tese e concorri, sabendo que era muito difícil a colocação nos liceus, porque o número de alunos era reduzido. Havia poucos liceus. Concorri praticamente para todo o Norte do país e fui parar a Braga onde trabalhei durante cinco anos.

Fui para Braga ganhar três contos e setecentos e cinquenta escudos como professora, declinando um convite do engenheiro Mário Moreira, que estava na Siderurgia Nacional, que me queria como secretária. Davam-me na altura quatro contos e quinhentos para ficar aqui.

Fui ganhar muito menos e para longe de casa, mas era o ensino que queria. Entretanto veio a “Reforma Veiga Simão” que abriu as portas ao estágio. Mas para isso tinha de ir fazer as chamadas pedagógicas a Coimbra. E fui. Nesse ano ia ter o meu filho em maio.

Se voltasse atrás no tempo voltaria a ser professora?

Sem dúvida!

Como é que veio viver para SJM?

Quem me trouxe para SJM foi o meu marido que era engenheiro e veio trabalhar para a Quimigal. Ele era de Vizela. Quando fui para Braga, apaixonei-me por lá [risos].

Casámos e viemos viver para SJM. Tinha 27 anos, na altura, e o meu irmão, que dava consultas no Santo António [Hospital] e em Vale de Cambra, vivia também neste prédio, no andar de baixo.

Entretanto, já com um filho, fui fazer o estágio para o Carolina Michaëlis, com uma orientadora “de gancho”. Tinha aulas até às 18h00 e tinha de sair às seis da manhã, porque era a estrada velha. Não havia autoestradas.

Entretanto, no final do estágio, efetivou em SJM.

Sim, foi uma sorte. Efetivei em SJM, numa secção do Liceu de Vila Nova de Gaia que abriu aqui. Inicialmente, no Palácio dos Condes. Depois, num edifício para os lados do campo de futebol, com condições muito más. Depois fui para o Colégio Castilho, em frente à escola Serafim Leite.

A escola que é hoje João da Silva Correia foi designada Escola n.º 2, a seguir ao 25 de Abril. Mas eu já não cheguei a dar aulas onde ela é hoje [Rua da Mourisca].

Tem noção que ao ser professora mudou vidas?

Sim. Acho que sim. Por acaso, ainda há dias, tive uma aluna que se abraçou a mim a chorar e a dizer exatamente isso. Cheguei a fazer cursos pós-laborais porque sentia que para evitar determinados “desvios” tinha de os motivar para outros campos. As próprias viagens realizadas para o estrangeiro a custo zero, por mim e pela Dr.ª Clara Reis [antiga colega de profissão e hoje uma grande amiga], foram precisamente para isso. Eu e a Clara fomos muito cúmplices neste trabalho de projeto, de motivação dos alunos.

Ou seja, a Eva não se limitava a dar o programa curricular. Não ensinava apenas Inglês e Alemão, mas também princípios e valores?

Sim. Acho que sim. Embora tivesse de cumprir o programa, nunca abdiquei do meu papel de educadora. E, sabe, julgo que deixei marcas e tenho muito orgulho nisso. Continuo a pensar que educar é um ato de amor.

“Orgulho-me de ter contribuído muito para a ‘nova escola’”

A escola do seu tempo é muito diferente da escola de agora?

A “velha escola”, antes do 25 de Abril, era uma escola muito diferente da escola que foi criada depois [da Revolução de 74]. Orgulho-me de ter contribuído muito para a Nova Escola.

Orgulho-me mesmo, porque fui sempre muito ativista. Sempre me interessei por todas as reformas. Sempre fui muito empenhada para que houvesse uma escola nova. Uma escola em que acreditava e que acho que ajudei a construir.

Ultimamente, de há uns anos para cá, a Escola foi perdendo muitas regalias conquistadas no Pós 25 de Abril. Também reconheço que é muito provável que houve muito atropelo, muita coisa que se calhar não foi feita devidamente nem com o tempo devido.

