Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Amadeu Baptista "Toca-me o sangue"
(Emile Berchmans)
Toca-me o sangue. Peço-te que me toques
o sangue. Escuta este rumor
dentro do meu peito, esta palavra enlaçada...
a uma pedra que arde dentro da terra.
Toca-me o sangue. Ordeno que me toques
o sangue. Este rio que corre nos meus olhos,
a música silenciosa que o mar vem entregar
quando os homens regressam do crepúsculo.
Vê como estou vivo. Vê como sabem a terra
as minhas palavras. Vê como tenho ensanguentadas
as minhas palavras perdidas, esses barcos
que a tempestade teme e as aves anunciam.
Amo-te. Toca-me o sangue. Sente que venho
da noite, que é com angústia que chamo
pelo teu nome, sonho os teus sonhos,
espero as tuas mãos.
Toca-me o sangue. Toca os fios de dor
que me rasgam a boca. Toca o fogo dos meus cabelos.
Toca-me o sangue, a escuridão
em chamas do meu peito.
Sou o que espera na noite. Sou o que chora
na sombra. Sou o que espera a tua passagem
silenciosa, os teus quadris ardentes
navegando na noite impassível.
Espero-te. Espero-te. Um perfume ergue-se
das tuas mãos, um punhal. Toca-me o sangue.
Sou o que espera na solidão inquieta
e toma a luz pela luz dos teus cabelos.
Espero um rio, é uma praia que espero, o azul
penetrante da tua tristeza secreta, esse bosque
rugindo um nome e precipitando a fuga
dos que temem e estão intranquilos.
Toca-me o sangue. Toca o arco de fogo
que cai das minhas mãos, as sílabas perdidas na treva
por que uma criança cresce para o sono
e toca a limpidez de uma lágrima.
A vida vem com a brisa. Um astro
aproxima-se do teu rosto. Uma canção desprende-se
da árvore de espuma que a sombra engendra.
Toca-me o sangue. O febril sangue do meu peito.
Amo-te, mulher desconhecida. Amo-te.
Amo o jorro de luz da tua boca,
as tuas cálidas palavras, a orla secreta
dos teus lábios onde o mar vem beber.
Amo o lume inesperado dos teus olhos, o teu corpo
nervoso, as tuas mãos perdidas no vazio.
Amo as caladas cintilações da tua boca,
a pequena mancha de tule que dança nos teus olhos.
Como a luminosidade descobre uma sandália na areia,
o sinal recente de um beijo no contorno de um rosto,
como um coração de pedra arde dentro da pedra
e uma nuvem transfigura para sempre o horizonte, amo-te.
Toca-me o sangue porque te amo. Toca-me o sangue
porque trago comigo uma palavra sagrada. Porque estou
inocente. Porque te amo. E uma ponta de luz
entrega a claridade invisível dos teus dedos.
Um rumor de água ou de lume vem das tuas mãos.
Pulsa nas veias da noite o vento do teu nome.
Um pássaro queima a tristeza inextinguível.
Um grito, um grito rebenta finalmente no meu e no teu peito.
(in A Construção de Nínive, Edições Mortas, Porto, 2001)
http://www.jornalistassemfronteiras.com/index.php
Martha Ladesic, Nova York Estado Islâmico e Ucrânia lançam euforia na indústria de guerra americana
Tomahawk prontos a usar a 1,1 milhões cada
29 de Outubro de 2014
O início dos bombardeamentos norte-americanos contra territórios do Iraque e da Síria sob o falso pretexto do combate ao Estado Islâmico e o reforço armamentista nas fronteiras com a Rússia, sob pretexto de defender a Ucrânia, devolveram a euforia financeira à indústria de guerra dos Estados Unidos, que ficara inquieta com a diminuição do peso das ocupações do Iraque e do Afeganistão.
As preocupações dos gigantes militares dos Estados Unidos com as promessas de Obama sobre a redução do orçamento militar duraram pouco: nos últimos meses, as acções dessas expoentes da indústria da morte cresceram entre 5 e 10% apesar de a média de Wall Street ser de uma queda de 2%.
Os principais incentivos aos êxitos financeiros da indústria de guerra foram os ataques ditos contra o Estado Islâmico, um aliado dos Estados Unidos na guerra contra o governo da Síria, a militarização da Europa de Leste com as mais modernas gerações de armas e a multiplicação do recurso aos drones um pouco por todo o lado, “contra o terrorismo”, uma opção militar que “ficará como uma chancela das administrações Obama”, segundo uma fonte do Pentágono.
A guerra supostamente contra o Estado Islâmico, grupo terrorista que, apesar disso, continua a manter-se em alta, tanto na Síria como no Curdistão Iraquiano, iniciou-se a 23 de Setembro com o lançamento de 47 mísseis de cruzeiro Tomahawk, que em vez de atingirem contingentes terroristas destruíram casernas que eles já haviam desocupado e instalações petrolíferas pertencentes ao Estado sírio. Uma tal barragem de fogo custou quase 52 milhões de euros sem que fosse atingido um único dos objectivos proclamados para essa guerra.
Cada míssil Tomahawk custa 1,1 milhões de euros. Depois dos primeiros ataques, e por necessidades de reposição de stocks, o Pentágono encomendou mais armas desse tipo ao respectivo fabricante, a Raytheon, um contrato que atingiu cerca de 200 milhões de euros.
As acções da Raytheon subiram 4% na Bolsa de Nova York, que registava então uma queda média de 2%.
Os tempos de vacas gordas não são exclusivos da Raytheon, segundo elementos estatísticos oficiais que é possível inventariar de várias fontes. A Lockeed Martin conseguiu ir muito mais longe, até subidas de 9,5% no valor das suas acções, graças ao uso cada vez mais intensivo de mísseis Hellfire que são lançados pelos drones Reaper. A Lockheed tira igualmente proveito da maior procura pelo Pentágono de navios capazes de navegar em águas costeiras e pouco profundas, considerados fulcrais nas patrulhas efectuadas pela NATO no Mar Negro para manter a ameaça sobre a Rússia a pretexto da situação na Ucrânia.
O início da instalação dos chamados “escudos defensivos” na Roménia e na Polónia, dotados com meios de espionagem e mísseis Sm-3, também eles ditos “defensivos”, são como bênçãos financeiras para gigantes da morte como a General Dynamics e novamente a Lockheed. Enquanto isso, a Boeing pode já fazer avultadas contas de multiplicar graças ao desenvolvimento do avião espacial robot X-37B, que foi testado durante quase dois anos em órbita e cuja missão é “secreta”.
No entanto, quando responsáveis do Pentágonos são colocados perante a possibilidade de se tratar de um engenho capaz de transportar armas nucleares em órbita ou de liquidar “satélites inimigos” previamente a um ataque nuclear, o silêncio como resposta já quer dizer muita coisa.
Martha Ladesic, Nova York
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.