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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Adão Cruz Palestina

(Adão Cruz)
Não há sol nos céus da Palestina não há luz nos olhos da Palestina roubaram o sorriso à Palestina
São de sangue as gotas de orvalho da madrugada e o vento só é vento quando as balas assobiam roubaram as manhãs à Palestina
O céu de chumbo esmaga as almas e os ossos e é de lágrimas a chuva quando cai não há sol nos céus da Palestina
Do ventre da lua cheia de aço e de amargura nasce a cada hora um menino com bombas à cintura mataram a infância na Palestina
Rasgam as mães os seios com arroubos de ternura para alimentar a raiva por cada filho que perdem outro nasce da sepultura semearam a dor na Palestina
Nas casas esventradas rompem por entre as pedras leitos de sofrimento onde à noite se acoitam os amantes queimando a dor na paixão de um momento fizeram em pedaços o amor na Palestina
Cada instante é uma vida na vida da Palestina cada momento uma taça de vingança clandestina cada gesto um vulcão de raiva que nem a morte amansa roubaram a paz à Palestina
Na sombra do dia ou na calada da noite cravam os vampiros nazis seus dentes de ferro no coração da Palestina não há sangue que farte a fúria assassina sangraram cobardemente a Palestina
Para atirar contra os tanques uma pedra agiganta-se o ódio a cada bater do coração por não haver sangue de tanto sangue vertido outra força não há para erguer a mão… e dar à Palestina algum sentido
(in Adão Cruz, VAI O RIO NO ESTUÁRIO. Poemas de braços abertos, ediçõesengenho)
Ferreira Fernandes Estar pelos cabelos com estes malucos
Diário de Notícias, 17 de Julho de 2014
Uma repórter do Times de Londres está em Akcakale, cidade turca na fronteira com a Síria. Do outro lado é outra cidade, Tel Abyad. A repórter foi a uma loja de Akcakale, para que o barbeiro, que fugiu da Síria, nos explicasse a região, da raiz à ponta dos cabelos. No tempo do regime de Bashar, que ainda continua firme em Damasco, a cara dos homens era escanhoada. Depois, começou a rebelião e o Exército Livre da Síria (ELS), a favor de um regime democrático, ocupou a região. O barbeiro sentiu na pele a guerra civil mas também no pelo dos clientes. Aumentavam as barbas, que eram tratadas com cuidado e passadas pelo secador. Mas nas barbas desses rebeldes mais suaves cresciam, entre alguns dos seus aliados, uma ala de barba rija de convicções, os radicais do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), que decretou um califado e expulsou o ELS. A linha política do atual poder em Tel Abyad, segundo o barbeiro, é longa: agarra-se a barba com dois punhos justapostos e têm de sobrar pelos. Com a vitória dos barbudos farfalhudos, os das barbas cuidadas fugiram para a vizinha turca. Entretanto, o EIIL prometeu perdão a quem regressasse. Então, na barbearia apareceram os do ELS, pedindo para raspar as caras. Achavam que, ao regressar, era mais seguro parecerem-se mais com o inimigo antigo comum do que com os aliados recentes. Sabe bem ver um folículo de inteligência entre tanta política sebácea.
Um documetário muito bem feito, com filmes da época, sobre a história da Palestina e a origem e o desenrolar do conflito israelo-palestiniano
Francisco Seixas da Costa Gaza
"Os últimos dias e noites não têm sido fáceis em Gaza e as muitas centenas de mortos árabes, para punir a mão-cheia de vítimas israelitas, repetem um "script" que todos conhecemos de cor.
Não faço a menor ideia de como vai acabar, se é que algum dia vai acabar, o triste conflito israelo-palestiniano. Uma coisa tenho por certo: as humilhações e os padecimentos, somados à pobreza e à raiva que vêm com eles, são o irreversível caldo de cultura em que foram criadas várias gerações de palestinianos. Nunca uma paz sustentável de construiu sobre a persistência do ódio e Israel sabe bem que, com esta sua postura, afasta, dia após dia, as hipóteses de uma paz negociada, numa guerra que nunca vai poder ganhar em absoluto. Pelo contrário, com a sua política de permanente desprestígio da Autoridade Palestiniana e desprezo notório pelas vidas dos seus vizinhos, Israel dá adubo ao terreno onde prosperarão sempre o Hamas e outros grupos radicais. O governo de Telavive recorre, ano após ano, às ações militares que só geram novos e eternos inimigos nas populações civis árabes, fartas de ver nascer, como cogumelos, sucessivos colonatos judaicos - sob a cínica complacência internacional - que afastam, a cada hora, a sua esperança de retornar à terra que as resoluções da ONU lhes atribuiu, mas que ninguém obriga Israel a cumprir.