Sim, perdeu-se muito nestes últimos tempos. Mas, apesar de tudo, a escola que temos hoje nada tem a ver com a escola de antes do 25 de Abril. É muito melhor!

Espero que professores, alunos, toda a gente que está ligada ao ensino, lutem para que estas conquistas de Abril não se percam mais. Se bem que hoje a profissão de professor está muito pouco dignificada, está mesmo desconsiderada, quando devia ser a profissão mais digna. Sim, porque pelas nossas mãos passa tudo. Passam, inclusive, os próprios governantes da nação.

Ainda há dias, fui à João da Silva Correia, porque queriam que fosse lá uma pessoa de sucesso que tivesse passado por aquela escola falar com alunos do 11.º ano. Achei piada por me acharem uma pessoa de sucesso.

Mas, sim, disse-lhes que se uma pessoa de sucesso é uma pessoa que realmente fez aquilo que fez, que gostou daquilo que fez e que não se arrepende daquilo que fez então eu era uma pessoa de sucesso.

Na ocasião, perguntei qual dos alunos que estavam no anfiteatro queria ser professor e não houve um único que levantasse o dedo, o que me deixou a pensar, sou sincera.

E isso deve-se a quê?

Não sei ao certo. Mas vejo tanta gente desmotivada no ensino que se tivesse oportunidade de se pôr a andar fazia-o.

Para se ser professor, para além do saber e do sentido pedagógico, tem de se ter aquilo a que chamo “arte”. Algo que não sei explicar. Tem de se ter uma empatia imediata com os alunos. Fui orientadora de estágio e olhe que “apanhei” muitos estagiários profissionais, competentes, mas não houve muitos em quem tivesse notasse a tal “arte”.

Se lecionasse hoje continuaria a não pôr alunos fora da sala de aula?

Não gosto muito de fazer afirmações sem vivências. Tenho ouvido queixas de gente que considero muito e que acho que devem ser boas profissionais que me impressionam. Mas olhe que no meu tempo também havia alunos que cuspiam na cara dos professores e que chamavam “filho desta” e “filho daquela” nos corredores. A seguir ao 25 de Abril não foi nada fácil.

A mim, felizmente, nunca me aconteceu tal coisa. Como lhe disse, nunca tive uma falta de respeito de um aluno nem tampouco atrevimento. Nunca pus um aluno fora da porta.

Chegada a altura da aposentação, a sua vida mudou?

Mudou. Passei a ter mais liberdade, a sair mais com o meu marido. Foi um bom período da nossa vida. Como os filhos já estavam formados, tínhamos mais tempo um para o outro, mas, entretanto, tive de passar a cuidar da minha mãe. Cuidei dela quase 20 anos, até ela falecer com 101 anos.

Depois de me aposentar, também passei a ir mais para Vale de Cambra, onde continuei com a minha função pedagógica junto dos miúdos da minha aldeia.

Quantos livros tem publicados?

Este [“O Leprechaun e a Bailarina”] é o meu sexto livro. O primeiro – “Era uma vez, Future Kids” – foi publicado em abril de 2004 e é sobre a minha infância.

“Aurora Adormecida”, o meu segundo livro, retrata o pós-guerra, a exploração do volfrâmio nas minas de Arouca, pedaços da vida da minha mãe, Aurora. Além destes, escrevi também “Era uma vez em Outubro” (2010), “Corconte” (2012), “Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)] e agora “O Leprechaun e a Bailarina” (2019).Embora não sejam escritos à toa nem de ânimo leve, nos meus livros, não tenho preocupação histórica. Aborrece-me pesquisar. Há sempre um fundo histórico, mas não há valor documental.

Mas começou a escrever antes de se reformar?

Sim. Sempre gostei de escrever. Quando fui para o CarolinaMichaëlis a professora de Português mandou fazer uma redação sobre o primeiro dia de aulas. Entregámos as redações e passadas algumas aulas a professora perguntou quem era a menina n.º 2 [naquele tempo eram chamadas pelo número em vez de pelo nome] e disse-me que tinha esperança que viesse a ser alguém na vida.

