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Jardim das Delícias


Terça-feira, 03.08.21

Poesia - Adão Cruz

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Adão Cruz  Poesia

 

vale de cambra 9 de julho de 2018 (2).jpg

 

 

   É muito difícil saber o que é a poesia, e eu duvido de quem diz que sabe o que é a poesia. Tenho ouvido as mais variadas explicações e definições, mas o horizonte que me transmitem é sempre nebuloso. Isto não impede, contudo, que tenhamos o direito à manifestação do nosso pensamento e da nossa razão.
Pessoalmente, sem ter a veleidade de pretender procurar definições de poesia, senti sempre a necessidade de perceber o que é, necessidade de a entender e de me entender no seu complexo e maravilhoso mundo. Por isso, ao longo de tantos anos de reflexão, fui dando comigo a pensar que a poesia não é mais do que um sentimento como outro qualquer. Assim sendo, prefiro chamar-lhe sentimento poético. Um sentimento como o sentimento do amor e do ódio, o sentimento da alegria e da tristeza, o sentimento da coragem e do medo, o sentimento da felicidade e da infelicidade, bem como o magnífico sentimento da liberdade, sobretudo da liberdade interior, a liberdade do pensamento e da razão, as maiores riquezas do ser humano. Um sentimento, não no sentido sentimentalista mas no sentido neurobiológico do termo, um sentimento muito subtil, uma espécie de brisa mágica perpassando pela nossa mente, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, provavelmente de uma neuronalidade muito específica e delicada, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem. Eu penso que a sua arte reside na combinação da palavra justa com a adequada sensibilidade e energia sinestésica que fazem o poema acordar. A poesia não é uma emoção porque a emoção não é consciente, embora a emoção poética seja o caminho obrigatório e quase instantâneo para o sentimento, o sentimento poético, esse sim, consciente. Não é, contudo, um sentimento de cópia da realidade mas de simbolização, a evocação e a invocação ao mais alto nível, da beleza e da nobreza da realidade. O fenómeno poético poderá ser entendido como uma harmonia verbal e mental em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se fundem num resultado de suprema fruição estética para quem o vive de forma profunda. O chamado poema, considerado a matriz literária onde habitualmente nasce e germina a poesia, pode até ser estéril, pode não passar de uma espécie de andaimes da construção poética, ou ser mesmo a negação da poesia. A poesia, o sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo mesmo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida numa pintura ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso, em minha opinião, qualquer forma de expressão artística, qualquer obra de arte só o é se contiver dentro de si a poesia do sentimento artístico, o sentimento poético.
Daniel Barenboim dizia que a música não é o som. De facto, todos sabemos que a música se exprime através do som, mas o som, em si mesmo, não é música, é apenas o meio físico através do qual é possível transmitir a mensagem mental da música. Todos conhecemos as notas musicais, todos somos capazes de as dedilhar nas teclas de um piano, mas daí a gerar um sentimento poético e artístico musical vai um abismo. Todos conhecemos as letras e as palavras, todos somos capazes de as juntar e com elas comunicar, de forma primária ou erudita, mas daí a criar arte literária ou sentimento poético vai um abismo. Criar poesia pode não ser apenas entrelaçar palavras dentro de uma construção ou estrutura chamada poema, pode não ser encastelar versos uns em cima dos outros, fazer frases labirínticas que ninguém entende, engendrar rimas e outras coisas que não passam, muitas vezes, de execuções sumárias da poesia. Assim sendo, a poesia pertence á nossa área neuronal, à esfera das emoções, sentimentos, consciência e afectos. Ao fim de uma vida de interrogações e reflexões, eu posso dizer que encontrei as minhas verdades, que sempre o serão até me provarem e convencerem de que o não são, o que não tem acontecido. Para quem, como eu, materialista convicto, não aceita qualquer dualismo corpo-espírito mas apenas o todo uno e indivisível do ser humano, essas verdades ou pelo menos algumas delas até poderão ser a Verdade.