Perante o mundo, desde os "taken for granted" EUA até à pusilanimidade europeia, os palestinianos parece só terem o dever à sua ritual humilhação. Israel, na assunção eterna do direito histórico à "terra prometida", potenciado pelo usufruto da memória da barbárie nazi e, mais recentemente, da onda anti-muçulmana depois do 11 de setembro, tem sempre mão livre para tudo quanto entenda fazer, não se lhe aplicando a condenação que atitudes idênticas provocariam, se acaso tivessem sido outros Estados a praticá-las. Por muito que alguns atos palestinianos sejam condenáveis, o saldo da violência israelita é incomensuravelmente maior, é uma insuportável bofetada no Direito Internacional, assumida com arrogância e com uma cegueira histórica que um dia acabará por se voltar, em definitivo, contra o Estado judeu.
Termino com uma pergunta: por que razão Israel não aceita que as Nações Unidas coloquem observadores internacionais com a responsabilidade de vigiarem as linhas de separação entre o seu território e as áreas atribuídas às autoridades palestinianas, que, por exemplo, facilmente poderiam denunciar os ataques feitos destes últimos para o seu território? É na resposta nunca abertamente dada a esta questão que reside a chave da verdadeira atitude de Israel perante todo este problema.
http://www.jornalistassemfronteiras.com/
José Goulão, Martha Ladesic (Nova York), Mário Ramírez (Washington), Castro Gomez (Donetsk) Washington esconde provas que incriminam Kiev no derrube do MH17
Caça ucraniano junto ao avião abatido
23 de Julho de 2014
A espionagem dos Estados Unidos tem provas de que o avião da Malaysian Airlines foi derrubado na Ucrânia por tropas ao serviço do regime de Kiev e procura agora encontrar uma maneira de apresentar o facto de modo a não implicar directamente a junta resultante do golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos e a União Europeia. Segundo fontes da CIA, a versão agora mais provável é a de que o autor do disparo foi um “desertor” do exército ucraniano.
A versão oficial de Washington, difundida através da porta-voz adjunta do Departamento de Estado, Marie Harf, é a de que o avião foi derrubado por “rebeldes” do Leste da Ucrânia com meios fornecidos pela Rússia. Como provas, a funcionária de John Kerry invoca vídeos circulando no Youtube e informações disponíveis nas redes socials. Marie Harf argumenta igualmente que “o senso comum” induz a responsabilizar os chamados “pró-russos”.
“Como é que o país que espia todo o mundo, a começar pelos seus cidadãos, e que tem satélites fiscalizando a cada momento cada metro de terra e mar não tem registo de quem disparou um míssil com quase cinco metros de comprimento contra o voo MH17?” – interroga-se John Isaacsson, jurista e activista dos direitos humanos em Nova York. “Ninguém consegue acreditar nisso; o que mais provavelmente está a acontecer é que as imagens registadas pelos satélites são inconvenientes para as teses que servem de base à propaganda dos Estados Unidos e dos seus aliados”, acrescentou Isaacsson.
A opinião do advogado novaiorquino parece ter fundamento. Uma fonte do Departamento de Estado admitiu, a título meramente pessoal, que as informações em poder do jornalista Robert Parry, premiado repórter que desvendou o escândalo Irão-Contras, nos anos oitenta, “faz bastante sentido”.
Parry divulgou dados obtidos por uma fonte - que “provou sempre ser bastante pormenorizada nas informações que transmite” - segundo os quais “as agências norte-americanas de espionagem têm imagens detalhadas de satélites mostrando que a bateria de mísseis que provavelmente disparou o engenho fatal parece estar sob o controlo de tropas do governo ucraniano, envergando uniformes que parecem ser os dos soldados ucranianos”.
