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Jardim das Delícias



Segunda-feira, 01.04.13

A Cantareira - Raul Brandão

 

Raul Brandão  A Cantareira

 

 

 

(Adão Cruz)

 

Abril de 1920

 

   A Foz é para mim a Corguinha, o Castelo e o Monte com o rio da Vila a atravessá-lo, e a Rua da Cerca até ao Farol. O que está para lá não existe... Só me interes­sa a vila de pescadores e marítimos que cresceu natural­mente como um ser, adaptando-se pouco a pouco à vi­da do mar largo. E ainda essa Foz se reduz cada vez mais na minha alma a um cantinho — a meia dúzia de casas e de tipos que conheci em pequeno, e que retenho na memória com raízes cada vez mais fundas na sauda­de, e mais vivas à medida que me entranho na morte. O mundo que não existe é o meu verdadeiro mundo.

Esta vila adormecida estava a cem léguas do Porto e da vida. Ali moravam alguns pescadores e marítimos, o António Luís, a Poveira, as senhoras Ferreiras, a D. Ana da Botica e as Capazorias. E, na Foz e na pen­sativa Leça, uma gente desaparecida com os navios de vela, os embarcadiços que iam ao Brasil em longas via­gens de três meses. As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras. Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez. Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida espe­rou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos bran­cos com que foi para o túmulo. Quando os rolos de es­puma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os cora­ções no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar».

Conheço ainda, tão bem como ontem, todos os can­tos da casa de minha avó: as escadas com um cabo de navio a servir de corrimão, a sala da frente com dois painéis escuros nas paredes, Jesus crucificado e S. João Baptista, e o estrado onde ela e a tia Iria, todo o dia sentadas, trabalhavam nas almofadas de bilros. A renda de bilros é uma indústria da beira-mar, destas mulheres loiras, de olhos azuis e rosto comprido — as da Foz, as de Leça e as de Vila do Conde —, que passavam a vida à espera dos homens, enquanto as mãos ágeis iam te­cendo ternura e espuma do mar... Nesta sala abriam-se duas portas, uma para os quartos interiores e outra para o corredor onde os rapazes dormiam num armário com beliches.

Ao lado da casa, que subia em socalcos pelo monte, subia também uma escada de pedra em patamares até lá acima. Do quintal, mais alto que os telhados, via-se o mundo. Era dali, saltando o muro, que eu partia para excursões maravilhosas através do pinheiral do Laje...

Costumes muito simples, muito outros. Uma pesca­da custava seis vinténs, e minha avó gemia da carestia da vida, falando com saudade «do tempo do arroz de quinze». Tinham-se calado as marteladas nos estaleiros de Miragaia e do Ouro, onde os calafates, os ferreiros e os carpinteiros de machado erguiam outrora, entre cla­rões de forja e cheiro a pinho descascado, as carcaças dos palhabotes, das barcas e dos iates — mas eu ainda conheci alguns tipos curiosos de capitães aposentados, no americano que se inaugurara e que levava a gente ao Porto numa hora, alumiado à noite por uma luzinha de petróleo, e com reforço de mulas em Massarelos. Nes­ses carros andava sempre a mesma meia dúzia de pes­soas para baixo e para cima, e o serviço era dirigido com ferocidade por um major de pêra pintada com es­mero, que mantinha a disciplina numa gaiola do Ouro. Ora, entre as pessoas que faziam comigo a travessia, quando a Aninhas do Jeremias me levava pela mão ao colégio, nunca mais esquecerei o capitão Bernardes, um do Carvalho que chegou a almirante, o tio Bento, o irascível capitão Sena, de quem se contava com terror que fora apanhado no mar alto por uma trovoada — as faíscas como chuva —, levando os porões carregados de pólvora, o alegre capitão Serrabulho, casado com uma mulher fantasmática: homem prodigioso com uma grande barriga sacudida de risadas. — Acaba-se aqui o mundo com uma ceia de peixe! — e que fez andar num corropio até à morte a Foz do Douro e a Baía, e entre todos eles, principalmente, o capitão Celestino, que tendo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. Falava pouco. Sorria sempre numa satisfação interior, completa, perfeita, com uma cara de páscoas rosada e inocente, enquadra­da pela barba de passa-piolho toda branca. A sua vida anterior fora misteriosa e feroz. De uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil. Outras coisas piores se diziam do capitão Celes­tino... Mas o que eu sei com exactidão a seu respeito é que para alporques de cravos não havia outro no mun­do. Todo o dia um fio de água, escorrendo por condu­tos invisíveis de que só ele sabia o segredo, caía pingue-que-pingue nos alegretes caiados de branco; todo o dia o velho corsário, com mãos delicadas de mulher, tratava embevecido as flores cultivadas como filhas. E acabou assim a vida mondando e podando, sem uma dúvida na consciência tranquila...

 

(in Raul Brandão, Os Pescadores, Círculo de Leitores)

 

 

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por Augusta Clara às 15:00


1 comentário

De lucindaduarte a 23.05.2022 às 19:47

Muito interessante este texto do Raul Brandão. Quem pegou neste tema recentemente foi a escritora Djaimilia Almeida num livro que adorei chamado A Visão das Plantas!!!

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