Todos nós possuímos no nosso cérebro o mesmo esquema neural de um sentimento, já que é o esquema neural da nossa espécie. Mas o padrão neural desse sentimento que vai encaixar no nosso esquema neural é diferente em cada um de nós. Todos, de uma maneira geral, temos o mesmo esquema de vida. Todos nos levantamos, todos tomamos banho, vamos para o trabalho, andamos de carro, fazemos férias, todos rimos e choramos, mas as nossas vidas, os nossos padrões de vida podem ser muito diferentes, desde a simples camisa à profundidade do nosso íntimo. Os sentimentos não se constroem, não aparecem nem se manifestam aleatoriamente de um dia para o outro. Além disso, os sentimentos são o resultado de uma infinidade de factores que interagem entre si e os tornam tão intimamente ligados que só de forma artificial e académica tentamos separá-los e individualizá-los. Todos nós nascemos, como disse, com os esquemas neurais dos sentimentos da nossa espécie. Mas assentes nesse terreno genético, cada um de nós vai criando os padrões dos seus próprios sentimentos, através de uma curva de vivência e aprendizagem de uma vida inteira. Uma pessoa que tenha tido uma vida repleta de amor, que tenha vivenciado o amor na sua plenitude, adquire um padrão do sentimento do amor muito diferente do sentimento do amor de uma pessoa que nunca amou ou nunca foi amada. Uma pessoa que toda a vida viveu na miséria, no meio de agruras e dificuldades de toda a ordem, terá provavelmente um sentimento de carência que pode ser totalmente diferente do sentimento da pessoa que nunca teve dificuldades e viveu toda a vida na abundância. Dentro do nosso esquema neural já haverá, porventura, embriões dos diversos sentimentos que vão nascer connosco, que depois crescem, se desenvolvem e se vivenciam, e que a epigenética vai moldando, construindo, estruturando, apurando e afinando dentro de cada um. Para o bem e para o mal. Assim acontece com o amor, o ódio, a alegria, a tristeza, o medo, a coragem, sentimentos do nosso dia-a-dia. Não acontece tão facilmente, penso eu, com o sentimento poético e o sentimento artístico porque eles, a meu ver, não são vividos nem desenvolvidos pela globalidade das pessoas. Apenas os vivem aqueles que deles sentem necessidade e por eles se sentem atraídos, aqueles que os vão apurando, que os enobrecem e que com eles se habituaram a conviver como metabolitos essenciais da sua vida. Como é óbvio, mesmo assim, de formas diferentes em cada um de nós.
Então, poderemos tentar dizer, cautelosamente, o que será um poeta. Eu penso que ser poeta é, antes de tudo, ser possuidor de um sentimento poético profundo e muito apurado, construído através de uma vivência de amor, atracção e dedicação à poesia, vivendo-a de uma forma indissociável do viver da vida. Mas para além desta aprendizagem de uma vida inteira, creio que é fundamental na construção do sentimento poético uma formação cultural global do ser humano tão sólida quanto possível, uma visão humanística e livre do mundo e das coisas, a par de uma bem estruturada formação ética e estética. Só assim se entende, como parece comprovado através de estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, melhoram e purificam todos os outros sentimentos, ajudando-nos no caminho do equilíbrio, da harmonia e da justiça. Penso ainda que muito daquilo que andamos para aqui a fazer e a que chamamos poesia, não passa, tantas vezes, de arremedo, de ilusão e desilusão. E também penso que é um erro pretender que o sentimento poético chegue às pessoas por artes mágicas. Dito por outras palavras, julgo que é um erro pretender levar às pessoas a poesia ou sentimento poético como se de uma actividade lúdica ou de prenda banal se tratasse. Dizia Schiller que o vulgar é tudo aquilo que não desperta outro interesse que não o sensível. A arte e a poesia não podem descer ao puramente sensível, à mera receptividade sensorial, à fugaz captação de estímulos incapazes de serem vividos condignamente nas complexas oficinas neuronais da nossa mente. Não é a poesia e a arte que têm de ir ao encontro das pessoas, não é a poesia e a arte que têm de descer ao comum dos mortais, mas é o ser humano que tem de ascender ao sentimento artístico e poético através de políticas culturais e condições sociais que a todos permitam sentir a necessidade da poesia e da arte como um elemento essencial da vida.

