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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Viriato Soromenho Marques Um resgate que mata
Publicado no Diário de Notícias em 19 de Março de 2013
Quando, em 1871, a Prússia anexou a Alsácia e a Lorena, Bismarck exigiu que a justiça preponderasse sobre o abuso: todos os franceses que quisessem sair do território foram indemnizados, a preços de mercado, até ao último centavo. Mas a prudência de Bismarck morreu com ele. Neste fim de semana, aprendemos que a Zona Euro se transformou, através da decisão sobre o "resgate" a Chipre, com a cumplicidade do FMI, numa organização que promove o terror económico e viola os graus mínimos de segurança jurídica, que separam a vida civilizada da barbárie. O "imposto" de 6,75% sobre os depósitos inferiores a cem mil euros, em bancos cipriotas, revela a total ausência de respeito pelo quadro legal europeu que protege os depósitos até esse montante e destrói a confiança dos cidadãos no sistema bancário. Mas há lições ainda mais graves a retirar do que se passou. Aprendemos que, para ganhar as eleições de setembro, Merkel não hesitou em lançar, de um só golpe, um país inteiro para a miséria (a economia de Chipre estava doente, com este resgate será liquidada), nem em desencadear um processo que não só compromete os tímidos avanços na União Bancária como ameaça semear uma corrida aos bancos noutros países, além de fazer aumentar os juros sobre a dívida pública dos "países periféricos". Aprendemos que, perante a grosseria de Schäuble (o ministro alemão das Finanças, que agora se diz inocente...) no Eurogrupo, toda a gente se calou, e que o pormenor deste roubo aos aforristas no Chipre foi detalhado com a cumplicidade de P. Moscovici, o seu homólogo francês. Aprendemos que Berlim está definitivamente possuída pela desmesura que conduz ao abismo. Aprendemos que nos outros 16 países da Eurozona parece não existir um único governante com coragem para dizer "basta!". A juntar ao défice de liderança política e à estupidez económica, somam-se a apatia moral e níveis patologicamente baixos de testosterona.
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