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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 20.03.13

Um resgate que mata - Viriato Soromenho Marques

 

Viriato Soromenho Marques  Um resgate que mata

 

 

  

Publicado no Diário de Notícias em 19 de Março de 2013

Quando, em 1871, a Prússia anexou a Alsácia e a Lorena, Bismarck exigiu que a justiça preponderasse sobre o abuso: todos os franceses que quisessem sair do território foram indemnizados, a preços de mercado, até ao último centavo. Mas a prudência de Bismarck morreu com ele. Neste fim de semana, aprendemos que a Zona Euro se transformou, através da decisão sobre o "resgate" a Chipre, com a cumplicidade do FMI, numa organização que promove o terror económico e viola os graus mínimos de segurança jurídica, que separam a vida civilizada da barbárie. O "imposto" de 6,75% sobre os depósitos inferiores a cem mil euros, em bancos cipriotas, revela a total ausência de respeito pelo quadro legal europeu que protege os depósitos até esse montante e destrói a confiança dos cidadãos no sistema bancário. Mas há lições ainda mais graves a retirar do que se passou. Aprendemos que, para ganhar as eleições de setembro, Merkel não hesitou em lançar, de um só golpe, um país inteiro para a miséria (a economia de Chipre estava doente, com este resgate será liquidada), nem em desencadear um processo que não só compromete os tímidos avanços na União Bancária como ameaça semear uma corrida aos bancos noutros países, além de fazer aumentar os juros sobre a dívida pública dos "países periféricos". Aprendemos que, perante a grosseria de Schäuble (o ministro alemão das Finanças, que agora se diz inocente...) no Eurogrupo, toda a gente se calou, e que o pormenor deste roubo aos aforristas no Chipre foi detalhado com a cumplicidade de P. Moscovici, o seu homólogo francês. Aprendemos que Berlim está definitivamente possuída pela desmesura que conduz ao abismo. Aprendemos que nos outros 16 países da Eurozona parece não existir um único governante com coragem para dizer "basta!". A juntar ao défice de liderança política e à estupidez económica, somam-se a apatia moral e níveis patologicamente baixos de testosterona.

 

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por Augusta Clara às 08:00


4 comentários

De Beatriz Santos a 20.03.2013 às 12:36

Conheço O Zé Viriato há tão longos e longes tempos! Ainda que ele me não conheça, fomos colegas de escola. Admiro-lhe a escrita que sinaliza um pensamento claro e sem vaidade na prosa. Mas a aproximar-se da verdade. Contínuo. A procurá-la nas palavras e nos actos, que nele, ó desmesura, até são consentâneos. Como bom filósofo que, acredito, ainda a construir-se. Pode ser mais, se mais viver.

O Zé vem de uma família com formação moral indefectível. E não desmerece. Creio que continuará a levar a mãe à missa com o mesmo cuidado com que escreve artigos destes. E tem com a família próxima, que conheço menos, o mesmo zelo.

Compro-lhe os livros por serem dele. É certeza de que os entenderei. E sempre que um artigo, enternece-me; encontro-o ainda, fiel a si mesmo.

O que aconteceu no Chipre repugna violentamente. Nauseia que tanta gente - paga por nós - tenha sido conivente com a falta de respeito pela dignidade humana. Abriram-se as comportas do mau carácter, da perfídia que atropela os mais fracos. A partir daqui, tudo é possível.

Que falta de tomates. Diz o Viriato na sua linguagem mais ponderada, que testosterona.
São tomates podres, Viriato. Tresandam.

De Augusta Clara a 20.03.2013 às 17:01

Que belo elogio ao Viriato Soromenho Marques que, sem o conhecer pessoalmente, não me restam dúvidas merecê-lo.
Quanto ao que se passou no Chipre, ele disse tudo. E nós, se queremos recuperar a nossa soberania e a dignidade de país pequeno mas cheio de potencialidades - temos a maior costa atlântica da Europa, os dois únicos portos de águas profundas, Lisboa e Sines, que permitem a atracagem de navios de carga de grandes dimensões com mercadorias necessárias à Europa Central, enfim, toda a nossa vocação marítima, a nossa História e a nossa cultura antiga. E a grande vantagem de sermos uma só nação, situação também única na Europa. Para que temos que ser subservientes a uma Alemanha que já provou continuar disposta a provocar os grandes problemas no continente?
Temos que sair do euro e recuperar a soberania nacional, por muito difícil que isso tenha que ser. De outro modo afundamo-nos como país.

De Beatriz Santos a 21.03.2013 às 09:35

Em relação ao Zé Viriato: não são elogios, é constatação. Se, constatando, elogio, :) decorre

Quanto ao resto, desfeito o projecto europeu, vamos ver se temos tomates para nos desligarmos da Europa que há. Discordo do orgulhosamente sós, não lhe faço a apologia. Mas, ou damos um murro na mesa e a relação Portugal-Europa muda; ou saímos. Que a saída também nos será bem penosa. Seja qual for a opção, tudo nos vai pesar. Mas pesa mais esta solução (que não é nossa mas para nós) de morte, de "estamos à beira do abismo e vamos dar um passo em frente"

De Augusta Clara a 21.03.2013 às 10:43

Não ficaremos orgulhosamente sós. Temos muitos países com quem estabelecer ligações na América Latina, em África e na Ásia. E relações que não sejam de subserviência com outros países europeus, claro. Por muito difícil que seja a saída, se nos mantivermos no euro, com atitude expansionista da Alemanha, vamos ao fundo como país. Mas com outro governo, não com este nem um com mais dos mesmos. Eu tenho esperança que vamos conseguir.

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