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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Sebastião da Gama "Pelo sonho é que vamos"
(Aurélio Mesquita)
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
Rodrigo Sousa e Castro O seu a seu dono, a Grécia no divã e a teoria da vacina
Até o comentador socialista Santos Silva, tido como compostinho e moderado aventou a venenosa teoria da "vacina" para vergar a Grécia.
Segundo ele a UE poderia deixar "cair " a Grécia e isso seria exemplar para quem lhe quizesse seguir os passos.
Na TV ao lado, José Manuel Fernandes, numa atrabiliária explicação do que dificilmente perceberá ( os fundamentos e saidas para a crise da Grécia), enveredou pelo mesmo caminho.
Qualquer psicólogo recém formado, veria ali uma manifesta exibição de uma projecção freudiana. De facto, toda a direita portuguesa deseja no íntimo e ardentemente o descalabro, e bancarrota da Grécia , mas hábilmente insinua que será a Alemanha a querer fazer isso.
O Embaixador Seixas da Costa, prezado amigo aqui no FB, tentou sem sucesso explicar ao eimpedernido jornalista que a questão era mera e exclusivamente politica e que ele podia esquecer as contas de merceeiro com que tentava explicar a questão.
Infelizmente o sr Embaixador perdeu uma excelente oportunidade de explicar aos companheiros de debate e ao público em geral que a questão grega não é Politica mas ESSENCIALMENTE GEOPOLITICA, e é nesse quadro que Tsirpas se move e vai vencer.
Eu explico:
- 1. Os USA e a UE vivem hoje um desafio geopolitico tremendo de confrontação aberta com o espaço da Eurásia ( China/Rússia);
- 2. O confronto está já num patamar elevado, tendo o bloco ocidental iniciado um processo sancionário da Rússia que dia a dia se agrava;
-3.Junto das fronteira russas a sudoeste trava-se já uma guerra aberta e em escala preocupante;
-4. Se o bloco Ocidental está já disposto a entregar sem quaisquer garantias milhares de milhões de euros à Ucrânia para conter as ambições de Putin, poderá deixar cair a Grécia e correr o risco de alterar dramaticamente os equilibrios no Mediterrânio Oriental, no Mar Egeu e no flanco Sul, o mais poroso e vulnerável da NATO ? ?
Claro que não senhores comentadores , e Tsirpas sabe-o. Olhem para o sinal FATAL que deu logo no primeiro dia ao receber o embaixador russo.. Continuem-se a entreter com retóricas vazias. O António Costa agradece. Assim nem precisa de se mexer ou assumir qualquer politica , os tranpolineiros do costume fazem o trabalho por ele.
Nota de edição: Privatizações canceladas na Grécia. Veja aqui.
José Vítor Malheiros A grande novidade é que a Grécia vai ter um Governo grego
1. A grande novidade das eleições legislativas gregas é que a Grécia vai ter finalmente um Governo grego, composto por gregos que se preocupam com a vida dos cidadãos gregos e não um Governo de capatazes, preocupados acima de tudo em não indispor os poderes financeiros do mundo e em obedecer às directivas das forças ocupantes.
O líder do partido espanhol Podemos, Pablo Iglesias, usou esta imagem, e ela é correcta. Até agora, na Grécia, como em Portugal, temos tido Governos que ascenderam ao poder para manter os seus países acorrentados à dívida. Governos que juraram vassalagem aos mais ricos para poderem beneficiar um dia dos seus favores, sacrificando para isso a liberdade, a dignidade, o bem-estar, a vida e o futuro de milhões de cidadãos.
Governos que tentaram destruir por dentro o Estado que construímos com o nosso trabalho e que não hesitam em delapidar o património que não lhes pertence na esperança de que, um dia, possam voltar a ajudar o inimigo a atacar de novo as muralhas da cidade e as possam encontrar mais enfraquecidas.
Governos que venderam a soberania nacional, que ofendem a memória de todos os que se sacrificaram em defesa da democracia, que escarnecem daqueles que acreditam que todos os indivíduos nascem livres e iguais em direitos. Fazem-no em troca de uns lugares em futuros conselhos de administração, ébrios de alegria por poderem ombrear com os ricos e com a consciência imperturbada dos que consideram que a conta bancária é a medida de todas as coisas e a vida dos pobres algo negligenciável.
Não há nada mais vil do que esta traição que, não por acaso, durante milénios, em todas as latitudes e em todos os povos, conheceu a mais radical das punições.
E, por isso, é com alegria que saudamos a queda do Governo de Antonis Samaras, como saudaremos com alegria o dia da queda de Passos Coelho, o primeiro-ministro cuja ambição mais exaltante é ser o cãozinho de regaço da chanceler alemã.
