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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Carlos Gamito *O angustiante dia do meu não casamento
(Os noivos - Chagall)
O céu daquela manhã nascera plúmbeo e enovelado em maciços fragmentos de pesadas nuvens assimétricas adormecidas na quietude do infinito.
Foi este o cenário que sobrou do meu lânguido olhar lançado pelo pedaço de vidraça que ainda restava do postigo que arejava e iluminava as águas-furtadas onde despertava dos meus sonhos, sempre emoldurados por negros pesadelos.
Mas aquele era um dia particularmente diferente.
Em cima da remendada enxerga de palha estendida sobre a madeira apodrecida daquele soalho empapado em caruncho, brilhava, sumptuosamente, apesar de finado, o fato azul-escuro listrado a branco acinzentado que me fora oferecido pelo amável senhor Rodrigues, o distinto alfaiate que, de fita métrica dependurada no pescoço, aparelhava os jaquetões e os paletós das distintas gentes daquele modesto e problemático bairro de Lisboa.
Sentia-me tomado por um incontrolável nervoso miudinho que não me concedia tréguas de modo a disciplinar-me e responder às muitas tarefas a que me tinha proposto naquela manhã pintada de cinzento chumbo.
Da pálida chama que saía da ferrugenta cabeça do fogareiro a petróleo, já sentia o cachão da água dentro da panela de esmalte, recentemente soldada pelo meu amigo amolador, o Anacleto.
A bacia de zinco estava preparada para nela vazar a água que fervia na panela de esmalte, soldada pelo meu amigo amolador, o Anacleto, onde iria banhar as minhas intimidades, ou não me esperasse uma noite de núpcias.
Verti mais um olhar pelo único compartimento da casa e, num relance, apreciei a camisa branca fluorescente que pendia do biombo que oferecia alguma privacidade à pia entalhada na frágil parede do exíguo espaço que servia de cozinha.
Era uma pia multiuso.
Tanto sugava os cagalhões como engolia os restos de comida dos restos da comida que o Ti Chico me fiava na sua emporcalhada bodega.
Era uma taberna onde só a amarelada pedra de mármore entremeada a fios negros, apresentava algum apuro.
O enorme relógio despertador que ornamentava o pechiché, apesar de salpicado por muitas pintas de ferrugem, ia, sonoramente, marcando o tempo que o próprio tempo vencia ao tempo, e assim, ao tempo, era subtraído tempo ao meu tempo.
Era o tempo que me aproximava do momento mais elevado de todo o tempo desde o tempo que assinalou o tempo do meu nascimento.
Decerto que por o tempo ter escalado todo o muito tempo, não tinha memória desse tempo.
Não tenho memória do tempo em que nasci.
Foi num tempo em que o tempo já está guardado na arca desse tempo.
O disforme relógio despertador marcava o tempo que me anunciava que só tinha tempo para não ser desaproveitado dentro do tempo que já não tinha.
Só tinha tempo para vestir o meu coçado fato azul-escuro listrado a branco acinzentado e correr para o amarelo Americano - leia-se carro eléctrico. Americano é uma citação da obra deixada pelo grande Mestre Eça de Queirós, intitulada Os Maias – e galgar as escadarias da Conservatória do Registo Civil.
Tinha o casamento marcado para o meio-dia daquele famigerado dia.
Já devidamente ajanotado com o meu fato azul-escuro listrado a branco acinzentado, brilhava sob ele a camisa branca fluorescente cujas mangas sobravam para além das mangas do casaco, o que resolvi com dois fios de elástico a prenderem as extensas mangas da camisa branca fluorescente.
A gravata, que tinha encontrado perdida num contentor do lixo, manifestamente gasta pelo uso, dançava a cada passo que eu dava.
Relanceei um último olhar pela casa, alinhei o esfarrapado napperon de croché que adornava o pechiché e ainda vi algumas lêndeas a passearem-se ao longo do meu pente desdentado.
Saí.
Com movimentos suaves para não desfeitear o penteado seguro por uma camada de fixador e brilhantina e para não encarquilhar o meu fato azul-escuro listrado a branco acinzentado, subi para o Amarelo.
Chegado à entrada da Conservatória do Registo Civil, olhei em redor e encontrei o meu amigo Anacleto, o amolador.
Recusei o abraço do meu amigo Anacleto, o amolador, para resguardar o alinho do meu fato azul-escuro listrado a branco acinzentado.
Com o aprumo de noivo, interpelei um passante para lhe perguntar as horas.
Faltavam dez minutos para o meio-dia daquele dia.
O dia do meu casamento.
O frenesi era tal que só me imaginava desmaiado nos braços do meu amigo Anacleto, o amolador.
Mas eis que chegou a Esmeraldina, a minha noiva.
Mas era uma noiva pouco noiva.
Calçava uns andrajosos chinelos e trajava um vestido de cor berrante remendado numa das mangas e também no peitilho.
Na mão, em lugar da flor de laranjeira, trazia um acervo de jornais velhos e amarelecidos.
Beijámo-nos, mas foi um beijo arredado da ardência do apaixonante momento.
Em silêncio transpusemos a escadaria e entrámos na sala onde se realizam os casamentos.
O Conservador entrou, e nós, eu, a Esmeraldina, a minha noiva, e o meu amigo Anacleto, o amolador, levantámo-nos.
Com voz solene, perguntou o Conservador:
--- Senhor Carlos, aceita para sua mulher a D. Esmeraldina?
Saltei da cadeira e entoei um sonoro SIM!
E a voz solene do Conservador voltou a soar:
--- D. Esmeraldina, aceita para seu marido o senhor Carlos?
A Esmeraldina, a minha noiva, olhou-me de soslaio e respondeu com um sarcástico sorriso:
--- Não, não aceito!
Deixada a resposta, a Esmeraldina, minha noiva até àquele momento, saiu com o mesmo sorriso desenhado na tromba.
O casamento não se realizou mas, por força da lei, o meu amigo Anacleto, o amolador, enquanto eu descia as escadas sem conseguir amarrar a comoção, ficou a pagar os devidos emolumentos.
Só com a bússola do desespero a orientar-me naquele angustiante momento, entrei num cemitério onde, aqui e ali, espreitavam agoirentas cruzes que demarcavam as sepulturas dos muitos que tombaram na solidão trazida pela ausência do Amor.
* Escrito para integrar as Crónicas Submersas
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