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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Luís Sepúlveda A Árvore
(Adão Cruz)
Na ilha Lenox há uma árvore. Uma. Indivisível, vertical, pertinaz na sua terrível solidão de farol inútil e verde, entre a bruma dos dois oceanos.
É um alerce já centenário e o único sobrevivente de um pequeno bosque derrubado pelos ventos austrais, pelas tempestades que tornam risível a ideia cristã do Inferno, pela implacável gadanha de gelo que ceifa o Sul do mundo.
Como chegou até este local reservado ao vento? Segundo os ilhéus de Darwin ou de Pincton, transportado no ventre de alguma abetarda como semente germinada e emigrante. Assim chegou, chegaram, abriram caminho entre as fendas da rocha, mergulharam as raízes e ergueram-se com uma verticalidade rebelde.
Eram vinte alerces ou mais, dizem os velhos das ilhas, que não têm metade dos anos da árvore sobrevivente nem estão há muitos nesse mundo onde o vento e o frio sussurram «vai-te daqui, salva-te da loucura».
Foram caindo uma atrás da outra com a lógica das maldições marinhas. Quando o vento polar dobrou a primeira e o seu tronco se partiu com um ruído terrível que só se ouvirá novamente - dizem os mapuches - no dia em que se partir a espinha do mundo, começou a condenação da última árvore da ilha. Mas o camarada caído tinha nos seus ramos o vigor de todos os ventos sofridos, de todos os gelos suportados e a sua memória vegetal foi sustento dos outros.
Assim, tornaram-se fortes, continuaram o desafio de tocar o céu da Patagónia com os seus ramos, e assim foram caindo, um atrás do outro, de uma forma definitiva. Sem se vergarem em agonias vergonhosas, bateram da copa à raiz contra as rochas e aos ventos imoladores disseram: «caí, é verdade, mas assim morre um gigante».
Uma permaneceu na ilha. A árvore. O Alerce que mal se vislumbra ao navegar pelo estreito. Rodeada de mortos que são seus, impregnada de memória, temporariamente a salvo dos lenhadores porque a sua solidão não compensa o esforço de atracar um navio e de subir pelas rochas escarpadas para a derrubar.
E cresce. E espera.
Na estepe polar, outros ventos afiam a gadanha de gelo que há-de aportar à ilha e, inexoravelmente, lhe há-de morder o tronco. Quando chegar o seu dia, com ela morrerão definitivamente os mortos da sua memória.
Mas enquanto espera o fim inevitável, continua vertical sobre a ilha, altiva, orgulhosa, como o estandarte necessário da dignidade do Sul.
(in Luís Sepúlveda, A Lâmpada de Aladino, Porto Editora)
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