Leu a minha redação em voz alta e chamou a atenção para o título que tinha dado [“Esse primeiro de outubro”]. Ela achou piada ao demonstrativo.

Eva Cruz lança sexto livro esta sexta-feira nos Paços da Cultura”, com o apoio do jornal labor

Amanhã lança o seu sexto livro, “O Leprechaun e a Bailarina”

Olhe, comecei-o a escrever ainda o meu marido era vivo, há dois anos. Ele ainda chegou a ler 10 capítulos, porque, embora fosse engenheiro, tinha sentido crítico e a sua opinião era muito importante para mim. Aliás, faço-lhe uma dedicatória neste livro.

Ele gostava do que eu escrevia, mas estava sempre a dizer-me que devia puxar mais pela história porque as pessoas gostam muito de enredo. Só que acho que nunca tive nem tenho espírito de romancista.

“O Leprechaun e a Bailarina”é uma história de amor, uma história de sucesso de emigração que tem como pano de fundo a emigração dos anos 60. É um testemunho de amor, nascido na rudeza e miséria da aldeia ou nos boulevards da grande cidade.

Funcionou, para mim, como uma catarse. O falecimento do meu marido foi o período mais negro da minha vida. E eu agarrei-me a isto. Fui escrevendo, escrevendo, escrevendo, porque escrever era uma forma de me apaziguar, de controlar a saudade.

Mas não fazia conta de o publicar?

Não. Foi a Dr.ª Graça, da Biblioteca Municipal, uma das grandes motivadoras para que o publicasse. Ela e o marido, o Dr. Pedro, são os dois causadores da publicação. “O Leprechaun e a Bailarina” conta com a edição do jornal labor.

E agora está motivada?

Sim, estou. Dei-o, inclusive, já a ler às minhas quatro apresentadoras da sessão de amanhã, que, curiosamente, também apresentaram o meu primeiro livro: professoras Carmina, Clara Reis, Isilda e Nelly.

Obra é “uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos”

Qual a mensagem deste seu livro?

Este livro pode ser considerado uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos.

A “bailarina” é uma menina que batizei [a madrinha e narradora] a quem eu dei em criança um “Leprechaun” [figura mitológica do folclore da Irlanda], que a acompanhou pela vida toda. Ela agarrava-se ao duende e à bênção da madrinha convencida que eram eles que lhe davam força para perseguir o sonho. Por vezes, uma palavra certa pode ser determinante. Pode alimentar o sonho. Cá está o meu espírito otimista a falar mais alto.

Acredita que o “Leprechaun”dá mesmo sorte?

O meu primeiro “Leprechaun” foi-me oferecido por uma amiga irlandesa há muitos anos. E agora no Natal do ano passado a Clara Reis deu-me outro, longe de imaginar que ia publicar um livro intitulado “O Leprechaun e a Bailarina” [risos]. Coincidências ou talvez não…

Mas respondendo à sua pergunta, as crenças e superstições valem o que valem. Com esta “bailarina”, cujos “Leprechaun” e a bênção da madrinha sempre a protegeram pela vida fora, quero simbolizar todos os meninos da aldeia que tirei do insucesso. Ensinava-lhes tudo o que sabia. Fui espalhando essa influência pedagógica, afetiva.

Tem outro livro na forja?

Tenho muitas ideias. Tenho muita coisa escrita, para aí dispersa, na matriz da poesia. Mas acho que este é mesmo o meu último livro.

 

Eva Cruz

Eva Cruz nasceu em Vale de Cambra nas Figueiras – um “lugarzinho mágico” perto do Pinheiro Manso, quem vai para Oliveira de Azeméis (OAz) – a 6 de janeiro de 1942, precisamente, no Dia de Reis.  Daí a sua mãe, Aurora, lhe dizer que naquele dia tinha nascido uma “rainha”. A família na altura não era numerosa, sendo composta apenas pelos pais e um irmão, Adão Cruz, com quem teve sempre uma cumplicidade muito grande.