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por Augusta Clara às 00:25

Domingo, 01.08.21

Mas - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  MAS

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Dos que atiram a pedra e escondem a mão
 
   Além dos putativos herdeiros dos movimentos mais violentos e totalitários da história moderna e contemporânea de Portugal, desde a Vilafrancada miguelista de 1823, até aos bombistas e saqueadores reunidos na sé de Braga e nas escritórios do franquismo em Madrid, do cónego Melo ao comandante Alpoim Calvão que colocaram “Portugal a arder” com o ELP e o movimento Maria da Fonte, dos que ainda choram o fim da ditadura e da guerra colonial, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho proporcionou o ressurgimento de um outro grupo, o do “mas”. O grupo dos falsos “cândidos”, dos que argumentam candidamente que a operação militar foi boa, “mas” a revolução não foi democrática e o seu desenrolar até foi atribulado.
Os do “mas” não perdoam a Otelo a responsabilidade de ter transformado um putsh militar numa revolução, incentivado os portugueses a agir e a organizar-se espontaneamente para decidir o que fazer após o derrube da ditadura, o fim da polícia política, dos tribunais plenários, da censura, do poder patronal absoluto! Ora, esta liberdade tomada por necessidade e impulsionada por Otelo, constituiu e constitui uma ofensa imperdoável aos “mas” sobre o que “devia ser uma democracia”, trazida já talhada, pronta-a-vestir do Posto de Comando da Pontinha, ou, ainda melhor, de casa do general Spínola.
O grupo do “mas” acusa Otelo de ter aberto as portas a uma democracia para a qual não se tinham preparado, que não lhe reservara lugares, que não respeitava os seus chefes de clãs, que não resultava de confrarias e ordens com santos hierarquizados, doutrinas e credos estabelecidos, com programa, estatutos, cartões, controleiros e chefes de secção! Otelo abriu as portas a uma democracia sem ungidos, sem secretários-gerais e adjuntos, herética aos olhos dos defensores do condicionamento político da sociedade, para quem a democracia é um exclusivo dos partidos e, destes, apenas os das famílias com denominação de origem controlada — DOC — pela elite europeia e americana.
Otelo não foi nem quis ser o fila guia, o turibulário, o incensador de um golpe que se limitaria a legalizar o Partido Comunista e a distribuir os lugares e prebendas no aparelho do Estado até aí exclusivas da União Nacional/ANP por pessoal de confiança das famílias políticas europeias do pós II Guerra. Uma nova elite que, quanto ao problema colonial, se libertasse da guerra na Guiné, dividisse Moçambique e se concentrasse em preservar o domínio de Angola pelos grandes grupos europeus e americanos e que, quanto a Portugal, abrisse o mercado e não assustasse os falangistas espanhóis. Este era o papel reservado a Spínola e aos partidos que iriam ser fundados, ou desenvolvidos a partir de embriões de recente fecundação.
O reconhecimento imediato da independência da Guiné declarada pelo PAIGC por parte dos militares do Movimento dos Capitães local e das negociações desde logo iniciadas com a FRELIMO, em Moçambique, pelos oficiais do Movimento daquela colónia não permitiu a Spínola desempenhar o papel de “descolonizador conveniente”; e o aparecimento do COPCON, comandado por Otelo, como um contrapoder e não como um aparelho repressivo, impediu a rápida partidarização do novo regime, a sua “normalização, ou domesticação. É esta conjugação de fatores que os adeptos do “mas”, os falsos cândidos, apelidaram de PREC, que levou Spínola à demissão em Setembro de 1974, ao 11 de Março de 1975 e ao “Verão Quente”.
A descolonização imposta pela recusa das tropas de continuarem a combater em África e o subdesenvolvimento de Portugal não permitiram a “transição pacífica” do regime, a maquilhagem do Estado Novo colonial numa “democracia” sem alterar as relações de poder das castas superiores e mantendo os cidadãos à distância, como viria a acontecer em Espanha.
Na morte de Otelo, os “ressabiados”, herdeiros do absolutismo, do Portugal grotesco e caceteiro, arrogante e pesporrente, saíram à luz do dia a verter lágrimas de crocodilo pelas vítimas da violência, sendo que esta sempre constituiu a sua principal ferramenta de domínio, os “ mas” vieram apoucar o papel de Otelo, reduzi-lo a um major de artilharia que rabiscou um plano de operações numa folha de A4 e num mapa do Automóvel Clube, que não sabia o que era “uma democracia como devia ser”. Classificam-no como uma personalidade controversa e contraditória, sem perceberem que o estão a distinguir e a elevar entre os comuns. Os primeiros, os ressabiados, são os “tios” e “tias” que continuam a lamentar o fim das criadas de servir, os agrários que se queixam do fim dos trabalhadores pagos à jorna e dos ranchos de “ratinhos” idos das Beiras para o Alentejo, os patrões que viviam à custa de operários sem direito a sindicato ou a até a horário. Os segundos, os “mas”, são os que temeram e temem uma democracia da qual não fossem e não sejam os mestres!
Otelo não levantou nem guarneceu as barreiras de proteção que, segundo os ressabiados e os “mas”, deviam separar o povo instalado na geral do teatro do poder do dos senhores doutores acomodados nos camarotes! A sua morte trouxe para os jornais e televisões os herdeiros dos integralistas e relembrou a persistência de um Portugal de seres mesquinhos, interesseiros, de um lupmen de bem-apessoados e bem instalados que, para defender os seus interesses, não hesitará em colocar um “mas” na fórmula atual de democracia e de Estado de Direito, de se unir aos ressabiados, não certamente para melhorar a vida dos portugueses, nem lhes acrescentar liberdade, mas para impor um regime que lhes seja mais rentável, porque sempre viveram de rendas e de ausência de princípios."

