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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 26.02.14

Tão importante como o roubo do BPN - Ferreira Fernandes

 

Ferreira Fernandes  Tão importante como o roubo do BPN

  

Diário de Notícias, 25 de Fevereiro de 2014

 

   Contou ontem o JN, um homem foi detido, julgado e metido numa prisão para cumprir pena. Não me interessa, para já, o homem. Olhem para o outro lado: à conta de quê o Estado detém uma pessoa, julga-a e põe-na numa cela? Conhecemos a resposta: para não andarmos na rua sujeitos à cachaporra de um vizinho mais forte, abdicamos do uso privado da violência e oferecemos ao Estado o monopólio dessa violência. Mas chega de falar do que já sabemos. Passemos ao caso do JN. Em setembro passado, um homem de 40 anos foi detido, isto é, a polícia agarrou-o pelos colarinhos, sob o pretexto de que ele tinha roubado. Foi levado ao tribunal, onde um juiz se arrogou o direito de o considerar culpado. E foi mandado para a cadeia da Carregueira onde guardas o meteram numa cela. Tudo conforme o acordo social que todos aceitamos. Dentro da lei, o Estado tem o direito de exercer aquelas violências físicas. Violências físicas? Sim, sim, o Estado tirou liberdades ao homem (a de andar de cá para lá), e tinha direito de o fazer. Mas, diz o jornal, metido na cela, o homem foi violado durante três dias por três outros presos. Estes, ao que parece, já foram castigados. Não chega. Que indignação nacional se levantou por um todo poderoso Estado, desmerecedor da força que lhe demos, ter permitido a humilhação de um cidadão indefeso e trancado? Que falta de compaixão e honra impede que este caso seja discutido no lugar certo, que é o Parlamento?

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por Augusta Clara às 11:00

Quarta-feira, 26.02.14

A Ucrânia e o renascimento do fascismo na Europa - Eric Draitser*

 

 

Eric Draitser*  A Ucrânia e o renascimento do fascismo na Europa

 

 

   A violência nas ruas da Ucrânia é muito mais do que uma manifestação da ira popular contra um governo. É, ao invés, simplesmente o exemplo mais recente da ascensão da mais insidiosa forma de fascismo que a Europa já viu desde a queda do Terceiro Reich.

Os últimos meses assistiram a protestos regulares da oposição política ucraniana e seus apoiantes – protestos ostensivamente em resposta à recusa do presidente Yanukovich a assinar um acordo comercial com a União Europeia, encarado por muitos observadores políticos como o primeiro passo rumo à integração europeia. Os protestos foram razoavelmente pacíficos até 17 de Janeiro, quando manifestantes armados com paus, capacetes e bombas improvisadas desencadearam uma violência brutal sobre a polícia, atacando edifícios governamentais, batendo em quem fosse suspeito de simpatias pelo governo e provocando destruição generalizada nas ruas de Kiev. Mas quem são estes extremistas violentos e qual é a sua ideologia?

A formação política conhecida como "Pravy Sektor" (Sector Direita) é basicamente uma organização chapéu para um certo número de grupos ultra-nacionalistas (ler fascistas) incluindo apoiantes do Partido "Svoboda" (Liberdade), "Patriotas da Ucrânia", "Ukrainian National Assembly – Ukrainian National Self Defense" (UNA-UNSO) e "Trizub". Todas estas organizações partilham uma ideologia comum que entre outras coisas é veementemente anti-russa, anti-imigrantes e anti-judia. Além disso, partilham uma reverência comum pela chamada "Organização de Nacionalistas Ucranianos" liderada por Stepan Bandera, os infames colaboradores dos nazis que combateram activamente contra a União Soviética e cometeram algumas das piores atrocidades da II Guerra Mundial.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 25.02.14

Romanian Folk Dances - Béla Bartók

 

Béla Bartók  Romanian Folk Dances

 

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por Augusta Clara às 21:00

Terça-feira, 25.02.14

Onde está ela, ... - Hélia Correia

 

Hélia Correia

 

(Athena)

 

 

                                          Onde está ela,

A tua bela Atenas, a que viu

Aparecer entre os homens a justiça

E a livre palavra e, ainda mais,

A visibilidade, as contas públicas,

Uma altivez de iguais. O que disseram

Ao imperador persa? «Simplesmente,

Lutamos bem, lutamos por nós mesmos

E pela nossa pátria. Não lutamos

A mando de ninguém. Não veneramos

Nem nos submetemos a mortais.»