Clara Ferreira Alves O perigo de voar na TAP
Expresso, 19 de Julho de 2014
Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo
A TAP deixou de ser uma companhia segura. Não se trata de um palpite. Ou do episódio da explosão de um reator sobre Lisboa. Tenho a certeza que só o sangue-frio e perícia dos pilotos evitaram um desfecho mortal. Nos últimos meses, as avarias técnicas, aterragens de emergência, atrasos, vieram denunciar o que é claro: o governo falhou redondamente a gestão política da TAP.
Há anos que se fala na privatização da companhia, desejável se feita em condições de transparência e competência. A TAP é uma companhia descapitalizada, com intuitos monopolistas que não são servidos por uma frota decente ou capital para a comprar. É uma companhia cara. E é uma companhia que perdeu pilotos, pessoal de bordo e técnicos para companhias melhores e mais ricas, que oferecem menos incerteza e ameaças de cortes. A hemorragia afeta o serviço e a TAP enfrenta ainda problemas de manutenção técnica e de escassez de aviões. A última vez que voei na TAP o voo de ida atrasou cinco horas e o da volta atrasou cinco, seis, quase sete horas. Na ida, o avião vinha do Brasil, atrasado. Na volta, vinha de Angola, atrasado. Não há aviões suficientes, disse-me o pessoal de terra. A simpatia e competência do pessoal de bordo e dos pilotos que restam não compensam as falhas técnicas e políticas do dossiê TAP. No Expresso, li a semana passada que a TAP está à espera de aviões da Jazeera Airways, da TAM (obsoletos A340, neste momento em manutenção) e da Air India. A TAP está a tornar-se uma companhia de Terceiro Mundo, com destinos africanos incompreensíveis exceto por imposição política, como a Guiné Equatorial (membro da CPLP e salvadora do Banif) e o Mali (pensa-se que exista um enorme afluxo de passageiros portugueses para Bamako). Além de ser uma companhia africana, com aviões em segunda mão, a TAP nunca cuidou dos destinos asiáticos, estrategicamente mais interessantes, e o Presidente da República foi à China pela Emirates. Inaugurámos com pompa e circunstância o aeroporto de Macau, antes da entrega de 99, anunciando que Macau serviria as rotas da TAP para a China e o Oriente. Como se sabe, Hong-Kong construiu um aeroporto maior e melhor e a TAP deixou de voar para Macau, que se tornou um aeroporto secundário. O Brasil e Angola tornaram-se a missão da TAP, mas é uma missão mal cumprida. Os aviões são pequenos e poucos e os preços são ridículos. Para voar de um continente para outro, há muito que deixei de usar a TAP. Para a Europa, uso em último recurso.
Os cancelamentos e atrasos de voos têm atingido recordes nos últimos meses. O silêncio da administração sobre estes problemas é revelador. O dossiê TAP, tal como o dossiê RTP (outro problema bicudo e adiado) foram entregues a essa sumidade da estratégia pessoal e da negociata chamada Miguel Relvas. No caso da TAP, com a assessoria preciosa do advogado António Arnaut-Goldman-Sachs e do BES, duas fontes de credibilidade. A possível venda a esse homem de negócios “extraordinaire” chamado Efromovitch, senhor de trinta passaportes, e a inclusão de uma companhia aérea europeia na carteira de investimentos do dono de uma companhia de quarta ordem no Brasil, a pré-colombiana Avianca, só não foi avante, diz-se, porque o governo recuou na 25ª hora. Diz-se também que por ordem direta de Dilma Rousseff, que recusou dar o OK antes de analisar o negócio. Intermediário? O doutor Relvas. Efromovitch, que gastou milhares de euros em operações de marketing (incluindo a viagem de um grupo de jornalistas ao Brasil, para aferir a excelência do negócio para Portugal) ficou de mãos a abanar, embora continue a rondar a TAP como um abutre. A TAP, descapitalizada dia a dia, faz o que pode mas não tem a solução política que lhe permita livrar-se destes sarilhos. Entretanto, companhias sérias como a Emirates, a Lufthansa e outras, deixaram de mostrar interesse na TAP. O pessoal da TAP queixou-se da falta de transparência do processo de privatização. Houve greves desconvocadas. Muitos foram embora.