 

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por Augusta Clara às 23:53

Segunda-feira, 26.07.21

Em homenagem a Otelo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Em homenagem a Otelo

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Um cravo vermelho
cristal de vida no céu de chumbo
cada dia um mundo limpo e perfumado
graças a ti flor da minha idade.
Caminho da esperança às portas da cidade
todo o mel e todos os frutos ali à mão.
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã despertou agitando as árvores.
E a noite se fez de estrelas que desceram aos cantos do jardim.
Um cravo vermelho e quente
mais que tudo amando a vida
em qualquer língua entendida.
O mundo tinha o sabor de uma maçã
e os olhos inacabados eram cravos vermelhos.
Não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira na praça do entusiasmo
e uma jovem mulher
dormindo um sono de criança nos telhados da revolução.
O seu rosto era uma nuvem dourada pelo sol e pela lua
os cabelos trigueiros uma seara
e nos lábios a canção de Abril que encheu a rua.
Hoje…
Hoje não sei se é dor se alegria
o que sonho quando abro ao sol as portas de Abril.
Não sei se é dor
tristeza ou alegria
aquilo que sinto neste dia
em que Abril faz tantos anos de saudade e nostalgia.
Anos de luminoso tremor
corações ao alto
quadros verdes de sonho e raiva
de sol e chuva em celeste azul
luzindo nos olhos de uma gaivota
branca gaivota de penas mansas voando solitária dentro de mim
à volta de um cravo vermelho que me ficou dentro do peito.
Abro as janelas a medo neste areal de céu escuro
contra o mundo
a idade e o cansaço
e não sei se é vida ou amargura a estreiteza deste espaço.
Sei que um rio de negras águas cavalga as margens do meu ser
por entre as fendas da secura
e outra vez afoga a democracia às mãos de nova ditadura.

 

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por Augusta Clara às 17:02

Sábado, 24.07.21

Meu amigo Dostoievsky - Adão Cruz

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Adão Cruz  Meu amigo Dostoievsky

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(Adão Cruz)

 

Meu amigo Dostoievsky
nada temos a ver
aparentemente
um com o outro
a não ser o nosso encontro
pelos meus dezoito anos.
Apetece-me chorar ao recordar as noites
em que à luz de um foco olho de boi
debaixo dos lençóis
- para que minha mãe não visse -
eu invadia os teus livros
numa das maiores
e mais deliciosas aventuras da minha vida.
Ainda hoje me são familiares
o rosto de Sónia e a figura de Raskolnikov
luz mítica e mística dos que têm coisas em comum
orientando-se na direcção do símbolo
e do mundo sem forma.
Da mesma forma que te marcaram Balzac
Schiller
Victor Hugo e Goethe
tu imprimiste em mim a sensação
que te fez desmaiar
perante a beleza de Seniavina
na casa dos Wielgorsky
e eu não sou homossexual
meu caro Dostoievsky.
Perante a beleza
eu não sei ao certo onde pára o sexo
se no esperma de Úrano derramado no mar
se na poesia da Morte em Veneza.
Não é a realidade física que interessa ao simbólico
mas o significado do sexo na imaginação.
A dualidade do ser funde-se
na tensão interna de quem ama
e a união sexual não é mais
do que o apaziguamento da tensão interior.
Nunca te concebi humano
sobretudo depois dessa manhã
de rosto de pedra e gelo
em que viveste o mais trágico minuto da tua vida.
Um vento glacial varreu-me a fronte
ao ouvir o teu nome na chamada para a morte:
-Akcharumov!
-Shaposhnikov!
-Dostoievsky!
Hoje
depois de ter amado tanto
aceito a tua epilepsia
como o estigma mais marcante
da pureza da condição humana
e passei a considerar-te meu irmão
para o resto da vida.
Por isso me senti prisioneiro
quando entrei na fortaleza de S. Pedro e S. Paulo
por isso chorei na Praça Semenovsky
onde viveste uma vida inteira
em dois minutos de morte.
Era como se fosse eu o condenado!
Também chorei quando reencontraste Suslova
apenas
pelo que sofreste ao ver que o amor não se repete.
A noite e o vazio
estão na origem cosmológica do mundo
e o amor é uma criança que cresce...
e deixa de ser criança.
Amor e morte
quando descobertos
acordam e fogem.
Para escrever bem é preciso sofrer
disseste um dia ao jovem Merejkovsky
quando a vida confundia as chamas do teu inferno
com relâmpagos de visionário.
Sofrer pode ser apenas sorrir...
frente a toda a utopia palpável
não paranóica nem delirante.
Foi a mim que o disseste
meu caro amigo
foi a mim que o disseste
na tarde cinzenta da tua morte
na hora da hemorragia que te vitimou.
Até hoje ainda não te agradeci.
Perdoa não ter acompanhado o teu féretro
mas nessa altura eu não existia...
ou será que te acompanho ainda hoje
neste pesado caminho do fim?