Oh, assim nós falássemos, assim

O senhor dos enigmas, Apolo,

Nos desse um pensamento de estratégia.

Porém Apolo não morreu também?

 

(in A Terceira Miséria, Relógio d'Água)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 25.02.14

Mania da perseguição - Carla Romualdo

 

 

Carla Romualdo  Mania da perseguição

 

 

(Albena Vatcheva)

 

 

 

   A verdade é que a história começara antes, mas, para não complicar, digamos que tudo começou no dia em que me cruzei com ele no Capa Negra. Quem não é de cá não saberá, mas a gente vai ao Capa Negra quando quer iludir-se com a ideia infundada de que vive numa cidade cosmopolita e que é possível ir jantar à hora que nos apetece. A única mesa livre era junto aos aquários e eu sentei-me ao lado dos lavagantes, sabendo que os teria ali ao lado, a espreitar toda a refeição com os seus olhos redondos, que mais parecem botões aproveitados de um casaco velho, fazendo vibrar as antenas finíssimas e curvas ao ritmo das nossas vozes.

Arrepio-me de cada vez que vejo estas criaturas, e por isso me foi tão penoso aguentar toda a refeição sentindo-as ali ao lado, flutuantes e indecifráveis no seu limbo silencioso. Nem me atrevia a olhá-las para não alvoroçar essa minha fobia que facilmente se poderia transformar em pânico. E foi então que o vi, no lado oposto da sala, no que parecia ser uma insossa discussão com alguém que eu não conhecia. Lá estava o Cronista. Não nos movemos no mesmo mundo, como entenderão, daí a improbabilidade de nos cruzarmos. Ele terminara a refeição, o empregado trazia-lhe já o troco. Levantou-se e saiu com o seu acompanhante, e sem olhar na minha direcção. Ter-me ia visto? Estaria já à espreita muito antes de eu poder descobri-lo? Os malditos bichos não me haviam deixado reparar em nada mais.

Certo, certo é que a sua crónica seguinte, publicada no sítio do costume, descrevia, com inquietante detalhe, alguém que, padecendo de uma insólita  fobia aos crustáceos, endoidecia durante a refeição num restaurante cujas paredes estavam revestidas com aquários, e, lançando mão a uma tenaz de marisco, alteradíssimo, ameaçava os convivas e acabava a fugir pelas ruas, até a polícia lhe deitar mão.

Que diabo, era uma coincidência, mas não mais do que isso. Afinal, os que tinham partilhado mesa comigo não tinham dado conta de nada, como é que alguém que estava tão longe poderia ter descoberto? O mais certo era nem me ter visto.

Ficaria por aí a história se eu não me tivesse cruzado novamente com ele, umas semanas depois. O jornal anunciava, num microscópico rodapé, um concerto semi-clandestino de um obscuro clavicordista belga, Klaus Clanmen de Veldebuck, em certa casa-museu que estivera encerrada até essa tarde e que voltaria a encerrar nada mais acabasse o concerto. Até à sala de música era preciso atravessar  longos corredores, onde o vento agitava os cortinados que restavam, escurecidos pelo tempo e pelo pó, e que, como se duvidando da presença humana após tantos anos,  esvoaçavam para tocar-nos, à nossa passagem, como para assegurar-se de que estávamos ali. Havia móveis carcomidos pelo caruncho, vitrinas nas quais o pó se insinuara por detrás dos vidros e revestira medalhões, caixinhas de rodapé, o antigo leque de uma cocote, um programa de ópera picado por manchas de humidade.  Tudo me fazia uma alergia medonha e eu sofria da minha crónica constipação invernal, que se arrasta, a cada ano, de Dezembro aos primeiros de Março. Contive as assoadelas durante a récita mas não pude deixar de tossir disfarçadamente e pigarrear uma ou duas vezes.