2. O Governo grego de coligação Nova Democracia-Pasok-Dimar, agora derrotado nas urnas, foi constituído e empossado em nome da necessidade de “estabilidade” do país, como já o anterior Governo de Papademos tinha sido e outros antes destes. Sabemos aonde levou esta “estabilidade”: desemprego de 25 por cento, desemprego jovem de 60 por cento, dívida de 317 mil milhões de euros ou 177% do PIB, a uma sociedade à beira do caos, com apoios sociais praticamente inexistentes para uma população com uma pobreza crescente, ao êxodo de profissionais, a uma economia destruída e sem motor de arranque à vista, a uma sociedade desesperada e descrente.
A vitória de anteontem do Syriza, segundo inúmeros analistas financeiros, politólogos e muitos solícitos comentadores anónimos de vários Governos europeus, corre, porém, o risco de aumentar a “instabilidade” da situação grega.
Apetece brincar e dizer que, se Samaras era a “estabilidade”, é urgente experimentar a “instabilidade”, mas é evidente que uma situação, por má que seja, pode sempre piorar e não faltará por certo na extrema-direita económica que governa a Europa quem queira aproveitar a vitória do Syriza para dar uma lição à esquerda e às veleidades de autodeterminação dos povos e para mostrar que não se devem eleger políticos de quem os bancos não gostam, cortando radicalmente o financiamento a Atenas e recusando todas as negociações.
É, no entanto, de esperar que algum bom senso prevaleça e que a Grécia não seja transformada no barril de pólvora que pode incendiar a União Europeia. Mas falemos desta “estabilidade” que a direita tanto aprecia e da “instabilidade” que ela tanto receia.
É evidente que, numa situação de paz, de progresso e justiça social, a estabilidade é um valor. Mas quando a situação é a desagregação social e a injustiça da Grécia, quando a situação é a desigualdade e a pobreza crescente que vemos no nosso país, quando a situação são os probemas estruturais da economia e a carência de financiamento dos dois países, é evidente que não é ética e politicamente admissível defender a “estabilidade”, porque essa “estabilidade” é apenas a paz podre onde os pobres morrem de fome sem reclamar.
Nos países em crise, a situação actual exige instabilidade porque exige mudanças drásticas. Não a destruição mascarada de estabilidade que vemos em Portugal, onde a calma apenas esconde uma operação de pilhagem do património público em nome da necessidade de “revitalizar a economia” com as privatizações, a par de uma campanha de ataque aos direitos laborais denominada “reformas estruturais”, mas uma instabilidade criativa, onde se admite a necessidade de inventar verdadeiras soluções que sirvam as populações. Uma instabilidade inventiva e honesta, onde será necessário correr riscos, mas onde os riscos que se correm terão uma razão de que nos poderemos orgulhar.
Este é o desafio que nos lança a Grécia de hoje. Um desafio a que respondemos com alegria porque, hoje como ontem, somos todos gregos.
JVM
Maria Teresa Horta "Voamos a lua ..."
(Pablo Picasso)
Voamos a lua,
menstruadas
Os homens gritam:
- são as bruxas
As mulheres pensam:
- são os anjos
As crianças dizem:
- são as fadas
(in Os Anjos, Litexa Editora)
Leonel Cosme Memórias de Imbondeiro e Luuanda
(texto publicado, em duas páginas com gravuras, no quinzenário As Artes entre as Letras nº137, de 31de Dezembro de 2014, Porto)
Duas justificadas e quase simultâneas comemorações que ocorreram no passado mês de Novembro, uma no Porto, outra em Ponte de Sor, - o cinquentenário do livro de contos de Luandino Vieira “Luuanda” e o centenário do nascimento do escritor Garibaldino de Andrade – fizeram aflorar à minha memória, ocasionalmente desperta, antigas vivências que remetem aqueles dois nomes para um mesmo passado em Angola. Falo de um tempo de cultura, acção e circunstância que fez e faz história (para quem a saiba ou queira saber), mesmo com as reservas que levaram John Steinbeck a ponderar que “a verdade do historiador só é verdade até que alguém passe e faça um novo arranjo do mundo no seu próprio estilo.”
Isto é certo quando alguém arrisca a fazer história pela leitura de memórias ou interpretação de factos. Mesmo que uma personalidade historiada tivesse acatado o conselho de Gabriel García Marquez – “Geralmente as memórias são escritas quando o seu autor já não se lembra de nada, e eu acho que deve começar-se mais cedo a escrevê-las”- nem por isso a “verdade” escaparia à contingência humana de que falava Blaise Pascal: “Somos tão vaidosos que quiséramos ser conhecidos em todo o mundo e também pelos que hão de viver quando nós já não vivermos.”
Ressalvando uma posição de interesse, e pensando em Garibaldino, meu companheiro de cultura e acção na criação das Publicações Imbondeiro, na cidade então chamada Sá da Bandeira, resistirei a biografá-lo cabalmente, agora e aqui (embora já o tenha feito, por duas vezes, em duas homenagens, a primeira em 1992, prestadas pela Câmara Municipal de Ponte de Sor, perante curiosos, amigos e familiares), privilegiando os factos que fazem realmente história, porque insusceptíveis de “arranjos” ou “estilos”.