 

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por Augusta Clara às 17:03

Sexta-feira, 16.07.21

Ao redor do vento - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do vento

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(Adão Cruz)

Não me encontraste mas eu sei que vieste ao meu encontro
porque caminhavas suavemente ao longo do rio
tão levemente que os teus olhos mo diziam
e nem as gaivotas fugiam.
Outrora o sol nascia pachorrento a esta hora
em que me davas um beijo de alento
e eu corria rio fora em direcção ao vento.
Os veleiros rodavam em círculo
inchando as velas brancas e amarelas
e também azuis como o poema.
Eu sei que vieste ao meu encontro mas não me viste
porque o sol de hoje nasce de forma alheia
e os veleiros não dançam
porque deles é o vento e de ti também.
Eu sei que vieste ao meu encontro
e tudo em redor mo leva a crer
mas os teus olhos perderam-me
porque são de vento as horas de me ver.

 

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por Augusta Clara às 17:38

Sexta-feira, 09.07.21

Uma Rapariga Enlouquecida - W. B. Yeats

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W. B. Yeats  Uma Rapariga Enlouquecida

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(Adão Cruz)

Essa rapariga enlouquecida improvisando a sua música,
A sua poesia, dançando sobre a praia,
Com a alma de si mesma dividida
Trepando, caindo sem saber aonde,
Escondendo-se entre a carga de um vapor,
De joelhos esfolados, essa rapariga, eu a declaro
Algo de majestoso e belo, ou algo
Perdido heroicamente, heroicamente achado.
Ocorresse o que ocorresse
Ela deixava-se envolver pela desesperada música
E envolvida, envolvida, construía o seu triunfo
Onde os fardos e os cestos não produzem
Qualquer som comum inteligível
Mas cantavam: «Ó faminto mar, mar esfomeado.»
 
(in "Os Pássaros Brancos e outros poemas", Relógio D'Água)
 
 

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por Augusta Clara às 21:35

Sábado, 26.06.21

Preso à cidade - Adão Cruz

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Adão Cruz  Preso à cidade

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(fotografia de Manel Cruz)

 

Preso à cidade
nesta inquietante angústia das sombras
ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange
cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha
que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.
Lá atrás
uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido
sob as janelas podres
lembra que se alma houvesse
seria fácil presa de um qualquer rígido corpo
enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo.
A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo
definhada de luz e consciência
deixando atrás de si os últimos passos de uma existência
presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.
Até o vento se foi
para não arrastar a neblina estranha
e para não calar o pesado silêncio que se prende ao corpo
como mortalha do tempo que desfaz a réstia de luz
presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.
Ainda ontem era dia nos braços do trabalho
e nas carnes que não conheciam o exílio
recusando morrer fora dos sonhos e da vida
e o vento varria o silêncio
para libertar o corpo e a mente
da neblina das noites pegajosas.
Havia certezas por entre os tremores da indecisão
havia sorrisos verdades e ilusões
e havia brisas sonâmbulas calando os medos
e havia rios arrastando as paredes negras
e todas as sombras dos candeeiros partidos.
Preso à cidade
na tristeza que nos envolve e nos liberta o pensamento
cai dos telhados a poeira do tempo
que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos
e abre no chão quadriculado um espelho negro
com um menino tocando o céu azul
rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos
e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa
e carinhosamente
e sigilosamente
nos devolve ao nada por um caminho oculto
irreversível.