“Evinha”, como ainda lhe chamam na sua aldeia, fez a quarta classe na Escola Primária dos 2 e, depois, foi para o Colégio de Oliveira de Azeméis, onde o irmão, cinco anos mais velho, já andava. Em OAz concluiu o último ano de liceu, seguindo-se uma nova fase da vida no Porto, uma cidade grande que nada tinha a ver com o “paraíso” onde vivia. Na “Invicta” frequentou o Liceu CarolinaMichaëlis, “considerado na altura o liceu mais difícil do país”. Entretanto, prosseguiu os estudos em Coimbra tendo em vista o ensino de Inglês e Alemão.

O pai gostava que fosse advogada, mas Eva Cruz que, “já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava alunos”, sempre quis ser professora. E, de facto, foi professora durante 36 anos, a maior parte do tempo na Escola João da Silva Correia.

Após a aposentação em 2001, dedicou-se mais a sério à escrita. Já tem publicados cinco livros e tem um outro que está a poucas horas de “ver a luz do dia”. Com edição do jornal labor, “O Leprechaun e a Bailarina” é lançado amanhã, dia 24, pelas 21h30, nos Paços da Cultura.

 

Livros de Eva Cruz

 “Era uma vez, Future Kids” (2004)

“Aurora Adormecida” (2006)

“Era uma vez em Outubro” (2010)

“Corconte” (2012)

“Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)]

“O Leprechaun e a Bailarina” (2019)

 

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por Augusta Clara às 16:44

Segunda-feira, 13.05.19

O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala) - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos   O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala)

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- O combate intenso e coordenado ao avanço da extrema-direita na Europa e uma campanha de esclarecimento às populações sobre as consequências do retorno de governos fascistas;
- A expulsão da União de países onde se instalem governos com políticas e práticas fascistas e que permitam a livre expressão de grupos que defendem a ideologia nazi e cometem crimes com base nesta ideologia;
- O acolhimento e integração de refugiados e suas famílias como cidadãos europeus de iguais direitos, desmontando a ideia ainda reinante em muitas cabeças de que são todos terroristas;
- O fim da venda de armas por países da EU a países, grupos e coligações que as têm utilizado para destruir países através de guerras que tiveram unicamente como fim roubar-lhes as matérias primas, sabendo nós que foram essas guerras a origem da fuga em massa dos seus habitantes em direcção à Europa nas trágicas condições que levaram a milhares de afogamentos;
- A uniformização de leis em todo o espaço da UE que penalizem sem condescendência a corrupção e as grandes fraudes financeiras que enfraquecem e deterioram a economia dos países;
- Como consequência do afirmado no parágrafo anterior, a luta por uma Justiça igual para todos os cidadãos e não diferenciada entre os que têm dinheiro para se defender e os outros;
- O combate sério e generalizado a todo o tipo de descriminação com base na opção sexual, política, de credo religioso ou outra;
- Exigência da protecção dos mais frágeis como as crianças, os deficientes e os idosos;
- Combate à violência doméstica e, especificamente, que seja dada maior atenção à violência contra as mulheres que tem assumido contornos escabrosos em vários países europeus;
- Acérrima exigência pela liberdade de opinião e de expressão.

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por Augusta Clara às 18:11

Terça-feira, 30.04.19

GUINÉ- IRKUTSK - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUINÉ- IRKUTSK 

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(Adão Cruz)

 

 

   Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
 
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
 
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
 
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
 
Os lábios do jovem soviético nascido em Irkutsk estavam gretados de sede e de sol. Um sorriso feito de água, terra, fogo e ar, iluminado por um sol negro de melancolia, denunciava um grande medo dos homens que tinha na sua frente.
 
O capitão foi buscar um copo de água e entornou-a lentamente a uma mão travessa da boca do rapaz. Os olhos quase saltaram das órbitas. Pedi ao capitão que me desse o copo, enchi-o de água e raiva e dei-o a beber ao prisioneiro. Valeu-me a firmeza com que o fiz e o facto de ser médico.
 