Foi só à saída, quando recolhia o casaco da cadeira e levantei os olhos para o fundo da sala, que o vi. Voltou-se para a porta assim que o olhei, ou talvez já estivesse a fazê-lo por essa altura, e escapuliu-se, mas o certo é que nos lugares que cada um de nós havia ocupado, ele tinha podido reconhecer-me de perfil sem nenhuma dificuldade. Mais uma vez se afastava sem dar sinais de haver-me visto. Enfim, nada que me perturbasse. Mas quando abri a página, na quarta-feira seguinte, e li a mordaz crítica aos constipados que não se inibem de frequentar concertos, e maculam a experiência de fruição musical alheia com os seus lamentos pleurais, soube que me reconhecera e se divertia a exagerar a descrição para meu tormento. 

Passei a semana na expectativa de cruzar-me com ele em qualquer sítio da cidade. Queria confrontá-lo, obrigá-lo a confessar as manobras literárias que me ridicularizavam. Nunca se consegue provocar um encontro fortuito, já se sabe. Quanto mais se força um acontecimento mais improvável ele se torna. E assim se passou a semana sem novo encontro. Na quarta-feira abri a página sem inquietações, sabia que eu não poderia cruzar aquelas linhas.

O texto dessa semana desabafava sobre a dificuldade de encontrar tema que permitisse cumprir a obrigação periódica da publicação. Descrevia os caminhos tortuosos e lamacentos da escrita oca, e lamentava a ausência de uma inspiração que costumava chegar quando menos se esperava, na forma de um encontro fortuito que não se cumprira nessa semana.

Fechei a página com um sorriso sarcástico. Com que então, esta semana nada, hem? Nenhum alvo de chacota, nenhum gesto ou movimento ou secreto temor explorado sem piedade, ampliado com cruel exagero? Esta semana não há assunto. É bem feito. Dei por encerrado o caso e passei a noite sem me lembrar mais disso.

No dia seguinte, pela manhã, vi-o passar de carro à porta da minha casa. Fiquei com a impressão de que arrancara o carro quando eu abri a porta, que estaria ali à minha espera, mas não estava certa disso. Foi a primeira das suas inúmeras aparições ao longo desse dia. Era ele a espreitar do café em frente, escondendo o rosto atrás da chávena da meia de leite. Era ele a espiar-me atrás da folha de jornal, sentado na esplanada. Era ele a forçar-me a entrar num absurdo jogo de gato e rato no labirinto dos corredores do supermercado. Rondava à espera do meu deslize. Procurava um tema para a maldita crónica.

Corri para casa, fechei janelas, baixei persianas, desliguei telefone e telemóvel. Não abro a porta a ninguém. Sempre quero ver sobre que vai ele escrever na próxima semana.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Terça-feira, 25.02.14

A Ucrânia, a anarquia e o futuro - Carlos Esperança

 

Carlos Esperança  A Ucrânia, a anarquia e o futuro

 

 

   Não me sinto capaz de tomar partido na rebelião popular, atiçada do exterior, num país em ruínas. A pobreza extrema, uma agricultura destruída no que foi o celeiro da Europa, a divisão étnica e a tradição autoritária e antidemocrática estão na origem de confrontos, que ameaçam continuar, para vingar o sangue já derramado.

Não vale a pena, agora, recordar as matanças e as migrações forçadas por Estaline que alteraram a matriz étnica e cultural do segundo maior país da Europa.

O que não entendo é a explosão do nazismo em apoio aos partidos que anseiam a união à Europa, como se a Rússia fosse um país africano e os nazis indefetíveis partidários da União Europeia. Também não entendo o apoio de alguma esquerda às forças pró-russas como se Moscovo fosse um soviete dirigido pelo comunista Ieltsin.

A disputa entre potências capitalistas, com a Rússia a ser alvo do apetite da Nato, pode provocar uma hecatombe e debilitar o poder russo. De certeza, altera-se a correlação de forças, com a NATO contida nos limites atuais, uma derrota para a Europa que serve de ponta de lança aos EUA, ou expandida até à fronteira russa, com a derrota de Moscovo.

É curioso ver comunistas a defenderem o poder sufragado em eleições e os reacionários a apoiarem histericamente a insurreição e atos de justiça popular, posições corajosas de quem está longe do conflito.

Debilitar a Rússia é acender o rastilho das antigas repúblicas soviéticas onde o fascismo islâmico pretende a desforra e a sharia, enquanto a Turquia se orienta, a recitar o Corão, em direção a Meca e as primaveras árabes mergulham na anarquia e nas cinco orações.

Com os erros da meteorologia euro/americana a anunciar primaveras árabes, temo que a Rússia fique à mercê de irrefreáveis hordas islâmicas que, no ocaso da civilização árabe, exacerbam a devoção e a demência.

