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Jardim das Delícias



Sábado, 01.03.14

Tango flamenco - Paco de Lucia

 

Paco de Lucia  Tango flamenco

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sábado, 01.03.14

Canção - Cecília Meireles

 

Cecília Meireles  Canção

 

(Emile Berchmans)

 

 

Não te fies do tempo nem da eternidade,

que as nuvens me puxam pelos vestidos,

que os ventos me arrastam contra o meu desejo!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te vejo!

 

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,

nácar de silêncio que o mar comprime,

ó lábio, limite do instante absoluto!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te escuto!

 

Aparece-me agora, que ainda reconheço

a anémona aberta na tua face

e em redor dos muros o vento inimigo...

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te digo...

 

(in Antologia Poética, Relógio d'Água)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sábado, 01.03.14

Nórdicos selvagens - Clara Ferreira Alves

 

Clara Ferreira Alves  Nórdicos selvagens

 

 

Expresso (pluma caprichosa), 15 de Fevereiro de 2014

 

Uma das grandes desculpas para a existência de zoos é justamente a preservação de espécies e a pedagogia da não crueldade com os animais

 

COM O NOSSO COMPLEXO de inferioridade, olhamos para os países nórdicos como templos de civilização. Uma espreitadela no Ingmar Bergman ou uma leitura dos tormentos conjugais e sociais de Strindberg e de Ibsen esclarecer-nos-ia sobre a neurose e as consequências da supressão das emoções em países dos longos inver­nos. Quando lemos o primeiro livro da trilogia do Millennium de Stieg Larsson, "Os Homens que Odeiam as Mulheres", ficamos a perceber. Nem precisamos de ler "A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo". Sugiro ainda "Smilla e os Mistérios da Neve", de Peter Hoeg, ou a série da BBC do detetive Wallander, com Kenneth Branagah, adaptada dos policiais de Henning Mankell. Kurt Wallander é um melancólico fatal, pessimista como um dia de chuva. Ao lado de Wallander, Sherlock é um sujeito equilibrado e jovial. E o próprio Estripador é um vilão amável ao lado do sádico nazi serial killer de Larsson. Lars­son odiava a Suécia, e o ódio à pátria e o desgosto são um ponto de partida para a literatura. Martin Amis e Graham Greene que o digam.

Vem isto a propósito de uma selvajaria dinamarquesa, povo que consideramos o cúmulo da virtude do Norte. No zoo de Copenhaga vivia uma girafa saudável com 18 meses chamada "Marius". O hábito de humanizar os animais pondo-Ihes nomes de pessoas é típico dos jardins zoológicos, instituições de ani­mais em cativeiro e sob tortura, apura­das para dois fins: educar e ensinar a respeitar os animais, conhecendo-os de perto, e proteger as espécies e os ditos animais. A girafa era jovem e, segundo as fotografias, tinha um ar simpático. Inocente. A girafa foi a vítima de manipu­lações e criações que, parece, a tornaram de repente excedentária (mais uma boca a alimentar) e incapaz de se reproduzir por causa de consanguinidades (que, suponho, o zoo controlou e propiciou, na sua missão científica, educacional e protetora). Certo é que, como não tinha lugar para a girafa e não quis castrá-la, ou como se diz agora esterilizá-la, resol­veu dar uma injeção na girafa e esquarte­já-la, dando-a de pasto aos leões. O que é curioso é que a eutanásia e o esquartejamento, cenas de considerável brutalida­de, foram feitos no zoo, em público, à frente de crianças e adultos, que tapa­vam a cara com os gorros, agoniados com o espetáculo do sangue e facalhões. O filme da barbaridade está na net, com as recomendações do costume para as almas sensíveis.

Tão chocante como isto (mais um exem­plo da gabada frieza nórdica), o zoo recusou os pedidos de asilo que chega­ram de vários zoos na Europa, com o argumento eugénico da consanguinida­de mas sem explicar porque é que não queriam esterilizar a girafa, e recusou os pedidos de uma petição para poupar a girafa com 27 mil assinaturas. Recusou ainda os pedidos de defensores dos direitos dos animais e as soluções alter­nativas propostas por gente como Jack Hanna, diretor Emmeritus do Zoo e Aquário Columbus e um dos maiores especialistas em zoos que respeitam os animais e ensinam a respeitar os ani­mais. Hanna ficou furioso e acusou duramente os dinamarqueses de extermí­nio gratuito. Uma das grandes desculpas para a existência de zoos é justamente a preservação de espécies e a pedagogia da não crueldade com os animais. O zoo de Copenhaga demonstrou uma insensi­bilidade total.

E não se trata, como dizem alguns, de um caso de "má gestão das relações públicas". Jorg Jebram, o dinamarquês que supervisiona o Programa Europeu (existe um programa europeu, sim...) para as girafas enquanto "espécie em perigo" (ah, ah, ah), defendeu o abate da girafa por razões eugénicas. E acrescen­tou que os leões são carnívoros, os ani­mais também morrem e as vacas tam­bém são animais. Argumentos estúpidos e laterais. O que ele não explicou foi a razão para tornar o espetáculo do abate num ato público por razões de alegada "pedagogia". Pedagogia em que as crian­ças (e adultos) viram a cara? Respeitar os animais esquartejando-os? Esquartejá-los porque estão a mais? E as consangui­nidades são, ainda, da responsabilidade do zoo. "Marius" estava a mais e não tinha espaço para estar. O zoo deixou-a nascer para a esquartejar e poupar na comida dos leões. Mais valia a selva. O argumento mais ridículo é que o zoo não aceitou os pedidos de outros zoos para albergarem "Marius" porque esterilizar uma girafa é "perigoso" (ah, ah, ah). Podia cair e partir o pescoço. Ou seja, "Marius" pode ser adormecida com uma injeção e dada às feras mas não pode ser adormecida para ser castrada Era isto possível em Portugal? Não. Venham os nossos brandos costumes e trapalhices em vez da gelada eficácia nórdica. Como dizia o Jacinto do Eça, em Paris, roído de tédio no 202 dos Campos Elísios, vamos ao zoológico a 'Ver a girafa". Não o massacre.

 

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por Augusta Clara às 08:00

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