O alentejano Garibaldino de Andrade, que viveu no sul de Angola entre 1953 e 1969, morreu com 56 anos, na sua terra natal de Ponte de Sor, onde nasceu a 8 de Novembro de 1914, sem ter tempo para escrever diários ou apontar memórias. Sequer para lembrar que no seu livro de contos O Sol e a Nuvem, editado pela Portugália em 1946, emergem os “levantados do chão” que guindariam, em 1980, José Saramago até às alturas do grande romancista que foi.
O que falará por Garibaldino são os seus romances alentejanos e os contos angolanos que ainda pôde escrever, nos curtos intervalos da sua actividade como “professor de meninos” do ensino primário e as exigências da co-gestão da editora Imbondeiro. Tudo com pressa, pois, como muitas vezes dizia, brincando, “não passarei dos 55 anos”. Enganou-se: viveu até chegar aos 56… pois viu a vida encerrada, por doença implacável, a 28 de Fevereiro de 1970. Mas poderia ter dito, e não disse - porque era visceralmente um homem modesto e discreto – como o brasileiro Mário de Andrade, que morreu com 52 anos: ”Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que vivi até agora. Tenho mais passado do que futuro.”
Do que valeu a sua acção editorial na Imbondeiro poderá aquilatar quem leu ou queira ler o que sobre o assunto escrevi, detalhadamente, no capítulo “O tempo da Imbondeiro” inserto no livro Agostinho Neto e o seu Tempo, publicado em 2004 pela Campo das Letras. Aqui e agora, julgo suficiente fixar que nos cinco anos da sua duração – 1960-1964 – a editora lançou 68 cadernos mensais, na Colecção Imbondeiro, preenchidos com textos de contistas e poetas, novos e consagrados, originários de todos os territórios de língua portuguesa, incluindo o Brasil,com tiragem já próxima dos 2.000 exemplares; 2 antologias só de contistas e 4 só de poetas. A última destas, constituindo o caderno nº5/6 da Colecção Mákua, dedicado a “Grandes Poetas do Século XX”, representativos de vários países, foi considerada, por estudiosos da literatura mundial, como o seu antologiador brasileiro Jonas Negalha, “única no género”.
Para se ter uma ideia plena, diga-se que os poetas escolhidos foram, por ordem alfabética: Attila Jozsef, Bertolt Brecht, Elias Simopoulos, Eugen Jebeleanu, Fernando Pessoa, Gaston-Henry Aufrère, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Jiriu Wolker, Langston Hughes, Pablo Neruda, Rafael Alberti, Thomas Stearns Eliot e Vladimir Maiakovski.
Não se estranhe, hoje, que não apareça ali o nome de Agostinho Neto, como Poeta Nacional que foi. Embora já incluído, antes, numa antologia de notáveis poetas de língua portuguesa, a internacionalização do seu nome só se verificou, entre nós, após a publicação do livro Sagrada Esperança, em 1974. Num projectado caderno seguinte seriam divulgados outros nomes de impacto mundial. Se a Imbondeiro continuasse…
Carlos Esperança A Grécia, o Syriza e a União Europeia
A coragem e o desespero deram-se as mãos num grito de esperança, na manifestação de raiva e no corajoso desafio à União Europeia.
A Grécia, tal como Portugal, empobreceu com os empréstimos que colocaram a dívida a níveis intoleráveis, e conduziram o País ao desespero, fome, miséria e humilhação. Cada dia foi maior a dívida e o desemprego, mais penosa a vida e mais intangível o equilíbrio financeiro. Entre a espada e a parede, o eleitorado escolheu a espada.
A Grécia tudo suportou, incluindo a repressão policial, mas a humilhação ultrapassou o limite que a dignidade permite. Não é apenas o país, berço da nossa civilização, que não sabe como reagirá a União Europeia, de que não pode ser expulsa, é esta que terá de decidir o que fazer com a Grécia.
Seria lamentável que à vontade expressa nas urnas se seguisse uma vingança, à guisa de vacina que advirta os povos para os limites da própria liberdade.
Eu teria votado Syrisa e, pelo menos, respeito a decisão do povo grego. Estou solidário, mas não eufórico, com a vitória da democracia, a manifestação de coragem e o exemplo de um povo que os burocratas da troika humilharam continuamente.
Eu sei do que estes líderes europeus são capazes, da crueldade com que o capital pune, dos riscos que corre quem desafia a europa alemã, capaz de homenagear serventuários e incapaz de ser solidária, como, depois da guerra, foram para com ela.
Fico, em pungente ansiedade, solidário com a Grécia, a pensar em Portugal, à espera de que os deuses do Olimpo não sejam derrotados por uma única e execrável divindade – os mercados –, e pela raiva dos países mais poderosos da União Europeia.
Hélia Correia "Estão as praças, ..."
(O primeiro acto de Alexis Tsipras após tomar posse como Primeiro-Ministro foi depôr flores no monumento aos 200 comunistas gregos fuzilados pelos nazis)
Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os destinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
Gente que um dia se desnorteou.
(in A Terceira Miséria, Relógio d'Água)
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