E não haverá inocentes.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Segunda-feira, 24.02.14

Love is here to stay - Billie Holiday

 

Billie Holiday  Love is here to stay

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 24.02.14

?onto - Marcos Cruz

 

 

Marcos Cruz  ?onto

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Alguém picou o infinito neste ponto
E tudo o que era nada se sentiu
Dor que não morre, apenas adormece
Quando acontece ao corpo em queda livre
Chocar com outro nada que caiu
Então dois pontos picam o infinito
Onde nada com nada se parece
E tudo o que perdura é uma ilusão
Na desgraçada procura de sentido
Em que de novo o corpo se investiu
Não tendo mais para picar o infinito
Do que este ponto de interrogação

 

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 24.02.14

CONVICÇÕES XXV - Adão Cruz

 

   A arte é um sonho de beleza e perdição.

  Sonho real? Produto imaginário? A lógica da personagem que cada um de nós encarna em fictício destino?

  Não.

     Pura questão de liberdade no processo racional de formação do homem ao longo da ética da existência.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 24.02.14

Calçada fraturante - Fernanda Câncio

 

Fernanda Câncio  Calçada fraturante

 

 

Diário de Notícias, 21 de Fevereiro de 2014

 

   Não há debate mais fraturante que o da calçada portuguesa. Ao contrário do que sucede com os temas a que em regra se apõe o epíteto - associado às discussões opondo defensores de uma suposta "tradição", geralmente agrupados em torno da Igreja Católica (melhor dito, da respetiva hierarquia), a quem propõe uma inovação, alteração ou reconhecimento de realidades contemporâneas -, o debate da calçada tem mesmo que ver com fraturas. Daquelas verdadeiras, que sucedem aos ossos dos passantes quando deslizam, tropeçam numa lomba ou baixio, ou torcem os pés num dos inúmeros e tão pitorescos buracos a que este pavimento é atreito.

Que se saiba não existe nenhum apanhado do número de incapacidades temporárias ou permanentes que a bela calçada ocasiona anualmente, mas não deve haver um lisboeta que ande por aí a pé (há os que a adoram, ai que linda, mas vista da janela do carro) e não tenha uma história de tombo, torcidela ou sapato ou salto escavacado para contar. E só o facto de em Portugal não existir uma tradição (cá está ela) de processar entidades públicas por danos privados explica que Lisboa não tenha sido levada à bancarrota por indemnizações aos peões. Ainda assim, após anteontem a respetiva Assembleia Municipal ter aprovado um Plano de Acessibilidade Pedonal que prevê, em algumas zonas da cidade (as "não históricas", supostamente), a substituição dessa calçada por pavimentos menos perigosos e de mais fácil manutenção, a expectável onda de fúria tradicionalista está em crescendo, com vestes rasgadas, multiplicação de petições lancinantes, grupos no Facebook e, mais hora menos hora, proposta de referendo.

É compreensível. A calçada portuguesa é bonita e sobretudo gostamos dela - e gostamos dela porque achamos que é uma coisa nossa, só nossa, que conhecemos desde sempre e faz parte da nossa imagem do que é Lisboa. Mas Lisboa é uma cidade, não um postal ilustrado, e as cidades são para ser vividas - caminhadas, fruídas. De preferência sem olhos permanentemente no chão e credo na boca. Que o perigo seja tanto maior quanto mais a zona é "histórica" - devido aos desníveis acentuados da "Lisboa antiga" e à exiguidade dos seus passeios - é uma bela e paradoxal ironia, e para ela dificilmente há solução. Mas, por assim ser, faz sentido restringir a nossa tão portuguesa (até na anunciada irredutibilidade desta discussão) calçada aos locais dos quais não pode nem deve ser erradicada, aí a cuidando e melhorando, e pensar em opções mais práticas para os outros. É só ser racional. Uma coisa à qual não estamos nada habituados, é certo (ah, a tradição - outra vez). Como a romper com supostos, bolorentos e estéreis consensos. Buscar novos caminhos é preciso, e que pelo menos em Lisboa António Costa tenha a coragem de liderar, afrontando oportunismos, fundamentalismos e imobilismos. É a isto que se chama em inglês defender o seu (nosso) chão.

 

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por Augusta Clara às 10:00




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