Um cavalheiro americano com quem falei num voo da TAP de Nova Iorque para Lisboa, especialista de aeronáutica e dono de empresas internacionais do sector, gabou o esforço de Fernando Pinto na penúria, e acrescentou que os pilotos portugueses são dos melhores do mundo mas que a companhia precisa urgentemente de injeção de capital. De ser reestruturada. Mesmo que o aeroporto que não chegámos a construir impeça a TAP de ter uma frota de superaviões para o Brasil e Angola, os A380 e os Boeing 787 Dreamliner, deve adquirir aviões novos que voem em condições e não deixem cair peças de reatores a arder sobre a cidade de Lisboa. Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo, e será o fim da TAP, como a queda de um velho Boeing de Nova Iorque para Paris foi o fim da TWA. A decadência da TAP é um espelho dos erros de gestão dos governos de Portugal.
Francisco Seixas da Costa Israel
Diário Económico, 22 de Julho de 2014
Na minha vida diplomática, dei-me conta de que criticar a ação internacional de Israel obrigava sempre a um "disclaimer", implícito ou explícito, sem o que se erguia o risco de cair, de imediato, na jurisdição dos atentos polícias do espírito: cuidar em não poder ser acusado de anti-semitismo e nunca deixar de referir que o povo judeu foi vítima da violência nazi.
A ajudar a este temor reverencial soma-se, desde o primeiro momento, um racismo anti-árabe, que condicionou o discurso popular. Tutelados por regimes retrógrados, embrulhados em panejamentos que os indiciavam noutro patamar da civilização, os árabes são-nos mostrados como uma espécie de bárbaros, apenas desejosos de "deitar os judeus ao mar". Por isso, e porque não eram aceitáveis os métodos extremistas da Fatah ou o não são os das várias seitas em que a revolta palestiniana se balcaniza, aos olhos de muito mundo passou a "valer tudo" por parte de Israel, desde os assassinatos da Mossad ("extra-judicial killings", na linguagem eufemista das Nações Unidas) às incursões sem limite pelas terras vizinhas. Ninguém ousa lembrar que Israel se recusa a cumprir as resoluções que a ONU (já agora, sem oposição dos EUA) aprovou, muito embora se levante um escarcéu se outros países procederem de forma similar (desde logo, o Iraque).
Durante a "guerra fria", Israel estava do lado "de cá" e os árabes do "outro lado", embora se soubesse que as coisas não eram bem assim. Os judeus eram o povo perseguido, rodeado de "facínoras" que aproveitariam o seu menor descuido para o esmagar. Por isso, para o ocidente, era de regra apoiar, sem limites, tudo o que pudesse ser apresentado em favor desse "enclave" não árabe, que "dava jeito" quando era necessário (sem que ninguém tivesse de "sujar as mãos"), por exemplo, para dar uma lição às ambições nucleares iranianas ou ver-se livre de alguns terroristas, esquecendo leis. É que, neste "racismo nuclear" que por aí anda, o Irão não pode ter a arma atómica, mas Israel está aparentemente "isento" da observância do Tratado de não-proliferação.
Os EUA, mobilizados pelo lóbi judaico, neutralizam toda a atitude que possa limitar a liberdade do Estado israelita. A Europa, com o ferrete da guerra a marcar-lhe a memória, vive entre piedosos protestos perante os "exageros" de Telavive e os negócios com a constelação dos governos árabes. Estes, com os conflitos entre si a prevalecerem hoje sobre a sua acrimónia face a Israel, vivem mais preocupados em fazer sobreviver os seus heteróclitos regimes do que se sentem mobilizados para a causa palestiniana.
O absurdo de tudo isto é que, se alguém se atrever a afirmar que Israel tem o indeclinável direito de ver respeitadas as fronteiras que lhe foram consagradas pelas resoluções da ONU, é imediatamente acusado de ser inimigo jurado do Estado judaico. E se ousar dizer que, em troca da segurança desse território, garantida, por exemplo, pela colocação de forças internacionais de paz, protetoras dessas mesmas fronteiras, Israel deve prescindir de quaisquer ambições territoriais e recuar na construção de colonatos em territórios que ninguém reconhece como seus, de imediato fica crismado de anti-israelita, provavelmente de anti-semita e, ainda com alguma probabilidade, sei lá!, de simpatizante nazi. Dei-me conta que não falei de Gaza. Para quê?
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