 

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por Augusta Clara às 23:38

Quinta-feira, 03.06.21

O Quadro - Eva Cruz

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Eva Cruz  O Quadro

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(Adão Cruz)

   Terminado o almoço na sala requintadamente sóbria, ficaria na memória a vitela de Lafões e as batatinhas lustrosas de cor aloirada que o forno de lenha pintou. Um café na pastelaria dos “vouguinhas”, o seu orgulho de fabrico diário, despertou a caminhada pelas margens verdes do rio, onde cada pássaro exibia o seu gorjeio, e cada pato mostrava a sua perícia, cortando em leque as águas profundas. Outros espreguiçavam-se nas margens, enchendo a relva de várias cores. No meio do rio, perfurando o ar, um grande jacto de água brincava com o sol formando um arco-íris. O mesmo arco-íris que coroava a serra em tantos Maios da nossa infância.

Mais adiante uma placa indicando o Condado de Beirós. A seta assinalava o caminho já varrido da memória, e a cor parecia indicar o interesse de uma visita.

- Lembras-te da exposição de pintura no Condado de Beirós, há mais ou menos vinte anos, a minha maior exposição individual, com várias salas, corredores e claustros cheios?

- Claro que sim, então não havia de recordar! Com tanta gente que ali acorreu, vinda de todos os lados. Um rol de nomes, amigos e conhecidos, alguns que ainda lembro com saudade e a voz enternecida, muitos deles já saídos deste mundo e da lembrança!

Algo emergiu das entranhas do passado que nos obrigou a pegar no carro e seguir o caminho de outrora à procura do Condado. E foi em busca de alguns eventuais restos que subimos o monte, entramos no portão da quinta e encontrámos, com surpresa, o velho solar quase intacto, o branco da cal um tanto desbotado, a pedra escurecida, a natureza em volta bem tratada, e uma bela piscina, no meio de um campo relvado. Em volta da casa muitos carros velhos, enferrujados, incluindo um Maserati a desfazer-se. Lembrámo-nos, então, que em tempos o dono tinha uma paixão especial por carros antigos.

A porta do solar estava aberta. Bati e voltei a bater com toda a força, chamei e voltei a chamar por alguém, e como não obtive qualquer resposta ou perturbação daquele silêncio, entrei. Tudo impecavelmente arranjado e decorado, nas paredes muitos quadros, retratos antigos, bonitos móveis, tudo bem tratado e asseado. Não havia dúvidas de que estava habitado e aberto ao público…que não existia, mas que o desconfinamento haveria, muito provavelmente, de voltar a trazer. Subi o primeiro lance de escadas tapetado com passadeira vermelha, depois outro igual virando à direita. No topo da escadaria de pedra boleada, em lugar de honra, um quadro com moldura dourada prendeu a minha atenção. Só poderia ser, não tinha dúvidas. Chamei o meu irmão que de imediato confirmou que aquela pintura era sua. Lá estava o seu nome e a data 2002.

 

 

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por Augusta Clara às 20:44

Segunda-feira, 31.05.21

Vem cá do fundo - Eva Cruz

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Eva Cruz  Vem cá do fundo

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(Adão Cruz)

Vem cá do fundo uma tristeza enorme
que varre o sorriso dos lábios
e perpassa o ar de saudade
sem o perfume do ligustro ou do jasmim.
Perde-se no absoluto e na razão da finitude
e os sonhos murcham no seio da realidade.
Voam andorinhas e estorninhos entre as árvores
imersas no verde da Primavera
e o rio desafia o tempo na eternidade das águas
que os patos sulcam em flecha até à margem
buscando alimento no interior do silêncio e da memória.
Não tenho coragem para lhes dizer não
e no fim partem em debandada.
Apenas o pato branco
de brancura sem mácula
se detém na margem
a namorar o meu rosto esquecido
nas lembranças da vida.
Tão manso no olhar
só ele poderia despertar
o sorriso do meu rosto perdido.

 

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por Augusta Clara às 18:50

Segunda-feira, 24.05.21

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

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(Adão Cruz) 

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia
entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento
que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas
rouxinóis e cotovias
sardões
caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 02:23



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