Se algum dia a minha vida pudesse ser música!…
 
Desconfiado, levou o copo à boca…
 
Ainda hoje eu não sei falar de tudo o que treme nas mãos de uma criança!
 
O céu arrependeu-se de chover. Seguimos para o lago Baikal, a maior reserva de água doce do mundo. Segundo os cálculos, daria para matar a sede à humanidade durante oitocentos anos. Quando senti nas mãos a água fria das margens lembrei-me de um copo de água lá nos confins da Guiné.
 
Eu não sou capaz de crescer para as palavras, mas dava tudo para cruzar os tempos que ainda são tempo, e mostrar ao mundo a dimensão que o homem é, e a pequenez que usa por força da fraqueza.
 

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por Augusta Clara às 11:10

Domingo, 28.04.19

Entrevista completa de Lula da Silva à TV Folha e ao El País

 

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por Augusta Clara às 20:29

Sábado, 27.04.19

A extrema-direita espanhola, as mulheres e os defensores dos animais - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  A extrema-direita espanhola, as mulheres e os defensores dos animais

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       Amanhã há eleições em Espanha.
Num dia desta semana, um comentador do telejornal da RTP2 apontou, entre os principais motivos para a ascensão da extrema direita naquele país, a explosão dos movimentos feministas com as consequentes reivindicações das mulheres e os movimentos anti-tourada e defensores dos animais. Que coisa mais estranha!
Nunca me tinha constado pelo que tenho lido da História da Europa que os machistas descontentes e os marialvas tivessem tido influência na subida do nazismo ao poder. Bem sei que na Alemanha não havia touradas mas o Hitler até gostava de cães. Se estes fossem motivos fortes, há quanto tempo a teríamos por cá empoleirada no poder ou nem nunca teríamos derrubado o fascismo.
Deixemo-nos de tolices. O crescimento da extrema-direita acontece por motivos económicos e pelo terror infligido às pessoas através de mecanismos enganosos de condicionamento psicológico, fazendo uso da despolitização provocada na maioria dos indivíduos, normalmente os mais desfavorecidos, de uma população.
Os motivos económicos actuais são, sem dúvida, da responsabilidade das políticas da União Europeia e dos Governos da maioria dos países que a constituem que têm sido postas ao serviço da banca e dos banqueiros executores com perícia das grandes fraudes financeiras com enorme peso no acentuar das desigualdades sociais.
Eis um dos caldos de cultura de que se alimenta a extrema-direita, oriunda do mesmo clube de ladrões capitalistas, com as falsas promessas de reversão da situação que sabe nunca ir cumprir. Ao convencer e arregimentar para as suas fileiras os descontentes e incautos, se chegar ao poder, mais não fará do que reforçar a sua exploração e esmagar-lhes futuras rebeliões.
O que têm, então, as mulheres a ver com isto, elas que até às mãos dos mais explorados têm sofrido?
O segundo motivo actual para a aumento da extrema-direita na Europa prende-se com a questão dos refugiados que têm afluído através do Mediterrâneo em fuga às deploráveis condições de vida e às guerras nos seus países desencadeadas pelos ocidentais e “civlizados” sorvedores de petróleo. Virando-se o feitiço contra o feiticeiro, ao engolirem-lhes o petróleo e deixaram-lhes os países feitos em cacos, são agora pressionados a acolhê-los e a dar-lhes possibilidades de continuarem a viver. Que pior havia de acontecer a quem já se recusa a partilhar com os seus do que ainda lhe aparecerem esses “terroristas” e as suas famílias para lhe ficarem com mais umas migalhas? Toca, pois, a meter isto na cabeça daqueles a quem já roubaram tanto para que eles os ajudem a livrar-se desses malfeitores que conseguem chegar à Europa sem se afogarem.
Digam-me, então, o que têm as mulheres e todos os que rejeitam as touradas e os maus tratos aos animais com a ascensão da extrema direita na Europa e, particularmente hoje, em Espanha. Nem Dali diria tal coisa!

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por Augusta Clara às 20:13



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